Sem categoria

MULHERES E HOMENS, 50 ANOS

Não só as mulheres, mas também os homens foram obrigados a tomar conhecimento da existência de uma escritora chamada Simone de Beauvoir. Em 1949, um ano importante para as mulheres, nascia o livro “Segundo Sexo”, obra que marcava uma mudança de comportamento entre pessoas que tinham, até aquela data, uma vida de submissão.
O jornalista Marcelo Rezende, diretamente de Paris, cobriu para o suplemento (GZM) “Leitura Fim de Semana”, de 31 de janeiro passado, um congresso de feministas que resolveram rediscutir a obra de Simone de Beauvoir. Mulheres de todos os lugares, especialmente francesas, tentaram esclarecer um pouco mais a vida e a obra dessa charmosa e bonita De Beauvoir que, já aos 17 anos, se dedicava à literatura e à matemática. Daí para o socialismo foi um pulo. Em 1929, aos 21 anos de idade, conhece Jean-Paul Sartre que foi seu companheiro até 1986, quando morreu.
Dizem que o livro “O segundo sexo” surgiu de uma pergunta de Sartre para Simone: “O que é uma mulher?” Sua resposta foi o “Le deuxième sexe”. A frase mais batida do livro é: “Não nascemos mulher; nos tornamos”. Segundo M. Rezende, em sua análise: “Uma mulher não é ‘naturalmente’ nada. Ela pode tornar-se o que desejar. Não há lei, regras biológicas, ‘estado natural das coisas’ determinando o ‘estar no mundo’ feminino. Não existem diferenças qualitativas. Não existe um jogo de superioridade e inferioridade”.
É a partir dessa constatação que o homem, acostumado há milênios a ser o senhor, o provedor, o predador e o protetor, começa a ficar incomodado e não consegue reagir bem. Problema cultural? Problema biológico? Só para se ter uma ideia o escritor francês Albert Camus disse ser a obra de Simone “uma ofensa ao macho francês”.
Como se vê, partiu da própria pátria civilizada de Simone o primeiro grito de revolta masculina contra a liberação das mulheres. Por quê isso? Certamente porque as mulheres não pediram licença e foram construindo as suas vidas novas, crescendo em conflitos com os homens, mas transformando esta segunda metade do Século XX num ambiente em que foram tornadas públicas as revoltas das mulheres contra a dominação masculina.
Talvez cinquenta anos, dentro do contexto geral da história, seja muito pouco tempo para que surja uma relação amadurecida entre homens que traziam ao nascer a “certeza de mandar” e mulheres que pensavam em compartilhar, mas não sabiam como fazê-lo ainda. Era preciso chocar, impor e aí vieram os conflitos, as separações e desencontros.
O crescimento das mulheres nos diversos campos sociais pode ser o condão para reatar os elos ainda tão frouxos entre mulheres que exigem direitos e parceira e homens acostumados a impor deveres e decisões.
As gerações que viveram sua adolescência na primeira segunda metade deste fim de século receberam uma carga muito forte de transformações, não souberam costurar, via de regra, uma relação nova, amadurecida, provavelmente por causa da luta pela sobrevivência e da falta de conhecimentos psicológicos, sociológicos e culturais para tratar do que surgia de forma tão abrupta.
O que nos consola é que as novas gerações, nascidas já na segunda metade deste finzinho de século, possam ter absorvido essa revolução no relacionamento mulher e homem. Por outro lado, contraditoriamente, há uma revisão do feminismo, feita “post-mortem” pela própria Simone. Descobertas há três anos, foram editadas cartas de Simone em que ela revela sua paixão pelo escritor americano Nelson Agren. Eis um trecho: “Eu lavarei o chão para você; eu cozinharei para você. Eu pertenço a você, e assim é o meu amor”. Essas revelações não diminuem as conquistas do feminismo, pelo contrário mostram que nós, homens e mulheres precisamos sempre reaprender a viver, admitindo nossos desejos, fraquezas, esquecendo velhas regras e preconceitos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/1999.

