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O BRASIL NÃO ACABARÁ. O QUE DEVE ACABAR É A IMPUNIDADE – Jornal O Estado

Alguém precisa ter lucidez nesse mar de incertezas provocadoras. Foi preciso o Ministério Público, a Polícia, a Receita e o Judiciário, todos federais, criarem, sob a forma de forças tarefas, um conjunto de ações para aclarar o que todos sabiam ou intuíam, mas não se sabia da grandeza dos “malfeitos”.
Enquanto as redes sociais são, teoricamente, anônimas, os meios de comunicação, por natureza, precisam pesquisar da forma mais profunda possível – se isso é crível – e divulgar. Os desocupados, os pagos e os invejosos são a principal fonte alimentadora das redes sociais e das badernas, a se antecipar aos meios de comunicação tradicionais.
A imprensa vem mudando de forma exponencial. Empresas trocam de donos. Outras nascem, como a CNN e a Fox, para citar apenas duas, cobrindo o mundo inteiro, com correspondentes, superando as antigas agências de notícias internacionais distribuidoras de notícias do seu jeito e modo. Aqui, a Globo, a Record e a Band seguem o mesmo viés.
O judiciário federal brasileiro, da primeira instância, é hoje conduzido por pessoas nascidas na segunda metade do século passado. Nessa época e logo a seguir, prosperavam revoluções e ditaduras na América Latina, o muro de Berlim caia. Etnias diferentes, em guerras intestinas, faziam a geografia da Europa apagar nomes de países e surgirem outros. A Guerra fria amornava.
Nós todos, jovens, adultos e maduros, ficamos meio sem referências depois que o Vale do Silício e outros centros geradores de informação e do conhecimento começaram a desvendar o que acontecia por trás dos sistemas de segurança e de finanças dos países e dos bancos. Os bancos, quase todos, seriam malfeitores.
Em 2008, por exemplo, o mundo foi sacudido, em todos os hemisférios. Não era uma marolinha, era o aclaramento da ganância de bancos a inventar nomes bonitos para fazer as mesmas tramoias, quiçá hediondas. “Prime”, “Sub-prime”, “Hedge” e tantas outras falaciosas denominações. “Default” geral.
Oito anos depois, neste final de 2016, estamos apreensivos com o amanhã. Não um amanhã hipotético, mas o verdadeiro. O dia que se segue ao hoje.
Voltemos ao passado. A democracia, oriunda da Grécia – onde o trabalho devia ser feito por escravos – nos deu a base que, muitos séculos depois, foi sendo aprimorada. A independência americana não conseguiu acabar com o escravagismo, tampouco a Revolução Francesa alcançou a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O continente africano, países da Ásia e o Oriente Médio foram explorados, até à exaustão, por nações ditas civilizadas.
Hoje, a barbárie impera. As guerras, as guerrilhas e as múltiplas ameaças de confrontos são resultados não só de questões de geopolítica, mas alimentadas pelos lobbies de armamentos, dos suprimentos, dos blindados, veículos de transportes, das comunicações e do aparato que uma guerra, pequena ou grande, requer.
Volto ao Brasil. Este tão espoliado país urdiu a imbecil audácia de fazer, em tempos duros, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. A FIFA, entidade que cuida do futebol, era – e talvez ainda seja – uma arapuca de embusteiros de casaca. O Comitê Olímpico também sofre investigações.
Implodimos estádios prontos para seguir os padrões FIFA. Meu Deus. A par disso somos, de dois em dois anos, obrigados a votar. Uma eleição, sabem o Tribunal Superior Eleitoral e os tribunais eleitorais estaduais, custa bilhões de reais. É hora de desamamentar essa máquina triste.
Como não aceitar o povo revoltado, mesmo que açulado? Como conviver com 12 bilhões de desempregados? Como desmantelar facções criminosas a controlar o tráfico de drogas? Como derruir o carcomido sistema político com dezenas de partidos, todos vorazes?
Nós, o povo, devemos trincar os dentes, acreditar na paz e na saída honrosa do trabalho, esse que nos engrandece como pessoas. A justiça deve fazer a parte dela, com apoio nosso. Chega de parasitas e malfeitores.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/12/2016.

