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LÚCIO E OSCAR – Diário do Nordeste

Seis da tarde. O avião fazia aproximação e ela já aparecia no visual. Eu estava à direita, na janela, do lado do pôr-do-sol terracota, inebriante aos olhos. Parecia uma grande fogueira deste junho. Descemos, leve estremecimento, taxiamento e o bruto cerra as turbinas. Somos metidos em um fole e a noite suave nos acolhe nesta cidade de estórias, intrigas passadas e atuais.
Nunca vim à Brasília a negócios, não entro em ministérios, autarquias, entidades ou bancos e nem procuro políticos. Venho por um amigo, apenas isso. Quero participar de sua alegria e sucesso, sem estardalhaço, com minha presença, tal qual sou, sem salamaleques. E o carro em que ando desfila pelos desenhos postos em betume do urbanista Lúcio Costa, o maior que este país já teve e terá. Sua visão genial de futuro é tão grande que a cidade, quase 50 anos após, ainda parece em esplendor, bela, ampla e pousada imaginariamente como um imenso e inamovível avião que mete o nariz nas entranhas desse solo barrento e ali se queda para todo o sempre.
E dos dois lados de tudo o que Lúcio Costa esboçou, além dos parques e lagos, está o crayon do arquiteto Oscar Niemeyer, com suas linhas curvas e retas traçadas, fazendo poesia concreta, não a de poetas tecedores de palavras, mas a transmudada a partir do olhar de quem a vê sinuosa e eloquente em seu silêncio e voz de concreto. E os arranjos atuais de luminotécnica, de forma difusa, realçam tudo o que a visão capta na plasticidade vertiginosa, pois adelgaçada no pós-futuro.
E não posso esquecer os olhos marotos de Juscelino Kubitschek, embevecido da obra dele, do construtor Israel Pinheiro, Lúcio e Oscar, que custou os olhos da cara de uma nação pobre, mas lhe deu identidade urbana, liberando-a de sua feição jeca e andrajosa. O país estava pronto para o futuro em 1960, mas havia o povo e este, na ignorância de que era possuído, não sabia escolher dirigentes e o caos se deu logo em 1962, e daí para cá todos sabem a história e as estórias que correm. Cada um com a sua versão e quem quiser que conte outra, pois esta é a minha.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/06/2007.

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A ORELHA DO PEDRO – Jornal O Estado

O Pedro José Negreiros de Andrade e eu somos companheiros matutinos há anos. Andamos, procurando a forma física que nunca teremos, trocamos prosas e, aqui ou acolá, temos a tola pretensão de alterar o mundo. E o que fazemos de concreto: lemos e escrevemos. E o Pedro, médico-cardiologista, professor universitário devotado e escritor diletante, não se esconde no que escreve, mas o que ressalta em seus artigos é o seu aggionarmento, a contemporaneidade e a atitude diferenciada.
Ele não é só o médico e professor, mas um espécime raro, um ‘woodstockiano’ ou virtual espadachim do bem em pleno fim da primeira década do Século XXI, este que nos acena com longevidade, mas não nos diz como apascentar nossas almas inquietas. E a alma inquieta de Pedro José juntou seus escritos em ‘Ensaios politicamente incorretos” em que se espelha na Revolução Francesa para chegar às deformações da burocracia soviética.
Crítico atilado e inconformado com as leis de cotas para estudantes não brancos neste país mulato, Pedro afirma: “O chamado estatuto de igualdade racial, assim como as leis de cotas deveriam ser chamadas de estatutos da desigualdade racial”. E explica por que: “raças não existem em um país profundamente miscigenado como o nosso”. Mas, o médico e o professor também dão as caras, quando, entre outros escritos, elabora regras para evitar que se conduza mal um caso médico mostrando os caminhos do erro aos que falam de forma complexa e dão pouca atenção à queixa do paciente.
Fica em dúvida, mas absolve, por sua latinidade, a Fidel Castro e até dá sugestão para reformular a Copa do Mundo, tentando acabar com os empates nas prorrogações da finalíssima, recomendando a substituição de todos os jogadores, mas admitindo a decisão por penais.
Pedro é: tão destemido que me pede para escrever a orelha de um livro seu que a transcrevo em jornal com o objetivo de anunciar, antecipadamente, a todos os seus colegas médicos cardiologistas, amigos, alunos, colegas de docência da Faculdade de Medicina, que vem aí mais um livro de Pedro Negreiros um especialista genérico, um professor difuso, um cardiologista apaixonado por ideias intricadas que vão mexer com sua adrenalina por escrever o que lhe apraz, sem medo de variações sistólicas ou diastólicas de terceiros.
(esta crônica é dedicada a todos os médicos escritores)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/06/2007.

