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DIREITO 50 ANOS – Diário do Nordeste

Plenilúnio. Quinta-feira, 16.12.1965. O calor do 350º. Dia do calendário gregoriano não incomodava os que usavam becas. Assentados, com padrinhos e madrinhas, nos bancos de cimento da Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, conversavam em regozijo.
Abria­se a colação de grau dos formados pela Faculdade de Direito. Martins Filho, reitor, e Luiz Cruz de Vasconcelos, diretor da Salamanca local, geriam a cerimônia.
Em ordem alfabética, um a um, subia os degraus do anfiteatro, para o recebimento do barrete. Tenho a foto, ao lado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, e dos citados reitor e diretor. Nesta semana, após 50 anos daquele fato, os 76 remanescentes do total de 130, reuniram­se para orar pelos que já partiram e, ao mesmo tempo, dar graças por suas duras vidas profissionais.
Essa turma gerou magistrados federais e estaduais, em primeiro e segundo grau; procuradores, promotores e defensores públicos; advogados de nomeada, professores e servidores de carreira, políticos com mandatos, intelectuais e até empresários. O elo que nos manteve unidos hoje, não foi o de interesses, porém, o desvelo do colega Stênio Carvalho Lima, a quem reverencio, a nos reunir, em convescotes, por dezenas de anos.
Hoje, pode parecer singela esta festa. Forçoso é dizer que estudamos no período da assunção e da renúncia de Jânio, da luta pela posse de Jango, do curto parlamentarismo com Tancredo Neves, do referendo pela volta ao presidencialismo, do abalo de 1964 e concluímos o curso sob a égide de Castelo. Urbi et Orbi.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2015.

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“RENDA DE BILROS” E VALDELICE CARNEIRO GIRÃO – Jornal O Estado

“A história universal é a de uma só pessoa”.
Jorge Luís Borges
Quando conheci Valdelice Carneiro Girão ela já era professora formada em geografia e história. Morava com mãe e irmãos na Rua D. Sebastião Leme. Eu era adolescente e sempre gostei de conversar com pessoas cultas e mais velhas. Valdelice foi uma das escolhidas. Em decorrência desses encontros, surgiu a ideia de se criar um grupo para congregar jovens e adultos.
Surgiu, então, o GIRAFA- Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Pelo nome, notam-se as palavras instrução (informação e conhecimento), recreação (brincadeiras em épocas de Carnaval, Semana Santa, São João, Natal e férias), atlética (equipes de voleibol). Todos moravam perto, no Bairro de Fátima. Lembro que até editei alguns números do jornal “GIRAFA”, em mimeógrafo, equipamento hoje em desuso em face da tecnologia voraz.
Fui escolhido para ser o primeiro presidente do Girafa e levei a missão a sério. Até júri simulado aconteceu. Era uma Semana Santa. Resolvemos fazer julgar Judas Escaríotes. Fui escalado para defendê-lo. Vali-me da Bíblia e invoquei estar escrito que um dos discípulos traria a Jesus. Ora, se Judas era apenas instrumento da vontade divina, como poderia ele se esquivar de tal predestinação (Marcos 14:18)? Depois de muitos debates, com a presença do futuro Juiz de Direito, José Carneiro Girão, Judas foi absolvido. Mesmo assim, foi malhado e queimado, como de praxe.
Esta introdução foi o aplique que encontrei para a tessitura pela minha agulha imagética em homenagem à acatada amiga e Mestra Valdelice. Ela era antropóloga e historiadora que dedicou grande parte de sua vida ao Instituto do Ceará, não só como sócia efetiva, mas como secretária geral.
Valdelice lançou em 2013 o seu último livro, “Renda de Bilros”, bem cuidado, capa dura, parte da Coleção do Museu Arthur Ramos, editado pelo Instituto do Ceará. Na Introdução, ela diz: “As rendas de bilro do Museu Arthur Ramos, da Universidade Federal do Ceará, estão divididas em duas partes: Coleção de Luísa Ramos e Coleção Rendas do Ceará” …“Nossa experiência se limita, pois ao Ceará”. Na verdade, ela cobriu tudo o que o Brasil produziu.
Depreende-se do lido e do transcrito, o zelo da professora Valdelice se faz notar nas 267 páginas do livro, enriquecido por fotos monocromáticas e coloridas de Delfina Rocha e do acervo do Museu Arthur Ramos. A pesquisa dela abrange não apenas o Ceará, mas Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
No Ceará, os maiores centros de produção e comércio de rendas ainda resistem em Aquiraz, Fortaleza, Caucaia, Aracati, Beberibe, Guanacés, Quixadá, Limoeiro do Norte, Maranguape, Morada Nova, Mundaú, Pacajus, Redenção, Russas e Várzea Alegre. Em Fortaleza, podem ser encontradas no Mercado Central, no antigo presídio/ Emcetur e no Centro de Artesanato Luiza Távora.
Como se sabe, as rendas de bilros surgiram na Europa, na Idade Média. Para o Brasil foram trazidas e ensinadas por mulheres de portugueses aqui aportados no século XVIII. Esse delicado artesanato é festa para os olhos e realça as roupas e adornos femininos. As tramas são copiadas ou inventadas no fantástico mundo criativo de mulheres assentadas em bancos, debruçadas sobre almofadas recheadas de alfinetes, linhas e bilros. Por fim, relembro com saudade aquele tempo no ainda emergente Bairro de Fátima. Reverencio, por justiça, o nome honrado e culto de Valdelice Carneiro Girão.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2015.

