Um rio separa a morte da vida. Estão ligadas por pontes. Do lado da vida estão majestosos edifícios, em rigorosa linha imaginária, tendo como referência de vitória um obelisco granítico. Acreditam os habitantes transitórios dessa linha da vida estar defendendo princípios, definindo missões, estabelecendo padrões de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do “Paraíso Perdido”, o maior poema épico da língua inglesa: “Ele jaz estendido então na terra/ na terra fria: ali entre ais amiúde/a sua criação amaldiçoa/e amiúde a morte de tardia acusa/porque não vinha já, sendo presente/para o dia da ofensa perpretada.” O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperança e o bordão “sim, nós podemos.” Nestes poucos dias em que estive por lá, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decisões germinadas no grande “mall” atravessaram mares e espaços e morreram lutando pelo que bem não sabiam. Estão lá na terra fria, cobertos por relva, lápides e o respeito mudo de quem os visita por laços de família, comiseração ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marmóreas horizontais sobre o chão, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irlandês e francês, em uma união desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E lá, insolentemente como um aposto, há o sobrenome grego de um Aristóteles, não o sábio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a saúde pública albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras pátrias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a votação ganha por cinco votos pelo quarentão nascido no Havaí, de pai queniano. E, no dia seguinte, o sol de fez claro, como se seus raios e halos cobrissem de energia os que não haviam perdido a esperança na terra onde limusines brilhantes e tão antiquadas quanto um réptil são símbolos da desigualdade e da injustiça entre os homens.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/11/2009
