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DROGAS E VIAGENS – Diário do Nordeste

O Conselho Federal de Medicina parece não estar contente com a relação de alguns médicos e a indústria farmacêutica. Pausa. Alguns médicos, quase sempre, para cuidar ou se livrar do paciente, prescrevem exames e drogas. Não se fala só dos males crônicos, mas de dor de cabeça que muda para cefaleia, e lá vai a receita. Dor de garganta e tome anti-inflamatório ou antibiótico. Acabou a pausa. E, dizem, o fazem entre intervalos de viagem ao exterior para congressos, acompanhar pesquisas de desenvolvimento com novas drogas ou constatar o êxito de outras, já em uso por indústrias multinacionais, sempre generosas em convites para viagens a lugares charmosos, com passagem, hotel, inscrição, ajuda de custo, em eventos de cunho científico. Agora, o dito Conselho e a Associação Médica Brasileira estão querendo mudar o rumo dessa prosa e preservar o Código de Ética Médica. Só permitirão a relação médico/laboratório em congressos médicos. E se o(a) doutor(a) tiver trabalho a apresentar. Não os “posters”, aligeirados com estudantes ou residentes, mas os de verdadeira contribuição científica por sua inovação, casuística etc. Essa relação de alguns médicos, quase velada, não é do conhecimento da maioria da clientela e do público. Pensam os pacientes que os médicos sempre viajam para se atualizar. Será? As queixas e controvérsias nessa estória são grandes e as indústrias farmacêuticas estão medindo força com as entidades médicas e, quiçá, o Ministério da Saúde coloque o seu estetoscópio para ouvir os sons dissonantes dessa caixa de pandora. A grande imprensa, a viver de anunciantes, tem sido quase omissa nessa questão. Os anúncios devem valer mais que o esclarecimento público. Apenas a Folha de São Paulo começou no dia 30 de junho passado, a desvendar essa relação próxima e perigosa. Para engrossar o caldo dessa estória, entre sístoles e diástoles, as indústrias farmacêuticas investem agora nos chamados de “medicamentos maduros”, entre outros, os não mais protegidos por patentes. Assim, vão reforçar a propaganda de drogas para hipertensão, diabetes, disfunção erétil etc. Para concluir: você sabe qual o remédio mais vendido no país? O dorflex. Brasileiro adora se automedicar

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/07/2010.

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REGISTRO PESSOAL – Jornal O Estado

Para quem não sabe, sou canhoto. Nasci em época que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a mão esquerda.
No tempo das cadeiras individuais, no colégio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do péssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei até, deu em nada. Mesmo com boa vontade, não passei do sofrível. Ser canhoto me ceifou – penso – de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando vôlei, quebrei o pulso da mão esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, pé torto. Um Dunga, digamos. Resolvi pintar. Vaidoso, nunca tive uma aula. Vi museus, parei defronte de quadros famosos. Achava que poderia começar. Comprei telas, tintas e pincéis. Só consegui fazer um quadro. Emoldurei-o e escondi de todos, inclusive da minha vista. Está em qualquer canto, um dia o reencontrarei e, certamente, o mandarei para o devido lugar. Há algum tempo, dei-me à pachorra de fotografar. Comecei com fotos em preto e branco, muito cedo das manhãs, clicando pessoas dormindo na rua, bêbados, prostitutas, ambulantes com suas carroças, mendigos e os desvalidos em geral. Não consegui fotografar guerras como o Sebastião Salgado. Pretendia produzir fotos-denúncia, mas a quem mostrar? Até tentei, no caso específico da praia onde morava. Os governantes sabem de tudo e tudo fica na mesma. Recebi ameaças. Parei. Em 2008, meio sem querer, voltei ao extremo-oriente. Já havia estado lá uma vez. Fizera o circuito dos vários países importantes. Prometera não voltar, pois longe é um lugar que existe: a Ásia. Queimei a língua. Fui especificamente à China para não fazer nada. Só olhar. Não só a China, na grande Beijing ou Pequim, como a chamamos. Havia acontecido a Olimpíada e eu, como canhoto, cheguei logo depois da festa de encerramento. E vi tudo, mas isto aqui não é roteiro turístico. É revelação pessoal. Então, fui ao interior da China, à China profunda que, na verdade, não era tão profunda assim. Parei em Dalian, uma grande cidade com seis milhões de habitantes, entre paupérrimos, pois as suas misérias eram visíveis nas casas que, mesmo escondidas, desvendei. Vi também pobres, remediados e ricos de carros importados reluzentes com jeito bem ocidentais, quase americanos, não fossem os olhos. Mas, isso tem em todos os lugares. O queria ver não estava ali. Tive que sair da cidade e dar uma grande circular por seus arredores. Era uma região serrana, o dia se finava, o sol era de um vermelho esmaecido como o comunismo que hoje praticam por lá e eu via o Mar da China lá abaixo. Parei em uma espécie de promontório. Admirei a confissão da folhagem verdejante no outono asiático, vi pagodes ao longe e os meus olhos pediam um registro daquela beleza de intensa tranquilidade. Foi então que tive a coragem de usar uma máquina comum, dessas para analfabeto no idioma inventado por Louis Daguerre. Mirei e apertei no obturador. O resultado está na foto em anexo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/07/2010.

