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AS FLECHAS DE SEBASTIÃO E O DIA T DE TRUMP – Jornal O Estado

É hoje, 20 de janeiro de 2017, a data em que o Rio de Janeiro, em pleno verão, se esbalda pelas praias e morros face o feriado pela morte de São Sebastião, duplamente festejado pelos católicos e umbandistas. Viva Oxóssi.
São Sebastião, século IV, possui história controversa. Na iconografia em que aparece preso a uma árvore e flechado, não foi o dia de sua morte. Conta a história que uma mulher, Irene, o viu exangue, retirou as flechas, uma por uma, e o curou. Irene virou Santa Irene. Sebastiao voltou ao Rei Diocleciano e o afrontou.
Assim, pela segunda vez, o Monarca mandou exterminar, a pancadas, o intrépido combatente da fé. Morto, jogado aos esgotos de Roma. Voltando ao Rio: Reza a lenda que São Sebastião, espada em punho, teria lutado quando da expulsão dos franceses. Os padres Anchieta e Manoel da Nóbrega, o fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, com a ajuda milagrosa dos gentios e de São Sebastião (que desviava as flechas desferidas pelos índios Tamoios, aliados dos Franceses) conseguiram, enfim, retomar a cidade dos calvinistas huguenotes, em um dia 20 de janeiro.
A cidade é, entretanto, chamada de São Sebastião do Rio de Janeiro, desde 1565, em homenagem ao Monarca D. Sebastião I (introdutor do sebastianismo, mas isso é outra conversa). O povo, até hoje, vela e acredita na espada milagrosa de São Sebastião.
Em razão disso, e por ser feriadão a prenunciar longo “dolce far niente” nas praias e nos morros, nos botecos e nas tabernas no Rio, de todos nós, o povo estará tomando cervejas e cachaças com tira-gostos de todos os tipos, esquecendo os dramas brasileiros e as dívidas do governo Pezão. Saravá.
Enquanto isso, neste mesmo dia, a bela esplanada da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C, planejada com arrojo e classe pelo arquiteto francês Pierre Charles L’ Enfant, inaugurada em 1800, estará recebendo, a cerimônia pública da posse de do Trump, como o 45º. presidente dos Estados Unidos. Tudo será visto ao redor do mundo, inclusive no Rio, e mostrará temperatura de 4º graus, com possibilidade de chuva, e vento frio soprado do Rio Potomac.
Não devemos antecipar como será a cerimônia, mas nos cabe, neste dia, torcer para que os espíritos de A. Lincoln, G. Washington, H. Truman e do imolado J.F. Kennedy possam sobrepairar, tal como São Sebastião fez com o Rio de Janeiro, e dar ao novel ocupante da Casa Branca o equilíbrio necessário para a condução dos Estados Unidos, neste mundo em que qualquer “nerd” ou fanático pode precipitar acontecimentos indesejáveis.
Que as trombetas deem discernimento e equilíbrio a Trump. Na maturidade dos seus 70 anos, recostado nos novos travesseiros e colchão da suíte presidencial, invocar os antepassados ocupantes daquele aposento, ora retrofitado. Possa, enfim, dormir em paz e acordar ciente das duras responsabilidades que lhe cabem pelos próximos quatro anos. Good Luck.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/01/2017.

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FELIZ POR TUDO, POR NADA E PLATÃO – Jornal O Estado

