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BRIGAS ENTRE GRUPOS – Jornal O Estado

Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro. A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. Foram votos vencidos. Houve então a seguinte conversa. Começa assim: A Guerra ligou para a Paz: – Sou chefe do meu grupo, queremos briga. A Paz respondeu:- Guerra querida, você não muda. Mas tenho esperança que isso aconteça. Venha tomar um chá de bom senso comigo. A Guerra, explodindo de raiva, retrucou:- Só tomo chá de pólvora misturado com arsênico. O resto é para fracote. -Não importa que você me chame de fracote, mas queria abraçá-la e ver se pode criar juízo nessa cabeça pirada, disse a Paz. – Deixe de conversa mole, escolha as suas armas e vamos à luta. Será amanhã, às 4 da tarde, nas campinas perto do Lago, falou a Guerra, soltando fogo pelas narinas. -Estaremos lá, sem armas, fique bem e durma com tranquilidade, disse a PAZ. E a Guerra: – Bem que eu poderia dormir com você, mas aí a estória seria outra, quente. -Crie juízo, finalizou a Paz, desligando o telefone. A estória, contada por mim, terminou. Será que você poderia continuá-la? Dizer como foi o encontro dos dois grupos? Quem venceu? Que armas usaram? Quem se destacou? As respostas são suas, mas se quiser enviá-las para mim use o e-mail oestado@gmail.com.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2009.

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DEPOIS DA COPA – Diário do Nordeste

Sou brasileiro, fui péssimo peladeiro e gosto de futebol. Torço, porém, de forma diferente. Tenho rasgos de paixão, mas a lucidez aparece, às vezes. Após o anúncio das cidades da Copa/14, comecei a ler a previsão de gastos. São bilhões para cada uma das 12 escolhidas. Boa parte será gasto na adequação ou construção de novos estádios e infraestruturas de acesso. Fiquemos, por exemplo, com Fortaleza. Já existe o Castelão, reformado há poucos anos. São previstos novos investimentos de 400 milhões de reais em sua modernização e acessos. A partir desse fato, lembrei-me do exemplo do Estádio Engenhão (João Havelange), no Rio de Janeiro, construído para o Pan Americano e hoje cedido ao Botafogo, por conta de seu alto custo de manutenção. O público virou privado, sem pagamento. Voltando ao Castelão: poderão serão realizados, acredita-se, até três jogos. Assim, tudo será consumido em 270 minutos, por brasileiros e estrangeiros. Terminada a Copa, o que será feito desse e outros estádios que preveem até cobertura contra a chuva? Estive ano passado na China e visitei, com vagar, o Estádio Ninho do Pássaro. Majestoso na arquitetura e simples na ambiência. Nele cabem 91 mil pessoas, campo, pistas de atletismo e base física, incluindo infraestrutura de 258 mil m2. Gastaram 500 milhões de dólares. Foi realizado concurso pela Prefeitura de Pequim e três escritórios de arquitetura da Suíça, Inglaterra e China venceram, em consórcio. Volto a Fortaleza: os dois maiores clubes locais sofrem na série B do futebol. Até junho de 2014, parte ínfima de recursos poderia ser destinada aos clubes, condicionada sua aplicação à modificação à capacitação da gestão, visão de futuro e, claro, da Federação de Futebol, que dizem ser obsoleta. Teríamos gerenciamento, atletas formados nas bases, com público ávido e permanente, se Fortaleza e Ceará alcançassem e permanecessem na Série A. Assim, poderíamos ter algum retorno. Não adianta preparar os locais da festa se não mudarmos os métodos. A maior obra não está no concreto, mas em raciocinar para o futuro e ver o esporte como estratégia para o desenvolvimento das doze cidades.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/06/2009.

