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HERANÇA – Diário do Nordeste

As pessoas nascem, crescem, estudam e lutam. Umas apenas conseguem o mínimo para sobreviver. Outras alcançam êxito profissional, acertam ou não na escolha do parceiro conjugal, têm projetos comuns e uma vida longeva. Incerto dia, pela lei natural, um se vai e fica o outro, geralmente só. Filhos, se existirem, estarão casados, cuidando de suas vidas. Essas observações alinhavadas, decorrem da leitura acidental de notícia do jornal Folha de São Paulo com a manchete: “Por temer briga pela sua herança, Lily Marinho leva a leilão R$ 30 milhões em bens”.
A Sra. Lily foi casada, em primeiras núpcias, com o empresário Horácio de Carvalho. Eles perderam seu único filho, Horacinho, morto, aos 26 anos, em desastre de automóvel. Resolveram adotar um menino, João Batista. JB cresceu, não virou jornal, mas músico e foi morar nos Estados Unidos, onde casou quatro vezes e tem um filho de cada mulher. Horácio ao morrer deixou tudo para Lily. A Sra. Lily casou então com o Sr. Roberto Marinho, das organizações Globo. Agora, viúva de Roberto, aos 87 anos, ciente da finitude resolveu fazer leilão de fazendas, móveis, quadros e joias pessoais e, com o produto da venda, criar um fundo de investimento para o filho adotivo e os quatro netos. Ela se diz temerosa quanto ao futuro do patrimônio por conta de eventuais questões judiciais. Diz ainda que não vê mais sentido em ter tanta coisa ao morar sozinha no casarão que reverterá para os herdeiros de Roberto Marinho- com quem era casada com separação total de bens – após sua morte. O que se deduz é o óbvio: saímos do mundo sem nada. Os bens que acumulamos, por trabalho ou herança, sejam para desfrute, geração de empregos e renda, especulação ou mera ostentação, eventualmente se tornam uma espécie de punição, se a família não se mantiver unida para cuidar, repartir sem traumas e agir com sensatez. Ou, se em caso contrário, se engalfinham em questões, prejudicam empresas ou o usufruto comum dos bens, para deleite de advogados que, às vezes, açulam as partes sem o menor respeito pela memória ou patrimônio de quem se foi e tudo deixou.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/05/2008

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DESTINO: ESPERANÇA – Jornal O Estado

Essa minha mania de ler muito acaba me pregando peças. Pois não é que uma simples notícia na revista Veja me levou a uma pesquisa inútil. Ela, de tão boba que é, fez com que risse de mim mesmo pelo tempo que perdi. De qualquer forma, estou passando para vocês, a quem peço, antecipadamente, desculpas. Juro que não sabia quem era Destiny Hope Cyrus, ou Miley Cyrus, uma garota americana que canta, toca guitarra e é atriz. Li na revista Veja. Depois, pesquisei em jornais, internet e outras revistas e constatei que ela só tem mesmo 15 anos e já fatura 17,5 milhões de dólares por temporada, o equivalente a 30 milhões de reais. Seu pai, Billy Ray Cyrus, um cantor de rock que não fez sucesso, parece ter tido inspiração do além ao lhe batizar com o duplo nome Destiny Hope (destino esperança). Ela hoje é o sustento de sua família e tem contrato permanente com os Estúdios Disney e já vendeu 8 milhões de CDs, 3 milhões de DVD, outros milhões de jogos interativos e até de livros. Agora, pasmem vocês, Miley Cyrus, seu nome artístico, terá a biografia publicada e os seus longos e profícuos quinze anos serão esmiuçados por um escritor-fantasma que encantará adolescentes e adultos já cansados dos filmes e livros de Harry Potter. A biografia venderá aos milhares, logo será traduzida em inúmeras línguas e vendida para diversos países. O Brasil será um deles, não tenham dúvidas. Além do contrato com a Disney, onde interpreta -em um seriado- a personagem Hannah Montana no qual contracena com o seu pai, no exato papel de pai, a garota-prodígio faz shows e já arrecadou 65 milhões de dólares com eles. Pais americanos, para apascentarem seus filhos, chegam a pagar até 1.000 dólares por um lugar privilegiado nesses shows. Os Estados Unidos, país dito civilizado, de vez em quando se torna uma paródia da televisão brasileira em que Xuxas, Angélicas e outras entretêm e hipnotizam milhões de pessoas que, em suas cabeças ocas, são consumidoras dessas fantasias, vendo a vida com olhos destorcidos da realidade, acreditando em meninas que viram princesas com o simples tocar de uma vara mágica de fadas ou achando que Chapeuzinho Vermelho encontrará um meio de se safar do Lobo Mau.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/05/2008.

