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REVISÃO MÉDICA NUCLEAR – Jornal O Estado

Quando se passa da idade média – não a era, mas a do primeiro cinquentenário – manda a razão começar a prevenir a saúde do futuro. Ouvi de amigos, os que fizeram Pet-Scan ou Pet-CT por aí afora: devemos fazê-lo para prevenir ou descobrir doenças.
PET-CT, em palavras não minhas, significa uma tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, com substância radioativa (18-Fluor desoxiglicose ou outra). Havia tempo eu passara dos 50 agostos de vida. Um amigo ousou dizer: “Vá. O PetScan é o máximo”.
Crio coragem. Ouço um médico. Ele não diz sim, tampouco não: “se quiser, faça, pois tira as suas dúvidas”. Traduzindo, PetScan, mal comparando, é uma espécie de diagnóstico como os donos zelosos de carros fazem em oficinas autorizadas. Em resumo, é um exame feito por uma máquina sofisticada, com tecnologia de ponta, com alto custo de importação e pressupõe dar diagnósticos precisos.
Ele permite medir a atividade metabólica de possíveis lesões e nos leva a ter uma maior certeza de possíveis doenças neoplásicas em atividade. Para quem não sabe, onde se lê neoplásica leia-se câncer. É um trabalho a envolver medicina nuclear e radiologia.
Os amigos dizem: “Pegue um avião e procure a clínica ou hospital tal. Eu já fiz lá. É simples”. Quando lhe disserem isso, não acredite. Nada é simples. Você marca tudo pelo telefone, pega um avião e só pode fazer exame um dia depois, bem cedo.
Jejuar por seis horas e vai para uma clínica ou hospital. É bem atendido, imaginam ser você um retardado e começam a explicar e fazer perguntas. No meu caso, como não levei requisição médica. Liguei para cá, médico daqui e de lá conversam. A requisição por e-mail. Demorou. Cumprida essa etapa, pedem-me para assinar um documento liberando a responsabilidade deles e outros mais, inclusive passar logo o cartão de crédito.
Depois dessa tardança, visto roupa descartável e entra-se na rotina do exame: injetam a substância radioativa – e passa-se uma hora de molho, esperando a agudeza no organismo. Uma hora e qualquer coisa após, relembram-se da minha existência. Levam-me para um ambiente parecido com centro cirúrgico. Ligam tudo. Ficamos eu e a máquina sofisticada. Ela começa o seu trabalho. Faz barulho. Tuco, tuco e tuco!
Não tive medo. Só achava chato. A máquina indo e voltando. Dizem ser só 35 minutos. Não é. É mais. Enfim, param. Examinam o andamento em outra sala. E volta a máquina de novo ciscando sobre o corpo deitado e indefeso.
Tudo concluído, saí da máquina e pedem-me para tomar litros de água a fim de retirar a radiação. Dilúvios de xixi. Muito mais que você pensa. Fico, à força, descansando por duas horas. Peço um livro. Conseguem. Passo a ler.
Ao final, o médico vestido no seu jaleco, diz polidamente: “tudo correu bem e o resultado será mandado por Sedex em uma semana”. Ia esquecendo: oferecem um lanche “gratuito”. Dispensei. Queria sair de lá.
Uma semana e pouco depois – tam, tam, tam, tam! – chega um imenso envelope. Após aberto, vejo-me por dentro e de corpo inteiro. Tudo colorido. São várias páginas, um CD com laudos circunstanciados para dizer isso e aquilo. Poupo-os dos detalhes. Afinal, escapei. Ufa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2016.

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DONA GERCILA., ” AVIS RARA” DO BEM – Jornal O Estado

