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MÉXICO E BRASIL – Diário do Nordeste

Amanhã, 25, os presidentes Peña Nieto e Dilma Rousseff assinam, na sede do governo asteca, acordos que incluem, entre outros itens, a área acadêmica, cooperação agroindustrial e a diminuição de tarifas de importação. Ato importante.
José Antonio Meade, secretário de Relações Exteriores (SRE) do México, diz: “esse conjunto de acordos reflete a amplitude de nossas relações”. Na verdade, a pretensão é a de que, até 2025, os negócios bilaterais atinjam US$ 18 bilhões, por ano. Hoje, o Brasil importa mais produtos mexicanos do que exporta, a partir de veículos, autopeças, produtos químicos, máquinas e materiais elétrico-eletrônicos.
Tive a honra de presenciar, em 2002, no Itamaraty, o “acordo mútuo de preferências tarifárias” que concede descontos nas alíquotas de importação dos dois países. Hoje, há cerca de 800 produtos cobertos. Para quem não sabe, empresas mexicanas são controladoras da América Móvil, a Claro, e da Femsa, distribuidora da Coca-Cola. Outras desejam vir.
Com tato e ponderação, Rousseff e Peña tentam ajustar suas posições políticas em relação à busca pelo Brasil de cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU-Organização das Nações Unidas. Por trás das negociações há o trabalho da SRE, bem urdido, aqui no Brasil, pela embaixadora mexicana Isabel Paredes.
Para os brasileiros não há mais necessidade de visto nas idas ao México. Isso favorece o turismo, ao mesmo tempo em que fortalece a compreensão das similitudes que unem os dois países. Que floresçam as relações.

João Soares Neto
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/05/2015

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DO QUE FALAR EM TEMPOS DE SURF – Jornal O Estado

“Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender”. Alexandre Herculano.
Bem que gostaríamos de falar coisas amenas, dizer das nossas conquistas no surf na praia da Barra da Tijuca, com jovens parafinados na areia. No alto dos morros há favelas. Filipe, com i, Toledo, vencedor da etapa Rio do surf mundial, é o novo herói nacional. Carros de bombeiros a postos. O surf deve ser formidável para manchetes de televisões que veem nos esportes apenas um meio de captar anunciantes.
Não gostaríamos de ouvir megafones de manifestantes e grevistas a reclamar disso e daquilo, enquanto vias ficam entupidas de veículos parados à espera da saída deles que pouco estão ligando para o caos que provocam. Dizem que vivem no próprio caos e não faz mal importunar os outros. Outro dia foi pelos direitos da criança. Ontem, trabalhadores. Hoje, um velho carro de som alteradíssimo, vendendo pré-pagos da OI, em local proibido e abusando da paciência de todos.
O sociólogo espanhol Manuel Castells, professor de sociologia da comunicação da Universidade da Califórnia, em palestra em Salvador, nesta semana, no ciclo “Fronteiras do Pensamento”, que reúne brasileiros apoderados, disse: “A imagem mítica do brasileiro simpático só existe no samba. Na relação entre as pessoas, sempre foi violento. A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se mata. Esse é o Brasil que vemos hoje na internet. A única coisa que a internet faz é expressar abertamente o que é a sociedade em sua diversidade. Trata-se de um espelho”. Quem mostrou em página inteira (A2- 18.05.2015), parte dessa palestra, foi Sylvia Colombo, da Folha de São Paulo.
Não vou falar que o primeiro ministro de Luxemburgo casou com um belga e virou manchete mundial. Tampouco na caçula do príncipe inglês que posou feliz com a filhota de muitos nomes próprios, inclusive o da avó falecida em discutível acidente em túnel de Paris. Tampouco de Suárez, Neymar e Messi, que ganharam, pelo Barcelona, o campeonato espanhol de futebol.
Não vou dizer do Exército Islâmico que está a 100 quilômetros de Bagdad, capital do Iraque, país que vem sofrendo com guerras e ocupações, desde há muito. Este assunto não preocupa os que moram no hemisfério sul. Há uma teoria de que tudo o que acontece em algum lugar interfere na vida do outro, independente de onde vive. Bom fim se semana.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2015

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SAÚDE DO BRASIL – Diário do Nordeste

