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PROPAGANDA GRATUITA? – Diário do Nordeste

Públio Siro, poeta romano, certamente não seria hoje marqueteiro. Ele dizia: “Não prometas mais que possas oferecer”. Ora, o que se quer, independente de partido, coligação ou candidato (a) é gerar no espectador/eleitor um clima que o seduza. A sedução é feita de promessas, da maquiagem de dados, da falsa impressão de que falam livremente. Na frente dele (a)s fica um “teleprompter”, aparelho que dita e legenda suas falas, podendo sugerir inflexões de voz, postura e contração/descontração da face. Assim, são dirigidos como se atores em busca da perfeição na dicção, da simpatia que não tenham trazido do berço ou do entusiasmo que lhes possa faltar. Agências de propaganda transformam os candidatos majoritários em produtos e criam quimeras, rótulos, embalagens e certificados de qualidade.
Napoleão Bonaparte falava: “Sei, quando necessário, deixar a pele de leão para usar a da raposa”. Assim era na Revolução Francesa, assim é hoje no Brasil, pós Revolução de 64, e será no futuro. Nereu Ramos, velho político catarinense que chegou à Presidência, dizia que “a política é a arte de engolir sapos”. Se vivo fosse, diria mais, pois o (a)s candidato (a)s a senadores, presidência da República e aos governos dos Estados têm que engolir recomendações de jovens publicitários, maquiadores, estilistas pessoais, fonoaudiólogos e outros. Não bastam os contatos obrigatórios em debates, entrevistas, ruas, praças, estádios, auditórios e palanques. É preciso ficar atento ao detalhe que deve ser incorporado ao gestual para passar empatia e conseguir do eleitor a adesão ao seu projeto que sofre a interferência de técnicos que ditam números e datas.
Dessa forma, candidato (a)s são, a partir de agora e até o dia 30 de setembro, feixes de nervos ambulantes, a beira de estafas e, querendo ou não, rindo, abraçando, recordando vínculos e nomes, viajando, comendo mal, dormindo pouco, ouvindo pedidos e prometendo o que não podem cumprir. Nessa história da propaganda gratuita quem ganha mesmo são as emissoras de rádio e de televisão. O horário eleitoral custará em 2010, com isenções tributárias, 856 milhões de reais. Você sabia?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/2010.

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GENTE QUE CONTA – Jornal O Estado