Algumas pessoas recebem, mesmo sem saber, sinais de que seus dias serão pintados com tintas diversas. A vida não é folgança. É exercício de viver o inesperado, especialmente, quando os anos, os lustros e as décadas, vão sendo acumulados às tarefas autoimpostas ou, sabe-se lá a razão, mudam. O temporário vira definitivo, toma outra dimensão.
Uma mulher simples nasce em 07 de outubro de 1922, na Fortaleza de tanto sol, nas cercanias da Prainha. Foi acumulando perdas: a mãe morreria em 1929. Começa um “crash” pessoal, não o dos alicerces atingidos na Wall Street. Em 1935, morre o pai e é acolhida por tios. Católica deixava suas lágrimas furtivas pelos corredores do Colégio das Irmãs Doroteias, na hoje vazia capela da esquina com a Av. Domingos Olímpio. Depois, seguindo, sem saber, os passos de Rachel de Queiroz, conclui o curso Normal no Colégio da Imaculada Conceição. Estava carimbada para o mundo. Era professora.
Assim o fez no Colégio Santa Isabel, ali perto da Faculdade de Agronomia, e no Colégio São José, nas cercanias do Parque da Criança. Deu-se o estalo, não lhe apetecia ser uma mestra contratada. Pensou e materializou o sonho no Ano da Graça de 1950, quando fundou, em imóvel seu, o Instituto Cristo Rei, no bairro de São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, 1643. Precisava de mais luzes. Resolveu estudar Teologia.
Para aperfeiçoar a sua didática deu-se ao trabalho, já madura, de se graduar em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Todos os seus dons e a sua confiança foram sendo canalizados para o ensino de crianças pobres, algumas doentes, muitas sem o amor dos pais. Elas foram fazendo do Instituto Cristo Rei um lugar de acolhimento seguro, ano após ano, para centenas de miúdos, independentes de idade, sexo, raça ou do seu nível mental.
Tive a graça de conhecer Gercila Rodrigues Vieira neste século, quase oitentona. Foi benquerença espontânea. Muitas vezes, sem avisar, percorri os corredores não tão retos, tampouco bem iluminados do seu Instituto. Aos fundos, uma área de recreação onde crianças jogam bola alegremente. A casa cresceu como uma Babel do bem, formando um “L” de lar e de luta no imóvel por ela comprado com frente para a Rua Gen. Piragibe. Algumas ocasiões, dei carona a D. Gercila e aos seus pimpolhos, sempre alegres, mesmo quando apinhados. Nesses 66 anos cuidou de cerca de 4.000 crianças e jovens. Muitos se profissionalizaram. Algumas preferiram ficar por lá e ajudar na faina sem fim, como a Marinete e a D. Edite. A luta deve continuar.
D. Gercila recebeu, em 2005, o título de “Gente de Bem”, no seu vestido simples, florido, óculos com armação marcante, cercada por seus meninos. Ela já fazia parte do nosso convívio. Na noite desta terça-feira, 22.11.2016, na Paróquia de São Gerardo, plena de crianças, jovens e adultos, foi celebrada a missa de 7º. dia do seu falecimento, aos 94 anos. Flores brancas enchiam jarros no ofertório, ouviam-se cânticos e respeitosos adeuses, a partir da amiga Eudismar Mendes e de muitos outros. Resquiescat in Pace.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/11/2016.

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ARI DE SÁ CAVALCANTE, PRELÚDIO DE ARTIGO – Jornal O Estado

