Sem categoria

RECADO DO POVO – ROBERTO MARTINS RODRIGUES – Jornal O Estado

Recado do povo – Roberto Martins Rodrigues
“A diferença entre professores ordinários e extraordinários consiste no fato de que os ordinários não produzem coisas extraordinárias e os extraordinários não produzem coisas ordinárias”. Sigmund Freud (VI, 39).
“É preciso que venha o salvador da Pátria do salvador da Pátria /É preciso que o povo faça o basta /No domínio dos que se salvam /Sem salvar a Pátria de todos /É preciso eliminar o pecado de ter /Para que fiquem o ter e o fazer /É preciso que o poder não seja o direito dos seus /Mas a função que a felicidade social impõe /É preciso que a vontade do povo /Não esteja na última palavra /Dos primeiros na fruição dos bens que não são de cada um /É preciso sonhar /Falar /Gritar /Cantar /E dançar /No ritmo e no som do bem comum/É preciso despertar /Agir /Despertar /Destruir /Construir /É preciso fazer de verdade /A cor de o país que fez a gente nascer /Viver /Amar / Sofrer /Conviver /É preciso acreditar /”.
Os versos acima são, digamos, a primeira Ode de um poema concebido por Carlos Roberto Martins Rodrigues, o professor Roberto Martins Rodrigues, glória do magistério superior cearense, expoente máximo da Ordem dos Advogados do Brasil- Secção do Ceará e, acima de tudo, Cidadão.
“Lutar /Realizar /É preciso que, De alguma maneira,/Fazer a Pátria de todos/Cantada nas canções /Dos corações do campo /Da serra /Da cidade /Da choupana /Do chalé /Do arranha-céu /Com o riso da barriga /E o amor da convivência /Igual e maior /É preciso distribuir o que é de todos /Tomado por alguns sem sonhos /Mas engravidados /Pela ânsia do tomar e do ter /É preciso fazer de verdade a Pátria geral e feliz /”
Esse poema foi pensado em memória a José Martins Rodrigues, seu pai, Zilda Martins Rodrigues, sua mãe, Paulo Marcelo Martins Rodrigues, seu irmão e Carlos Maurício Martins Rodrigues, outro irmão. Entretanto, passado o tempo, vê-se a preocupação intrínseca com a Pátria. Essa tão maltratada, desde o Império até esta 5a República, carcomida no autoengano e no descalabro público e privado.
“Com o sofrimento do dever incontido /Reclamado /Requerido /Determinado pelo desejo /Que já é querer /É preciso ser Brasil /É preciso lutar /É preciso ser /É preciso que o amanhã da Pátria /Seja o hoje dos seus amantes /É preciso não esquecer os que foram /Os que fizeram /É preciso expulsar os vendilhões da Pátria /É preciso ser a Pátria /O seu choro, o seu sorriso /O seu grito de alerta, de exigência definitiva /É preciso ser a Pátria Pública /A Pátria para gozo de todos, com os privilégios tomados de uns /Que profanam seu nome /Sua história /Sua glória /É preciso ser Pátria /A comunidade /O seu destino.”
O crescendo de patriotismo vai sendo construído nessa tessitura livre, sem rimas, mas lançado ao Inconsciente Coletivo. Neste abril de 2017, enquanto as camarinhas políticas ficam plenas de (in) consciência e nos colocam como sujeitos passivos dessa história cuja novelo tem a ponta solta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/04/2017.