Vou ficar contente por estar vivo, por morar em um país em que não há terremotos e avalanches de neve, as novelas de TV são picantes e coloridas, há bons jogos de futebol onde as torcidas são animadas, mas corteses. Vou usar o grande tempo em que passo dirigindo para ouvir as músicas pacientemente escolhidas: Tiririca, Wesley Safadão e duplas sertanejas.
Tampouco, reclamarei se me oferecerem água “mineral” a R$1,00 a garrafa batendo no vidro do meu carro. Tirarei fotos dos comedores de fogo, dos esquálidos meninos acrobatas com roupas esfarrapadas e dos afáveis “flanelinhas” sempre risonhos, com suas bisnagas e apetrechos.
Escolhi a “Hora do Brasil” como programa de rádio favorito ao começo de cada noite. Aos domingos, optarei pelo Faustão, tão bem vestido, educado e legítimo representante do humor cordial. Ouvirei prédicas em emissoras pentecostais e as compararei com as suas congêneres católicas.
Anotarei todas as contas bancárias para onde deverei mandar dízimos e comprarei terços, medalhas e imagens pela Internet. Estou pensando seriamente em fazer uma nova excursão à Terra Santa, quando arriscarei fazer as pazes entre alguns judeus e palestinos.
Na volta, pararei em Roma onde há um curso sobre “Desburocratização do Vaticano”. Gravarei esses ensinamentos e repassarei para alguns “coaches”, exímios resolvedores de problemas empresariais, familiares e pessoais.
Pagarei, sem reclamar, os juros altos do meu cartão de crédito e ficarei feliz em colaborar para o desenvolvimento do sistema bancário brasileiro, tão solidário com o povo sofrido.
Ouvirei palestras de ex-diretores do Banco Central e me encantarei em ler artigos de ex-detentores de cargos públicos, sempre disponíveis para solucionar os fáceis problemas que encontraram e não resolveram.
Acreditarei em todas as reformas propostas e aplaudirei os que, aos domingos, tomam banho de sol na Avenida Paulista. Uns de bicicleta, outros empurrando carrinhos de bebês que não choram e até aquele ex-bancário gorducho sentado na velha espreguiçadeira deixada pela tia setentona abrigada em excelente casa de repouso para idosos.
Nada de falar de Gramsci, Marx, Deleuse e Guattari, dou a palavra a Platão na “República”, quando diz: “aquele que verdadeiramente gosta de saber, tem uma disposição natural para lutar pelo Ser, e não se detém em cada um dos aspectos que existem na aparência, mas prossegue sem desfalecer nem desistir de sua paixão, antes de atingir a natureza de cada Ser em si”. Falou!

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/01/2017.

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DE VOLTA AO COMEÇO – Jornal O Estado

Parodio Drummond, em “Passagem do Ano”. A meu ver, o último dia de qualquer fato/ não é o último dia da vida.
Começamos o ano de 2017 com o peso da experiência vivenciada em 2016. As lembranças, telefonemas, cartões, e-mails, WhatsApp e outros aplicativos nos deixaram, mesmo de passagem, mais próximos dos que compõem o nosso mundo familiar, afetivo, social, cultural e profissional.
Cada um, ao seu modo e circunstância, já teve a noção exata ou aproximada do que e como a avalanche nos atingiu. Se você passou incólume, dê graças e sorria para o mundo benfazejo. Aos demais, aqueles que a sentiram, no bolso e na alma, o meu apoio e abraço.
Não há lógica neste mundo cibernético a se falar demais em algoritmos, que são, na versão atual, aquilo que se fazia automaticamente, sem saber a inter-relação de atos simples como colocar um carro em movimento (introduzir a chave – ou o controle remoto – e abrir a porta, sentar no banco do motorista, acionar o motor e dar marcha ao veículo, sem esquecer-se do que possa ser visto no retrovisor, nos espelhos laterais e pelo para-brisa, tudo junto e misturado), o tráfego ou o mundo no nosso entorno.
Estamos neste janeiro de calor acentuado, expectantes em relação aos destinos das mudanças climáticas e das institucionais, ainda em curso. O país está atolado no terceiro mundismo a que se acostumou nestas quase duas dezenas de anos do século 21. Como mudar isso com o que somos e o saber acumulado?
Afora os afortunados funcionários públicos de alto escalão, os demais estão reticentes e atônitos com as incertezas públicas. Em contra partida, lembro existir um axioma a dizer: “Todo aquele a parar esperando as coisas melhorarem, verificará, bem cedo, que aqueles que não pararam e colaboraram com o tempo, estarão tão longe e jamais serão alcançados”.
Esse o dilema dos brasileiros, entre os quais os 12 milhões de desempregados, e os que, por conta própria, lutam a cada dia para superar obstáculos em país cartorial e excessivamente regulador e fiscalizador dos nossos mínimos atos.
Este mês de janeiro, no mundo real, surge com a obrigação de pagar além das contas de água, luz, telefone e cartões de crédito, o Imposto Territorial de Propriedade Urbana –IPTU e o IPVA, aos felizes detentores de imóveis e veículos.
Para os optantes pela educação privada dos filhos é tempo das matrículas em colégios e cursos superiores, sem esquecer o material escolar. Voltamos ao dia a dia: trabalho, telefonemas, olhos nos jornais, nos blogs e nas emissoras de rádio e de televisão, com expectativas de mudanças a nos injetar ânimo para continuar a jornada. Obrigado pela leitura. Não esmoreça. Lute. Abraço cordial.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/01/2017.

