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PARA UM ANO NOVO – Jornal O Estado

Não é só a edição desta semana da revista Veja que escreve sobre a morte anunciada de parte da África. Há dezenas de anos, desde o século passado, que sabemos disso e pouco fazemos. Uma vez, faz tempo, vi um filme em que gente africana, tangida pela fome, tentava atravessar o Estreito de Gibraltar. Causava um transtorno grande na Europa. Agora, correu pela internet um raro e-mail sério em que se fala expressamente que toda a fome do mundo seria resolvida com 40 bilhões de dólares. Milhões de pessoas poderiam entrar na história da civilização como as que sobreviveram da fome e das guerras tribais, graças a uma ação conjunta da humanidade. Digamos que, cessadas essas guerras e a fome dessas pessoas, se investisse mais 40 bilhões de dólares com habitações, infraestrutura, geração de empregos, alimentação e educação. Total: 80 bilhões de dólares. Pois bem, sabem quanto os Estados Unidos e a União Europeia já gastaram para tentar resolver o problema da atual crise financeira do mundo? Dois trilhões de dólares. Não escrevo em numeral, pois são tantos os zeros. E esses dois trilhões não asseguram nada, pois são injetados não diretamente na economia, mas para socorrer empresas e agentes financeiros que quebraram ou estavam a quebrar por conta de suas ganâncias ou incompetências. Havia executivo de empresas multinacionais que recebia, por ano, mais que a arrecadação fiscal de uma cidade média de um país em desenvolvimento. Pela minha própria história de vida não poderia ser contra pessoas que crescem profissionalmente e têm recursos e recato, até de sobra, para seus herdeiros. Daí a compactuar com a ação de bancos centrais e governos que se aliam para socorrer os que não souberam gerir seus negócios e créditos ou limitar suas ambições, a estória é outra. Esta crise anunciada poderá até ser benéfica se, no bojo dela, existir um tempo para a análise coletiva e profunda de suas causas com soluções globais. Não a análise de economistas que não viram o “tsunami” se formando e apenas explicam o óbvio, depois do fato acontecido. A análise deve ser feita por sociólogos, antropólogos e gestores públicos e privados que não tenham ainda sido mordidos pelas certezas de convicções e tampouco sejam frequentadores de convescotes em Davos ou similares. Nós, os do planeta Terra, temos de admitir que talvez não estejamos aproveitando os últimos avanços tecnológicos para o bem da humanidade, mas como instrumentos de intimidação, espionagem e até de devastação dos recursos verdes. Essa conversa poderia ser em outro tempo e não no limiar de um Novo Ano. Acontece que os que têm algum espaço, não podem perdê-los com o desfrute do próprio umbigo. O ano será novo se mudarmos, mesmo que um pouco, os nossos pensares individuais e coletivos. Caso contrário, é bom lembrar que um 8 é quase igual a um 9, bastar apertar um pouquinho do lado de dentro. Viva 2009.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2008

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NATAL SEGURO – Diário do Nordeste

