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HORA DA DECISÃO – Diário do Nordeste

Todos os dias somos obrigados a decidir. Fazer ou não exercícios, qual roupa vestir, tomar café ou não, qual rota ou meio de transporte tomar para o trabalho, como melhorar no serviço, como crescer profissionalmente. As decisões podem ser aparentemente automáticas, mas são frutos de processos complexos. Uns, analíticos, racionais. Outros, instintivos ou emocionais. Quase todos têm uma ou mais histórias para contar da decisão certa não tomada ou da precipitação na decisão errada acontecida. Não há regra geral, tudo é casuístico. Ninguém é totalmente razão, tampouco só emoção. Há um cientista português, reconhecido por seu saber, o professor de Neurociência da Universidade Southern Califórnia, nos Estados Unidos, António Damásio. Ele escreveu dois livros sobre o tema: “O Erro de Descartes” e “Sentimento de Si”. A redação talvez corrija o prenome dele. Colocará Antônio, maneira brasileira de escrever o nome. Isso é decisão, pois baseada na lógica da língua. Voltando ao Damásio, ele diz: “se a pessoa tem que decidir sobre a sua vida, a sua saúde, as suas relações humanas, a sua educação, é evidente que não toma decisões instantâneas”. Por outro lado, afirma ele, se alguém lhe apontar uma arma a sua reação será imediata, não precisa de elaboração ou deliberação. Ela faz parte da memória evolutiva, do aprendido com avós, pais, amigos, ambiente social etc. É comum ver gente sem saber decidir qual sapato comprar, o filme a assistir, a escolha no cardápio do restaurante. Imaginem então o dilema do(a) jovem ao decidir aos 17/18 anos o curso ou faculdade a fazer. Falta experiência e sobra ansiedade. A capacidade de decidir pode ser treinada, afirma Damásio, mas há muitas variáveis em jogo, especialmente saber se a personalidade é dual, reflexiva ou imediatista. Pensar cobra partes da intuição e razão para dar respostas certas aos desafios, medos e oportunidades. Um jogador de futebol, por exemplo, não tem tempo para pensar se entra ou não naquela bola dividida ou se chuta assim ou assado. Ele chuta como pode. O resultado depende da capacidade, treinamento e personalidade. Pelé que o diga. E o Dunga?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/06/2010.

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A GAIA DE TODOS NÓS – Jornal O Estado

Como há dia para tudo, convencionou-se: amanhã, 05 de junho, é o dia do meio ambiente. Estendeu-se um pouco mais e surgiu a semana do meio ambiente. E as outras 51 semanas do ano? O problema é saber o real significado de meio ambiente. Você sabe? Será, por acaso, tudo o existente na Terra, menos os animais, entre eles, o bicho homem, o mais predador? Estarei errado ou certo? O universo, seja fruto de um big-bang (grande explosão) ou da criação por uma divindade superior recebeu, por todo o sempre, o reino animal para ocupar a sua esplendorosa natureza. Essa convivência tem causado estrago. Como não sou ambientalista, etnólogo, geólogo, paleontólogo, geógrafo, agrônomo etc. cuido de ir tentando fazer, do meu jeito, a parte que me cabe neste latifúndio. Economizo água, não deixo luz acesa em ambiente sem pessoa, planto árvores, não jogo nada fora pela janela do carro, faço campanhas educacionais de reciclagens de tudo, converso com jovens, escrevo e faço passar vídeo em cinemas, sistematicamente, sobre a relação ser humano e meio ambiente. Entendo, entretanto, que a ação não deve ser só de pessoas, mas de instituições, empresas e especialmente do Município, Estado e Nação. Está lá na Constituição Federal: “todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. A coletividade somos nós. Estaremos todos realmente comprometidos ou há um jogo de faz de conta por muitos? Não é careta reclamar de sugismundos, públicos e privados. Dos lançadores pelas janelas de veículos e transportes coletivos, de pontas de cigarros, garrafas plásticas, papéis e latinhas de bebidas. É preciso demonstrar o nosso desapreço por tais atitudes transformadas em hábitos desprezíveis. Nada de defensor da humanidade, apenas pedir urbanidade. Não é bobagem, É necessidade de sobrevivência para todos com os nossos veículos, produtores diários de monóxidos de carbono. Geramos, cada um, quase um quilo de resíduos sólidos mal acondicionados, sem preocupação de separação dos materiais recicláveis. Finalmente, lembre-se, todo dia é dia de plantar árvore, não sujar, educar crianças para, inclusive, repreenderem os pais por seus maus costumes. Não basta fazer a sua parte. É preciso dar, por exemplo, uma de Pio Rodrigues e Honório Pinheiro e sair plantando milhares de árvores pela cidade. É preciso um pouco de loucura nessa luta desigual para combater este sol tropical com a sombra de árvores, sejam frutíferas ou não. Uma rua arborizada não é só responsabilidade da prefeitura, mas de seus moradores, sejam pobres, remediados ou ricos. Todos estamos nesta nau insensata da quase destruição da natureza. Sem essa de achar isso idiotice. Idiotice é sujar a casa maior, a Gaia, a deusa helênica da Terra de todos nós.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/06/2010

