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FIM DE ANO, TÓPICOS DIVERSOS E O 2015 – Jornal O Estado

“Não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite do Ano Novo está tão ocupado”. Clarice Lispector
Não há quem fuja do lugar comum. É época de pensar e até de fazer conjeturas. De parar e ficar refletindo no que fez e, principalmente, deixou de fazer. Por mais que estejamos alegres, tristes ou absorvidos com problemas, chega um instante em que paramos, pensamos e nos perguntamos: e aí o que ficou de positivo nisso tudo? Você imagina que vai tentar fazer a coisa certa, errar menos que nos anos anteriores, será tolerante, mandará as fofocas para aquele lugar, cuidará da saúde, estimulará o corpo, mas fica sempre algo no ar.
A memória revive tudo com facilidade e isso, às vezes, incomoda. Neste período, o nosso viver diário dá o tom da música interior. E essa música, com certeza, tem compasso lento, como se fora uma daquelas valsas de Strauss que a maioria conhece, mas não recorda o nome. A evocação das músicas não se constitui saudosismo; é como se precisássemos de refrigério para as lutas diárias que se assemelham a um “rap”.
Você, eu, os que não confessam e os que não sabem, estamos todos tontos diante de um mundo que mudou sem nos pedir licença e foi ficando conturbado com guerras por religião em pleno século 21 e o duro e ainda longo fim das guerrilhas da Asfarc, na Colômbia, o jeito meio atravessado de Vladimir Putin pensar na grande mãe Rússia ao olhar para o ocidente e a crise econômica mundial em onda que pode ser igual ou pior que a de 2008.
Por outro lado, alegra-nos saber que os Estados Unidos e Cuba reataram relações diplomáticas após 53 anos de apartação. Esse tempo fez do estado da Flórida a maior concentração de cubanos fora do Estado-Ilha que fica a apenas 150 km de Key West, na extremidade americana, quase caribenha. Foi um argentino, o Papa Francisco, quem costurou o acordo que já não fazia mais sentido desde que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, apoiadora de Cuba, deixou de existir faz tempo.
Falta-nos, quem sabe, balizamento, descortino e sabedoria. Respondemos pessoas e países, muitas vezes, pelo que não fizemos. Dizem os filósofos que o medo e a esperança andam juntos. O difícil é a luta que travamos a todo o momento contra pessoas e instituições insidiosas. Assim, a vida é uma gangorra.
Gente importante como o ex-primeiro ministro da Inglaterra, Tony Blair, revelou em livro de memória que tomava uísque puro, gim tônica e vinho para aguentar o rojão do trabalho. O ex-presidente Lula lança, neste fim do ano, um vídeo sobre a sua versão do que acontece agora no Brasil. Nada de novo sobre o já sabido, visto e vivido.
O filme “A Entrevista”, com relato sobre um possível atentado ao dirigente maior da Coreia do Norte, kim …., causou um ataque de “hackers” à Sony Pictures. A exibição do filme foi cancelada sob um rastro de medo das maiores empresas exibidoras cinematográficas americanas. Barack Obama diz que vai dar um troco proporcional ao fato. O que isso significa?
Aqui na nossa pátria amada tem nos afetado o despudor da corrupção que atingiu a maior empresa de petróleo da América Latina e, segundo sugere a operação Lava-Jato parece haver ramificações não só com ela, mas em muitas outras obras públicas federais, estaduais e até municipais. Em fevereiro não haverá só carnaval, mas outra onda de nomes envolvidos.
No Brasil somos otimistas por natureza e destino. A presidente reeleita, Dilma Rousseff, afirmou, depois das eleições, “eu acho que tem hora que exageram um pouco comigo… mas eu sou uma pessoa que convive perfeitamente com a crítica”. Assim, estamos findando um ano e entrando em 2015 desejando a ela um bom governo, acreditando que todo brasileiro, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, ao brindar em festas, lugares públicos ou em suas casas esteja prontos para o trabalho que recomeça na próxima semana. Feliz Brasil Novo.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2014.