O meu olhar criança via o professor Ari de Sá Cavalcante – Ari de Sá – vestido, quase sempre, com ternos claros e gravata. Pouco sorriso nos lábios encimados por bigode negro e o escasso falar dos incomuns. Nesse tempo eu usava farda com calças curtas, no Farias Brito-FB, na Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Major Facundo. Ali estudei desde o primeiro ano do primário até a conclusão do curso de Humanidades.
Ari de Sá integrava o Partido Social Democrático, PSD, o mesmo do seu irmão, Walter de Sá Cavalcante, deputado federal. Certamente atiçado por Walter, foi candidato, duas vezes, a prefeito de Fortaleza.
Meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, era seu amigo e colega no Diretório do PSD. Creio ser essa a razão maior pela qual me matriculou no FB, pois sabia a quem estava entregando o seu primogênito. Outra razão, nós morávamos ali perto, na própria Major Facundo.
Andava pouco, bastava mudar de calçada e atravessar a Clarindo de Queiroz. Na última casa, antes do FB, morava o livreiro Luiz Maia, dono da “Livraria Renascença”, na mesma Major Facundo, dois quarteirões adiante, lado da sombra, logo ao atravessar a Rua Pedro Pereira. Defronte, lado do sol, Edson Queiroz montara loja da Ceará Gás Butano.
Mesmo com diferentes encargos, Ari de Sá foi aprovado em concurso público para professor do Colégio Militar de Fortaleza. A sua formação bacharelesca, não o impediu a se concorrer ao ensino de Matemática. Exitoso, talvez por acreditar fosse ela a mais simples das ciências, como propalava Auguste Comte, o pai da Sociologia.
Assim, saía e voltava – da sua casa na Av. D. Manuel, 482, a base do seu triângulo não equilátero, para a Av. Santos Dumont, onde ainda hoje funciona a unidade escolar do Exército em Fortaleza, e abria o ângulo em hipotética linha reta até a sede do FB, na Praça do Carmo. A diretoria do FB era composta por dois bacharéis em direito, Ari de Sá e João César.
Raul Barbosa, Governador do Ceará (1951-1954), escolheu Ari de Sá para ser seu secretário da Fazenda, não pela grei partidária, mas pelo escrutínio de sua visão socioeconômica. O professor Ari, nascido em 1917, em Jucás, crescia e aparecia na sua simplicidade.
Quando emergiu a hoje Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará, Ari tornou-se seu professor. Em seguida, diretor, por seis vezes, consecutivas. Criou o “CAEN – Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste”.
O CAEN aproveitava a “expertise” de parte de seus professores, oriundos do Banco do Nordeste, pródigo em aperfeiçoá-los nos EEUU e em outros países, de onde voltavam mestres e se tornavam TDEs., Técnicos em Desenvolvimento Econômico, dando contribuição ao que Celso Furtado sonhava para a região, saber para crescer.
Aos 49 anos, em São Paulo, aonde muitos vão atrás de cura, Ari de Sá se finou. Anos depois, quis a vida que o seu Farias Brito passasse por dicotomia.
Nascia o Colégio Ari de Sá. Muitas vezes não entendemos por que famílias – em segunda geração- se partilham. Talvez, com a sua matemática célica, o professor Ari de Sá soubesse e, quiçá, emulasse a disputa como um sofisma matemático: dividir para multiplicar. Cada uma das organizações, agora já faculdades, em múltiplas sedes, evoca para si ser a maior do Estado. As duas, juntas, valha-me Deus.
Escolhi, de propósito, o jornal O Estado para publicar este artigo. Ao tempo em que Walter Sá Cavalcante foi diretor deste matutino, Ari de Sá aqui escreveu, sob pseudônimo, crônicas, depois enfeixadas no livro “Para Ler no Bonde”.
Espero, com vagar, entregar à família de Ari de Sá Cavalcante algo que supere este prelúdio, quando da comemoração do centenário do seu mentor maior, no próximo ano.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2016.

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PÁDUA, SAFIRA E A FLOR EXPOSTA – Jornal O Estado

