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Para Ubiratan Diniz Aguiar – Saudação

PALÁCIO DA LUZ
Academia Fortalezense de Letras

Recebi a incumbência de fazer esta saudação oficial a Ubiratan Diniz Aguiar, mas o que pulsa em mim é a alegria de trazê-lo a este delírio coletivo. A pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa que seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta naquele que se mostra é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel.
Ubiratan, você está chegando a este Palácio da Luz, palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos deste Estado do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora é a matriz a abrigar os que trabalham com palavras sob a tutela maior da Academia Cearense de Letras.
Veja, você está nesta sala em cujas paredes erguidas por mãos nativas avistam-se pinturas, inclusive a maior de Raimundo Cela, a retratar de modo figurativo as nossas lutas ancestrais. Esta sala faz parte da história viva do Ceará.
A história que nos traz o poeta Paula Nei, patrono de sua cadeira, que parece dizer, dando boas vindas:
“Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante
Vai perdida, sozinha e soluçante
Distende as tuas asas sobre os mares”
Sob as asas da alma de Paula Nei você ingressa hoje na Academia Fortalezense de Letras, nascida neste Século, pelo ideal de Matusaíla Santiago e José Luís Lira. Ela é compromissada com o futuro, sem deixar de ajustar sua sedimentação na argamassa da História, na água do passado e até no limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados.
O nosso estatuto, em seu artigo terceiro, diz que o quadro social da Academia será constituído por pessoas que exerçam atividades literárias e que estejam interessadas no bom funcionamento da Instituição.
Eu pergunto, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento:
– Ubiratan, você exerce atividade literária?
– Você está interessado no bom funcionamento da instituição?
– Você quer se unir a ela?
A cada pergunta a resposta é sim, mas não precisa dizê-la de viva voz. Faça-o com a expressão da alma, aquela que não engana.
De minha parte e em nome de todos os colegas, afirmo que você exerce atividade literária e seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Essa a razão de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares.
Ubiratan é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui – onde suas raízes foram fundeadas – para o planalto central. Esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece, às vezes, incidir na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente.
Membro de família forte, a partir dos prenomes indígenas que adota, Ubiratan, filho de Araken e Maria, estudou e trabalhou de todas as formas lícitas e lúcidas, destacando-se a sua iniciação como professor de Português do Colégio 07 de Setembro, em cujos anais o presidente Ednilo encontrou os fundamentos para também subscrever o requerimento em que eu propunha o seu nome para esta Academia.
O que dizer de um homem que, por seus méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal?
O jovem universitário de Direito pela UFC tinha sonhos a cumprir desde cedo, mas carecia de uma parceira de fé, uma mulher valorosa, companheira de suas quimeras e assim o fez no verdor dos 19 anos, ao unir sua vida à de Terezita. E esse passo juvenil pode ter sido decisivo para o seu descortino e brilhante futuro.
Todavia, não estamos aqui para ouvir falar do filho, marido, pai, avô, Bacharel em Direito, do político e muito menos do Ministro, esse que, sem alarde, exerce o seu múnus com responsabilidade, dignidade e aprumo, fazendo-se credor do reconhecimento da sociedade brasileira.
Não queremos tampouco tecer loas ao Ministro Vice-Presidente desse fechado grupo de 09 brasileiros que formam o pleno do TCU.
A sua história pessoal não pertence a esta solenidade. Ela permanecerá viva além deste Palácio da Luz. Ela já está inscrita nos registros da Câmara de Fortaleza, da Assembleia do Ceará, do Congresso Nacional e, agora, no plenilúnio de sua vida pública, nos anais e arquivos eletrônicos do Tribunal de Contas da União.
Queremo-lo, Ubiratan, na luta coletiva para fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso, em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua própria restauração física e do seu entorno.
Queremo-lo na barricada em favor da iniciação sistemática de jovens nos diversos gêneros literários e na sua transformação em agentes multiplicadores da arte de pensar e escrever.
Não serão Ubiratan, os seus julgados que estarão na história e nas montras ainda invisíveis desta Academia.
Queremo-lo desavisado como soe acontecer aos poetas.
Platão, no livro 10, de “A República” não encontrou lugar para os poetas na sociedade ideal que concebeu. Esse papel caberia aos reis e filósofos. Ao que se depreende, Platão se equivocou.
Ora, se o grande pensador Platão pode ter se equivocado, por que alguns acreditam ter a capacidade unilateral de estabelecer, a seu modo, juízos de valor estético? Outra utopia.
A vida real é um bem comum, diz respeito a cada um e a todos. Assim também é o imaginado pelos filósofos e o imaginário dialógico que tece o mundo literário.
José de Alencar, por muitos considerado o maior escritor cearense de todos os tempos, também político de escol em sua época, disse certa vez:
“O cidadão é o poeta do direito e da justiça. O poeta é o cidadão do belo e a arte”.
