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FICHA SUJA – Diário do Nordeste

Este ano, em 03 de outubro, você vai votar. A Copa do Mundo terá passado. Cessarão pesquisas, debates e comícios. Até lá haverá de tudo para encantar você. Descubra, por si, a oportunidade de escolher candidatos(as) a deputado estadual e a federal, eleger dois senadores(as), um(a) governador(a) e um(a) presidente(a) da República. O horário eleitoral costuma ser quase ficção por conta da capacidade ilusionista dos marqueteiros, das promessas e alianças claras e espúrias. Desde o ano passado um projeto de iniciativa popular, isto é, que brotou da esperança ainda viva do povo, corre na Câmara Federal. Deveria ter sido aprovado em abril, mas há protelação do colégio de líderes e da Comissão de Constituição e Justiça para que, nesta eleição, não seja ainda exigida a tal Ficha Limpa dos candidatos. Nesse caso, você é que deverá descobrir, por sua conta e risco, quem são os(as) candidatos(as) já condenados por crimes de diversas espécies. É sabido que alguns usam o mandato como forma de proteção para os seus desmandos, conluios e delitos. Hoje, só é impedida de se candidatar pessoa já condenada por sentença transitada em julgado, sem possibilidade de recursos. Caso o projeto Ficha Limpa já houvesse sido aprovado, ficariam inelegíveis os candidatos condenados por colegiado de magistrados, independente da instância. Seus advogados têm por ofício a defesa de seus representados e criam chicanas ou tumultos processuais. O mais gritante nessa história é que nenhum dos 513 deputados foi o autor da iniciativa. E o colégio de seus líderes não chega a um acordo para a votação. Coube ao povo promover a coleta de assinaturas que chega a um milhão e seiscentas mil pessoas. Movimentos populares, sem apoio de partidos ou entidades de classe, costumam ser ridicularizados e não contam com apoio da grande imprensa que, quase sempre, os rotula de sonhadores e deixa claro que, no mundo real, a história é outra. Assim, procure saber em quem vai votar. Não deixe para a última hora. Se você lida com a internet vá conhecendo quem pode merecer seus votos. Tente fazer uma pesquisa séria e não anule seu voto. Votar é um direito. Escolha bem. Faça a diferença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/2010.

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ANO DE TODOS. ANO DA RACHEL – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras tem participado, presencialmente, de todos os eventos até aqui realizados em comemoração ao centenário de nascimento da escritora cearense Rachel de Queiroz. Estivemos no “O Povo”, quando do lançamento de campanha alusiva à ex-cronista daquele jornal. Posteriormente, a Fortalezense reuniu, em sessão festiva, no dia 11 de abril, seus membros e convidados no Espaço “Não me Deixes” da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Convenções. A AFL, pela segunda vez consecutiva, 2008-2010, logrou esse intento. Reuniu, em público, os seus acadêmicos em uma bienal para jograis, discussões e, certamente, homenagear Rachel. De 23 a este 30 de abril, a Fortalezense e a Secult estão realizando a 2ª. Exposição (a primeira foi ano passado) “Viajando nos Livros”, no Benficarte, no Shopping Benfica, em que Rachel é homenageada. Hoje é o último dia. Ainda nesta semana, no dia 27, a AFL participou da mesa diretora da sessão solene em homenagem a Rachel de Queiroz, no plenário 13 de maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. A sessão foi presidida pela deputada Rachel Marques, autora do requerimento. Na abertura, disse ela que se considerava, tal qual a homenageada, uma fortalezense que adotou Quixadá. Nessa tarde festiva era maior o número e o brilho de quixadaenses que os nativos de Fortaleza. Eles vieram preparados. Encenaram uma breve peça em que Rachel aparece menina, adolescente, mulher jovem e senhora madura. Houve cantador de viola e cordelista com louvações versejadas. As professoras Lourdinha Leite Barbosa e Cleudene de Oliveira Aragão apresentaram uma coletânea, enfeixada em livro, por elas organizado, “100 anos de Rachel de Queiroz, Vida e Obra” e editado pelo Inesp, dirigido pelo prof. Antônio Nóbrega Filho. O reitor da Universidade Estadual do Ceará, Francisco de Assis Moura Araripe, registrou a ideia de se criar o Instituto Rachel de Queiroz. A festa foi longa e os deputados Artur Bruno, Teodoro Soares (membro da AFL) e Júlio César disseram da alegria de ver tantos jovens estudantes e amantes das letras naquele recinto. A sobrinha Maria Inês Queiroz Chaves agradeceu em nome da família de Rachel. De nossa parte, cobramos, descontraidamente, a parte que cabe a Fortaleza na sua vida. Afinal, ela nasceu ali pertinho do Passeio Público e estudou no Colégio da Imaculada Conceição. Só depois, muito depois, Rachel foi para o Rio, onde teve mais de uma morada e lá se finou em 4 de novembro de 2003. Mas, Rachel sempre vinha ao Ceará e, antes de pegar a estrada para Quixadá, fazia pouso em Fortaleza para se reabastecer das estórias da cidade e trocar dois dedos de prosa com parentes e amigos. É por isso que dizemos, Rachel é de todos e, especialmente, da literatura modernista brasileira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/04/2010.

