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ALEMANHA, 2007 – Jornal O Estado

No dia 09 de novembro de 1989 eu estava, acidentalmente, na Alemanha. Foi o dia em que o Muro de Berlim, construído em agosto de 1961, caiu. Fazia frio, mas o calor das pessoas que atravessam aquela barricada mostrava que o mundo desobedece aos que se imaginam donos dele. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a Alemanha, derrotada, estava dividida, loteada entre os vencedores, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia. Do lado ocidental, eclodiu a força dos Estados Unidos com a política do “Plano Marshall”, promovendo um rápido desenvolvimento e estabelecendo padrões de referência para minar a ação da Rússia.
Do lado oriental, dominado pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi crescendo a necessidade da construção desse grande muro para separar pessoas, costumes e crenças. Alemães passaram a ser compulsoriamente pró-Estados Unidos ou a favor da Rússia. Cansados, nessa noite de 09 de novembro de 1989, resolveram testar sua força e viram que a máxima de Marx valia: “o povo unido jamais será vencido”.
Era o começo de uma nova história para a Alemanha, que também não estava satisfeita com a dominação e as bases militares americanas. E o país estabeleceu então políticas públicas de reencontro de famílias separadas, a custos financeiros pesados, e passou a cuidar de reconstruir cidades que ainda estavam, em parte, soterradas pelos escombros dos bombardeios sofridos em 1945. Era uma ebulição. Agora, quando faz 18 anos que isso aconteceu, pude ver, novamente, como aquele país mudou, consolidou sua força e é hoje uma potência econômica que, depois de pagar todas as suas dívidas de guerra, merece a atenção de quantos queiram ver como a autoestima pode ser importante na transformação social de um povo. Por outro lado, com a criação da comunidade europeia, o fim de sua moeda nacional, o Marco, o surgimento do Euro e a vitoriosa implantação desse bloco supranacional, nasceram alguns obstáculos como, por exemplo, a escassez de mão-de-obra qualificada, agravada pelo baixo índice de natalidade.
Esse fato tem gerado controvérsias, pois pressupõe a concepção de um “blue card”, cartão com a cor azul da União Europeia, semelhante ao “green card” americano, que possibilite o ingresso de estrangeiros para trabalhar em funções tecnológicas qualificadas. Essa questão, ainda não aceita pela Alemanha, pode originar novamente o surgimento de um muro virtual e perigoso, o do preconceito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2007

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DIA DA CULTURA – Diário do Nordeste

Amanhã, 05 de novembro, será o Dia da Cultura. Na verdade, todos os dias são dias de cultura, pois as nossas vivências, valores, linguagens e técnicas vão construindo, de forma coletiva, a cultura. Não há como definir ou conceituar cultura em espaço tão pequeno. Ensaios e teses são instrumentos naturais para dissecar as múltiplas faces da cultura. Algumas pessoas imaginam que só artistas e intelectuais têm a ver com cultura. Bobagem. Tudo é cultura: música, cinema, teatro, artes visuais, livro, costumes, tradições, mitologia, esporte, folclore etc. Na hora em que participo, por exemplo, de um clube, estou vivendo um tipo de cultura que tem como base a camaradagem, o descompromisso, o espicaçamento do outro e, não por último, a própria cultura. Do mesmo modo, ao participar de uma reunião acadêmica que segue um determinado rito e cobra de seus membros produção cultural ou científica, estamos sedimentando outra forma de cultura. As torcidas organizadas de futebol, bandas de rock, conjuntos sertanejos, grupos políticos, instituições, classes, religiões, países, estados, cidades, bairros e famílias têm formas específicas de cultura. Dois pressupostos são básicos para se formar uma cultura: o sentimento de pertença ou identidade e o partilhamento de experiências pessoais que passam a constituir a cultura de um grupo.
Eu falava que amanhã será o Dia da Cultura que tem o objetivo duplo de homenagear a Rui Barbosa, nascido na data, e nos levar a pensar. A abstração nos mostra que os elementos culturais só existem porque pensamos. Há objetos materiais na cultura, mas se precisa da mente para que eles sejam sentidos, pensados e tenham função. Ninguém é dono da cultura, posto ser múltipla. Existe um relativismo cultural que mostra não podermos ser iguais e que não há cultura superior. Há, entretanto, pessoas especializadas em algo. Isso lhes dá uma identidade, mas não os torna superiores aos que não a têm ou optam por outra. Isso é diversidade. O outro não sou eu. Eu não sou ele. Logo, somos diferentes e, mesmo vivendo em um mesmo tempo e lugar, temos o direito de sermos únicos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2007.