Caro Pádua Lopes, desculpe-me por me imiscuir com a sua Safira. Não a pedra preciosa azul usada nos anéis dos engenheiros e dos administradores. Escrevo sobre a mulher erigida em seu romance, de capa do mesmo matiz, “Safira Não é Flor”.
Uma crendice assevera, para as pessoas nominadas Safira, personalidade com sabedoria, fidelidade e razão. Imagina!
Não haveria muito a acrescentar à crítica segura de Dellano Rios (DN, 05.11.2016). Refiro, mesmo sendo óbvio, nada há em mim de crítico literário. Vou escrever o lido, o sublinhado, sem ordenação e raso como um pé de alface.
Deixo para leitores cultos beber a história lavrada em 278 páginas, palavra a palavra. Admito ser modéstia do Pádua se restringir à marotice de presentear “Safira” a amigos. Obrigado, Pádua. Por favor, deixe o seu belo livro aparecer em estantes condignas nas escassas livrarias locais, aviltadas e semidestruídas pela incursão de empresas de capital aberto ou daquelas financiadas a juros mínimos. Elas se estabeleceram aqui para vender de tudo. Até livros.
Safira parece ter algo a ver com o citado no livro cinco dos Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento. Essa Safira bíblica foi, junto com o marido Ananias, condenada à morte por faltarem à verdade ao Espírito Santo.
A Safira do Pádua não era santa, não foi condenada por sua escapadela à Europa com alguém apenas conhecido via Internet. Ela o fez sem sentimento de culpa, mesmo ao saber de outro estranho na empreitada. Larga o marido e os três filhos. Iria, para consumo familiar, viajar com amigas.
Lá se foi Safira para a Itália, não para rezar, mas para escarafunchar museus, igrejas, lojas, restaurantes com acepipes e vinhos, hospedando-se em requintados ou simples hotéis, sem deixar de vivenciar espelunca.
Passam por cidades como Veneza, Milão, Firenze e Roma. É exato aí quando o autor se desfaz em ciente de artes, contando as histórias de cada obra e do seu artífice. Ele diz: “Gostar de arte, no sentido de apreciá-la com inteligência e sensibilidade, é uma etapa atingida por quem se emociona com a mensagem estética”. Dou fé.
Transpostas as soleiras de igrejas, de praças, de museus, Safira se espanta com a profusão de arte. A Itália é um grande museu, com várias exposições marcando os signos e os significados de escolas e séculos diferentes. Esse grande Museu há resistido a guerras e terremotos. Como o mais recente. Os sismos podem sacudir a terra do indefectível Berlusconi, o vário, mas não a destrói.
Depois de tudo visto, a trinca foi parar na Grécia. O fim do século XX não era ainda pleno de barcaças com imigrantes árabes e africanos morrendo ou singrando o Mediterrâneo, em busca da Europa a apontar não a entrada, mas a saída ou, como dizem os ingleses, the Exit.
Devo arranjar um jeito de incluir a palavra tessitura. Ela aparenta erudição. Não a possuo. Pois bem, há na tessitura de Lopes – fica chique assim – um Aracati novo na brisa literária cearense.
Ele embaralha arte sacra e profana, história geral, geografia e o enlevo picante de (des)amantes de primeira viagem. De sentença em sentença, Pádua marca um ponto no bingo com o leitor.
Ele dá pista, falsa ou vera, de personagens ao falar do figurante Melchior – não o Rei Mago – e de seus seguidores. Mostra pudor ao escrever “calcinha íntima” e finaliza com cartas capitais.
Recomendo a leitura de Safira a quem gosta e sabe ler. Aos embevecidos com a arte. Aos informados ou curiosos da História antiga e da Renascença, com um mínimo de concentração para captar a saudável trama urdida. Parabéns, Pádua!

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2016.

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VER UM SONHO COMO REALIDADE – Jornal O Estado

“O raciocínio lógico leva você de A para B. A imaginação leva você a qualquer paragem”. Albert Einstein
Domingo passado, o Shopping Benfica completou 17 anos de funcionamento. Antes disso, foram quatro anos de projetos, obras, contratações e acabamentos. Vivemos, portanto, o Sonho Benfica há 21 anos.
A inauguração foi na manhã de sábado, 30.10.1999, sem contar com o apoio de nenhum órgão público. Nas paredes viam-se 80 obras de arte, uma camerata tocava. Tínhamos a presença de dona Margarida, a matriarca da família, que completava 80 anos naquele dia. Estávamos cercados de familiares, lojistas visionários, amigos e colegas.
A bênção, o coquetel e a consciência de que ali começava uma tarefa dura, cheia de adversidades, mas plena de esperança e arrojo. A arte e a cultura estavam ao nosso lado. Portas abertas, os clientes entravam extasiados com a musicalidade e a arte visualizada. Comprar era e é apenas um detalhe.
Vieram mais dificuldades nestes anos todos. Somos da terra, somos simples, o poder público nos cobra. Multam até o nosso nome por ser “propaganda externa”. Não o é. É mera informação. Deveríamos não ter placas?
Cedemos ao Metrofor parte do nosso terreno para a hoje Estação Benfica. Recebemos fiscalizações e pagamos impostos, sem isenções. Convidamos e acolhemos instituições públicas que, como nós, atuam nas áreas de saúde, cultura, artesanato, mobilidade urbana e bem-estar social. Trabalhamos juntos o ano inteiro, todos os anos.
Hoje, agradecemos a todos os que participaram e compartilham desta missão a que nos impusemos. O povo nos deu crédito. Temos clientes de todas as áreas de Fortaleza. Estamos realizando agora uma Festa Literária. Na próxima semana poderá ser vista bela exposição de fotos com idosas, moradoras de abrigos. Nessa mostra elas estão lindas, sorriem, apesar dos abandonos, das adversidades e do tempo.
Obrigado a cada um pela ajuda. Mesmo os que já não estão mais aqui. Que Deus nos abençoe e faça do Shopping Benfica instrumento do bem comum a que se propôs. Ser um shopping comprometido com os seus clientes, com a comunidade, difundindo arte, cultura, responsabilidade social, prestação de serviços e esclarecimentos sobre saúde. cultura. Não é fácil. É prazeroso. Tentam nos estresir. A diferença é “anima e cuore”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/11/2016.