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DOR E FELICIDADE – Diário do Nordeste

Como dizia Aldous Huxley, escritor inglês falecido no ano do assassinato de Kennedy, “posso compartilhar as dores das pessoas, mas não seus prazeres. Existe algo curiosamente aborrecedor na felicidade alheia”. O livro maior de Huxley, “O Admirável Mundo Novo”, de 1932, fez sucesso. Criou ele uma utópica sociedade estruturada para alcançar a felicidade. Nela não havia ética religiosa ou valores morais. As referências/senhores eram Henry Ford e Sigmund Freud, confundindo-se, quiçá, em uma só pessoa pela similar pronúncia dos seus sobrenomes. Ford representaria o progresso, o Estado Mundial, e sua linha de montagem (criticada em filme por Chaplin). Freud, no livro, significaria a relação entre a psicanálise e o condicionamento humano, afiançando que a atividade sexual era fonte de prazer e não mero objeto da procriação. Tudo era ficção e visão do totalitarismo dos anos 20/30 com Stalin e Hitler. Esta introdução arrisca mostrar que o citado pensamento de Huxley, entretanto, permanece. A inveja, ou o desejo de que o outro não tenha ou usufrua a suposta felicidade que aparenta, seja material ou não, está entranhado na raça humana. Veja na Bíblia, “… a inveja destrói como câncer”, prov. 14:30. Dores humanas são indisfarçáveis, visíveis. É fácil se compadecer ou mostrar solidariedade no infortúnio alheio. A felicidade, mesmo como farsa, incomoda o outro, o invejoso, que não percebe isso. E aí ele percorre caminhos imaginários tortuosos, pela negação de qualquer coisa que seja boa para o invejado, de quem não conhece sequer desejos e entranhas. A belga Marguerite Youcenar, que alguns pensam ser francesa, no livro “Memórias de Adriano”, dizia, através de personagem, que “toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece”. Pergunto: somos todos criadores de obras-primas? Sêneca, filósofo latino nascido antes de Cristo e que viveu 32 anos mais que Ele, afirmava “não se deve acreditar que é possível ser feliz desejando a infelicidade alheia”. Sêneca e o Latim já se foram, mas ainda parece faltar consciência e compaixão para se enxergar o outro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/2010.

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CONSERVATÓRIO DE MÚSICA ALBERTO NEPOMUCENO – Jornal O Estado