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MARCELA – Diário do Nordeste

A noite findara o seu turno e não queria ir embora, esperava por você. As rendas de chuva fina duelavam com a tímida lucidez do sol até seus raios vencerem o duelo espacial para refulgir em sua face, chegando como alvíssaras. Você veio do recôncavo do amor para a plenitude da vida neste 05 de maio, dia consagrado, logo a quem, a Santo Ângelo, também protetor onomástico de sua irmã e avó. E sabe como Ângelo tornou-se santo? Pelo anúncio sagrado de que ele, Ângelo, teria um novo irmão, embora seus pais achassem impossível. Mas, aconteceu. E sabe qual foi o nome dado ao irmão de Ângelo? João. Engraçado, não. Você compreenderá, um dia. Somos todos irmãos, embora nomeados disso ou daquilo. A sua chegada, para mim, é a mais pura encarnação de amor e se sorrisse, gritasse ou sussurrasse ninguém iria entender o gesto. E por ser de pouca reza, apelei para um aquietado Pai Nosso, a oração de amigos, companheiros, filhos, pais e netos, na certeza de que somos grãos de areia na ampulheta do viver. Ainda que juntos, temos átomos a nos dividir e a desfalcar o amor. Não há como parar o tempo, vilão eterno a corroer partes do ser. O saque é mínimo quando se é como você, querida Marcela e o tempo soa infinito. Mas, para os que colheram muitos anos, intuem que seja finito. Tudo errado. O tempo é apenas definitivo. E você nasce para embalar o aconchego do amor, este o único liame a nos fazer eternos. Mesmo incompreendida, nunca deixe de amar, essa força única e ampla a nos tornar plenos. E se lhe digo isso no dia de sua entrada no mundo é porque outra pessoa nascida há 190 anos, neste mesmo 05 de maio, um filósofo, Karl Marx, escreveu que “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Seja, pois, líquida, fluida, etérea e sublime no amor que venha a dar às pessoas, a partir de seus pais, irmã, primos, tios, avós e bisavó. Daí, lute e viva. Conte comigo, mesmo nascido noutro século, espero ainda ver muitas luas e sóis. Testemunhar que você, Marcela, tal qual um martelo, transforme as pedras de sua vida em estrada, ainda que singela, onde possa transitar com esperança, modéstia, confiança, trabalho, dignidade, energia e amor ao próximo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2008.

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UMA JANELA COM OITENTA VENEZIANAS – Jornal O Estado

Imagine alguém com 80 maios enviando, em requintado invólucro, CD com “passagens musicais” encimado por caricatura sua feita pelo artisita Valber em que um riso franco e maroto parece dizer: ‘pois é no dia 05 de maio de 1928 eu nasci para trazer ao mundo responsabilidade integral no trabalho, fidelidade a todos que me cercam, alegria e coesão com amigos e colegas, amor à minha família e um laço indissolúvel com Guanacés, meu berço-terra, antes por cascavéis protegida e, desde sempre, por mim’. E saiu do berço-terra com a garra dos que sabem o que querem e o que fazem. Estudou, mourejou alhures e aquietou-se há décadas, não por ação de gás paralisante, mas energizante a lhe conferir, a cada dia, água pura no singrar e embarcar no átrio da grande nau em que ressurge todas as manhãs como destemido guardião de valores. Por outro lado, nada disso o impede de desnudar a sua face simples com a coragem de ter seus traços faciais caricaturados. Rir de si mesmo pelo dom da vida que Deus lhe deu e compartilha da maturidade/juvenil que o envolve com D. Isolete, filhas, genros, netos, irmãos, sobrinhos, parentes´, companheiros e amigos de confrarias em uma ‘festalmoço’. Nela todos ouvirão e cantarão a Janela da sua Vida, com venezianas abertas aos sopros duradouros dessa tarde que não aceitará o crepúsculo e enfunará velas para o sempre. Ouvirão também outras passagens musicais que adornam, em dimensão paralela ao trabalho, seu repertório/repositório sensível de valores imateriais feitos em toda uma vida com ilhas de prazer em que se misturam, naturalmente, ao inesperado de tempestades, mortais que somos. E todos, familiares, colegas e amigos, meu caro homem de bem José de Arimatéia Santos, que o abraçarão neste sábado falarão com a linguagem da alma, aquela que, até no silêncio e no riso, diz da fraternidade de espírito e poderão, data vênia, dividir com D. Isolete a música que a ela dedicou, plagiando a você próprio ao entoarem de forma canora, uníssona e de mãos virtualmente dadas: “Eu gosto muito de você, eu quero você sempre assim, o nosso amor é um eterno viver. O nosso amor jamais terá fim”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/05/2008.