Sem categoria

TIRADENTES, O HERÓI DO FERIADO DE HOJE — Jornal O Estado

“Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constitui chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde”. Parte da sentença de morte contra Tiradentes.
Que continua: “Mando que com este baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que a cabeça separada do corpo seja levada à Vila Rica…” (Boletim da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no. 53, em 18.04.2008).
Em 1776 aconteceu a Independência da América, jovens brasileiros, filhos de abastados nacionais, estudavam na Europa, mormente em Portugal. Eles resolveram, seguindo a senda iluminista, aspergir a ideia da libertação da Coroa, através de cartas e de palavras candentes, quando das férias ou dos seus retornos.
Anos depois, alvitrou-se, em Vila Rica (hoje, Ouro Preto), Capitania das Minas Gerais, fazer um movimento social libertário, juntando parte do clero, da intelectualidade e da burguesia. A esse movimento, a dita “Inconfidência Mineira”, aderiu Joaquim José da Silva Xavier, alferes pouco lido, de poucas posses, também protético, profissão aprendida em família, que recebera a alcunha de “Tira Dentes”, o Tiradentes.
Esse movimento sequer prosperou, ficando morno. Joaquim era um boquirroto, mas também gostava de ouvir. Soube haver cheiro de traição no ar. Estava com problemas afetivos sérios, apesar de nunca haver casado. Largou o movimento, a corporação Dragões de Minas e fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo assim, em 1789, Joaquim Silvério dos Reis, falido e ciente do favor à Coroa, fez a denúncia sobre a possível e nunca realizada insurreição.
Dou a palavra a Otávio Frias Filho em artigo nominado de “Ainda que tardia”, publicado na Folha de São Paulo, em 26 de fevereiro passado, escrevendo sobre o filme “Joaquim”, lançado, ontem, em circuito nacional. Diz Frias: “Não existe história mais recoberta de ferrugem verde-amarela, depositada em tantas décadas de reiteração escolar, que a de Tiradentes. O frescor acre que exala de “Joaquim”, exibido, na semana passada, no Festival de Berlim, decerto tem a ver com a opção do diretor Marcelo Gomes… Quando começa a acontecer o que aprendemos na escola, o filme termina”.
Como se sabe, mesmo tendo sido o único morto, por conta da Inconfidência, a mando da Rainha Dona Maria I, cognominada a “Rainha Louca”, Tiradentes ou Joaquim, ficou no limbo da história até o albor do movimento republicano, em 1870.
Procurava-se um herói nacional. Consta que usaram o Tiradentes. É a versão tida como requentada nos fornos da “consentida” República. Não há na Historiografia do tempo Imperial menção alguma à tal Inconfidência. Frias, no artigo já referido, diz: “Em seu livro sobre o personagem (Tiradentes: O Corpo do Herói, Martins Fontes), a historiadora Maria Alice Millet demonstra como a sua mitologia foi elaborada…”.
O fato é que Tiradentes, três anos preso, foi degolado em 21 de abril de 1792 e os autos da sua condenação duraram 18 horas de alocução. Ora, se ele fosse tão desimportante assim porque o Império gastaria tantas laudas com ele?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/04/2017.

Sem categoria

AS INFORMAÇÕES, O PERIGO E A FÉ – Jornal O Estado

Hoje, a maioria das pessoas se acredita bem informada. Usa o Facebook, no qual nunca entrei, e descobre coisas como a cura do câncer, a última dieta para emagrecer 10 kg, uma oração para cada mal e por aí vai.A ONU – Organização das Nações Unidas, regiamente instalada em Nova Iorque, não atendeu aos reclamos da representante americana a mostrar fotos de mortos pelo ataque químico.
Pouca gente está interessada em saber se os Estados Unidos da América participam do teatro de guerra na Síria, por conta de ataque químico atribuído ao próprio governo sírio.
Do outro lado, a Rússia, parceira da Síria, manda mais tropas e porta-aviões para a área em conflito, onde tem base militar.
Enquanto isso, em Mar El Lago, na Flórida, os presidentes da China e dos Estados Unidos passaram dois dias juntos, para acertar as diferenças nas relações comerciais entre os dois países. Briga de foice diplomática, em meio a fotos.
Nesse mesmo período, trombeteado pelas fáceis linhas de comunicação dos dias de hoje, a Coreia do Norte brinca de potência nuclear e afirma ter aumentado o raio de alcance de seus bólidos. Sério ou não?
Assim, entramos nesta Semana Santa esperando a misericórdia para o mundo não entrar, por potência de uns e bazófia de outros, em um conflito a descambar para uma guerra de grandes proporções.
A indústria armamentista, indócil, precisa vender aviões, navios, tanques, armas, munições, meios seguros de comunicações e tudo o imaginável como: fardamentos, alojamentos, hospitais móveis, logística para alimentação em campanha e redes de Wi-Fi a permitir espionagem para quem pagar mais.
Há bases aéreas militares americanas fincadas em pontos estratégicos da Europa, sem falar do aparato existente na Turquia, a fronteira defronte ao perigo. Nem digo dos drones e dos aviões não tripulados em quaisquer hemisférios.
Enquanto isso, se desenrola os noticiários das múltiplas redes de televisão internacionais se espraiam com repórteres e núcleos estruturados em escritórios nas cidades mais importantes.
Volto ao Brasil, enquanto o mundo pega fogo. Verifico não haver consonância em nenhum dos lados da classe política. Ela, por interesses e velhos costumes, fabricou a crise ora em transe. Nada cessará com a reforma da Previdência, tampouco, com as mudanças (im) previsíveis para as eleições de 2018. O desemprego aumenta. Briga no BBB.
Ainda bem que 1/7 da humanidade é cristã e hoje, pelo menos hoje, poderá ser um dia de reflexão sobre o alinhavado acima. Não sei qual a enrascada maior. Para os que possuem fé, aconselho orar. Para os ateus, que passem a acreditar em milagres.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/04/2017.

