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SENADOR REVELA – Diário do Nordeste

“Pouca gente se torna senador por acaso; no mínimo isso requer certa megalomania, a crença de que, entre todas as pessoas talentosas de seu Estado, você, de alguma forma, está mais bem qualificado para representa-las; e é preciso crer que você está disposto a encarar o processo às vezes animador, às vezes angustiante, mas sempre levemente ridículo ao qual damos o nome de campanha. A maioria dos outros pecados dos políticos deriva desse pecado maior – a necessidade de vencer, que também é a necessidade de não perder. Certamente é disso que trata a busca pelo dinheiro de campanha. Houve uma época, antes das leis de financiamento de campanha e de jornalistas intrometidos, em que o dinheiro moldava a política pelos subornos; em que um político podia tratar o fundo de campanha como sua conta bancária particular e aceitar viagens nababescas custeadas com dinheiro público. Se é possível confiar na precisão das matérias jornalísticas recentes, essas formas grosseiras de corrupção não foram totalmente erradicadas”.
O dinheiro é incapaz de garantir a vitória – não pode comprar carisma, paixão, nem a capacidade contar uma história. Mas sem dinheiro, e as propagandas de televisão o consomem, a pessoa está basicamente fadada a perder. Há ainda outras forças que interferem no trabalho de senador. Por maior que seja a importância do dinheiro nas campanhas, não é somente a captação de fundos que coloca um candidato lá em cima. Seja como for, a abordagem dos grupos de interesse aos candidatos nem sempre é romântica. Para manter a participação ativa de seus membros e o fluxo de doações recebidas – e para serem ouvidos – os grupos que possuem algum impacto na política não estão interessados em promover o interesse público.”
As longas declarações aspeadas acima são de um senador. Pasmem, não é brasileiro. É de candidato a candidato atual à Presidente dos Estados Unidos da América. Falo de Barack Obama e tudo tirei do seu livro “A Audácia da Esperança”. Lá, como cá, há mais audácia que esperança.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/10/2007.

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ESTRESSADOS EM AÇÃO – Jornal O Estado

Todas as manhãs a Beira Mar recebe milhares de .A maioria na expectativa e melhorar a qualidade de vida, perder quilos ou centímetros na cintura. E outros, sabe Deus o que procuram. É um longo percurso que, para uns, se inicia na calçada do Edifício Lido, na praia de Iracema, e termina ao lado do mercado dos Peixes, no final da Beira Mar. A maioria vai do Ideal ao Iate, anda ou corre em grupos, seguindo critérios os mais diversos: idade, sexo, afinidades pessoais, esportes praticados e tempos computados, times que torcem e amizades aquecidas pelo sol da fraternidade entre profissionais dos mais diferentes matizes e tempos de vida.
Os mais estressados começam a andar cedo. Alguns trazem o sol em seus pisares e o vão soltando bem devagar, até que o dia presenteia a todos com a luz e a energia necessários a mover pernas já não tão jovens e cinturas a ultrapassar os 94 centímetros, a medida que a Organização Mundial de Saúde toma como limite inferior para chamar alguém de obeso.
Sabendo de tudo isso, faz alguns anos que um grupo se formou e cada um dos integrantes assumiu o estresse que leva dentro de si por diferentes razões. Esse “Grupo dos Stressados” nasceu da necessidade da convivência humana e, pouco a pouco, admitiu realizar sonhos.
Hoje, o grupo agrega centenas. Muitos usam todos os dias camisetas padronizadas de empresas que contribuem com um salário mínimo mensal. Esses valores são utilizados em ações de congraçamento, manutenção do espaço – que acaba de ser totalmente reformado com doações, muitas anônimas – e em práticas filantrópicas junto a entidades como a Santa Casa, Abrigo de Idosos do Olavo Bilac, Casa do Sol Nascente, Curumins do Mucuripe, Iprede e Lar Torres de Melo.
Dessa forma, os seus ciosos dirigentes Cláudia, Pedro Wilson, Jocenice e Genésio vão cumprindo tarefas sociais e cuidando com esmero de um espaço público que recebe, de forma diferenciada, a atenção do grupo – com personalidade jurídica definida- e estabeleceu, de forma aberta, parcerias com a Prefeitura de Fortaleza e o Corpo de Bombeiros.
Eles vivem celebrando, criando, projetando, reformando, embelezando e mantendo essa área agradável de convivência, sombreada e ajardinada que conta com a prestação diária de serviço gratuito de aferição da pressão arterial para qualquer pessoa, independente de pertencer ou não ao grupo. Esse grupo, de tão forte, experimentou dissidência e isso acontece desde que o mundo é mundo. Essa dissensão é saudável, pois emula e diverte os que não veem razão para tanto.
O fato é que a ‘Praça dos Stressados’, a base física do grupo, está bonita, com uma grande logomarca circular em pedra portuguesa, abraçada por pequenos bancos de madeira envernizada, canteiros com plantas viçosas e a atenção total da Cláudia Gondim -e sua turma – que dela cuida, atenção de mãe primípara. Enquanto isso, nós, os outros, pisamos em folhas e galhas de castanholeiras, tropeçamos em declives e aclives, desviamos de bicicletas e ambulantes, dividindo instantes de vida, suando e escrevendo sinfonias mambembes com os nossos pés.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/10/2007.