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DE TANTO OUVIR, PASSO ADIANTE O QUE ME PEDEM – Jornal O Estado

Agradeço por estar lendo este artigo. Sei estar o Brasil com doze milhões de desempregados. Se cada um deles for responsável apenas por outra pessoa, teremos 24 milhões. Isso representa cerca de 10% da população nacional.
Que o país está em crise, todos sabem. A crise não é só econômica, por razão de empresas a fechar e deixar rastros de dívidas. A crise é o resultado de tudo a acontecer nos três vértices de um triângulo imaginário: os bancos mandam na economia; os políticos fazem (ou faziam) o que querem e as grandes empresas recebem todas as benesses em editais bem urdidos.
Fala-se muito na “Lava Jato”, mas há outros tantos vieses de uma estrutura contaminada pela ganância dos bancos a emprestar ao governo- com retorno seguro – e a cobrar inacreditáveis 450% de juros ao ano aos portadores de cartões de crédito. Em qualquer loja de departamentos há oferta (“Demora nada. É rápido”) de cartões de todas as bandeiras. E o processo de sedução oferece descontos, milhas para viagens etc. Aí começam as dívidas. Tome SPC, Serasa e advogados.
As empresas brasileiras foram acostumadas a aliar-se ao poder. O poder tem glamour e obras a ofertar. Qualquer que seja ele. As empresas, se não aceitam o jogo, simplesmente saem do radar das grandes obras, das médias e até das pequenas. Não precisa de nenhum algoritmo para descobrir como funciona. Os adiantamentos não saem, pagamentos atrasam, naturalmente. Só os recebem os interlocutores a descobrir os caminhos ínvios. Cria-se um grupo de empresas “confiáveis” e os editais, detalhistas, dão as sutilezas para a vitória. Cria-se um rodízio, consórcios, cartéis e todos são beneficiados. Isso funciona em todos os níveis e não apenas na Petrobras. Até o acento da palavra foi roubado.
De repente, um grupo de jovens juízes, bem preparados e corajosos, resolve enfrentar e afrontar um poder carcomido pelo compadrio remontando ao século passado, a atuar de forma sistêmica, usando os recursos da tecnologia para desvendar o bem e o mal. Estamos apenas no terceiro ano da Lava Jato. Há sinais de exaustão, transferências e ameaças veladas. Até no exterior juízes poliglotas sofrem com a algazarra dos que, remunerados, agem para desacreditá-los.
Já disse e repito pelos outros, vejo poucas saídas para um país engolfado nesse corroído sistema de troca de favores. As bravatas com outras nações desta sul América, governada sob a égide de um pan-americanismo chinfrim, perde força. Estamos em fevereiro, carnaval às portas, cidades sendo fechadas e assaltadas por sequazes dos que, em lugares guardados pelo Estado, enviam ordens para queimar ônibus, atiçar o ódio de incautas mulheres de policiais contra os governantes de cofres vazios, à espera de milagres em tempos incréus.
Como disse no título, escrevo o que ouço. E o que me pedem. Julguem vocês

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2017.

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VERDADES E DÚVIDAS – João Soares Neto

