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LULA E A MENSAGEM – Jornal O Estado

Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neurolinguística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste – de onde saiu Lula – seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?). A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? Dizem que o filme reescreve a vida de Lula e, certamente, de sua mãe D. Lindu, cujo anagrama (rearranjo das letras de uma palavra) daria algo como Dilnu. Ora, se ele se baseia no livro de Denise Paranaguá, é estória recontada, com direito à fuga do rigor da narrativa biográfica tradicional. O fato é que não achei perda de tempo vê-lo e tampouco concordo com os que execram a família Barreto por ter descoberto o mapa da mina com patrocinadores fortes e gentis. Afinal, os Barretos sempre souberam tirar água de pedra. Não foi sem razão que o sobralense Luiz Carlos Barreto chegou ao Rio sem saber nada, aprendeu fotografia, virou cineasta, produtor amado e odiado por seus colegas. Inveja? Barretão tem dois filhos (Bruno e Fábio) que mexem bem com cinema. Fábio, o diretor de Lula, acidentou-se, dramaticamente, antes da estreia nacional, no dia um deste ano de 2010. Falam em azar. Besteira. Dirigir à noite, no Rio, a 120 km, sem cinto, é imprudência, só isso. Seria bom que cada candidato a cargo majoritário contasse sua vida em filme. Se não têm patrocinadores, o façam em cordel, ensaio ou montem um vídeo. Desculpem, errei. Lula não é candidato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2010

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CONCURSOS E VIDA – Diário do Nordeste

É grande o número de jovens que, ao concluir os estudos, seja de nível médio ou superior, se lança na luta para passar em concursos públicos. Não é raro se ouvir: “estou estudando para concursos”. Não importa qual seja. Certamente, a carreira de funcionário público é um dos caminhos para milhões de jovens – e de não jovens – que não conseguem ou perderam a ocupação em empresas privadas ou, simplesmente, optaram por ser “concurseiros”. Acontece que os concursos oferecem milhares de vagas e, todos os anos, milhões de jovens adultos procuram trabalho. Um exemplo: um concurso recente oferece 159 vagas e mais de 6.000 as disputam. Os que não forem aprovados terão sentimento de frustração e, quase sempre, serão cobrados por suas famílias. Enquanto isso, o tempo passa e mais gente entra ano a ano na disputa por um número menor de vagas. Essas pessoas precisam ter foco. Ter foco é saber o que se deseja na vida. A competição é uma espécie de seleção natural fazendo a sua parte. Por capacidade ou sorte cada um faz sua estrada. Assim, anos da fase mais produtiva são gastos em aulas que consistem em aprender a entender ou decorar matérias e assimilar dicas ou “bizus”. É provável estar cometendo equívocos nesta análise rápida. Acontece que a vida não é um bálsamo. Ela é uma constante e infinda luta entre desejos, capacidade e a realidade que nos cobra atitudes. Há alternativas outras, além dos empregos públicos e privados. Veja as suas habilidades, sua formação escolar, o seu “jeito” para fazer determinadas tarefas. Vá à luta. Revi, recentemente, o filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Almodóvar. Nele aparece um motorista de táxi que, além da corrida, vende aos passageiros: jornais, revistas, cigarros e coisas mais. Assim, tinha uma renda adicional. Imagine que alguém tenha 500 reais. Pode, por exemplo, iniciar um micro negócio de frutas. Comprar na Ceasa e vender na sua rua, no prédio, no bairro. Venda porta a porta. Lucro diário. Há oportunidades simples à espera de pessoas com garra. Nada é humilhante. A dignidade é saber-se capaz de fazer algo lícito, produtivo e que lhe dê sustento e prazer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/2010.

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TEMPO DE FELICIDADE – Jornal O Estado