Nessa direção, apontou a bússola existencial de Ubiratan Aguiar.
Já era o Cidadão, por força de sua lida e vida.
Agora, Ubiratan você espreita a vida à procura do belo e da arte. E o faz na madureza dos anos, certamente tocado pela lírica da agonia. Procura o Idioma dos Pássaros, nos signos, nas suas marcas pessoais e nas da humanidade, que são agora seus conteúdos simbólicos e preocupações permanentes.
Ubiratan começou a rabiscar versos, aquietando palavras que ferviam em suas entranhas. Guardou-os, reviu-os e já publicou três livros de poemas: Idioma dos Pássaros, Versos de Vida e Passageiro do Tempo. Não são considerados aqui seus outros escritos sobre Convênios, Tomadas de Contas, a Lei de Diretrizes e Bases, mas que têm importância na eficácia da gestão pública e na educação formal e cultural dos jovens brasileiros.
Esta saudação poderia ser uma espécie de Carta a um homem maduro e poeta jovem, na razão inversa do exposto por Rainer Maria Rilke ao aconselhar um jovem no seu debut literário. No seu caso, louve-se a coragem de mostrar agora sua face poética, a sua linguagem no diálogo com quem o lê.
Não sei bem o que vem a ser poeta, pois não o sou. Tampouco me atrevo a fazer crítica da obra poética de Ubiratan, O leitor é sempre o maior crítico. Procurei, no entanto, pesquisar o que possa vir a ser um poeta.
Para Paul Valéry “a poesia é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”.
Pergunto: Há som na poesia de Ubiratan?
Claro. Tanto o há que versos seus foram musicados e transformados em canções já constantes de três CDs.
Fazer letra de música, saibam os senhores e senhoras, também era “hobby” de Machado de Assis. Dele é a letra de uma valsa lenta: “Quando ela fala”, musicada por Elisa Wanda.
Ouçam Machado nesta quadra:
“Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala”.
Voltemos ao Ubiratan:
Pergunto ainda: Há sentido na sua poesia?
Ele sabe que sim, pois esse seu viés crepuscular o aproximou do Clube do Bode. Comunidade etérea, em desconfortáveis plásticos assentada na calçada abrasadora. Autofágica, mas gloriosa na descontração coletiva a bater palmas quando da aproximação do belo.
E essa vivência com escritores, poetas, músicos, pintores, sátiros e afins, o foi encorajando a tirar a sua nau do porto da timidez e ganhar o tempestuoso mar das letras onde pode haver ataque de bucaneiros. E o faz com a modéstia de aprendiz, sem fanfarras e a busca de signos e retoques para a sua lira.
Muitos poetas reconhecem um decassílabo antes que uma frase seja concluída e sabem usar rima e métrica em seus versos altaneiros. Eles são poetas, sim.
Mas não será poeta quem não se ajusta às análises esquemáticas do compasso da métrica e do adorno da rima? O que dizer então da poesia livre de Pablo Neruda, prêmio Nobel de Literatura?
O próprio Neruda responde: “A verdade é que não há verdade”.
Recolho de Manoel de Barros, grande poeta, uma outra possível resposta: “Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilogismo. Não gosto de dar confiança à razão, ela diminui a poesia”.
Vejam Ubiratan de mãos dadas com o ilogismo:
“Declinei verbos no sonho e,
adormeceram no sono.”
Ou quando refere:
“Paz das gaivotas
Voando livre
No branco das asas”
Robert Graves, escritor inglês, nos socorre
“a poesia não é ciência, é um ato de fé”.
Alguém duvida que Ubiratan não tenha fé no que escreve?
Ele é Passageiro do Tempo a procurar um mundo chamado poesia. E faz seu ato de fé ao dizer:
“Quantas metáforas guardam silêncio
Das verdades que a razão polícia?”
Ou quando revela:
“Quantas vezes a linguagem dos olhos
Expressa o silêncio covarde dos lábios
Quantas vezes nos escondemos dentro de nós,
Para não exteriorizar a vida?”
Ubiratan pode ser um noviço na ordem dos poetas, mas quem falou que a poesia está adstrita a um tempo de vida?
O próprio poeta responde:
“Como conter palavra
Na correnteza da boca?
A dúvida na indagação que faz ao fim de seus versos não deixa de ser inquietação poética. E quem escreve, especialmente versos, procura fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história e mitos. Se esse olhar chega com a maturidade, que seja bem-vindo. É poeta, sim.
E substitui, certamente orgulhoso, a seu colega de Assembleia e amigo de dezenas de anos, o meu colega de faculdade e poeta consagrado José Maria Barros Pinho que, nesta data, passa a ser Acadêmico de Honra, na vaga do inesquecível Eduardo Campos, uma das mais completas expressões literárias contemporânea do Ceará.
O que digo é do meu exclusivo encargo. Não sou um purista da lírica ou da arte poética. Acredito, porém, na capacidade que palavras têm o dom de conjurar almas, expondo-as até ao torvelinho dos que querem, talvez com justa razão, o refinamento e os detalhes da rima, da métrica e da metalinguagem.
Uns e outros merecem coexistir, pois a vida, já dizia o poeta Vinícius, “é a arte do encontro”.
E o próprio Ubiratan, pacificador por natureza, diz em versos:
“Nem por isso excelência
Nós somos separatistas
E este é um ponto de vista”
É chegada a hora de parar. Bem sei que o novel Acadêmico merecia palavras mais briosas, mas sou assim, coloquial e aberto.
Por último, pediria que o Acadêmico Ubiratan Diniz Aguiar se sentisse em casa, abraçasse os seus convidados e confraternizasse com seus novos companheiros aqui presentes, com a mesma energia que empresta à sua vida, fazendo-o como se mostra neste terceto:
“expondo sentimentos submersos
No conto, na poesia, na literatura,
“Marcando o tempo e a criatura.”