Voltamos a reexaminar o discorrido na sexta passada. Somos ou não verdadeiros? Por qual razão a Oxford University, escolheu “post-truth” como a palavra do ano de 2016? Terá sido por conta da saída da Inglaterra da Comunidade Europeia, no plebiscito que optou pelo “Brexit”, desoxigenando a força dada ao Euro, embora, nos seus domínios, só usasse a Libra Esterlina? Ou terá sido pela eleição de Donald Trump à Casa Branca e as suas performances diárias?
Como da vez anterior, pedi a alguns “experts”, todos de maior dimensão do que este escrevinhador, para dar uma visão centrada a nos retirar do limbo. Fiz alguns cortes por conta do espaço. Obrigado e desculpem.
Filomeno Moraes, Doutor, Unifor, diz: “A “pós-verdade” (e a sua variante mais recente, a dos “fatos alternativos”), substituindo o “homo sapiens” pelo “homo videns” e acentuando a idiotia do politicamente correto, da manipulação marquetológica e do engano ou autoengano, sobretudo no plano da política, ao contrário daquela promessa, é o destino nestas primeiras décadas do século XXI. Em suma, a marcha batida da insensatez por meio da alienação, da cobiça e da covardia moral que brutalizam a vida humana, alhures e… aqui, parece dizer aos últimos herdeiros da herança iluminista que a nossa república não é neste mundo.”
Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras: “Não será pós-verdade uma forma sintética de um dizer antigo de que “o que importa não são os fatos, mas suas versões?”.
Paulo Elpídio de Menezes Neto – Cientista Político: “Ela surge, de fato, pelos desvãos das redes sociais. Mas é com o escritor americano Ralph Keyes que ganha dimensão política. Maquiavel já o pressentira e identificara nos discursos e nos gestos e atitudes dos homens do poder. O “Post- Truth Politics” é uma forma de mentira, o laço pelo qual os atores políticos arrancam o apoio dos eleitores, dos súditos, ao dizerem o que as pessoas desejam ouvir. É o “pós factual”, o que se poderia chamar de “truthiness”, quando se toma uma coisa por verdadeira sobre a base de simples pressuposto afetivo. A “pós verdade política” corresponde ao fim da objetividade na política”.
Antônio Colaço Martins – Reitor da UVA – “levanto duas hipóteses: se o “pós” da expressão “pós-verdade” foi usado no sentido temporal, ressalta a historicidade ou transistoricidade da verdade e suas consequências. Com efeito, historicamente, o que foi é, ou seja, continua a ser, de certo modo, em suas consequências ou desdobramentos; se o “pós” foi utilizado para significar “para além de” põe em evidência algo a mais, algo superativo da ordem objetiva ou subjetiva, como por exemplo, as emoções e crenças advindas “pós-verdade”. Neste sentido, diz-se que, para ornar a grandeza de um ser humano, além da verdade, é mister que apresente bondade e simplicidade como “pós-verdades”. Na esteira de Sócrates, dos Estoicos e de Santo Agostinho, Tomás de Aquino (1225-1274) reconhecia o valor noético da afetividade. Blaise Pascal (1623-1662) doutrinou que o coração tem razões que a própria razão desconhece e opôs as “ideias emocionantes” às “ideias claras e distintas” de Descartes (1596-1650). Sören Kierkegaard (1813-1885) é ainda mais dogmático ao concluir que: a subjetividade é a verdade. Nicolai Alexandrovitch Berdiaef (1875-1948), sem tergiversar, afirma o primado cognoscitivo do coração sobre a razão, da existência subjetiva sobre o mundo objetivo. Assevera com todas as letras: é o homem total que conhece, mas é o coração que está no centro do homem total”.
Clareou? Admitindo que permaneçam dúvidas, voltaremos ao assunto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/02/2017.

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O DURO ENCONTRO COM A REALIDADE – Jornal O Estado

“O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer”.
Cacá Diegues
Conheço pessoas inteligentes, lidas, capazes, independentes e até bem-sucedidas, mas, apesar disso, não tiveram a coragem de marcar o encontro com a realidade. Vivem de deslumbramento. São infelizes. Esse encontro real é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro.
Não importa seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, rico ou pobre, hétero ou gay, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo quando alguém ou circunstâncias forçam esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências. Elas nada cobrem e despem até o nu por natureza.
Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. É aquele compromisso definitivo consigo mesmo, referido por Goethe. A partir desse encontro – Goethe diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você. Ele não aconteceria se esse compromisso não existisse.
Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda sem os quais pessoa nenhuma poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo poderá ser alcançado. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia.
Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome e a digital no que você diz e faz conscientemente, assumir o encontro com o destino.
E o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Você e a sua alma são uma coisa só. Uma não existe sem a outra. Como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores. Agora, todos o são. Até os insanos.
A hora do encontro é tempo de cataclismo, e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama (será mesmo drama?), de debochar do seu ensimesmamento (muitos se acham especiais, mas vão morrer) e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade. Ela o levaria irreversivelmente, salvo melhor juízo, para a solidão. Todos estão sujeitos a ela, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro, essa hora do encontro nos mete medo.
É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita acontecer um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, quando tudo ficará claro e nada turvará os seus olhos. Passará a ser o colírio a mostrar o brilho da sua vida. Mas não almeje muito. Balzac dizia: “A glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/12/2017.