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CAETANA E ARIANO – Diário do Nordeste

Natércia Campos era amiga de Ariano Suassuana. Um dia, Ariano estava em Fortaleza para uma de suas palestras-show no Teatro José de Alencar. Era começo de noite, o público-alvo se constituía de estudantes e o Governo o convidara para falar sobre ética e responsabilidade, ou algo parecido. Mesmo assim, fomos. Ariano, para quem não sabe, não segue ninguém, suas palestras já têm uma dorsal definida. E ele falou: quando eu disser “isso assim”, estarei querendo falar em ética e responsabilidade e riu feito um menino ‘malino’. Estávamos na primeira fila e rimos também. Depois da palestra, Natércia foi ter com ele. O fato é que tempos depois, conseguimos uma fita com uma outra palestra do Ariano. Tudo parecia igual à palestra, a sua cadência, as piadas, o gestual e a jaqueta por sobre a camisa.
Agora, no dia de ontem, Ariano fez 80 anos, driblando a Caetana, como ele gosta de chamar a morte. E, por conta disso, lembrei mais ainda da Natércia que, justo no dia 02 deste junho, completou 03 anos de seu encontro inopinado com a dita Caetana.
Quem leu “A Casa”, romance de Natércia, e já leu Ariano sabe que ela bebeu na mesma fonte armorial, movimento regional dos anos 70 que enfatiza o valor da cultura popular nas artes, brasões e na literatura. Mas sabe também que Natércia foi singular e especial, nada tendo a ver a sua construção literária com a de Ariano ou Câmara Cascudo, outro monstro da nordestinidade cultural.
Voltando ao autor, dentre outros, de “O Auto da Compadecida” e do “Romance D’A pedra do Reino”, cuja apresentação, sob a forma de mini-série, foi encerrada ontem pela TV – Globo (com locação, atores e guarda-roupa nordestinos), ele ainda é um lépido e produtivo ser cultural que tem como meta definitiva enganar a Caetana, enquanto puder. Para ele: “Se nosso país estivesse pronto, eu até me aquietava. Mas não está”. Ainda bem que o Brasil não está pronto. Ariano permanece esgrimindo a sua caneta em manuscritos inéditos que pretende concluir em breve, mas a sua busca pela forma e pela vida o impedem bravamente de acabar. Ainda bem.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/06/2007.

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O LEVANTE DO ARCO-ÍRIS – Jornal O estado