Hoje, sexta-feira, dia 20, estarei lançando o livro “Gente que Conta”. Será na Oboé, sete da noite. Você é meu convidado. Não haverá discursos. Conversas informais, regadas a vinho. Devo dizer que gosto de ler, ver e ouvir entrevistas. Daí, resolvi ser entrevistador. Decidi, de princípio, que entrevistaria pessoas notórias, pela singularidade de suas vidas e êxito alcançados. Em Gente que Conta cada entrevistado é universo singular e especial. Todos são cearenses de vida ou de coração. São múltiplos nos fazeres, falares e saberes. Eles têm essência e ritmo. São capazes, ciosos da sua imagem, falam sobre suas vidas, a troco de nada.
Alguns desvendaram faces sem maquiagem. Outros usaram sutilezas e personas. Cada ser é mistério e tem compasso próprio. As entrevistas trazem um pouco da história vivida do Ceará no último quarto do século passado e um pouco deste. A linguagem é a falada. Cada um cuidou da sua. Falam livres, abrem as comportas de suas lembranças. Nenhuma censura, mesmo em repetições, empolgadas ou não. Procurei a isenção possível, embora houvesse que pesquisar e me familiarizar com suas estórias pessoais.
O livro foi feito com juízo crítico, mas pode conter falhas ou omissões. Procurei não fazer perguntas incoerentes, arbitrárias, dúbias, desarticuladas ou tendenciosas. Por outro lado, tive a intenção deliberada de ir desvendando o espírito, a lógica, a cultura e o comportamento de cada um. São quinze os homens entrevistados. E somente uma mulher consta do livro.
O poeta espanhol Garcia Lorca falava: “A vida não é sonho. Acorda!”. Como demorei a montar o livro –sete anos – três entrevistados já faleceram: José Raymundo Costa, Marcelo Linhares e José Alcides Pinto. Lamento as ausências físicas deles. Esses fatos não mudaram as importâncias de suas entrevistas. José Raymundo Costa foi referência na área jornalística, tendo sido executivo de estreita confiança de seu jornal. Já avô, formou-se, por capricho, em Comunicação. Observador atento do comportamento de seus pares e da sociedade, virava criança ao torcer pelo seu clube, o “Fortaleza”. Marcelo Linhares, exemplo da ascensão do jovem bancário – com passagem pela administração pública – à vida política local e nacional, com quatro mandatos consecutivos de deputado federal, assessorou ministérios e aquietou-se como biógrafo e historiador. José Alcides Pinto, escritor, não se enquadra em padrões ou definições e teve, como autor, uma profícua atividade: poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e cronista. Puro e maldito em sua criação, simples e ousado no seu saber difuso. Foi escritor-fantasma (ghost-writer) para muitos. Por amizade ou cobres. Aqui e alhures, em paralela produção à sua. Os que se seguem, em ordem alfabética. Ana Miranda, escritora premiada e consagrada nacionalmente. Após longa permanência em Brasília, Rio e São Paulo, voltou ao Ceará largado na infância para reatar laços e produzir mais. Artur Eduardo Benevides, representante da geração de 1945, do grupo Clã, referência na historiografia da poesia cearense. Chico Anysio, o maior humorista brasileiro de todos os tempos. Cineasta, compositor, escritor e pintor de múltiplas tintas. Elano Paula, o mais inteligente dos filhos do Cel. Oliveira Paula, pai do Chico Anysio. Ernando Uchoa Lima, advogado criminalista, ex-presidente nacional da OAB nacional, professor e político. José Júlio Cavalcante, ex-radialista, é o retrato da velha radiofonia cearense. Militava na esquerda, sem esquecer de ser representante comercial com bons relacionamentos. José Macedo, empresário de proa, líder de grupo de indústrias e chefe de família que o ajudou a consolidar sua posição no mercado nacional de trigo. Incursionou na política e de sua aura se destaca o grande ser humano. Juarez Leitão, poeta, professor, político e orador. Descobriu, na maturidade, a capacidade de escrever biografias de personagens familiares, a partir da contextualização, pesquisas e depoimentos de parentes e amigos. Lúcio Alcântara, médico, professor universitário e político com sólida formação cultural. Foi secretário de Estado, prefeito, governador, deputado federal e senador. Lúcio Brasileiro, colunista social mais longevo do Brasil. Natureza especial e memória ímpar. Fez-se autor e personagem de seus ‘gossips’. Edita lista bianuais da sociedade e livros, recontando estórias e se isola entre as praias de Cumbuco e Ibiza. Lustosa da Costa, auto exilado em Brasília. Visitante mensal da biblioteca sobralense que leva o seu nome. É arquivo vivo do jornalismo do Ceará, a partir dos anos sessenta. Ubiratan Aguiar, longo percurso de vida pública. No ponto A é o jovem vereador de Fortaleza. No ponto Z é o Ministro do Tribunal de Contas da União. Entre o A e o Z fulgurou a política e, agora, ancora-se em versos musicados.
Em resumo, O livro tem 16 portas. Uma chave mestra: o leitor. Sou apenas o perguntador. Espero você hoje à noite, na Oboé na rua Maria Tomásia, 531.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/08/2010.

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CONVERSA AMIGA – Diário do Nordeste