A Constituição de 1988 universalizou a saúde. Todos têm direito ao SUS. O Brasil posou de rico e a realidade é o contrário. O sistema de eleições a cada dois anos é inadequado. Não há tempo para administrar. Haja política.
A maioria dos municípios não possui estrutura hospitalar. Bastam as ambulâncias, próprias ou terceirizadas.
As capitais ficam abarrotadas de doentes, desde gripes até cirurgias complexas. A falha é sistêmica.
Enquanto o Brasil não mudar o calendário eleitoral, não sairá do atoleiro. Eleição requer dinheiro. Obtido a qualquer custo. O descoberto na Petrobras pode ser replicado no BNDES, e aí não parará mais.
O sistema político está infectado, e só o povo pode mudar isso. O povo, sadio ou doente, é sujeito e objeto de tudo o que foi alardeado em ricas propagandas fantasiosas. O Estado democrático de Direito, tão citado, precisa de ajustes estruturais, como a reforma política, coincidência de eleições, prazo de cinco ou seis anos de mandato, extinguir o compadrio entre empresas/governantes, diminuir o custo Brasil retirando parte das receitas do milionário sistema “S”, a viver dos trabalhadores e dos empresários, para fazer lobbies e pouco produzir.
Há dirigente nesse sistema com mais de 40 anos de mandato dado por federações e sindicatos que, igualmente, precisam ser enxugados.
Sem falar nas centrais sindicais, nas ONGs e tudo o que foi inventado para sugar o País.
Viva a imprensa que, na democracia, pode apontar os erros de alguns mandatários que o povo não soube escolher. O maior doente é o Brasil.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/05/2015

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A ESCRAVIDÃO, A IGREJA, OS COLONIZADORES E A FARSA DO 13 DE MAIO DE 1888 – Jornal O Estado