Sem categoria

TEMPO DE REVISÃO GERAL

Enterros, missas de sétimo dia, visitas a hospitais, notícias de doenças de colegas e amigos e aí começa, meio forçada, a consciência da mortalidade. Essa consciência se manifesta de várias formas:
01. Talvez, por tais razões, amigos e amigas da minha geração resolveram, de uns tempos para cá, fazer revisões gerais. As revisões gerais são frutos desses enterros, missas, visitas a hospitais, das doenças de colegas, parentes e amigos. Elas decorrem também do que se vê nos espelhos, das revelações silenciosas das balanças caseiras, do cansaço ao fazer um simples exercício, do surgimento de doenças, da queda do desempenho sexual, da acomodação e do descuido com a aparência.
02. As clínicas de cirurgias plásticas passam a ser fortes aliadas de pessoas que desejam adiar a velhice ou retocar o que imaginam possam enfear seus corpos. É no instante em que, paciente e cirurgião plástico se encontram pela primeira vez, desponta a capacidade de convencimento e persuasão do médico, agindo, preliminarmente, como um consultor estético e psicólogo, tirando fotos, mostrando as vantagens e falando das técnicas que executa.
03. Pululam por todas as cidades clubes de Mountain Bike, hidroginástica e as academias de ginástica, onde, além dos equipamentos indispensáveis aos cuidados do corpo, pontificam grandes espelhos para mostrar a face narcísica que aflora em seus freqüentadores.
04. Os corpos passam a fraquejar e as visitas ao clínico geral ou a especialistas mostram a quantas andamos. De repente, aprendemos o que é ácido úrico, avc, bursite, calorias, carboidratos, cineangiocoronariografia, colesterol, creatinina, densitometria óssea, diabetes, distonia, estresse, glicose, hiv, insônia, mamografia, presbiopia, próstata, psa, ressonância magnética, rinite, triglicérides, uréia e tanta coisa que pensávamos não existir ou não ter nada a ver conosco. E o pior é que tem. E os laboratórios de análises e as clínicas de imagem passam a fazer parte do nosso imaginário,
05. De repente, vem a célebre desculpa: “eu não sei o que está acontecendo comigo, foi a primeira vez”.Na verdade, não foi. E não só acontece com ele. Acontece com ela também. Só que o homem pode mentir, mas não pode fingir. Nessa hora nem é preciso fazer autocrítica e descobrir de quem é a “culpa”. Nossa? da outra pessoa? Na verdade, talvez seja a hora da revisão adiada, dosando hormônios, fazendo prevenções ou ajustando a cabeça às novas regras da idade e do corpo, procurando fidelizar relacionamentos na base da compreensão e do amor.
06. Por outro lado: na mulher, as roupas soltas e largas procuram disfarçar as formas. No homem, o cinturão passa a ter uma nova marca, a camisa é comprada um número maior e o desleixo pode passar a ser uma companhia desagradável. Nessa hora é preciso criar coragem e ir à luta, descobrindo um novo sentido para o corpo e a vida, optando por dietas mais saudáveis e estabelecer a prática de exercícios ou caminhadas como rotina diária.
Esses seis itens levantados – entre tantos outros – com a profundidade de um dedal, objetivam apenas despertar a sua atenção para as mudanças naturais do nosso corpo e deixar claro que há sempre uma resposta positiva para as dúvidas, desde que procurada a tempo. Não se deve, entretanto, esquecer o que disse Mark Twain: “A única maneira de conservar a saúde é comer o que não queremos, beber o que não nos agrada e fazer o que preferíamos não fazer”. Será?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/1999.