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BALANÇO E FELIZ NATAL – Jornal O Estado

“Coisas e palavras sangram pela mesma ferida”. Octavio Paz
Hoje, sexta-feira, 15 de dezembro de 2017, nove dias antes do Natal, comunico aos meus raros e queridos leitores: vou destinar parte do meu tempo para arrumar estantes, colocar livros em ordem menos caótica, limpar a escrivaninha atulhada e identificar papéis perdidos, sob o ruído de betoneiras, de serras elétricas e o vai-e-vem de veículos em rua próxima. Qualquer dia, quem sabe, volto aos jornais. Agora, trabalharei no meu 10º Livro.
Há exatos 55 anos comecei a escrever em jornal, no Correio do Ceará. Era muito jovem e o dinheiro recebido, ao fim de cada mês, ajudava no meu projeto de poupar, sempre. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades públicas, Direito e Administração.
Escrevia, então, sobre informes acadêmicos, os movimentos estudantis, as implantações de faculdades ao longo da avenida-eixo do Bairro do Benfica, cobria a área cultural/arte/musical da cidade, sem esquecer de dar espaço ao Centro Popular de Cultura – CPC da União Nacional dos Estudantes.
Depois, instado por Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, passei a escrever sobre administração e negócios, procurando dar ênfase ao surgimento de empresas, ao celeiro de talentos saídos dos cursos de formação em técnicos em desenvolvimento econômico – TDE do Banco do Nordeste, noticiar a atuação do Projeto Azimov-UFC para implantar indústrias no interior do Ceará, entre outros. Nesse mesmo tempo, fui correspondente da Carta Econômica do Nordeste, Revista editada em Recife por Alexandrino Rocha e Fernando Câmara Cascudo.
Havia, entretanto, de cuidar da minha vida profissional e assim o fiz. Fiz dois anos de doutoramento. Não valeu. Gizela Nunes da Costa é testemunha da história. Dei aulas na Escola de Administração e no Cetrede-UFC, em cursos de pós-graduação. Cumpria dupla jornada. Durou até concluir não ser possível esse ritmo. Ao mesmo tempo, constituía família.
Não parei de escrever em jornal. Aqui e ali no “O Povo”. Com o surgimento do “Diário do Nordeste”, escrevia colunas soltas. Depois, por dezenas de anos, aos domingos, na sua página de Opinião. Em paralelo, “O Estado” passou a publicar artigos meus, às sextas, até o dia de hoje.
Já são vários lustros neste oitentão jornal em forma de tabloide “O Estado” antecipou-se, imagine, ao “The Guardian”, de Londres. Explico: a partir de 2018, o “Guardian” passa a ser tabloide, aderindo às novas plataformas da tecnologia da informação.
Neste final de 2017, pródigo em sacolejos políticos, notícias falsas (“fake news”), seca no Nordeste, ameaça de guerra nuclear, o Brasil parece ter deixado a recessão, fruto de descalabros públicos e privados, e parte para um ano eleitoral sem que o povo, este ente abstrato a incluir nós todos, saiba exatamente como votar nas eleições de outubro.
Somos, há muito, um país em desenvolvimento. A infraestrutura é precária, faltam água, esgotos, estradas, ferrovias, casas e empregos. Nada está pronto. Há carência de educação básica, os saídos dos milhares de cursos superiores, salvo exceções, têm baixo nível de conhecimento e isso aumenta o desemprego. A corrupção esperneia. As seleções dos RHs exigem mais do que os candidatos têm a oferecer. A segurança pública é atingida por cartéis a se locupletarem em assaltos pesados, produção e comercialização de drogas ilícitas. Age em desvantagem, contra facções com armamentos pesados.
Uma boa notícia, ao final. Pesquisa realizada, neste dezembro, deixa claro: os entrevistados preferem o Natal, com Cristo, que a figura do Papai Noel. Feliz Natal a todos. Obrigado pela companhia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/12/2017.