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LER POR PRAZER – DIÁRIO DO NORDESTE

É bom que você goste de ler. Não são muitas as pessoas que compram jornais e revistas. Entre os que compram, há os que se interessam apenas por colunas sociais, política, esportes, diversões, policia etc. Raro é o que lê de ponta-a-ponta. Livro então… Se você chegou até aqui, há indícios de que gosta de ler. O problema das pessoas que não gostam de ler é que possam ter sido mal orientadas na alfabetização e primeiros anos escolares. Rousseau já dizia que “a criança não deseja aperfeiçoar-se no instrumento com o qual é atormentada”. Isso vale tanto para Matemática como Português.
Daniel Pennac é um escritor marroquino, que vive na França. Ele diz da necessidade de interessar crianças e adolescentes na leitura. Se preciso, até desligando a TV. Não importa que tipos de livros sejam, o importante é ler. Ele sugere que pais e professores devem ler em voz alta, a fim de educar os ouvidos das crianças com livros de fácil assimilação e que os empolgue.
Está provado que a maioria das pessoas pouco retém do que lê. Sabendo disso, Pennac estabelece uma série de direitos do leitor. O primeiro é o de não ler. A leitura deve ser prazer e não tortura. O segundo é o de pular páginas. O terceiro é o de não parar a leitura de um livro chato. O quarto é que a leitura deve provocar alegria ou prazer. Para ele, os romances contam uma história que o leitor não tem obrigação de entender.
Talvez você não tenha feito as contas, mas se ler cinco horas por semana, em um ano poderá ter lido 7200 páginas ou o equivalente a 40 livros de 180 páginas. Algumas pessoas, ao serem perguntadas por seus “hobbies”, incluem a leitura. Na maioria das vezes, não sabem o nome do último livro que leram, e o nome do autor. Ler é hábito e não deve servir apenas para impressionar alguém. A leitura é uma viagem curta ou profunda que cada um deve se permitir, na medida da satisfação do seu mundo interior. Dimas Macêdo, diz: “cada livro, por sua vez, corresponde a um projeto de mundo, o qual se insere num universo mais abrangente e diversificado, que somente a poucos é dado o prazer de conhecer”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/09/2007.

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VÁ E VOLTE – JORNAL O ESTADO