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BRASILULA- 13 anos depois – Jornal O Estado

No dia da eleição presidencial de 2002, escrevi e publiquei o artigo abaixo. Permito-me pedir a opinião dos leitores sobre o seu conteúdo para o e-mail jsn@planos.com.br. São passados 13 anos.
“Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas mantém o pé na miséria. Ou melhor, têm os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimento de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal.
Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, se aceita. Assim é a democracia que, entre outras coisas, possui a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados.
A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres.
Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2015.

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A INDECIFRÁVEL CHINA – Jornal O Estado

Estive, por duas vezes, na Ásia. Visitei alguns países, entre os quais a China. Entre uma viagem e outra mediou tempo. Por oportuno, lembro que o professor William Gary Vause, fluente em mandarim e vice Dean da Stetson University, casado com a minha irmã Célia, foi então convocado pelo governo dos EEUU para fazer parte do que se convencionou chamar de “diplomacia pingue-pongue”. Célia e Vause passaram dois longos períodos na China como precursores do processo de intercâmbio entre estudantes e professores dos dois países.
Estudantes chineses foram cursar mestrado na América. Alguns optaram por não voltar. Muitos voltaram e, certamente, ajudaram a formar essa geração diferente de hoje.
Digo diferente, a partir dos postulados da Revolução Cultural de Mao-Tse-Tung que, hoje, parece fazer parte da história ainda não decifrada pelo pouco tempo de distanciamento crítico. Mao está eternizado em grande painel com imensa foto na Praça da Paz Celestial. O resto mudou.
O pragmatismo da China parece ser embasado, em parte, pelos conhecimentos adquiridos por diligentes empreendedores e jovens acadêmicos que se espalharam mundo afora em busca de aprender o diferente, o não sabido. Some-se a isso a carga das heranças, dos costumes e das tradições milenares.
Desse entrechoque de cultura com o que viram e aprenderam, eclodiram informações, sistemas comerciais, processos industriais e tecnológicos avançados, ao mesmo tempo em que o país retomava o poder suave sobre Hong Kong. Assim, a China possui hoje três dos maiores centros financeiros do mundo: Pequim, Shangai e Hong Kong.
Agora, houve o primeiro encontro entre os governantes chineses e os de Taiwan, a dissidência de 1949 que formou outro Estado, menor, mas sempre crescente. Ademais, o governo chinês, aboliu de vez a “política do filho único”, relaxada há tempo. Cada família poderá ter dois filhos e obter direito à educação básica, assistência médica e benefícios, um arremedo de bem-estar social.
Sabe-se que muitos chineses amealharam fortunas nos últimos 50 anos. Alguns integram as famosas listas anuais que indicam, para a vaidade de alguns e tristeza de outros, a relação dos bilionários do mundo. Um só exemplo: esta semana, o chinês Liu Yiquian, que já foi taxista e ficou rico investindo em bolsas de valores, comprou o quadro “Nu Chouché”, de Modigliani, por 647 milhões de reais e se dá ao luxo de fundar museus.
O que não se sabia é que jovens famílias chinesas de bom nível financeiro resolveram que seus novos filhos nasçam em países onde fizeram cursos, mantêm negócios ou que os atraem pela diversidade cultural. Assim é, por exemplo, que os Estados Unidos viraram porto de entrada de milhares de chinesas grávidas – lembre-se que elas são magras e podem disfarçar bem.
Na condição de turistas se quedam até o nascimento de seus filhos, em bons hospitais, e os registram como cidadãos americanos. As leis ianques permitem que essas crianças, aos 21 anos, possam optar pela cidadania americana e obter o “green card” para familiares. Esse mesmo fenômeno ocorre em outros países.
Por estas linhas arrevesadas é que ouso dizer que não só os ensinamentos de Confúcio, Lao-Tse e Mao, agora misturados com o pragmatismo das últimas gestões governamentais, somados ao aprendido em Harvard, Yale, Oxford, Cambridge e em outras universidades e centros de treinamentos em negócios, tornam, pelo menos, para mim, ainda difícil entender a indecifrável e portentosa China.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/11/2015.