Sem categoria

RELEITURA DE NILTO MACIEL UMA LUZ QUE AZULA – Jornal O Estado

Estava na despedida de Nilto Maciel da face da terra, em 29 de abril de 2014. Será que um escritor do calibre de Nilto Maciel desaparece ao ir para além do além? Nilto me acolheu no meu começo e não era raro trocarmos ideias entre as suas baforadas de cigarro que borravam as suas grossas lentes de ler.
Quem quiser saber dele poderá ler seus livros ou consultar a Wikipédia. Lá estão a produção literária e os prêmios recebidos. É fácil perceber o descortino desse cearense, formado em Direito e nas ciências da vida. Foi-se para Brasília, mediante concurso público. Cumprido o tempo, aportou em Fortaleza e aqui se espraiava em contos, poemas e romances.
No oferecimento que me fez no livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, Prêmio Moreira Campos, ele diz: “Ao amigo João Soares Neto, que escreve certo, estas linhas tortas”. Na verdade, Nilto não era homem de linhas tortas, tampouco de linhas óbvias, era um criador que se metamorfoseava em personagens nas histórias que criava.
Dou a palavra a NM: “A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores, Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura”.
NM continua: “Outras, porém, não existem nem como ideias e, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de história”.
Interrompo a dicção de NM e passo a palavra a Aíla Sampaio, que foi minha confreira na Academia Fortalezense de Letras:
“(…) O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial”.
Agora, neste abril de 2017, três anos após, relembro aos leitores, colegas, amigos e familiares a certeza de que Nilto Maciel está em todos os lugares por onde passou e espargiu a sua premiada literatura.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/04/2017.

Sem categoria

ENTREVISTA COM MÁRCIO CATUNDA – Jornal O Estado

Semana passada escrevi sobre Gerardo Mello Mourão- GMM e citei o poeta e diplomata Márcio Catunda, expert em GMM. Fizera-lhe algumas perguntas. Ele as respondeu. Assim, com alegria, dou espaço a Márcio. GMM merece reverências e Márcio Catunda, tem autoridade para isso:
JSN – Como você vê a trajetória de vida do poeta e do político GMM?
MC – Com admiração e apreço. Ele foi um dos mais ilustres cearenses e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Foi mais poeta que político. Mas sua erudição, sua inteligência e sua sensibilidade contribuíram para que ele desempenhasse, de forma brilhante, toda e qualquer atividade. Na literatura, foi polígrafo, imensamente criativo e fecundo. Escreveu poesia, ensaio, romance, conto, artigo de jornal e biografia. Fez até hagiografia, ao contar a vida e os milagres de São Gerardo Majella, seu patronímico.
JSN – A entrada dele no integralismo foi arroubo de juventude ou pregação de Plínio Salgado?
MC – Foram as duas coisas e mais. O integralismo aparecia como nacionalista com forte vertente católica, cujo Guru principal, para Gerardo, foi o filósofo e ensaísta Alceu Amoroso Lima(Tristão de Athayde) que aderiu ao Movimento. Durante a Ditadura Militar, teve cassado o seu mandato de deputado federal por Alagoas (pelo PTB) e esteve no cárcere por algumas semanas. Ameaçado de morte, saiu de Brasília com documentos falsos, embarcou para Ponta Porã, atravessou a fronteira e foi até o Paraguai. Em Assunção, foi de avião para o Chile, onde passou dois anos exilado.
JSN – Depois, ele foi comunista ou era nova onda?
MC – Não foi comunista em nenhum momento da vida. Já havia, no entanto, renegado o credo integralista e, em razão de sua obra e sua capacidade de fazer amigos, ficou ligado a Leonel Brizola e Darci Ribeiro, que lhe reconheceram os méritos de grande intelectual e o nomearam presidente da Fundação Rio-Arte.
JSN – Como você destacaria a obra de GMM?
MC – Uma obra de profunda sensibilidade, humanismo e inspiração, pautada por sua erudição clássica. Gerardo fez uma poesia eclética, versátil, em que misturava imagens e signos do seu torrão nativo, Ipueiras, com a antiga história e os mitos da Grécia e de Roma. Essas referências extraordinárias de sua poesia estão marcadamente registradas nos livros Rastro de Apolo, Peripécia de Gerardo e O País dos Mourões. Escreveu outros livros magníficos, como Invenção do Mar, epopeia das navegações e da fundação da terra brasileira, que recebeu o Prêmio Jabuti em 1999, e Algumas Partituras, este a meu ver, o mais primoroso de seus livros, escrito já na maturidade, e publicado em 2002, cinco anos antes de sua morte. Veja o que GMM me declarou, de viva voz, quando tive a satisfação de entrevistá-lo em 1998:
“Rimbaud nunca vendeu nenhum livro, mas há pouco tempo uma edição daquele poeta vendeu 60 mil exemplares numa semana, quando distribuíram um de seus livros nas bancas de jornal. Nem Camões, nem Dante, nem mesmo Tales, na Grécia, encontrou mercado de trabalho para o triângulo retângulo, nem para o isósceles. No entanto, se ainda hoje existe um país chamado Grécia é porque um vadio, sem mercado de trabalho, talvez mesmo um cego de feira, chamado Homero, criou a língua e a glória sobre a qual se fundou a eternidade de uma nação”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2017.