Sem categoria

SOMOS DIFERENTES

É claro que somos diferentes. Você é você. Eu sou eu, como diria Fritz Pearls. O que eu gosto só é referência para mim, pode servir – ou não – para você. Essas diferenças nos mantém vivos, alertas, intrigados, intrincados, mexendo com a nossa capacidade de tentar – o que é difícil – conhecer o outro, esse ser misterioso, às vezes tão próximo e ao mesmo tempo tão desconhecido.
Graças a Deus somos diferentes. Isso é instigante e enseja que se façam conjecturas, devaneios, sonhos, promessas e que tais, quando, muitas vezes, as respostas são tão óbvias. Lágrimas podem ser apenas lágrimas. Ao secá-las, o espírito se restabelece, o corpo recebe adrenalina e endorfina, para torná-lo capaz de fazer a pulsação disparar com novas emoções que darão vida à nossa vida. Imaginemos que todos fossem iguais. Tudo seria previsível, sem graça, chato e modorrento. É bom que cada dia e cada pessoa nos propiciem descobertas, novas formas de partilhamento e desafios.
É ótimo que você me surpreenda e, certamente, será agradável que eu não seja o retrato da mesmice que entedia. O novo encanta e estimula.
A busca do novo e do desafio, próprios do ser humano, quando levados para os relacionamentos pessoais, torna-os mais emulantes e ricos. Cada informação nova parece uva decantando gota a gota formando aquele mosto que se transformará em vinho ou vinagre. A qualidade e o “bouquet” do vinho ou o sabor acre do vinagre dependerão de cada um e de suas habilidades no relacionamento com o outro.
É natural que nessa busca do novo no outro – o conhecimento, enfim – não se perca a noção da realidade que, cedo ou tarde, nos cobra o seu dízimo. Isso não deve nos amedrontar ou tolher nossos passos em direção ao outro, desde que saibamos ou imaginemos, pelo menos, saber o que queremos.
A liberdade total nunca nos é concedida. Ela é fruto da insubmissão, da inquietação, da conquista e da consciência de que o que se vive e como se vive não nos agrada, daí a porta aberta para um mundo desconhecido. Mas, é preciso deixar claro o preço que se paga ao tentar o novo, assumir as diferenças e, talvez, não chegar ao lugar que se sonhe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/1999.

Sem categoria

AS COISAS BOAS DA VIDA

Em um desses papos informais que todos temos ou deveríamos ter, verifiquei que muita gente não curte mais as coisas simples da vida. De um tempo para cá as pessoas reclamam de tudo: do governo, do povo, da família e delas próprias. Reclamam, reclamam e não cuidam de simplificar suas vidas, cortando o que não convém. É claro que não se pode cortar tudo, mas vale, pelo menos, evitar, desconversar, sair de fininho etc.
Por curiosidade pessoal – e em decorrência de tal conversa – tentei enumerar, por exemplo, algumas coisas e pessoas que me dão prazer e considero boas ao meu viver. Vou colocar em ordem alfabética para deixar claro que não é uma classificação, mas uma listagem: acordar cedo, amar, amigos, andar, anonimato, aprender, ar condicionado, banho frio, café com minha mãe aos domingos, cinema no cinema, cheirar a Amanda, comer e beber com amigos, comer pouco, construir, conversa inteligente, criar, descobrir lugares novos, dinheiro no bolso, dizer o que penso, enfrentar desafios, escrever, esquecer mágoas, estar com saúde, estar vivo, fazer as pazes, ficar em casa, lençol velho, ler, ler livro grifando, meu quarto, minhas filhas, música lenta, orar pouco e só, pagar em dia, pesquisar na Internet, recortar jornal e revista, roupa usada, ser independente, ser útil aos outros, sonhar, soprar os pés da Luana, tesão, trabalhar, viajar, além de outros.
Cada pessoa sabe quais são as melhores coisas da vida para ela. Depende do sexo, da idade, do estado civil, da situação financeira, do nível intelectual, da bagagem cultural, do estado de espírito etc. Procure você fazer uma lista das coisas e pessoas que lhe agradam.
Eu, enquanto puder, vou tentar, neste ano, não falar em crises, catástrofes, problemas, política, economia etc. Já tem muita gente cuidando disso. Das crises e catástrofes, as televisões fazem os seus filões; os problemas estão ajudando psiquiatras, psicanalistas e psicólogos; a política é o carro forte dos jornais que batem nos governos federal, estaduais e municipais e adoram uma publicidade institucional; economia é coisa para todo mundo, até para economista.
O ideal, repito, nestes dias de hoje, é tentar falar das coisas boas da vida, não à guisa de fuga da realidade, mas como forma de ajudar a transformá-la em algo mais leve, menos caótica e suportável. O que são as coisas boas da vida? São as que fazemos por e com prazer, sem obrigações, com riso e alegria no coração.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/1999.