Muito obrigado a todos.
João Soares Neto – Cronista, março de 2008

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SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL

O nosso comum amigo, César Asfor Rocha, surpreendeu-me no Natal passado com a sua encomendada, mas especial dedicatória (“Ao João Soares, que tem a paixão pela letras, o abraço do José Sarney) no livro “Saraminda”.
Li-o no dealbar do ano e, passado o processo eleitoral do Senado e pensadas as dores das suas incisões vesiculares, vi-me aprestado a lhe agradecer a gentileza.
Aviso-o que não sou crítico literário. Faço da empresa o meu viver, sem esquecer de tecer sonhos com os sentidos. Perpetro escritos, meras crônicas descompromissadas e publicadas e, guardados estão poemas ainda virgens de outros olhos, pois a auto-censura os enclausura
Além do amigo comum, restam-nos apenas a identidade do Jota e do Esse que emolduram o seu e o meu nome, mas isto é alongar conversa, para a qual não recebi permissão.
Receba, como agradecimento, o que escrevi abaixo, tão isento quanto pode ser um pré- sessentão encantado por Saraminda, nossa amada.
Cordialmente,
João Soares Neto
SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL
Saraminda prova que José Sarney não é normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem.”) com uma latinidade que o escritor brasileiro não costuma exercer e falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda ( “O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça.
Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”) que não houve entre dois países tão distintos quanto o Brasil e França.
Saraminda prova que José Sarney não é político, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo(“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade.
Prazer de coisa de amor de gente que se junta… Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas(”Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos.
Saraminda prova que José Sarney não é rico. Se o fora não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça(“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria(“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei , não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”)que o ouro( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses.
Saraminda atesta que José Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras(“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas de um Borgesïï
Saraminda fez enfim, José Sarney calar os que ainda não têm olhos para ver que, além da sua matreirice, da lhaneza, do faro e da capacidade de focar a política, sobram-lhe sentimentos lustrados em palavras ajuntadas em bateias de idéias que brotam como florestas de uma amazônia de encantamentos.