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CINCO MILHÕES – Jornal O Estado

Um apresentador de televisão domingueira acaba de renovar seu contrato com uma rede nacional. Vai ganhar cinco milhões por mês, entre salário e merchandising. Ou seja, a propaganda, disfarçada ou não, em que aparece.
Então, alguns poderão perguntar: por que fazer vestibular, cursar cinco anos e depois ralar muito? Para que tanta gente se mata estudando para concursos? Para que muitos ficam pendurados em bancos, financeiras e afins? Dirão ainda: Entenda a razão pela qual médicos, engenheiros e advogados, as profissões antigas, ganham uma insignificância por mês. Vocês poderão pensar: isso é despeito, talento é assim, ganha milhões. Poderiam pensar ainda: vai lá e veja se faz o que ele faz?
Não se trata disso, o que nós, os mortais comuns, os sem talento, não entendemos é como um cristão fica duas ou três horas vendo e ouvindo alguém a dizer uma série interminável de bobagens, entrevistar pessoas que precisam estar no ar para aparecer, ouvir cantores de vozes esganiçadas, fazer um júri com aspirantes ou decadentes artistas e, no final do mês, levar cinco milhões. Ele tem público, se não gerasse receita seria despedido. Não sei qual o público que o assiste, se das classes A, B, C, D ou E? Aliás, pessoas não deveriam ser classificadas como se fossem produtos, mas quem fica ali postado vendo diatribes merece sofrer. Uma dica: faz muito tempo, surgiu o controle remoto, esse aparelho pequeno, movido a pilha, que tem o condão de nos libertar do que não podemos ou queremos ver e ouvir. Faça um bem a você mesmo. Higienize a sua mente. Leia jornal, livros e revistas. Ouça o silêncio. É bom. Pare de ver tolices.
Não só as do apresentador, mas outras em programas policiais, fofocas, shows de calouros, de realidades etc. Faça de sua televisão uma aliada. Desligue-a ou escolha. Mude, compare e acredite: há programas de bom gosto, populares e eruditos. A televisão nos põe a prova, mas a escolha é nossa. Se, ao final de uma tarde de domingo, depois de almoço mais caprichado, aceitar alguém na tela é porque concorda com a presença em sua casa. Aí, quando isso acontece, não vale reclamar. Olhe para o espelho e veja quem pode ser o culpado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2009.

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MADRILENHAS – Diário do Nordeste

Dizia o pintor cearense Antônio Bandeira (Fortaleza, 1922. Paris, 1967) sobre exposições: “Antes era preciso somente o ângulo visual para se olhar um quadro. Hoje necessitamos mais que isso. Queremos também o ângulo do sentimento. Buscamos os olhos não somente na cara, mas também no cérebro e no coração”. Para ver arte é preciso estar atento a todos os sentidos e emoção. Vando Figueirêdo é pintor inquieto. Não é aprendiz. Sabe e o faz em longo percurso. Teve a coragem de, já maduro, sair do casulo, atravessar mares e aportar na terra-mãe, Portugal. Depois, por sentimento atávico ou existencial, retornou. Vive procurando faces novas no imaginário de sua arte. Experimentado na lida contínua e árdua de assumir-se artista, vê sempre com olhos púberes (re)buscado em suas lentes intra-oculares. Agora, expõe estas ”Madrilhenhas” na cidade. O título é o ponto de vista do autor. É o conjunto de obras que teria exposto em Madri, Espanha, se a saudade ou a vida não empurrasse sua nau pictórica de volta aos mares turbulentos e difíceis do Brasil. Neste ano nove deste Século XXI, do Iphone, Google etc ele mergulha a seu modo, com matizes e materiais contemporâneos, por vieses onde usa até palavras. Transfigura a rudeza primitiva de contornos rupestres e outros arranjos para amigos e apreciadores da arte. As razões destas Madrilhenhas podem e devem ter algoritmos e significações. Os olhares de colegas, marchands e visitantes terão múltiplas interpretações. Dizia Benedetto Croce, filósofo italiano, morto em 1952: “arte é visão ou intuição. O artista produz uma imagem ou um fantasma: e quem aprecia a arte volta a olhar para o ponto indicado pelo artista. Observa pela fenda aberta e reproduz dentro de si aquela imagem.” Ou no dizer do poeta americano Ezra Pound: “Toda arte começa na insatisfação física da solidão e da parcialidade”. Eugène. Delacroix, pintor francês do Século XIX, contava precisarem os pintores sempre borrar ou inutilizar o quadro para concluí-lo. Por fim, declaro não ser crítico de arte, mas saber que artistas são, geralmente, solitários e parciais, especialmente pela paixão devotada ao que criam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2009.