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BRASIL, EM TEMPOS DE TEMER – Jornal O Estado

O presidente Temer fala, se não me equivoco, com o jargão dos professores, ainda usando paletó e gravata, dos anos 50/60 do Largo de São Francisco, da Faculdade de Direito da USP. Ele, persistindo assim, não conseguirá se comunicar com o povo brasileiro. Parece que a sua concentração em Direito Constitucional não favorece o contato ansioso – e duro – com a imprensa sempre querendo saber o que a autoridade não deseja tornar público.
Todo governo deve possuir porta-voz loquaz, comunicativo e cativante. O governo Temer não tem essa pessoa. Poderia, quem sabe, até tentar Gaudêncio Torquato? Além disso, é preciso uma espécie de equipe de retaguarda formada por ministros e assessores, que pode discordar, com argumentos, do governante. Essa retaguarda deveria fazer o trabalho pesado, de triagem, de ajustes e de enfrentamentos. O presidente Temer está aparecendo demais na televisão, sem que alguns assuntos sejam relevantes para uma coletiva de um Chefe de Estado.
Outro ponto fundamental é a escolha de ministros, mesmo sendo um “governo de coalização”. Os candidatos a esses cargos precisam ser desnudados antes da escolha. Mal comparando, seria, como se dizia no passado, saber a sua “folha corrida na polícia”. Depois, sendo mais moderno, verificar os simples SPC e Serasa. A penúltima etapa seria obter cópia da declaração na Receita Federal, certidões fiscais, cíveis e criminais dele e de seu cônjuge. Sendo atual ou informatizado, procurar olhar nas famosas e infamantes redes sociais, o que a pessoa diz de si própria, a sua conversa com os seus “seguidores”. É claro que há que se olhar a outra versão, a dos “perseguidores”. A vida pública possui essa dicotomia: uns amam, outros odeiam.
Antes de qualquer futuro ministro falar com o presidente deveria ser sabatinado pela equipe de retaguarda. Nessa sabatina avaliar-se-ia (créditos ao presidente) a capacidade de comunicação do candidato, algum conhecimento da área onde vai atuar e o grau de empatia com a equipe. Se esses mínimos cuidados tivessem sido feitos não haveria tanto atropelo. Sei disso, por experiência própria. Desconfie de aparências e lero-lero.
Seis ministros em seis meses já caíram. Em cada queda, uma pequena, média ou grande crise. Governo não pode ficar se explicando. Precisa agir rápido, antecipar-se aos fatos. Não está acontecendo isso e a imprensa, sempre vigilante, destrói as informações toscas recebidas.
Torço pelo Brasil e não acho prudente esse clima de novo “impeachment”. O Brasil precisa ficar de olho ao que está acontecendo no mundo. Estamos vivendo era perigosa. Trump é ainda incógnita. Hillary ameaça pedir recontagem de votos. O Oriente Médio recebe armas de todos os lados, inclusive, as compradas do Brasil. A Europa dá guinada para a direita e a Inglaterra tenta se isolar. A China se espraia pelo mundo real.
Não podemos praticar autofagia, somos os que elegem, os que pagam impostos e os que sonegam. Os que aplaudem e os que xingam. Há baderna incitada. A hora é de exame. Resolver as pendências, sem tanta retórica, sem compadrio partidário e sem demonizar a Justiça. Ainda bem que “há juízes em Berlim”. Como disse, nesta semana, a Ministra Cármen Lúcia: “Juiz sem independência não é juiz. É carimbador de despachos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/12/2016.

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PÉS NO CHÃO – Diário do Nordeste