Um conservatório é local destinado ao estudo das artes, especialmente a música. Aqui em Fortaleza, há 72 anos, um grupo de amantes das artes, encabeçado pelas pianistas Ester Salgado, Branca Rangel e Nadir Parente resolveu criar um conservatório. Nessa época, 1938, já existia em Fortaleza uma Sociedade de Cultura Artística, com nomes como os de Paurilo Barroso e Alberto Klein. Eles incentivaram a ideia da criação do conservatório. Escolheram para a denominação um nome de referência, Alberto Nepomuceno. Nascido em Fortaleza, em 1864, cedo a sua família se mudou para Recife e já em 1880, com a morte do pai, passou a ser o arrimo da família, dividindo-se entre a função lúcida e necessária de tipógrafo e a lúdica de professor de música. Foi amigo de Clóvis Beviláqua, Farias Brito e Tobias Barreto que estudavam na tradicional Faculdade de Direito do Recife. Nepomuceno parara de estudar, simplesmente para manter a família. De sua amizade com Tobias Barreto surgiu o interesse pelo estudo da filosofia, da língua alemã e tornou-se defensor declarado da abolição da escravatura e da causa republicana. Já em 1885, Nepomuceno se muda para o Rio de Janeiro para aprender mais. Lá, reativou os estudos de piano no Clube Beethoven, logo vindo a ser professor da casa. Machado de Assis, por acaso, era bibliotecário do clube. Nasce aí o interesse de Nepomuceno pela literatura brasileira. Até foi parceiro em composições musicais com letristas como o próprio Machado, Coelho Neto e Olavo Bilac. Sua inquietude e desejo de aprimoramento, o levaram à Europa em 1888, estudando com grandes mestres em Roma e Berlim. Na volta, em 1894, passa a ensinar no Instituto Nacional de Música. Sua obra é vasta e inclui música dramática, orquestral, câmera, instrumental, vocal e sacra. Assim, o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno nasceu com a bênção de um nome consagrado, de origem simples, como até hoje o é. O duradouro e encantador sonho da maestrina Mirian Carlos, sua dirigente maior, completou anteontem, 26 de maio, 72 anos de dura e profícua vida. Sou testemunha há anos da batalha imensa dessa professora e de seus inúmeros companheiros musicistas para manter viva a chama que bruxuleia, como um diapasão. Hoje, sexta, às 19.30h, haverá o encerramento de uma semana de atividades musicais comemorativas dos 72 anos do CMAN que teve destaques como o Projeto Ensaio, recital de Pedro Bruin, concerto/homenagem a Alberto Nepomuceno com a regência de Vasquen Fermanian da Orquestra de Câmera Eleazar de Carvalho, e festival de piano em conjunto. O Ceará precisa, certamente, manter bem abertas as múltiplas salas de aula do Conservatório Alberto Nepomuceno instituição que transforma crianças, jovens e adultos em amantes ou profissionais da música em suas várias formas e manifestações, mas, especialmente, os torna sensíveis à cidadania que sempre desponta nas almas dos são tocados pela mágica dos sons encadeados.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/05/2010

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PAPO SÉRIO – Diário do Nordeste

Domingo é dia de conversa leve. Acordar relaxado, ler o jornal com os pés para o alto e pensar no almoço tardio com a família ou amigos. Acontece que, por ser dia vadio para a maioria, a cabeça fica disponível para pensar e tirar conclusões. Vamos pensar juntos? Será que você vive em um mundo real ou fantasia demais? Um pouco de fantasia não faz mal, mas tirar os dois pés das pedras da vida pode causar problemas. Sei que você não está nem aí para a tal crise da Grécia. Nem grego falamos. Tampouco se dá conta de que há muitas empresas brasileiras, desde alguns anos, lançando-se na Bolsa de Valores -em queda livre – e trocando papel por dinheiro. Com isso, saem planejando, comprando e entram num eixo sem fim. Há, por exemplo, Brasil afora, centenas de empresas construindo e vendendo imóveis a entregar com prestações iniciais mínimas e prazos longos para pagamento. Há algumas sérias, é claro. Mas, há gente prometendo o que não pode. Na área de petróleo, há um grande xis na questão, vendem o que ainda nem prospectaram, com dinheiro do BNDES, e tampouco sabem se vão refinar e entregar. O mercado financeiro brasileiro diz-se sólido, mas há empresas vendendo recebíveis duvidosos. Os recebíveis são títulos que alguém promete pagar o que comprou, alugou ou arrendou. Foi assim com o mercado de hipotecas americano. Pessoas compraram casas acima de suas rendas. Veio a crise, os empregos diminuíram, hipotecas deixaram de ser pagas e bancos quebraram. O Brasil não é esse mar de rosa que gostaríamos que fosse. As cidades estão repletas de construções e de carros novos vendidos a perder de vista. E se o Zé perder o emprego? Como vai pagar a prestação do carro? Quando isso acontece, títulos perdem o valor e começa o transtorno na economia. E tem gente que compra logo casa, carro e móveis e não pensa como pagar se o emprego pifar. “Deus dá um jeito”, pensam uns, mas Deus anda preocupado também com o vulcão que espalhou cinzas pela Europa e deu um chega pra lá na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, que até bem pouco nadavam em oportunidades. Desculpe ter escrito isto neste domingo, mas sempre é bom desconfiar. Eu, quando confiei, me dei mal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2010.

