Não só as mulheres, mas também os homens foram obrigados a tomar conhecimento da existência de uma escritora chamada Simone de Beauvoir. Em 1949, um ano importante para as mulheres, nascia o livro “Segundo Sexo”, obra que marcava uma mudança de comportamento entre pessoas que tinham, até aquela data, uma vida de submissão.
O jornalista Marcelo Rezende, diretamente de Paris, cobriu para o suplemento (GZM) “Leitura Fim de Semana”, de 31 de janeiro passado, um congresso de feministas que resolveram rediscutir a obra de Simone de Beauvoir. Mulheres de todos os lugares, especialmente francesas, tentaram esclarecer um pouco mais a vida e a obra dessa charmosa e bonita De Beauvoir que, já aos 17 anos, se dedicava à literatura e à matemática. Daí para o socialismo foi um pulo. Em 1929, aos 21 anos de idade, conhece Jean-Paul Sartre que foi seu companheiro até 1986, quando morreu.
Dizem que o livro “O segundo sexo” surgiu de uma pergunta de Sartre para Simone: “O que é uma mulher?” Sua resposta foi o “Le deuxième sexe”. A frase mais batida do livro é: “Não nascemos mulher; nos tornamos”. Segundo M. Rezende, em sua análise: “Uma mulher não é ‘naturalmente’ nada. Ela pode tornar-se o que desejar. Não há lei, regras biológicas, ‘estado natural das coisas’ determinando o ‘estar no mundo’ feminino. Não existem diferenças qualitativas. Não existe um jogo de superioridade e inferioridade”.
É a partir dessa constatação que o homem, acostumado há milênios a ser o senhor, o provedor, o predador e o protetor, começa a ficar incomodado e não consegue reagir bem. Problema cultural? Problema biológico? Só para se ter uma ideia o escritor francês Albert Camus disse ser a obra de Simone “uma ofensa ao macho francês”.
Como se vê, partiu da própria pátria civilizada de Simone o primeiro grito de revolta masculina contra a liberação das mulheres. Por quê isso? Certamente porque as mulheres não pediram licença e foram construindo as suas vidas novas, crescendo em conflitos com os homens, mas transformando esta segunda metade do Século XX num ambiente em que foram tornadas públicas as revoltas das mulheres contra a dominação masculina.
Talvez cinquenta anos, dentro do contexto geral da história, seja muito pouco tempo para que surja uma relação amadurecida entre homens que traziam ao nascer a “certeza de mandar” e mulheres que pensavam em compartilhar, mas não sabiam como fazê-lo ainda. Era preciso chocar, impor e aí vieram os conflitos, as separações e desencontros.
O crescimento das mulheres nos diversos campos sociais pode ser o condão para reatar os elos ainda tão frouxos entre mulheres que exigem direitos e parceira e homens acostumados a impor deveres e decisões.
As gerações que viveram sua adolescência na primeira segunda metade deste fim de século receberam uma carga muito forte de transformações, não souberam costurar, via de regra, uma relação nova, amadurecida, provavelmente por causa da luta pela sobrevivência e da falta de conhecimentos psicológicos, sociológicos e culturais para tratar do que surgia de forma tão abrupta.
O que nos consola é que as novas gerações, nascidas já na segunda metade deste finzinho de século, possam ter absorvido essa revolução no relacionamento mulher e homem. Por outro lado, contraditoriamente, há uma revisão do feminismo, feita “post-mortem” pela própria Simone. Descobertas há três anos, foram editadas cartas de Simone em que ela revela sua paixão pelo escritor americano Nelson Agren. Eis um trecho: “Eu lavarei o chão para você; eu cozinharei para você. Eu pertenço a você, e assim é o meu amor”. Essas revelações não diminuem as conquistas do feminismo, pelo contrário mostram que nós, homens e mulheres precisamos sempre reaprender a viver, admitindo nossos desejos, fraquezas, esquecendo velhas regras e preconceitos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/1999.