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NELSON MANDELA, 90 – Jornal O Estado

Foi lendo e vendo que me tornei olheiro do mundo. Sempre lendo, escrevendo e viajando, da forma que podia, procurando entender o que os meus olhos, arregalados, viam. E nesse duplo olhar, houve uma preocupação com a África, tão rica de recursos naturais e, àquele tempo, subjugada por um colonialismo feroz que tinha a Inglaterra e a França como principais vilões.
Nesse tempo eclode a figura de Nelson Mandela, um advogado negro, pacífico no agir, mas rebelde no pensar em nome da sua África do Sul, dominada pela minoria branca. E ele estava preso. E ficou preso por 27 anos. Certa vez, foi chamado para negociar condições para a sua libertação. E essas condições incluíam aceitar o “status quo”. Ele respondeu: “só os homens livres podem negociar e eu sou um prisioneiro”. Afinal, em 1990, foi libertado e conseguiu, com a sua firmeza de caráter e liderança, dar um novo destino a um país sangrento e dividido.
A África do Sul é hoje um país transformado, pujante e até se dá à pachorra de sediar a futura Copa do Mundo de Futebol, em 2010. Mas foi preciso que muitos morressem e que Mandela saísse das masmorras para comandar, pacificamente, como Presidente, a integração entre negros e brancos, sem ódios e queixumes pelo passado. Em 1998, ao deixar a Presidência da África do Sul, Mandela fez um discurso que ficou nos anais das Nações Unidas: “Persevarei na esperança de que um quadro de líderes emergiu em meu país e em minha região, no meu continente e no mundo, que não permitirá que ninguém seja privado de liberdade como nós fomos; que ninguém se transforme num refugiado como nós fomos; que ninguém seja condenado a sentir forme como nós fomos; que ninguém seja despojado da dignidade humana como nós fomos”.
É essa a liderança de Mandela que estou a reverenciar quando ele completa 90 anos. E, por conta da falta de uma liderança como a dele que lamento este “apartheid” que ainda temos em outros países da África e em nosso país, alimentado por políticos sem ética, a indiferença dos poderosos, de entidades que só pensam corporativamente e pelo tráfico de drogas. O Brasil, os Estados e as cidades têm várias faces, desintegradas, desconhecidas umas das outras, sem que apareça ninguém para uni-las, mostrar que este país pode sim abrigar a todos com oportunidades e inclusão, sem o plantio do ódio e violência que são semeados como forma de dividir, mandar e enganar incautos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/11/2007

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MARGARIDA FLOR – Diário do Nordeste

Dois oitos deitados representam um duplo infinito. Dois oitos em pé formam uma idade longeva, a de uma mulher lúcida, ativa e forte que soube, passo a passo, cuidar de sua vida e plasmar que já teceram novas criaturas. E, por que sei de onde venho e aonde estou, é que dirijo palavras a uma mulher que, jovem e resolvida, uniu-se ao homem amado com a coragem dos que sabem construir o seu destino. E o fez com a certeza do passo firme, resoluto, mesmo sabendo que viver é não saber do dia seguinte. Mas soube cuidar de cada dia e de cada rebento sadio que nascia do seu ventre e, ao longo dessa saga percorrida, mesmo após perder seu companheiro de vida, pode olhar para trás, para frente, para os lados e dizer de suas vitórias, semeadas com lágrimas e lutas.
Esta mulher-líder de família simples, sem pretensões genealógicas, sem arroubos de grandeza e riqueza, espraiou-se pelo mundo afora. Tem tentáculos viçosos aqui no Novo Mundo, mas resplandece no Velho Continente e seus raios iluminam terras de afeto, em outros lugares em outras pátrias. Para ela o mundo é pequeno. Usa o telefone com tranquilidade para falar com a filha na América, com um neto na Espanha, com a filha, genro e as netas alemãs e diz para outra neta, esta na Amazônia, que não use diminutivo para a bisneta que acaba de nascer. Fala, sem perguntar se querem ouvir. E é ouvida, com certeza. Independente, vive de seus recursos poupados e não aceita que ninguém lhe indique caminhos, porque fez o seu com as pedras da retidão, da benemerência e da fé que, segundo ela, cobre a todos os seus de graças. Ela resmunga, reclama de achaques, dita normas e se faz ouvida pela sabedoria acumulada em cântaros do viver. Todos a frequentam em sua casa ajardinada, sombreada, farta de comida, povoada de lembranças e retratos marcando o tempo. E é a ela que louvo neste escrito. Ela, que me trouxe ao mundo, como o primeiro de uma série de nove, todos vivos, sadios, independentes e ciosos da mãe que possuem e que tem nome de flor: Margarida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/10/2007.