“A história da escravidão é um abismo de degradação e miséria que não se pode sondar”. Joaquim Nabuco.
Ouso sondar e o faço sem medo, pois a história sempre é contada pelos vencedores e por historiados complacentes. É claro que as poesias de Antonio de Castro Alves são um libelo e o que João Capistrano de Abreu escreveu merece fé. Ambos deveriam ser lidos por quem acredita que a escravidão foi apenas um período de degradação de história mundial. A escravidão ainda existe, embora com outros nomes. Os imigrantes indocumentados que trabalham clandestinamente são tratados como escravos.
Aqui no Brasil há isso, ainda hoje. A diáspora pela sobrevivência de muitas raças é a confirmação do que explano. Um pequeno exemplo: a fuga da pobreza de haitianos para o Brasil é prova disso, sem falar na enganação dos últimos anos sobre uma ação humanitária do Brasil em países africanos. Na verdade, as grandes empresas que para lá foram queriam mercado de trabalho a base de propinas. Tal como aqui se faz. E os “nativos” foram e são usados apenas como mão de obra barata.
Pessoas eruditas, e outras nem tanto, fazem cara de pena quando veem em jornais, nas revistas e nas redes de televisão o morticínio de negros africanos que, por absoluta falta de oportunidade, fogem de seus países assolados por desemprego, por fome e por doenças. Tudo comandado por ditadores patrocinados pelas potências ocidentais ou governos “democratas” locais em eleições forjadas e viciadas.
Neste 2015, pessoas e famílias usam todo o dinheiro amealhado – sabe Deus como – para serem transportados em novos navios negreiros de bandeiras diferentes que, em meio ao mar mediterrâneo, afundam, jogam passageiros doentes ao oceano ou “são afundados” por guardas costeiras.
Segundo estatísticas da própria Organização das Nações (des)Unidas – ONU, morreram na travessia, em 2104, 3.500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Estatística, dizem uns, é a ciência da dúvida. Morreram muitos mais. Se tiver a cabeça metida em um “freezer” e os pés em uma fogueira, a média estará boa. Os navios afundados – e não são poucos – repousam no fundo do mar e ninguém se importa com isso.
Verdade seja dita, a Europa, que eu conheço de ponta a ponta, abomina a chegada de negros e árabes, embora disfarce. A Alemanha de hoje, além dos “abomináveis” turcos, conta com uma massa grande de árabes e negros que sobrevivem em subempregos ou servem aos traficantes de drogas que os cooptam.
Os camelôs negros da Itália estão sempre próximos aos pontos de atração de um país que tem no turista uma das suas grandes fontes de renda. Hoje, eles são disputados por chefes de contrabando e de tráfico quando saem do Porto de Lampedusa e se misturam em guetos. Em outros países europeus nada é diferente da Alemanha e da Itália. Lembram-se do ataque ao tabloide “Charlie”, em Paris?
A tal da libertação falaciosa dos escravos em 13 de maio de 1888 no Brasil foi pouco mais que um ato político preparando a proclamação da República. A história do tráfego de escravos em Portugal, dita nossa pátria mãe, começou no século XV, desde 1448, sob a égide de D. João III, antes mesmo da descoberta do Brasil. Como se sabe, Portugal só se lembrou da existência desta sua então colônia brasiliana depois de 1530.
O reinado de Portugal, em 13 de março de 1531, instituiu as Capitanias Hereditárias, não por ser bonzinho, mas pela incapacidade de gerir tantas colônias no ocidente e oriente, até na China, onde Macau foi portuguesa até bem pouco. Era conquista demais para pátria lusitana cantada em verso nos “Lusíadas”, por Camões.
Saibam vocês que o Papa Nicolau V, da Santa Igreja Católica, até editou a Encíclica “Dum Diversitas” liberando a escravatura. A “Dum” vigeu entre 1513 e 1605. Na realidade, a Igreja queria apenas cristianizar negros que tinham as suas fés próprias, ainda hoje arraigadas em todos os países em que habitam. Ao lado disso, não se pode esquecer as atrocidades da Inquisição na Idade Média.
Diz Felipe de Alencastro, sobre o problema da escravocracia brasileira: “A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompasso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia da classe dominante.” Quem leu alguma coisa de História sabe que os portugueses, os espanhóis e os ingleses foram os maiores fornecedores de escravos, a partir do século XVI. Mas, é preciso deixar claro que a escravatura é antiga, bíblica até, apesar dos discursos de democracia, consumidores e usuários de escravos.
Carregar um pacote, construir monumentos e palácios não eram coisas para cidadãos. Cabia aos escravos esse “trabalho sujo”. Assim, ninguém se espante que os comerciantes, a partir do século XVI, fizessem do tráfico de negros da Costa do Marfim, Angola, Nigéria, Moçambique e outros lugares, um grande negócio. Cada navio, movido a vela e até com ajuda de remos, usando astrolábios, era uma empresa flutuante que importava e exportava, por viagem, em torno de 400 africanos para os mercados das Américas do Norte, Central e do Sul.
No Brasil, as capitanias mais desenvolvidas, Pernambuco, Bahia e Rio de janeiro, tiveram os seus negócios de agricultura de açúcar e do ouro, movidos pelos braços fortes dos que eram vendidos, como mercadoria, em praças públicas. A nossa Igreja, enquanto isso se preocupava em transmitir a fé aos silvícolas e usar a sua mão de obra para a construção de templos, desde as “Missões”, no extremo sul do Brasil colonial, passando pelo Rio, as Minas Gerais, a Bahia e chegando a Pernambuco e a outras plagas.
A “Lei Bill Aberdeen”, de 1845, proibiu de fato, mas não de verdade, o tráfico de escravos por navios da Inglaterra. Aqui no Brasil, em 1850, copiando – sempre por atraso no pensar – surgiu a Lei Eusébio de Queiroz, com quase o mesmo objetivo.
Estas são as razões pessoais que não me fazem comemorar o dia 13 de maio. O Brasil vive momento crucial de sua história. Há tramas urdida por muitos, alimentadas apenas por interesses que já se tornam claros, pois sequer há mais um mínimo de desfaçatez. Hoje, os eleitores brasileiros tornaram-se escravos de seus próprios escolhidos, independente dos partidos políticos que os abriguem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/05/2015.

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NÓS E AS POLÍCIAS – Diário do Nordeste