Sem categoria

CORPOS CANSADOS – Jornal O Estado

Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar-condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar-condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo.
Coloca um CD e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assédio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público.
Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito.

Sebastião Salgado
Hoje, estampa a capa do nosso caderno Linha Azul o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado. Premiado internacionalmente, Salgado é considerado um dos maiores talentos da fotografia mundial pelo teor social em seu trabalho. Sua exposição Êxodos está em cartaz na Caixa Cultural, até dia 20 maio. Para chegar ao resultado de Êxodos, ele viajou durante seis anos, por 40 países, para mostrar a humanidade em trânsito, provocando uma reflexão sobre as questões políticas, sociais e econômicas de pessoas que foram obrigadas a deixar a sua terra natal. A curadoria é de sua esposa Lélia Deluiz Wanick Salgado e foi justamente com a câmera Leica, de Lélia, que Salgado iniciou no mundo da fotografia. Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (MG), mais especificamente na Vila Conceição do Capim. Sua infância passou em expedicionário Alicio. Graduou-se em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1964-1967) e realizou pós-graduação na Universidade de São Paulo. No mesmo ano, casou-se com a pianista Lélia Deluiz Wanick. Eles se engajaram no movimento de esquerda contra a ditadura militar. Depois de emigrarem, em 1969, para Paris, ele escreveu uma tese em ciências econômicas, enquanto ela ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts para estudar arquitetura. Salgado inicialmente trabalhou como secretário para a Organização Internacional do Café (OIC). Em suas viagens de trabalho para a África, muitas vezes encomendado conjuntamente pelo Banco Mundial, fez suas primeiras sessões de fotos com a Leica da sua esposa. Fotografar o inspirou tanto que logo depois ele tornou-se independente em 1973, como fotojornalista. Em 1979, depois de passagens pelas agências de fotografia Sygma e Gamma, entrou para a Magnum. Encarregado de uma série de fotos sobre os primeiros 100 dias de governo de Ronald Reagan, Salgado documentou o atentado, a tiros, cometido por John Hinckley Jr. contra o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, no dia 30 de março de 1981, em Washington. A venda das fotos para jornais de todo o mundo permitiu ao brasileiro financiar seu primeiro projeto pessoal: uma viagem à África.
Seu primeiro livro, Outras Américas, sobre os pobres na América Latina, foi publicado em 1986. Na sequência, publicou Sahel: O “Homem em Pânico” (também publicado em 1986), resultado de uma longa colaboração, de 12 meses com a ONG Médicos sem Fronteiras, cobrindo a seca no Norte da África. Entre 1986 e 1992, ele concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo publicada e exibida sob o nome “Trabalhadores rurais”, um feito monumental que confirmou sua reputação como foto documentarista de primeira linha. De 1993 a 1999, ele voltou sua atenção para o fenômeno global de desalojamento em massa de pessoas, que resultou em Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, publicados em 2000 e aclamados internacionalmente.
Na introdução de Êxodos, escreveu: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”. Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem contribuído, generosamente, com organizações humanitárias incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional. Com sua mulher Lélia mantém a ONG TERRA, em Aimorés, um projeto de reflorestamento e revitalização comunitária.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2018.

