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CRIANÇA. O ONTEM E O HOJE – Jornal O Estado

Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em guerra. Não por tal razão chorava. Havia saído a fórceps do útero de mãe primípara, por obra e graça de parteira diplomada. Seu pai só tinha 20 anos, era ciumento e não deixou a jovem mulher ser assistida por médico. Paparicado por jovens tias maternas, pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, não veio o dilúvio, mas oito crianças.
Uma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, iniciá-lo, aos quatro anos, nos estudos em escola experimental americana. Ia só. Quem o acompanhava, ficava longe. Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em ginásio formal. Um dia, não lembra a razão, foi o último a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do próprio ginásio e ligou para o pai contando o fato. Disse: não estudaria mais ali. Dito e feito.
Dezenas de anos passados, ele, já com netos em idade escolar, tenta aproximação de formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o prenúncio de um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crianças exemplos. As filhas procuravam conhecê-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui, viajaram, estão de férias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e serviram de modelo invisível para as ainda crédulas filhotas.
Agora, conta um pouco do “seu-sem-jeito” como avô. Há anos combinou com uma filha: levaria as crianças dela para a escola. Tentava maior aproximação. Entravam no carro ainda bocejando. Ele, o avô, colocara no toca cd músicas infantis e ia, desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia, perguntou se fazia diferença ir apanhá-los manhã cedo ou outra pessoa servia. Triste, ouviu: tanto faz.
Domingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primogênito para levá-lo a uma feira de numismática. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de segurança atados, foram conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crianças, concepção pedagógica da professora Zilda Martins Rodrigues.
Lá, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a qualquer preço, as moedas repetidas. Arrazoou: você não está precisando de dinheiro. Comprou novas moedas para o neto, inclusive, cédula de dólar com a cara do Mickey, só circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas.
Depois, foram almoçar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do almoço provou pouco, mas bebeu duas latas do excêntrico Guaraná Jesus, hoje marca da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abraços. Ficaram combinados, voltariam à feira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/10/2017.

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MORTES EM DEMASIA. QUAL A SOLUÇÃO – Jornal O Estado

“Algumas pessoas matam. Outras, se satisfazem lendo a notícia de assassinatos”. Millôr Fernandes
Não há família, grupo de amigos, empresa, igreja e assemelhados sem possuir integrante atacado ou morto em assaltos por jovens em bicicletas, por adultos com capacete em motos, por balas perdidas, por viciados de toda a espécie e por marginais institucionalizados. São presos e, logo soltos, em face de excesso de gente nas carceragens, nos presídios e nas audiências de custódia.
Reportagem da socióloga e jornalista Fernanda Mena, em dupla página, sob o título “Um inquérito sobre a polícia”, no caderno Ilustríssima, FSP, em 08.02.2015, apresenta números assustadores: 54.269 pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2013; desse total, 2.212 pessoas foram mortas por policiais civis ou militares, em serviço ou fora dele. Por outro lado, 490 policiais -civis e militares- foram abatidos em confrontos com bandidos ou suspeitos. Imaginem os números, se atualizados.
Vendo-se o acontecido em países civilizados, nenhuma pessoa – nesse mesmo ano de 2013 – foi morta pelas polícias do Reino Unido e do Japão. Quanto aos crimes, observa-se: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos Estados Unidos é de 4,7. No Brasil ela é quase seis vezes maior: 26,9.
Em pesquisas feitas com policiais sobre o baixo desempenho, 95% informaram ser ele originado pela ausência de integração entre as diferentes polícias. Somente 30% da população confia nas polícias civil e militar. Afirmam: elas invadem residências sem mandado judicial e prendem pessoas, sem culpa formada, apenas por as considerarem “suspeitas”, pela cor, renda ou local de morada.
Há no Brasil, comunicadores de emissoras de rádio e de televisão eleitos pelo estardalhaço em seus programas, deixando nua e crua a delinquência e clamando, em altos brados, por soluções para o caos social. Os barulhentos se elegem e se reelegem, prometendo ‘acabar com a frouxidão da polícia’ e resolver tudo em um mero passe de mágica. Todos, juntos, compõem as “bancadas da bala”. Pirotecnia ou busca de audiência?
Jovens policiais procuram fazer novos concursos públicos em outras áreas, e, quando neles passam, deixam suas famílias aliviadas, em razão do estresse e das suspeições em casos de confrontos resultando mortos ou feridos.
Saindo da reportagem de Fernanda Mena, procurei a Revista Brasileira de Segurança Pública, ano cinco, edição nove, agosto/setembro de 2011, e tive o prazer de ver a análise de Francisco Thiago Rocha Vasconcelos, mestre em sociologia, em 2009, pela Universidade Federal do Ceará, então doutorando da USP. Ele assevera: “O enfoque sociológico sobre a violência deslocado da relação entre o medo do crime e a instauração de distâncias sociais e mudanças nas relações urbanas, passou a se concentrar, então, no modo como as instituições do sistema de justiça criminal intervêm no crescimento da criminalidade urbana violenta, seja por uma participação ativa, na forma de violência ilegal ou pelo viés autoritário e estigmatizante de sua atuação, seja por sua omissão em punir as violações de direitos humanos praticadas por seus agentes ou ainda por sua incapacidade em dar conta dos novos fenômenos criminais”.
Esse assunto, complexo, toma hoje nova dimensão em face da atuação firme e isenta da Polícia Federal em casos de corrupção na Petrobras, na Lava-Jato e outros. Começam a surgir, nos Estados, movimentos civis – organizados ou não –clamando pela extensão dessas operações em órgãos públicos.
Ao concluir, uma pergunta: Já foi regulamentado o parágrafo 7 do art. 144 da Constituição de 1988? Ele diz: “A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos de segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades”. Ou foi e eu não soube?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2017.