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ARGENTINA, CRISTINA – Jornal O Estado

Daqui a dois dias haverá eleições para presidente na Argentina, ume país é bonito e paradoxal. Acredita-se europeu em meio aos trópicos, embora tenha parte de seu território na Antártida. A grande maioria da população tem sobrenome italiano, outros são de origem hispânica, alguns árabes, alemães e inclusive judeus. Todos se vestem como europeus, dizem as más línguas, pensando que são ingleses de costeletas.
Os estrangeiros contam que eles são machistas, mas se deixam dominar por mulheres. Quem iniciou tudo foi o presidente Juan Domingos Perón, mal comparando, uma espécie de Vargas argentino. Perón teve duas mulheres metidas em política. A primeira, Evita, era uma espécie de mãe assistencialista de todos. Cantora apenas razoável, embora com idade de filha de Perón, se finou em 1952, vítima de câncer aos 33 anos. Teve um velório de 14 dias e está enterrada no cemitério da Recoleta onde, diariamente, flores naturais são colocadas em seu rico túmulo.
Passado algum tempo, criado e cultivado o mito Evita, Perón casa com Isabelita, igualmente bem mais nova, artista iniciante de teatro e loira como a primeira. Não contente em ter casado, já alquebrado pelo tempo, Perón resolve fazê-la sua vice-presidente da República. E o consegue. Morre em 1974, Isabelita assume e a corrupção aumenta em níveis despudorados, tendo sido destituída pelos militares, em 1976. Só homens vieram depois. Agora, neste domingo próximo, 28 de outubro, a Argentina volta a optar entre duas mulheres. A favorita é Cristina Kirchner, mulher do Presidente Néstor Kirchner, que desistiu da reeleição. Peronista, cinquentona, senadora há vários mandatos, visual novo, grande capacidade de diálogo, o que falta a seu marido, tido como de sangue quente reeleição. A outra candidata é Elisa Carrió, da frente oposicionista Coalização Cívica, com poucas chances de vitória, dizem as pesquisas.
Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença.
A Argentina-2007 é um país em franca recuperação, mas teve a renda de sua classe média achatada, ao mesmo tempo em que a outrora rica Buenos Aires cedeu espaços para o surgimento de favelas que podem, por exemplo, ser vistas ao longo da estrada que demanda ao aeroporto de Ezeiza. A propalada autoestima elevada que o argentino diz ter pode não ser tão verdadeira. Citando Ortega Y Gasset é lícito dizer que “há uma permanente dissociação entre a imagem que têm de si mesmo e a realidade”. Esse fato se verifica no próprio jeito de falar dos argentinos. Quase sempre, iniciam com a palavra não(no) quando querem dizer sim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/10/2007.

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O ROLEX DO HUCK – Diário do Nordeste