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TEATRO BRASILEIRO – Diário do Nordeste

Ao meu olhar, temos poucos bons autores de peças teatrais brasileiras contemporâneas. A TV engole o teatro, que resiste. No, no meu leigo juízo, lembrei-me do autor de teatro Gerald Thomas, um desses brasileiros que, por ter nome estrangeiro e vivido muito tempo no exterior, sempre corre o risco da perda de identidade cultural. Aqui e lá. Ele foi e é polêmico e, nos anos noventa, criou peças loucas Depois de se separar de sua parceira, Daniela, foi companheiro da atriz Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro. Em uma das peças (The Flash and the crash days) que montou em 1993, em São Paulo, Gerald usou, esta a palavra correta, as duas fernandas em cena sugerindo quase sexo explícito entre filha e mãe. Fiquei aturdido. À época, neste mesmo DN, escrevi artigo sobre a peça e concluí dizendo: “Lembro que, ao sair do teatro, tive a coragem de perguntar a espectadores se haviam entendido a peça. Disse ainda, quem tiver entendido levante a mão. Todos riram e ninguém levantou um dedo sequer”. Na verdade, o que ele fez nessa e em outras produções foi uma espécie do teatro do absurdo, sem Ionesco. “The Flash” pode ser remontada em qualquer sequência de cenas que não faz nenhuma diferença e há quase ausência de diálogos. Agora, neste 17.04.10, leio na Folha de São Paulo um artigo assinado pelo Gerald Thomas ao comentar o livro “Teatralidades contemporâneas”, de Sílvia Fernandes. Ele, enfim, para alegria dos que gostam do teatro verdadeiro, diz que vai deixar a ribalta. Transcrevo: “Agora, tendo me despedido do teatro, através de um artigo no velho blog…E continua: “vejo minha vida teatral e operística com grande saudade, mas com uma tremenda resolução: sou um ponto zero, um ponto falho, se deixei falhas enormes para trás”. Ao final do artigo, Gerald afirma que “paga-se um preço ao criar, e paga-se outro para imitar. O ‘teatro-supermercado de “gadgets” que precisamos para viver é algo chato e sem pensamentos a respeito de si. O teatro não se repensa há tempos”. O teatro brasileiro precisa, realmente, fazer uma autocrítica, mas, por favor, não convidem o Gerald Thomas, agora auto exilado em Londres.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/2010.

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SOBRE LIVROS E LEITURA – Jornal O Estado