Creio que o Brasil cumpriu a sua fase de grandiloquência. Agora é tratar de fazer o que já deveríamos haver realizado: esgoto nas casas que não os têm e nas que serão construídas. Um SUS mais eficaz, sem macas nos corredores; escolas com professores comprometidos, merenda escolar e segurança. Combate verdadeiro aos problemas decorrentes das drogas, e emprego para os quase 12 milhões de desempregados. O Brasil não precisa apenas de coreografia, mas entender de sua geografia humana, preservar os seus recursos naturais e estabelecer vínculos permanentes de benquerença. Estamos prontos para o entendimento que não dependa apenas dos outros. Deve partir de nós mesmos, com as limitações que herdamos e não soubemos, ainda, superar. Precisamos fazer o calçamento das ruas distantes, dar dignidade aos policiais que nos protegem e estabelecer canais de diálogos entre o povo e os agentes públicos. Menos suntuosidades, presunções, menos promessas, mais feitos simples que diminuam as diferenças que a educação precária não pode dar a milhões de patrícios. Devemos reconhecer as nossas faltas e combatê-las com coragem. Esse é um trabalho coletivo que começa pela atitude de cada pessoa na relação com o próximo. Somos todos perecíveis, o Brasil é permanente e precisa mudar o seu foco para pequenos serviços, pequenos gestos, menos indiferença e mais fraternidade.
Falo o que sinto, o que vejo no dia a dia, nas desabaladas motocicletas provocando acidentes graves a limitar pessoas. Nós, todos juntos e embaralhados, somos a raiz dos problemas e das soluções. Pés no chão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/08/2016.

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NÃO CULPEM O AGOSTO – Jornal O Estado

As Olimpíadas terminaram de forma apoteótica em um Maracanã pleno de chuva da noite de 21 de agosto. Foram 19 medalhas por 40 bilhões de reais (FSP, 22.08, pag.1). Nessa chuva restavam acumuladas as lágrimas dos que viram a perda do Campeonato Mundial de Futebol, em 1950.
Nessa chuva jaziam, igualmente, os choros de tantos brasileiros que não conseguiram a oportunidade de ver o Brasil ser campeão do mundo, em 2014. Os esportes fazem parte de um país, mas não são a sua razão ser.
O mundo há mudado de forma tão veloz e contundente que a perplexidade nos convida a refletir sobre o que recebemos ao nascer e o que vemos hoje, a partir de nós mesmos – quando somos condescendentes – e dos outros – quando somos críticos.
O Brasil, institucionalmente, não nos deu muita segurança, desde que nasci. O fim de Vargas, o “progresso com Brasília” de Juscelino Kubitschek, a vitória surpreendente de Jânio, incomodado com a grandiloquência da construção de Brasília, semente de um país novo que deveria surgir. Há a renúncia abrupta de Jânio. João Goulart é comboiado desde a China. Após negociações, com a presença de Tancredo, Jango assume, sem muita destreza, um país já muito complexo e perplexo.
Veio o 1964 e tudo mudou. Foi um longo período em que o Brasil estabeleceu parâmetros nacionalistas para definir o seu futuro. E esse futuro não veio como se esperava. Eleições indiretas, Tancredo ganhou, mas não levou. Finou-se. Sarney, com o apoio urdido em madrugada insone, fez-se Presidente. Collor, Itamar, Fernando Henrique I e II, Lula I e II, Dilma I e parte II, compõem o quadro seguinte.
Agora, neste agosto, emerge o fim de uma gestação e um embate político prolongados, entremeados de negociações, de manifestações e de juridicidades. O Senado segue rito, com a presença do STF, e deverá ser a última palavra, talvez, neste final de mês. Por tal razão, o título. Não culpem os agostos de anos distintos para os acidentes e incidentes ocorridos, ou em curso no País.
Qualquer que seja o resultado, o Brasil sairá dividido. Essa divisão nos incomoda, não só pelas opiniões, mas pelas diferenças entre as naturezas e as condições de vida das pessoas que mereciam um país mais equânime, com menos ebulição, produtivo, cumprindo o que a ampla Constituição de 1988, a dita Carta Cidadã, prometeu e não nos entregou, ainda. É chegado o tempo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/08/2016.