Muitas pessoas precisam do que se chama de validação. É quando o olho do outro sobre nós dá um “plus” na nossa autoestima ou no que achamos sobre nós mesmos. Relógios, carros, barcos, aviões, casas, roupas, joias e acessórios são sinais que definem ou mascaram uma pessoa. Assim é que soldados usam fardas, sacerdotes celebram paramentados, noivos se engalanam para as bodas etc. Assim é o mundo, desde sempre.
O rolex do apresentador de televisão Luciano Huck, roubado em assalto recente em São Paulo, é símbolo ou referência visual do “status” adquirido com o dinheiro ganho de forma legítima, mesmo que à custa de espectadores de gosto discutível. A maioria das pessoas acha essas exibições desnecessárias e que agridem os pobres e os sem perspectivas. Outras, hedonistas, precisam que seus carros, sapatos, roupas, acessórios, visuais gritem por elas, dizendo: vejam que eu não sou igual a vocês, eu posso, eu quero, eu tenho.
Em um país rico-pobre ou pobre-rico como é o Brasil, dependendo do ângulo em que o vemos, onde há uma estridente injustiça social e concentração de renda é difícil encontrar um ponto de equilíbrio que agrade os que frequentam a alta sociedade e os que, ávidos, ouvem programas policiais ou leem colunas de fofocas para saber das desgraças que acontecem com os mais famosos ou ricos.
O que quase não foi dito nessa história é que Huck não prestou queixa. E não o fez por não acreditar na Polícia, a instituição paga por pobres e ricos para nos proteger, mas que, segundo as pesquisas de opinião, não protege ninguém, nem ela própria. Um policial paulista, Roger Francini, afirmou saber onde o rolex do Huck poderia ser encontrado “e que não iria atrás por ganhar míseros R$ 568,29”. É por esta e outras que ter empresa de segurança é um grande negócio. Mas, todos sabem, vigilantes, guarda-costas e transportadores de valores são pessoas de baixa renda. Um paradoxo, pois são obrigados a arriscar suas vidas para defender indivíduos – e bens -que, quase sempre, odeiam, negam ou invejam por estarem em escala social diferenciada e os tratar, via de regra, com indiferença. Isso é problema.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2007.

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JORGE TUFIC, FORTALEZENSE – Jornal O Estado

Se tudo ocorrer como esperamos, Jorge Tufic, grande poeta, tão amplo quanto o Acre e o Amazonas reunidos, Estados onde, no primeiro, perdeu o umbigo e, no segundo, adquiriu sabenças e postou-se como profissional capaz de ter vida longa e equilibrada, receberá nesta sexta-feira a comprovação efetiva da benquerença recíproca que, unilateralmente, destinava com seu passionalismo árabe à Fortaleza, esta cidade-mulher, meio volúvel e instável em seus humores.
Afinal, depois de tanto assédio, ela se rende aos afagos ilimitados que, por anos, lhe fez Jorge Tufic, cofiando seus vastos bigodes. E tomo dele, emprestados, versos de seu poema Vênus para mostrar, pintado, o corpo de delito de sua paixão por Fortaleza: “Dá-me, Apeles, o sangue dos teus dedos e as cores deste mar, espuma ardente em que Vênus ressoa e se reparte entre deusas e bichos, céus e terras, para que a louve, prostituta imensa feita de orgasmo e sol”. Sim, é linguagem de amante não correspondido.
Aqui nesta terra ele assentou sua oca, deixando a glória pública, a consagração e o afeto dos muitos amigos e admiradores do Estado do Acre, um prolongamento da força cearense fincada ao norte por Plácido de Castro. Deixou, igualmente, de frequentar academias, saraus e as páginas da imprensa amazônica que lhe devota respeito e admiração. Veio para a adusteza do Ceará, acalentado pelos ventos e os mares que o embeveceram e o tornaram, se possível, maior poeta do que já era.
E o fez por Destino, título de um dos seus poemas em que diz: “Um tear e uma aranha ponteiam meu destino. Quando o tear se esgota a aranha pega o fio e sobe.” O tear do norte se esgotou e ele se enredou nos fios da aranha-fortaleza e com ela subiu, mais ainda.
Se tudo correr como esperamos, Jorge Tufic, este homem que fez o sol de Fortaleza mais brilhante com o esplendor do seu saber poético, esparramado em versos consagrados, aquilatados e premiados, neste dia de hoje, 19 de outubro, será Cidadão fortalezense.
Cidadão do sagrado mundo dos que deliram em versos, não os frutos da consciência, mas os do saber-sentimento denso que responde a inquietações de sua profundeza existencial. Receberá esse título das mãos de um vereador-médico, acostumado a suturas, reduções e ajustes nos esqueletos humanos, mas que sabe das letras e volta sempre os olhos para as almas dos que mourejam palavras. Machado Neto, Machadinho, entregará um sândalo sob a forma de pergaminho perfumado com os olores de sua amada Fortaleza.
E esse pergaminho de cidadania da terra de Alencar terá, em contraponto, um ganho verdadeiro. Em troca, a cidade perderá um amásio e ganhará um filho ilustre que, quem sabe, imortalizará em versos essa sua nova condição humana.
E, tenho certeza, mesmo que não verbalize em seu agradecimento de poeta e fortalezense o amor agora correspondido, Jorge Tufic, tímido e contente, diria, com versos seus já escritos em Restinga’s Bar: “Sou frágil, meu bem, que nada pode separar-me de ti. Teu nome é um sonho que navega em meu sonho.”
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2007.