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NATAL À VISTA – Diário do Nordeste

Você, leitor, leitora, que assina ou compra este DN e, aos domingos, abre esta página 2 e desce os olhos até a este canto esquerdo, eu desejaria que, na noite da próxima quarta, tome um belo banho, se vista confortavelmente e junte-se aos que quer bem. Não importa o seu credo religioso ou a se é ateu ou agnóstico. Custa nada ficar um pouco mais leve e lembrar que está com a capacidade de ler estas frases, enquanto muitos são deficientes visuais. Lembre também que milhões não sabem ler. Há ainda um bilhão de pessoas no mundo que não podem se ensaboar e abrir o chuveiro. Sabe por quê? Eles não têm um simples banheiro, são humildes e profundamente pobres. Não quero deprimi-lo, tampouco responsabilizá-lo pelas desgraças do mundo. Quero apenas que não se lamente demasiado porque perdeu alguém querido ou um amor foi para o espaço. Há pessoas que não têm um só parente vivo e continuam a acreditar no amanhã, na esperança que nos move neste labirinto que é o existir. Veja o título. Ele é um conselho que você não me pediu. Não compre nada a prazo. Só compre o que precisar e o que puder pagar. Se não tiver dinheiro para presentear a quem ama, faça um bilhete do próprio punho e diga dos seus sentimentos. Se verdadeiros. Presente nem sempre significa benquerença. Um bilhete pessoal é ato de amor ou amizade. Agora, se você está bem de vida, lembre-se de quem o ajudou na sua trilha. Agradeça a ajuda, o apoio, o ombro amigo, não poupe presente, nem palavras, mas não seja dramático ou piegas. O reconhecimento é um dos mais nobres sentimentos humanos e vale muito.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2014

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A VÉSPERA DO NATAL E A VIDA – Jornal O Estado

Quando chega a segunda quinzena de dezembro, começamos a matutar sobre o que fizemos no ano que está a terminar e o que nos espera no que chega em uma quinta-feira e, de cara, nos dá quatro dias de feriados. Em fevereiro deste ano perdi a minha mãe, viga mestra da família, ombro e conselheira de uma récua de filhos e parentes. Agora, exato no dia 8 de dezembro ganhei uma nova neta. Tristeza e alegria.
Ao olhá-la no berçário gerei um filme em flashback em que eu era o escritor, o autor do roteiro, o diretor e o protagonista. E conclui nesse filme imaginário, sem cortes e sem mudanças de diálogos verdadeiros, que muita gente fez parte do “script” não linear que é a ´vida minha e a dos outros (crédito para Beatriz Alcântara) com quem fui contracenando no grande teatro greco-romano que é o viver. O que conclui está escrito abaixo. É como se fosse uma sinopse.
Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso lhe custe a perda e a ausência de pessoas essenciais, ou se deixa invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Isso o tornará, eventualmente, triste.
Confesso, já me senti combalido por poucas vezes, duas foram duras. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você, quem quer que seja. Alegro-me, hoje, com pequenas e bobas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso público e provar roupa em alfaiate presumido. Quero andar de sapatos sem meias, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conversar com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas.
Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho que me dá prazer de criar e ser útil. Sou um artífice que construiu um gibão imaginário para proteger as minhas fraquezas contra os sabidos que se acreditam eternos e poderosos.
Simpatia não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como um menino em parque de diversões. A vida é. Não se idealiza, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos. Agora, neste platô, com escarpas ao redor, não deixei de amar, mas o ceticismo me acompanha. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras.
Os embusteiros são como pacotes bem produzidos. Os laços que os adornam são cegos e só com o tempo, quando desfeitos, aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter escondidos na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e não é nada. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia.
Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje não sei mais nada. Sei apenas que este foi um ano difícil para o país lúdico do futebol e para o país real que enfrenta uma tormenta que não se sabe quando e nem quando vai parar. Alegro-me, por outro lado, em saber que os Estados Unidos e Cuba vão reatar relações, depois de cinco décadas. Dizem que este século vai mudar o mundo, como todos os outros acreditam que o fizeram.
Descobri que há um velho sociólogo e escritor judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida”. Conheci-o por Marcos Flamínio Peres, doutor em teoria literária e literatura, que o entrevistou em 2012. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, nos faz perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos.
Bauman escreve livros, tais como “O amor líquido”,” A vida líquida” e o “Medo Líquido”. Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’ “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Feliz Natal!

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2014.