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CEARÁ, FORTALEZA, FUTEBOL E LÓGICA – Jornal O Estado

“Gestão é substituir músculos por pensamentos, folclore e superstição por conhecimento, e força por cooperação”. Peter Drucker
Amanhã, sábado, o Fortaleza Esporte Clube joga a sua sorte ou competência na terceira categoria do futebol brasileiro. Não importa o resultado, mas as razões de estar a seis anos, nesse sufoco. Não há lógica em insistir em jogadores rodados, sem viés de sentimento local em detrimento dos jovens das categorias de base. O Castelão estará cheio de torcedores tricolores torcendo por um time onde a maioria dos jogadores é de fora. Ganhando ou perdendo, é preciso mudar essa lógica perversa de só acreditar nos outros. Precisamos, primeiro, acreditar em nós mesmos, em meninos dos subúrbios, em egressos do sub-20. Chega de importações falaciosas.
Os dirigentes do futebol cearense, com todo o respeito, pouco se preocupam com o futuro, vivem, cobrados pelas torcidas, apenas o resultado do hoje, sem lógica e falta de perspectiva de médio prazo. O Ceará Sporting, queira Deus, consiga sair do rebaixamento. Não pode reclamar de dinheiro, tampouco da sua torcida. Comete – um degrau acima- quase os mesmos erros do seu rival. É preciso coragem para admitir claudicações e corrigi-las.
O Brasil da euforia lutou e conseguiu – sabe Deus como – trazer uma Copa do Mundo de futebol para cá. Estádios novos foram construídos. Outros, desmanchados e refeitos seguindo um caderno de encargos da Fifa, espécie de multinacional dominada por interesses de toda ordem, posta fora da lei por uma investigação heterodoxa dos Estados Unidos. O que lucramos com a Copa? Perdemos na bola. De forma feia e desconcertante.
As obras de infraestrutura, Brasil afora, não foram concluídas e o que se viu foi a submissão do país às vontades do francês Jérôme Valcke, secretário geral, e a aceitação de Joseph Blatter, presidente da Fifa, como um quase estadista. Hoje, Valcke e Blatter estão com os dias contados no futebol. Até Michel Platini, o ex-grande jogador gaulês que se profissionalizou como “cartola”, está no rol de indiciados.
Sendo o futebol um esporte lógico, pois quem vence, quase sempre, é o melhor (se não houver interferência do árbitro, é claro), é preciso virar a página e fazer diferente. Aqui, no Brasil afora e no mundo, renovando toda a cadeia futebolística. O jornalista Juca Kfouri, sempre cáustico, conta horrores sobre “o mundo imundo do futebol” em artigo publicado na página B4, da Folha de São Paulo, de segunda-feira, 12, deste outubro.
De campeão do mundo o Brasil foi se transformando, faz tempo, em mero exportador de jovens jogadores. São milhares espalhados pela Europa, Ásia e até nos Estados Unidos. Essa exportação, em massa, passa agora por fiscalização geral em países como a Espanha e chegou ao Brasil.
Voltando ao nosso “pebol cearense”, como diziam os cronistas esportivos do passado, é preciso uma reflexão coletiva, racional e objetiva para mudar o que está posto, pois se certo fosse, o Fortaleza Esporte Clube e o Ceará Sporting não estariam, apesar das receitas, torcidas vibrantes e parceiras, nas incômodas posições em que se encontram. Quem não usa a lógica para ver o passado e o presente, não pode estabelecer diretrizes para o futuro. O futebol, além de paixão, precisa de razão eficaz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/10/2015.