Faz tempo, muito tempo que somos amigos. Ele, mais velho, quieto ou aquietado, era estudante responsável e socialista-universitário, essa categoria natural entre os que pensavam um pouco mais que a maioria. De repente, somos colegas de turma. Eu, agitado, fazendo duas faculdades ao mesmo tempo, também mexendo com política universitária e escrevendo em jornal. E não é que saímos da mera e circunstancial categoria de colega para a de amigo e parceiro de tantas lutas, trabalhos de natureza diversa e quase sempre ‘para ontem’.
E ele me convocou para ser seu padrinho de casamento e aceitei com alegria. Comprei o presente possível a um estudante e aguardei a data. Pois não é que fiz um concurso, ganhei uma bolsa de estudo irrecusável e tive que viajar dias antes das bodas. Nessa época não havia Internet, tampouco celular e a comunicação internacional era difícil, ruim e cara. Mas, no dia e hora, lembrei que meu amigo estava casando com a única mulher que creio ter amado. Marido responsável, bancário concursado, administrador capaz, lá se foi ele singrando os caminhos da vida até que dois filhos, sãos e bonitos, nasceram e o enterneceram, mais ainda, para todo o sempre. E eu, anos após, já formado e “em começo de vida” resolvi casar e ele foi o primeiro padrinho convidado. E assim foi feito.
Agora, esse meu amigo que, de forma paralela, contínua e amistosa, sempre co-participou de minhas lutas profissionais e teve participação decisiva como moderador de meus devaneios exagerados, resolve eleger prioridades pessoais e as cumpre com a discrição de monge e o prazer do menino peralta que nunca deve ter sido. E eis que ele atinge a idade, com tempo livre e saudável para convidar amigos e comemorar seu aniversário a bordo de um Catamarã, esse barco tão frágil nos mares revoltos, que os intimados ficaram cabreiros e desistiram. Tudo bem, ele disse, fiquem por aqui que me vou à Europa, rever o que já vi e caminhar passos novos em direção ao que ainda não conheço. E o fez sem vanglória, mas ao saber-se capaz de uma auto premiação por ter plantado em toda sua vida vínculos de responsabilidade, afeto e benquerença que só conhecem os amigos duradouros e leais. Vá amigo Josino e leve a Creuza, sua parceira de vida, divirta-se e traga para mim um presente de volta: a certeza de que você está por perto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2007.

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AMIGOS NA TARDE – Diário do Nordeste

Uma dúzia de mini-louras são o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres não poupados dos Cavianele. Chego. Abraço a todos e vejo que a mesa está posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno à benquerença e ao encontro de almas, eventualmente irmãs.
Lá abaixo o mar orvalha as pedras e o sol não está forte, como a se espreguiçar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na direção do seu trapiche, deixando o caís para os mais fortes, os de cascos de aço com limo coberto e que vagam pelo mundo.
Chistes, troças, leitura extemporânea de uma crônica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descendência, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decibéis etílicos dos amigos estão no ponto do Totonho perpetuá-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quipá imaginário, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que não se sabe existir, pois quando vem já é presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edifício onde mora uma filha querida. Descubro-me em dívida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a física não consegue explicar, em teorias ou fórmulas. Do lado direito, ouço o trinar de um pássaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais à mesa aguardam a conspurcação dos tintos. Chamo o elevador, esta máquina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para não aprofundar conversas, quiçá sentimentos. E o chão aparece. Ligo o carro e sinto-me só na estreita rua deserta. Utilizo a metáfora da paz na rua que tomo à direita e vejo enfileirados uma miríade de prédios, guardiões de segredos, dores, alegrias e amores. É meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2007.

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EDUARDO CAMPOS, HOMEM MÚLTIPLO