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BEATRIZ CHEGOU – Diário do Nordeste

Às 5h22 de segunda, 8 de dezembro de 2014, passei uma mensagem perguntando a que horas deveria chegar ao hospital. Sem resposta. Apressei-me. O horário do parto seria às 7h daquela manhã de nuvens brancas. Eu abeirara-me do hospital, quando o celular alerta: Beatriz chegou.
A escolha do nome foi feita em comum pela Bruna e o Gerber, os pais. Pulei as enciclopédias Barsa e Britânica e fui direto ao “Tio Google” ver o que significava.
Ele esparge respostas de todos os modos e feições. Há que pinçar. Foi o que fiz. Beatriz viria do latim, de beatus etc. Ao final das contas expressaria: para fazer alguém feliz. Ou, em outra mirada, chegaria pelo poeta épico e medieval Dante Alighieri, com a sua Divina Comédia e as três partes do seu percurso (inferno, purgatório e céu). Beatriz é a sua guia no paraíso. O obstetra antecipara e a Bia despontou da mãe às 6h35, quando a lua cheia esvanecera. Subi os dois lances de escada que, dobrando à direita, mostravam o berçário.
Ela estava envolta no líquido amniótico e, no meu pensar de avô, piscava os olhos de espanto nos seus primeiros minutos fora da placenta.
Depois, já limpa, vestida no mandrião que a primípara mãe escolhera, emergiu em graça. Bonita e rosada, chega ao quarto para a alegria de todos, a começar pelas tias guardiãs Lelé, Cris e Mel. Hoje senhoras, e, ainda, minhas filhas meninas.
Bruna, saindo da raquidiana, abre os seus grandes olhos, acolhe, beija e abraça a pequenina Beatriz, sem choro, rindo, como a dizer: você é minha cria, eu a gestei e agora a tenho ao lado. Deus as abençoe.

João Soares Neto
Empresário
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/12/2014.

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OS TRANSPORTES PÚBLICOS, AS RUAS E AS SOLUÇÕES – Jornal O Estado