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CARTA – Diário do Nordeste

Não fui à Assembleia Legislativa. Não queria vê-lo inerte. Por você, nos últimos meses, havia estado lá. Uma vez, por ocasião da homenagem aos oitenta anos da sua empresa. Ouvi o seu agradecimento e comentei que você falou melhor quando saiu do script. Lembra? Na outra, você me convidou para paraninfá-lo em duplo recebimento de prêmio. Depois, ficamos conversando a sós, como era rotina, até que o deixei em casa. Você sabe que nosso conhecimento vem de longe, muito longe e nunca teve viés de interesse, tampouco de negócios ou falávamos de pessoas. Trocávamos ideias e conversávamos sobre projetos, família, filhos, Fortaleza e o nosso Estado. Havia, entretanto, um pudor ou respeitoso silêncio mútuo sobre as dores da vida real. E por isso, hoje, me culpo. Esse limite tênue entre a intimidade e a bisbilhotice era respeitado desde os anos 70 quando viajamos juntos à Europa. Depois, pelo destino, nos tornamos uma rara espécie de contra-parentes. Foram muitos os encontros, em almoços, jantares, festas, ocasiões de luto, bate-papos, visitas, telefonemas e e-mails em que divagávamos, até sobre música, por seu viés de violonista encabulado. Mais uma vez, culpo-me por não ter lhe falado de outro Demócrito, o filósofo grego, nascido quatro séculos antes de Cristo. E eu poderia ter lhe dito alguns fragmentos do que ele escreveu. Em um deles, ele disse: “nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo.” Em outro, ele referia que: “falsos e hipócritas são aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem”. Você era um artífice de sonhos e do fazer acontecer. Basta abrir seu jornal, ouvir suas rádios, ver a sua televisão, ler as centenas de publicações de sua editora e constatar as ações de sua fundação e instituto que se transformam em audácia e vanguarda. Por fim, eu teria dito outra frase de Demócrito, o de Abdera: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Mas, eu sabia que suas múltiplas vidas ocupavam uma mente criadora e que centenas de pessoas dependiam de seus sonhos metamorfoseados em ação que me obrigam a vê-lo sempre de pé, com o olhar de futuro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/05/2008.

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CHEGAR JUNTO – Jornal O Estado