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O QUE É NAMORAR? – Jornal O Estado

Fique claro ser hoje o namoro aberto a todas as idades, sem essa de ser privilégio de adolescentes. Nada contra os jovens. Muito a favor dos namorantes, independente do registro civil. Para sair da mesmice, resolvi entrevistar algumas pessoas, entre 20 e 60 anos, de ambos os sexos, todas com boa escolaridade, a maioria com nível superior. A todas, entreguei uma caneta e um pedaço de papel – desses blocos de notas – e pedi que respondessem, na hora, colocando idade, profissão e pseudônimo, a seguinte pergunta: O que é namorar. Aguardei as respostas. Foram entregues, rápido. Mudei os pseudônimos para números. Vamos primeiro às respostas dos homens. Começo pelo mais velho, a quem chamarei de Um: empresário, casado, 53: “é viver momentos felizes”. Dois, engenheiro, casado, 31, refere: “é estar feliz todos os momentos”. Três, economista, casado, 30: “é compartilhar momentos, alegria, momentos tristes… é poder usufruir da companhia com cumplicidade”. Quatro, solteiro, economista, 24: “aproveitar o que há de melhor na vida ao lado de quem amamos. Como se trata de um verbo deve ser uma ação de amar, então é a ação do amor. Logo, amamos namorar”. Agora, vêm as respostas das mulheres. Quinta, massoterapeuta, união estável, 53: “é conhecer, testar. É química”. Sexta, divorciada, 43, executiva: “é ver-se no centro. É sentir-se segura no carinho que dá e no que recebe. É sentir-se verdadeira, inteira e, portanto, completa. É sentir-se ingênua, pura e consequentemente feliz. Quase infantil.” Sétima, mãe solteira, 30, especialização em negócios:” é compartilhar todos os momentos como se fossem únicos.” Oitava, quase casada, 28, chefe de equipe: “é se entregar, se amar, ser feliz. É dividir momentos de felicidades e passar juntos momentos difíceis. É esperar uma grande surpresa, é sorrir sem cobrança, é viver pensando em dois, é viver sem limites para a satisfação de dois seres.” Agora, vamos ver o que dizem escritores. Para Balzac, francês: “talvez seja apenas o reconhecimento do prazer”. Marcial, latino: “contigo não posso viver, nem sem ti”. Lampedusa, italiano: “fogo e chamas por um ano, cinza por trinta”. Nietzche, alemão: “aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”. Por fim, Oscar Wilde, britânico: “os homens querem ser o primeiro amor de uma mulher, as mulheres gostam de ser o último romance de um homem”. E você, o que conclui disso tudo?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/06/2009.

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VÔO NOTURNO – Diário do Nordeste