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BENFICA 18 ANOS, ATREVIDO BENFICA – Jornal O Estado

Lutei com as forças que me faltavam do meio ao final da década de 1990. Tudo estava complicado para mim. No particular e no geral. O projeto e a execução do Shopping Benfica não contaram com apoio de ninguém. Só me diziam: aqui não dará certo. Parecia um mantra. Lembrei-me de uma frase do escritor Zuenir Ventura: “inveja não é querer que o outro tenha.” Eu era o outro. Foram anos.
Um dia, cheio de problemas, resolvi marcar a data, 30 de outubro de 1999. Aniversário de D. Margarida, minha mãe. Deu certo. Assim aconteceu. Com foto e nome de todos os que trabalharam para que o Shopping Benfica saísse do papel. Do servente ao engenheiro. Havia um buraco no meio do caminho. O do Metrofor, à nossa frente.
Família, colaboradores, amigos, autoridades e o reitor Martins Filho, refundador do bairro do Benfica- depois esvaziado com a criação dos campi do Pici e do Porangabussu- estavam lá. O sol era forte. Ao redor, necas de edifícios. Tudo bem, seria assim mesmo, ao som da Camerata da Universidade Federal do Ceará. Os tapumes das vazias lojas não tinham disfarces, mas dezenas de pinturas grandes de artistas locais, em concurso que marcava a criação da Galeria BenficArte. Ganhadores (Emília Porto e Audifax Rios) com passagens para os Estados Unidos e Europa. Prometido e cumprido.
Manhã seguinte, véspera do Dia de Todos os Santos, bateu a realidade. Convocamos Associações e órgãos de classe, nada. Cada um na sua. Foi aí que os meus espíritos do trabalho, da cultura, da irreverência, das artes e, sobretudo, o da responsabilidade social, se juntaram e deram-me força. Desculpem a primeira pessoa, mas não tinha a segunda.
O Metrofor, de esperança, transformou-se em transtorno. Tive que dar parte do nosso terreno para a abertura da Estação Benfica, só inaugurada nesta segunda década do século 21.
Chega de choro. No dia 30 de outubro de 2017, o Shopping Benfica completou 18 anos. Fosse uma pessoa, teria passado, com folga no Enem, mas escolheria um curso deste Benfica, raiz e fundamento de várias Universidades, como a Federal do Ceará, a UECE, a IFCE e de cursos superiores, de vários matizes, particulares.
Os nossos vizinhos tornaram-se amigos, desde a construção. Batiam papo, coçavam a cabeça, perguntavam o meu nome, como seria a obra e a conversa corria solta. Hoje, são clientes, porque já eram amigos. São tratadas como pessoas solidárias, que nos deram o azimute para os nossos sonhos não virassem pesadelo.
Estamos agora a arrumar este jovem Shopping Benfica. Novas roupas, novas luzes, cara limpa, espelho d’água, jardins frondosos dão a animação indispensável ao ethos que o distingue dos demais. O Benfica foi o primeiro Shopping do Brasil a obter a certificação ISO-2001, de acreditação da Grã-Bretanha. Por diversas vezes fomos homenageados no Fórum de Líderes, em São Paulo. A pergunta que nos vinha à mente, ao subir ao palco: o que faço no meio desses “Tycoons”. Uns, quebraram. Outros…
Na área da cultura ganhamos, anos seguidos, todas as premiações do “Selo Cultural”, em administrações diferentes da Secretaria da Cultura do Ceará. Ao final, fomos aquinhoados com o selo “Diamante”, o único concedido, entre empresas públicas e privadas. Depois, o selo foi extinto.
Não estamos bazofiando. Externamos apenas para que a História o registre. No Ceará, tem disso. Os bem-vindos e os aquinhoados são os abençoados pelo BNDES, isenções, refis, incentivos fiscais, renúncias fiscais, fundos de pensões, dentre outros. Nós nunca tivemos nada disso. Pagamos e temos certidões fiscais do Município, do Estado e da União.
Depois de tantos percalços vencidos, estamos aqui ao lado de milhares de clientes, lojistas locais e, imaginem, até multinacionais, já se instalaram no Benfica. Quem diria! Deus sabe como foi duro, mas tudo defendido pela nossa equipe cabeça-chata, pelos lojistas e por nossa clientela, gente de bem, que conversa conosco, do mesmo jeito que o fazia durante a construção.
Vida que segue. Deus nos abençoe. Obrigado a todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/11/2017.

