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NEM VICE E, TAMPOUCO, CANDIDATO A PRESIDENTE – Jornal O Estado

“Não são os homens, mas as ideias que brigam”. Tancredo Neves
Semana passada, escrevi, neste mesmo espaço, o artigo “O Brasil, vice a vice”. Nele, relatei acontecimentos políticos, a partir da redemocratização, em 1946, e parei no começo dos anos 1980.
Um dos dois leitores que possuo pediu que o continuasse chamando-me a atenção por não ter falado no movimento “Diretas Já”, encabeçado pelo então deputado federal Dante de Oliveira, há tempos falecido.
Mesmo sendo derrotado, o “Diretas Já” provocou a eleição indireta, em 15 de janeiro de 1985. Concorreram Tancredo de Almeida Neves (vice José Sarney) e Paulo Salim Maluf (vice Flávio Marcílio), saindo vencedor, no Colégio Eleitoral, o primeiro, por 480 votos, contra 180 do ainda hoje deputado federal por São Paulo.
Em véspera da posse, exato no dia 14 de março de 1985, Tancredo é internado no Hospital de Base de Brasília – com UTI em reforma – de onde sairiam os primeiros relatos falsos sobre a saúde dele. O secretário de imprensa escolhido por Tancredo, jornalista, ex-Globo, Antonio Britto, entoava, de forma solene, as notícias. Um detalhe na história: Britto, por conta do excesso de exposição, conseguiu, pós-morte de Tancredo, escrever um livro, ser eleito deputado federal, Ministro da Previdência Social e Governador do Rio Grande do Sul.
Ao ser internado, Tancredo chama o seu primo Francisco Dornelles, após admitir que devesse passar por cirurgia de emergência. Só aceitaria se tivesse certeza de que a posse aconteceria. Não era diverticulite. O fato é que um leiomioma, benigno, encapsulado em seu intestino, se rompera e havia que se estancar a hemorragia e a provável infecção em curso.
Madrugada adentro, reuniram-se, entre outros, Ulysses Guimarães, Francisco Dornelles, Leitão de Abreu, José Sarney e Leônidas Pires Gonçalves, para encontrar uma saída que não se afastasse muito da Constituição de 1967. Era a constatação de que não poderia haver hiato, vazio de poder. Esse fato determinou a decisão harmonizada, não com bons vinhos, mas com múltiplos cafés e telefonemas, na longa noite. E assim se fez.
Tudo engendrado e calculado. Amanheceu radioso o dia 15 de março, e José Sarney, que sequer havia sido empossado como vice, assume, de forma interina, a Presidência da República, aceitando, por completo, os nomes do ministério que Tancredo havia escolhido.
A morte, aos 75 anos (a mesma idade do hoje presidente interino, Michel Temer), obituada no Instituto do Coração de SP, para o qual havia sido transferido de Brasília, ocorreu na noite do dia 21 de abril, data consagrada ao mineiro Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, enforcado e esquartejado no Rio, por ordem do Império.
O corpo de Tancredo Neves pede sossego, mas sai, no dia 22, de São Paulo para Brasília, daí para BH e, finalmente São João Del-Rei, sua terra natal, em comoção pátria provocada pela mídia, em especial, a televisão. Teorias de conspiração e envenenamento à parte. Após a inumação, volta-se à realidade. José Sarney, que sequer fora vice, pois posse não houvera, passa a ser o “primeiro presidente” da Nova República.
Dessa forma, breve, conto a história que os mais velhos e os estudiosos já conhecem. De fato e de direito, José Sarney, que tivera bom trânsito com os militares, foi agraciado por um golpe de sorte e cumpriu todo o período.
Na verdade, Sarney nunca chegou a ser vice – não se configurara o ato jurídico perfeito – e, tampouco, candidata-se a presidente da República. Deixou, como legado bom no início com os “fiscais do Sarney”, país pacificado, eleições livres com Collor presidente e a maior inflação da história, em ajustes do ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. No último mês, 84%. Isto é o que sei, por ler e ouvir dizer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/05/2016.