Participei, nesta semana do livro, de debate na TV Fortaleza. Agradeci a Arnaldo Santos, coordenador, pelo oportuno convite. Falei a Auto Filho, Secretário da Cultura do Ceará, da alegria pela participação efetiva e bem recebida da Academia Fortalezense de Letras na 9ª. Bienal Internacional do Livro. Arnaldo criticou a ausência de políticos na Bienal. Ao meu lado esquerdo, estava a jornalista Adísia Sá, mestra e escritora. Ela é mulher casada com o livro de papel. Argumentei que o livro foi e é o caminho usado por nós, os debatedores, para aprender, procurar entender os fatos do mundo, aguçar o pensamento e transformá-lo em conhecimento, depois de depurado.Lamentei que só 7,0% da população brasileira adquire livros não didáticos. Constatei, por pesquisa do Ibope, que crianças entre 4 a 11 anos passam 5 horas por dia defronte a um aparelho de televisão. Segundo o mesmo IBOPE, 60 milhões de pessoas (adultos e crianças) passam igual número de horas diárias frente às tvs vendo novelas, programas policiais, fofocas, esportes, notícias plantadas e apresentadores apelativos. Relatei, com base em pesquisa nacional de 2009, feita pela Ipsos Public Affair, que mesmo as pessoas que dizem ter algum tipo de atividade cultural, – seja ir ao cinema, teatro, ler, comparecer a shows, dançar em festas e ver exposições de arte – apontam uma baixíssima média anual. Leem 5,1 livros, assistem a 4,1 filmes, vão a 3,8 shows, participam de 3,5 eventos de dança e só veem 2,1 exposições de arte. Por ano, lembrem. Argumentei, citando o crítico literário José Paulo Paes que lutava, entre outras coisas, pela facilitação da leitura e escreveu o ensaio “Por uma literatura de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)”, no livro “A aventura literária”. Segundo Paes, os escritores brasileiros precisariam ser menos canônicos e não apelar tanto para o regionalismo. Ler deve ser um prazer para quem está iniciando e não punição ou tortura. Ainda, segundo Paes, muitos escritores manteriam discussões linguísticas e acadêmicas e se descuidariam do público leitor. Viveriam em atritos, igrejinhas e se bastariam em suas questões recíprocas. Todos sabem que é preciso ter gosto de leitura apurado para ler, por exemplo, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Mas, nada impede que se comece com escritores de linguagem mais simples. Acreditava ele haver preconceito contra a crônica, o romance policial, a ficção científica e o sobrenatural. Constatamos que todos devem procurar gostar de ler, desde cedo. Um bom leitor não tem solidão. Ele tem o livro como companhia, sempre. Sabemos que o mercado editorial já descobriu que livros de leitura mais acessível são fáceis de vender. Mas, é um absurdo que o livro “A Cabana” esteja há meses na lista dos mais vendidos no Brasil. Auto Filho afirmou que o brasileiro passou do estágio da oralidade para a cultura do audiovisual. sem parar no livro. Isto é, passou das histórias de Trancoso, assombrações ou de ninar para as novelas. Adísia Sá reclamou que não se lê e referiu que até professores universitários, inclusive doutores, quase nada leem. Pareceu claro para nós que alunos da 4ª. série do ensino fundamental não conseguem desenvolver competências básicas de leitura. Informei que o Brasil tem apenas 2.500 livrarias, quando, segundo especialistas, seriam necessárias 10.000. Disse ainda que 89% dos municípios brasileiros não têm uma única livraria. As pequenas livrarias estão definhando com o surgimento de mega-stores que focam na autoajuda e em livros ditos profissionais. Entretanto, paradoxalmente, o Brasil é o oitavo maior produtor de livros do mundo, com 2.000 editoras, mais de 12.000 títulos e 300 milhões de exemplares por ano. Desse total, 93% são livros didáticos, a maioria pagos pelos governos e, somente 7.0% são de outros gêneros. Por outro lado, é preciso saber que a leitura digital já vai atingir neste 2010 o total de 10% do mercado de livros nos Estados Unidos. Certamente, haverá um impacto nos livros didáticos, com a possibilidade de consulta de mapas e fazer pesquisas em salas de aulas equipadas com computadores ligados à internet. A distinção entre livro físico e livro digital já deve ser considerada. Estes serão, inicialmente, para um público específico, mas os e-books vieram para ficar. O Kindle, o Sony-reader e o I-pad podem ser popularizados e transportados para os computadores de bibliotecas públicas e escolas. Ler é viver.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/04/2010.

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UTOPIA – Diário do Nordeste

Reflita: enquanto são gastos bilhões de dólares na África do Sul para a realização da Copa Mundial de Futebol deste 2010, esquece-se que lá o apartheid ainda resiste. No último mês, um branco – tido como racista – foi assassinado. Saudações nazistas no enterro. Passou nas tvs do mundo. País vizinho à África do Sul sofreu atentado. Morreram jogadores de futebol de seleção. Quase toda a África padece de fome, desnutrição e Aids, em percentual significativo da população. Há ainda regimes de exceção. Agora, por exemplo, uma facção, dizendo-se o braço africano do Al-Qaeda, promete atentados durante a Copa. O mundo, esse largo orbe, precisa parar para pensar. Que tal uma utopia mundial por um dia? As pessoas não sairiam de suas casas. Televisões, rádios e internet deixariam de funcionar. A indústria, o comércio e serviços paralisariam. Ficaríamos silentes. Faríamos balanços das nossas vidas. Infância, crescimento, desempenho profissional, relações afetivas, engajamentos -ou não – com os outros. Os outros são aqueles com quem não temos laços de sangue, amizade ou interesse. Os outros são a humanidade. A soma dos indivíduos da Terra. Passaríamos esse dia em pleno silêncio, nada funcionaria, as ruas ficariam desertas, aeroportos fechados e faríamos reflexões. Até um breve jejum de carnes e peixes. Tomaríamos água com vagar e pensaríamos no desperdício causado à natureza. Olharíamos uns para os outros, mas sem toques ou palavras. Pés descalços e roupas usadas. O grande problema é que essa utopia precisaria de um líder com visibilidade mundial. O Lula seria a opção, mas ele anda atarefado demais com a candidatura da Dilma e a possibilidade de obter posto em organismo internacional já em 2011. Outro seria o FHC, mas é ranheta. E o Papa? Há problemas seriíssimos com os seus pastores e as dores naturais dos com mais de 80. E o Obama? Está assoberbado com o novo plano da saúde dos EUA e as guerras do Iraque e Afeganistão. E o Paulo Coelho? Saiu da moda. Até o Chico Xavier foi cogitado. É hoje um espírito de luz com cartas multilíngues. Que tal a Madonna? Ela tem Jesus, disponível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/04/2010.