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TAM-CHÁ DE AEROPORTO

Saio de São Paulo pela Marginal Pinheiros em direção a Guarulhos. Vejo a beleza dos novos prédios ser contraposta com a rudeza dos casebres de zinco, madeira, papelão e alvenaria que assomam em quaisquer espaços sob viadutos e praças. O dia está no zênite e o caminho se faz lento. O progresso fez mais carros que estradas e já é comecinho da tarde quando, à direita, se espraia o aeroporto, batizado Mário Covas. Desço, consigo um carrinho e vou com a mala em direção ao despacho da Tam. Fila maior que a paciência. Que jeito! Meia hora depois, sou atendido. O bilhete e a bagagem estão certos. Pergunto se o avião está no horário. Claro, a Tam assegura. Olho o relógio, duas da tarde.
Vejo conhecidos, troco dedos de prosa e vou ler Marina Colasanti. O avião deve sair às três. Estou na sala de embarque junto com colegas eventuais de voo. O auto-falante agora diz que o vôo vai atrasar um pouco. Pergunto o que significa um pouco. Não sabem. Já são cinco da tarde e nada de embarque. Pessoas abarrotam o balcão à procura de explicações que não são dadas. O ar fica pesado e começam reclamações. Outro aviso ao alto-falante: o voo sairá às sete. Já é uma esperança. Vou dar uma voltinha e como um brioche requentado, pois não há outra opção.
São 18:40h e nada do aviso de embarque. Alguém respeitável pede explicações e o Assistente de Aeroporto da Tam só tem desculpas polidas. Sete horas da noite e estou com os pés doídos de tanto pisar e repisar na sala de embarque. Afinal, às oito, sai uma certeza: o voo foi cancelado. Pedem para nos encaminharmos a outro piso a fim de definir o que faremos. Tomo o elevador e encontro uma nova e tamanha fila. Uma jovem supervisora diz que a “Tam estará disponibilizando hotel e ônibus”. Lá vem gerúndio e besteirol treinado. Canso de tudo, vou atrás da mala, tomo um táxi, dirijo-me a um hotel. Faço o check-in, peço um drinque, janto e tento dormir, longe de onde esperava chegar, desde que acordei, e já é meia noite. Telefono para a Marta Suplicy e ela saiu. Então, não há como relaxar e gozar. Ela me paga. Ligo o som: ouço Jobim, desligo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/10/2007.

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EU, CRIANÇA – Jornal O Estado