Sem categoria

A FÁBULA DE GEORGE ORWELL E A VIDA DE HOJE – Jornal O Estado

“A sabedoria chama lá fora, pelas ruas levanta a tua voz”. Provérbios 1:20
Eric Arthur Blair nasceu em 1905, na Índia, ocupada pela pátria de seus pais, ingleses. Vivia em condições privilegiadas em país miserável, dividido em castas e com credos distintos religiosos. Eric viu bem cedo o que acontecia na prática, com as injustiças sociais perpetradas pelos detentores do poder. Era leitor voraz, desde Dickens, Shakespeare, Karl Marx e o que se lhe aprouvesse.
Com as escaramuças pela libertação da Índia, a família Blair volve à Inglaterra e Eric, além de estudar, ingressa na imprensa, com sentimentos anarquistas, participando, inclusive, da Guerra Civil Espanhola, que antecede à Segunda Guerra Mundial. Foi nesse cadinho que surgiu o seu pseudônimo de George Orwell, pelo qual seria conhecido e admirado.
As suas duas obras mestras são a sátira política “A Revolução dos Bichos” (The Animal Farm), sobre a qual falarei abaixo, e “1984”, uma distopia em que a regra é “O Grande Irmão está vigiando você”. Hoje, somos todos vigiados por câmeras nas ruas, os nossos telefones indicam os nossos passos e as nossas conversas podem ser captadas por “hackers” ou por ordem judicial. Ele anteviu isso.
Na minha (des) informação literária, caótica e multifacetada, a “Revolução dos Bichos” causou-me, há tempos, impressão singular, mesmo sabendo da mente anárquica do autor na análise do socialismo russo, na fase stalinista, A história, na verdade uma fábula, parece singela, mas é complexa. O velho Sr. Jones possuía a Granja do Solar (The Manor Farm). Nela viviam animais de várias espécies, entre as quais um porco (o Velho Major) que, em sonho, viu uma revolução contra o domínio do Sr. Jones, na qual os bichos seriam autossuficientes, sem tutela alguma, criando um governo igualitário. O Sr. Jones morre.
O livro é cheio de metáforas. Além do Velho Major, inspirado em Karl Marx, surge Bola-de-Neve, outro porco, que possuía um assistente de sua raça, chamado Napoleão. Há traições e vinganças.
Após cinco anos de dominação, Napoleão convence os outros animais de que o realizado era para o bem comum e fala no “sonho de poder”. O livro é pleno de embustes, traições e mudanças de regras. O animal “Garganta” possuía argumentos convincentes e pregava a união contra a dominação pela força bruta, a tortura e até o uso de cães treinados para matar.
O fato é que a abominada casa da fazenda virou, “apenas por algum tempo”, centro das decisões dos animais que dominavam os demais. Disseminara-se a ideia de que se você andava com duas pernas, bípede humano, era alguém de má natureza.
As regras do “Animalismo” continham sete princípios: 1. Os bípedes são inimigos; 2. Quem possui 4 patas e asas é amigo; 3. Nenhum animal usará roupas; 4. Nenhum dormirá em cama; 5. Ninguém beberá álcool; 6. Nenhum animal matará outro animal; 7. Todos os animais são iguais.
Neste momento, em que a grande “Fazenda Brasil”, está em plena convulsão social, ainda não transformada em luta fratricida, é bom que aprendamos algo com a fábula de Orwell. O que seria? ”Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/03/2018.

Sem categoria

A LATA E A MANIFESTAÇÃO – Jornal O Estado

O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: – Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. – Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto.
O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”.
Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada?
Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou – Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir?
Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: – Garçom, traga mais uma gelada.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2018.