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O BRASIL, VICE A VICE – Jornal O Estado

Há tempo, muito tempo, o Brasil nos prega peças. Ou somos nós os que pregam peças ao Brasil? Não há como esquecer fatos históricos acontecidos desde a metade do século passado, época que tomei como partida. Hoje é sexta, 13 de maio de 2016.
Surge Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente, com ideias de algibeira, a mando de sua extremada esposa: decretar o fim das brigas de galos, jogos de azar, fechar os cassinos e sobressair uma capela dentro da sede do governo. Fez o trivial. O povo queria Getúlio Vargas de volta, o dadivoso mentor de legislação trabalhista baseada em princípios italianos, de Benito Mussolini, que pressupõem o patrão, vilão, e o trabalhador, vítima.
Eleito, Vargas volta e monta estrutura íntima dentro do Palácio do Catete, incluindo ministros, filhos, jornalistas apadrinhados e curimbabas comandados por Gregório Fortunato. Fustigado por Lacerda e as evidências do crime da Rua Toneleros, opta pelo suicídio, com escrita premeditada, em 24 de agosto de 1954.
O homem baixo, rotundo, arguto e bom orador que veio de São Borja, no Rio Grande, para ser o “pai da Pátria”, por mais de duas décadas, leva milhares à visitação do seu corpo inerme. Vargas foi ditador, mito, impulsionou o surgimento da indústria nacional, mas perdeu a legitimidade por conta dos que o cercavam. O vice-presidente Café Filho assume e tenta comandar governo de transição que desemboca em atritos, crises, substituição e afins.
Surge, então, o audaz, médico e político Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eleito em dura refrega, resolve mudar o foco do governo para a construção de uma nova capital, Brasília. Ela surge pelos lápis, réguas T, compassos, transferidores e esboços do arquiteto Lúcio Costa. E assim o fez, gastando no plano piloto e nos prédios projetados por Oscar Soares Niemeyer, o que o governo não possuía. Aumenta a dívida pública em relações de compadrio com empresas construtoras que já conhecia desde Minas. Sai com prestígio popular. Não existia a reeleição.

Entrega Brasília a jato, passa a faixa a Jânio da Silva Quadros, alguém que mereceria análise e ajuda profunda dos seguidores de Freud e de Winnicott. Como tal não aconteceu, Jânio perde a maioria no Congresso Nacional e intenta uma manobra que acaba em mal explicada e patética renúncia.
Naquele tempo, os candidatos a vice eram votados e não faziam dobradinha com os aspirantes a presidente. Outro mês de agosto, agora em 1961. O país fica, por dias, nas mãos de Auro Soares de Moura Andrade, até que se consuma a volta negociada de João Goulart, o vice, que passeava na China da revolução cultural de Mao Tsé-Tung. Políticos, juristas e militares engendram um Jango e Tancredo Neves, como primeiro-ministro. O parlamentarismo não resiste a um plebiscito. Jango passa a mandar, mas não leva jeito nas manhas e artimanhas palacianas.
Em 1964, depois do comício de 13 de março na Central do Brasil – com a inversão da hierarquia militar, no corpo de praças da Marinha – começam as confabulações para a derrubada de Jango. Magalhães Pinto, Lacerda, políticos trânsfugas e militares, entre os quais o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, reúnem-se e tramam. De Minas e São Paulo, avançam os aparatos militares que tomariam o poder.
Não houve tiros. Jango, de boa paz e não bom de gestão, não resiste e se manda para o Rio Grande do Sul. Em seguida, se autoexila em fazenda sua no Uruguai, onde, muitos anos depois, falece. No dia de sua morte havia viajado de avião, de barco e de carro. Janta, passa mal, a assistência médica demora e nasce a ideia de assassinato – por envenenamento – depois desmentida, com a exumação e múltiplos exames de peritos médicos.
Começa o ciclo militar. Duraria mais de 20 anos. Permanece sob a lupa crítica de historiadores, de jornalistas, de cientistas políticos e da Comissão da Verdade. Tancredo, Ulysses, Montoro, FHC, Lula e outros se unem e lutam pelas Diretas Já. Estamos nos anos 80. No meio operário, com a ajuda de religiosos católicos, surge um partido de sindicalistas e de parte da intelligentsia paulista. O PT e Luiz Inácio Lula da Silva inauguram um novo tempo.
Fernando Collor, um carioca-alagoano, com a ajuda de parte da mídia vai eleito. Deu no que deu. Itamar Franco, o vice, assume. E, querendo ou não, faz um bom governo. Café Filho, João Goulart e Itamar, foram vices. Como disse Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/05/2016.