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ZERO FUTEBOL – Diário do Nordeste

Grande parte do país entra em férias. É julho. Frio no sul. Enchente no Nordeste. Política por toda parte. Futricas em jornais, televisões e rádios. E ainda está longe o besteirol dos programas gratuitos. Gratuitos, uma ova. Quantos ganham os marqueteiros? Produtoras de televisão? Gráficas? Estilistas pessoais? Enfim, os ilusionistas de plantão. Os 192 milhões de brasileiros têm hoje 183 milhões de telefones. É o que se chama hoje de acesso móvel. Será que conversam sobre política? Procuram saber quem são os candidatos, suas fichas? Esperem um pouco, eles logo começarão a ligar para você. Eles ou seus prepostos. Simpáticos, querendo votos. Hoje, em qualquer lugar você pode ser alcançado. Hoje, da atendente à figura tida como importante, vai-se logo perguntando: qual o número do celular? Se você não der, passa a ser antipático, chato e adjetivos assemelhados. Se der, a atendente e a figura tida como importante, logo o passarão para frente e o seu número estará na lista de outros. Estou passando, mas não diga. Ora, quanta inocência e quanta maldade. O telefone celular, por sua portabilidade, invade o último reduto da privacidade. Aqui é fulano de tal, lembra de mim? Você procura mexer no seu hardware pessoal e sacar da memória o nome e a voz a perturbá-lo em pleno filme. Dá um branco. Não sei, estou no cinema. São só duas palavrinhas, posso falar? Que jeito! E as duas palavrinhas tiram a concentração do filme e você ainda não sabe com quem está falando. Desliga. E não se absorve mais no filme. Olha para o celular e o desliga. Olha, novamente, e o religa, pois alguém da família poderá ligar. Volta ao filme, mas perdeu o fio da meada. A desgraça toca novamente. Agora é uma moça, fala igual a uma dubladora de filme b, pergunta se não desejo conhecer o modelo novo do carro tal, vendido até o fim do mês pelo preço do ano passado e ainda emplacado. Desligo. O filme terminou, as legendas me dizem isso. Luzes acesas, saio do cinema com vontade de jogar o celular na primeira lata de lixo. A primeira que encontro está cheia até à tampa. É sujeira muita. Desisto da ideia, por enquanto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2010.