Sem categoria

OS NOSSOS MAPAS

O ano terminou, morreu. Outro ano nasceu e também morrerá. Os anos tem ciclos definidos e só podem fazer bem ou mal durante certo tempo. Por exemplo, este ano que terminou, ou morreu, só serve agora para a história e as estórias que dele se contarão. Quando muito, ficará na memória das pessoas, pelo que representou em suas vidas.
As pessoas são diferentes. No início de cada ano e, dizem, nos aniversários, recebem uma carga de energia transformadora, quando parece eclodir uma espécie de dilúvio interior que as compele a colocar em suas arcas o que vale a pena escapar. Esse dilúvio, esse cataclisma, é um processo a que todos somos obrigados a passar. Seria, talvez, o que se diz em psicologia: um rito de passagem. É como se recebêssemos um aviso do eu profundo, dizendo: explore seus sentimentos e reformule sua maneira de encarar as pessoas e a vida e aí você encontrará suas próprias respostas. Nós podemos ter todas as respostas. Muitas vezes não queremos ou sabemos fazer as perguntas certas.
No ano iniciante (e no dia do aniversário, vá lá) o espelho não deve só refletir a nossa face, mas, se mudarmos o paradigma e encararmos a possibilidade de, ao mesmo tempo, sermos responsáveis e livres, poderemos ter consciência de que a nossa vida tem sentido.
Os nossos paradigmas são, em suma, a maneira como vemos e encaramos o mundo e as pessoas. Imaginemos, por exemplo, que desejamos conhecer Paris com um mapa que nos deram. Na impressão do mapa, aparentemente certo, tem o nome Paris, só que a cidade é outra, por um erro gráfico. Não vai adiantar procurar o Louvre, a Notre Dame e o Boulevard Saint Michel, pelo simples fato do mapa não ter nada disso, apesar do nome Paris lá em cima. Logo, é preciso descobrir se o mapa está certo e, se for o caso, trocar de mapa. Às vezes, o que parece, não é, apesar do escrito.
Nas nossas cabeças, como diz Stephen Covey, escritor americano, nós temos muitos mapas. Os mapas podem ser de dois tipos: mapas de como as coisas são, ou a própria realidade (mapas reais) e mapas de como as coisas deveriam ser, segundo os nossos valores pessoais (mapas imaginados).
Cada um faz sua vida a partir desses mapas. Raramente procuramos descobrir se o mapa está certo e, às vezes, usamos os errados sem perceber. Quem usa o mapa errado não chega a lugar nenhum ou, quando muito, ao lugar para onde não queria ir.
Além de tudo isso, é preciso saber o que queremos quando estamos com o mapa certo nas mãos. Não é só a mera posse do mapa que nos fará encontrar os caminhos. É preciso saber ler e entender as estradas e as mudanças que ocorrem nos mapas reais. Muitas vezes, chegamos a determinado lugar que sonhávamos e exclamamos: era isso?
Assim é a vida. Os mapas são cartas que precisam ser atualizadas em função da realidade, dos nossos desejos, do nosso crescimento e das próprias mudanças da vida e do mundo que somos obrigados a absorver.
Resumo da história dos mapas: A maneira como vemos o mundo e as coisas são a fonte do nosso pensar e agir. Duas pessoas podem ver uma mesma coisa de uma forma diferente e ambas terem razão. Isto não é uma questão lógica, mas psicológica. É célebre o desenho em que uns veem uma moça jovem e outros, de olhar mais acurado, descobrem uma velha de nariz adunco. Questão de ponto-de-vista.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/1999.