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ERASMO PITOMBEIRA POR AUDIFAX RIOS – Jornal O Estado

Cedo, respeitoso, este espaço a Audifax Rios. Ele sumarizou, antes de ir para o além, a vida de Erasmo Pitombeira, agora falecido: “Pitombeira foi criado na Fazenda Mutuca, embora tenha nascido na Fazenda Pedras, ribeira do Palhano, Vale do Jaguaribe. Filho de vaqueiro e, por parte de pai e mãe, neto, bisneto e tataraneto de vaqueiros estabelecidos no vale do rio das onças, ele viveu seus primeiros tempos acompanhando as estórias contadas no alpendre da casa grande da velha fazenda assentada nas quebradas do riacho das Imburanas.
Levou a meninice botando bezerro para mamar na “tiração” de leite do curral das vacas, vendo a “ferra” dos bezerros e a “assinação” dos cabritos e cordeiros, dando banho nos animais de sela nos poços do riacho ou no açude velho, botando “pareia” de cavalo no caminho da capoeira e ouvindo os fuxicos que corriam pela cozinha e casa de farinha. Criou-se “vendo” a água cair aos “potes” nas imensas telhas da coberta da velha casa e “sentindo” o estremecido do estrondo do “pai da coalhada” lá para as bandas do caminho direito.
Quando acabou o aprendizado disponível na escola de casa, foi para a capital fazer o exame de admissão. Foi quando, somente aos dez anos, ouviu pela vez primeira a pancada do mar e ficou admirado com aquele lombo d’água bonito do oceano que jamais enxergara. Seguindo o destino traçado de “ser doutor”, depois de estudar em colégios na capital, passou no vestibular da UFC e graduou-se em engenharia civil. Na sequência, em busca de aumentar sua “sapiência”, se largou por este mundo de Deus, por “seca e Meca” divagando pelo Brasil e exterior e pósgraduouse, pasmem, em Engenharia hidráulica Maritima, que nada tinha a ver com suas origens. Voltando à terra natal, o “doutor” se abancou na sua antiga Escola de Engenharia, já então Centro de Tecnologia da UFC, onde há trinta anos é professor do Curso de Engenharia Civil, lecionando as disciplinas de Portos e Engenharia Fluvial e realizando consultorias.
Mas o caminhamento por este mundo afora não “afogou” o verdadeiro aprendizado que ele adquirira ao longo do tempo de menino, que foi ser sertanejo e assim, procura manter seus modos e tradições como tal e no meio da vida que leva na casa da rua sempre encontra tempo para as vivências interioranas. Conforme seus ideais de vida, quando se livrar do obrigatório trabalho e do cipoal de medo e insegurança em que se tomou a cidade, pretende voltar de vez à terra onde deixou seu umbigo enterrado na porteira do curral e por lá gastar o resto dos dias de vida que lhe foi destinado.
Esgotado esse prazo, literalmente entregará seu corpo ao chão e ficará em contato total com a terra áspera e pedregosa dos tabuleiros do seu sertão, lá poderá sentir o calor do chão e a terra se molhar quando chover, ouvirá o canto soturno da “cauã” chamando a desgraça da seca para o sertão, o piado do gavião “ripina” aboletado no gancho mais alto do galho morto do angico, o cantarolar monótono da asa branca na sombra da ramada do mulungu e o gritar sem fim dos tetéus nos ariscos. Sentirá o pisado das reses e o seu cheiro quando um magote de gado ficar se batendo ou malhado no tabuleiro, botado para fora da caatinga pelo aperreio da mutuca. Poderá ver o risco inflamado de uma “zelação” na noite escura de céu estrelado e se divertir vendo os fogos de santelmo caminhando em seus perambuleios no campo santo do alto do Cruzeiro. Para o todo o sempre, amém”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/12/2017.