João Soares Neto,
especial para o DN.

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PREFÁCIO DO LIVRO: VOE COMIGO QUANDO DESMORRER

Imagino-me passeando por Santana do Acaraú. Dou voltas pela Praça São João, benzo-me diante da sua Igreja, tento localizar o lugar onde o Pe. Antônio Tomás foi enterrado na Matriz, fotografo mentalmente o sobrado do Padre Araken, percorro a Praça do Alto da Liberdade, ouço vozes dentro do Patronato de Santana, compro uma cocada no mercado público e vou espairecer às margens do Rio Acarau.
Olho para as águas, há um reflexo de luz e vejo três vultos envoltos em espumas e algas: Padre Antônio Thomaz, príncipe dos poetas cearenses, com uma sotaina preta e velha; José Alcides Pinto, a maior expressão viva da literatura santanense, ora de paletó branco, ora vestido como franciscano e Audifax Rios, com um gibão de vaqueiro, que me joga um livro e, com os outros dois, toma uma canoa feita de alfarrábios, cujos remos são duas metáforas e vão em direção ao mundo do reconhecimento, esse lugar onde só permanecem os que deixam rastros duradouros de saber entre as pessoas.
Passo a mão nos olhos e não sei se realmente vi o que estou contando, mas o livro existe, está em minhas mãos e eu começo a fazer o que gosto: Leio-o ali mesmo e fico pasmo.
Decido escrever sobre o que li e, por conta disso, peço a atenção por cinco minutos, das senhoras e senhores, não por mim, mas em respeito ao autor de Voe Comigo quando Desmorrer e à terra santanense que concebeu, em épocas distintas, figuras admiráveis de nossa literatura, essa que não enche algibeiras, mas nos dá alento para a vida e a futrica nesta província de Nossa Senhora da Assunção, a mesma Senhora de Santana, apenas metamorfoseada, fortificada, marítima e maior em amores e dores e que acolheu, Audifax Rios, adotando-o como filho.
Vamos ao livro:
Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice ou a base desse tripé ou triângulo literário com Voe comigo quando desmorrer.
Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.
Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longelíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances.
Em 1962 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.
Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista.
O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade.
Com este livro que me dá a honra de prefaciar, ele conclui a trilogia referida. Não vou apresentar “spoilers” de sua obra. Para que antecipar o prazer? Basta ir em frente e começar a leitura. Não posso deixar de dizer, entretanto, que o Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é.
É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação crítica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos.
O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo e vai num crescendo que deixará o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. É preciso ir lendo, respirando e sentindo, como se estivesse de olhos cerrados para imaginar, ver os cenários que ele constrói e a história a se escorar em tema aparentemente simples.
Fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latina, especialmente do México, sem esquecer do circo, esta alegoria tão fincada em nossas raízes, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo e o torna referência neste tempo de muitos poetas, mas escassos os que arrastam asas pelos duros caminhos da ficção, esse campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim. Essa seqüência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena.