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NOTÍCIAS BOAS – Diário do Nordeste

Amigo reclama das rádios, dos jornais, das televisões, dos blogs e dos sites a denegrir a imagem do Brasil. Ele diz: “estamos sujando a água bebida”. De repente, reflete: “água não é bom exemplo, há a crise hídrica”. E, arremata: “dê notícias boas”.
Este rico e pequeno espaço é de opinião. Procurei dicionário simples – para o ensino fundamental- o SM. Opinar é “expressar ou expor uma opinião, um julgamento ou um parecer”. Assim, por ofício, devo expressar opinião no meu escrito. Meras 260 palavras, de modo lógico, sequencial e com fecho.
A imprensa traz a obrigação de analisar fatos e comportamentos públicos e privados. A consequência dessa análise, muitas vezes, é incerta, pela essência e pela pesquisa a fazer, sob pena de perda de credibilidade.
O volume de informações desencontradas na internet é óbice às verdadeiras e consequentes. São passionais, por ideologia ou conveniência. Outras, levianas pelo descompromisso e a galhofa em seus conteúdos.
Busco notícias “boas” e encontro: 1. O avião Boeing 737, o “Sucatão”, da presidência da República – usado até 2013- foi vendido, via internet, por 13.500 reais, preço de carro 1.0, usado; 2. dos pimentões vendidos em SP, 90% contêm agrotóxicos irregulares; 3. descobriram: Marte tem água salgada. É ciência, promoção e tentativa de encontrar vida em outros planetas. Para quê? Já não bastam a pobreza, as guerras, as secas, os refugiados e o sal dos mares sem soluções para a dessalinização?
A boa notícia seria cuidar dos 7,3 bilhões dos terráqueos, dos quais 700 milhões vivem esfomeados. A cada dia 15.000 morrem de fome. Vergonha.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2015

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OS “CONCURSEIROS”, A CRISE E AS OPORTUNIDADES – Jornal O Estado