Domingo passado, a Avenida Paulista estava lotada de homens e mulheres que, por genética, vontade ou comportamento, fugiram da ortodoxia da sexualidade. Foram três e meio milhões de pessoas corajosas, sem medo de enfrentar familiares, colegas e a sociedade, optando por quebrar regras, preconceitos, em meio à discriminação de quem se acha superior apenas por ser o que é, sem saber exatamente o que passa na cabeça e no corpo de quem tem no arco-íris a sua bandeira de resistência e paz.
Nestes tempos tão sofridos, em que o amor entre homem e mulher, dentro ou fora do casamento, passa por transformações tão profundas e ainda não sedimentadas e mexem com as formas tradicionais de família, é hora de olhar o outro, não pela sua preferência sexual, mas por seu comportamento e desempenho como ser humano e cidadão. Não se pode louvar alguém apenas por ser genuinamente homem ou mulher. Tampouco, se pode condenar outra pessoa por ela ter preferências que não as ditas naturais de seu sexo.
A literatura, as ciências e as religiões ainda não têm respostas para os que saíram do estabelecido na certidão de nascimento e cumprem vida diferente da esperada por suas famílias e, de forma explícita, encaram gente preconceituosa, recriminações de parentes e as chacotas de muitos. É preciso coragem para, de cara limpa ou mesmo por trás de batons, adereços e perucas, enfrentar fotógrafos, microfones e câmeras que sempre apostam no caricato ou burlesco.
Os tais críticos não procuram entender a razão dessas pessoas. O que eles, os críticos, realçam, e de forma perversa destacam, são as excentricidades, esquecendo que aquilo era uma parada e chocar é uma forma de chamar a atenção para si, de dizer que, se são milhões, esperam compreensão, outros olhares, outros comportamentos e atitudes de todos.
A Justiça já começa a mudar a sua visão sobre o problema e passa a ver na parceria ou união entre pessoas do mesmo sexo como um fato e não como uma anomalia ou uma abstração teológica. Nós outros, os que somos diferentes deles, porque heterodoxos, não temos o direito de torcer o nariz ou de gargalhar.
O que nos compete é ver na diversidade e alteridade explícita são os signos de um novo tempo, não o da era de Aquário, mas o da quebra literal dos vidros dos preconceitos, da farsa e do transbordar de águas limpas para banhar, limpar as dores, apascentar famílias e a todos os seres humanos, independente de suas preferências sexuais e idiossincrasias. Voltaire, já no século XVIII, dizia: “Um preconceito é uma opinião não submetida à razão”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/06/2007.

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SENTIMENTOS E DESEJOS – Diário do Nordeste

Certa vez, participei de um debate com a médica Carmita Abdo, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP e responsável por projeto sobre a sexualidade do brasileiro. Ela e a sua equipe fizeram 7.100 entrevistas e descobriram que a sexualidade masculina não vai bem, apesar dos remédios indutores para os que têm ou se imaginam com disfunção erétil. O fato é que nós, jovens ou maduros, precisamos reformular conceitos e relações pessoais e isso passa pelo nosso jeito de viver e parecer. O brasileiro sempre exagera seu desempenho sexual, mas há também gente escondendo suas calamidades pessoais. Primeiro, o homem precisa entender que a ereção resulta de uma conjunção de fatores, a partir do desejo e/ou do sentimento e, em seguida, se integra ao sistema nervoso central, nervos, vasos e testosterona. Pode parecer complicado, mas não é. Imagine procurar relatar como é dirigir um carro (abrir a porta, introduzir a chave, girar a ignição, olhar para frente, ligar a marcha e dar partida). É simples dirigir, é simples ter o desejo, mas tanto na direção do veículo, como na direção do seu espetáculo pessoal, há, por exemplo, influências do álcool, tabaco, obesidade e do estresse da vida. Isso muda.
Outro médico, Gilberto Ururahy, relata que 28 mil homens ativos, entre 30 e 70 anos, foram analisados e, dentre eles, 70% relataram índices altos de estresse, 50% não faziam exercícios, 50% ingeriam álcool, 25% fumavam, 23% eram hipertensos e 50% tinham contas com o colesterol. Resultado: 25% com perda significativa do desejo sexual. Por outro lado, a pressa no viver e a liberação sexual aparente, produzem estilhaços nas relações e carências que não provocam a explosão de sentimentos e desejos. Porque é fácil, não se deseja. Porque poupa sentimentos, leva receios para o encontro, fracassa no amor e desempenho. O que digo aqui é apenas um alerta e cabe a cada um analisar e discutir com a sua parceira que, igualmente, não pode fazer jogo de cena. Sem sentimentos verdadeiros, o desejo passa a ser banalizado “porque em terra que tem fada, tem bruxa também”, dizia I.Legrand.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2007.