Serão todos sempre os mesmos? Cremos que muito muda com o correr dos passos e descompassos. Somos sempre diferentes no contato com pessoas. Uns são alegres, comunicativos, mas, esses não se apercebem da essência do outro. Como diria um amigo, procuram “tangenciar problemas”. Outros, mais fechados, críticos, entretanto, detendo-se na procura de saber do outro.
Os relacionamentos são, muitas vezes, minados. Minados por familiares, amigos e os falsos-amigos, essa grande comunidade semi-invisível existente em qualquer sociedade. É um processo de envenenamento considerado natural, pois comum nas relações ditas sociais. “Eu te protejo, a troco de nada”. A maioria das pessoas gostam de ter amigos, colegas e familiares disponíveis, solitários, livres, mas não se apercebe que a solidão do outro é um passo para desarranjos de todas as naturezas. Assim, vão sendo alvos de comentários, suspeitas, discussões e até de cerceamento do encontro a dois, dádiva ou característica positiva, graças, quiçá, ao mútuo bem-querer.
Estar a dois passou a ser interpretado como isolar-se, casmurrice, ciúme e abandono dos outros. Não é bem assim, o encontro permanente é o segredo do relacionamento, os que se desnudam como pessoas, esquecendo as `personas’ assumidas ao longo das vidas.
Enquanto alguns procuram em análises, livros, escritos e filmes as respostas que a vida não lhes deu para entender suas próprias idiossincrasias, outros permanecem no ilusório mundo dito fashion, oba-oba ou na busca estética.
Essas considerações superficiais são meras convicções pontuais a merecer exame e crítica, especialmente quanto a parentes e amigos. Àqueles que acessam os outros pessoalmente, por telefonemas ou quaisquer outros meios. Racionalmente, deve-se admitir existir exagero no direito a essa intromissão. Não sabem eles como alguém estar, com outrem, além deles. Identificados e solidários. Querem mudar, conscientemente ou não, o d de solidários para o t de solitários. Permitir ou não, essa a façanha que cabe a cada um. São fortes, se solidários? Terão gente ao lado, se vulneráveis, fraternos e solitários?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/2010.

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JORGE TUFIC, OITENTANOS – Jornal O Estado

Exato nesta sexta-feira, 13, a cidade de Sena Madureira, lá no longínquo Estado do Acre, símbolo da tenacidade de cearenses, sulamericanos e de fenícios que por lá aportaram, nascia há oitenta anos, um menino chamado de Jorge Tufic, aquele que seria o maior poeta da região norte, um rio pleno de sonetos, a jusante e à montante que se fez pororoca, turbilhão e deu com os pés molhados nas águas rionegrinas/manauaras para ali estudar, fincar raízes e, em seguida, receber louros como “O Poeta do Ano”, em 1976, com o veredicto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Amazonas.
E como “estas rosas que alteram nosso dia/e abrem na tarde a súplica dos dedos/ que se libertam, pássaros, no barro/ E tocam, com sua forma torturada, a flor do azul contida e descontida/neste adágio de pedra e de luar”. E o luar da Academia Amazonense de Letras fez-se clarão para festejar o ingresso de Jorge Tufic em seus quadros. Honrado e glorificado que já era como poeta, jornalista e representante da União Brasileira de Escritores na Amazônia, a região que lhe inoculou o jambo da sua tez e o coração de menino inquieto quando via que “um tear e uma aranha/ponteiam o meu destino/quando o tear se esgota,/a aranha pega o fio/e sobe”.
E Tufic ascendeu e mereceu ter seus poemas festejados na antologia “A Nova Poesia Brasileira”, coordenada pelo piauiense Alberto da Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras. Enciumado, Walmir Ayala, veio de seus pagos gaúchos, em 1965, para apenas mudar o título da antologia e entronizar Jorge Tufic no panteão da “Novíssima Poesia Brasileira”. O poeta, hoje acreano-amazonense-cearense se declara “habitante da noite, volta e meia/danço e cavalgo estranhas partituras/onde a poesia? Látego e correia/a suíte é rosa, música e nervuras/ A lua imensa bebe, nas alturas/ todo o clarão que sobe dos teus dedos/ o mar se expande em conchas e lacunas/solos e flautas contam seus segredos”.
Pelos desígnios insondáveis dos deuses das águas, Jorge Tufic apaixonou-se pela Praia de Iracema e aqui fundeou suas estrofes. Foi lá que o conheci há décadas. Nós, os da terra, desconfiados, pedimos que alguém sem jaça, com raça, talento e graça o avalizasse. E eis que o poeta Francisco Carvalho, do seu exílio familiar na Francisco Lorda, atestou, deu fé e tornou público que ele era “Mestre incontestável do soneto, essa teia mágica que ainda intriga os pretendentes de Penépole, Tufic passa incólume pelas ‘perpétuas grades’(Augusto dos Anjos) dessa autêntica jaula medieval, com certeza uma das mais polêmicas de todas as modalidades de poemas já concebidos pela fantasia”.
Com esse aval crítico-poético de Carvalho as comportas das reservas dos letrados locais foram abertas, título de cidadania recebeu e, hoje, todos nós, menores que ele, o reverenciamos com a alegria dita por Madame de Staël em De l’Allemagne, “La poésie est le language naturel de tous les cultes”. Jorge Tufic, és culto, és poeta.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/08/2010.