Não se preocupe. Não vou falar de preservativos. Tampouco aconselhar que coma, beba ou deixe de fazê-lo. Neste Natal a preocupação é com a violência em geral e contra os que andam de carros, sejam pequenos, financiados ou carrões. Não vou escrever nada novo. Apenas uma visão pessoal do que li como dicas. Morando em casa ou apartamento, verifique o ambiente ao sair. Não ande -nunca- de vidros abertos, mesmo fumando, não tenha ar e more em lugares muito quentes. Tranque as portas. Não fique ligado ao som, seja notícia ou música. Ponha os retrovisores e os olhos para funcionar. Fique alerta. Infelizmente, não se pode dar carona. Tampouco, sem piedade, socorrer acidentados no meio da via. Se baterem no seu carro e o prejuízo for pequeno, não pare, mesmo que anotem a placa. Se olhar sempre para os retrovisores verificará se um mesmo carro o segue. Dobre, sem sinalizar. Aumente a velocidade. Cuidado com flanelinhas e motos, não dê chances. Se for o caso, pare enviesado. Se o pneu furar, vá até a um posto de combustível ou pare junto a uma delegacia, quartel ou supermercado. Pneus e aros há aos montes. Sua vida é única. Não cole adesivo ou marcas nos vidros e na lataria do carro com símbolos de profissões, entidades, ou com o seu nome e o da pessoa querida. Se puder, não dirija à noite. Os serviços de tele táxis são confiáveis e até livram você das multas. Se, mesmo assim, tiver o azar de ser assaltado, fique calado, conte carneirinhos, e só fale o que lhe for perguntado. Não discuta, não barganhe, não grite ou chore. Não levante os olhos. Mire o painel e veja quantos km o seu carro tem. Não dê uma de valente, mesmo que o assaltante seja franzino e a arma não esteja visível. Lembre-se que tudo aquilo vai passar. Depois do susto, vá a uma delegacia, preferencialmente com um advogado amigo, e registre a ocorrência. Desculpe os lembretes. As cidades nos forçam a egoísmos para sobrevivermos da violência e do trânsito caótico. Procure gostar de ficar em casa, familiarize-se. Livros são bons companheiros, melhores que noticiários de televisão falando de assaltos e mortes. Cuide-se. Feliz Natal, mas duvide de Papai Noel.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2008.

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O VESTIBULAR, O CURSO E O TEMPO – Jornal O Estado

Quando fizemos vestibular para direito, o Latim era obrigatório. Exigia-se ainda uma língua estrangeira e bom conhecimento de Português. Havia provas escritas e orais. Não era fácil passar. Só existia uma faculdade, a da Universidade Federal do Ceará. Afinal, passamos. Éramos uma mistura de quase adolescentes com pessoas maduras. Uns, saídos direto do curso secundário. Outros, já casados e trabalhando, reescrevendo suas histórias ou procurando novos caminhos. Todos, uns e outros, subíamos os degraus dos sonhos que nos levavam ao prédio novo da velha Faculdade de Direito. Uns para o curso diurno, outros para as aulas noturnas. Em todos, esperança e vontade de aprender. Cada um vinha de diferentes caminhos na busca de uma identidade pessoal, de ser alguém. E a sala climatizada parecia nos acolher com certa frieza. Ou seria o “frisson” de estarmos construindo a tarefa de ser gente? O fato é que fomos os últimos daquela faculdade a usar paletós. Foi só um semestre. A crise na cadeira de Introdução à Ciência do Direito, com o Prof. Heribaldo Costa, fez estragos e todos dela saíram com mangas arregaçadas. E assim o fizemos por cinco anos. Além do estudo das matérias, houve política, muita. Jânio renunciou. Jango assumiu e Tancredo foi um breve Primeiro Ministro, até que em plebiscito o povo optou pelo presidencialismo. O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, inclusive, havia adotado o Parlamentarismo. Depois, Jango caiu. O sonho quase vira pesadelo. E aí a história mudou, mas não de tal forma que impedisse a conclusão de nosso curso, mesclado com greves, denúncias e manifestações. Afinal, a euforia do prof. Antônio Martins Filho, no esplendor de seu reitorado, nos contagiou e acolheu na Concha Acústica da Reitoria do Benfica e de lá saímos de beca para a vida real, esta que nos colocou na lida desde 16 de dezembro de 1965. Todos nós, os que viraram operadores do Direito e os que não, estamos, certamente, dando uma mirada no retrovisor existencial e, incontinentes, continuamos na estrada, certos de que construímos, individual e coletivamente, significados e razões para as nossas vidas.
(este artigo é em homenagem aos colegas de 65, na pessoa de Stênio Carvalho Lima, organizador de nossas reuniões anuais)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2008.