Nós, no caso, somos todos os que compõem a sociedade. Quer moremos em comunidades ou condomínios. Somos os que acreditamos respeitar as leis, mas não nos damos conta quando cometemos infrações no cotidiano.
As polícias nos são convenientes quando delas precisamos para encontrar o carro roubado e o descuidista que levou o celular exposto em mesa. Elas são importantes quando as luzes de seus veículos nos brindam com a quase certeza de estar alerta na noite alta, mas nos incomodam ao exigir o teste do bafômetro e vistoriar o carro. Por outro lado, as operações da Federal atingem objetivos.
Elas nos sublevam quando não recolhem sem tetos e menores a cheirar cola ou fumar “crack” nas ruas.
Para onde levá-los? Abrigos estão abarrotados. Elas são louvadas quando prendem delinquentes em operações. Elas nos chateiam ao fazer busca de armas e pedir a identidade em lugares públicos. O que seria das cidades sem as polícias?
Houve e há situações limite. Confrontos recentes não foram bons. O medo e a boataria infectaram a muitos. Greves, movimentos democráticos e afins devem expressar anseios e queixas.
Precisamos fazer um pacto com as Polícias. Elas precisam cumprir o seu dever e nós não podemos fugir da civilidade e da idoneidade em nossos atos pessoais, profissionais e públicos. Não é lícito denegrir instituições por conta de minorias aéticas. Se os policiais nos metem medo, há algo errado. É preciso repensar. Custa nada cumprimentá-los. As Polícias Civil, Militar e Federal são nossas guardiãs em tempos duros.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/05/2015.

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MOMENTOS DE GLÓRIA DO FUTEBOL LOCAL – Jornal O Estado

“O futebol não é uma caixa de surpresas.” JSN
Na noite de quarta-feira, 29.04.2015, o Ceará Sporting Clube ganhou, com merecimento (empate e vitória), o título de campeão da Copa do Nordeste, enfrentando o “Bahia”, em Salvador e em Fortaleza.
Alencar Pinto, Elias Bachá e Padre Gotardo, já falecidos, espargiam, do além, energias que se somaram às dos alvinegros de escol Luiz Campos, Eulino Oliveira, Antônio Góis e Evandro Leitão, entre milhares de outros. Deu certo. A conquista, com planejamento e uma equipe com brio e categoria, avalizou novo ânimo ao futebol cearense que, de há muito, saiu da elite do “soccer” brasileiro e do regional.
Na tarde-noite de domingo, 03.05.2015, em jogo eletrizante, o “Fortaleza”, com a “raça” dos velhos tempos, conseguiu vencer o Campeão do Nordeste, seu maior adversário. O jogo foi belo, não fora o “frango” que Deola aceitou. O “Ceará”, quase ao final, foi para cima e, Assisinho, ex-Fortaleza, vibrou ao fazer o gol que daria o penta do “vovô”, em gramado. Os tricolores contestam o penta judicial.
Faltavam menos de três minutos e a mística daquelas camisas, cunhada por Blanchard Girão, não aceitava o placar. Do infinito, Mozart Gomes, Francisco Bezerra de Oliveira, Otoni Diniz, José Raymundo Costa e Ney Rebouças espargiram graças que se irmanaram aos pensamentos de Silvio Carlos, Renan Viera, Osmar Baquit e Jorge Mota. Todos apelando ao Pai eterno. Foi aí que aconteceu o gol de Cassiano para o Fortaleza Esporte Clube, campeão estadual de 2015. Muitos, nos silêncios de seus quartos, por, temeridade, não irem mais aos estádios, riram e choraramZ