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IMAGINE – Jornal O Estado

Imagine-se sem dinheiro, sem estudo, sem trabalho e sem casa. O primeiro terreno, seja em beira de rio, encosta de morro ou “rua da prefeitura”, serve. O mais é sair juntando madeira, parcos tijolos, entulho, papelão, telhas velhas, pneus e a morada estará pronta. Uma puxa outra, mais outra e se forma uma favela. Dirão sempre que moram ali há anos. Aí aparecem os políticos e os candidatos a políticos e dizem que vão urbanizar, iluminar e sanear. Imagine, paralelo a isso, uma indústria crescente no Brasil, a da invasão de terrenos. Há tropas de choque para escolher, definir, fotografar, filmar, “olhar no google”, programar e invadir terrenos. Tudo nas cidades. Os invasores têm “tecnologia”. Dá lucro fácil e as revendas são rápidas. Geralmente, aos fins de semana, grupos invadem área, marcam os “lotes”, os fiscais e a polícia fazem vista grossa e cria-se o que definem como movimento social de ocupação. E assim o fazem. Os processos de reintegração de posse quase não andam. Os juízes alegam não poder mandar citar “José de tal”, Maria do Barraco Azul etc. Os legítimos donos querem sua devolução, contratam advogados, pagam custas judiciais e amargam anos, décadas até, para o processo andar. E se não pagam o IPTU do imóvel invadido vão para o SPC, Serasa e, em breve, sacarão os impostos das suas contas bancárias. Imagine-se também com a capacidade de mapear nas cidades as residências dos policiais civis e militares. Por ganharem aquém do necessário, moram, quase sempre, na periferia e aí, mesmo sem desejarem, são obrigados a conviver com todos. Parte ínfima do todo é composta de marginais, tal como acontece também em bairros onde moram os tidos como classe média e “ricos”. Dessa proximidade espacial surge a camaradagem e daí para o desatino bastam a argúcia do delinquente, a tentação e a necessidade. Por tudo isso é que me pergunto se as ações humanitárias que o Brasil faz no Haiti (é claro que o Haiti precisa, mas…) e em outros países mais pobres que o nosso, não deveriam começar aqui com a atenção para, por exemplo, os que cuidam da segurança pública, sejam policiais ou agentes prisionais. Mereceriam eles ou não serem clientes prioritários, por exemplo, do “Minha Casa, Minha Vida”? Um redesenho dos antigos financiamentos da Caixa para casas populares, das antigas cooperativas habitacionais, das ancestrais Cohabs e tudo o mais que foi considerado o sistema financeiro da habitação. Criou-se por lei (4.380), extinguiu-se pela desídia e malversação. São Paulo e o Rio são estados onde a miséria e a riqueza moram juntas. Em qualquer cidade média ou grande, também. Claro que uma chuva forte de mais de 200 milímetros pode causar estragos, mas o saneamento básico- quando existe – deve servir também para coletar dejetos e escoar as águas da superfície em bueiros limpos. E onde ficam os bueiros limpos? Se há ocupação consentida de morros, encostas, orlas marítimas, rios e lagoas, estamos, a cada dia, plantando o caos para a próxima enchente. A solução não é olhar para a meteorologia, mas cuidar de fazer certo o que se propaga e não se executa. Desde o século passado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/04/2010.