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OUVIR DIZER – Jornal O Estado

Ricardo Guilherme, para os que não sabem, é, além de ator consagrado e diretor de teatro, um apaixonado por leitura. E dessa a paixão e maturidade profissional, surgiu um projeto seu, acolhido pelo Centro Cultural do BNB, em que textos, poesias e prosas de poetas e autores cearenses, são levados à cena, mensalmente, em datas previamente marcadas e divulgadas, sempre às 16.00 horas, ali no auditório da Rua Floriano Peixoto. O cenário é apenas um pano preto de fundo, cor essa que também é a vestimenta do Ricardo, realçando apenas os seus grandes óculos, a vasta cabeleira branca e a voz sonora, modulável e que vai tomando o compasso e a harmonia de suas emoções.
Não há música, tampouco apresentação prévia. Apenas um banco, uma estante e um microfone, certamente iluminados por spots direcionados, em meio à negritude do fundo. E aí Ricardo aparece e começa a falar da pessoa e da obra do escolhido. Digamos, por exemplo, que esteja falando do poeta Francisco Carvalho (que, por sinal, reservado que é, não compareceu no dia em que sua obra foi apresentada, mas sua família estava lá): conta a sua relação pessoal com o grande poeta de forma leve, mas segura e, sem que os ouvintes percebam, mostra as várias faces do autor, quer como amigo, incentivador de iniciantes, funcionário público, professor etc.
Desse jeito sutil e precioso, dá-se uma natural iniciação do público, constituído, em sua maioria, por jovens de escolas públicas, e de escolas privadas, pois o projeto é aberto, democrático, gratuito e, certamente, a direção do Centro Cultural do BNB fará um bem maior se lhe der continuidade. Igualmente, as direções de colégios e universidades fariam um benefício imenso aos estudantes se os levassem para ouvir essas leituras dramáticas que têm consistência, tom intimista e até, algumas vezes, uma pitada de humor. Além disso, Ricardo escolhe autores (por exemplo: o já citado Francisco Carvalho, Moreira Campos, Airton Monte, Patatitva, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia etc.) e estuda, com atenção, alguns textos especiais de cada um para ler, repetir e enfatizar, como a montar, na cabeça do ouvinte, um jardim de estética.
Dura apenas uma hora, o que é lamentável, pois vai sendo criada, pouco a pouco, de forma didática, sem deixar de ser teatral, uma empatia entre o apresentador Ricardo Guilherme e o público. E o monólogo, de forma incrível, passa a ser diálogo com o sentimento e a atenção do ouvinte que, mesmo que não conheça nada de literatura, sai do auditório com muita coisa para pensar, ainda que não recorde exatamente tudo o que foi dito com maestria e simplicidade cênica. É um processo – e um projeto – de transformação de pessoas que precisaria do apoio maior do BNB para continuar e também ser mambembe, viajante, volante, aliar a clausura do auditório às quadras de escolas e comunidades, como a dizer que o mundo não é apenas violência das ruas, desatino de políticos, vazio de certos de shows, programas de televisão e de algumas emissoras de rádio que primam pelo chulo e o mau gosto. Há salvação, acredite, esse projeto, não pode ser interrompido, ele é um caminho e caminho se faz, passo a passo.
(para todos os que acreditam na esperança, na escrita e na arte)
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2007

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EUROPA, 2007 – Jornal O Estado

Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irmã alemã. Quis o destino que Luiza Helena, socióloga, conhecesse Wini, médico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer residência médica, casou e levou minha irmã e nos deu duas sobrinhas, Júlia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andanças pela Europa que começaram em 1965, ainda frangote. São 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por lá. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco(1975) e a queda do muro de Berlim(1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por lá por esses tempos tão conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da “Revolução dos Cravos”, da euforia dos espanhóis pós-Franco e de quão atônito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as mãos, gritavam e cantavam.
Agora, neste ano de 2007, exatos no mês passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que é hoje a União Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princípios fundamentais a democracia representativa, coíbe a pena de morte, não aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por gênero, etnia, religião ou orientação. Todos os seus 494 milhões de habitantes são livres para circular e trabalhar, como cidadãos supranacionais, nos 27 países da comunidade, hoje tão rica quanto os Estados Unidos.
Essa ideia engenhosa e trabalhosa, que não tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, está longe de ser referência em igualdade de direitos e oportunidades para os cidadãos desses três países norte-americanos. Aqui na nossa América, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que têm a língua de Cervantes como meio de expressão e o arquétipo de Simon Bolívar, como herói continental.
Como seria bom que tivéssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual à França. Como exultaríamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substituído pelo quase igualitário modelo de Estado de bem-estar social, em que todos são, além de outros benefícios, atendidos e providos assistência e de remédios, sem distinção. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no século XX. Essa luta iluminista culminou com a criação, em nível transnacional de órgãos tão diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comissão que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justiça que arbitra litígios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para nós é uma forma de pensar em sair desse círculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes índices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na política e incentivam desvios de conduta.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2007.

