O advogado e conselheiro-fundador do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, Manuel Pio Saraiva Leão, era irmão de minha avó Luiza. O novo presidente da Academia Cearense de Letras, ontem empossado, é o seu filho único, Pedro Henrique Saraiva Leão. Foi ele quem, em 1962, ao viajar para o exterior, me convidou a assumir a coluna “Informes Acadêmicos”, da qual era redator, no jornal Correio do Ceará, Diários Associados, onde permaneci até 1968. Esse preâmbulo é feito apenas para dizer da minha alegria ao vê-lo na presidência da mais antiga academia de letras do Brasil, fundada em 1894, no mesmo lugar onde pontificaram Antonio Martins Filho, Eduardo Campos, Cláudio Martins, Artur Eduardo Benevides e Murilo Martins, para ficar nos mais recentes que, reunidos, somam quase meio século de presidência. Ele substitui a Murilo Martins, médico, professor e intelectual, figura singular da cultura cearense que agrega amizades, não falta a compromissos e cumpre horários. Pedro Henrique também é médico, cirurgião, professor universitário em duplo grau, poeta, editor e articulista. Curioso, arguto e inteligente, sabe eleger leituras e o faz com o mesmo esmero com que usa o bisturi, identificando o que deve ser extirpado e o que deve ser preservado. Como poeta, Pedro Henrique estabelece, como disse o poeta espanhol Dámaso Alonso, um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor. Abraçou com arte e ofício o concretismo, sendo um experimentalista da palavra, focando seus versos na mensagem, dando realce aos elementos constitutivos da expressão e ao seu sentido conotativo. Como concretista, utilizando o visual gráfico, o processo de criação, a montagem e a semiótica, nada fica a dever aos paulistas Haroldo e Augusto de Campos, autodenominados criadores do concretismo no Brasil. Esse movimento, na verdade, surgiu na segunda metade do século passado, a partir da vinda de Max Bill, arquiteto, pintor, intelectual e design gráfico suíço que, em 1956, montou a primeira exposição nacional de Arte Concreta. Autor de mais uma de uma dezena de livros, Pedro Henrique é ainda membro da Academia Cearense de Medicina e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Seção do Ceará. Edita há anos, com zelo gráfico e o cuidado de revisor, a revista Literapia, de excelente feição gráfica, que reúne poetas, cronistas e ensaístas do nosso Estado. A comunidade acadêmica o recebe com júbilo, acredita na capilaridade cultural e social do novo presidente da ACL e sabe que os planos em andamentos, como o restauro da sede e a sua adequação ao mundo tecnológico, serão implementados, ao mesmo tempo em que ele dará vazão ao seu espírito de editor contumaz. Walter Whitman, um dos bardos lidos por Pedro Henrique, disse certa vez: “Para que haja grandes poetas é preciso grande público”. Parodiando o poeta americano eu direi: para que haja uma grande administração da ACL é preciso que haja um grande público.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2009