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O CAOS URBANO DAS CIDADES BRASILEIRAS – Jornal O Estado

Nós, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, deficiência e morosidade dos transportes coletivos, invasão crescente dos “flanelinhas”, camelôs e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. Há a mera e lucrativa implantação de equipamentos eletrônicos para multar, e quase nenhuma solução para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lançar algumas questões, todas em aberto. Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. Lúcio Kowarick como a “lógica da desordem”. Seria uma variação da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolução da ciência e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova visão urbanística e de políticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coerência e sonho, o futuro. Advogo que o urbanismo, especialidade da arquitetura, deve ser visto e complementado de forma mais abrangente por sociólogos, demógrafos, geógrafos, economistas, ecologistas, advogados, administradores, engenheiros etc. O urbanismo não é um mero conjunto de traçados, ações ou de palavras técnicas bonitas, ditas à exaustão, mas, quase sempre, com discutível conteúdo. Ele é algo profundamente complexo que precisa de criatividade, conteúdo, organicidade e objetividade. Dá pena ver o que as cidades brasileiras sofrem com a perda de suas identidades. Em 2008, o famoso arquiteto americano, de origem chinesa, Chien Chung Pei, ao participar no Brasil do seminário Arquictetour disse que as cidades brasileiras não só precisam criar ou melhorar suas infraestruturas para atrair o turismo, mas devem descobrir um ícone, seja cultural, social ou arquitetônico que as represente. As cidades carecem de identidades, não podem ser meras cópias de outras. Por outro lado, o arquiteto Sylvio Barros Sawaya, da USP, acredita que o mero tombamento “de um edifício por seu valor histórico e deixá-lo impróprio ao uso é resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada”. O inquestionável caos das cidades causado pela democratização da aquisição financiada de carros e motos é fruto, inconteste, da inexistência de um planejamento urbano que priorizasse o transporte coletivo de massa. Em pesquisa, tomando como base o ano de 2005, do EnvironMentality –Imae, publicado no caderno Mobilidade Urbana, do jornal Valor, de 16.05.2010, verifica-se que o percentual de pessoas transportadas, no Brasil, por veículos em trilhos (trens/metrôs) corresponde apenas a 3% dos passageiros. 26% andam de ônibus, 27% usam carros, 2% viajam em motos e, pasmem, 42% anda a pé. É claro que de 2005 para cá aumentou o número de bicicletas, carros e motos em circulação. A interligação por modais (trens e ônibus) ainda é muito precária. Quase não existem garagens ou estacionamentos públicos e, em algumas cidades, os edifícios-garagem são até coibidos. É comum, por exemplo, que ônibus e camionetas – piratas ou não – de cidades metropolitanas invadam, sem pudor e sem sanções, o já conturbado e diminuto espaço das vias urbanas das capitais. Como no Brasil de hoje só se pensa, além da política, em dois eventos grandiosos, a Copa de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, é urgente criar para as populações e turistas soluções viárias mais simples e menos onerosas, como a da cidade de Curitiba onde o urbanista Jaime Lerner inventou um rápido sistema de transportes públicos, com calhas próprias, desde os anos setenta. É bom lembrar o que dizia o escritor italiano Ítalo Calvino, “as cidades, como os sonhos, são feitos de desejos e medos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/05/2010

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QUINTESSÊNCIA – Diário do Nordeste

Retorno de um enterro: “vaidade das vaidades, e tudo é vaidade”, diz o Eclesiastes. Existem vaidosos para tudo. Imagine o mundo da absoluta vaidade ou futilidade. Não há limites para ele. Agora, o Brasil já pode se considerar integrado ao primeiro mundo. Foi aberta, em SP, a filial da ”Quintessencially”, empresa que tem como lema entregar “qualquer coisa que o dinheiro possa comprar”. Será que essa empresa pode entregar uma medula nova para um tetraplégico? Ou o remédio para a cura do Alzheimer? Como dizia Louis-Ferdinand Céline, escritor francês, morto em 1961, “não existe vaidade inteligente”. E o pior é que alguns paulistas já se afiliaram a essa doidice. Um dos ditos cujos estuda a possibilidade de gastar R$ 1,3 milhões para trazer a “Lady Gaga” (quem é ela mesmo?) para uma festa “privê”. Privativa é coisa de gentinha. Pois bem, a colunista social Mônica Bérgamo, da Folha de SP, em 09 deste maio, faz um “test drive”, com endinheirados, de um colar que custa R$1 milhão, ou como ela diz “o preço de três apartamentos de dois quartos em Perdizes ou 24 carros C3 da Citroën”. Lá pelas tantas, uma dondoca indagada se o compraria e usaria, disse: “Usaria com um longo. Cag… do de medo, com três seguranças”. Pela linguagem, se vê que perua rima com mundo da rua. Sabe-se que colunistas sociais dão “corda” para que algumas pessoas se soltem e paguem micos. Uns, apresentam-se em fotos com sobretudos em plena primavera europeia. Alguns acreditam que conhecem vinhos. Faça uma prova cega, a da garrafa sem rótulo. A maioria não diz sequer a uva, quanto mais a marca. Bobagem pura. Outros imaginam que conhecem, por exemplo, Nova Iorque, e nunca saíram dos limites do distrito de Manhattam onde ruas e avenidas são numeradas. Saíram sim, mas não sabem sequer que o Aeroporto JFK fica no Queens. Como dizia Machado, no seu romance “Quincas Borba”: “pensa que fez grande coisa quem a faz pela primeira vez”. Nós todos pensamos que somos isso e aquilo, mas, no duro, somos apenas o que todos os do mundo são, almas em trânsito por esta fugidia vida neste planeta que, com certeza, não guardará lembrança do que tivemos ou portamos. Quiçá, do que fizemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/2010