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RELEMBRANDO AIRTON MONTE – Jornal O Estado

Bateu uma lembrança do Airton Monte. Resolvo remexer em meus escritos. A vida do médico, do poeta, do contista, do pai de família é uma história de bem.
“Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos”, dizia ele. 1.Airton Monte viveu sempre na era de Aquário. Menino de colégio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se- de ler e estudar. Depois, já médico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, já aos bagaços, e amava a vida.2. Tímido como um monge trapista, limpava as grossas lentes ao ver os balanços das cadeiras. Não as de sentar. 3.Deu-se um tempo na traquinagem e casou-se com a prima, Sônia, sabedora de seus poréns, amante e companheira que lhe deu os filhos Bárbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irmão maior que os adorava na sua esquisitice. 4.Sabia-se leitor e daí, sem deslize, passou a escrever. Primeiro, poemas. Depois, contos. A crônica já estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, à casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, após, como psiquiatra cooperado da Unimed.
5.Desajeitado no computador – com que o poeta Carlos Augusto Viana o presenteara – sofria com a coisa”. Ele me ligava e eu enviava a Josilene Lima a sua casa para mexer no “bicho” que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil máquina de escrever.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de pânico e o fez hígido em pouco tempo. Poucas pílulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era “assim, assim” com o citado Carlos Augusto, que o transmudava do seu “solar suburbano” para os altos de um prédio mirando o mar.
6. Foi amado por José Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Dele cuidou no último lustro e até o roubou do calor do ciumento e esquentado Clube do Bode para o refrigério do restaurante do Ideal Clube.7. Quando seu pai, também Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: já foi lá? Não tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanhá-lo. E lá fomos nós ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma criança ao velar o pai inconsciente. Na volta, mãos enfiadas nos bolsos da bata, fez do silêncio a sua dor. 8. Nos últimos anos queixou-se do corpo e o Teles ataviou-se de irmão mais velho e estava lá na cirurgia que se esperava salvadora.
Passou a beber cerveja sem álcool, o mal retornou. Por fim, prostrou-se e, resignado, voltou à sua casa de verde pintada.9. Estive lá há alguns dias. Bárbara me recebeu. Jornais tais como o jornaleiro entregara. Depois, entrei em seu quarto. Televisão ligada, sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu água e, depois, um refrigerante. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora antes. 10. Dia 11 de setembro de 2012, 17h30, seu ataúde foi fechado. Batemos palmas. Era a última cena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/08/2016.

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LEGADO DE PAI – Diário do Nordeste

Filhos nascem do amor ou do fortuito. O filho é apenas parte do pai, tal como parte da mãe, esse ser tão decantado, protegido e incensado.
O pai, quase sempre, é ser periférico, mesmo se a relação familiar perdura. Não há como competir com a gestação e a amamentação, preceitos maternos, únicos.
São laços que a neurociência tenta explicar e ainda não sabe. O pai foi, até algum tempo, o único provedor da família e isso implicava em estar menos tempo presente que a mãe no processo de educação dos filhos. Amor não se mede em tempo.
Atualmente, a história soa diferente do que fora no passado. Hoje, o razoável é casar com separação de bens, pois ambos trabalham e o eterno pode ser efêmero.
Todos coabitam na boa expectativa, mas a convivência faz estragos, além dos danos que a vida impõe.
Não vivemos em sonho, somos reais até quando sonhamos. Vai daí que a relação entre o pai e os filhos depende, em grande parte, do comportamento da mãe e da sua afinidade, madura, com o pai.
Posto isso, refiro que o legado do pai é a sua própria vida, a sua história pessoal e a abnegação aos filhos que, por amor, foram gerados.
Hoje, 16º ano do século 21, há mudanças de paradigmas. Há filhos de duas mães e filhos de dois pais. Não importa. Se amor houver e se cada um fizer a sua parte.
O que valerá é o legado, não o de bens, mas de bons gestos, ações e de atitudes. Foi-­se o tempo em que casamento era ofício de mulher.
Amanhã será mais um Dia dos pais. Parabéns a todos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2016.

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ECOS DE UMA ELEIÇÃO ALUCINADA – Jornal O Estado