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CENTENÁRIO DO POETA GERARDO MELLO MOURÃO – Jornal O Estado

Ontem, em Brasília 23 de março de 2017, com palestra do escritor e diplomata Márcio Catunda, a Associação Nacional dos Escritores – ANE, homenageou o centenário do imenso poeta, político e jornalista cearense Gerardo Majella Melo Mourão(1917-2007). Na realidade, Mourão completaria 100 anos em 08 de janeiro passado.
Sabe-se que o percurso de vida de Gerardo Mello Mourão é rico em atribulações e feitos. Seminarista maior pela Ordem dos Redentoristas holandeses, abandonou a batina pouco antes de ser padre. Em seguida, estudou Direito. Mais uma vez não concluiu o curso, tal a sua incansável busca por algo maior que ocupasse a sua brilhante cabeça.
Foi integralista. Cooptado quando Plínio Salgado levantou essa bandeira similar ao nacional socialismo. O Ditador Vargas o considerou traidor nacional e o condenou à morte. Depois, 30 anos de prisão. Cumpriu cinco anos e dez meses. Eram os tempos incertos da 2ª. Guerra Mundial.
Com a redemocratização, passou a seguir o ideário comunista de Luiz Carlos Prestes, sem largar o batente de jornalista e poeta. Fez-se deputado federal por Alagoas por duas vezes. Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sua folha corrida de prisões registra 18 atos de encarceramento. Apesar disso, por seu cabedal, foi Secretário de Cultura do Rio de Janeiro.
Destaca-se em sua história jornalística o tempo em que passou, como correspondente da Folha de São Paulo na China de Deng Chiao Ping, entre 1980 e 1982.
O Ceará o homenageou por duas oportunidades. Primeira, em 1993, com o Título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará-UFC. Em 1996 foi agraciado com o Prêmio Sereia de Ouro, comenda maior do Sistema Verdes Mares de Comunicação.
Cedo espaço ao poeta Carlos Augusto Viana, então editor do Caderno de Cultura, quando, em 2008, refere: “A obra poética de Gerardo Mello Mourão encontra-se, em sua expressão maior reunida em dois tomos. Peãs (este implicando três livros: O País dos Mourões, Peripécias de Gerardo, Rastro de Apolo) e a Invenção do Mar. A leitura de seus versos nos põe diante de um poeta que, como poucos, de modo intrigantemente natural, o lírico e o épico, de tal sorte que tais gêneros se fundem num todo indissolúvel… Assomam, desse modo, inúmeras alusões, ecos, tecidos de textos outros num jogo intertextual utilizado pelo Autor, pois este soube, vencendo a ferrugem do templo, aliar-se à pós-modernidade.”
Lembro bem de uma das suas visitas a amigos, em Fortaleza. Era tempo da “Turma dos Sábados”. O acolhemos em nossa tertúlia com carinho, admiração e respeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/03/2017.