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CULTURA E ESCRITOR – Diário do Nordeste

Estamos, eu e Auto Filho, secretário da Cultura do Ceará, a tomar café. A ideia é se montar um arcabouço, diagrama ou projeto do que possa vir a ser um Anuário da Cultura do Estado. Essa é a ideia ampliada do que venho tentando no âmbito da Academia Fortalezense de Letras e de Fortaleza. Tenho falado e escrito ser oportuno identificar os agentes da cultura, independente de serem membros ou não de universidades, instituições ou academias.
Sendo Auto, por natureza, filósofo e polêmico, há muito a discutir antes de se tornar prática e objetiva, como é do meu jeito, essa conjunção de pensamentos. O primeiro acerto foi a escolha da Linguista Karine David, para gerir a ideia, ela que foi a curadora da última Bienal Internacional do Livro do Ceará. Faço fé no projeto. Depois, ele me pede, de bate – pronto para definir o que é um escritor. É provável que Michel Foucault, nos dê uma pista no seu texto “O que é um Autor?”. Segundo ele, “a noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, nas histórias da filosofia também e na das ciências”.
Cada autor tenta mostrar seu deslumbramento ou sua veracidade no arranjo da obra, tornando-a singular, fazendo-a, com competência ou não, merecedora de maior ou menor grau de confiabilidade e importância. Diria que o escritor não é um excêntrico, tampouco deve possuir qualidades incomuns, apenas faz da escrita um ofício. Como esse ofício não é por muitos entendido, poucos são os escritores que vivem da composição. Escrever requer sentimento maior que lucidez e lógica. É materialização do desejo, do pensar, do devir e das angústias ou sonhos, expressadas em diferentes estilos e gêneros, pedindo maturação ou urgência. Ou, como fala F. Dürrenmatt: “Escrever é um processo. Ou infinitamente veloz, ou infinitamente lento”.
Escrevinhador semanal, ainda não provado em texto de longo curso, quedo-me restrito ao tempo e ao espaço que me concedem, sabedor dos limites de toques, somo palavras e tento, de alguma forma, trazer o leitor até o ponto final. Esse ponto que nos liberta, aprova ou condena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2010

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APRENDIZADO DE PAI – Jornal O Estado

Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. Não havia livro que ensinasse nada. O máximo era o “Livro do Bebê”, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemitério. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pré-natais, estive em todos os partos, até vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atrás de paredes para que não me flagrassem por lá. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada.
Sofri sozinho, a invasão de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. Descumpri sinais de trânsito, após uma filha cair de ponta-cabeça até chegar, cantando pneu e esbaforido, ao hospital. Bati palmas e fotos em festas aniversárias e em festivais de ballet de todas elas. Mandei gradear piscina enquanto contratava professor de natação. Briguei com pediatras para serem atendidas com presteza. Procurei saber de colégios, professores, métodos de ensino, cursos de idiomas e quem eram suas companhias.
Desci serra, interrompendo fim de semana, por conta de braço quebrado de filha. E, foi assim, passo a passo, em compasso ou descompasso, em dupla ou à capela. Era apenas um menino-homem que abria, por outro lado, o duro, difuso e desigual combate da vida profissional independente, sem patrão e padrinho, pois fora essa a minha opção. Montei uma empresa apenas com o nome, sem capital e precisava cuidar dela. Isso, entretanto, nunca me impediu de tomar café, almoçar e jantar em casa.
Todos os fins-de-semana eram da família e, para isso, procurei uma casa em praia ainda deserta povoada de amigos com seus filhos, colegas de classe de minhas filhas. Sem saber muito de como conduzir a linguagem e relacionamento entre adulto e criança, criei uma estória que durou anos. Ela tinha duas personagens, Rosinha e Paulinho, através dos quais procurava passar o que acreditava ser exemplo, ensinamento e alegria. Paulinho e Rosinha eram bons filhos e alunos. Tantas foram as vezes em que chegávamos a um local e o Paulinho e a Rosinha haviam acabado de sair. Brincamos em festas, carnavais infantis e em clube.
O tempo ia passando. Levei-as à Disneyworld como processo de crescimento e não de deslumbramento. Tomávamos banhos à beira-mar deserta, enquanto o “Buggy” se quedava próximo para passeios relaxantes. E havia esportes em casa, mais de um. Depois, viajamos, aqui e alhures. E, uma a uma, foram se pondo moças, algumas atônitas com mudanças as tornando distintas do que eram. E houve crise, Deus sabe.
Procurei entender, auscultar e fazer o possível. E descobri ser a adolescência feminina mais complexa que imaginava. Chorei trancado em banheiro por não entender e descobrir a razão. Por outro lado, fui fustigado anos a fio por concorrência articulada, sem dó e piedade, tentando me alijar do que fazia. Era luta solitária, incompreendida e indormida. Veio a idade de estudarem fora do país e me vi levando-as para casa de irmãos habitantes da América, não sem antes conhecer escola, falar com a direção e deixar tudo acertado. Choros e crises. Foi mais uma luta, telefonemas longos, mas terminaram – e bem – os cursos. Ao trazê-las de volta, camioneta cheia de malas e quinquilharias. E assim foram todas.
Depois, vieram namoros, rompimentos, reatamentos, conclusões de cursos universitários, casamentos festivos, netos acolhidos com sentimentos e escritos. De repente, me dei conta, não fazia mais parte do time, havia recebido cartão vermelho, por faltas cometidas e a vida doía. Tornei-me mero provedor, “outsider” e descobri-me desaprendiz de pai.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/08/2010.

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NORDESTINOS PAULISTAS – Diário do Nordeste

Algum político sabido conseguiu instituir a data de amanhã, 02 de agosto, como Dia do Nordestino, em São Paulo. Essa São Paulo, a dever tanto aos nordestinos, “baianos” como lá são chamados. Alguns nordestinos fizeram diferença em São Paulo. O fundador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica- ITA, escola de excelência no Brasil, era cearense, o Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho. Luiza Erundina, paraibana, prefeita paulistana no fim dos anos 80, saiu limpa, ao contrário de uma colega e outros ex-ocupantes. O maior nordestino de São Paulo é Luiz Inácio, homem que, em São Paulo, gosta de polenta e, quando viaja à sua terra, come panela e baião de dois. Ele, saído do interior pernambucano, fez-se paulista, menino que era, e tornou-se Lula, dirigiu sindicato e ingressou na política.
Hoje, prestes a deixar a exitosa Presidência da República redescobriu o Nordeste, especialmente Pernambuco, a quem beneficiou de forma generosa. Tramita na Câmara de Vereadores de SP projeto de lei que só permite acesso a serviços e equipamentos públicos na paulicéia a quem já morar e lá tiver emprego há, pelo menos, dois anos. Essa ideia é barrar o contingente que, no início dos anos 2000, perfazia dois milhões de pessoas, a maioria da Bahia. Há na própria Câmara paulistana vereador conterrâneo do Lula, José Rolim, líder comunitário, nascido em Garanhuns, que propôs em 2008, a criação de um Centro Cultural Nordestino, ainda não aprovado. Existem queixas de nordestinos contra a ausência de espaço coletivo. Falam da discriminação sofrida, a partir de piadas de humoristas, inclusive nordestinos, e deliberada na hora do recrutamento por empresas.
Essa diáspora iniciada no século XIX, face o problema das secas, se acentuou na segunda metade do século passado e, infelizmente, não parou. O Nordeste sabe-se, abriga o maior número de analfabetos do país, cerca de 20 milhões, incluindo os funcionais, aqueles a apenas garatujar o nome. Ano eleitoral, o povo nordestino receberá promessas, cofiará a cabeça e não poderá votar em Ciro Gomes, paulista nordestino, que confiou em nordestino paulista. E agora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/2010.