O Natal e o Ano Novo ensejam trocas de mensagens, telefonemas e contatos pessoais. Em todos, fica claro o desejo – na maioria, sincero – de felicidades para os familiares, amigos, colegas e afins. Da forma como é posta, parece-nos que ficamos com uma carga benfazeja de desejos de felicidades ou, trocando as letras, com uma compulsão de ser feliz. Essa conclusão é uma dúvida que se impõe. Como um chuveiro em que cada gota é um rastro de felicidade a nos molhar. Será que estamos preparados para esse banho de felicidade? Cada um de nós tem, dentro de si, alguém ignorado, guardado a sete chaves, que nos faz duvidar, criticar ou contrariar a opinião que, quase sempre, externamos. Diz o psicanalista Contardo Calligaris que: “no fundo a palavra felicidade é inadequada para representar o que de fato é o ideal das pessoas.” E conclui: “estou absolutamente convencido de que ninguém quer ser contente e satisfeito. Acho que isso não é um ideal para ninguém, não é um ideal cultural possível”. Não concordo com ele, mas admito que o ser humano é por demais complexo para ser rotulado de feliz ou infeliz. Temos momentos felizes, mas há outros, a maioria, em que questionamos essa ideia burguesa do tudo certo, tudo justo, todos felizes. O que nos move é a capacidade de ter anseios, de viver de forma aberta, clara, mesmo que isso nos faça passar do céu ao inferno em pouco tempo. Não há dúvidas de que algumas pessoas aparentam ser mais felizes que outras. Tampouco há dúvidas de que alguns fingem melhor que outros. Todos, enfim, vivem. E o ano que se inicia nos dá a oportunidade de tentar melhorar relacionamentos, descobrir qualidades no outro, ouvir mais que falar e estar sempre pronto a auxiliar sem que o outro nos peça. Isso, quem sabe, possa ser um ideal de felicidade, o de saber-se útil e capaz de assimilar os percalços, maximizar momentos de bem-estar e minimizar os tropeços do dia a dia. A vida é um concurso diário, inscreva-se nele e tenha êxito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2010

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O FUTURO CHEGOU? Diário do Nordeste

Estamos em 2010 e é ano de eleição. O Brasil chegou ao futuro? Explico: Stefan Zeig era um escritor judeu austríaco. Em 1936, veio ter ao Brasil. Viajou pelo país e se maravilhou com o que viu. Veio, foi e voltou em 1940. Resolveu pedir visto de permanência e acenou em troca com um livro que escrevia: “Brasil- Um país do futuro”. Diz Alberto Dines, no prefácio da edição de 2006 do referido livro, que: ”Zweig efetivamente fez um negócio com o governo brasileiro: em troca do livro, receberia junto com a mulher um visto de residência permanente”. Assim, publicado em 1941, era mais um livro ufanista que surgia. Para o historiador José Murilo de Carvalho: “o título do livro de Zweig transformou-se em ironia”. Zweig comparava o Brasil “cordial” com os horrores do nazismo, do qual fugia. Em certo ponto, ele diz: “Tudo que é brutal repugna os brasileiros”. Assim, esse livro – pouco lido – servia mais como citação de que nós seríamos o – e não um – país do futuro. O jornalista Marcelo Coelho opina: “Seja como for, se muito do que lemos…parece pouco verdadeiro, não é que Zweig esteja mentindo. A realidade é que está mais errada do que seu livro.” Estes comentários estão no Caderno Mais, da Folha, de 18.10.2009. Agora, digo eu, estamos no futuro. E o Brasil é um país ainda de futuro, mas em pouco tempo, será um país destacado. Não só pela desenvoltura do presidente Lula; o será também por nossas riquezas em reservas minerais e florestais, solo vicejante, política fiscal rígida, grau tecnológico de empresas descobrindo mercados no mundo, o peso das “commodities”, o incremento do consumo interno e dos pequenos e médios negócios. O será ainda pela sua inserção na política e mídia internacional, não mais como exótico, mas parceiro confiável. Este país somos nós. Esta Nação são todos, desde os que vivem do Bolsa Família aos que viraram o ano com iguarias. Este país pujante só precisa despoluir-se socialmente. Diminuir as desigualdades, cuidar da infraestrutura, respeitar a natureza, cuidar da saúde, educar crianças e jovens e ficará pronto. 2010 é decisivo para isso. Vote com a razão. Seu voto é o futuro. Você fará o futuro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2010.

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PEDAÇOS DESENCONTRADOS DESTE 2011 – Jornal O Estado