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NOVO LIVRO? – Diário do Nordeste

Sei que tenho uns poucos leitores assíduos de meus escritos semanais. Sei que tenho amigos puristas que os chamam de artigos, sei que tem gente escondida que lê, gosta, mas não diz que gostou. Sei também que há gente que não gosta e finge adorar. É assim mesmo, não dá para ser agradável ou desagradável o tempo todo. É-se. E em sendo eu mesmo, escrevo sobre tantas coisas, não porque falte assunto. O que me falta é mais espaço para dizer. Tenho à disposição semanal 2.100 caracteres, cerca de 400 palavras, o jeito que penso e escrevo para tentar levar os olhos do leitor da primeira até à palavra final. É claro que há temas que não interessam ao Zé ou à Maria naquele instante da leitura, mas escrevo sobre coisas tão diferentes que acabo achando ledores que se identifiquem.
Falo da minha terra, meu país, viagens, família, solidão e encontro, ‘puxavante’ de orelha em amigos, refiro-me a livros que li e gostei ou não, meu Clube do Bode, filmes que vejo na telona, a violência que nos oprime, do contentamento ao olhar um neto que surge. Reclamo de gente desonesta com pinta de séria, líderes de nada, declaro torcer pelo Fortaleza e ver árbitros garfando-o, amores e dores, fatos passados, acolho o inesperado. Falo de gente, não de enfatuados, fingidores e presumidos, mas gente, não puxo saco, cobro atitudes, mas sei do efêmero do escrito em jornal.
Por estas e por outras é que amigos têm me pedido para reunir crônicas e montar mais um livro, tematizado e contextualizado. Qualquer dia me rendo, separando as quase seiscentas crônicas que consegui salvar entre tantas perdidas e editá-las. A quem entregar a tarefa? Gosto do Geraldo Jesuíno e do Luiz Falcão, mas como uni-los? Quem sabe peça ao Natalício Barroso, talvez ao Josino Lobo, quem sabe à Sílvia Magalhães ou à Rejane Costa Barros para fazerem uma leitura prévia e aproveitar as crônicas passáveis e possíveis. Eu, particularmente, não ouso, pois elas são filhas nascidas do meu jeito de ser e a autoestima – palavra moderna para o narcisismo – impede que se rejeitem filhas queridas.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2007.