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TREM NOTURNO

Anteontem, 30 de junho, foi dia de eleição presidencial na Alemanha. Vive hoje, situação difícil, como toda a Europa. Está unificada, mas não tem pensamento uno. Faz 21 anos que o pesadelo do muro e da divisão acabou. A Germânia tenta respirar com o pulso forte e a discrição da Chanceler Angela Merkel, luterana, madura e discreta. Ela veio da parte oriental, estudou física em Leipzig, então comunista. Por conta disso, lembrei de um passado distante. Era outono na Europa, então dividida. Viajava de trem, noite fechada e estava perdido. Trocara a palavra ocidental por oriental e me vi a caminho da Berlim proibida, na República Democrática Alemã, no trem errado. E o pior, o meu passe ferroviário não dava nenhum direito a isso. Descobri, quando um velho bilheteiro, parecendo sedento por cama em sua casa, pediu a cartela. Olhou, bocejou, coçou a cabeça e disse em um inglês arrevesado: isso não vale neste trem. E o trem não parava. A próxima estação, soube depois, seria a da Friedrichstrasse. Olhei para ele, fiz um gesto de desengano, e ele sorriu encabulado enquanto calculava o valor do bilhete no trecho descoberto. Paguei cinquenta dólares e o velho bilheteiro saiu do vagão. Agora, era esperar o porvindouro. E ele veio logo em seguida. O trem apitou, a estação ficava ao longe, mas a sua velocidade diminuía, até parar. Soldados armados, cães latindo, lanternas acesas e hastes metálicas com espelhos na ponta, como se fossem espelhos bucais gigantes vasculhavam a parte inferior do piso do comboio. Havia muitos militares e, ao lado deles, homens de casacos pesados parecendo ser da Stasi, a polícia secreta. Ou seria imaginação minha? Havia lido, sem muita atenção, “O Tambor”, livro de Günter Grass, mas não era hora de fazer nenhum tipo de sátira e tampouco lembrar de um anão a ver, de forma patética, a Alemanha ser dividida em duas, depois da queda e morte de Adolf Hitler. Foram minutos, mas a mim pareceram horas, até todos se retirarem e o trem, sem pressa, acolher-se na estação terminal. Desci e já estava numa fila da aduana feita para mostrar o passaporte, ser encarado nos olhos, fazer registros, bater uma foto de frente, dizer a duração da viagem e comprar, obrigatoriamente, marcos orientais. Quantos dias eu passaria em Berlim? Foi a pergunta que me fiz, se conseguisse, na verdade, entrar. Disse 03, como poderia ter dito qualquer número. Nunca vi essa minha foto, mas gostaria de vê-la para conferir a minha cara de espanto. Comprei as pequenas cédulas e me vi, maleta à mão, perto de um mercado. Lembrei-me de não ter jantado. Entrei. As prateleiras não estavam completas, vazias até, mostrando biscoitos, bebidas e enlatados, tudo escrito em alemão com o detalhe dos preços constarem da impressão gravada nos rótulos das mercadorias. Comi o encontrado e acheguei-me a um hotel próximo. Vou poupá-los da burocracia do check-in. Enfim, cai na cama e dormi de cansaço. Acordei sem saber onde estava. Tudo me era estranho. O sol morno mostrava, pela janela, talvez uma grande feira, nas proximidades. Tomei o café e vi ser uma exposição de casas populares, pequenas, com um simplificado e visível sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Tudo às vistas, com um só cano com múltiplas funções. Vi tudo, cansei. Almocei, andei a esmo e dei-me conta do belo Portão de Brandeburg ali próximo, com os cavalos em tropel em posição trocada, diferente do visto em antigo cartão postal. Olhei rápido, como se em perigo. Voltei para a estação de trem. Demorou, mas o primeiro partiu e eu nele. Acabara o desassossego.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/07/2010

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AS COPAS – Diário do Nordeste

Escrevo na quinta. Confesso, não vi nada de excepcional nesta Copa. Tudo igual. Parece jogo eletrônico. A única novidade é o país África do Sul, mesmo desclassificado no futebol, estar sendo desvendado. Gente alegre, cores, dores, problemas e anseios. Não sem quem é o jogador Felipe Melo, com nome de tenista. Procuro a razão do mau humor do Dunga, a ganhar milhões e recrutar uma legião estrangeira sem grande amor à pátria, dizem alguns. São garotos-propaganda de tudo e qualquer coisa. Lamento não entender a razão de jogadores brasileiros usarem brilhantes em suas orelhas. Só se for para afirmar: fiquei rico. Algumas cadeias de televisão estão cheias do dinheiro de anunciantes bilionários, ávidos pela imagem de cada atleta ou seleção. A maioria dos patrocinadores é multinacional e trabalha por pesquisa e números. Pátria é coisa do passado. O mundo deles é o dos interesses. Dos 23 atletas brasileiros, só três jogam no Brasil. O resto joga e desfila em festas e aeroportos da Europa e, quando chegam, são, via de regra, acompanhados de louras siliconadas em pagodes patrocinados por cervejarias. Confesso ter saudades de Tostão, com sua lucidez e talento. Confesso não ter saudade de Zico, com seu azar. Revelo estar impressionado por Pelé ser ainda um dos maiores faturamentos em publicidade. Não vejo ou ouço o Galvão Bueno. Não consigo entender a não convocação de Ronaldinho, o gaúcho, tantas glórias e gols. Juro não saber quanto é a gratificação pelo título. Repórteres dizem que centenas de pessoas viajaram por conta dos cofres da viúva e do futebol brasileiro. Esse mesmo futebol a dever horrores à previdência social, sonegar imposto de renda e dar cobertura e visibilidade a personalidades toscas. Admito não saber bem quem é Ramires e tampouco em que posição joga. Falem-me, por favor, de Thiago Silva. Esta conversa não é ranzinza, é fruto do desapontamento lúcido pela consciência da pura mercantilização do esporte. Depois, virá a Copa de 2014, “a nossa”. O que menos importará será o futebol. Bilhões ficarão nas mãos das mesmas empresas, especializadas em tudo, acopladas ao poder, quaisquer que sejam os eleitos, tais carrapatos em gado mal cuidado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/06/2010.