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PROPAGANDA – Diário do Nordeste

Agora que o mundo está em crise, descobre-se que o Brasil responde por 4,7% do mercado de propaganda do mundo. É o sexto país em gastos de propaganda/publicidade: US$ 26,6 bilhões de dólares por ano. Esses dados são da pesquisa World Advertising Trend 2008. O que isso quer dizer? Que a soma do dinheiro consumido anualmente em propaganda no mundo corresponde a US$ 563 bilhões. Desse total, 34,0% são com mídia impressa; 46,0% com a Tv; 7% com a Internet; e 13% com rádio, cinema e outdoors. Esses números mostram o quanto é agregado de custo a um produto ou serviço para ele ter uma boa aceitação no mercado. Você, certamente, perguntaria: o que tenho a ver com isso? Muito, pois a propaganda não poupa ninguém. Um torcedor de futebol, que vai ao estádio ver o seu time jogar, estará também, por 90 minutos, sujeito às propagandas das empresas que o estão patrocinando, na camisa, calção e até nos meiões dos atletas. Ao ver a novela da Tv ou filme, somos sugestionados por marcas de veículos, roupas, utensílios e até locais. Isso é ‘merchandising’, propaganda disfarçada. Talvez seja esta a razão, por exemplo, pela qual você pode achar que a Petrobrás queima dinheiro patrocinando, entre outros, ‘roadshows’ pelo Brasil afora; um carro estrangeiro de Fórmula Um; espetáculos de arte, teatro e cinema; clubes e centenas de atletas de todos os esportes e categorias. Ora, se a Petrobrás é a única fornecedora de petróleo, qual a razão de tanta propaganda? Não seria melhor, você argumentaria, ter combustíveis mais baratos? A resposta fica com você, mas leia até o final. Lembre-se que até a Igreja Católica, quando se viu ameaçada por Lutero e pela Igreja Anglicana, resolveu, em 1622, por ordem do Papa Gregório XV, criar a sua ‘Congregatio de Propaganda Fide’. Em 1627, criou um Colégio de Propaganda para difundir a fé católica pelo mundo. Não sei se São Tomé, o que só acreditava no que via, é benquisto pelos que fazem propaganda, mas basta, entre outros fatos, somar o número emissoras de rádio e TV públicas, católicas e evangélicas para entender o jargão: “a propaganda é a alma do negócio”. E aí?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/12/2008.

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TCU – TALENTO CEDRENSE, UBIRATAN – Jornal O Estado

Brasília- Chego ao TCU faltando cinco minutos para as dez. Subo em elevador apinhado. Assento-me. Vejo o auditório lotado. Cearenses são a maioria. Muitas são as autoridades. As que conhecemos e as que vemos pela televisão. A Ministra Dilma Rousseff dá sorrisos comedidos e cumprimenta os próximos. O cerimonialista afirma que o Presidente Lula está na ante-sala e que a sessão deverá ser iniciada em minutos. O Ministro César Rocha, Presidente do STJ, precede a comitiva. Chega o Presidente Lula e é formada a mesa que inclui o Governador do Ceará, Cid Gomes, na sua extremidade esquerda. No outro extremo da mesa está o Procurador Geral do TCU, Lucas Furtado, também cearense. Ecoa a fala significativa e letrada do Ministro Marcos Vilaça que fala “sem os espartilhos da conveniência”, mas consegue florir com metáforas o ambiente vetusto e o próprio sentido institucional do TCU, citando Ruy Barbosa. Começa saudando o Presidente Lula como ‘brasileiro de Pernambuco’ e, com a alegria de um pássaro canoro, adentra os mares e os sertões cearenses para resgatar a história pessoal do talentoso cedrense, Ubiratan. Villaça destaca, com graça e modos, os muitos que fizeram e fazem a história política, cultural e social da terra de Alencar. É fala digna de um acadêmico brasileiro. Ele dá ênfase à necessidade de conjugar o combate à corrupção com a eliminação do desperdício e termina na companhia de Patativa do Assaré: “Canto o que minha alma sente, e o meu coração encerra, as coisas de minha terra e a vida de muita gente”. O Procurador Geral Lucas Furtado fala em nome dos que resguardam a atividade-fim do TCU, ao mesmo tempo em que o conteúdo de sua fala diz do seu saber, lucidez técnica e amor à terra comum. É a vez de o novo Presidente Ubiratan Aguiar contar e cantar sua alegria, trajetória e responsabilidade. O cuidado em citar, amigos, colegas, instituições, familiares e autoridades. Dá uma palavra especial de alento ao Vice-Presidente José Alencar e, sem perder o rumo de sua prosa-poética, vai dizendo, entre leve e austero, de seus sonhos e metas que serão traduzidas em ações conjuntas com outros órgãos contra as ventanias dos ímpios e os desmandos públicos, Dá, ao final, o destaque à mulher, filhos e netos, realça a figura de sua mãe como conselheira dos 10 filhos e evocando a lembrança do seu pai, a quem dedica o dia de sua posse. Pois foi assim, sem mais, nem menos, que vi, do meu jeito, tudo o que se passava e para não ter que ficar esperando para abraçar o novo presidente do TCU, em uma fila digna de show de Madonna, foi que corri para este cativo computador e registrei o que vi, antes que a minha pouco diáfana memória se esvaia. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/12/2008.