“Se eu tivesse medo de obstáculo não seria motoboy”. Ouvido em uma esquina.
É fácil criticar, mas é muito difícil apresentar soluções concretas para o sistema de trânsito e o transporte público em cidades adensadas com mais de dois milhões de habitantes com problemas de malhas viárias antigas, estreitas e de traçado ortogonal. É de enaltecer a ação que a atual gestão da Prefeitura de Fortaleza procura fazer com a implantação gradativa de novos viadutos e de ônibus de dupla articulação em alguns corredores de tráfego com larguras que assim o permitam.
Por outro lado, estive agora em Bogotá e pude constatar o sufoco da população para usar os ônibus articulados do projeto “Transmilênio”. Há mais propaganda que efetividade no “Transmilênio”, uma cópia remoçada do que o arquiteto, urbanista e político Jaime Lerner implantou em Curitiba nos anos 1970.
Em todas as estações ou pontos de embarque da grande cidade colombiana, com mais de sete milhões de habitantes, há longas e intermináveis filas. As pessoas, nessas estações e alas, passam mais tempo do que o desejado e recebem, querendo ou não, a ingestão de monóxido de carbono dos demais veículos que ocupam as outras faixas das vias.
Embora o “Transmilênio” tenha prometido adotar sistema que reduziria a emissão de carbono, seguindo a metodologia AM0031, da Organização das Nações Unidas, não me parece ter logrado êxito. Há uma diferença entre a pretensão de um mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL) e a crua poluição das descargas de milhões dos veículos.
O Brasil não adotou como deveria ter feito no tempo devido, por falta de recursos, de planejamento de longo prazo ou até de descaso público, as soluções universais do uso do subsolo para a implantação de linhas de trens chamados de metrôs ou “subways”. Esse modal de transporte, em países mais prudentes ou avançados, tem mais de 100 anos de implantação e são, nas grandes cidades, os recursos utilizados pela maioria das pessoas. São Paulo e Rio são exemplos desse atraso e tentam – a alto custo- superá-lo.
Há cerca de 20 anos surgiu a ideia do metrô de Fortaleza, o Metrofor, mas houve descompassos entre administrações municipais e o Governo do Estado. Em paralelo, a espera de liberação de verbas federais e financiamentos internacionais. Além do projeto inicial ter sido mudado, por imposição da administração Juraci Magalhães: os trens mergulham na afluência das avenidas José Bastos e Carapinima.
Aconteceram sucessivas paralisações, longas, médias e curtas, por carências de verbas, talvez por gestão, por fiscalizações do Tribunal de Contas da União, por novas licitações parciais e aditivos de seus trechos. O conjunto desses fatos provocou atrasos, prejuízos a terceiros com vias cercadas por tapumes.
Tudo ocorreu a destempo na execução e no ainda limitado funcionamento da primeira – e única – linha de transporte de massa que liga Pacatuba à Fortaleza. Não adianta reclamar do passado. O registro é apenas um histórico aligeirado. O atual governo do Estado tem procurado, desde algum tempo, recuperar o tempo perdido e deu passos fortes para a integração das linhas que vem de Pacatuba e de Caucaia – precária e usando óleo diesel – com a zona leste da cidade. Adquiriu máquinas “tuneladoras”, chamadas vulgarmente de “tatuzões”, pela capacidade de fácil romper o subsolo de Fortaleza, conhecidamente arenoso.
De resto, promoveu novas licitações e tudo faz crer que, ainda nesta década, teremos uma malha radial integrada que possa mitigar o caótico trânsito urbano de Fortaleza. Em paralelo a isso, está sendo implantado, no trecho Parangaba-Mucuripe, um sistema de VLT – Veículos Leves sobre Trilhos, que, no momento, causa dissabores pelos desvios, pelas paralisações e desapropriações, mas redundará, quando retomado e concluído, em benefícios e desafogos na locomoção de parte dos usuários de transportes coletivos.
Ao novo Governo, que se instala em janeiro próximo, cabe a não fácil tarefa de continuidade desses projetos em curso e, ao mesmo tempo, em conjunto com a Prefeitura de Fortaleza, estudar a substituição do uso de combustíveis fósseis dos veículos de transporte coletivo por nova matriz energética.
Os acidentes e as brigas no trânsito, inclusive com assassinatos e repetidos assaltos, são resultado, em parte, do elevado grau de estresse dos guiadores, pedestres atravessando fora das faixas, sem esquecer os balés das motocicletas que nos fazem lembrar dos circos de antigamente com os seus “globos da morte” em que duas motos, em alta velocidade, se cruzavam. Agora, surgiram as ciclovias, ainda com poucos usuários. É esperar para ver.
Atentos a tudo isso os fotos sensores multam, sem piedade, os que, por conta de buzinas dos veículos que vem atrás, param em faixas de pedestres, procuram aproveitar o finzinho do sinal verde ou se quedam imóveis em cruzamentos engarrafados. Dizia Bertold Brecht, escritor alemão: “perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva”. Mas, no trânsito, as conversões, em geral, são proibidas. E aí?
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/12/2014.

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‘FORTALEZA’ E ‘CEARÁ’ – Diário do Nordeste

Os clubes “Fortaleza” e “Ceará” sabem possuir torcidas apaixonadas. O “Fortaleza”, na terceirona, obteve o maior público do Brasil: 63.000 torcedores. Saíram desapontados pela ausência de fibra e desamor à camisa. Faltou um só gol. A decepção se repete faz cinco anos. Na eleição de segunda, havia multidão no Pici.
Por outro lado, o “Ceará” despediu-se do acesso à elite por fobia ao fato de terminar o primeiro turno como líder. Tremeu nas bases. Faltou brio. Os dirigentes precisam mudar o pensar e o agir. Nessa fase do pré-campeonato, chegam jogadores rodados, salários altos e usuários da Justiça Trabalhista.
Elogiam a terra, o “professor” traz comissão técnica, enturmam-se, surgem contusões, cartões amarelos e vermelhos. Ao final, despedidas dos “bondes”. Vergonhas repetidas. Evandro Leitão e Jorge Mota deveriam trocar ideias. Os dois têm torcidas leais. Logo esquecem os tropeços e vão aos jogos à espera da redenção. Há alguns anos reúno os troféus e as torcidas do Ceará e Fortaleza em exposições conjuntas. Parecia impossível. Não é. Uma torcida respeita a outra. Fotos e livros provam isso. 2015 poderá ser auspicioso para os dois.
A receita é simples: humildade, orçamento, repensar erros, usar técnicos e mais jogadores locais, das categorias de base, dos subúrbios e do interior. Garanto: pior que seja nunca será igual ao desempenho atual. Mudem. A hora é esta.
Por que técnicos cearenses não emplacam por aqui, mas dão certo fora do Estado? Eles não falam chiando, cobram pouco e são simples. Administrar é cortar o supérfluo e fazer o básico: vencer.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2014

