“O cinema não tem fronteiras,
nem limites. É um fluxo constante
de sonhos”. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985).
Escrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro é aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido aguçado, mas não possui a cultura focada do crítico de cinema. É descompromissado, mas é olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo “psiu” quando há barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e após ficar intrigado com a súbita e breve aparição do Brad Pitt (nas cenas da construção de um pavilhão agregado à Casa Grande) nos “12”, procurei entender. Ele é o produtor de “12 Anos de Escravidão”, baseado em livro autobiográfico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, britânico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme é lindo em conteúdo e eloquente na ausência do recurso moderno das cores. Preto e branco, legítimo.
Fez-se a abertura e um inglês, negro, Steve McQueen (nome homônimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de “12”, ganhou o Oscar de melhor diretor. Além disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong’o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o prêmio de sua categoria. Por outro lado, a relação de amor-ódio da Califórnia e dos EEUU com o México decidiu premiar “Gravidade” – com sete indicações – como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuarón. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia.
O Brasil, entretanto, teve um prêmio de consolação. A mulher de Matthew McConaughey, prêmio de Melhor Ator, por “Clube de Compras Dallas”, é a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um repórter, pós-premiação, perguntou à Camila como era Matthew em casa. Ela, súbito, respondeu: “Quem é esse cara (referindo-se à interpretação dele) romântico, podemos trazê-lo para casa só um pouquinho?”. Eles têm três filhos e são casados, de verdade.
Sabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda não absorveu o mundo sem fronteira de cor e religião. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(ão) e protestant(e)) já deixam de ser a maioria da “terra dos bravos” e resistem em aceitar Obama. Além de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blasé, na Casa Branca, não foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no “12”. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, não aceitava ser a “negra preferida” para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com méritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembaraço, forjado na mistura de sua origem africana, a opção pela cidadania mexicana e a formação acadêmica nos EEUU.
Hoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais –contra e a favor – e os frutos dos movimentos libertários eclodem em todo o mundo. Não apenas no orbe ocidental – que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes há insatisfeitos, seja por questões de fé, raça, ideologia, gênero e cultura.
O mundo dos “sabidos” precisa absorver o que o século 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: há outras faces e fases emergindo e não se pode mais pedir que “eles”, os outros, fiquem no seu lugar. “Eles” fazem parte do nós e hão que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migração/imigração, cobiça, tênues e já vagas noções de ideologias que vieram do iluminismo, do século 19 e percorreram grande parte do último.
Voltando à “sétima arte”: é bom que neste 2014 os membros do “establishment” tenham acenado para povos, histórias e países diferentes. Esse ponta-pé começou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas metáforas no cinema mundo, apareceu em “Making a Living”, traduzido no Brasil como “Carlitos Repórter”. Sobre Chaplin falarei depois.
Resumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, é forma lúcida de conviver com as diferenças, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de nós é tão importante que não possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. Só há uma fórmula para isso não acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2014.