João Soares Neto

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OS VÁRIOS CAMPOS DO EDUARDO

Ontem, 11 de janeiro de 2003, Eduardo Campos completou 80 anos. E houve festa. Bonita, discreta, classuda, com a fala envolvente e intimista do aniversariante, o amor declarado da família e a benquerençade amigos escolhidos.
Difícil é saber quem é Eduardo Campos. Será o menino Manoelito da Guaiuba/Pacatuba que se meteu, desde cedo, a presidente de grêmio literário e o fez com a capacidade de liderança que o caracterizaria posteriormente? Ou será o soldado Manoelito que sentou praça no 23º Batalhão de Caçadores e aprendeu a ver, do seu jeito peculiar, o Brasil com olhos de patriota? Ou seria o locutor de voz cristalina, galante e forte que ingressou na Ceará Rádio Clube quase adolescente?
Curioso, instigante, inteligente, veio a ter na cidade de Fortaleza a convivência com outros jovens que mudavam o padrão cultural de uma cidade provinciana e preconceituosa. Participou de um clã e ajudou a brotar a modernidade literária em meio a bolorentos textos de então que causavam enfado e sono. Não contente, fez-se ator como Cristo e não foram poucas as marias madalenas que dele se acercaram. Era o teatro que começava a brotar em sua mente e aí a estrada se fez maior que o estirão entre Pacatuba e Fortaleza.
Cioso, meticuloso e arguto foi buscar em outra messe a companheira de toda uma vida e o fez com ares quixotescos. Era a hora de estabelecer raízes e soube ser cortez para ter ao lado alguém que lhe desse segurança, amor e compreensão.
Será ele o condutor da Ceará Rádio Clube, da Rádio Verdes Mares, do Correio do Ceará, do Unitário e o implantador da TV-Ceará, canal 2? Mas, o que é tudo isso? É um sonho que sonhou coletivamente com outros homens especiais, destacando-se o paraibano Assis Chateaubriand que se fez alado e alçou voos tão grandes que resultaram em um condomínio tão complexo quanto inovador. Eduardo Campos comandou tudo isso com a certeza dos que têm dúvidas, mas sabem que a vida precisa de caminhantes. E foi um bom caminhante e condutor de centenas de profissionais que hoje se espalham por todo este país.
Será o ator, o teatrólogo de peças consagradas que deram ao nosso Estado uma dimensão nacional? É impossível falar em teatro no Ceará sem que se passe por “Morro do Ouro” e as interpretações de artistas que encarnaram a nossa realidade pungente e dolorosa.
Será o intelectual prolífero, o escritor premiado, cioso da frase que planta, do texto que arremata, do conto que extasia, da crônica que permanece e do romance que aprofunda a sua arte de sentir e dizer? E aí acadêmico se tornou e comandou por dez anos a Academia Cearense de Letras, com voz de tribuno romano, perfil de filósofo grego e a manha do pacatubano que mirava a serra da Aratuba e sabia que estava fadado a voos de águia.

João Soares Neto,
Administrador e escritor

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O POETA DO PÁSSARO E DO AZUL

Dizem que os nomes dos livros, especialmente os de poesia, são indicações básicas para a descoberta do que deseja transmitir o autor. Barros Pinho acaba de escrever uma “carta do pássaro”. Ora, se é verdade que os nomes dos livros decifram seus autores, pode ser que Barros Pinho não seja a exceção. Nesse livro existe uma proposta de interdisciplinaridade com as ilustrações bonitas de Vera Andrade. Os pássaros pintados são esboços fortes na cor azul. Tinha que ser.
O poeta das “barrancas do rio Parnaíba” procura em seu novo livro, uma imersão lírica, entremeadas de concretudes, na sua própria vida, pelo menos a vida que conta. E diz que “só escrevo diário em verso” (p. 63, o sol da manhã). E diz também no poema “o pássaro”, p. 45: “não sei como sou não sei”, mas sabe(p.60) que uma bicicleta com asas anda no meu outono”. Vê-se, na releitura da leitura, que há no diário poético de Barros Pinho a necessidade de sobrevoar a sua vida, vendo-a de cima com olhar privilegiado, de torná-la verso e se vale de um pássaro e de uma bicicleta com asas para, altaneiro, ver com os olhos da alma aquilo que ainda não soube aclarar.
O pássaro, embora fale em outono, diz que as “as estações se sucumbiram no corpo”( o sentido do nada, p. 60) e, como todo poeta maduro, é contraditório(Lembremo-nos de Fernando Pessoa). Na poesia “autolirismo” (p.52) declara que “sou poeta não escrevo nas nuvens”, mas “escrevo na asa dos pássaros”(p. 27). A bicicleta do poeta tem asas e ele, pedalando ou voando como pássaro, sabe que no azul há sempre nuvens e lá, no seu imaginário, vê e escreve. E o azul é uma constante(“Natal do castelo azul”, “Pedras do arco-íris ou a invenção no azul no edital do rio”) na poesia de Barros Pinho, como se essa cor tivesse a tonalidade do seu sonho, não obstante revele que o “meu estoque de sonho acabou no primeiro bar” (p. 48,”canção do primeiro bar”). Acabou não, no poeta o sonho nunca morre, torna-se letra e cria forma.