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MARÇO, MULHERES DE BEM – Jornal O Estado

Desde sempre saudamos e procuramos compreender a mulher. Não de forma abstrata, mas particularizando atitudes. Criamos programas especiais para atendê-la nas áreas da saúde e do bem-estar. Dedicamos esforços para desenvolver espaços de convívio. Admiramos os cuidados com sua imagem pessoal. Percebemos a mulher em processo de transformação e de plena identidade. Ela é acolhida sempre na Galeria BenficArte (Av.Carapinima, 2200, 2º.piso, Benfica), como artista, pessoa de fé, profissional, ou, simplesmente, mulher.
Estamos sempre com livros, jornais e revistas no “Espaço da Leitura” ao dispor de todas as mulheres. Montamos uma linda exposição com fotos e obras de arte de mulheres, através de séculos. Você pode ter a segurança de que está em um espaço livre.
Entendemos as meninas-moças, colegiais em flor. Repare bem, nós temos muitas mulheres no trabalho. Em todas as áreas elas aparecem bem-dispostas. Seja na tarefa de cuidar apenas da limpeza ou de planejar e executar a nossa responsabilidade social de forma honesta e sensível.
Alegra-nos interagir nas redes sociais e sabê-las vibrantes. Há sempre um sorriso na sua acolhida. A nossa faina começa cedo para tudo estar pronto e limpo. Alegramo-nos com os celulares e computadores ligados. Com a doce e exuberante algazarra das jovens, misturada às das professoras universitárias, presenças constantes.
Vemo-nos alegres quando pares se descobrem. Agora, neste março de 2016, fizemos todo um espaço de arte a mostrar a nossa benquerença. Ele é seu, use-o como se em casa estivesse. Veja as mulheres enquadradas em arte, diferentes, únicas.
Estamos aqui para servi-las com transparência e atenção. Com os serviços disponíveis e zelos redobrados. Você é muito importante para nós. Tenha convicção de nossa estima e respeito. Para as que primam pela meditação abrimos um espaço zen, sem nenhuma conotação religiosa, apenas uma área de meditação e de recolhimento.
Além do já dito, inovamos neste março de 2016. Passaremos todo o mês de março expondo na Galeria BenficArte fotos, biografias e reconhecendo mulheres por suas trajetórias pessoais, suas lutas contra as adversidades, a coragem de persistir, o prazer de pequenas vitórias, as superações e o denodo com que foram construindo as suas histórias familiares, profissionais e sociais. Mulheres como você: com satisfação, apesar dos afazeres. Competente, com histórias pessoais e atitudes firmes. Mas, sobretudo, simples. Sem afetações.
São elas: Adísia Sá, Aldeneide Teixeira de Lima, Antônia Agostinho de Sousa, Edlania da Silva Castro e Cruz, Élida Priscila Brasil de Matos Lima, Hermínia Maria Lima da Silva, Jovita Feitosa, Júlia Saraiva Caminha, Julita Teixeira Praciano, Maria Angélica Cirino, Maria da Penha, Maria Luíza Fontenele, Mônica César Praça Galeão, Nair Silva de Castro, Nice Firmeza, Nise Sanford Fraga, Olga Monte Barroso, Rosane Dantas, Raimunda Magalhães da Silva, Sinhá D’Amora, Silgene Evangelista e Simone Dionísio.
Todos devem saber das lutas que elas hão vivido para não serem apenas o sexo frágil, um rosto ou corpo bonito. As mulheres nominadas, vivas ou no além, procuraram, passo a passo, atingir o conjunto diferencial que as qualificam como Mulheres do Bem. A luta remonta à História. Entretanto, nos fixamos no hoje, no simples e no razoável, no agora. Parabéns a todas e a cada uma.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/03/2016