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DO PÃO DE LÓ AO TRANSATLÂNTICO – Jornal O Estado

Tenho recebido e-mails e WhatsApp (não uso os demais aplicativos) de leitores, amigos, familiares e até de estranhos, relatando a preocupação dessas pessoas com a situação econômico-institucional do Brasil. Ao mesmo tempo, pedem uma opinião minha.
Vamos lá. Há um mundo de opiniões extremadas nas mídias sobre o nosso país. Há os que desejam o desaparecimento de toda a classe de políticos. Lula, Temer, Ciro, Bolsonaro, Doria e Alckmin vão de quase deuses a demônios. Há uma semi-unanimidade favorável à Polícia Federal, Operação Lava-Jato e ao Juiz Sérgio Moro. E querem outras investigações.
Não há como negar que a Crise Econômica de 2008, ao contrário do que pensavam muitos, atingiu o Brasil. Foi de “marolinha” para um quase tsunami. É bem verdade, soube-se depois, que as rédeas e os cofres da economia nacional estavam à deriva.
Bancos públicos se acumpliciaram de todas as formas com grandes empresas nacionais, ao mesmo tempo em que concorrências eram dirigidas sempre aos mesmos grandes “players”. Esses fatos foram reverberando para os estados membros. Só agora, começam a aparecer, de leve, na Mídia.
Por outro lado, as comodities (matérias-primas) perderam o avanço de preços, face à diminuição de atividades industriais dos grandes países importadores. Assim, com menos procura, os preços caem. Simples. Somos grandes exportadores de matérias-primas. Haja prejuízos. O Brasil grande pedia Copa do Mundo e Olímpiadas. Papo, desvios e prejuízo.
erificou-se que a eficiência e a eficácia prometidas nas licitações, concessões, privatizações e parcerias público-privadas, eram, quase sempre, fajutas. Não havia fiscalização. Ou quando havia, agentes públicos e lobistas facilitavam tudo. Conluios.
Cada operação da Polícia Federal nos últimos anos descobre um liame solto e, ao cabo, elas atingem, quase sempre, repetidas figuras de empresários, políticos e dirigentes de órgãos públicos, especialmente os que possuíam – e ainda possuem- diretorias compostas por indicações partidárias. Brasil a dentro.
Nada é novo. Apenas me desobrigo dos pedidos com ajuda de Samuel Pessôa, com circunflexo, físico com doutorado em economia, em artigo na Folha de São Paulo, 20 deste agosto de 2017, p A28. Ele refere: “O grosso das nossas distorções prejudiciais ao crescimento econômico inclusivo – a maior arma de combate à pobreza no Brasil e no mundo -não tem origem no conflito entre equidade e crescimento. Na verdade, a maior parte delas é fruto das ações dos grupos de pressões que criam isenções e favorecimentos para si em detrimento do bem comum”.
E dá nome ao gado: “A lista de meias-entradas, na feliz expressão de Marcos Lisboa e Zeina Latif, é longa: aposentadoria integral de servidor público; contribuições compulsórias sobre a folha para o sistema S; grupos isentos de pagar imposto de renda; excessos de Bolsa Ditadura; excessos da Lei Rouanet; regimes tributários especiais do PIS, COFINS, ICMS, Simples e lucro presumido; empréstimos subsidiados; Zona Franca de Manaus; direito irrestrito de greve de servidor público; benefícios aos Estados do Centro-Oeste, apesar de sua renda per capita ser equivalente à de Minas Gerais; etc.”
Essas atitudes precisam ser coibidas. Isso, entretanto, nunca poderá ser alcançado em nenhum governo de coalização, o que temos desde 1999. No próximo ano, haverá eleição para Presidente, Governadores, uma parte dos senadores, deputados estaduais e federais. Cada pessoa conclua o que deduziu desta análise. Daí para frente, o problema é seu. É meu. É nosso. E de todos. O Brasil superará esses descalabros, acredite. DO PÃO DE LÓ AO TRANSATLÂNTICO – João Soares Neto