A alegria dos resultados justos do “Fortaleza” (uma vitória e um empate) deve ser compartilhada com o eco glorioso do “Ceará” ao vencer o “Bahia”, em título nordestino, que dá ao nosso futebol a oportunidade de respirar e pensar em futuro lisonjeiro, apesar de integrantes das torcidas organizadas, que complicam. A festa esportiva virou tumulto pela insegurança da estrutura física que vê o estádio apenas com senso estético e fonte de renda.
Acontece que a paixão, misturada ao álcool e à força incomum das torcidas organizadas no Brasil, causam, de forma repetitiva, grandes estragos. Domingo passado, não só em Fortaleza, mas em outras cidades, houve invasões de campo. Destaco o jogo entre Internacional e Grêmio. Basta pesquisar nas redes sociais e encontrará outros fatos degradantes. A favor do Brasil, diga-se que os “hooligans” britânicos são mais vândalos que os nossos.
Os bons desportistas – a grande maioria – compram ingressos, levam familiares, sofrem, amam, têm capacidade e vontade de ajudar os clubes para os quais torcem. Fica essa certeza, passadas as emoções de domingo, 03 de maio de 2015.
Por outro lado, objetivamente, creio que os presidentes do “Ceará”, Evandro Leitão, e o do “Fortaleza”, Jorge Mota, de cabeças frias, devem, com bom senso, ter o descortino de procurar, neste momento, aumentar o número de sócios torcedores, além de providências outras para que ambos os clubes possam dar novas alegrias a seus torcedores, com segurança física
Parabéns merecidos aos jogadores do “Ceará” e do “Fortaleza”, aos seus milhões de torcedores de fé e às duas diretorias. O futuro sempre começa amanhã. É preciso criar um novo tempo para o futebol cearense. A Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado precisam engajar-se neste movimento que dará “recall” de imagem à Fortaleza e ao Ceará. Segurança nos estádios e apoio estratégico. É hora.
De público, assumimos o compromisso de ceder espaço digno, equitativo e gratuito aos dois clubes, para que as direções dos alvinegros e tricolores, em exposição rica e simultânea, mostrem os seus antigos e os atuais troféus conquistados aos torcedores. Aproveitem o ensejo e encetem campanha para conquistar novos sócios torcedores, sem rixa e com pensamento elevado, para dar sustentação ao já alcançado neste ano de 2015. Há um longo caminho ainda. Ao clube que, nessa exposição, obtiver o maior número de sócios torcedores, serão ofertados diploma e um admirável troféu, o de “Maior Clube com sócios torcedores”. O futebol no Brasil é mania entranhada que não vive apenas das copas do Mundo.
Como falei dos torcedores violentos (os hooligans) da Inglaterra, socorro-me de outro inglês, o William Shakespeare, quando na peça “Vida e Morte do Rei João”, diz: “Um cetro arrebatado com violência precisa ser mantido por processos iguais ao da conquista”. Será?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2015

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RICOS EM PESQUISA – Diário do Nordeste

A base é a pesquisa “When is enough…Enough” – Quando o suficiente…Suficiente- que pode ser vista no www.Businesstimes.Com. A partir de dados do UBS, com 2.215 entrevistados, rico, nos EUA, é quem tem patrimônio líquido acima de R$ 3 milhões e até R$ 15 milhões. Foram atrás das precisões, das intenções e dos medos dos ricos. Encontraram: a maioria ainda sente insegurança e acredita que precisa trabalhar mais. Em análogo, há quem tenha medo de perder o já amealhado. Desconfia que os seus herdeiros não sejam tão ativos quanto ele. Sobre o mesmo tema, a repórter Beatriz Cutait, do Valor Econômico, refere: “O trabalho pesado foi citado como a principal razão da geração de riqueza dos mais afortunados, que mudaram de classe social ao longo da vida”. Dois terços acreditam que trabalharam muito e não atentaram para o devido cuidado com a família. Por outro lado, indagados sobre qual o maior remorso da vida, responderam, pela ordem: problema no relacionamento familiar e não fruir mais tempo com pessoas queridas. Instigados pela dolorosa pergunta: Se tivessem apenas mais cinco anos de vida, o que fariam? 64% desejam viagens de lazer, 61% esperariam ficar bem próximo da família, 44% deixariam de trabalhar e 37% mudariam os seus comportamentos, com foco na afetividade. Do que se viu pode-se concluir que os ricos, apesar da ostentação de suas posses, não surgem mais felizes que a classe média que busca segurança, moradia e veículo próprios, e viagem anual de férias. Ricos são competidores. A velha história: “a grama do vizinho é mais verde que a minha”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2015.

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AUDIFAX, RIOS DE SAUDADE – Jornal O Estado