Estávamos nos anos sessenta. Eu era estudante universitário e escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos” no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados, substituindo, definitivamente, Pedro Henrique Saraiva Leão, que fora estudar no exterior. Tempos depois, tive a ideia de escrever sobre administração e negócios. Procurei o Superintendente Eduardo Campos e falei do projeto de uma coluna diária abordando esse assunto totalmente novo e vário. Do seu jeito direto, voz tonitruante e decidida, ouviu, discutiu e aprovou a ideia. Passei a ter salário fixo e a coluna foi em frente.
Esta foi a forma de dizer que a minha admiração por Eduardo Campos vem de longe. Mesmo não privando de contato diário com ele, sempre que nos víamos havia uma boa troca de energia, por sua aura sem sombras. Certa vez, visitamos juntos a sua fábrica de liofilização de banana, lá pelo Mondubim. E jogamos conversa fora sobre como é difícil ser dono de qualquer coisa no Ceará. Ele sabia.
Os tempos passaram e eu tentei fazer algo diferente em educação, na então Av. Estados Unidos. Adivinhem quem era o vizinho da esquerda? Eduardo Campos, dirigindo a Ceará Rádio Clube, em sua nova fase. Visitei-o e participei que estava ao lado para o que o desse e viesse. É claro que sempre falávamos nos acontecimentos culturais desta cidade de tantos escritores e poetas, mas de poucos leitores dos livros que compram- e não leem – nos saraus de seus lançamentos.
Ele era sempre efusivo, guapo, olhar penetrante e jeito de quem sabe dizer o que quer. Eduardo Campos não deixou que o menino de Pacatuba morresse dentre dele e esse menino, órfão de pai aos quatro anos, sabia que seu destino era maior que o distrito de Guaiúba, onde nascera. Fortaleza o adotou e abrigou desde os seus nove anos e ele foi crescendo de mãos dadas com a cidade e se tornou homem valoroso e múltiplo. Radialista, jornalista, intelectual, administrador do então mais forte condomínio de empresas jornalísticas do Brasil e industrial.
E esse mesmo Eduardo Campos foi o civil cearense de maior prestígio e trânsito durante os governos militares, mas isso nunca invalidou as suas relações de amizade e respeito com pessoas de esquerda. No seu velório, entre outros, estavam pranteando-o, Manuel Raposo, Barros Pinho e José Júlio Cavalcante, então referências socialistas.
Tive a felicidade de estar em sua festa de oitenta anos e vi o carinho e aprumo da família em homenageá-lo ao lado de tantos colaboradores, amigos e colegas das muitas instituições das quais fazia parte. Uma noite de amor, brilho e descontração.
Incansável, foi no curso de uma palestra no Dragão do Mar que um acidente vascular cerebral o levou ao hospital e, por consequência, à morte. Hoje, exato nesta sexta feira, 21 de setembro de 2007, Eduardo Campos inauguraria o Museu do Instituto do Ceará, entidade que renovara e presidia. O menino que chegou em 1923, acaba de partir. A vida é ida e volta. E todos sabem que era um homem sempre a frente da sua quadra, fundando e cumprindo roteiros profissionais e singrando sonhos pessoais.
Ao final, pedindo que não julguem intromissão, sugiro que os membros do Instituto do Ceará deem o seu nome ao Museu que ele construiu e deixou pronto, não consentindo que as quimeras dos que semearam em objetos e livros a história, a historiografia, a antropologia e a geografia do Ceará e do Brasil, se transformem em mosaicos engastados em prateleiras fechadas, mas riquezas expostas para conhecimento de muitos que, doravante, possam e devam visitar o Museu Eduardo Campos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2007.

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SETEMBRO – Diário do Nordeste

Passeio os olhos pelo calendário e vejo datas neste setembro. Desde 2001 o dia 11 passou a ser aziago, segundo alguns, como se infortúnios fossem culpados pelos desatinos dos homens, religiões e nações. O 11 é igual a todos os dias. Pouco antes dele, o da Independência, que já se foi e pode ainda não ter chegado. No dia 13, uma irmã querida, lutadora e vencedora, comemorou seu aniversário e a chegada da primeira neta. Maria Laura é filha de médicos e nasceu agora em Manaus, onde o pai foi cumprir missão e ficou, não colhendo borracha, como o faziam os antepassados que para lá iam fugindo de nossas calamidades. Foi com estetoscópio para auscultar corpos e almas. E a jovem mulher seguiu-lhe os passos e mergulhou na arte de curar. Os dois, neófitos na paternidade, sofrem como pacientes, o que prova o efêmero de tudo, e se alegram com a Maria, palavra que vem da língua hebraica e significa senhora soberana, com serenidade, força vital e vontade de viver. Maria também é Laura, derivada do Latim e diz de coroa de folhas de louro. Assim, Maria Laura, una, vem com energia e virtual coroa a encimar sua cabeça. Bem-vinda.
Depois, já quando Virgem se despede e resplandece o equilíbrio da Balança, comemoro o nascimento, no mesmo dia – por uma dessas coincidências da sorte – de duas filhas muito amadas. Tanto que não fazem ideia quanto. E como viver é também colecionar recordações, lembro de suas chegadas ao mundo, os primeiros dias na pré-escola, as muitas viagens em que traspassamos estradas desconhecidas e vislumbramos sonhos. E lembro bem de todas as beiras das tardes em que as via na minha volta para casa. Hoje, estão no desabrolhar da vida, com âncoras fundeadas no meu coração. E, ao vê-las, meus olhos sorriem de tal forma expressa que não entendo como todos não percebem.
Por fim, como nada é perfeito, virá o fim do mês e a lembrança de que o dia 30 foi e será sempre o dia de olhar nos espelhos do sentimento a imagem consolidada da amiga que partiu e está, pois fincou sensações de entranhamento que inundam o céu de esperanças, mesmo em meio à zelação que a vida impôs.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/09/2007.