“Todo aquele que para esperando que as coisas melhorem, verificará bem cedo que aquele a não parar e colaborar com o tempo, estará tão longe e jamais será alcançado”. Autor ignorado.
Recebo e-mail de jovem a se preparar para concursos havia dois anos. Se diz aflito, pois aplicou a reserva da família com o pagamento de mensalidades de cursinho caro frequentado, com atenção e afinco. Formara um grupo de colegas e varava noites estudando, revendo provas de concursos anteriores, vendo os “bizus” surgidos. E agora?
O desalento demonstra o reflexo do momento. Momentos passam. Essa crise tão divulgada, tão discutida e não encaminhada para pronta solução, pode causar transtornos a milhares de jovens, Brasil afora, aprestavam-se para a realização de concursos em todos os níveis de governo.
Os concursos voltarão, fique certo. Há funcionários públicos a atingir a idade compulsória ou o tempo de aposentadoria. As vagas precisam ser preenchidas e os terceirizados não têm a capacitação exigida para muitos cargos. É questão de tempo e paciência.
Entretanto, não se deixe desesperar nos primeiros embates da vida. O Brasil é campeão de crises. Todas, mais dia, menos dia, acabam. As estruturas de gestão vão precisar, agora de pessoas como você. Se estudou e aprendeu para ficar apto a realizar tarefas no serviço público, quando houver novos concursos, será aprovado.
Por outro lado, há muitas outras oportunidades além da “vida segura” na estabilidade do emprego público. As empresas privadas sobreviventes -afora aquelas com acesso a crédito fácil de bancos oficiais e contratadas para serviços e obras a órgãos públicos- podem ser um caminho.
As empresas privadas não vão poder pagar, inicialmente, os valores do pródigo governo, mas você deve ser ativo, capaz de executar as tarefas a si delegadas e se enquadrar na filosofia própria de cada uma delas. O caminho poderá não ser tão árduo. Dependerá não da sua subserviência ou jeitinho, mas do seu desempenho.
Você já ouviu contar histórias de pessoas a montar o próprio negócio? Essa é outra alternativa, mesmo com dinheiro seja curto. Procure saber de suas habilidades, dos seus conhecimentos e, principalmente, leia jornais, revistas, livros, frequente palestras e mude o seu olhar. Descubra oportunidades. Encarar a vida privada não é fácil. Não há férias, os lucros são baixos, a aposentadoria é risível, há impostos a pagar e você precisa tomar decisões rápidas em funções das ondas do mercado, tal como as marés. Haverá muitos impostos a pagar, mesmo se optar pela empresa simples.
Já ouviu falar em empreendedorismo? Leia sobre isso. Pesquise o não existente na região onde mora ou nas cidades próximas. Para ser empreendedor é preciso entender as práticas da atividade. Se for familiarizado com a informática, melhor ainda. Há muita ideia nova surgindo. Crie ou venda produtos simples, de baixo preço. Uma recomendação: não imite, tente fazer o novo, descubra algo e veja se a ideia bate com o seu sonho. Sem sonhar e idealizar a vida perde o sentido.
Converse com a sua família, troque ideias com amigos, procure alguém mais velho da área escolhida, faça cursos breves, vá a palestras e se debruce sobre a internet. Tenha foco, disciplina e aja. Estabeleça um pequeno projeto e vá analisando ponto por ponto. Visite parques tecnológicos de universidades, desvende as inovações e não esmoreça.
As oportunidades existem. Elas dependem de gente com capacidade, habilidade e tenacidade. Há assessorias e materiais de leitura em universidades e afins. Fuja de gente temerosa. Arme-se de vontade e vá em frente. A vida é jogo de um só tempo. E corre rápida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2015

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MANHÃ FELIZ PARA QUEM NÃO SABE O AMANHÃ – Jornal O Estado