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FORTALEZENSE – NOVOS TEMPOS – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras está de parabéns e alegre com a aprovação, sem nenhum voto contrário, do novo Estatuto e Regimento da AFL, na presença de 23 acadêmicos, maioria absoluta, à Assembleia Geral Extraordinária, de 16 de junho de 2010. A Fortalezense é uma academia do Século XXI. Não cabe mais se fixar no belo modelo “ancien garde” da Academia Francesa e da notável ABL, a Brasileira. Uma academia não apenas se funda. Ela se constrói no tempo pelas obras de seus integrantes, pelo respeito à sua imagem pública. Cresce com atitudes sociais e culturais definidas, mesmo havendo divergências, no foro adequado. Ela têm fundamentos, projeto de futuro, frequência habitual, sócios convergentes em torno dela e criação literária . A criação e funcionamento do www.academiafortalezensedeletras.blogspot. diz da nossa inserção no presente midiático, da vontade de ser plural e usar a Internet como veículo auxiliar da difusão da cultura e da informação institucional. Procuramos ser transparentes. A nossa atuação nas duas últimas Bienais do livro mostra que não viemos para coadjuvantes, mas atores no processo de transformação da cultura fortalezense. A Homenagem prestada pela unanimidade dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, em novembro de 2009, diz da nossa aceitação e do respeito gerado. Queremos bons acadêmicos nas vagas abertas. Entendemos por bom acadêmico qualquer pessoa, maior de idade, residente permanente de Fortaleza, com produção literária significativa, socialmente aceito(a), que acate as normas da instituição, deseje se candidatar na forma do Edital da vacância, orgulhe-se de a ela pertencer, defenda-a, não dissemine a cizânia, e procure fazê-la brilhar, a partir do aprimoramento do que faz como intelectual e cidadão. As duas edições, 2009 e 2010, das semanas Viajando nos Livros levaram milhares de jovens à contemplação, participação e entusiasmo pelos livros que foram distribuídos, pelas palestras proferidas, peças encenadas, debates realizados e a presença efetiva das academias de jovens que apoiamos com o aplauso do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular do Ceará e o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. E sem nenhuma despesa da AFL. A atual Administração já editou a Acta Literária. Publicamos boletins eletrônicos e em versão escrita a todos remetida. O Boletim é registro de fatos e feitos. Neste junho de 2010, convocamos uma Assembleia Geral Extraordinária com publicação prévia do edital no jornal O Estado, no dia 03 de junho de 2010. Também houve convocação por escrito, por correio, e-mail e telefone, para todos os acadêmicos. Os projetos do Estatuto e do Regimento estiveram na Secretaria e no blog, aguardando sugestões. Agora, estão, novamente no blog, com as alterações aprovadas. Como Presidente da Fortalezense e seu eventual guardião até setembro, tento fazer o possível e ajudá-la a crescer em harmonia e ciosa de seu nome. A partir desta semana, seremos a única academia de letras a integrar o Pacto por Fortaleza, iniciativa da Câmara Municipal de Fortaleza. Na próxima segunda-feira estaremos na Universidade Federal do Ceará, junto com a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, pensando a cultura da nossa terra.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/06/2010

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CINEMA E SUBSTÂNCIA – Diário do Nordeste