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MEUS … – Jornal O Estado

Todos os dias, com horários, andares e propósitos diferentes, pessoas mis acordam, espreguiçam-se, vestem roupas e tênis e se dispõem, com o nascer da aurora, a fazer “cooper” em locais os mais diversos em todo o planeta. Essa palavra, originada das teorias de Kenneth Cooper, o fisiologista americano, demonstra o óbvio: andar faz bem e andar em ritmo um pouco mais acelerado que o normal faz mais bem ainda. Mas Cooper dizia que era preciso alongamento, condicionamento físico, saber os limites do seu corpo, vitaminas, exames e controles. Um dos marcadores mais simples e eficazes é a pressão arterial, essa que nos informa, por referências consagradas, se tudo está bem ou não.
No local por onde ando pela manhã há gente de todas as idades. Cada um caminha ou corre do seu jeito. Uns vão em grupos, tagarelas ou meramente identificados com amigos com quem confraternizam e bebem a energia astral do Hélio que resplandece sobre seus corpos suados, protegidos ou não por bonés ou bloqueadores solares. E aí param e, quase sempre, no local dito ‘stressado’, reúnem-se, tomam sucos ou água, espiam notícias em jornal graciosamente ali exposto e, mais aquietados, se aproximam de um guarda-chuva protetor. Abaixo desse guarda-chuva estão montadas uma mesa e duas cadeiras de plástico. De um lado, está o sargento do Corpo de Bombeiros Pedro Eduardo, tão gentil quanto pode ser uma pessoa educada e que, sempre com uma palavra amena, recebe a todos para que afiram sua pressão arterial. Mas Eduardo não diz apenas: 12 por 08. Ele prefere dizer, “como você é uma pessoa assim ou assado, eu lhe dou 12 por 08”. E, mesmo para os que têm pressão alterada, Eduardo usa uma forma sutil de lhes chamar a atenção e dizer que devem se cuidar. Pois bem, agora Eduardo nos surpreendeu a todos, editando, por conta própria e da forma que soube e quis, um pequeno livro intitulado “Meus”, em que diz na sua abertura: “orgulhosamente coloco à disposição de todos os meus amigos esta minha primeira coletânea de enigmas, contos e versos, para que possam se divertir pela inteira satisfação de pensar”. E Eduardo, em suas 89 páginas, vai mostrando, de forma simples e singular, as suas ideias de mundo. Primeiro, ele cria “enigmas”. E, mais à frente, a partir da página 63, começa a desvendá-los. E é nesse desvendamento que Eduardo mostra sua preocupação com o semelhante, pois, de forma sutil, aborda temas vários como o cigarro, sangue, ar, paciência, sabedoria, saúde, sonho, ciúme, fé, emoção e muitos mais. A singela forma como escreve revela a sua formação e o principal, a vontade de servir, de iluminar pessoas quando ao final, diz: “o amor ainda é possível. Sonhar não virou utopia. A paz só depende de nós”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2007.

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VOLTA NO PASSADO – Diário do Nordeste

Um domingo desses fui dar uma volta de carro e me encontrei no passado, repassando os locais em que vivi quando menino. Aprendi a não jogar bola na Rua Major Facundo, ali perto da antiga Associação Cultural Franco-Brasileira, chegando na Praça do Carmo. Eram poucos passos para as aulas no Colégio Farias Brito, na Duque de Caxias, alguns mais para o Instituto Brasil Estados Unidos na Rua Solon Pinheiro. Lá, no mesmo quarteirão, olhando para a Cidade da Criança, existiam a Biblioteca Pública e o Conservatório Henrique Jorge, importantes para a minha formação complementar. No Ibeu, aprendi o pouco de inglês que me salva por aí, na Biblioteca foi onde ficava a ler jornais, pedir livros emprestados e, no seu subsolo, encadernar os meus diários que foram deslembrando o tempo real. Na escola de música, eu, ouças cegas, ficava prestando atenção aos músicos e tentava ir aprimorando-as, o que não consegui.
Depois moramos rapidamente na Visconde do Rio Branco, mas assentamos de verdade no Bairro de Fátima então começando a ser habitado, a partir da Igreja que abre as portas centrais para a Mons. Otávio de Castro, a rua da minha juventude. A casa que meu pai fizera era “funcional”, algo moderno, tal como no filme “Meu Tio” do Jacques Tati. Nela a varanda era coberta de concreto, a garagem fechava tipo alçapão, acionada por caixa de cimento que levantava e baixava o portão por um cabo de aço. Foi lá que reuni jovens e formei o Girafa, o pomposo Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Ocupamos um terreno e formamos times de vôlei. Havia festas mis, permutávamos livros e fazíamos a queima do Judas, não sem antes realizar debate sobre sua culpa ou sina. Era tempo em que jovens das famílias Rosa, Furtado, Carneiro Girão, Machado, Pinheiro, Holanda, além da nossa, não pensavam em drogas, sem ser caretas, mas namoravam em meio a santos amassos. Já trabalhando, resolvi fazer um quarto só para mim no quintal de casa e comprar telefone e um ar-condicionado usado. Parecia a chave da liberdade, mais importante que o pão, já dizia Nelson Rodrigues.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2007.