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0S PAIS E O SUFOCO – Diário do Nordeste

Não estou falando do sufoco que todos os pais estão vivendo no maremoto em que a nau Brasil anda metida. Não vamos soçobrar. Acreditem. Não temam.
O sufoco é uma “brincadeira” que crianças e adolescentes, não na presença dos pais, praticam de forma abusiva e perigosa. Ela possui vários nomes. Em português e em outras línguas: jogo de asfixia, jogo do desmaio, brincadeiras perigosas, chocking games, space monkey, jeu du foulard, entre outros. Participei de palestra na Psicologia da UFC sobre o tema.
Não há estatística oficial sobre a quantidade de jovens praticantes que já vitimaram muitas famílias ao redor do mundo. Por outro lado, há milhares de “curtidas” em sites, blogs e até em livro publicado no Brasil. Para a psicóloga Fabiana Vasconcelos, do Instituto DimiCuida: “A prática é desconhecida como algo perigoso e há silêncio sobre o assunto. As famílias se resguardam por causa do julgamento. Essa crítica impede que a sociedade fale sobre isso”.
A cilada é participar de desafios de asfixia ou outros para atingir o “Nirvana”. Encontram até morte e sequelas. Inalam sacos plásticos impregnados de desodorantes – com propano, metano e talco. É preciso que os pais, confiantes e/ou distantes, fiquem atentos para o uso da Internet pelos filhos, festinhas, rodinhas nos condomínios, comunidades e baladas. Pais “chatos” são os que acompanham, de perto, o que os filhos fazem no dia a dia, nos fins de semana e conhecem os pais dos seus amigos e colegas. Tudo está na Internet, mais para o mal, do que para o bem. Informe-se. O barato sai caro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2016

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CORTAR OU AUMENTAR? – Diário do Nordeste

Os ditos especialistas em contas públicas ­ só entendem de problemas fiscais depois dos fatos ­ dizem estarmos no teto máximo de impostos, daí ser preciso, por algum tempo (qual?) criar uma taxação adicional para nos tirar das enrascadas que, aliadas à incompetência e à contrafação generalizada, nos colocaram no buraco negro do hoje. A “OI” pediu recuperação judicial, R$ 65 bilhões. Maiores credores: BB, Caixa, BNDES e Fundos de Pensões, todos públicos. Como uma empresa que paga todos os impostos e não conhece os caminhos do favoritismo pode competir com quem é acumpliciado com o poder?
Divulgo as principais renúncias fiscais deste 2016. Cito em bilhões, cifra banalizada: Simples Nacional, para empresas – 77,4; Isenções e deduções do IR ­- 39,3; Zona Franca de Manaus e outras ­- 28,0; Desoneração da folha de pagamento -­ 25,9; Desoneração da cesta básica – ­25,2; Entidades sem fins lucrativos -­ 23,3; Benefícios do trabalhador -­ 11,0
São também beneficiadas: Poupanças e outras; inclusão digital; desenvolvimento regional; informática e automação; medicamentos; pesquisa e inovação; Olimpíada; infraestrutura; embarcações e aeronaves; setor automotivo; financiamento habitacional; transporte coletivo; cultura e audiovisual. Renúncias que custarão R$ 296 bilhões, neste ano. O saneamento básico só atende metade da população e há alto desemprego. Apesar disso, a Caixa patrocina clubes de futebol ­ que pagam salários exorbitantes a jogadores ­ e outros esportes e esportistas. A Petrobras patrocina marca da Fórmula Um. Cortar ou aumentar? Decida!

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2016.

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NOITE DO ÁLBUM DE 1931 – EM 2016 – Jornal O Estado