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MULHER, EDUCAÇÃO E RECONHECIMENTO – Jornal O Estado

Recebi, dia desses, uma mensagem pelo WhatsApp: “Primeiro, Deus criou o homem. Depois teve uma ideia melhor. Criou a mulher.”
Meus parabéns a todas as mulheres pela passagem, no último dia oito, do Dia da Mulher. Ele foi o resultado de lutas centenárias pela igualdade de direitos e deveres entre os seres humanos.
Terça, 14 de março, foi o Dia da Poesia, homenagem a Antonio Frederico de Castro Alves. Parabenizo a todos e a todas poetas. Como dizia a nossa conterrânea Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras: “Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado”.
Nesse mesmo dia 14 aconteceu a Edição 2017, do Projeto Gente de Bem. Um laurel que se caracteriza pela isenção, pela justiça e pela certeza de que as pessoas homenageadas são ou foram, até a data da cerimônia, destacadas figuras em suas áreas de atuação.
Escolhemos duas educadoras, longevas, viúvas de homens honrados, mães de famílias exemplares. Elas deram a seus filhos a educação e a responsabilidade que os preparou para a vida real, esta que se impõe a cada sol que levanta. Dáulia Bringel e Suzana Ribeiro.
D.Dáulia é mãe de Edite, Natércia, Edmundo, Darival, Querubina, Graça, Edval, Euvaldo e Jânio. É viúva do Sr. Edmundo Olinda D.Suzana é mãe de Nadja, Zoya, Anya, Carlos e Isabel. É viúva do Dr. José Carlos Ribeiro.
Choraram as suas perdas, mas souberam continuar a dura tarefa de professora e de manter os filhos dentro de padrões de dignidade e honra. Tempo em que as mulheres, na maioria, eram donas de casa.
As águas dos rios Ipuçaba, em Ipu, e o rio Jardim, na cidade do mesmo nome, tais como o Rio Jordão, deram a Suzana e a Dáulia os batismos dos simples. O condão necessário para aliar coragem à atitude, para a conquista de suas vitórias pessoais e a de seus familiares. Hoje, pode parecer fácil. Não foi. Nunca foram aquietadas, pois as suas vidas são plenas e múltiplas, sem prejuízo das atividades profissionais e dos familiares.
Cada um dos cinco filhos de D. Suzana é importante por si mesmo. Igualmente, os nove da D. Dáulia são pessoas de relevância no Ceará.
Este Ceará que hoje alcança uma posição destacada na área da educação fundamental por suas escolas públicas eficazes, com 77 entre as 100 melhores do Brasil. Fortaleza está fazendo a sua parte e já se destaca. Educar é a saída.
Aos seus netos e bisnetos, eu disse: orgulhem-se de suas avós e bisavós. As medalhas de prata e os diplomas que hoje recebem são provas, provadas de que suas vidas resultaram em benefícios aos outros.
A todos os leitores, trago uma mensagem de Monteiro Lobato, minha referência como escritor e empresário, perseguido por suas ideias à frente do seu tempo: “Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/03/2017.

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IVAN, O POSSÍVEL – Jornal O Estado

O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível.
Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal.
Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora.
A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam.
Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora
LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri.
No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial.
A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida.
Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017.

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PAUSA FRENÉTICA E NOTAS ESPARSAS – Jornal O Estado

No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso.
A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra.
Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação.
As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços.
Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre.
Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento.
No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017.

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CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS – Jornal O Estado

“Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez
Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.
Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.
Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.
Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas.
Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá.
Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.
Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis.
Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores.
Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”.
Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2017.

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BONDADE TEM LIMITE – Jornal O Estado

