Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neurolinguística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste – de onde saiu Lula – seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?). A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? Dizem que o filme reescreve a vida de Lula e, certamente, de sua mãe D. Lindu, cujo anagrama (rearranjo das letras de uma palavra) daria algo como Dilnu. Ora, se ele se baseia no livro de Denise Paranaguá, é estória recontada, com direito à fuga do rigor da narrativa biográfica tradicional. O fato é que não achei perda de tempo vê-lo e tampouco concordo com os que execram a família Barreto por ter descoberto o mapa da mina com patrocinadores fortes e gentis. Afinal, os Barretos sempre souberam tirar água de pedra. Não foi sem razão que o sobralense Luiz Carlos Barreto chegou ao Rio sem saber nada, aprendeu fotografia, virou cineasta, produtor amado e odiado por seus colegas. Inveja? Barretão tem dois filhos (Bruno e Fábio) que mexem bem com cinema. Fábio, o diretor de Lula, acidentou-se, dramaticamente, antes da estreia nacional, no dia um deste ano de 2010. Falam em azar. Besteira. Dirigir à noite, no Rio, a 120 km, sem cinto, é imprudência, só isso. Seria bom que cada candidato a cargo majoritário contasse sua vida em filme. Se não têm patrocinadores, o façam em cordel, ensaio ou montem um vídeo. Desculpem, errei. Lula não é candidato.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2010