“A época mais obscura é hoje”. R. L. Stevenson, escritor inglês.
Em noite festiva, no antigo Palace Hotel, na Rua Major Facundo, olhando para a Praça dos Mártires, onde foram imoladas em nome do Império, pessoas que contribuíram para a consolidação da formação do Estado do Ceará, oscilando entre ser parte de Pernambuco e do Maranhão foi relançado, em edição fac-símile, o “Álbum de Fortaleza”.
Esse livro, que mistura “reclames” ou propaganda com dados estatísticos, louvações a negociantes e a autoridades locais, foi organizado, publicado e comercializado por Paulo Bezerra, em 1931. Apesar disso ou por causa disso é documento histórico ora reeditado.
O ágape, com elevada frequência e vozerio, foi uma ação da Fundação Waldemar de Alcântara no afã de engrandecer a “Biblioteca Básica Cearense”, uma das guardiãs da nossa memória, na pessoa do bibliófilo e intelectual Lúcio Alcântara, um “apologista do passado”( Laudator temporis acti ), como dizia o poeta latino Horácio, em “Arte Poética”.
A FWA obteve na biblioteca da Academia Cearense de Letras – ACL, o original do “Álbum de Fortaleza” e, a partir dessa descoberta, realizou bela e importante tarefa: o resgate da história da cidade de 111 mil habitantes, início do Estado Novo, período de exceção comandado por Vargas que se estendeu até a metade dos anos quarenta, coincidindo com o fim da Segunda Guerra Mundial.
O prefácio da versão de 2016 foi escrito pelo professor, arquiteto e historiador José Liberal de Castro que nele afirma: “O empreendimento, que tanto entusiasmava Paulo Bezerra, apoiava-se na suposição equivocada de que seu plano era inédito, embora, na verdade, em dias anteriores, a Cidade já houvesse sido louvada em outras publicações semelhantes. A primeira deles, de 1908, conquanto praticamente dedicada à Capital, denominava-se “Álbum de Vistas do Ceará”.
Acrescenta Liberal de Castro: “No caso, Ceará era sinônimo da cidade de Fortaleza, uma vez que naquele tempo ainda prevalecia a flutuação toponímica no uso indistinto dos estados e de suas capitais, prática hoje limitada apenas à Bahia”.
Em crítica ao aspecto comercial do álbum original de Paulo Bezerra, Castro refere: “O álbum de 1908, primorosamente editado pela poderosa Casa Boris em Nancy, na França, não buscava exaltação aos patrocinadores, pois não os nomeava, não os mostrava em fotografias e nem sequer mostrava o nome da firma patrocinadora”.
Voltemos à noite no Palace Hotel. A totalidade de livros postos à venda, por preço simbólico de vinte reais, foi comprada. Os que prestaram respeito e atenção ouviram a fala do dirigente maior da FWA, Lúcio Alcântara, sobre as pesquisas posteriores à cessão do livro para a descoberta em vão de familiares vivos de Pedro Bezerra – que se transferira para o Estado de São Paulo – e os agradecimentos ao Banco do Nordeste do Brasil, patrocinador da obra.
A foto original da capa do “Álbum de Fortaleza”, salvo engano, já havia sido usada por Marciano Lopes, memorialista falecido, em publicações suas sobre a Fortaleza do passado, que ele alcunhava de Belle Époque.
Os muitos anúncios comerciais, quase sempre ocupando as páginas esquerdas do álbum, mostram a natureza extrativista, o comércio de algodão, peles e couros, bem como, a importação e exportação, ativas para o resto do país e exterior. Há material para demonstrar a consolidação ou esgotamento de empresas da época, bem como, as poucas famílias que remanescem à frente de empresas.
Por fim, destaco as informações estatísticas do período e os artigos. A partir de José Martins Rodrigues sobre a “Magistratura Cearense”; Tomaz Pompeu Sobrinho, quando analisa “A Pecuária no Ceará”; Humberto R. de Andrade, disserta acerca da “Agricultura no Ceará”. Vi, com alegria, os sueltos de Antonio Furtado, sobre o surgimento do pintor Vicente Leite, e o de Rachel de Queiroz sobre o escritor, o farmacêutico e o homem de bem que foi Rodolpho Theóphilo.
Tal como essa adequada iniciativa, Fortaleza e o Ceará precisam ter suas histórias, estórias e personalidades mais revisitadas. Da minha parte, coloco-me disponível para essas tarefas, se convidado for.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2016.

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O GRANDE BRASIL – Diário do Nordeste

Você sabe quantos Estados o Brasil possui? Lembra-­se dos nomes deles: Acre, Amapá, Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins. E o Distrito Federal e o caos. O menor é Sergipe. O maior é Amazonas.
Em São Paulo, mora 1/5 da população brasileira e Roraima tem a menor densidade demográfica. Há muitos rios Brasil afora. Lembra? Amazonas, Negro, Solimões, Madeira, Xingu, Tapajós, Parnaíba, Guaporé, São Francisco, Paraná, Paranapanema, Tocantins e Uruguai.
O Jaguaribe é maior rio seco do mundo. Essas informações constam da nossa educação básica. Mas estará você atento para a magnitude do nosso país? Sabe que ele confronta com a Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina? Este país com tantas riquezas naturais vê a linha imaginária do Equador passar em Macapá e nos lembrar de que o Trópico de Capricórnio fica entre o Rio de Janeiro e São Paulo. É um mundo, banhado pelo Atlântico Sul. Que importam essas informações? Importam, sim.
Não há como destruir a força indômita deste povo mesclado por negros, brancos, índios e a caudal de imigrantes que foram nos dando novas tonalidades com árabes, judeus, asiáticos e outras raças. Neste junho, quando nuvens densas da política nos rondam, basta, de verdade, olhar o horizonte e o firmamento para acreditar no futuro. Nada nos abalará. Acredite.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2016.