João Soares Neto

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NATÉRCIA

Ao pé da porta, ainda cheirando à tinta, a nova versão de “Por terras de Camões e Cervantes”. Releio e fico atônito. Atrever-me a comentá-la, após a releitura das críticas de Benevides, Carvalho e Pinto, é uma sandice. E o que sou, se não mero escrevinhador delas? Por não bem ser do ramo, permito-me. Ou por não saber, o que fazer?
Você é uma mulher de olhos grandes e, como querem os indianos, tem um terceiro olho. Pois bem, com três olhos é covardia. Tinha que gerar o que saiu em 98 e agora revive tão bem aquinhoado com as mãos, arte e benquerença de Azevedo e Jesuíno.
Outra mulher de olhos grandes, Florbela Espanca, de uma das terras onde você pisou com carinho e ancinho, disse: “Fui pela estrada a rir e a cantar, as contas do meu sonho desfiando… e noite e dia, à chuva e ao luar, fui sempre caminhando e perguntando…” Essa é você, sem tirar, acrescentando a escrita.
Há tanto bordado no escrito por você. Cada palavra é um ponto e o contexto mais que um nó. Arte, estética ou poética? Sei lá. Sei que é.
A carta pelos caminhos de Luís e Miguel é a mais longa entre tantas que precisam deixar de repousar e tornarem-se belas inquietudes escancaradas. Med ou Mak…
Obrigado por ser do seu ninho, fora do Minho.

João Soares Neto,
Administrador e escritor

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INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE

Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, do desemprego, da assistência médica pública e dos desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego.Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje são os seus mais recentes amigos de infância. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Lula tem a formação de vida nitidamente paulista, mas trás na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante.
Ninguém desconhece que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência provada na gestão de graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo.
Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era e é ainda um país dividido em Capitanias na mão de lobbistas, políticos e partidos praticando pouco do que falam, especialmente diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários. Ao entrar em uma repartição qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independe do que ganha, da roupa que veste ou da função que exerce.
Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciária (para diminuir despesas) e a tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma administrativa ou gerencial para que tudo funcione. Isto me faz lembrar das intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa que pretendiam desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou que foram vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. Está na hora de mudar.

