Grande parte do país entra em férias. É julho. Frio no sul. Enchente no Nordeste. Política por toda parte. Futricas em jornais, televisões e rádios. E ainda está longe o besteirol dos programas gratuitos. Gratuitos, uma ova. Quantos ganham os marqueteiros? Produtoras de televisão? Gráficas? Estilistas pessoais? Enfim, os ilusionistas de plantão. Os 192 milhões de brasileiros têm hoje 183 milhões de telefones. É o que se chama hoje de acesso móvel. Será que conversam sobre política? Procuram saber quem são os candidatos, suas fichas? Esperem um pouco, eles logo começarão a ligar para você. Eles ou seus prepostos. Simpáticos, querendo votos. Hoje, em qualquer lugar você pode ser alcançado. Hoje, da atendente à figura tida como importante, vai-se logo perguntando: qual o número do celular? Se você não der, passa a ser antipático, chato e adjetivos assemelhados. Se der, a atendente e a figura tida como importante, logo o passarão para frente e o seu número estará na lista de outros. Estou passando, mas não diga. Ora, quanta inocência e quanta maldade. O telefone celular, por sua portabilidade, invade o último reduto da privacidade. Aqui é fulano de tal, lembra de mim? Você procura mexer no seu hardware pessoal e sacar da memória o nome e a voz a perturbá-lo em pleno filme. Dá um branco. Não sei, estou no cinema. São só duas palavrinhas, posso falar? Que jeito! E as duas palavrinhas tiram a concentração do filme e você ainda não sabe com quem está falando. Desliga. E não se absorve mais no filme. Olha para o celular e o desliga. Olha, novamente, e o religa, pois alguém da família poderá ligar. Volta ao filme, mas perdeu o fio da meada. A desgraça toca novamente. Agora é uma moça, fala igual a uma dubladora de filme b, pergunta se não desejo conhecer o modelo novo do carro tal, vendido até o fim do mês pelo preço do ano passado e ainda emplacado. Desligo. O filme terminou, as legendas me dizem isso. Luzes acesas, saio do cinema com vontade de jogar o celular na primeira lata de lixo. A primeira que encontro está cheia até à tampa. É sujeira muita. Desisto da ideia, por enquanto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2010.