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A SENILIDADE E AS FAMÍLIAS – Jornal O Estado

“Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve”. A. Schopenhauer, filósofo alemão, morto aos 72 anos, em 1860.
A urbanização brasileira, a mudança de hábitos de higiene e de alimentação, o sofrível saneamento básico, o respeito aos avisos dos nossos corpos estão nos dando uma vida mais longa. O Brasil possui hoje 26 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Em contrapartida, o nosso precário sistema previdenciário (INSS) está repleto de aposentados que, por falta do que fazer, agrupam-se em rodas em praças, centros comerciais, bares, ou se quedam em suas casas em torno de uma televisão ou rádio.
Como é baixo o nível de leitura do brasileiro, poucos idosos se apegam a livros. Há aqueles que enfrentam quebra-cabeças, palavras cruzadas e “quizz” para dar uma escovada na teia de aranha mental dos que amanhecem o dia sem ter o que fazer. Vez por outra, amigos vão detectando sinais do que, antigamente, se chamava de “caduquice”. Na verdade, as doenças senis são cruciais. Uma atinge, não só a pessoa idosa, mas toda a sua família, o Alzheimer. O nome é em homenagem ao psiquiatra alemão Alois Alzheimer, que identificou esse mal há 110 anos, em 1906. Ele morreu em 1915, aos 51 anos, de doença cardíaca.
Apesar da sua identificação, não foi encontrada, ainda, a sua cura. Em ensaio para o Valor, a repórter Martha San Juan França apresenta história e dados sobre o que chama de “traição da memória” ou a “ausência da lembrança”. O dado mais assustador é que o “aumento da expectativa de vida deve triplicar o número de pessoas com Alzheimer nos próximos 30 anos”.
Hoje, o Brasil possui, diagnosticados, um milhão e duzentas mil pessoas com demências, das quais 30% recebem tratamento informal e só 37% usam assistência médica. O grande problema para o paciente de Alzheimer, uma das demências, é a dispersão de sua família, posto que não são muitos os filhos e netos que se dispõem a cuidar de alguém que não responde, com lógica, a estímulos e afetos.
Há muita literatura médica sobre o assunto, mas nada que mostre, em curto prazo, a solução razoável. Todas as famílias, inclusive a minha, se deparam com pessoas acometidas com o mal que vai se acumulando bem antes do diagnóstico. Assim, só depois de muito tempo as “esquisitices” vão sendo consideradas como o primeiro sinal. Daí para frente, há um crescendo que prejudica a concatenação da fala e até a ausência do sentimento de pertença.
Ao final, advém o desconhecimento do outro, a não comunicação e o descuido com os cuidados pessoais. É claro que este artigo é de leigo, não tenho formação médica, muito menos de geriatria ou neurologia, mas ele almeja ser um alerta para todas as famílias que, pelo menos, procurem entender os seus idosos. Eles devem merecer atenções redobradas. Neste mundo de dificuldades e de incertezas há uma filosofia de cuidar de si próprio, esquecendo o outro. A pessoa com Alzheimer precisa de cuidadores, familiares ou contratados, que o trate com humanidade e carinho. É preciso ficar claro, com consultas a especialistas exames, que nem toda demência é Alzheimer. Por fim, amar é cuidar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/06/2016.