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CLÁUDIO PEREIRA – Jornal O Estado

A noite de Fortaleza procura em vão por Cláudio Pereira. Os amigos, desolados, sabem que aquele copo de rum com Coca-Cola não mais adornará as muitas mesas de bares de todos os nossos pontos cardeais. Uma curva má afamada e agourenta, entre João Pessoa e Recife, pensou que, em cortando os movimentos de seus membros inferiores, o aniquilaria. Médicos daqui e de fora, em cirurgias, quedaram-se impotentes diante do quadro real de hemiplegia. Coitados desses médicos que vaticinaram vida breve ao então enfermo. Cláudio riu deles por 37 anos. Riu quando assumiu a Fundação de Cultura de Fortaleza, por três administrações diferentes, e agitou esta cidade como nenhuma entidade ou pessoa o fizera. Não foram livros não lidos que transmitiam essa cultura, mas o fermento que ele impôs nos múltiplos salões de Abril que regiam a arte com a ajuda do então curador João Jorge Melo, que lamentava a perda do ex-chefe que “tinha o caráter da dignidade, na força da resistência, realizados no sonho de viver”. Não foram discursos barrocos que enchem o vazio de seus autores que Cláudio levou para a periferia. Levou folguedos, músicas e livros acessíveis, palavras curtas de duração e plenas de integração. As batidas dos maracatus ressurgiram em seus passos sincopados por conta de um homem que não podia dar um passo sequer. E o menino Cláudio Roberto de Abreu Pereira, aos 14 anos, passou no concurso do Curso de Aprendizagem Bancária, do Banco do Nordeste. Fez-se bancário e jornalista, sem se descuidar do diploma de Direito pela UFC. Depois, após a curva, veio a francesa Martine Kunz, essa professora-doutora de literatura apaixonada pelo Ceará que, de tão perspicaz, se casou com Cláudio, a sua síntese da terra amada e adotada. Esse casamento tinha a fragrância da benquerença permanente entre culturas díspares, mas complementares. Viraram o mundo por américas e Europa. O sobrinho-neto de Capistrano de Abreu foi também chamado para uma academia de letras. E aí navegou por pélagos novos da cultura, aqueles que sabem de suas limitações, mas têm a grandeza de aprender. Agora, estou voltando de seu velório e sepultamento. Não havia autoridades. O jazigo virou um vasto tapete de flores. Amigos de cãs gris das múltiplas faces e jornadas de Cláudio se sentiam patéticos. E, após o violino calar, Maria Luiza Fontenele falou com a alma dos que não se enlodaram na política e disse que “Cláudio marcou a história do Ceará e da administração popular da cidade por sua solidariedade, capacidade de romper barreiras e ter compromisso com o coletivo”. Após tudo, pedi à Mônica Barroso, sua velha amiga noturna, que o definisse. Ela, olhos lacrimejando, disse que “ele era a concretude da fraternidade, da igualdade e da alegria cercado por um exército de amigos”. Esses amigos estavam lá, mudos de vozes, desvalidos, cientes de que o insondável levara o Pereirão. A relva em que pisavam no entardecer deixava ver a terra revolvida e tinham, mesmo a contragosto, a certeza da finitude, do pó.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/05/2010.