Sabem José Augusto Lopes, Miranda Leão e Pedro Martins Freire, entre outros, do meu velho amor pelo cinema. Não o dos blockbusters/ grandes produções, mas o cinema-arte, aquele a nos intrigar pela não obviedade da trama, a identificação precisa dos cânones do diretor, a estética da composição plástica, a marcação dos protagonistas, a iluminação acertada, os cortes, a trilha musical, o trabalho do continuísta, a remontar cenas interrompidas pelos intervalos obrigatórios, causados pela mudança da luz ou estafa do elenco. Ontem, 19 de junho, foi o dia consagrado ao cinema brasileiro. E o que me alegrou, além da data, foi a lembrança e a honra de um convite recebido. Falo do convite da Editora Valer para ontem participar do lançamento do livro do escritor manaura Márcio Souza, “A substância das sombras – a arte do nosso tempo”, seguido de debate sobre cinema. Márcio Souza é escritor premiado, nascido nos bastidores de jornal, a fazer crítica de cinema, ainda adolescente. Márcio é autor, entre muitos, do clássico livro “Galvez, Imperador do Acre”, tendo sido professor convidado de literatura da University of Califórnia, Berkeley, Estados Unidos. O que isso tem a ver comigo? Muito. Adolescente, entrei, de metido, no Clube de Cinema, dirigido por Darcy Costa. E, como já o fazia, continuei a anotar, com mais precisão de detalhes, todos os filmes assistidos e até fazer apreciações sobre eles. Não duvidem. Tenho os cadernos. Estão lá as páginas amareladas relatando, com despreocupação juvenil, a minha crítica. Por outro lado, gente há ainda a não saber da minha experiência continuada e diária, como jornalista. Fui, sim, por anos, a convite de Eduardo Campos, nos Associados. O pagamento era feito, todos os meses, por Anastácio de Souza, tesoureiro. Um dia desses, com ajuda da historiadora Walda Weyne, consegui resgatar, digitalizado, parte desses escritos jornalísticos dos anos sessenta. São centenas de páginas. Voltando ao fio da meada, gostaria de ter ido a esse lançamento e, principalmente, comparecido ao debate. Parabéns, Márcio Souza. Obrigado, Editora Valer pelo convite. Cinemeiros, somos sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2010.

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PAIXAO CINQUENTONA- TJA – Jornal O Estado

Tenho uma paixão cinquentona por ele. Era meninote e me punha a pé da Rua Major Facundo, desde a Praça do Carmo, para lá. Ia com a despreocupação dos enlevados pela oportunidade do encontro. Morava na cidade calma, com 270 mil pessoas, 15.000 “aparelhos telefônicos”, um grande hotel, o San Pedro, cinco emissoras de rádio, um novo e lindo cinema, o São Luiz. Admirava as vitrines da Aba Filme, na Rua Barão do Rio Branco, mostrando as fotos das meninas bonitas da cidade que tomavam lanches no Tonny’s. Era ainda o velho palco, o mesmo de 1910. Burle Marx não burilara a vegetação hoje ensombrando o lado incorporado da Rua General Sampaio, nem era dele o antigo prédio da escola, depois faculdade, olhando para a entrada da casa da Maria Luiza Rodrigues e o Edifício Lord. Sabia que ele me abriria, como espectador, de alguma forma, as frestas das artes, da interpretação, do canto, da música. Queria apurar sentidos, tinha pressa e curiosidade de saber. E foi lá que vi, entre outros, Paulo Autran, Tonia Carrerro, Procópio e Bibi Ferreira, Eva Todor e até o Zé Trindade, um fracasso, diga-se. Paquerava por lá, ouvindo moças da sociedade declamando poemas aprendidos sob a tutela da Sra. Violeta Modesto de Almeida, em festival promovido pelas “Damas de Jacarecanga”, em benefício dos pobres do Pirambu. Estava lá vendo o piano negro iluminando a magia de Jacques Klein, cearense do Aracati, já famoso concertista internacional, ao tocar sonatas de Beethoven. Em tempos de Semana Santa via o Gólgota, depois Paixão de Cristo. Foi nele que acompanhei o crescimento da Comédia Cearense, de muitos atores e o despertar do teatrólogo Eduardo Campos. . Anos depois, em festa de gala, subi os degraus que levam a seu palco, ao lado do meu pai, para receber orgulhoso o pergaminho da faculdade. Vi tantas peças, anos a fio. Como veem, não é amor recente, nascido depois que Bia Lessa comandou suas mudanças, os jardins surgiram e a frente cresceu, respondendo por todo o lado sul da Praça José de Alencar. É paixão antiga, dos que o conheceram sem climatização, vendo o porteiro “Muriçoca” e o Clóvis Matias, desde sempre. E não poderia deixar de louvar este 17 deste junho, sua data centenária, meu velho amigo, o Theatro José de Alencar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/06/2010.