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TUDO FAZ SENTIDO – Jornal O Estado

Fim de semana é muito tempo. Enjoado do que vejo na televisão, vou aos jornais. Na ilustrada, 12.03.2016, Folha de SP, leio que saiu agora, em português, pela Companhia das Letras, o livro “A Conexão Bellarosa-Quatro Novelas”, de Saul Bellow. Bellow, filho de judeus russos fugidos das conflagrações que deram origem ao bolchevismo, em 1917, na imperial terra soviética.
Nascido em Montreal, no Canadá, em 1915, mudou com a família, na metade dos anos vinte, para Chicago. Viveu a “Grande Depressão”, dos anos trinta. Os seus pais fomentaram nele a ideia de que naquele lugar havia a possibilidade de crescer na escala social. Era antropólogo, professor da Universidade de Chicago e escritor consagrado com o Nobel, em 1976. Faleceu em 2005.
Paro um pouco. Vou às minhas desarrumadas estantes e encontro um livro de Saul Bellow, lido há anos: “Tudo Faz Sentido – Do passado obscuro ao futuro incerto”. Não é romance. É compacto de textos literários seus, de observações sobre vida, pessoas e viagens; palestras mundo afora e o encontro com o tempo, pois escrito na velhice, depois dos prêmios Pulitzer e Nobel, dos anos setenta.
O livro “Tudo Faz Sentido” já está com a fenda perpendicular das traças. Nele, encontro páginas que apontei com lápis, as quais me permiti reler, enquanto buzinas, fanfarras, gritos e palavras de ordem desordenavam a quietude da noite de sábado e o dia de domingo.
Chicago deu a Bellow várias visões. Primeiro, a da sua rua, onde famílias judias e de outras etnias moravam. Daí vai se alargando com as transformações que a cidade passava, erigindo novos pontos de encontros em diversas mudanças urbanas acontecidas. Depois, o mundo.
No “Tudo Faz Sentido” está incluído o longo, erudito, bom, embora prolixo discurso que proferiu, em 1976, ao receber o Prêmio Nobel. Ele começa: “Há mais de quarenta anos, eu era um homem sem diploma universitário e muito voluntarioso. Certo semestre me inscrevi num curso sobre Dinheiro e Técnica Bancária e me concentrei na leitura nos livros de Joseph Conrad. Nunca me arrependi disso”. E se estende sobre o escritor Joseph Conrad, também imigrante, e outros autores. Divaga.
Volto à Folha. Nela há realce para a amizade de Bellow com o escritor e acadêmico Allan Bloom. Remexo na página 317 de “Tudo Faz Sentido”. Lá, quando da morte do amigo, em 1992, Bellow afirma, em discurso: “Conheci e admirei muitas pessoas extraordinárias na vida que me foi dada, mas ninguém mais extraordinário do que Allan Bloom”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/03/2016

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PARABÉNS A VOCÊ, NETA QUERIDA – Jornal O Estado

