Acabou a folga. Estou voltando. Gosto de ir, mas voltar me dá mais prazer. Aqui é o meu lugar. Vejo o jeito do povo, a falta de paisagismo, taludes sem grama, pedintes no sinal e o som alto do carro ao lado com a tampa do bagageiro aberta. É um “plus” bobo. Bom seria se o guiador estivesse dentro ouvindo o som estridente. A avenida larga é margeada por invasões. Casas viram oficinas, bares, salões de beleza, “lan houses” e fazem despontar microempresários em busca da vida. O carro dá solavanco em cratera e vejo a função do cinto de segurança. Olho à direita e sinto um esforço público para desvendar a face oculta do rio – cheio de aguapés -com a derrubada de biroscas e a construção de pequenos e alegres parques de esportes e lazer. Espero que cuidem deles. É preciso fazer entender ao povo que aquilo é dele. Ele é o usuário, guardião ou depredador. Uma curva à esquerda e miro um dos parcos viadutos. Precisaríamos de muito mais. Nas passagens de trens, cruzamentos densos de veículos e plenos de assaltantes ligeiros sabendo o tempo de cada sinal vermelho. Assaltam de arma em punho, verdadeira ou falsa, e se embrenham em caminhos tortuosos. Um micro-ônibus cruza pela esquerda e o trocador se pendura na porta aberta para refrescar o calor e gritar o destino do coletivo. É noite e a brisa morna prenuncia chuva. Uma freada, xingamentos e tudo sai da inércia momentânea. Um motel de gosto duvidoso anuncia promoções e nenhum carro se apresta para aceitar a oferta. A cidade define os seus contornos sutis e as luzes ficam mais claras. Há um hospital com ambulância à porta, dois paramédicos com uniformes azuis retiram a maca com um jovem deitado a segurar o plástico a lhe oferecer o soro revificador. Penetraram na emergência. Ao lado, um carro preto com luzes piscando, fitas e latas amarradas ao para-choque traseiro, anunciam casamento e a fé no encontro que se pressupõe duradouro. Dobro à esquerda e sinto o cheiro da maresia e as partículas de areia afagando meu rosto ávido por um cerrar de olhos. Abro a porta, o rabo do amigo fiel entra em movimento acelerado e ele late de alegria. Cheguei, estou em casa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/2010.