Sem categoria

O TITANIC E O 1999

Foi bom para o Brasil o filme Titanic ter passado em 1998. Foi bom para o Brasil que o maior número de pessoas tivesse tomado conhecimento do afundamento daquele navio. A história do Titanic tem mais de 86 anos mas, para a maioria dos que viram o filme, aquilo estava acontecendo ali, naquele instante. Além do romance água com açúcar, com lágrimas e suspiros, ficou claro que faltavam botes salva-vidas; não se diminuiu a velocidade de 41km/hora; carecia de modéstia o seu construtor Morgan Islay e o comandante Smith foi displicente (inexistiam meros binóculos para os vigias em meio a tanto luxo). Junte tudo isso e se tem facilmente os porquês do naufrágio na madrugada de 14 de abril de 1912.
Antes do encontro fatal com o iceberg, o navio Califórnia, que navegava próximo, avisou do perigo. Posteriormente, outro navio, o Balthic, voltou a avisar. Resumo das águas: não faltou aviso. O que faltou? o elementar: simples binóculos, mais cuidados para mudar a rota, diminuir a velocidade e considerar sempre o perigo.
E daí? O que isso tem a ver com o iniciante ano de 1999? Todos estamos sabendo que vem iceberg por ai, a rota atual é de colisão, é preciso alertar sempre o comandante e os avisos semelhantes aos passados pelo California e o Balthic já foram dados.
Cada um de nós é um passageiro de terceira, segunda ou primeira classe desse grande navio que é o Brasil. Há anos ele navega em mares revoltos. Não é um Titanic de primeira viagem e nem todos os passageiros são deslumbrados. Não faz mal que diminua um pouco a velocidade. É preciso cuidado com o que faz o presidente FHC ( o comandante Smith) e não acreditar muito no que dizem os jornalistas. Na época da única viagem do Titanic da Inglaterra aos Estados Unidos, os jornalistas diziam que nem Deus afundaria aquele transatlântico. Todos erraram. Aliás, jornalista erra muito, graças a Deus. Então jornalista metido a economista é que erra mesmo.
Se falta dinheiro para comprar salva-vidas e botes para todos, que tal gastar uns míseros reais com simplórios binóculos? Ora, todos estamos avisados que vem iceberg por ai e isso é bom. Estaremos prevenidos. Todos ficaremos de binóculos e gritaremos para o comandante Smith, desculpem, o presidente FHC, sobre o perigo.
É preciso parar a festa e a gastança e ouvir o som dos mares no meio da noite. O Titanic tinha 16 compartimentos estanques, o navio Brasil tem centenas, milhares, milhões. Nós somos esses compartimentos.
Nós temos a capacidade de poder acionar os botões na hora certa e não deixar que esse colosso que é o Brasil naufrague por falta de avisos. Não fiquem tristes pela diminuição da velocidade, é preciso. Os icebergs têm uma rota só, o Brasil sabe – e como sabe – mudar de rota.
Acreditem em mim, comprando meros binóculos poderemos ficar alertas, sempre. Eu já comprei o meu e tenho certeza de que, na superfície e no fundo, os icebergs não passam de água congelada e nós somos um país cheio de sol que derrete tudo. Gelo então é pinto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/1999.