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O TEMPO DOS CONSELHOS – Jornal O Estado

Não há como esconder. Cheguei ao tempo em que me chamam para conselheiro disso e daquilo. E eu que preciso tanto de conselhos e, pode acreditar, sei ouvi-los, embora faça muxoxos e banque o desinteressado. Banca, apenas isso. Confesso, de público, que a minha autoestima não sofre com o olhar alheio. Pelo contrário, cresce e absorve o que há de verdadeiro e bom nos que fazem das palavras não um açoite, mas um bálsamo.
Dizia que esse tempo de ser conselheiro é um tempo novo e nada nele se assemelha ao tempo da amealhação, da luta desmedida entre a dissonância comum entre nós e o resto do mundo e da descoberta que a vida tem outros sentidos e significados. Nesta estrada tomada na hora crepuscular, não faz mais morada muita coisa outrora julgada importante e não o era. A vida não vem em ondas, como diz a música, a vida é seca, cheia, minguante, dilúvio, deserto e floresta. É remanso sem ondas, mas são também ondas sem remanso. Mas ela não vem, sempre vai e se metamorfoseia naquilo que plantamos, atitudes e vozes ansiosas ou acalmadas. A escolha é sempre nossa, embora imaginemos que alguém possa puxar os cordéis e nos tornar marionetes. Pode não! E você sabe disso. Talvez incomode dar o chute na mesmice e destravar o infinito que mora em sua alma.
Mas comecei falando do tempo de ser conselheiro. Bobagem. Afinal, o aprendizado de ontem é História e o hoje se faz com a diferença e nunca com a mesmice. Há sempre um porto à espera, mas somos naus em busca de mares abertos da esperança e de piscosos cardumes de sentimentos. Vale não, dizer-se conselheiro é como cimentar a mudança e ficar postado, com a diferença que nenhum carteiro virá abrir a caixa de correspondência de suas emoções. Você, ó cara pálida, é que tem de descer desse muro feito com o medo e a indiferença e pisar no solo arenoso do perigoso e instigante ato de viver. Importa não que o Zé diga isso, a Maria reclame daquilo, a turma o triture. O que vale amigo/amiga é a sua pisada firme, mesmo que os ombros tremam.
Desculpe, estou bancando conselheiro e negando o que pretendi afirmar. Contradição, talvez. Mas não pensem que estou certo, a sua verdade está no bolso de sua alma, espírito, aura ou como quiser chamar e não precisa de cirurgia para suturá-la ou extraí-la, ela brota. Só não chamem a mim, pois de conselheiro tenho quase nada. Mas não espalhe, do contrário serei convidado a pedir o boné de tantos conselhos de que faço parte e se isso acontecer, ficarei de cabeça exposta e com ralíssimos cabelos desgrenhados.
(dedicada a Fernanda Quinderé e Ubiratan Aguiar, pelas vidas e crepúsculos editados)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2007.

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ADMINISTRADOR, HOJE – Diário do Nordeste