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AS ELITES, AS SECAS DO CEARÁ E O “GENOCÍDIO” – Jornal O Estado

“Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém nos ensina o beco para a liberdade se fazer. Sou um ignorante. Mas, me diga o senhor, a vida não é cousa terrível?” Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.
O caderno “Ilustríssima” da Folha de São Paulo, de 30 de novembro passado, traz em página dupla (fls.4 e 5) dura reportagem assinada por Anna Virgínia Balloussier, com fotos de Isadora Brant. O resumo narra: “Com as secas do início do Século 20, famintos dirigiam-se à capital do Ceará, assombrando as elites que idealizavam uma Fortaleza “belle époque”, moderna – e limpa. O governo criou campos cercados para confinar milhares de retirantes; hoje, alguns tentam evitar que a memória desses lugares se apague”.
A verdade histórica registra que Fortaleza não vivia às maravilhas já no fim do século 19. Havia doença e fome na capital. Começou na seca de 1877. Até a mulher do presidente da Província, Caetano Estelita Cavalcanti Pessoa, morreu de peste. O comerciante e político Joaquim de Cunha Freire, Barão de Ibiapina, doou 10 contos de réis para a compra de mantimentos e um terreno onde seria construído um asilo de mendicidade. José de Alencar, no Senado, dizia que a situação não era tão dramática. Era grave.
A suposta ação higienista, no início do século 20, referida por Balloussier, seria, talvez, mais cuidado contra a transmissão de doenças e prevenção contra saques dos “mendigos retirantes” do que asco. Fortaleza, em 1877, possuía 30 mil habitantes e foi invadida por quase 100 mil fugitivos da seca. 400 pessoas morriam por dia.
A longa reportagem fala até da heroína Conceição, personagem de Rachel de Queiroz no seu romance de estreia, “O Quinze”. Conceição atravessa correndo um campo e ouve a súplica: “Dona, uma esmolinha”. Ela corria “fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento”, segundo Rachel.
Balloussier explana: “Eram homens, mulheres, velhos e crianças, de cabeça raspada contra piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha, com buracos para enfiar o pescoço. Os mais robustos serviam de mão de obra em fazendas e obras públicas. Milhares morreram de fome, sede ou doenças”.
A repórter esteve no Ceará e obteve as informações acima da historiadora e professora Kenia Souza Rios, da UFC, que, em 2006, escreveu, sob o selo do Museu do Ceará, “Campos de Concentração no Ceará: Isolamento e poder da seca de 1932”. Já em 2002, Kenia escrevera o artigo “A Cidade Cercada da Seca de 1932”, enfeixado no volume “Seca”, das Edições Demócrito Rocha.
Sabe-se que os primeiros campos do século 20 foram instalados em Fortaleza, por ocasião da seca de 1915. Essa medida, tida como “higienista” ou profilática, foi autorizada pelo Governador Benjamin Liberato Barroso que tinha como vice o Padre Cícero Romão Batista. Tudo era facilitado pelo oligarca de então, o senador José Gomes Pinheiro Machado e com a graça federal do IFOCS. Os fatos, verdadeiros, nos entristecem. Todos os nossos ascendentes de Fortaleza teriam ficado amedrontados com a seca braba e a nova invasão de retirantes. O acontecido atinge ainda a memória do Padre Cícero que era o vice-governador.
Ainda em 1915, não no romance, mas na obra “A Seca”, de de Rodolpho Theófilo, citada por Balloussier, há o registro do campo do Alagadiço, mantido até a seca de 1958 com o nome de Hospedaria Getúlio Vargas. Theófilo descreve: “Um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados cerca de 7.000 retirantes”. Tive o cuidado de conversar com a professora Kenia. Ela acrescentou, ao já dito e escrito, o seguinte: “ É importante enfocar que esses espaços apareciam como lugares de assistência adequada para os flagelados da seca. Desse modo, não encontravam grande resistência por parte da elite local que se via menos ameaçada e com a sensação de dever cumprido. Uma das únicas vozes dissonantes era a do sanitarista Rodolpho Teófilo que diariamente criticava as condições dos retirantes que ali estavam”.
Embora pareça extemporâneo citar, o “O Nordeste”, jornal católico, em 17 de fevereiro de 1923, citava tal data como o ‘Dia da Extinção da Mendicância’, como uma forma de limpar o visual e a moral da Fortaleza de então. Seria, quiçá, apenas o medo de contaminação dos nativos da cidade que bebia água de lagoas e poços rasos e não possuía saneamento.
Em 1932 foram criados outros campos em Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, Cariús e Crato. Há, desde 2009, uma ação promovida pela Ong –SOS Direitos Humanos, capitaneada pelo advogado Otoniel Ajala Dourado contra a União e o Estado do Ceará pelos fatos e mortes acontecidos. Há registro de, pelo menos, 60 mil mortos nesses campos.
A narrativa que alinhavo, com a ajuda de terceiros, é conhecida e discutida por historiadores, mas deve ser bem explicitada para as gerações de hoje. Não se pode deixar passar em nuvens turvas o narrado e difundido. Não basta o registro nacional feito pela Folha com as denúncias de Theófilo, reavivadas pela professora Kenia. A história dos campos nos entristece, bem como o acontecido no “Caldeirão” da Santa Cruz, no Crato, quando as Forças Armadas, a mando de Vargas, dizimou, em 1937, a comunidade criada pelo beato José Lourenço.
A História não deve ser apenas a versão dos importantes. Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, dizia: “Não curamos do tempo, o tempo tudo escritura e surpreende-nos com suas contas monstruosas”. E arremata: “A História do Brasil dá a ideia de uma casa edificada na areia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2014.