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FUTEBOL CEARENSE – Diário do Nordeste

Afinal, o Ceará e o Fortaleza continuam na Segundona. Apenas isso. Fizeram um campeonato medíocre e não respeitaram os torcedores que têm e valem ouro. Há uma baixa organização gerencial. Fruto da emoção de dirigir um clube com a não aplicação efetiva de gestão empresarial. É claro que sei das boas intenções, paixões, mas nada disso justifica os descalabros que foram as nossas participações na série B do Campeonato Brasileiro. O Fortaleza só não foi rebaixado na última rodada e o Ceará não ganhou uma só partida fora do Castelão. Tirem o Corinthians e vejam os outros três classificados. Comparem as torcidas. Nós somos mais. Olhem os exemplos do Real Madrid, Chelsea e do Milan que têm torcidas cobradoras e são empresas com lucro. Ora dirão, lá é Europa. A diferença está na cabeça das pessoas. Pensar diferente faz sentido. Aqui no Brasil/Futebol e, especialmente, no Ceará não há planejamento, não se faz orçamento (e há base nas receitas dos anos anteriores), tudo é decidido na hora da crise sob emoção e pressão. Os técnicos contratados – e suas comissões auxiliares – são, dizem, apenas entregadores de camisa e, quando muito, motivadores. Não têm expressão no cenário do futebol e se preocupam apenas com seus contratos voláteis e a indicação de atletas. Não há sequência nos trabalhos anuais e os jovens valores sempre são perdidos. Ou porque não são descobertos a tempo ou por serem vendidos por nada para cobrirem rombos. Por outro lado, faz algum tempo que os dois clubes têm patrocinadores e deles recebem valores consideráveis. Recebem das loterias, sócios, percentuais dos jogos, venda de passes e transmissões pela TV. Sim, e daí, dirão vocês: qual a solução? A resposta poderia ser a humildade de admitir que o modelo usado seja caro, possa estar errado ou superado. Deveríamos aproveitar o novo campeonato cearense para formar quadros mesclados com jogadores jovens, sem vícios e que não ficassem meses com contusões discutíveis. É hora de repensar tudo, inclusive a gestão da Federação de Futebol que parece ter se exaurido no tempo. Não pesamos na CBF e o Estádio PV continua fechado.

João Soares Neto,
torcedor de futebol
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2008.

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A ERA DO NENO – Jornal O Estado

