Quando se passa da idade média – não a era, mas a do primeiro cinquentenário – manda a razão começar a prevenir a saúde do futuro. Ouvi de amigos, os que fizeram Pet-Scan ou Pet-CT por aí afora: devemos fazê-lo para prevenir ou descobrir doenças.
PET-CT, em palavras não minhas, significa uma tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, com substância radioativa (18-Fluor desoxiglicose ou outra). Havia tempo eu passara dos 50 agostos de vida. Um amigo ousou dizer: “Vá. O PetScan é o máximo”.
Crio coragem. Ouço um médico. Ele não diz sim, tampouco não: “se quiser, faça, pois tira as suas dúvidas”. Traduzindo, PetScan, mal comparando, é uma espécie de diagnóstico como os donos zelosos de carros fazem em oficinas autorizadas. Em resumo, é um exame feito por uma máquina sofisticada, com tecnologia de ponta, com alto custo de importação e pressupõe dar diagnósticos precisos.
Ele permite medir a atividade metabólica de possíveis lesões e nos leva a ter uma maior certeza de possíveis doenças neoplásicas em atividade. Para quem não sabe, onde se lê neoplásica leia-se câncer. É um trabalho a envolver medicina nuclear e radiologia.
Os amigos dizem: “Pegue um avião e procure a clínica ou hospital tal. Eu já fiz lá. É simples”. Quando lhe disserem isso, não acredite. Nada é simples. Você marca tudo pelo telefone, pega um avião e só pode fazer exame um dia depois, bem cedo.
Jejuar por seis horas e vai para uma clínica ou hospital. É bem atendido, imaginam ser você um retardado e começam a explicar e fazer perguntas. No meu caso, como não levei requisição médica. Liguei para cá, médico daqui e de lá conversam. A requisição por e-mail. Demorou. Cumprida essa etapa, pedem-me para assinar um documento liberando a responsabilidade deles e outros mais, inclusive passar logo o cartão de crédito.
Depois dessa tardança, visto roupa descartável e entra-se na rotina do exame: injetam a substância radioativa – e passa-se uma hora de molho, esperando a agudeza no organismo. Uma hora e qualquer coisa após, relembram-se da minha existência. Levam-me para um ambiente parecido com centro cirúrgico. Ligam tudo. Ficamos eu e a máquina sofisticada. Ela começa o seu trabalho. Faz barulho. Tuco, tuco e tuco!
Não tive medo. Só achava chato. A máquina indo e voltando. Dizem ser só 35 minutos. Não é. É mais. Enfim, param. Examinam o andamento em outra sala. E volta a máquina de novo ciscando sobre o corpo deitado e indefeso.
Tudo concluído, saí da máquina e pedem-me para tomar litros de água a fim de retirar a radiação. Dilúvios de xixi. Muito mais que você pensa. Fico, à força, descansando por duas horas. Peço um livro. Conseguem. Passo a ler.
Ao final, o médico vestido no seu jaleco, diz polidamente: “tudo correu bem e o resultado será mandado por Sedex em uma semana”. Ia esquecendo: oferecem um lanche “gratuito”. Dispensei. Queria sair de lá.
Uma semana e pouco depois – tam, tam, tam, tam! – chega um imenso envelope. Após aberto, vejo-me por dentro e de corpo inteiro. Tudo colorido. São várias páginas, um CD com laudos circunstanciados para dizer isso e aquilo. Poupo-os dos detalhes. Afinal, escapei. Ufa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2016.