Sem categoria

PASSAGEIROS DO TEMPO

Não há como fugir do assunto. Procuro pensar em outra coisa, mas sobreexiste uma recorrência: fim do século. Hoje é o último dia do século em que todos nós nascemos. Amanhã, com o mesmo sol, a mesma lua, o mesmo mar e a mesma terra estaremos vivendo um novo século e outro milênio. Nós somos gente deste século, carregando em nossos corpos e almas as venturas e desventuras de um mundo que não é mais o que recebemos ao nascer.
Somos seres transformados, urbanos, carentes e plenos de dúvidas. Podemos até fingir o contrário, mas vivemos na era de extremos de que fala o historiador Eric Hobsbawn. O que sabemos do que vai acontecer em breve? Somos passageiros do tempo em um veículo em movimento com muitos pilotos e sem destino certo, pois não chegam a um acordo.
A sua inocente lista telefônica é feita por uma multinacional e foi impressa no exterior, o refrigerante que você consome, o ônibus e o carro em que andamos são todos produzidos por empresas cujos empregados nunca conhecerão os seus donos. A estrutura é maior que a pessoa, independente da sua importância.
Você está lendo um jornal impresso com tecnologia de ponta. Escrevi este artigo em um computador e o mandei por e-mail. O jornal é todo diagramado sistemicamente e a impressão é feita com um mero apertar de botão. Você vive a tecnologia, por mais simples que seja a sua vida. Não dá para se livrar dela. Um caixa de supermercado trabalha on-line. Ao mesmo tempo em que você compra um sabonete, o estoque é baixado e já entra na nova programação de compras. O operário mais humilde recebe seu salário em um caixa eletrônico, sem ninguém para ajudá-lo, pois a senha é só sua. Isto é o começo do novo futuro.
Nós todos somos mais urbanos. A população agrícola caiu, mas os equipamentos substituíram a mão de obra. Estudamos muito mais que no passado, embora ainda existam milhões de analfabetos em todo o mundo. Tivemos guerras, genocídios e ainda não conseguimos debelar doenças endêmicas e a fome. Mais de um bilhão de pessoas vive no mundo ganhando dois reais por dia. Mas, mesmo a indiferença já parece ter seus dias contados. Há uma ordem jurídica em transformação clamando por ética, pois até os Estados Unidos e a Europa estão sitiados pela imigração e não têm outra saída. Terão que entender a nova ordem do mundo, apesar da ganância das corporações. Devemos ter a consciência de que somos afortunados, em meio às limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade.
Enquanto isso, temos que reaprender o que fazer dos relacionamentos humanos, base primeira de nossa passagem pelo tempo. Temos que reaprender a conviver, a fazer escolhas e admitir responsabilidades, pois muitos estão perdendo os elos; o medo e a busca por segurança não devem nos enclausurar. Somos seres afortunados, apesar de todas as limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade. Não podemos viver sem utopias, somos prenhes de esperanças e isto é que nos faz bancar crianças à cata de um novo tempo, que virá com a graça de Deus, feito por nós, suas criaturas.
Precisamos estar juntos, apesar das nossas diferenças. Dois mil e um votos de felicidades para todos.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2000.