Tem gente que pensa agradar quando escreve empolado, usa metáforas pessoais e faz do seu mundo o mundo alheio. Tem gente que é previsível,
risível e pouco aprazível de ler. Neno é o contrário de tudo isso. Escreve como fala, diz o que pensa na hora e não pondera entre o fato jornalístico e a conveniência. Sua irreverência é desmedida e caminha, lado a lado, com o seu quixotismo onde muitos são os sanchos, suburbanos ou não, que lhes indicam motes para destruir os moinhos de vento da impunidade, do descalabro administrativo, da falsa virtude de arautos do nada, da jactância de políticos que usam os repórteres de aeroporto como porta-vozes de suas não-falas em plenário federal. Neno é aquele que fala pelos cidadãos do Alto do Bode, é o eco da torcida indignada do Ceará, o espadachim que mexe suas mãos sobre o computador e registra, com sarcasmo e humor, as desditas de uma cidade sitiada pela marginalidade e pelo descaso de políticos encamisados com as gomas das benesses recebidas. Neno é indignado por todos os que não têm voz e precisam de um alento para circular, após o trabalho, entre os terminais de ônibus e tomar o último trago antes de chegar, exaurido, em casa. José Mairton Quezado Cavalcante, dito Neno Cavalcante, completou 30 anos de jornalismo crítico e comemorou a data cercado de amigos e admiradores de todos os naipes e o fez de forma singular e airosa, mostrando-se em livro que recebeu, ao vivo, vivas louvações decassílabas de Carlos Augusto Viana, seu stand by, e escritos carinhosos de Airton Monte, Ronaldo Salgado e Henrique Silvestre. Como se tudo isso não bastasse, na mesma noite, tira de sua cartola, o mágico violão de Manasses e banda e, após horas, a noite se queda na espontânea erupção de Raimundo Wagner em forma amisto-xistosa em violão cedido por Peninha. Finda a noite, voltemos ao livro. Ele deveria ter o título “A Era do Neno”, por configurar um tempo de vida fecunda, mas ficou apenas Era… Nas suas quase duzentas páginas, Neno desnuda-se e se declara amante apaixonado da mulher, pai vidrado nas filhas, amigo de seus amigos e defensor perpétuo de Fortaleza. Vale a pena ler as estórias breves que compõem a quase-história da cidade nestes 30 anos e formam a estrutura social do seu discurso jornalístico coerente, sutil, apaixonado e engajado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2008.

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ELA MUDOU – Diário do Nordeste

Resisti o quanto pude. Ela veio e foi ficando. Não entendia a capacidade que ela tinha de ser múltipla. Zangava-me por saber que ela era o futuro e que deveria me ajustar ao seu charme, aos seus modos sutis, sua linguagem cifrada, sua velocidade, cada dia maior. Tinha que aprender a lidar com ela, o que não era fácil. Não dependia só de mim, mas de terceiros. De princípio, o telefone nos ligava e depois caía. Comecei brincando. Testava e ela fazia. Mudava o jeito e ela se ajustava, como se fosse tão maleável quanto alguém de boas maneiras. Tudo começou no meio da década passada. Precisamente, em 1996. A minha curiosidade era um meio de ir apagando saudades abertas. O jeito foi ir me apegando a ela que, nesse tempo, tinha que ser via Embratel. Primeiro, foi a mera comunicação. Precisava de um canal de comunicação e ela abriu, pouco a pouco, as portas do futuro para mim. A abertura era diretamente proporcional à minha capacidade de ver o novo, entender que o ontem havia passado e que o hoje era só mudança. Depois, paralelo a tudo isso, fui vendo que ela me ajudava com informações. Muitas vezes, a informação era fajuta, boba, superficial, mas ela estava lá, bastava procurá-la e ter paciência, para separar o lixo do que importava. Anos de assimilação. Até que não precisava mais de fios, nada de Embratel, era tudo rápido, cada vez mais, e podia ser em qualquer lugar que estivesse. Fiquei dependente dela e tinha vergonha de dizer isso. Tudo era dentro de quatro paredes. Às vezes no claro, outras até no escuro. Eu e ela. Ela tinha energia própria, singular. Foi então que descobri o óbvio, o que não queria enxergar. Ela não se ligava só em mim, tinha muitos outros, milhares, até que virou milhões e eu caí na real. Agora, que tudo já passou, ainda mantemos relações. Quando a procuro, ela me atende. Pode ser a qualquer hora, em qualquer lugar, nos basta a senha que combinamos. Ainda me surpreende, pois altera a dicção sem prévio aviso e tenho que procurar novos meios de vê-la. E, dessa forma, vamos indo, sem fazer planos para o futuro, pois ela mudou demais nestes nossos anos de relacionamento. Não é mais a mesma. A Net é fogo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2008.