“É importante registrar, de antemão, para conhecimentos dos novatos que esta tertúlia há muito vem acontecendo, heterogênea e informal…”, Audifax Rios, 20.02.2002
Sábado passado, o “Clube do Bode” perdeu o seu secretário Audifax Rios. Cuidadoso, ele ligara de Santana do Acaraú, sua terra natal, e pedira ao Sérgio Braga, “pai-de-chiqueiro-mor”, que colhesse as assinaturas dos presentes.
Como se sabe, o Clube do Bode é entidade “sui generis”, cunhada em 2000, a reunir, de forma desconvencional e anárquica, escritores, artistas plásticos, poetas, ex e atuais políticos de tendências mis, jornalistas, compositores, cantores, profissionais liberais, empresários e outros, cristãos ou ateus, que por lá aportam com objetivos pessoais, comuns ou peculiares.
Os caprinos comparecem às sextas noturnas e aos sábados matutinos na sede aos fundos da longeva “Livros Técnicos”, justo na sala do Braga que a todos recebe no espaço conflagrado por opiniões colidentes, vozes exacerbadas, bebidas e petiscos, por conta da casa.
Quando a sala superlota, o grupo se desloca para a calçada adjacente. Só aí cada um passa a pagar a sua conta, servidos por distintos garçons. Há 13 anos, Audifax virou o nosso Pedro Vaz Caminha, registrando tudo em 691 atas, a partir de 20 de fevereiro de 2002, enfeixadas em 38 volumes. Ele o fazia com precisão jornalística, não só as presenças, mas os “causos”, as gabolices, os livros lançados, caricaturava, colava recortes de jornais e, infelizmente, o registro da morte de pares.
Pois não é que, logo após a ligação, ao banho, o Audifax teve encontro relâmpago e definitivo com a nefanda. Essa, sempre à espreita, modo e jeito aleatório, ceifa inteligências e outras, nem tanto. Autodidata, fez-se, por sua conta e risco, cenógrafo, ilustrador, xilógrafo, pintor, criador publicitário, romancista e, por último, jogou a timidez para o alto e assinou, por anos, crônica semanal no “O Povo”.
Ele e eu tínhamos boas conversas, a partir de sua mordacidade e da sua abstemia que o fazia vigilante das tagarelices, dos egos inflamados e dos que lá vão apenas para estar perto dos que lhe interessam.
Fiquei triste quando o Ubiratan comunicou-me o infortúnio. Perdi a graça. Só aquietei-me quando o vi, sereno em sua horizontalidade, com camisa multicor, pranteado pela família e por centenas de amigos e admiradores. Registro cinco depoimentos de amigos do Audifax. Cada um a seu jeito:
1-B. C. Neto: “Indescritivelmente entristecido, hoje assinarei uma ata diferente. Fugitivo, confesso das grandes dores existenciais, nunca apareço nem enfrento esses momentos. Tem sido assim. De repente, me encontro no vácuo para escrever sobre um amigo-irmão e publicar na marcante ata da vida. O Audifax sempre me lembrou de nosso sangue armorial de nordestino autêntico, que escorre, lentamente pelos córregos, veredas e tabuleiros do nosso sertão, rumo ao mar, onde recebeu carimbo e cidadania plena de cearense fidedigno. Continuaremos nossos cânticos e benditos na procissão dos lutadores”.
2. Durval Aires Filho: “Admirado por sua simplicidade, Audifax nasceu artista plástico, começando a trabalhar no canal 2, pintando cenários, convivendo com João Ramos, Emiliano Queiroz, B.de Paiva e Augusto Borges, entre outros talentos. Possuía um traço inconfundível, expressando, com carga emotiva, toda realidade do semiárido. Foi excelente escritor. Quando publicou “Bar Peixe Frito”, há quase quarenta anos, comemoramos. Depois do texto, peixe assado e aguardente. Era alegria encontrá-lo na companhia de Carlos Paiva, Augusto Pontes e Gervásio de Paula. Agora, compartilho com a D. Valda, Mariana, João e com infinidade de amigos, a tristeza de sua ausência. É a vida, meu senhor!”.
3. Paulo de Tarso Pardal: “Iniciei minha vida nas artes por meio do Audifax. Aprendi quase tudo com ele. E ele se fez meu professor, sem pedir para sê-lo: ele, simplesmente, foi me ensinando, sem saber da transformação por que eu passaria, logo após nossos primeiros encontros. Acho que, pela simplicidade e pelo prazer de ensinar. Na verdade, acredito que ele era despregado do mundo. Ele vivia aqui, porque tinha como missão ver o mundo diferentemente e ensinar as pessoas a serem assim. Penso que, em parte, ele conseguiu, porque muitos modificaram suas vidas pelos seus ensinamentos. O mais importante é que ele já está presente dentro da gente e dentro de muitas casas, mesmo não estando mais aqui.”
4. Ubiratan Aguiar: “Ele fez da simplicidade a marca registrada do seu talento. Nos traços, nas letras, nas cores de suas telas estavam presentes a alma sertaneja do homem da Santana, o verbo candente dos que clamam por justiça social. Sóbrio no dizer, fraterno nas amizades, abriu caminhos e fez história na vida cultural de Fortaleza. Encontrou-se no Clube do Bode e em um processo de simbiose ficou difícil identificar diferenças e semelhanças entre eles.
Audifax escreveu sua vida com a grandeza da humildade, a disponibilidade no servir e a elevação de princípio.”
5. Virgílio Maia: “Audifax e eu nos conhecemos e travamos imediata amizade por volta de 76, quando vim de Minas: para mim, foi como achar ouro em pó. Difícil se encontrar, se é que se encontra pessoa de melhor caráter, incapaz, absolutamente incapaz de cometer, com quem quer que seja ou fosse, a mínima descortesia ou deslealdade. Possuidor de alma vocacionada à boêmia e às artes, soube, porém, mediar esse chamamento como àquela outra vocação que igualmente lhe completava: a familiar. Foi marido, pai e avô cheio de compreensão e de amorosa ternura. Fizemos várias parcerias artísticas, ele pacientemente ilustrando algum verso que eu houvera cometido. Publicamos em conjunto, pela Editora Giordano, de Sampa, a “Via-Sacra Sertaneja”. Audifax foi de um tudo: romancista, xilógrafo, cordelista, pintor, editor, publicitário: era meio renascentista, o que quisesse ser, fazia o que queria, o ‘homo faber’. Mas lá se foi meu nobre amigo Dom José de Santana: era assim que eu o chamava.”
A missa de 7º. dia será hoje, sexta, 1º. de maio, às 20h30 na Paróquia de Santa Luzia. Requiescat in pace