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O TRAJETO – Diário do Nordeste

O avião estava na aproximação final e eu olhava absorto pela janela ovalada. Cidade clara, sem favelas, rios fluíam em cursos lentos e arborização abundante. Enfim, o pouso. O “finger” logo aberto. Os passageiros saíam rápido, pois não havia tralhas a levar. Ninguém de bermuda ou chinelo. A comissária despedia-se de cada um com aperto de mão. E sorria, de verdade.
No aeroporto, música suave dava júbilo e as malas já rodavam na esteira. Peguei a minha. O saguão era pleno de obras de arte nas paredes. Fui ao banheiro, limpo. Ninguém escovava os dentes, nem trocava camisa. Leve cheiro de lavanda.
Saí da gare. Havia táxis em profusão, brancos. Entrei no primeiro. O motorista, de uniforme, abriu a porta, deu-me boa-tarde, pôs a mala no bagageiro e perguntou o endereço. Ligou o GPS e mostrou o caminho. Curto, rápido e barato. Do rádio, em tom baixo, despontavam notícias: o último crime passional fazia dois anos; o PIB do país em 3%; gente de todas as raças e gêneros criava cooperativas para gerar renda e emprego.
O sinal fechou. Uma jovem bateu gentilmente no vidro. Deu-me prospecto com fatos da semana. Festival de escoteiros, apresentação de cantor gospel, passeio noturno de velocípedes, jogo de futebol entre dois clubes locais na primeira divisão do campeonato nacional, recital de cantores cegos e, por fim, a inauguração de parque cívico, com dinheiro arrecadado pela população. Alguns muros com hera, casas com jardins e crianças fardadas saíam, em algazarra, de bela escola pública. O carro freou. Ops, acordei.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2016.

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FILMES MEXICANOS EM FORTALEZA – DE GRAÇA – Jornal O Estado

Precedendo a edição 26ª do Cine Ceará, dirigido pelo cineasta Wolney Oliveira, acontece a Mostra de Cine Mexicano, em Fortaleza, na sede da Caixa Cultural, à Rua Pessoa Anta, 287, defronte ao Dragão do Mar. Você sabia? Começou na terça, dia 7 e só termina no dia 19. Pagar? Esqueça. É só chegar um pouco antes da hora e se inscrever. São duas sessões: 16 e 19 horas.
A formação internacional de Wolney Oliveira passa por uma profunda identificação com a filmografia latina, a partir de seus estudos, entre outros, em Cuba e, mais ainda, ser casado com nativa da língua de Cervantes.
Na edição passada do Cine Ceará, aconteceu a “Mostra do Novo Cinema Espanhol” com a curadoria de Pablo Arellano, o mesmo da atual mostra.
São 22 filmes. “A Maldade” (La Maldad) foi o filme de abertura. Talvez você não saiba, mas o México não é apenas exportador de manufaturas e de mão de obra para os Estados Unidos. Grandes artistas de Hollywood hão nascido no México, dentre eles o festejado ator Anthony Quinn, de Zorba, o Grego.
Os brasileiros e os cearenses, em particular, precisam conhecer a vasta cultura (tem quatro prêmios Nobel) mexicana, tão rica no passado, quanto criativa no presente. Para ficar só no cinema, lembro que, no passado, Anthony Quinn por necessidade, naturalizou-se americano, mas seus traços mostram o típico mexicano. Ele ganhou duas vezes o Oscar como ator, em “Viva Zapata” e “Sede de Viver”. Além disso, recebeu o Globo de Ouro, com “Zorba, o Grego”.
Por sua vez, o diretor espanhol Luis Bunñuel, nascido na Espanha, resolveu se naturalizar mexicano. Auferiu dezenas de prêmios, inclusive o Bafta
Cantinflas, ou Mario Moreno, com seu humor particular, obteve dois Globos de Ouro. Ele era adorado por suas caretas peculiares e o bigode engraçado com o qual fazia trejeitos. Agora, neste século 21, atores mexicanos como Gael Garcia Bernal, Salma Hayek e Demién Bichir fazem sucesso além das fronteiras do Rio Grande.
Por outro lado, diretores como Alfonso Cuáron, Guilherme Del Toro e Alejandro Iñarritu são festejados. Seus filmes têm grandes bilheterias e prêmios. Cuáron ganhou a Estatueta em 2013 (“Gravidade”). Iñarritu foi agraciado com dois Oscars. Um, por “Birdman”, outro por “The Revenant”. Eugenio Caballero arrebatou um Oscar, em direção artística.
No campo da fotografia, destacam-se Emmanuel Lubezki, que é ganhador de dois Oscars, e Guilherme Navarro, que já vencera, na mesma categoria, um Oscar.
Desculpem-me. Entusiasmei-me, pois sou, com prazer, Cônsul Honorário do México desde o século passado e alegro-me em saber que cearenses poderão consultar as páginas diárias de cinemas nos jornais locais ou ver o que passa no site da Caixa Cultural de Fortaleza. É chegar um pouquinho antes.
Os filmes merecem ser vistos até por quem não gosta de cinema, mas todos sairão encantados com os mistérios que envolvem as tramas. Bom proveito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/06/2016.