Por duas vezes passei situações de risco em voos. Vou contar uma: foi de Portugal para o Brasil. O avião decolou à noite, serviram o jantar e me acomodei para dormir com máscara sobre os olhos. Cochilei. Depois, recebi um cutucão. Era o vizinho de poltrona, um português de olhos arregalados a dizer sem meias palavras: Tu sabes que vamos morrer? Procurei acordar de todo e ele me apontou o motor parado, ao lado. Já todas as luzes da cabine estavam acesas e havia um corre-corre de comissários a verificar cintos e que tais. De repente, o comandante do avião se identifica pelo microfone e diz para permanecermos sentados e obedecer a instruções dadas a seguir. Aí, o comissário chefe pede para todos tirarem cintos, óculos, sapatos, objetos pontiagudos, mostra coletes salva-vidas etc. Estamos em noite escura sobre o Atlântico. A Europa ficou para trás. Procuro na mente as aulas de geografia e vejo só existir alternativa em África, nas ilhas de Cabo Verde ou Canárias. O resto é oceano profundo. Meia hora se passa e o comandante volta dizendo: vai voar baixo para liberar combustível, ficar mais leve e seguirá para as Ilhas das Canárias. O avião inclina a sua proa e vai baixando de forma lenta, quase imperceptível. Começa a operação de esvaziar tanques. Já faz uma hora do primeiro aviso, todos estão seguindo as ordens, calados, alguns rezam, outros choram baixinho. Repasso minha vida. Minutos duram horas, enfim o comandante volta a falar e diz estar pousando em Las Palmas, Grã Canária. O avião faz o turno de pista, desce suavemente, enquanto ambulâncias e carros de bombeiros nos acompanham, lado a lado. Todos estavam aliviados. Foram longos e duros 90 minutos e 03 dias de espera por uma nova turbina Rolls-Royce vinda da Inglaterra. Lembrei disso por conta da tragédia do AirBus da Air France. Eles só tiveram 04 minutos e um fim trágico. O Criador os acolha. Lembrei também do escritor francês Antoine Exupéry, autor, entre outros, de Vôo Noturno e piloto pioneiro a trazer o correio da França para a América do Sul. Morreu, em acidente aéreo, no mar da Sardenha. Fica apenas o consolo de Caymmi: “é doce morrer no mar”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2009

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VILA DAS FLORES – Jornal O Estado

Há algum tempo recebi “Vila das Flores” de presente. Levei-o para casa e, em meio ao caos que são os meus muitos livros ainda não lidos, ele se perdeu. Um dia, Carlos Macêdo, seu autor, pergunta: Já leu? Não havia lido. Agora, com um segundo exemplar, posso dizer, de cara, que Macêdo não é como ele se imagina: “um louco”. É alguém capaz de escrever com ternura, misturar gêneros e ter a ousadia de ser um autor independente neste Brasil de tão poucos leitores Todo escritor parece um ser carente, solitário, manejando a palavra como argamassa sem querer fazer tijolo, mas edificar texto que o torne real no conturbado mundo da escrita e da leitura. A leitura é um exercício de paciência para quem não tem o hábito e é uma opção rica e natural para quem sente prazer em fazê-lo. Ela pode ser até uma forma de demonstrar a capacidade humana, seus devaneios, anseios, medos e afirmações. Na introdução, o próprio Macêdo afirma: “é que Vila das Flores, mais que um lugar no mundo é uma ocorrência curiosa, dessas que não se esquece com facilidade, que permeia o dia a dia sem deixar sequer respirar”. Creio ter sido Guimarães Rosa quem disse: “é porque narrar é resistir.” Assim, Macêdo em seus dez textos, se mostra um combatente da escrita. Em “Ourivesaria” ele garimpa palavras e narra a ação e o pensar dos trabalhadores em metais, a música que reflete os pensares díspares de homens que de “cabeça baixa cantavam a sua dor, paixão, sua lembrança, cada um ignorando os outros…” Nas estórias concebidas, ele refere sobre os contatos humanos assimilados. Fala, entre outros, em “Dorinha e o Bordel” de Canuto Lucy, Rute e suas desditas. Há uma frase curta, mas intrigante: “refeita dos efeitos do veneno, continuou seu destino de sorrir com o vento”. E essa intriga ou relação com a morte parece ser forte e recorrente para Macêdo. E em meio ao seu pensar vário há tempo para a fé. Em “O Sagrado Coração” fala sobre o padre: “Essa gente ri à toa, pensava, e essa é a porta de entrada do seu coração.” Ao final, descreve, em “O Cenário”, a Vila das Flores: “…tinha a aparência de um imenso transatlântico afundando com aproximadamente trinta por cento do seu casco submerso … Bem abaixo da borda, na base de toda a extensão do casco do imenso navio tudo eram florestas…” Para concluir, direi que Carlos Macêdo parte da complexidade de análises para dizer de sua forma especial e simples o que o mundo reflete para ele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2009.