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2015

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MELHOR DA CIDADE? – Diário do Nordeste

Semana passada, revista nacional apresentou, em suplemento, o que 29 jurados “recrutados”, divididos em dois grupos (comes e bebes, 15; lazer e cultura, 14), decidiram ser “0 melhor da cidade” de Fortaleza. Nada contra os “recrutados”. Há, entre eles, pessoas com capacidade analítica.
Listas de premiações provocam dúvidas, em face da ausência de coerência/estratificação de faixas e das claras vinculações entre indicados e a área comercial da edição.
Acresça-se que no item “como funcionou a votação” há uma decisão singular: “… Quando a questão continuou sem solução, a equipe de …., apoiada em avaliações in loco, aplicou o voto de Minerva”.
A própria revista, em caso de empate, decidiu quem venceria. Procuramos ler um pouco e, no site www.ufsj.edu.br, da Universidade Federal de São João del-Rei,MG, vimos trabalho da Ph.D. Marina Bandeira. Ela diz: “A validade externa de uma pesquisa vai depender de se mostrar que os resultados obtidos não são dependentes da amostra ou da situação particular dessa pesquisa, mas que suas conclusões são verdadeiras também para outros contextos, outras pessoas (g.N)”.
Ora, como dar crédito a pesquisa que, no mesmo exemplar, traz propaganda paga de página inteira – e até dupla – de “premiadas”? Outro contrassenso é escolher empresas sem maturação existencial.
Tempo é história. O propósito é até louvável. Mas o que se viu: publicidade e indicação. Faltou isenção e distanciamento, básicos para a confiabilidade. Cortar os anúncios e pesquisar bem seria o caminho. O suplemento sairia? Utopia?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2015

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ELANO VIANA DE OLIVEIRA PAULA, O DEVANEADOR – Jornal O Estado