PERSONALIDADES
Herbert de Souza
Herbert José de Sousa, o Betinho, merece, mesmo depois da sua partida que aconteceu há 20 anos – 9 de agosto de 1997 – todo o reconhecimento por sua exemplar luta, empenho e dedicação à cidadania e à vida. Betinho é o terceiro filho de uma família de oito irmãos. Sua infância foi marcada por fatos incomuns, já nos primeiros anos de vida descobriu que tinha hemofilia herdada da sua mãe. Chegou a morar em uma penitenciária e uma funerária, locais que seu pai trabalhava. Formou-se, em 1962, em sociologia pela Universidade de Minas Gerais, mesmo período em que entrou para a militância política. Em 1971, durante a ditadura militar, exilou-se no Chile, com a chegada da ditadura de Pinochet naquele país, exilou-se no Canadá e depois México. Em 1979 retornou ao Brasil, tornando-se um símbolo de resistência política. No ano de 1986 recebe a triste notícia de estar contaminado com o vírus HIV, causador da AIDS, contraído em uma de suas muitas transfusões de sangue, necessárias por conta da sua hemofilia. A AIDS também atingiu dois de seus irmãos, por essa razão Betinho começou uma grande campanha para esclarecer a doença. Betinho também liderou o movimento ética na política que culminou com o impeachment do Collor. Esse movimento alicerçou o grande projeto AÇÃO CIDADANIA contra a miséria e pela vida, tornando visível o problema da fome no Brasil. Depois de 61 anos de luta, nos deixou, enquanto estava em sua casa no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/08/2017.

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COMO VAI O BRASIL? – Jornal O Estado

Estamos, desde 2015, em processo difícil e doloroso da política e da economia brasileira. Houve mudança na presidência da República, cassações, prisões e muitos são os procedimentos em curso, quase todos decorrentes de ações da Polícia Federal. Em setembro tomará posse a nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge.
Virou atração, a cada semana, novo escândalo, em todas as mídias, envolvendo a nata do empresariado de conglomerados na área agropecuária, da indústria pesada e da construção civil, responsáveis pela maioria das obras do governo e em empresas públicas.
Não há como não ser informado, pois são apresentados gravações, tabelas, fluxogramas e infográficos que mostram o que vem sendo praticado desde sempre. A relação era e é imbricada. Há grupos empresariais comprometidos que se tornaram e são sócios do próprio governo em aeroportos, siderúrgicas, hidrelétricas etc.
Investidores estrangeiros hão mostrado estupefação em face ao descalabro a que chegou o Brasil. Hoje, todos os indicadores de “ratings” internacionais, sejam de desenvolvimento, finanças, educação, “compliance” e os de natureza social estão, ano a ano, ficando mais baixos, mostrando involução já configurada nas gestões anteriores.
Um país continental como o nosso, pacífico por formação, não deveria ser objeto de chacota nos mercados financeiros que, sem piedade, aumentam o grau de risco para novos investimentos estrangeiros. Paralelo a isso, a indústria automobilística possui, em estoque, nos vários pátios das empresas instaladas, milhares de veículos encalhados, sejam populares, médios ou de luxo.
O mesmo cenário ocorre na área habitacional, com número superior a 50% de rescisões em contratos de aquisições financiadas de projetos em construção e, até mesmo, de obras prontas. Os prédios do “Minha Casa, Minha Vida” estão, em muitos casos, com defeitos estruturais e de acabamento. A inadimplência é elevada.
O que fazer, perguntam uns. Os economistas e administradores sérios não arriscam previsões alvissareiras enquanto perdurar a desconfiança, quase absoluta, dos eleitores na classe política.
O que se constata, por outro lado, é a extensão das operações da Polícia Federal, agora nos estados, de forma aleatória. Quando vai acabar, ninguém sabe, pois há desdobramentos em face de delações premiadas. A denúncia B que, por sua vez, denuncia C. Em represália, C denuncia A e tudo recomeça.
Este final de ano pode ser de ajustes necessários como a reforma da Previdência, ainda em fase de negociações com o Congresso Nacional. Por outro lado, aparece uma reforma Política, talvez salvadora para os atuais congressistas. Terá tramitação dupla na Câmara Federal e no Senado. Esperemos.
O Brasil está em corredor de hospital, mas não sucumbirá. O problema é o tempo em que se encontra em crise e, pessoas e empresas, não vivem no longo prazo. A cada dia o seu mal.
A única certeza, por enquanto, é que no próximo ano, haverá eleições para presidente, governadores, deputados e parte do Senado. Como será o financiamento das campanhas? Você está consciente disso?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/08/2017.