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FUMO E VIDA – Diário do Nordeste

Hoje é o Dia Internacional Sem Tabaco (fumo). Ser contra é muito fácil. Basta criticar ou discriminar quem fuma. A história é bem mais complexa e merece reflexão coletiva, inclusive das instituições e famílias. Desde 1987 a OMS – Organização Mundial da Saúde, estabeleceu o dia 31 de maio como data anual para, de forma explícita e objetiva, conscientizar a sociedade sobre os males e consequências do fumo. As estatísticas ficam para institutos de pesquisa e órgãos governamentais de saúde, mas sabemos o quanto o cigarro pode abreviar a vida de uma pessoa: doenças e morte evitáveis. Além de abreviar, pode ainda piorar a sua qualidade nos anos derradeiros. Todos nascemos para morrer, vivemos agora no intervalo entre o nascimento e a morte, mas o que fazemos com o nosso corpo e a mente faz diferença, para mais ou para menos. Um caso concreto: meu pai fumava muito desde a adolescência. Foi obrigado a parar aos 63, por conta dos problemas decorrentes do uso imoderado do cigarro. Viveu mais sete anos, após o fumo, mas ainda foi acometido de infarto fatal por conta das múltiplas sequelas venosas e arteriais. O vício é de tal modo difícil de curar. Vejam, irmãos meus, sabedores das aflições e da causa da morte do nosso pai, ainda fumam. De minha parte, não resisti ao enjoo ao experimentar – na adolescência – o cigarro e tive sorte. Tenho amigos sabedores do terreno minado e teimam em continuar a pitar. Há uma dependência química por trás do simples ato de fumar. Ela vai se formando dia a dia e chega montando morada com alicerces fortes. Controversas questões judiciais correm em tribunais de todo o mundo mostrando a batalha social e econômica por trás dos interesses de grandes corporações, pagando os mais altos impostos aos governos por serem produtores de cigarro e as famílias com criaturas perdidas por conta do fumo. Hoje, há uma consciência coletiva sobre o problema. Há leis duras e só se pode fumar em ambientes abertos. Grupos se formam para descobrir soluções médicas, pessoais e caminhos alternativos ao vício. Mas, “não ter vícios não acrescenta nada à virtude” dizia o poeta espanhol Antonio Machado. Há, todavia, vícios nos privando de outros prazeres, não necessariamente virtudes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/05/2009

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AUGUSTO. PONTES PARA O SABER – Jornal O Estado