Estou vendo e ouvindo a CNN. Acompanho as campanhas de Donald Trump e Hillary Clinton ao redor dos Estados Unidos. Um país considerado “cult” para uns; “kitsch”, para outros. Há muitas origens distintas e caracteres bem diferente da ideia que se tem do antigo “american way of life”.
Nem era bem adulto quando, pela primeira vez, estive por lá. Voltei outras. Nesse longo tempo já vi muita gente e coisas: presidente, manifestações de negros sobre Washington, universidades, ciclone, peças de teatro, funerais, museus, galerias de arte, parques de diversões, rua de drogados, cemitério para heróis de guerras, festivais, dias da Independência e de Ação de Graças, Natal, Ano Novo, marcha de ex-combatentes do Vietnã, Iraque etc.
Conversei com professores, estudantes, motoristas, lixeiros, garçons e, cada vez mais, me convenço de que a América não é um país. É o que a Europa luta para ser, uma espécie de Confederação.
Tímida, atrevida, irreverente, grandiosa, conservadora, racista, inovadora, cosmopolita, vitoriosa, derrotada, caipira, monoglota, poliglota, organizada, polivalente, tudo isso é a América e esse retrato me sai difuso, confuso, complexo e desfocado. Especialmente, quando um candidato a Presidente falar em construir muro de 3.000 km para isolar os EUA do México. Absurdo.
Quando se analisa uma pessoa, embutimos no juízo de valor toda a nossa história. Quando se deseja conhecer um país é natural que entrem, de roldão, a nossa empatia, simpatia ou antipatia. Ninguém é isento diante de tantos contrastes e incongruências que constituem um Estado tão peculiar quanto os Estados Unidos.
Quer-se julgar o que se vê apenas com os olhos, mas é necessário vê-lo com lente mais ampla para descobrir a ordem existente em meio a um caos aparente. Não é mera ficção ou ilusionismo.
A grande maioria das empresas americanas está hoje voltada para uma concorrência global desenfreada, e isso provocou ajustamento profundo nos setores de informação e automação. Há milhões de desempregados, vivendo da segurança social.
Segundo pesquisas, há desaceleração da expansão econômica, medo de desemprego maior e da concorrência estrangeira, ao mesmo tempo em que se reclama do aumento dos impostos, dos gastos governamentais, do protecionismo e do declínio da atividade industrial. Lembrem-se: a China, agora, é grande concorrente e, ao mesmo tempo, mercado para as empresas americanas. Atracão e reação.
Hoje, neste agosto, três meses antes da eleição da pessoa que substituirá Barack Houssein Obama, os Estados Unidos parecem um grande computador onde quase todos acessam o que querem ou imaginam desejar, mas a chave está, digamos, com o Google, que sabe tudo de todos.
O americano médio ou comum, como o imaginávamos, não existe mais. Hoje, a força dos imigrantes no trabalho, nas universidades, na tecnologia e nas ciências, deu nova face a um país que se imaginava apenas branco, anglo-saxão e protestante. Judeus, árabes, latinos, eslavos, asiáticos e europeus se miscigenaram, na medida do possível, com os nativos e tornaram os Estados Unidos esse amálgama quase indecifrável.
Disso tudo, fica a sensação de haver um processo em fervura com novos paradigmas. Os que vêm de fora aceitam – ou desistem – as regras consagradas quanto à ordem e ao modelo econômico. Os “americanos” já não torcem tanto o rosto ao ver o vizinho asiático sair em um reluzente Mercedes Benz. Maior que o antagonismo atávico aos não anglo-saxões e às minorias raciais é o respeito aos que fazem a América e conseguem, superando os obstáculos da língua e da raça, ser respeitados pelo sucesso, ainda a religião mais forte do país.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2016.

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O CHOCOLATE E O PAÍS DE TODOS NÓS – Jornal O Estado