Sem categoria

CEM ANOS DEPOIS

Descobri um texto do escritor Gustavo Barroso da virada do século passado. O filme, se assim podemos chamar, não é novo. As expectativas de fim de século, sejam reais ou imaginárias, mexem com o nosso comportamento e podem desapontar. Vamos ao que diz Gustavo Barroso em seu livro “O Consulado da China”: “A 31 de dezembro tive licença de ficar na rua até depois da meia-noite. Só um grande acontecimento permitiria isso: a comemoração da passagem do século… O estúpido século XIX, como o denominou alguém, era substituído pelo século XX… Que decepção! Pensava que a passagem de um século para o outro fosse muito mais interessante, que houvesse qualquer alteração na ordem das cousas naturais, pelo menos assim como um estalo no mundo… que haveria de mais em ouvir-se o rumor das mudanças dos séculos? Como não pretendo assistir a outra passagem de século, força é contentar-me com essa”.
Cem anos são passados e, certamente, não assistiremos o dealbar do século XXII. O bom é nos alegrarmos com o que vai chegar daqui a uma semana, considerando que o mundo não é o mesmo da época de Gustavo Barroso. Agora temos a globalização e a ação de uma mídia predatória que compara pessoas, incita desejos e fomenta banais necessidades. Mas, estamos vivos e isto importa.
Hoje é o penúltimo domingo do ano. Neste, estaremos vivendo o Natal. No próximo, à espera dos novos anos, década, século e milênio. É sempre bom não ficar desapontado. É sábio não abortar sonhos, cumpre pari-los e deixar-se ficar enlevado em meio ao misto de euforia e depressão que embala as pessoas nessa ciclotimia própria desta época, já de muitos conhecida. Mas essa bipolaridade não deve embotar os nossos sentidos, apesar da realidade que nos espreita, como já o fazia há cem anos com o jovem Gustavo Barroso, sempre para cobrar o devido e o indevido.
Ao contrário do que dizia o compositor, dá para ser feliz. Basta ter capacidade de abstração e parar um pouco de gerenciar problemas pois, segundo o filósofo Marx, os problemas só existem porque temos a capacidade de resolvê-los.
Abrace os amigos. Confraternize. Feche os olhos, sonhe. Chute o balde dos desenganos e plante sonhos, mesmo que tenha que regá-los com suas lágrimas. Afinal, lágrimas devem ser vertidas, sob pena de causar estragos e, nesta época do ano só valem – se é que – os estragos com o beber e o comer. Torne-se simples, não dá para complicar quando até os abraços formais se transmudam pela essência da bondade que ainda existe em cada ser humano.
Feliz Natal. Sem medo. Sem culpa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2000.

Sem categoria

REFLEXÕES DE FIM DE SÉCULO

Pois não é que os tais de fim de ano, de década, de século e de milênio vão nos levando, mesmo sem querer, a fazer reflexões?
A primeira delas é: o que andamos fazendo neste mundo de meu Deus? Como nos livrar dos que roubam o nosso tempo e, paradoxalmente, cuidar dos dias e horas em que não fazemos nada, sós ou acompanhados, desperdiçando-os?
Este foi o século da ciência e da tecnologia, dos equipamentos criados para destruir (bomba atômica, gases tipo napalm, mísseis e outros) e facilitar as nossas vidas. No ano 1900 não tínhamos quase nada do que utilizamos hoje. O que nos foi agregado em matéria de felicidade ou, para ser pós-moderno, de qualidade de vida?
Com a geladeira, o cinema falado e colorido, as máquinas de lavar e secar, a televisão, o vídeo cassete, o ar condicionado, o fax, o telefone celular, o computador, o carro com airbags e freios Abs, o avião a jato, o micro-ondas, o cartão de crédito, as comidas congeladas etc. ficamos mais felizes ou mais neuróticos?
Nossos desejos de consumo foram ficando sem limites e isso nos levou a quê? Para que isso tudo foi feito? Por coincidência, ouvi ontem em uma emissora de rádio que a média de tentativas de suicídio nesta cidade de 2 milhões de habitantes é de dez por dia ou 3650 por ano. Dos que tentam, dez por cento conseguem.
A mídia nos impele a ficar por dentro de tudo, sabendo de tudo e desfrutar o que está acontecendo. Mas já se sabe que a maioria das pessoas só utiliza em torno de cinco por cento do que lhe é oferecido, em todos os sentidos. Falamos em bem-estar, lazer, afetividade, desejos, amizade, ecologia, cuidar do corpo, mas realmente estamos comprometidos com isso? As pessoas parecem estar fugindo dos outros e de si mesmas, em nome do quê?
Este também foi o século da penicilina, valium, prozac, gardenal, anticoncepcional, isordil, enfim, de tantos remédios feitos para prevenir, melhorar ou curar, mas as doenças se renovaram, os vírus se multiplicaram, as bactérias estão aqui e ai e a ciência de tantas universidades e laboratórios não sabe o que fazer com muitos tipos de canceres e ainda parece estar longe a cura da Aids que já afeta 36 milhões de pessoas, isto sem falar na fome endêmica da África, enquanto alimentos são desperdiçados nos países do Primeiro Mundo.
Não é catástrofe, nem pessimismo, mas não podemos viver em um mundo do faz de conta. Há, por outro lado, muita coisa boa acontecendo e a realidade só pode ser mudada com ação e não com avestruzes. Vá fazendo a sua parte, pare de conversa mole e mude você o que achar que está errado. Pare de dar valor a coisas, pessoas e instituições sem sentido. Só a partir da sua própria conscientização, as coisas, as pessoas e as instituições poderão ir mudando. Leva tempo, mas precisa começar a ser feito. Agora é hora.
O que estamos refletindo é o que vivemos neste instante. Amanhã poderemos pensar diferente, mas já é um caminho. Você não é obrigado a concordar conosco, mas é ruim não pensar, esperar por governo, políticos e acreditar em promessas. Duvide e aja. Rememore Einstein: “Uma coisa só é impossível até que alguém duvida e acaba provando o contrário”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2000.