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HOJE, NA BIENAL – Diário do Nordeste

Este artigo é um convite especial para você, leitor(a). Hoje, domingo, às 11 horas, no Espaço “Não Me deixes”, no Hall Central do Centro de Convenções, a Academia Fortalezense de Letras realiza sua segunda sessão em bienais do livro. Vá, esperamos por você. Será uma forma simples, leve, audaciosa e manifesta de aproximar uma nova academia do público que se pretende ver em eventos literários. Sabemos que tradições devem ser respeitadas, mas urge oxigenar a cultura, dando ênfase na comunicação entre os que escrevem e os que leem, ainda que não sejamos sábios ou expoentes no que fazemos. Livro sem leitor é cadeado sem chave. Nessa reunião, o professor de literatura brasileira, Carlos Augusto Viana, falará sobre a obra literária de Rachel de Queiroz, enquanto o escritor José Luís Lira dirá de sua amizade – na varanda sertaneja – com a já então madura autora de “O Quinze”. Teremos a presença benfazeja de jovens integrantes de academias estudantis, que apoiamos. Tudo girará em torno da comemoração do centenário de nascimento de Rachel, patrimônio imaterial de todo o Estado do Ceará e, especialmente, da fortalezense cidade, onde nasceu e mantinha pouso. Se puder, dê um pulo lá, vale a pena, acredite. Vocês estão convidados a comparecer, não só a essa sessão, mas a todos os eventos da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, aberta na sexta e que vai até o dia 18 próximo. Uma Bienal é uma festa múltipla, mas o seu objetivo central é o livro, esse pequeno objeto que nos faz distintos pelo saber. Vivemos, neste começo da segunda década do século XXI, a chegada de meios eletrônicos de leitura como o “Kindle” e o “IPad” que, ao contrário do que alguns pensam, não substituirão o livro, tampouco o escritor, o editor e nem arruinarão gráficas competentes. Serão apenas meios e estratégias a facilitar a leitura de livros na forma digitalizada. Ler, seja como for, ajuda a pensar, ficar mais centrado e infenso ao que não nos atrai ou incomoda. Abrir um livro, começar a lê-lo é um ato simples, despretensioso, mas pode enriquecê-lo. “O que estais lendo?”, perguntou Polônio a Hamlet. E você?

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/2010.

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CLÉBER AQUINO – Jornal O Estado

Imaginem um menino tipicamente cearense, criado no interior, que, de repente, vem para a capital e, nela, descobre-se capaz de sonhos e realizar objetivos. Este era Cléber Aquino que se tornou administrador, professor e consultor de empresas. Cléber faleceu na última sexta-feira, 02 de abril de 2010, em sua residência de Fortaleza. Ele se dividia, há mais de 40 anos, entre São Paulo e o Ceará. Morreu como gostaria, lendo. Um fulminante infarto o levou, manhã cedo, logo após pronunciar: Ana Maria. Cléber, nascido em Maracanaú, formou-se pela então Escola de Administração do Ceará, hoje curso da Universidade Estadual do Ceará-Uece e, em seguida, foi para São Paulo onde concluiu mestrado e doutorado na USP-Universidade de São Paulo, da qual se tornou professor. Era casado com a Sra. Ana Maria Cavalcante Aquino e realizava há mais de 20 anos, entre outros projetos, o Programa História Empresarial Vivida. Esse programa consistia em uma reunião mensal na hora do café da manhã, onde convidados de múltiplas profissões e atividades afins ouviam palestras de autoridades, professores, empresários e intelectuais, quase sempre de São Paulo. Após as palestras, eram realizados debates. Tudo era gravado, transcrito e entregue em apostila na próxima palestra. Por outro lado, Cléber Aquino reuniu, em livros, vários depoimentos de empresários paulistas e cearenses que, no seu pensar, mereciam contar suas histórias pessoais e profissionais, de superação e sucesso. Rigoroso, quanto a horários, Cléber, viajado e interlocutor de grandes dirigentes de empresas, mantinha uma relação peculiar com a classe empresarial. Asseverava que os empresários deveriam ter melhor formação acadêmica, muita leitura, cultura, e saber de artes, preparar a sucessão, visão estratégica do mundo e ética em negócios. Era polêmico, dogmático e poderia até ser em alguns momentos, em sentido lato, rabugento. Todos os nomes de destaque empresarial do Ceará, desde os anos 80, participaram, pelo menos alguma vez, dos seus célebres cafés da manhã, que se iniciavam regulamente às 7.30 horas e culminavam com a entrega compulsória de livros para leitura, escolhidos pela sua ótica acadêmica e vivencial. Cléber nutria admiração por muitos empresários, mas era contundente e ferino em seus juízos críticos com alguns. Usava três ou mais canetas de cor no bolso da camisa para anotar ou grifar o que lhe agradava ou não em livros, jornais ou revistas, que sempre portava. Falava da “burguesia” empresarial de sua terra que adorava coluna social, mas, paradoxalmente, virou verbete no último bienal “Sociedade Cearense”, de Lúcio Brasileiro. O Ceará perde um de seus filhos ilustres e Maracanaú recebeu, de volta, o seu corpo eternizado que, por sinal, deu muito trabalho para se adequar ao exíguo espaço do jazigo onde já repousava sua mãe no velho e simples cemitério São José. Ele, tal qual o santo protetor do Ceará, não teve descendentes. Caía a noite, quando uma laje de concreto solveu o problema. Familiares, poucos amigos e jovens seguidores de Cléber acompanhavam Ana Maria a rezar um Pai Nosso. Uma vazia roda gigante de um mambembe parque de diversões, do outro lado da rua, permanecia inerte. Afinal, era noite de lua cheia na Sexta Feira da Paixão.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/04/2010.