“Não sou especialista em Brasil, mas uma coisa estou habilitado a dizer: não creiam que mão de obra barata ainda seja uma vantagem”. Peter Drucker, 1909-2005).
Há uma propaganda de chocolate veiculada na televisão a fazer galhofa acerca do descobrimento do Brasil. O cenário é uma nau. Um marujo furta chocolate e Pedro Álvares Cabral se dá conta- erradamente – ter chegado às Índias, motivo básico de sua viagem, por ser recebido por silvícolas a quem oferece tal guloseima.
Já vai longe essa trilha de deboche com a nossa pátria. Há piadas, concretudes e descasos que nos movem a dizer ser preciso transformar o país. O estado geral é precário. Todos nós somos a herança recebida dos pais e a convivência com os diversos grupos dos quais participamos, desde a infância.
Artigo atual, assinado pelo Ministro Luís Roberto Barroso, diz: “O Estado, no Brasil, além de ineficiente, ficou grande demais, e a sociedade não consegue sustentá-lo. Aproximadamente 4% do PIB é gasto com a folha do funcionalismo”.
Essa constatação é mais um alerta para que a burocracia não seja o entrave ao desenvolvimento. Há, desde muito tempo, pessoas a deter cargos comissionados e, mesmo mudando os chefes, se consideram posseiros do lugar, do conhecimento e tudo fazem para mostrar atos e serviços que, na realidade, deveriam constar das rotinas de trabalho.
Por outro lado, a “Human Rights Watch”, Ong de direitos humanos, por seu CEO, Kenneth Roth, afirma: “No Brasil, é preocupante a discussão sobre a redução da maioridade penal e o novo modelo de estatuto que restringe o conceito de família a casais heterossexuais”. Com todo o respeito, Mr. Roth foi mal informado. Vive-se hoje uma sociedade plural, oportunizando a todas as pessoas permanecerem identificadas tais como são, sem a necessidade de fingir ou sublimar. Isso vale para todas as minorias.
Existem radicalismos. Ele é um dos elementos de uma sociedade que precisa ouvir todas as tendências. Do entrechoque pode sair um país renovado, não conspurcado por uma só forma de pensar e agir. A discussão sobre a maioridade penal não é só um problema nosso. Os Estados Unidos, país do Mr. Roth, são muito mais severos com os infratores menores que as nossas autoridades policiais e judiciais com os delinquentes aquém dos 18 anos.
Este final de ano, a partir desta semana, será uma quadra inovadora para o Brasil, pois há que se resolver problemas institucionais, sem deixar que a economia e a empregabilidade esmaeçam os esforços de uma sociedade que se comporta com responsabilidade, mesmo com a eclosão de movimentos em latitudes diferentes.
Voltando ao início. A História e o Brasil não mais comportam galhofas e arrebatamentos. Pede-se a razoabilidade que deve presidir o sistema democrático. Ser brasileiro foi o nosso destino ao nascer. Que se transforme, para todos, em oportunidade para servir. Chega de bazófia, estamos precisando de ações, falas curtas de detentores de cargos públicos, regras claras, mais trabalho capaz e menos exposição.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2016.

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BRASIL: A LEITURA DOS OUTROS – Jornal O Estado

Já vai longe o 17 de abril, em que Dilma foi vencida, na primeira rodada, na luta que vai prosseguir. Preferi ficar longe da TV, dos jornais, das redes sociais, telefones e afins. Na terça, 19, resolvi comprar e ler jornais estrangeiros. Alguns dos Estados Unidos. Outros da América Latina. A intenção era verificar como a imprensa de outros países nos vê neste momento crítico. Que realce nos dão?
O primeiro é o “El Nuevo Herald”, em espanhol, com circulação nos EEUU. A notícia saiu na sete e ocupa meia página com grande foto em fundo verde, o slogan “Pátria Educadora” e Dilma atrás de púlpito com as armas da República. Conclui: “A mandatária disse que o governo terá uma relação ‘diferente’ com os senadores para frear o processo através de uma interlocução qualificada”. O espaço foi o mesmo dedicado ao terremoto no Equador.
O segundo foi o “El Universo”, de Santiago de Guayaquil, Equador. Há pequena chamada na primeira que nos leva a 10, com espaço pouco maior. Um dos tópicos, diz: “Os analistas hão se mostrado céticos de que ela (Dilma) possa se manter no poder, ao destacar o espetacular fracasso da governante para obter apoio político, inclusive dos partidos que por muito tempo tinham integrado sua coalizão governante”. Uma submanchete informa que “a luta pelo poder continuará no Senado”.
O terceiro foi o “The New York Times”. O NYT faz chamada de primeira página com foto tipo 3X4 de Dilma e nos encaminha para a página A4. Lá: “O voto pró impeachment produz comemorações, mas ainda não chegou ao fim o caos (turmoil) no Brasil.
A matéria de Andrew Jacobs e Vinod Sreefharsha” não se limita a 1/3 de página e nos remete a A12. Abre com foto conjunta de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, dizendo que os dois são fazedores de lei (lawmakers) e “são submetidos a inquéritos por corrupção”. No corpo da notícia, se lê: “No momento, todos os olhos estão no Sr. Temer, o vice-presidente, um homem taciturno que tem uma longa preferência pelas cenas de bastidores. Entretanto, ele é também objeto de uma petição de impedimento, muitos experts acreditam que a matéria cairá em razão do interesse a estabilidade nacional”.
O quarto foi o “USA Today”. Folheei todo. Nada. Deixei, por último, o jornal “Clarín”, de Buenos Aires, Argentina, mas do dia 18, pois a proximidade dos “hermanos” permitiu notícia quente, logo na segunda-feira. Na capa: “Grande aval dos deputados ao juízo político.
Brasil: Dilma ficou mais perto de ser destituída”. Em seguida, comenta o resultado de 367 a 137 e nos manda ir à página 3. Na página 3 não há nada. Sorrio. Folheio o “Clarín” e encontro em “El Mundo”, folhas 24 e 25. Lembro que o Clarín usa o formato de tabloide do “O Estado”. Na página 24 há foto de Dilma com Temer em que ambos confidenciam, pois estão com mãos sobre as bocas. A manchete: “Michel Temer, um político hábil e calculador detrás do poder”. Eduardo Cunha é chamado de acróbata (titiritero) nas sombras das crises”. Na 25 há foto colorida dos manifestantes em Brasília, “separados por valas”.
Abaixo há dois pequenos artigos. Um de Ricardo Noblat, editorialista do jornal O Globo, com o título “A democracia será mais forte”. Outro, do deputado do PT do Acre, Raimundo Angelim, “Um processo que dividirá o país”. Por fim, deixo a critério dos leitores a interpretação dos textos que citei para informá-los como os outros nos veem. O que diz você?