João Soares Neto,
administrador e escritor

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CELA NA UNIFOR

Tomei o carro, segui pela Av. Washington Soares, dobrei à esquerda na entrada da Unifor, contornei o Centro de Convenções e estacionei em uma área bem cuidada e com sombra farta, em frente ao discreto e belo Espaço Cultural Unifor. Fui ver a exposição de Raimundo Cela em meio a um dia de trabalho. Parei tudo o que estava fazendo e fui. Fui só. Havia recusado convites, inclusive o da abertura. A arte pictórica, para mim, é para ser contemplada sem troca de conversas, sem auxílio de bebida e com o silêncio que nos ajuda na concentração e no foco que a retina pede. Na tarde em que fui, só ouvia o leve ruído do ar condicionado, não quebrado pelas atendentes e vigilantes, tão discretos e eficientes como costumam ser os que mourejam na Unifor. Eram poucos os quietos visitantes.
Entrei devagar, com o respeito de quem já conhecia a história – e parte da obra – do pintor cearense Raimundo Cela (1890 -1954), que me foi passada na juventude por um já falecido colega, Valério Cela Militão Menescal. Segui o roteiro que o meu jeito manda. Vejo as coisas da esquerda para a direita, canhoto que sou. E foi assim que ia, pouco a pouco, me deliciando com as pinturas, desenhos e gravuras que começaram em Camocim, passaram por Fortaleza e Rio de Janeiro, vararam parte da Europa, retornaram a Fortaleza e se quedaram em Niterói.
É claro que tudo já foi dito na apresentação de Airton Queiroz, na introdução de Max Perlingeiro, no Prefácio de Estrigas, na cronologia apurada e nas críticas de Fábio Magalhães (pinturas), Cláudio Valério Teixeira (desenhos) e Adir Botelho (gravuras). O que mais eu poderia acrescentar a essa primorosa iniciativa cultural da Unifor? Apenas duas ideias, se é que já não foram tomadas. Primeira: prorrogar a exposição pelo período das férias escolares de dezembro a fevereiro, incluindo-a nos roteiros de operadoras de turismo nacionais e estrangeiras que trazem grupos de pessoas a Fortaleza. Segunda: produzir um filme em 35mm ou DVD para posteriores projeções em escolas públicas e privadas de todos os níveis do Ceará e do Brasil, servindo de exemplo a quantos desejam fazer da arte o seu caminho básico. Ou mesmo que assim não seja, possam ir aprimorando o olhar.
Essa exposição, pela riqueza de seu acervo, bom gosto no seu layout, coerência na iluminação e curadoria profissional, tem o jeito low profile que Airton Queiroz, um amante das artes, sempre impõe as coisas que faz sem alardes, mas com competência. Mesmo que as minhas duas sugestões não sejam acatadas, veja se você consegue umas duas horas do seu tempo e vá lá até o próximo dia 12 e descubra porque William Somerset Maugham dizia que “a arte é um dos grandes valores da vida e ensina aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”.

João Soares Neto

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CAPISTRANO, POR QUEM E PARA QUEM NÃO O CONHECE

João Soares Neto, ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras.
Diz Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano dizia que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções e documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. Historia como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.
José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra diz tudo.”
Tenho consciência disso. Falta-me maior intimidade com a sua obra. Sou curioso e o conhecimento não tem dono, mas neófito sou em admirá-lo. Não vejo em mim autoridade para descrever a vida, tampouco a obra, pois além do embasamento que não tenho, some-se a isso o exíguo tempo de menos de uma semana, sem prejuízo dos meus outros afazeres, em que fui gentilmente compelido por esta Academia Fortalezense de Letras a escrever este relato.
Sabem com que credenciais? A qualidade única de ocupante da cadeira que tem Capistrano como patrono. Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será brevemente mal dito.
As comemorações dos 150 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam por todo o Brasil. No Ceará houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.
Fosse hoje, certamente, dezenas o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Este trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício.
No último dia 23 deste mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu, nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.
De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife.
Foi reprovado nos preparatórios porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório.
Debaixo de repreensões, foi para o cabo de uma enxada como um cabloco qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar e rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que era, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado em Maranguape.
Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” que reunia jovens quase imberbes.
Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação
Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoada pelo jornal A Tribuna Católica.
É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado à Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará.
Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.”
Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.
A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.”
Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.
Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(…) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(…)(…) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( …).”
Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador.
Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “Historia do Brasil”. Matoso Maia lhe pede para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.”
Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “m modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.”
Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante, a quem dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.”
Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.
Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade.
Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.
Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico – positivista que foi e deixou de ser – para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial.Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos,sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço.
Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis.O povo é o sujeito da história.
Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.
Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.”
Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos – a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava.
Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos.
Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou ate à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério.
Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.”
Este perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas:“Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”.
Na verdade, não morreu. Transformou-se.