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CONVITE URGENTE – Jornal O Estado

Em determinado dia do meado de 2002 recebo telefonema da Embaixadora do México no Brasil, Cecília Soto. Queria localizar o ex-ministro Ciro Gomes e pedia minha ajuda. Assim o fiz. Tratava-se de convite para encontro reservado, dia seguinte, em Brasília, com o então Chanceler ou Ministro das Relações Exteriores – como se diz aqui – do México, Jorge Castañeda, que tem “expertise” em História da América Latina, sendo professor universitário nos Estados Unidos, mestre em economia pela Universidade de Princeton e doutoramento em História Econômica, na França. Aquela época, a famosa cantora mexicana Gloria Trevi estava presa na Polícia Federal em Brasília e isso causava certo desconforto pelo assédio da imprensa à Embaixada para obter pronunciamento, o que não era o caso, pois se tratava de problema entre polícia e artista. No dia seguinte, já em Brasília, vi que preexistia amizade entre o Chanceler Jorge Castañeda e o ex-ministro Ciro Gomes. Sedimentada, quem sabe, conversas outras ao tempo em que Ciro
Gomes estivera na Universidade de Harvard. O fato é que, ao meu juízo, pareceu se consolidar ali núcleo de pensamento político singular para dar melhor destino ao futuro da nossa parte na América Latina. Logo depois, 2003, Jorge Castañeda deixa as Relações Exteriores e, ano seguinte, se candidata, sem êxito, à presidência do México. Não por coincidência, Ciro também se candidatara a presidente do Brasil, em 1998 e 2002. Agora, neste fim de julho de 2010, Jorge Castañeda está no Brasil, a convite do “Fronteiras do Pensamento”, movimento internacional para estudar as mudanças do século XXI, através de seminários, estudos e conferências, da “Casa do Saber”, entidade brasileira promotora de debates e círculos de estudos e do jornal Folha de São Paulo, divulgando tudo. Castañeda, em longa entrevista, fez elogios à política interna de Lula, mas teceu críticas ao manejo da política externa do Governo Federal. Segundo o publicado na dita Folha, 26.07.2010, Castañeda disse: “Tudo o que Lula tentou fazer fora do âmbito interno só resultou em fracassos. Mas creio que mais importante é o fato de que Lula se absteve em mediar ou resolver conflitos perto do Brasil”. E disse mais: “Conflitos próximos abundam, e o Brasil não exerceu nenhuma liderança nesses casos”. O ora narrado é para mostrar que o Brasil, segundo Castañeda, poderia ter exercido outro papel na liderança regional se Ciro houvesse persistido e sido eleito. Lula, se ouvido ou consultado, poderia repetir a frase do Rei Juan Carlos disse para Hugo Chávez: “Por que não te calas?”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/07/2010.

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MARKETING E VIDA – Diário do Nordeste

Somos consumidores de tudo: casa, comida, roupas, instrução, transporte, comunicação, cultura e lazer. Compramos por impulso ou após bem pensar? Hoje há uma técnica essencial a influir em nossas vidas, mesmo que não desejemos ou saibamos. Ela é o marketing, sub-ramo da administração científica. Ela passou a ser considerada e levada a sério. É claro que alguns ainda pensam o marketing como mera intuição. Não é assim. Na verdade, as universidades do mundo têm hoje o marketing como um grande chamariz. Existem, mundo afora, gurus, professores e especialistas na área. Deixemos os do Brasil de fora, para não personalizar. Fiquemos com Roger Blackwell, professor na Ohio State University, nos Estados Unidos. Ele, acreditem, é tão bem-sucedido como professor, escritor de livros e conferencista que, por sua conta, gastou sete milhões de dólares na construção de um hotel dentro da universidade só para hospedar executivos que vão ali fazer seus cursos. Blackwell é hipnotizador de multidões e sabe falar das chamadas “forças sociais” que nos levam a escolher um bem ou serviço, mesmo não tendo necessidade dele, tampouco consciência dessa atitude. O marketing passou a ser ferramenta fundamental na atividade política. Não só em tempos de eleições, mas para entender as tendências/carências demográficas, geográficas e econômicas, as tais forças sociais, somadas às nossas peculiaridades como indivíduos e grupos. Sabem os marqueteiros políticos que todos, independente de suas classes sociais, estabelecem atributos/valores às pessoas a partir das informações recebidas. É a tal da imagem pública, diferente da imagem publicada. No Brasil é ainda baixo o número de pessoas que lê jornais e revistas e assimila o conteúdo. Assim, vale o visto e repetido a exaustão, para nos tornar fiel, em sentido amplo, a um (a) candidato (a)s ou a governantes. Jovens tristes acenam bandeiras em esquinas. Começa em 17 de agosto a propaganda eleitoral na TV, rádios, jornais e Internet. Além dela, vão apertar nossa mão, de forma simbólica ou real. Vão mirar no nosso olho a dizer: veja, sou o(a) melhor, mais confiável, ficha-limpa. Voto é vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/2010.