“Se a miséria dos nossos pobres não é causada pelas leis naturais. Mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa”. Charles Darwin
Nos dias 7 e 8 próximos estaremos realizando o “Manhã Feliz”. Esse projeto ajuda a crianças que se situam na linha de pobreza e em situações de risco, auxiliadas por escolas, asilos, hospitais e instituições. O fazemos por sentimento de pertença, filhos que somos da mesma terra, por termos a convicção de que esta cidade ainda vive uma apartação social e precisa de iniciativas particulares sérias para dar um pouco de conforto, bem-estar e alegria a pessoas que nunca foram a um cinema, também não brincaram em um parque de diversões, sequer sabem do “Dia da Criança” e não foram aquinhoadas com presentes por seus pais ou responsáveis, quando os têm.
Imaginar e manter um projeto dessa envergadura requer estratégia especial, desde a escolha das instituições – devidamente identificadas, checadas e credenciadas – até a quantificação exata de crianças a serem distribuídas em quatro salas de cinemas, com direito a pipoca e refrigerante, bem como mantê-las em filas para, em seguida, conhecerem e usarem, livremente, brinquedos mecânicos, eletrônicos e, em especial, o nosso acolhimento.
Neste ano de 2015 estimamos em cerca de 2.000 o número de crianças a serem contempladas. Por essa razão, o evento se dará em dois dias. É preciso deixar bem claro que o fazemos por nossa conta e risco, sem nenhuma ajuda pública e sem a utilização de incentivos ou renúncias fiscais. Fazemo-lo por querer, não para bradar aos céus e receber palmas.
Sou filho de família de classe média, que teve a ventura de estudar em escolas particulares, mas nos foi ensinado que nunca devemos desperdiçar quaisquer oportunidades de ajudar o próximo. Na nossa casa as roupas iam passando dos mais velhos para os mais novos e esse aprendizado me fez consciente de que devo sempre olhar o mundo além da porta da nossa morada.
O “Manhã Feliz”, com palhaços, brincantes e todas as diversões já enumeradas, culmina com a entrega de presentes ou mimos a cada uma das crianças. Vocês não podem imaginar a alegria de cada uma ao receber uma boneca, uma bola de futebol ou um carro. Mas, o que nos move é o carinho de todos os nossos colaboradores envolvidos nesse projeto que requer meses de preparação e logística adequada para evitar atropelos.
Conquanto seja uma festa nossa, resolvemos, neste ano, convidar as senhoras Onélia Santana e Camila Bezerra, esposas, respectivamente, do governador Camilo Santana e do prefeito Roberto Cláudio, a presenciar e paraninfar essas manhãs felizes. Os atos são públicos. Não só isso, pedimos-lhes para indicar crianças de abrigos públicos. Não pretendemos benesses, tampouco reconhecimento, mas estamos procurando disseminar essa sinergia e animar outras empresas privadas a abrir sendas, como a que palmilhamos desde 2001. Para as crianças é brincadeira. Para nós é coisa séria.
Por fim, gostaria de convidar o leitor a comparecer ao “Manhã Feliz”. Festa singela com a algazarra e a musicalidade natural dos pequenos. Relembro: será nos dias 07(quarta-feira) e 08(quinta-feira) próximas, a partir das 08h00 até o meio-dia. Ia esquecendo: o endereço é o do Shopping Benfica, Avenida Carapinima, 2200.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2015

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NÓS E O CAOS – Diário do Nordeste

A herança portuguesa nos fez prolixos. Os de outros sangues, aqui aportados no fim do século 19 e nas primeiras décadas do 20, incorporaram, em parte, a nossa falação. Quase todos gostam de falar muito, especialmente os que não sabem articular e os que não nada têm a dizer.
Hoje, neste começo da dita primavera em país quase todo equatorial, estamos sendo bombardeados nas mídias, nas ruas e em nossas casas com a “grande crise brasileira”. Ela nada mais é que a crença de que alguém ou alguns poderiam ou podem resolver os nossos problemas. Na verdade, ninguém se importa com eles, havemos de curá-los com nossas próprias forças. Ninguém de Brasília nos ajudará.
A cada dois anos somos chamados a votar. Tudo o que está posto é o produto das nossas escolhas. Se erramos, não podemos transferir a culpa para administrantes havidos como parlapatões, despreparados, embusteiros ou atrapalhados.
Nós, os eleitores, os escolhemos e criamos o mito sobre salvadores da pátria. Não os há. A pátria é a soma das nossas invidualidades, dos nossos egoísmos, das nossas omissões, da sempre busca por algo cobiçado e que não nos pertence. É o ter mais a qualquer preço, mesmo sem carecer.
Agora, a crise está instalada. Nada há a ser consertado, exceto nós mesmos. Não esperemos uma concertação política, pois a “práxis” nos mostra o contrário. Não há jato suficiente para lavar todas as sujidades expostas e as ainda não afloradas, Brasil afora. Hoje, nos cabe não potencializar o caos auto imposto. Chega de conluios e tramas. Basta de cassandras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2015