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MANHÃ HIPOTÉTICA – Diário do Nordeste

Na segunda-feira acordou estremunhada, cansada e sem graça. Como? Havia ganhado a eleição mais difícil depois da democratização. A roupa branca usada para o pronunciamento à nação amarfanhada sobre o sofá do quarto do palácio desenhado pelo arquiteto famoso. Abriu as cortinas e o sol do final de outubro mostrava a face dourada e forte sobre o planalto. Piscou os olhos.
Sentou-se à cabeceira da cama, calçou os chinelos, e foi em direção ao banheiro. A água fria a cobria e, em meio ao banho, sentiu o líquido quente de lágrimas. Por que estaria chorando se era vitoriosa? Lembrou-se de sua época na prisão, da filha, do neto e da mãe a poucos passos dali. Esfregou os olhos, fechou a torneira e enrolou-se na macia toalha de banho. O espelho mostrava a mulher madura, vencedora de câncer, reeleita, descasada e só. Não havia com quem trocar confidências. Os telefones, disponíveis e sensíveis à escuta, estavam desligados e os frascos dos remédios que tomara ao dormir espalhavam-se pelo lado vazio da cama. As marcas do seu corpo formavam um vinco onde dormira. Não tivera sonhos. O sono pesado a abatera depois do dia mais duro de sua vida.
Repensou. Não fora o mais pesado, sim o mais tenso. Informações alarmantes. O denunciante, ao contrário do exposto, não morrera. Estava atrás do candidato na contagem não divulgada antes das 8 da noite. Depois, houve inversão da posição. Seu coração mostrava arritmia. Discretamente, tomara um comprimido.
Folgaria esta manhã. Estava exausta. Não queria falar com ninguém. Nem com ele. Precisava ficar só.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2014.

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LIMPAR OU SUJAR O MUNDO? – Jornal O Estado