Faz uma semana que ando pensativo, mais que o usual. Penso na vida, família, amor, amigos, no sentido da luta pela existência, no descompasso entre o que intuímos, o que fazemos e em como tudo isso é lido e assimilado por nós mesmos e pelo outro. O outro, já disse certa vez, é alguém como nós, de modo reverso. E quando acontece algo de extraordinário, que nos comove e mexe com as nossas estruturas emocionais, ficamos pasmos. Por que isso? Por que aquilo? E o que sofremos, muitas vezes, é por não ver o outro como uma outra versão de nós mesmos, como semelhante que, muitas vezes, precisa de prontas atitudes de nossa parte. Seja um simples gesto, um palpite para mudança de foco ou até uma intromissão benfazeja, desde que no tempo certo. Mas, e o mas é fogo, ficamos, quase sempre, remoendo nossos problemas, como se fossemos o centro do planeta e esquecemos do outro. Daquele cujo olhar, gestual, até desleixo, excesso no comer e no beber ou no tom de voz a denunciar angústias, que não cuidadas, somatizam-se e transformam-se em depressões profundas a pedir atenções que passam além da boa vontade do amigo, parente ou companheiro. É preciso sair do nosso casulo, ter uma atitude ativa e encaminhá-lo a um profissional competente e sério, do ponto de vista ético. Não a meros experimentadores ou “receitadores” de remédios que embotam a razão de quem os toma. O olhar para si próprio é importante, mas nada há que impeça de se ver o outro, senti-lo, adverti-lo ou ajudá-lo. Trata-se de compaixão, sentimento que não é bem explicado e compreendido. Há quase sempre um olhar de urgência no outro que teimamos em não ver ou simplesmente não somos suficientemente atentos às dores alheias. O estar ocupado sempre, a falácia que é a pseudo proximidade pela Internet com e-mails genéricos de orações e correntes bobas. O despreparo para ouvir mais que falar são razões basilares do distanciamento entre as pessoas. Não acredite na euforia das grandes rodas, na alegria coletiva e em aparências. Se você gosta de alguém não o abandone, ligue-se e sofra até o peso de ser incompreendido. Ouça-o, por favor. Sem dúvida, será melhor que chorar pelo que não pode evitar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2008.

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ÍCARO E A FLAUTA – Diário do Nordeste

No dia 07.06.2007 escrevi “Tristeza e Tributo”, na imprensa local. Eu dizia estar triste e enumerava minhas razões. A primeira era o fato de jovens universitários terem maltratado, no Rio, uma mulher apenas por cismarem ser ela prostituta. Depois, escrevi: “em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens estudantes de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes, levavam um simulacro de caixão e falavam da democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de todos, inclusive, de outros jovens.” Hoje, mais uma vez triste, posso dizer que o fato que retratei, veladamente, aconteceu na Universidade Federal do Ceará na posse do Reitor Ícaro de Souza Moreira. Eu estava lá e testemunhei o comportamento dele. Parou a solenidade, ouviu a marcha fúnebre na flauta tocada e leu todos os impropérios dos cartazes; impediu que a segurança retirasse os estudantes/manifestantes e, pacientemente, aguardou que saíssem, para concluir o evento. O cumprimentei e naquela mesma noite resolvi escrever o artigo citado. Dias depois, ele me escreve bilhete agradecendo e dizendo que teria um diálogo amplo com todos, inclusive os estudantes que o haviam hostilizado. Agora, Ícaro está morto. Foi acometido por mal súbito. O que depreender de todo esse episódio que ora lhes repasso? No meu entender, não tendo a pretensão de ser certo, Ícaro lutou, desde o primeiro dia, para fazer da UFC uma universidade aberta ao diálogo. Sentiu a injustiça e o emaranhado da burocracia, cientista que era. Mente e corpo pagaram preço alto para conviver com tanta luta que começava ao raiar do dia. O exemplo silencioso que ele deixa é prova de que ainda se pode ter esperança na administração pública. Poucos ali são os venais e muitos os que trabalham feito formigas, sem cantar de cigarras. No velório, encontrei um casal de filhos seus ao pé do caixão e lhes disse que Ícaro tinha cumprido a tarefa a que havia se proposto e agora descansava, sem ouvir flauta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2008.

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FALSAS DITADURAS – Jornal O Estado