Sem categoria

A ÁRVORE E OS JARDINEIROS DO BEM – Jornal O Estado

“Quanto mais o indivíduo aprende, tanto mais útil se torna para si e a sociedade”. José Ingenieros (médico e filósofo argentino, séc. XX)
As árvores são símbolos de produtividade, de beleza e refrigério. Resolvemos, em 2002, criar um projeto social: Árvore do Bem. Ele surgiu sem alarde, sem mídia, mas com a tenacidade dos que acreditam poder fazer algo de forma coletiva, simples, clara e com a participação espontânea de pessoas/famílias que sabiam da credibilidade e dos objetivos a serem alcançados. Este registro que hoje faço é apenas uma homenagem aos jardineiros/doadores, gente de coração e atitude. Louvo os nossos colaboradores que se envolvem e dão tempo, energia e carinho em trabalho que leva meses em planejamento, escolha de instituições, implantação e o coroamento da festa que se fazia em um só dia. Hoje, são três.
Nesta semana, desde quarta e até hoje, sexta, estamos alegrando 1762 crianças desassistidas. Algumas têm câncer, outras são portadoras de alguma deficiência física ou síndromes que as tornam especiais, mas há centenas que são vivazes e estão por lá pela ausência de pais e familiares que se perderam nas drogas, o “crack”, em destaque.
Os jardineiros/doadores são pessoas que não querem aparecer, que não homenageiam autoridades e nem circulam em salões cheios do vazio de muitos. Não há bebidas. No ano de 2013, o trabalho foi intenso. A ideia já foi copiada e se vê festa em que o (a) organizador (a) gasta muito, divulga nas mídias, entre fotos, drinques e acepipes, pede lençóis, brinquedos ou força compras outras.
Nós não pedimos nada. Quem pede são as próprias crianças, com suas letrinhas infantis ou ajudadas pelas “tias”. Cada uma das 1762 crianças é identificada em cartão com sua foto, seu nome, sua idade, pretensão de presente e a chancela da instituição (são 20, ao todo) da qual faz parte. Cada pessoa faz a escolha livremente e, até o 15 de dezembro, retorna, alegre, com o presente solicitado.
A nossa equipe de trabalho fica feliz com o excesso de quefazeres; as salas e os corredores plenos de pacotes coloridos e a azáfama contínua. Em seguida, os brinquedos são separados, catalogados por instituições e rigorosamente entregues às crianças, em meio a folguedos, sob o olhar atento de alguns doadores, pois todos são convidados a participar da entrega pública que dura, neste ano, três manhãs, tão grande é a tarefa. Se você, leitor(a), quiser vir e ver, hoje, pela manhã, é o último dia de entrega, na Av. Carapinima, 2200, 1o Piso.
Quem desejar plantar outras árvores por aí afora pode seguir a nossa metodologia, acima exposta, e fazer o mesmo no próximo ano. Só não podemos ceder os nossos sentimentos e os dos nossos fiéis jardineiros doadores, a quem agradecemos, desde sempre. Estes são intransferíveis. Como dizia d. Paulo Evaristo Arns, o valor do homem como pessoa é maior que todo o dinheiro do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/05/2018.

Sem categoria

DE MASCATE A VISCONDE – Jornal O Estado

“O prestígio sem mérito obtém considerações sem estima”.
N. De Chamfort, escritor francês, séc 18.
Em um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, há exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Gaúcho do interior, de família pobre. Seu pai, João Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com três anos formais de estudo, como balconista, e já aos 15 anos, deu uma guinada.
Conheceu Richard Carruthers, escocês, ávido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, sócio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e maçom, a falar inglês, e a saber que o mundo era maior que a única viagem que até então fizera.
A vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administração deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como referências modelos de gestão estrangeiros e incensa empresários europeus e/ou americanos. Pelo menos, a Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o prêmio Barão de Mauá, o pioneiro da industrialização brasileira. Esse galardão é conferido a pessoas e instituições que encerrem serviços prestados à formação e à difusão da educação.
Mauá teve fundição, estaleiro, navios, iluminação a gás, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus negócios para o exterior. Em 1840, já estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios gaúchos, sua mãe, Maria de Jesus; a irmã, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de negócios à Inglaterra, traz uma aliança para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos.
Em 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petrópolis, ocasião em que recebeu do próprio Imperador, Pedro II, com quem tinha desavenças, o título de barão de Mauá. Vinte anos depois recebe o título de Visconde, um nível acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura.
Segundo Kenneth Maxwell, historiador britânico contemporâneo, “ele se opunha ao comércio negreiro e à escravatura…No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Reino Unido, França e Unidos”. Nem tudo foi glória na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilitação, antes de falecer em 1889, antes da proclamação da República.
Conheci, há tempos, Jorge Caldeira, professor e biógrafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro “Mauá, o Empresário do Império”, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus são poucos, ainda hoje.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2018.