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RAZÃO, PAIXÃO E BOLA – Diário do Nordeste

Onde andava a minha razão na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paixão medravam este coração acelerado? Como fugir do frêmito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o silêncio. Iria participar de emoções explícitas em faixas, xingamentos e as dúvidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espetáculo, o segundo tempo. A memória teimava em “flashback”, como se fora um filme ao contrário. Rebobinava imagens do fim da infância e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da vândala bola, ora triste, ora temeroso e de coração acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da vândala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. Essas que não têm time e torcem sempre contra os goleiros, caras solitários que, de repente, se assustam com o que pegam, espalmam ou falham. Chorava de alegria e via, ao lado, o também meninote e amigo Ruver Herculano enxugando as suas. Ruver é hoje medico e avô, mas creio ainda perder a razão pela paixão que nos torna patéticos na beira da noite quando o apito final brinda uma facção com a vitória e uma taça de lata passa a ser beijada por jogadores suarentos que, eventualmente, jogam pelo nosso time. E o pior, amigos, é que no último domingo o apito final não era o fim. Havia uma questão em jogo. Era preciso decidir nos penais, os antigos pênaltis, quem sairia de lá com o galardão da vitória e qual o time que, sorrateiro, desceria primeiro o caminho lúgubre do vestiário do desencanto. Minutos não passavam, no troca-troca de goleiros e cobradores. E deu Fortaleza, com a ajuda da trave e das mãos de um goleiro hábil que flertara com as redes às suas costas. A razão pedia calma, a paixão reclamava seu quinhão e o futebol perdeu a tela para a voz chata e as breguices do Faustão. Liguei: D. Margarida, vencemos. Ela, aos 91: eu vi tudo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2010

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URNAS ELETRÔNICAS – Jornal O Estado

Já faz tempo que muitas empresas e pessoas da área de informática e da política levantam dúvidas sobre os sistemas usados na apuração dos votos pelas urnas eletrônicas brasileiras. Muitos fazem uma pergunta simples, ainda não respondida: se o sistema brasileiro é à prova de erros ou de fraudes, quais as razões que não o transformaram em modelo a ser adotado em outros países, especialmente os mais desenvolvidos, que poderiam simplificar o trabalho e ter os resultados mais rápidos, como acontecem no nosso país? Parece que não houve receptividade do mundo tecnológico europeu e americano para os sistemas que o Brasil adota. A Alemanha até que tentou, parcialmente, nas eleições federais de 2005, o processo de urnas eletrônicas. Entretanto, o Tribunal Constitucional Federal de lá considerou, em 2009, que “um evento público como uma eleição implica que qualquer cidadão possa dispor de meios para averiguar a contagem dos votos, bem como a regularidade do decorrer do pleito, sem possuir, para isso, quaisquer conhecimentos especiais.” Sabem todos que a Alemanha é um dos países mais avançados em direito e, talvez por tal razão, considerou o uso das urnas uma transgressão das leis que garantem o pleito como fato público. Assim decidiu o Juiz Andréas Vosskuhle ao anunciar a decisão da Corte Alemã em março de 2009(DW-World. De, 03.03.09). Voltando à pátria amada: um grupo, chamado de Comissão Multidisciplinar Independente, CMI, sob a égide da Ordem dos Advogados do Brasil e de partidos políticos, resolveu entregar um relatório que apontaria riscos de fraude nas próximas eleições. O que estranham é que não exista uma participação clara de partidos, empresas de tecnologia, nacionais ou estrangeiras, na auditagem ou exame da segurança dos sistemas utilizados. O relatório foi entregue, em abril passado, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. Mas, quem garante que a CCJ, em ano eleitoral, vá mexer nesse vespeiro? Essa mesma comissão, a CCJ, usa o tempo como aliada para boicotar o projeto “Ficha Limpa”, de origem popular. Sabe-se que o Ministério Público está atento, mas promotores e procuradores são ameaçados por projeto do Dep. Paulo Maluf para que “sejam mais responsáveis e menos sensacionalistas”. O engenheiro Amilcar Brunazo Filho, que deu linguagem técnica ao relatório da OAB e dos partidos, disse ao jornal Valor Econômico (12.04.10) que a atual auditoria externa de verificação da lisura “é totalmente dependente das pessoas que desenvolveram e controlam o sistema e também do próprio software das urnas eletrônicas”. O relatório entregue lança as dúvidas da OAB e dos partidos que não poderão saber se há ou não a instalação de “malwares”. Os “malwares” são programas viciados ou viciáveis, de modo a, por exemplo, mudar votos nulos ou brancos para partidos ou candidatos. E agora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/05/2010