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/04/2016.

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CONSELHO PEDIDO E, TALVEZ, NÃO ATENDIDO – Jornal O Estado

Alguém acredita que eu possa dar conselho? Não estou seguro. A pessoa que me pede está perto de 30 anos, fez um bom curso superior e ainda não conseguiu trabalho que o animasse a enfrentar o mundo real. Resolveu, por sua conta e risco, virar “concurseiro”. Perguntei: qual a área? Tudo o que aparecer.
Não sei se é por aí. Cada um deve saber das suas habilidades e suas capacidades. Participar de um concurso é acreditar em duas variáveis: seus conhecimentos e o seu comportamento quando das provas. Sem falar nos concorrentes.
Sei que os cursinhos ou “cursões” dão dicas para driblar o estresse, mas cada um convive com seus grilos, seus medos e suas idiossincrasias, que se manifestam independente de suas vontades.
Os concursos são uma espécie ampliada do ENEM com alto nível de generalizações e complexidades, múltiplas matérias. Eles dispersam o foco de qualquer profissional. Assim, quanto mais tempo passar como concurseiro, menor será a sua chance de conseguir um emprego na área em que se formou com razoável índice de rendimento acadêmico.
Há um instante em que você deve perguntar para o espelho: o que estou fazendo? Marcando passo ou fugindo das entrevistas de emprego com várias fases. Por outro lado, sabe-se que muitas pessoas da sua faixa de idade são adictas (viciadas) em redes sociais e em “rodinhas” presenciais que tomam tempo dos estudos.
Ainda não falei da vida pessoal, das cobranças dos pais, dos namorados ou parceiros. Dia desses, encontrei, em restaurante, pessoa que havia conseguido passar – e ser chamada – em um bom concurso e estava exultante. Tinha razão. Cumprira o prometido a ele mesmo.
Uma pergunta direta e talvez incorreta: você acredita nos seus conhecimentos ou está frequentando aulas sem motivação? Não basta a presença física. É preciso aquela vontade incomum, a que faz um velocista terminar uma corrida mesmo que os músculos estejam fatigados. No seu caso, entretanto, não são músculos, mas neurônios, sinapses e a capacidade de memória para transformar as informações em conhecimento, sem o qual não vencerá os focados somente nesse objetivo.
A vida adulta não é o prolongamento da juventude. Ela é o portal das cobranças que vão existir ao longo de todo o seu percurso. Estou quase terminando e não sei se ajudei a você ou não.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/04/2016.