Nossa relação com Augusto Pontes remonta aos anos 60. Nessa época, Barros Pinho, Josino Lobo e eu éramos alunos da iniciante Escola de Administração. Por sermos tidos, dentre outros, como líderes, fazíamos política universitária, não só por ideologia, mas para consolidar a difícil institucionalização da Escola de Administração, então agregada ao Estado do Ceará. Pois bem, Augusto era estudante/político ou político/estudante, fazia Filosofia meio sem concluir o curso. Estava em quase todas as reuniões e assembleias de centros acadêmicos da antiga União Estadual dos Estudantes – que congregava os universitários – e do Diretório Central dos Estudantes, que tinha assento no Conselho Universitário. Descobrimos, desde cedo, que Augusto era um exímio pensador e isso já ficara comprovado na sua relação de trabalho com Barroso Damasceno, na Caba Publicidade. Sabia fazer graça dos infortúnios comuns aos seres humanos, especialmente nossos que lutávamos de forma quixotesca por melhores dias para a Universidade e para o Brasil. Não vou repetir o que já foi dito à exaustão pelos que deram depoimentos quando da sua morte, há duas semanas. Na noite de seu velório, ouvia o lamento sentido de sua filha Natércia ao pé de seu esquife. Acheguei-me e contei para ela que no dia 01 de abril de 1964, ainda sem saber bem o que estava acontecendo, o Augusto me pediu para deixá-lo lá para os lados da Parquelândia. Claro que topei, mas ele, por precaução, solicitou ir no bagageiro do carro. E assim fomos. Depois, foi para a Brasília, onde ensinou, e de lá voltou e continuou a trabalhar em publicidade como homem de ideias. Um dia, Ciro Gomes, seu amigo, é eleito governador e Augusto assume a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Ciro, na sua forma inteligente e ferina de aferir pessoas descobrira a grande cabeça que repousava sobre os ombros do Augusto. E lá se foi ele viver assim por dois anos como um secretário diferenciado. Deu a sua quota. Jogou o paletó fora e foi viver como gostava ou podia. Agora, estamos na última década do século passado, no Clube do Bode e o Augusto intercala chistes com cerveja e cochilos programados. Foi lá onde se comemorou, já em 2005, o seu aniversário de 70 anos. Festa grande organizada por Sérgio Braga, registrada em ata por Audifax Rios, discursos, músicas, mesas muitas e amigos, parceiros e companheiros de todos os tempos, matizes e gêneros. Depois, aderiu a outro grupo nosso, também pseudo-anárquico: a Sexta Literária ou Cesta Literária que se reúne às sextas-feiras à tarde em távola redonda. Pelo que sei, foram nessas duas agremiações etílico-culturais as últimas aparições públicas do Augusto, solitário comunicativo, que tinha, parafraseando W. Irving, escritor americano, mente e fala como ferramentas aguçadas que melhoravam com o uso constante. Na manhã de sábado em que foi sepultado no São João Batista batia um sol de verão brabo em pleno tempo de chuvas, as galhas das árvores da alameda central não recebiam o açoite do vento e mais de uma centena de amigos esteve lá, de forma contrita. Cada um tinha a sua estória pessoal com o Augusto e o silêncio só era interrompido pelo choro comovido das filhas. Augusto. Pontes para o saber.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/05/2009.

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NÓS E AS CHUVAS – Diário do Nordeste

Sexta, 22, foi o dia da biodiversidade, aproveito então para dizer o óbvio. Nós todos somos o planeta Terra. Todos sabem – ou deveriam saber – sobre a diversidade biológica, isto é, a heterogeneidade da natureza viva. Sabem, mas não cuidam. Tenho esperanças de mudanças em nossos comportamentos pessoais, os péssimos costumes advindos da origem rural de parte da população urbana. Não respeitamos a fauna, tampouco a flora e somos predadores do ecossistema de nossas cidades. “Jogar no mato” transformou-se em jogar em qualquer lugar. A rua é a lixeira gerada pela falta de educação. Agora mesmo estamos vivendo uma crise decorrente de um bom inverno – sempre pedido – que chegou e encontrou esgotos entupidos, rios, lagoas, riachos, córregos com margens ocupadas por famílias carentes em permanente situação de risco e uma malha viária mal asfaltada sem calhas de escoamento por gravidade ou por drenagem. As cidades viram caos, acontecem enchentes não só por culpa da pluviometria, mas por despreparo coletivo e falta de ação preventiva dos seus gestores públicos. Escolas, colégios, universidades, repartições, sindicatos, igrejas, clubes e afins precisam formar grupos de pessoas e começar um processo profundo de educação ambiental para crianças, jovens e adultos. Não basta enviar donativos e entregá-los a gestores acostumados a clamar. É preciso tornar permanente o cuidado emergencial e incutir nas mentes das pessoas a necessária relação entre nós e o meio ambiente. Não sou ambientalista, nada de eco chato. Sou apenas alguém que já viu esse filme se repetir e sabe que a saída é a educação a gerar respeito pelo outro e pela terra que nos abriga e alimenta. A ênfase é produto da indignação com a indiferença a começar na família descuidando dos restos ou resíduos gerados a cada dia. Há ainda pessoas tidas como de nível a jogar pontas de cigarro, latas ou garrafas plásticas pelas janelas de seus carros. Há também quem não possa ver um terreno não edificado e lá despeja sobras de construções ou reformas. Um dia, o inverno chega e a água precisa, além de banhar a terra, seguir o seu curso. Como, se tudo está entupido com as nossas sujeiras?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/05/2009