As citações estão contidas na Bibliografia consultada:

– AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial – Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular – Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.
– Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br [22.10.2003].
– RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência – Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977.
– SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br [26.10.2003]

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APRESENTAÇÃO

JOÃO SOARES NETO, CÔNSUL HONORÁRIO DO MÉXICO
E MEMBRO DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS

José Luís Lira tem caminhado, nos últimos anos, em várias direções. Profissionalmente, escudou-se na sua formação jurídica e galgou o patamar de professor da universidade do vale que circunda a região onde moram seus sentimentos. Paralelo a isso, aportou afinidades com Mathusaila Santiago e dessa amizade surgiram duas academias. A fé gerada enquanto infante o acompanha hoje, pois sedimentada, no estudo hagiológico. E faz mais, amou Rachel de Queiroz na sua velhice e dela extraiu elementos que transformou em livro. E vai em frente. Lira é assim, inquieto, decidido, abridor de portas e de livros com o tempo que sobra aos que optam pela castidade e solteirice. Assim é José Luís. E por ser José Luís imagino-o mexendo no Google a descobrir algo que contivesse os seus dois pré-nomes. E não é que ele descobriu e bem. Surge, em sua vida, a figura beatificada de José Luís Sánchez Del Río, um jovem adolescente mexicano, nascido em 1913 e falecido aos 15 anos.
O processo de canonização de uma pessoa morta passa por quatro etapas. Na primeira, um bispo ou arcebispo que responde pela Diocese em que o candidato vivia abre um processo. Esse lento processo precisa de um postulador, isto é, de alguém que advogue a sua causa, devidamente indicado pelo bispo, pelo menos cinco anos após a morte do servo de Deus em exame. Por outro lado, a Santa Sé procura, detalhadamente, a descoberta de falhas ou lacunas que invalidem a postulação.
Vencida esta etapa, o Servo de Deus, por seu representante, passa a postular ser Venerável, quando é provado a teólogos, historiadores e membros da Igreja que o candidato teve uma vida ilibada com realce para suas virtudes católicas ou que faleceu em defesa da fé em Cristo. A terceira fase é a Beatificação, quando a grande burocracia do Vaticano escoima todas as questões e o “encaminha” à santificação. Foi nesta fase que Lira já encontrou seu homônimo. Para ser Santo, José Luís Sánchez Del Río tem que comprovar ainda que realizou, pelo menos, dois milagres.
Com a argúcia de um “hacker” católico, Lira foi-se apropriando da história da revolução “cristera”, movimento que no final dos anos 20 colocou em cheque as relações entre a Igreja e o Estado Mexicano, originando a morte de milhares de pessoas, dentre elas a de José Luís Sánchez Del Río e viu todo o caminho percorrido até a já beatificação desse adolescente e o fez com o cuidado de um parente na fé cristã e na irmandade que possa advir da feliz coincidência de terem ambos pré-nomes idênticos.
Mais não comento para não tirar o prazer da incursão em percurso tão rico na história mexicana do início do século passado, violenta, estonteante e definida, na forma cautelosa e carinhosa com que Lira cuidou de compor o “Mártir do Cristo Rei: José Luis Sánchez Del Río”. Ele mesmo diz: “O jovem beato José Sánchez Del Río deve estimular-nos a todos, principalmente, a vós, jovens, a serdes capazes de dar testemunho de Cristo na nossa vida quotidiana”. Esse livro-documento, por sua pesquisa, fará certamente parte das leituras e comentários dos que professam a fé católica, os que procuram conhecer a história mexicana, bem como os que integram a Academia Brasileira de Hagiologia, da qual é um dos membros mais atuantes.
Propagar a fé em época tão carente de santidade é um ato de amor a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que qualifica seu autor no caminho pessoal pelo uso da razão e da pesquisa. Como dizia Santo Agostinho: “Fé é acreditarmos no que não vemos, e a recompensa dessa fé é vermos aquilo em que acreditamos”

João Soares Neto