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A PERPLEXIDADE E AS ESCOLHAS QUE FIZEMOS E FAZEMOS – Jornal O Estado

“Faço parte do mundo e no entanto ele me torna perplexo”. Charles Chaplin.
Viver é um ato de resistência. A cada instante somos forçados a tomar decisões. Há uma colisão, a rua fica interditada. Como pedestres, ciclistas, motociclistas, passageiros ou motoristas devemos chegar aos nossos destinos. Assim, por razões alheias ao previsto, decidimos: a) ficar parados; b) encontrar uma rua secundária para continuar o nosso caminho.
Se ficarmos parados, nada muda. Só ouviremos as buzinas, a espera interminável pela perícia e pelos guinchos. Viver é conviver com o imprevisto. Ao concluir o ensino médio, somos orientados por pais e professores a fazer escolhas. Eles nos sugerem o que acreditam ser o melhor para o nosso futuro. Mas, e a vida é cheia de mas, nós devemos – e precisamos – com a inexperiência de adolescente, refletir se o indicado é aquilo que realmente queremos.
E, cá para nós, é muito difícil fazer escolhas fundamentais em qualquer tempo de nossas breves, médias ou longas vidas. Não temos binóculos para ver o futuro, tampouco sabemos aonde a decisão nos vai levar. Entretanto, se tivermos lido bastante, poderemos seguir, talvez com menos riscos, o caminho novo que se nos abre, a partir das informações e das simulações mentais feitas instintivamente.
Depois da escolha, admitindo que fomos persistentes, estudiosos ou nem tanto, nos deparamos com o primeiro fim de linha. Agora, deixei de ser estudante, tenho uma profissão que escolhi e preciso fazer dela o meu meio de vida. E aí você fica só. A solidão é a companhia dos que procuram tomar decisões para continuar e não ficar engarrafados pelas colisões que o destino nos impõe a cada dia.
Assim, emergimos como profissional ou colaborador de empresa ou órgão governamental. Meio sem bússola vamos procurando o que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer. Não há no mundo real um GPS a indicar aonde chegar. Tudo é tentativa e erro. Nada que a tecnologia da segunda metade do século passado ou o seu emergente aprimoramento nestes primeiros 15 anos dessa nova centúria que é o 21, possa nos dar certeza.
A vida não oferta certezas. Ela sugere opções múltiplas. Temos, com o nosso cabedal de conhecimentos, um samburá para depositar nossas quase vitórias, as muitas desditas e os poucos acertos. O tempo não é aliado de ninguém. Ele simplesmente vai indo. Segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.
Entre cada novo dia há uma noite em que, bem ou mal, paramos para refletir e dormir. Das reflexões e dos sonos emergem os sonhos. Os sonhos até hoje não foram bem explicados por neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Nem eles entendem os deles. Tanto é verdade que, de tempos em tempos, “a interpretação dos sonhos”, escrita por Sigmund Freud, sábio, mas conflitado, vai sendo alterada por tantas quantas são as correntes do pensamento científico ou humanístico.
Neste momento brasileiro, em que cada dia surge nova e alarmante revelação, não há como não entrar em engarrafamentos mentais, pois fomos nós os que colocamos os falazes que estão aí. Ou somos os que não fomos suficientes coesos para impedir as suas escolhas. Agora, não importa. O passado sempre chega com os seus fantasmas, as suas cobranças e as muitas mídias querem decisões e soluções que custam a chegar. Quando chegam.
Enquanto isso, porque não podemos parar nos descobrimos com as manhãs que nos impõem agir com um mínimo de certezas e um balaio de dúvidas. Infelizmente, não possuímos a ventura de, como fez o poeta Fernando Pessoa, criar heterônimos diferentes para dividir e traduzir os nossos múltiplos humores, conflitos e sentimentos. Somos um só e já basta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2015.