“Haja hoje para tanto ontem”. Paulo Leminski
Elano alterou o compasso da vida de muita gente. Explico: Eu o conheci no quarto final dos anos 60. Nesse tempo, eu, recém-formado, havia voltado dos Estados Unidos, após concurso. Por último, estivera na Europa onde alguns formandos em administração tiveram a audácia de, por ideia nossa, ir ver o velho mundo. Passagens luminosas na Fundação C. Gulbekian, em Lisboa, e na École Nationale de Administration, em Paris. Rodamos, de ônibus, pela Espanha, Suíça e Itália. Em Roma, furamos o cerco e vimos o aparato do Concílio Vaticano II.
De volta, posto em estudos e trabalhos múltiplos. Solteiro, participava, à noite, de turma no Náutico. Eu era o benjamim. Entre outros, pontificavam Fernando Távora, Lustosa da Costa, Lúcio Brasileiro e Danilo Marques.
Um dia, o Danilo informou que iria ao aeroporto apanhar o engenheiro Elano Paula. Disse que Elano estava querendo entrar no sistema financeiro da habitação do BNH. Eu, saído, falei: li tudo sobre o BNH. Na verdade, por minha inata curiosidade e formação em direito, havia lido a legislação do SFH. Danilo arregalou os olhos e pediu para levá-lo ao velho aeroporto no meu Karmann Ghia (cupê da VW com design italiano da Ghia).
O carro só possuía dois assentos na frente e um “banco da sogra” em que mal cabia um. O Elano, no assento do passageiro. O Danilo, no banco, apresentava-me e informava que eu havia lido os “livros do BNH”. Elano, de esguelha, perguntou: você sabe o que é Iniciador? Disse o que alcançara.
Encurtando a história, o Elano me desafia a ir ao Rio, sede do BNH, para desentravar processo que dera entrada há tempos e não saíra. Com condição: se eu resolvesse, seria pago. Caso contrário, nada. Fui e logo alcancei o objetivo.
Acontece que eu recebera convite para novo curso no exterior. As passagens esperavam na Varig, na Rua Barão do Rio Branco. Comuniquei ao Elano, que, matreiro, retrucou: “se você for ficar lá, tudo bem. Mas, se for para voltar ao no Ceará, o que você sabe já basta”. Pedi adiamento e devolvi as passagens.
A ideia do Elano, salvo engano, foi apresentada pelo Danilo ao Walder Ary, jovem professor da Escola de Engenharia da UFC: criar empresas correlatadas de construção, financiamento, indústria e planejamento para atuar no nascente BNH e fora dele. Nasceram empresas. Master, -depois Master- Incosa, Iplac, Domus, Credimus, Modulus, Estrela, Planos e outras. Maturidade e arrojo.
Juntaram-se à ideia valorosos nomes: João Parente, Crisanto Almeida, João Fujita, Lewton Monteiro, Antônio Porto, Lauro Lopes e outros mais. Posso dizer, sem exagero, que esse pessoal, misto de jovens e maduros, possuía multiplicidade de talentos, quase um embrião de universidade. Chegaram, depois: Ricardo Ary, Walter Monte, Raimundo Padilha, Ildefonso Rodrigues, Deusmar Queiroz, Almir Caiado, Alfredo Marques e Wagner Brito, entre outros. Todos com contribuição distinta para o êxito comum. A mim, cabia dirigir a área de planejamento, a Planos.
Volto ao Elano. Ele não alcançara bom sucesso no Rio. Fora sócio do irmão, Chico Anysio, em negócios que não prosperaram. Elano fez tudo em rádio e em TV, por trás das câmeras. A letra de “Canção de Amor” é dele. A melodia é de Chocolate. É standard romântico.
Aqui, montara a Incosa, atuante em construção pesada. Mas, a sua inventividade estava além de pontes, asfaltos e obras públicas. Era devaneador arguto e inveterado. Espiritualizado, cultura humanista e ideias não convencionais. Por sorte minha, trabalhamos e convivemos por cinco anos.
Um dia, lá na Iplac- Indústria Plástica Cearense S.A., da qual eu era diretor administrativo, disse ao Elano: “decidi que quero ser independente e não mais participar do grupo”. Então em franco crescimento. Ele nem perguntou a razão. Apenas, comentou: “eu esperava isso”. Abraçamo-nos.
O Nisabro acompanhou-me e, juntos, montamos a Cenpla. Dois anos depois, falei o mesmo a ele: “quero ficar só, para saber da minha verdadeira capacidade”. Era princípio. Permaneci com a Planos. O Nisabro se quedou com a Cenpla e com o Elano. Tudo criterioso.
Mantive sempre a amizade com o Elano, a quem admirava, longe dos negócios, como pensador além da centralidade. Foi uma das centelhas que me fez conduzir a Planos até aqui, reta.
Já no XXI, composto por três, ele, o Chico e eu, criamos o blog Maranguape que durou anos. Prefaciei e revi livros escritos por ele e em parceria com o Chico Anysio. Ele absorvera a Internet e passamos a trocar e-mails e a nos encontrarmos para papos aqui e no Rio, onde mantivera morada. Paredes ricas com quadros maravilhosos, inclusive alguns pintados por ele e o irmão famoso. Presenteou-me com uma “marinha” do Chico e uma “entrada com portão”, dele.
Sábado, no seu velório, ouvi as falas emocionadas do seu sócio José Medeiros Neto, da sobrinha Cininha de Paula e de Deusdetiza Silva. Eu, por meu turno, olhando o seu corpo, disse quase as mesmas palavras que agora escrevi. “Canção de amor, saudade”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2015.