“A Terra é insultada e oferece flores e frutos como resposta”. Rabindranatah Tagore (polimota bengali), prêmio Nobel de Literatura, 1913.
Comemoramos há pouco a Semana Internacional do Meio Ambiente e da Ecologia. Preservar o meio ambiente é uma preocupação recente da humanidade. Quando o cientista Charles Darwin concluiu que somos frutos da evolução das espécies e não, segundo ele, de algo sobrenatural, os homens tomaram conhecimento de que tinham de cuidar, por sua conta e risco, de sua casa, o planeta Terra. Até o papa Francisco acaba de se render à teoria evolucionista. Para ele, Deus rege tudo. Na vida real, tomar conhecimento do problema é diferente de tomar consciência, pois esta precisa de sedimentação, discussão, transformação em uma ideia política e disseminação.
A essa ideia política se deu o nome de Ecologia, palavra roubada do grego “oikos”- casa ou habitat – e de “logos” que significa estudo, reflexão. Assim, a Ecologia pode ser entendida como o estudo das relações dos organismos uns com os outros e com todos os fatores naturais e sociais que compreendem o seu ambiente. Definido esse juízo, a humanidade começou a viver, no século passado, especialmente em seu último quarto, uma luta renhida para difundir, de forma clara e lúcida, o que eram e para que serviam os seres vivos, a luz, a água, o ar, o solo etc.
A presunção de que éramos ou somos os únicos seres vivos inteligentes não deixa de ser um óbice. O universo é bem maior do que imaginamos. A falta de humildade de encarar o problema, como se todos os recursos naturais fossem inesgotáveis, é produto de conveniências, de um lado, e de intransigências, de outro. A humanidade ainda não aprendeu a conviver em equilíbrio. Guerras e lutas por religião, raça ou poder estão vivas neste século. A Eco-92 e as suas subsequentes neste século 21, em países diferentes, e sob os auspícios da ONU, que pretendiam ser a luz e a salvação dos recursos naturais do mundo nada resolveram.
Hoje, podemos mapear, via Google, todos os continentes com focos de conflito entre etnias, interesses econômicos e religiões. Isso provoca destruição de seres vivos, sejam homens, animais ou vegetais, bem como comprometimento da natureza por seu uso inadequado. As necessidades humanas, mesmo que em áreas pacíficas, cobram da natureza alimentos, casas e mobiliários, que são feitos a partir da agricultura e da indústria.
E, se há necessidades desses bens, a ganância humana não estabelece limites e ignora o conceito de desenvolvimento sustentável: reposição de áreas devastadas de florestas, recuperação de cursos de água contaminados e do ar poluído pelo monóxido de carbono que exala dos escapamentos de bilhões de veículos automotores e das indústrias.
Esta conversa pode não parecer tão agradável para quem está acostumado a jogar ponta de cigarro, papel amassado e latas vazias em todos os lugares, e para os que acreditam que a natureza é a sua lixeira básica. Pessoas já depositam em qualquer tudo o mais que lhes sobra. É preciso que cada pessoa, desde cedo, aprenda a fazer a sua parte, vivendo em harmonia com o meio-ambiente sem molestar todas as criaturas, sejam pessoas, animais ou as do reino vegetal. Cuidar de sua casa, mas pensar na Terra, a casa maior, a Gaia. Parece óbvio, mas não é.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/11/2014

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MONÓLOGO UTÓPICO – Diário do Nordeste

Não conseguira ainda descobrir onde e quando errara. Seguira o manual do avô e, depois da morte do candidato do Nordeste, das subidas e descidas da acreana, havia chegado ao segundo turno. Na última semana, véspera das eleições, os institutos de pesquisa mostravam quadro faccioso, pensava ele. Reuniu toda a paciência do mundo e foi para o último debate.
Estudara e repisara como nunca o fizera quando estudante. Sabia as respostas na ponta da língua.
Ouvia aplausos quando retrucava as falas entrecortadas da adversária. Ela pisou no acelerador e o colocou contra as cordas imaginárias do ringue.
A senhora está sendo leviana, disse ele. Eu? Leviana? Sim, por faltar com a verdade. Mas a palavra leviana ficou no seu inconsciente. Ele que era polido, educado e costumava medir o que falava. Aprendera com o avô. Talvez tenha sido esse o erro, mas alguém dissera que, ao colocar as mãos nos bolsos das calças, enquanto a adversária falava, parecia desdenhar.
A calça “slim”, os sapatos polidos e o paletó azul com cortes laterais, o decompuseram na pecha de “playboy” que assacaram contra ele? Outro erro?
Agora, de bermudas, olhos marejados de lágrimas, ouvindo, ao longe, o barulho do trânsito do Leblon, escutava o choro dos filhos de poucos meses e não encontrava a resposta que já não mais fazia sentido.
Fora vencedor por poucas horas, no transcurso da apuração, até que a enxurrada de votos do agreste desaguou sobre ele.
Não encontrava resposta para a segunda derrota em Minas Gerais, sua terra amada. Quem teriam sido os calabares?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2014