Quero dar os parabéns a você. Quero dizer do meu bem querer. Do embaraço em escrever algo que você possa ler. Falar da minha alegria ao vê-la nascer, faz quinze anos. Cercada dos pais e avós, primos e os amigos da família. Era a primeira filha da minha primogênita. Não era, entretanto, a primeira. Era a primeira filha para uma nova família em formação, cheia de esperanças e dando graças a Deus por vê-la no berçário, sendo lavada, surgindo bela, perfeita e ainda com os olhos embaçados.
Participei de todos os seus aniversários, as festinhas que reúnem os dispersos pelas circunstâncias da vida. Vi o seu processo de crescimento, não como pai, mas avô, esse ser meio desconexo em família quase plena de meninas.
Devo estar em algumas das suas muitas fotos. É fácil apontar. Basta olhar o careca e um bolo que, ano a ano, ia aumentando as velas. Agora, você quer uma festa de menina-moça e o fará para a família, os muitos primos, os amigos e, quem sabe, algum paquera que a esteja próximo.
Neste meio tempo aconteceu muita coisa importante das quais você vai se apropriando. Ainda bem que não sentiu as dores do mundo ocidental no dia 11 de setembro de 2001. Não preciso contar detalhes, é sabido por todos. O fato marcou um tempo estranho: o do medo, do não saber quem é o outro, e o que ele pode fazer contra nós.
Quando você começava a andar e ainda não havia ido ao maternal, o Brasil ganhava o seu último título no futebol e elegia Lula para presidente. Era um operário, sindicalista e pretendia dar uma nova face ao Brasil. O ano de 2012 terminava com esperanças.
Daí em diante, não preciso narrar o que está acontecendo. Você é exímia usuária do celular, usando-os com vários dedos das duas mãos. Você sabe, desculpe repetir, mas foi Steve Jobs, um menino abandonado pelos pais, adotado por um casal simples, quem deu forma e propagou o I-phone. Mudou as relações humanas e estabeleceu conexões, sinapses, antes nunca imaginadas. Mas, isso é mais do seu mundo, que do meu.
Sei que gosta de esportes, é aluna atenta e tem personalidade forte. Isso é bom, mas pode dar tilte, se exagerar na dose. Sua mãe é uma amigona, ri e chora com você. Ama-a de forma desmesurada e lamenta quando batem de frente. Queixa-se a seu pai. É natural, faz parte do processo interminável das relações entre pais e filhos.
Poderia escrever mais. Paro por aqui. É época de textos curtos e me alonguei. Saiba que a liberdade é um preço caro a pagar no mundo real. Vá em frente, estude e dê luz própria ao seu caminho. Estarei por perto, espero. Eu a amo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2016.

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ALEXANDRE VIDAL PORTO E SÉRGIO Y – Jornal O Estado

Alexandre Vidal Porto-AVP é paulista, com origem materna cearense. Sua mãe é a artista plástica cearense Emília Vidal Porto. AVP morou algum tempo em Fortaleza, onde fez Direito na Unifor. Depois, passou no exame cobiçado do Ministério das Relações Exteriores, o Instituto Rio Branco. Fez-se diplomata, andou pelo mundo, Ocidente e Oriente, com opiniões próprias e não se esquivou de aprender outros idiomas.
É indiscutível a oportunidade que o Itamaraty propicia aos seus jovens concludentes. Passam a ver o mundo com os olhos da geopolítica, mas incluem na mirada o que trazem de sua ascendência e da sua capacidade analítica dos fatos que presenciam ou o que envolve a comunidade diplomática em cada sítio em que residem e trabalhem. E quem sabe critica, pede explicações. Não contente com a sua peregrinação profissional, AVP foi mourejar na Harvard University, onde concluiu o mestrado em Direito. Tornou-se dissidente na atual fase da diplomacia brasileira e o demonstrou em artigos publicados na Folha de S. Paulo. Mas, isso é outra história.
A formação do romancista AVP não é a ficção erudita que Johann Wolfgang von Goethe concebeu para “Os Anos de aprendizado de Wilheim Meister”, uma novela de formação escrita no final do Século XVIII. Alexandre Porto dista mais de dois séculos de Wilheim Meister e é pessoa real, inquieta, com ideias próprias, vanguardista, agora na jovem maturidade dos seus cinquenta anos.
“Sergio Y. Vai à América” não é a primeira obra de AVP. Uma das epígrafes do livro é atribuída a Fernando Pessoa, em saudação a Walt Whitman: “E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas/De mãos dadas, Walt, dançando o universo na alma”.
Como se sabe, Walt Whitman é um dos grandes poetas americanos, reverenciado por muitos. O seu grande livro de poesia, “Leaves of Grass”, foi sendo construindo ao longo da vida até se tornar a sua odisseia particular, com versos livres, contando a história do seu tempo, as suas ideias libertárias, as suas influências literárias, do seu modo e jeito. Ao cabo, contém 71 poemas.
“Sergio Y. Vai à América”, romance denso, bem urdido, e nem por tal razão tedioso, conta a história de Sérgio Y. na versão de seu ex-psiquiatra/ psicanalista. Sérgio era confuso, como quase todos os jovens de família de bens, dotada. Na análise, procurava explicações sempre com base em aspectos íntimos não despontados, pois não havia se despegado da família.
Um dia, sem explicações e reticente, Sérgio deixa a análise e segue a vida. Como se soube depois, por conta e alvitre do seu ex-analista, foi para Nova Iorque e se descobre outra pessoa, nova identidade e sexualidade, afeiçoada à profissão de “chef” que descobrira em sua travessia. José Castello, crítico literário, expende: “O romance é contado com contenção e comedimento… O leitor não consegue largar o livro que tem nas mãos”.
O resto fica para quem quiser ler esse bom livro, editado pela Companhia das Letras, que bem refere o que muitas pessoas ainda estão por entender. Algumas famílias, menos ainda. Psicanalistas, inclusive.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/03/2016