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BRUNO, HEPTANETO – Diário do Nordeste

É março, cedo da noite, estaciono o carro sobre o asfalto, dou boa noite, passo o portão, entro no elevador e subo quarenta metros. Toco a campainha, ouço vozes, alegro-me, desde já, com a graça da criança no berço esplendido da simplicidade. “Seja feita a luz e a luz se fez”. Beijo-o com carinho e sou advertido. Devo me conter. Deixe para depois, pai. E assim fiz. Esperei meses, quase coincidindo a data com o aniversário da mãe, quinta comemorado, para anunciar: sou hepta. Sem essa de futebol e copa. Estou louvando a chegada do meu heptaneto. Nada de penta ou hexa, sou heptavô. Luana foi a primeira e Bruno é o sétimo neto. Filho da terceira filha que havia me dado o penta. Chegou a alegria na noite molhada pela brisa marinha alforjando pedras protetoras na curva da avenida. Veio sem muitos choros e dengues, pleno de promessas na pele macia como avelã, clara como a esperança de bons tempos, envolto nos panos da benquerença. Bruno foi apresentado pelos pais para a alegria e deleite de tios, primas e avós, olhando-o com a ternura só concebida pelo amor. Vejo, agora, meses depois, o registro do seu nascimento e lembro do dito pelo escritor russo Antonin Tchekhov: “nas certidões de nascimento escreve-se onde e quando um homem vem ao mundo, mas não se especifica o motivo e o objetivo”. Caro Tcherkhov, o motivo da vinda do Bruno foi o desejo de um casal em tê-lo como filho não com objetivo definido, preciso, matemático. O objetivo é sutil, tênue e arriscado como todo projeto de vida, mas forte como a perseverança e a fé. Vem com o selo do afeto. Não é produto para ter selo de qualidade do InMetro, é gente, fruto da clarividência de seus pais, quilates acima de egoísmos e apegos. Vem para ser irmão de Nicolas, risonho, brincalhão, galhofeiro, contando números, lendo letras e já contando muito para todos nós, os vindos antes a este mundo de tantos ais. O saúdo, Bruno, com a liberdade concedida pela maturidade, essa a não apagar caminhos limpos, pois se alegra deles. O saúdo com a força deste ano 10, do século da maioridade brasileira, o 21, e o faço em nome dos que constam de seu sobrenome, regado por letras, lutas e lampejos de fraternidade. Deus o abençoe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/2010.

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É NAMORO? NÃO É NAMORO? – Jornal O Estado

Namorados precisam de data? Ou tudo é decorrente da tal da mão invisível idealizada por Adam Smith? Será? Abro os olhos e vejo as íris resistentes a me mostrarem o espelho fronteiriço. Na constatação do tempo percorrido vem a pergunta sorrateira: qual a razão da data? Lembram-se do falado na frase inicial? Agora, é ir procurando o caminho dessa estrada enevoada onde a proa e a popa do barco da vida escondem navegantes à procura de respostas à indagação fundamental: o que represento para você se não tenho remos? Cada par de pernas escolhe as hipóteses do trajeto e, se encontram outras duas pelo caminho e formam quatro no mesmo diapasão, há o que comemorar. O namoro é quando a fulgor acende, nunca quando mitiga. É quando há emoções e se escreve, de novo, uma história de todos conhecida, mas própria, pessoal e intransferível. Há namoro se as mãos se deparam como astros absortos, envolvidas pelo calor dos suores trocados a cada suspiro. Namoros não têm prazo de validade. Têm marca de identidade, de sutilezas percebidas pelas celebrações dos corpos, nos registros da bênção aspergida pelo encontro. É namoro quando se sonha junto, quando se descobre o abismo e uma ponte salvadora emerge do nada. É namoro quando há pensamento insone, quando a lanterna da esperança permanece azeitada e o fulgor do encontro é maior que as adversidades do dia-a-dia. É namoro se alma e corpo estão no mesmo tempo do verbo, se sei que não sabes que sei, mas desejo que saibas. É namoro quando imaginas ser criança e o jardim da infância não mais existe. Não é namoro quando as mágoas amadurecem e se transformam em ódio. Não é namoro quando se contam os minutos do encontro e se reza para tudo ter fim. Não é namoro se há interesse e não achas a pessoa interessante. Não é namoro se precisas da inteligência para dirigir o tempo. Não é namoro quando mede frases. Namoro é perdição de tempo no encontro sem horas. É namoro quando não há parcimônia, tampouco cerimônia. É namoro quando não há autoridade, mas afeição e identidade. Há namoro quando não se comanda, mas se anda, passo a passo, sem deixar rastro de desencanto. É namoro quando o outro não é um meio, tampouco fim, é sempre um vir-a-ser. É namoro quando os sussurros abafam gritos e quando os dias têm mais cores embora as horas e os astros sejam os mesmos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/06/2010.