Neste 12 de outubro, Dia da Criança, também data da descoberta da América por Cristóvão Colombo, deixo uma colher mental dar uma mexida na panela onde foi cozinhada a minha infância e traga de lá memórias doces, como as cocadas feitas pela Ica que, de tão duras, passavam a quebra-queixo. E lembro que, por indicação da tia e professora Júlia Caminha, fui matriculado em uma escola americana, experimental, que me deu as primeiras luzes do mundo da escrita e da leitura. Depois, de armas e bagagens fui para o Farias Brito e lá cumpri todo o então chamado curso de humanidades. Gastava o tempo fazendo, por solicitação dos professores de Português Sildácio Matos e Fausto de Albuquerque, composições, dissertações e redações, tudo a partir de sugestões ou imagens mostradas em cartolinas. Sem falar nas aulas de Música e Canto Orfeônico com o prof. Pamplona que até metrônomo usava. Recordo das aulas de inglês do Ivan César, que torcia Fortaleza, e as de Ciências com o prof. Ailton Lóssio, pai do colega de sala, Júlio Jorge.
Morávamos na Rua Major Facundo, a missa era ao lado na Igreja do Carmo e para se ir ao cinema bastava andar quatro quadras e lá estavam os cines Diogo, Moderno, Majestic, Samburá e Art. E, um pouco mais tarde, o São Luiz. Estudava-se Francês no Franco-Brasileiro, a dois passos e Inglês no IBEU, logo ali na Rua Sólon Pinheiro, ao lado do Parque da Criança, onde se montavam quermesses, rodas-gigantes, tira-teimas e se comiam rolete de cana e pipoca nos barquinhos-pedalinhos do lago. Tudo era simples e perto, andava-se sem medo com os vizinhos, amigos e conhecidos. Para se ir ao Teatro José de Alencar, bastava dobrar na Duque de Caxias e pegar a General Sampaio, nada mais que dez minutos, ainda tendo a curiosidade de olhar a Oficina do Abdon, que consertava baterias de veículos e tinha um grande par de chifres na entrada. E por falar em Abdon, existia outra oficina, esta na rua Meton de Alencar, do Dr. Batérico que, apesar do nome, consertava velocímetros, tocava piano e era um grande mitômano, sendo inclusive chamado para contar suas estórias na Ceará Rádio Clube.
O Farias Brito, que era um só, ficava na esquina da Major Facundo com a avenida Duque de Caxias, a então “beira-mar” da cidade, pois lá aconteciam comícios políticos, desfiles militares de Sete de setembro, carnaval de rua com blocos, escolas de samba, maracatus e o “corso” dos automóveis e caminhões que vinham desde a avenida Dom Manuel.
Um dia, descobri que esse desfile do passado havia desaparecido e vi nas ruas de hoje, mulheres, homens e meninos arrastando seus medos entre nuvens de desalento, mas a criança que inda existe em mim, no entanto, lembra das pitangas nas cercas vivas da Praça do Carmo, dos canários e sabiás que meu pai alimentava no corredor aberto de nossa casa e encontra sentido na esperança.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2007.

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YOGA E VIDA – Jornal O Estado

Tenho boas lembranças dos anos em que pratiquei Yoga. Bom tempo, aquele. Como esquecer o jeito suave da mestra Josina Borges aos nos comandar com alegria, música e energia? Como não lembrar a expressão do rosto da profa. Neusa Veríssimo ao reunir a turma para festejos com apetitosos pães de queijo? Por outro lado, descobrir, fora das aulas, o jeito silencioso de Vedi e o quântico e fecundo Harbans Lal Arora foi uma dádiva. Hoje, mais do que ontem, Harbans se dedica a minimizar dores do corpo e da alma de doentes terminais. Isso é atitude de paz.
A Yoga, para quem não sabe, é praticada no Brasil como uma espécie de exercício físico(ásanas), técnica de respiração(pránáyama) e até meditação, tudo de forma lenta e moderada em que não se usa a força, ao contrário do que fazem os frequentadores das academias de ginástica. A Yoga leva à meditação, a um voltar-se para o espírito e dar um tempo na luta desenfreada pela vida. O certo é que se obtém, após se mexer com todos os músculos do corpo em exercícios lentos e repetidos, um relaxamento que, muitas vezes, leva à meditação. Essa pausa, sempre aos finais de cada aula, é aparentemente piegas, mas fortalece o nosso espírito conturbado pelas exigências do mundo inseguro em que vivemos.
Ainda faço parte da ACEPY – Associação Cearense de Estudos e Pesquisas de Yoga e, todos os anos, compareço ao Sati-Sanga, uma espécie de festa à época do Natal em que se levam oferendas e todos confraternizam, descalços e desarmados de prevenções. Hoje, quando a Yoga virou moda entre algumas pessoas famosas, há gente que “corre” para a solução de suas vidas na prática yogue e se decepciona com a cadência desacelerada em que corpo e mente são levados. Há, na verdade, práticas diversas de yoga, uma delas chamada até de “power yoga”, mas o que parece ser a essência dessa quase-filosofia existencial é a Hata Yoga, a clássica.
Para alegria nossa, no próximo mês de outubro, aqui em Fortaleza, entre os dias 11 e 14 deste outubro, será realizado o XIII Congresso Nacional de Yoga, uma rara oportunidade para quem desejar conhecer e sentir a teoria e essa prática indiana que atravessa cinco milênios e dá a seus praticantes mais saúde, bem estar e a possibilidade de integração do corpo e mente. Vindo de muitos países, estarão aqui, professores, mestres e até religiosos que, sem cismas, se misturarão aos congressistas na busca de um ideal de harmonia que anda em falta neste mundo.
(esta crônica é dedicada a todos os atuais e futuros praticantes de Yoga)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2007.