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A FÁBULA DE GEORGE ORWELL E A VIDA DE HOJE – Jornal O Estado

“A sabedoria chama lá fora, pelas ruas levanta a tua voz”. Prov. 1:20
Eric Arthur Blair nasceu em 1905, na Índia, ocupada pela pátria de seus pais, ingleses. Vivia em condições privilegiadas em país miserável, dividido em castas e com credos distintos religiosos. Eric viu bem cedo o que acontecia na prática, com as injustiças sociais perpetradas pelos detentores do poder. Era leitor voraz, desde Dickens, Shakespeare, Karl Marx e o que se lhe aprouvesse.
Com as escaramuças pela libertação da Índia, a família Blair volve à Inglaterra e Eric, além de estudar, ingressa na imprensa, com sentimentos anarquistas, participando, inclusive, da Guerra Civil Espanhola, que antecede à Segunda Guerra Mundial. Foi nesse cadinho que surgiu o seu pseudônimo de George Orwell, pelo qual seria conhecido e admirado.
As suas duas obras mestras são a sátira política “A Revolução dos Bichos” (The Animal Farm), sobre a qual falarei abaixo, e “1984”, uma distopia em que a regra é “O Grande Irmão está vigiando você”. Hoje, somos todos vigiados por câmeras nas ruas, os nossos telefones indicam os nossos passos e as nossas conversas podem ser captadas por “hackers” ou por ordem judicial. Ele anteviu isso
Na minha (des) informação literária, caótica e multifacetada, a “Revolução dos Bichos” causou-me, há tempos, impressão singular, mesmo sabendo da mente anárquica do autor na análise do socialismo russo, na fase stalinista, A história, na verdade uma fábula, parece singela, mas é complexa. O velho Sr. Jones possuía a Granja do Solar (The Manor Farm). Nela viviam animais de várias espécies, entre as quais um porco (o Velho Major) que, em sonho, viu uma revolução contra o domínio do Sr. Jones, na qual os bichos seriam autossuficientes, sem tutela alguma, criando um governo igualitário. O Sr. Jones morre.
O livro é cheio de metáforas. Além do Velho Major, inspirado em Karl Marx, surge Bola-de-Neve, outro porco, que possuía um assistente de sua raça, chamado Napoleão. Há traições e vinganças.
Após cinco anos de dominação, Napoleão convence os outros animais de que o realizado era para o bem comum e fala no “sonho de poder”. O livro é pleno de embustes, traições e mudanças de regras. O animal “Garganta” possuía argumentos convincentes e pregava a união contra a dominação pela força bruta, a tortura e até o uso de cães treinados para matar.
O fato é que a abominada casa da fazenda virou, “apenas por algum tempo”, centro das decisões dos animais que dominavam os demais. Disseminara-se a ideia de que se você andava com duas pernas, bípede humano, era alguém de má natureza.
As regras do “Animalismo” continham sete princípios: 1. Os bípedes são inimigos; 2. Quem possui 4 patas e asas é amigo; 3. Nenhum animal usará roupas; 4. Nenhum dormirá em cama; 5. Ninguém beberá álcool; 6. Nenhum animal matará outro animal; 7. Todos os animais são iguais.
Neste momento, em que a grande “Fazenda Brasil”, está em plena convulsão social, ainda não transformada em luta fratricida, é bom que aprendamos algo com a fábula de Orwell. O que seria? ” Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/05/2016.