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LENÇÓIS – Diário do Nordeste

Neste domingo de Páscoa, os que se acreditam cristãos acordam para o cumprimento de atos religiosos ou curtir o que sobra do feriadão começado na sexta-feira. Acordam em camas, redes, macas hospitalares, enxovias e tiram de sobre os corpos o que usam como lençóis. Podem ser de seda pura, linho de poucos ou muitos fios, algodão, fibra, trapo, plástico ou meros papelões. Quase todos usam algo para cobrir-se como se fosse um manto protetor ou mero aquecedor do frio da alma ou do corpo. A natureza, especialmente nos trópicos e em outros lugares do mundo, nos presenteou com dunas de areias, verdadeiros lençóis. O mais famoso deles, para nós brasileiros, é do estado do Maranhão. A formação peculiar dos Lençóis Maranhenses é um imenso mar de dunas com areias atipicamente frias, entremeado de pequenas lagoas dando à paisagem um belo e quase lunar espetáculo geológico. É provável que neste dia da Ressurreição milhares de pessoas estejam saindo de seus lençóis, orando, bebendo ou passeando em dunas que formam os tais lençóis ou ressurja em revistas, jornais ou tvs a história do Santo Sudário, pano que teria coberto, após a crucificação, o corpo mutilado de Jesus Cristo. Há muito, o Santo Sudário é objeto de crença ou tido como embuste. Há, em Turim, Itália, um lugar onde está depositado o lençol que teria sido dado por José de Arimateia para cobrir o corpo cheio de traumatismos de Jesus. Testes científicos foram feitos com o método do Carbono 14 para tentar provar, pelo menos, o século de sua confecção. Os cientistas concluíram que o tecido seria do século XIV. Os crentes, por sua vez, têm fé nas manchas que não apagam. Por outro lado, nos Estados Unidos foram gastas 140.000 horas em exames microscópicos e outros até concluírem que as imagens não foram feitas por mãos humanas. Mistério da fé? Agora, os lençóis que nos preocupam são os muitos que aparecem, diariamente, em páginas de jornais e em programas de televisão cobrindo corpos inertes e ensanguentados de vítimas da violência. Esses lençóis dados por mãos caridosas deveriam ser o símbolo branco-escarlate da luta pela paz social. Eles não encobrem a nossa vergonha coletiva.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/2010.

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PÁSCOA OU FERIADÃO “SANTO”? – Jornal o Estado

Os judeus acabaram de comemorar a sua páscoa (Pessach), a festa em que celebram a libertação do jugo do Egito, de onde fugiram para o chão hoje chamado de Israel. Segundo a História, eles, os judeus, foram os algozes de um seu patrício, Jesus, filho de José, um dissidente político ou da fé que professavam. Agora, nesta semana, somos nós os cristãos ocidentais, que temos a Semana Santa que ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até domingo. Para os que realmente creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana seria mais que isso. Ela se prenderia a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois réus. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes com a capacidade de decidir, em conjunto, os problemas gerais das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição, ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria, repito, um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus um bom amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimateia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimateia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com um lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro da família. Hoje, o dito Santo Sepulcro, é um local de visitação diária permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá e constatei. Depois de amanhã, domingo de páscoa, segundo narra a Igreja em seus evangelhos, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem saber mais, a fim de que possam, se for o caso, encontrar respostas para a sua fé e vida. Consta que São Paulo, o apóstolo, teria dito algo como: a fé é a substância de coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/04/2010