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POESIA E HERANÇA – Jornal O Estado

As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cecília Meireles parecem não ter sido lidas ou introjetadas na infância de suas filhas. Cecília tinha talento, publicou obra vária e respeitável. Morreu, mas os poetas viram versos no além. Cá, na terra do aquém ou de ninguém, ficou a família a se apoderar do tesouro, a obra literária de Cecília. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justiça foi chamada e a justiça não foi feita. Feia é a briga pública e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, não versejam e não estão nada prosa para a memória da mãe-tia-poeta. Faz dez anos que se engalfinham em vários processos e matam a galinha dos ovos de ouro, pois discutem quem tem direito a que, enquanto a sua obra fica fora das editoras e livrarias. O fato é que literatura também dá brigas familiares e demandas judiciais. Há tantos casos de famílias de autores engolfada em querelas. Cito apenas os notórios: Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Mudemos de arte. Nas artes plásticas existem os casos públicos e insolúveis dos herdeiros de Alfredo Volpi e Lygia Clark. Agora, igualmente, querem fazer dinheiro com a memória da cantora e artista Carmen Miranda, morta há 55 anos na Califórnia, e que nunca teve filhos. Familiares colaterais e detentores de direitos autorais aqui e aventureiros nos Estados Unidos se desunem para tirar vantagens em um filme que seria mero caça dinheiro. Começaria pela pobreza do título: “Maracas”. É sempre assim. Imaginem então o que não acontece com as heranças dos, não literatos, os plantadores em terra adusta, limpadores de ervas daninhas com suas mãos sofridas, adubadores e regadores com seus suores para verem as árvores de suas vidas crescendo, sem tempo até de provar dos frutos, pois cuidam das cercas contra os invasores, os que não plantam e querem roubar os frutos alheios. Deixemos os usurpadores de fora. Fiquemos apenas com as famílias e já será muito. Quantas empresas, desde mercearias de subúrbio até conglomerados, definham, acabam ou são vendidos pela ganância, incompetência e desamor de filhos e agregados. Deixam as árvores sem rega e procuram apenas saber quanto apuram com a venda dos frutos maduros. Não sabem que cada palmo de terra foi cuidado com desvelo. Não sabem quantos dissabores alguém há passado para, pouco a pouco, ir consolidando o que, logo após sua morte, será dissipado com desamor. Vender e o mote: isso dá trabalho. Martin Lutero, o insuspeito reformador alemão que fundou uma nova religião pelos desencantos com a Igreja de Roma, dizia que a família é fonte de prosperidade, mas também é de desgraça. Ávidos, quase sempre, herdeiros sequer querem saber o que os pais fizeram, suas dores e percalços, suas histórias, sejam obras imateriais, bens ou pecúnias. Não lhes custou nada essa longa fadiga, apenas são ciosos dos “seus direitos” e engordam advogados para dividir, sob luta, os despojos do que encontram e sequer respeitam, pois não há amor pela criação e feitos do(a) falecido(a). Só quem ama pode admirar, cuidar, respeitar e ter vínculos de afeto. Na linguagem dos matutos há uma frase cáustica: “Filho só puxa ao pai quando o pai é cego”. Entretanto, Cervantes, o quixotesco, amenizava: “Os filhos são pedaços das entranhas e, sejam bons ou maus, sempre se lhes há de querer como as almas que nos dão vida”. A História não registra filhos de Cervantes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/07/2010.