Estamos todos vivendo falsas ditaduras: a dos que se dizem politicamente corretos, a dos metidos a ambientalistas sem saber sequer o que é meio ambiente e a dos que resolveram, de uma hora para outra, posar disso ou daquilo quando nunca foram nada além de seus sapatos. Todos somos pressionados ainda pelos laços de ternura que nos cobram tudo e pouco dão, pela dureza do trabalho, dos muitos impostos que pagamos e pela incerteza que nos propicia a falta de segurança pública. Compramos boas fechaduras para as casas, trancamos os carros, colocamos alarmes, levamos pouco dinheiro vivo no bolso e não nos sentimos seguros em lugar nenhum. Um dia desses, em das esquinas da vida, ouvi uma batida forte no vidro do meu carro. Olhei, distraído que estava, abri um pouco vidro e ouvi de um homem feito e maltrapilho: “vai me dar um dinheirinho ou quer que eu assalte”. Dilema facilmente resolvido, mas ficou ressoando aquela fala de revolta, o duro bater de dedos no vidro e o olhar que me fazia sentir culpado apenas por estar ali sentado a guiar o meu carro. De nada valem os impostos que pagamos e o que fazemos em nossas vidas. Em cada esquina somos confrontados com a realidade social gritante que é também fruto de tudo o que plantamos em anos de indiferença, ao eleger gente despreparada e/ou desonesta, não reclamar dos que achacam ou dos que usam e abusam de estratégias para corromper e zombar dos outros. Cada carrinho de geladeira de um catador é como se fosse um esquife de todos nós, não, não estou sendo injusto, acreditem. É preciso que as pessoas também batam às portas das autoridades e digam, depois que baixarem os vidros da indiferença, que está na hora de parar de zombar de nós. É tempo de se enfrentar os que acreditam que podem fazer tudo e ficar por isso mesmo. Basta de tanta submissão, de tanto salamaleque para quem sabemos que fala uma coisa e vive outra. É hora de dizer, de mostrar os erros, inclusive os nossos. É tempo também de desafiar os que se encastelam em cargos e entidades, sem representarem nada, passam a viver como se donatários delas fossem, sem nada a construir de concreto, a não ser plantar notas em colunas de jornais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/04/2008.

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TIRADENTES E A INDEPENDÊNCIA – Diário do Nordeste

A palavra independência soa forte para mim. No meu caso pessoal, o primeiro ato de “independência” foi não querer que ninguém me deixasse no colégio. Eu queria ir só. O máximo que consegui foi que alguém me seguisse a uma distância razoável. Eu era criança, mas queria independência. Depois, quando os anos correm, se descobre que há um preço alto a pagar pela independência. Para que ela aconteça temos que arcar com as consequências do viver. Cada ato que fazemos produz uma fagulha existencial que, queiramos ou não, tem implicação na vida das outras pessoas. Assim, tive que acatar e admitir a minha submissão até o dia em comecei a viver do meu trabalho. Lembrei de tudo isso a propósito do dia de amanhã, data consagrada à Inconfidência Mineira e a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Ele também queria a independência, não pensava em si, mas na submissão de todos à Coroa Portuguesa. O final, já sabemos. Só ele acabou sendo enforcado em 21 de abril de 1792, no Campo de Lampadosa, no Rio de Janeiro. Mas, estava plantada a semente da Independência que viria em 07 de setembro de 1822 e que só aconteceu porque José Bonifácio, que era conservador, brigava com Gonçalves Ledo, que era liberal. Bonifácio, juntamente com a Princesa –consorte – Leopoldina, fez a cabeça de D. Pedro e aí aconteceu o grito do Ipiranga. O fato é que D. Pedro andava muito por São Paulo a conversar com uma Marquesa e, no citado dia sete, voltava de Santos. O que não se diz é que a Independência custou caro ao Brasil, pois não aboliu a escravatura, não mexeu com a aristocracia rural e conseguiu o feito de falir o Banco do Brasil em 1829, quando, cansado dos trópicos, D. Pedro I volta a Portugal levando tudo o que tinha nos seus cofres, cerca de 50 milhões de cruzados. Além disso, aceitou pagar indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal para a alegria dos ingleses, credores de Lisboa. E ele, que ‘rompera’ os laços com Portugal, paradoxalmente viria a ser, ainda por breve tempo, Rei de Portugal, como D. Pedro IV. Como se vê, o preço da Independência foi alto, mas eu deveria ter deixado para falar disso na Semana da Pátria e não hoje.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/04/2008.

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O VOO DO AUDIFAX – Jornal O Estado

Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice desse triângulo literário. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.
Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longilíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances. Em 1965 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.
Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade.
Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é. É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação crítica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos.
O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo que deixarão o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. Ele fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latinas, especialmente do México, sem esquecer do circo, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo a distingui-lo como referência no campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim, a sequência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2008.