O tremendo “quiproquó” em que se transformou a luta da Prefeitura de Fortaleza para desmontar a pocilga a céu aberto em que foi transformada a Rua José Avelino, via estratégica para a mobilidade urbana da Capital, já era aguardada, tendo em vista a maneira como o poder público foi leniente com a ampliação daquele “fuzuê” em forma de feira. Para mais complicar a balbúrdia em torno do problema, alguns setores concordaram com isso. A prefeita Luizianne, por exemplo, poderia muito bem ter dado um freio, mas não o fez para não perder votos.
No âmbito da Justiça, o Ministério Público Estadual, há mais de quatro anos, vinha cobrando da Prefeitura medidas urgentes e rigorosas para acabar com a bagunça, que servia para ajudar a sufocar o trânsito, além de causar incômodo auditivo e muita sujeira. Agora, o mesmo MP tentou deter a ação da PMF para melhorar aquela artéria. Agora, tentou impedir os trabalhos, cobrando diálogo da parte do prefeito Roberto Cláudio com os feirantes. Como a medida foi suspensa, continuam as obras da requalificação daquele local.
Confusões à parte, alguns problemas terão de ser melhor investigados, em relação aos feirantes a serem deslocados para outros locais. Um deles, de extrema gravidade: a origem de muitos dos produtos comercializados, que, segundo denúncias, não são nada claras. Juntem-se a isso às perdas da municipalidade, ante a grossa sonegação de impostos a serem pagos pelos verdadeiros donos das mercadorias, muitos deles escondidos à sombra de pequenos comerciantes que eles colocavam no “feirão”. Essa confusão vai servir para desmascarar muita “marmota”.
TURISMO – Quem denuncia é a Veja Online: a “marcha de prefeitos” (mais uma) está fadada a resultados pífios para os municípios ali representados. A principal causa é mais do que evidente: os ministérios de quem os prefeitos esperam muito, não têm muito a oferecer. Por conta disso, preferem mostrar suas ações em “stands” a serem admirados. E só, porque, a bem da verdade, todos os ministros estão empenhados mesmo é em captar votos pelas reformas.
LAVA JATO – Não dá para evitar abordar a luta do MPF, PF e Operação Lava-Jato para limpar o terreno político do País da sujeira do “mensalão” e pelo “petrolão”. O destaque é o destino do ex-presidente Lula, mais escorregadio que baba de quiabo. Pesquisa da “Folha” entre os leitores sobre o que pode ocorrer ao filho de Garanhuns mostra: 61% dizem que será condenado; 34%, que será condenado e preso. Apenas 3% acham que ele sairá livre e solto.
IDADE SAUDÁVEL – Ontem, no Parque Adhail Barreto, o prefeito Roberto Cláudio, acompanhado de secretários, assinou compromisso com o movimento Parceria para Cidades Saudáveis, instituição coordenada em apenas 50 cidades do Mundo, pela fundação norte-americana Blooberg Philanthropies. O objetivo principal é tornar essas cidades mais atrativas para os visitantes e confortáveis para os seus habitantes, em termos de mobilidade urbana.
PERDAS & DANOS – Não tem como abandonar a discussão dos problemas gerados pela “embromação” dos cearenses pelo Governo Federal, que deixou o nosso estado em último lugar para receber as águas da transposição, projeto abandonado por uma empresa inidônea. Para o deputado Roberto Mesquita (PSD), o problema, agora, é saber “quem irá recompensar a economia do estado do Ceará pelas imensas perdas geradas por essa irresponsabilidade”.
CONTRA A PAREDE – Um dos assuntos mais importantes discutidos em Brasília, nos últimos dias, veio rebentar em cima dos deputados federais de todos os estados, incluindo do Ceará. Trata-se da “colher de chá” do Governo Federal a milhares de prefeituras dispensadas de parte de suas dívidas com a Previdência. Satisfeitos, os gestores podem “levar à parede” os ilustres deputados por ele votados e eleitos. Se não votarem pela reforma da Previdência, adeus, votos em 2018…
SEM DESPERDÍCIO – A Secretaria das Cidades, do Ceará, realiza o Seminário Internacional de Resíduos da Construção Civil. O tema é importante, tendo em vista que o objetivo é o aproveitamento de milhares de toneladas de entulho de obras civis, que em muitos países, depois devidamente reciclados são aproveitados para outras obras, principalmente em se tratando de moradias para pessoas sem teto. Aqui, até agora, esse material só causa incômodo e sujeira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.

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ANTÔNIO CÂNDIDO – A CRÍTICA QUE MORRE? – Jornal O Estado

“Sua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil”. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Literária, da USP
Antonio Candido, crítico literário, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de São Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira crítica literária escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A crítica tem o nome francês “Ouverture” ou Abertura, em Português. A língua gaulesa dominava a literatura da época. Depois, o inglês. Agora, é o internetês.
Nela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padrão ou referência para alguém se tornar crítico literário. Ele diz: “Do crítico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que é a crítica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele é um indivíduo que vai emitir opiniões tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor”.
Em seguida, ele fala na possível imodéstia de um crítico literário: “Este aspecto metacrítico do ofício – que é porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio – é, no entanto, às vezes, uma questão de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necessária imodéstia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao crítico literário qual a sua ética – quais as imposições que se faz e quais os princípios de trabalho com os quais não transige”.
A pergunta que faço aos professores Sânzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana é se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princípios teóricos subsistem?
Claro que eles não podem me responder agora, sequer sei se aceitarão essa lisonjeira provocação. Entretanto, emendo com outra questão que pode ou não ser pertinente: como anda a crítica literária brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em memória de mortos ilustres, bienais de livros, nos possíveis encontros na “Casa do Saber”, seja no Rio de Janeiro e em em São Paulo. Ou, ainda, nas anuais edições da Festa Literária de Paraty.
Como se tivesse premonição, Candido afirma: “Sobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais têm valor em função da época em que se manifestam e à qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do crítico será porventura integrar a significação de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma série de variações pessoais”.
Contextualizando essa época ao hoje, em que a inteligência artificial pode até produzir “obras” de todos os gêneros e a internet das coisas nos coloca em um baú em que sensos estéticos – duvido, ainda ‒ derivam de algoritmos de programas literários de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.