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ADAUTO E HUMBERTO BEZERRA, 90 ANOS – Jornal O Estado

A vida é longa se é plena (Longa est vita, si plena est) – Sêneca, filósofo romano, 4 a.C -65 d.C.
No tempo em que (José) Adauto e (Francisco) Humberto Bezerra nasceram, a medicina não discutia sobre gemealidade, visigóticos ou univitelinos, tampouco havia reprodução assistida.
A natureza corria seu curso quando, em uma quinta-feira, 3 de junho de 1926, Juazeiro recebeu os saudáveis gêmeos, filhos de José Bezerra de Menezes e Maria Amélia Rodrigues Bezerra. Um pouco além, no Crato, surgia o “Caldeirão dos Jesuítas”.
Juazeiro era cidade pequena – emancipada em 1911 pelo prestígio e luta de Cícero Romão Batista e de Floro Bartolomeu. – com apenas 15 anos e pouco mais que arruamentos de casas (“cada casa, uma oficina, cada oficina, um oratório”) com praça, feira, igreja e fé, muita fé.
Padre Cícero misturava religião com política. Já havia sido, por duas vezes, vice-governador do Ceará, e prefeito por 15 anos da cidade que criara do nada Ele saíra do Crato, 1m 1872, para formar uma urbe cujo principal desiderato era a fé. Sua área física definitiva ficou em 249km². A proximidade com outros núcleos populacionais poderia asfixiá-la. Entretanto, a cidade foi crescendo, tal como Adauto e Humberto.
A família de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva, fugida das polícias e milícias de todo o Nordeste, fincara, com apoio do Pe. Cícero, casa em Juazeiro desde 1923 e ali permaneceria até 1926. Pretendia se unir ao “Batalhão Patriótico” comandado por Luiz Carlos Prestes, o que não aconteceu.
Os Bezerra de Menezes foram o primeiro pilar empresarial da cidade, em contraponto com a face religiosa implantada por Cícero. Adauto e Humberto de lá saíra e concluíram os cursos na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1949.
Esse ano abre o horizonte dos dois irmãos que, juntos, trafegaram, como oficiais, pelas casernas, sem nunca esquecer o pastoreio da área empresarial, criada por seu pai, a partir do algodão e da sua tecelagem, tampouco deixar de lado a política, entranhada à família que, pouco a pouco, assenhoreava-se das lides locais após o falecimento de Cícero Romão Batista, em 1934.
Agora, neste 2016, pode-se dizer que os gêmeos José e Francisco, Adauto e Humberto, os irmãos Bezerra, os coronéis, são dois cearenses distinguidos nos diversos caminhos que trilharam nas áreas militar, política e empresarial.
Este artigo não é elegia, mas registro histórico feito por quem não é íntimo dos dois irmãos, nunca os acompanhou politicamente e sequer obteve préstimos em suas atividades como banqueiros.
Faço-o por cidadania e pela certeza de que suas múltiplas atuações no Ceará resultam vitoriosas, e com longo curso.
Agora, nonagenários, não param de empreender, por eles mesmos ou por seus sucessores, mas não conseguem viver sem se enfronhar na seara política, mesmo sob a figura de conselheiros de muitos nestes tempos de incertezas.
Políticos deram, de forma objetiva, as suas contribuições para o crescimento da “Joazeiro” natal e do Ceará, como parlamentares e dirigentes do executivo estadual.
Foram sempre o que são, não mudaram de rumo, mas, para surpresa de muitos, negociaram, há poucos anos, o seu banco com um grupo empresarial comunista da China. Isso mesmo, a China, de Mao Tsé Tung no poder, em 1949, depois decaído, e, agora, como a segunda potência econômica do planeta.
São as artimanhas deste mundo complexo, em que comunistas possuem empresas e já sentaram praça no Brasil, onde se tentacularam em áreas singulares, como bancos privados. Negócio é negócio. Ideologia é fundamento.
Hoje, sexta-feira, 3 de junho de 2016, com largueza e vitalidade, os irmãos Adauto e Humberto, baobás familiares, acolhem amigos e a sociedade cearense para, juntos, brindarem a sua entrada na gaudiosa senda de nonagenários produtivos e antenados. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/06/2016