Sem categoria

FREUD E OS SONHOS

Embora leigo, não resisto à ideia de fazer uma leitura de “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud, obra que está completando 100 anos. Ela nos remete a sentimentos de alegria e perplexidade.
Alegria, por estarmos procurando respostas coerentes para esse ainda grande mistério que é o sonho. Perplexidade, por ser um assunto de múltiplas interpretações, ensejando visões de todo tipo, em que se misturam conhecimento com religião, culpa com desejo, enfim, um amálgama. É claro que o estudo dos sonhos continua a ter um lugar destacado na psicanálise e sendo “A Interpretação dos Sonhos” uma referência, apesar de escrita há cem anos, não há como desconhecer o que o próprio Freud considerou como a mais valiosa descoberta que tivera a felicidade de fazer.
O sonho parece ser o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente, incluindo o aprendizado, são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo.
A interpretação dos sonhos trás a tona os conteúdos mentais reprimidos ou excluídos da consciência pelas atividades de defesa do Ego. A parte do Id, cujo acesso à consciência foi impedido, é a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Daí o grande interesse de psicanalistas pelos sonhos dos pacientes. Ora, se os sonhos são fenômenos comuns e normais, devem servir para ajudar a identificar e entender os processos desencadeadores dos sintomas neuróticos.
Fica claro que os sonhos, além da mera compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, revelam o que foi reprimido ou excluído da consciência. Para o fundador da psicanálise até os sonhos de angústia, os pesadelos, os que fazem as pessoas acordarem no meio da noite, são realizações de desejos.
Ele justifica essa teoria agrupando os sonhos em três tipos ou categorias: Primeiro – sonhos em que a realização dos desejos está tão clara que quebra as regras que se estabeleceria entre as forças motivadoras do sonho: o desejo de dormir e a realização disfarçada dos desejos inconscientes. Segundo – os sonhos punitivos ou masoquistas, quando os “sonhadores” estão vivenciando momentos satisfatórios em suas vidas. Passam a ter um caráter punitivo ou masoquista ao surgirem como pesadelos que estragam o prazer dos bons momentos vividos acordados. Terceiro – sonhos em que a angústia é produzida por fatores alheios a eles próprios: doenças físicas, entre outros. Nessas hipóteses, os desejos inconscientes que, em outra situação, teriam ocasionado esse mesmo desenvolvimento de angústia, aproveitam para surgir sem disfarce. Posteriormente, Freud faz menção a uma única exceção a essa fórmula, a dos sonhos traumáticos.
Para Carl Jung, um dos seguidores de Freud: “O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e de mais íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma antes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que possa alcançar a consciência individual”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2000.