Ao findar o curso secundário, meu pai perguntou qual faculdade faria. Eu falei: Administração. Ele disse que não sabia o que era isso e que eu deveria fazer Medicina. Ligou para o amigo Ésio Pinheiro – que tinha um cursinho preparatório – e me matriculou. Só fui a uma semana de aulas e emburrei. Não voltei lá. Eu era teimoso e queria ser independente. Talvez, se meu pai não tivesse decidido tudo, teria concordado, pois gosto de Medicina.
Assim é que fiz Administração na turma pioneira do Ceará. Convivi, desde então, com várias designações da carreira. No princípio era Técnico em Administração, depois Bacharel em Administração. Em seguida, mudaram para Administrador, o nome atual. O que vale é o saber e não o nome que se dá ao curso. Hoje há uma consolidação dessa atividade, ciência ou profissão, mas o foco deve ser no aprendizado, no conhecimento e não no título.
É apropriado lembrar a história, pois em 1903, Henry Ford fundou nos USA uma fábrica de veículos e introduziu a linha de montagem e a quase automação. Surgiam os fundamentos do fordismo, criticados por C.Chaplin no filme “Tempos Modernos” e por A.Huxley no livro “Admirável Mundo Novo”. Ao mesmo tempo, Frederick Taylor concebia a ideia da racionalização do trabalho e dava embasamento teórico a essa “engenharia social”. Na França, Henri Fayol definia o seu lado conceitual.
Agora, nestes tempos informáticos e performáticos, há um número imenso de cursos de administração no Brasil. Sabe-se até que a carreira de Administrador já está quase empatando, em quantidade, com a de Advogado e isso será positivo se a qualidade dos cursos for boa, o que não é a regra. A par disso, explodiu no Brasil uma miríade de cursos de MBA e mestrados que, salvo exceções, não acrescentam muito ao aprendido na graduação e na prática: estudando, fazendo, pesquisando, experenciando e consertando. Hoje é o seu dia e esta é a era do Administrador, profissão do presente e de futuro, sem a qual a sociedade não mais saberia como sobreviver. Entretanto, é bom relembrar que só diploma não vale.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2007.

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A INDEPENDÊNCIA SOMOS NÓS – Jornal O Estado

Hoje é feriado. Dia da Independência do Brasil, este país que é nosso chão, nos dá abrigo e destino. E por ser Sete de Setembro é que me lembro da História e, se penso bem, D. Pedro I fez mais encenação que demonstrou atitude. Não me conformo com o fato de ele ter sido a pessoa que, anos após a Independência, se tornou como D. Pedro IV, mesmo que por alguns dias, Rei de Portugal. Ora, como um país escolhe alguém para Rei se, anos antes, lhe tirara a maior fonte de renda e poder? Tudo era um engodo de monarquia decadente.
Sim, o Brasil era mera fonte de renda para Portugal, nada mais que isso. A fuga da Corte Portuguesa de Lisboa, em 1808, com medo da França de Napoleão, trouxe algum desenvolvimento ao Rio de Janeiro, onde assentaram suas malas, tomaram dos donos as melhores casas, abriram pratarias e baús, criaram banco, imprensa e escola. Afinal precisavam de dinheiro, comunicar-se com os súditos e seus filhos e aderentes tinham que estudar. E assim o fizeram em meio ao lixo das ruas que cuidaram de mandar limpar. Passado o perigo napoleônico, seguiram o Atlântico e voltaram para a mesmice de todas as famílias reais, a comida desregrada, as fofocas e o não fazer nada, “pois trabalho é coisa de pobre”. Aqui ficaram os que deveriam mandar dinheiro para lá, para manter a pompa. Até que a República aconteceu.
Hoje, 185 anos depois, somos quase 190 milhões de pessoas, das quais 45 milhões ainda precisam do Bolsa Família para ter um mínimo e não morrer de fome. O restante, a tal população economicamente ativa de que falam os economistas, estuda, trabalha, cuida de suas famílias, paga quatro meses e meio de impostos por ano e acredita no Brasil, este país que elegeu e reelegeu, sem preconceito e com alegria, Lula para Presidente. Não, não estamos cansados, estamos fazendo o melhor que podemos, mas temos ainda o grave defeito de esperar milagres. Não há milagres, nós somos os milagres. Cada um de nós, a seu modo, é um herói anônimo e precisa melhorar a sua autoestima, deixar de esperar pelos outros e fazer a sua parte, sem esquecer de que honra e dignidade são flores que não murcham. Não concordo com Lima Barreto quando dizia que ‘o Brasil não tem povo, tem público’. Nós estamos deixando de ser público. Agora, quer queiramos ou não, vamos agir como povo. A independência somos nós.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2007.