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EXPLICANDO O QUE NÃO SEI – Jornal O Estado

Alguns perguntam o que é a crise. Já ouvimos isso de pessoas tomando uísque doze anos. De empresários, com ou sem empresa, de caloteiros contumazes, de jornalistas econômicos, ex-ministros da fazenda, economistas, ex-dirigentes do Banco Central, políticos que mudam de partido, mas não saem do governo, e até de pessoas sérias que trabalham duro e estão meio tontas. Não é para menos. Há um bombardeio da mídia nacional e internacional falando sobre a crise, da quebradeira de empresas e bancos que alavancavam. Alavancar é termo usado pelos economistas para dizer que determinada empresa ou banco trabalha com muito capital (dinheiro) de terceiros. Aliás, os economistas passaram longe do faro para descobrir essa crise. Sabem explicar o antes no depois. Mas, ninguém previu nada. Era uma euforia geral, até quando as hipotecas americanas deixaram de ser pagas, a crise de confiança aconteceu e as pessoas começaram a tirar dinheiro dos bancos, das bolsas e colocaram debaixo dos colchões. Aí os governos tiveram que correr para salvar o possível. O problema de muitos economistas, especialmente dos econometristas e dos que tratam da macroeconomia, é que procuram soluções matemáticas para problemas sociais. Os Estados Unidos têm vivido em crise desde 2000, quando as ações das empresas de tecnologia caíram assustadoramente, pelo simples fato de serem uma bolha financeira. Muita propaganda, euforia do mercado e a realidade: a queda. Depois, em 11 de setembro de 2001, a outra queda, o ataque muçulmano aos EUA, morrem milhares de pessoas e, em consequência, surge a Guerra do Iraque, alimentada pelos interesses armamentistas, do petróleo e da reconstrução do que foi bombardeado. Em 2002, somando a queda da Nasdaq ao problema causado pelos ataques aéreos, as empresas do ramo de tecnologia sofreram desvalorização de cinco trilhões e os que estavam na Bolsa de NY também perderam. Agora, em 15 de setembro deste 2008, o mundo ameaçou ir para o espaço, mas havia uma eleição americana com grandes interesses e a operação de emergência aconteceu. Disso se valeu o candidato Barack Obama para reforçar o que já dizia: “nós podemos” recuperar a economia americana que, quer queiramos ou não, ainda é o fiel da balança financeira do mundo. Essa minha explicação é banal, com um pouco de esforço de memória, e a guarda de recortes de jornais paulistas especializados em economia que previam que a Bovespa, bolsa de São Paulo, estaria com 85.000 pontos agora em dezembro. Dezembro está aí e a Bovespa luta para chegar aos 40.000 pontos, depois de ter atingido 73.000 em agosto. O petróleo que foi a perto de 150 dólares o barril, está em 50. Esta é a nossa rasa explicação. Pouco sabemos do que acontece no mundo, pois muitos confiaram em empresa, banco e gente. Alguns, desonestos, que continuam enganando por aí, mentindo e ocupando funções que não pedem folha corrida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/11/2008

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MAUÁ E UNIFOR – Diário do Nordeste

Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura. Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. Cuida de cada detalhe das exposições. Elas primam pela gentileza cultural e ambiental dando ao visitante uma aula preliminar até que se depare com a arte exposta. Agora, com a exposição sobre Mauá alia a arte a um necessário mergulho sobre a história brasileira do Século XIX e a empreitadas difíceis e díspares como a implantação de uma indústria naval; a criação de ferrovias; a navegação pela Amazônia; a iluminação à gás do Rio, sede do Império; a atividade agropecuária e empréstimos ao Uruguai. Até a pá entregue a D. Pedro II para um ato público tem a marca da ousadia privada. Mauá teve altos e baixos, como todo sonhador com o pé no chão e a cabeça no futuro. Conseguiu inovar até na contratação de técnicos e mão de obra da Europa e da China, quando só se usava escravos. Mauá é também a história financeira nacional quando da criação, subscrição e ingerência oculta nas ações do Banco do Brasil. Ele é, enfim, a lição de que o trabalho inovador, como obra de arte, também faz História.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2008.