O ano de 2011 estará terminando na próxima semana. Os anos ou os tempos acontecem, simplesmente, não só para o planeta Terra, esse que dividimos com sete bilhões de pessoas, mas em todo o universo ainda em processo de descoberta pelos cientistas com minguadas verbas. Até a Nasa está pifando. E este ano não foi um ano bom para a ciência, pois faltou dinheiro para os governos de quase todos os continentes. Todo ano tem tragédias, mortes, terremotos, posses e derrubadas de governo. É o ávido fadário.
Dilma entra na história como a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil. O Estado do Rio perde quase 1.000 pessoas em enchentes nas serras fluminenses, repetindo o que acontecera no ano de 2010. Promessas, verbas, mortos e poucas prisões. Hosni Muburak cai do Governo do Egito e começa a “Primavera Árabe” derrubando outros ditadores do médio-oriente. O Japão sofre um “tsunami” arrastando 10.000 pessoas para o além e vê parte de sua costa totalmente destruída. O ano não terminou e quase tudo já está reconstruído.
Descobriu-se, afinal, que Osama Bin Laden não estava escondido na confluência do Brasil, Paraguai e Argentina onde reina em cascatas a Cachoeira do Iguaçu. Osama morreu no Paquistão, dentro de sua casa que pretendia ser um “bunker”. Não era. Morreu desvalido e seu corpo desapareceu em meio a mar proceloso, não o de Castro Alves. Aguardemos livros sobre o “local que eu descobri”. Em uma Europa com economia gripada o Príncipe William casa com a jovem Kate para o deleite do jornalismo oco e das revistas para desocupados. A cantora Amy Winehouse, uma casa de vinhos ambulante, morre aos 27 por excesso nos costumeiros excessos.
Barak Obama e Michele vem ao Brasil e nada dizem de concreto. Vão a palácios em Brasília, ficam na orla do Rio e visitam o Pão de Açúcar à noite e que tais. O mesmo do mesmo. Hugo Chavéz briga com um câncer em Cuba. Silvio Berlusconi, o coroa que paga para dizerem que é o rei das moçoilas, estrebucha e perde o poder na Itália. Fica com a mídia, a dinheirama, o futebol e grava um disco com canções de amor. Steve Jobs, o design maior da informática, de jeans e camiseta preta, perde a luta contra o câncer e faz logoff aos 57. Todas as tribos se reúnem em Wall Street, inclusive a Maria Luiza Fontenele, e assestam seus estilingues contra as vidraças blindadas de banqueiros desalmados. O nosso Supremo Tribunal Federal aprova a união estável entre pessoas do mesmo sexo sem saber que estará aumentando o número de questões nas varas de família nos próximos anos. Aguardem.
Lula é acometido de câncer na garganta, revela o mal de forma pública e termina o ano com 75% no Ibope da regressão do tumor. Dilma, a presidenta esquentada, revela-se durona e manda sete ministros trapalhões para o vazio que é o eixão do Plano Piloto. O escândalo do “Mensalão” ainda dormita e talvez não acorde. O povo da Rússia parece zangado com o Puttin. A Coréia do Norte perde o seu ditador, Kim Jong-il, que é mostrado em transparente esquife de vidro para o herdeiro do trono, o Kim Júnior. Os soldados americanos deixam o Iraque por falta de grana.
Para falar de flores e espinhos, o filme “O Discurso do Rei” ganha o “Oscar”, o Santos endeusa Neymar e se perde na “Ola” de quatro do Barcelona. Somos melhores em quê? Talvez do “crack”. Roberto Carlos choraminga na Globo, Sílvio Santos está renovado e o Brasil parece acreditar que a crise do mundo vai passar ao largo do equador. Aeronautas prometem atrapalhar o fim-de-ano e o Papai Noel, infelizmente, anda mais em moda que o menino da Galiléia. Uma pena. Não gaste o seu 13º. com o que não precisa e não pose para o ano novo. Vá com temperança, medite ou ore e boa sorte. Felicidades.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2011.

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A PERSONALIDADE DO ANO – Diário do Nordeste

O que significa personalidade? O que sei é pouco. Seria um conceito psicológico a mostrar padrões de comportamento de alguém? Quem sabe, a capacidade de tomar decisões configuradas em atitudes, tendências, valores e sentimentos? Dito isto, é bom lembrar que no percorrer dos dias finais do ano, entidades, jornais, revistas, colegiados, mídias sociais e assemelhados, escolhem, segundo seus critérios, personalidades destaques em seus fazeres.
A revista “Time”, dos Estados Unidos, tenta fugir da individualização. Em 2006, escolheu “Você” para a personalidade do ano. Você é qualquer internauta comum ou ilustrado. Você é pessoa indefinida no meio de todos. Agora, neste 2011, a “Time” designa “O Manifestante” (The Protester) como a personalidade mundial. Seria a ausência de líderes verdadeiros? Sua capa em cores traz uma mulher árabe usando touca com a boca coberta por um trapo de pano. A legenda diz “Da Primavera Árabe a Atenas, do Ocupem Wall Street a Moscou”. O(a) manifestante, seja quem for, também é você, onde quer que more, insatisfeito com o que vê, sente e o agride.
Esse manifestante não é só o egípcio Ahmed Haara que perdeu os olhos acantonado na Praça Tahrir, no Cairo, dando início à derrubada de Bumarak e de outros ditadores árabes. Tampouco o tunisiano Mohammed Bonazizi que ateou fogo ao próprio corpo e não viu o ditador Bem Ali ser destituído. Seria Rey Lewis, capitão aposentado da Polícia, que achou gloriosa a sua prisão no “Ocupem Wall Street”, onde, ao lado, estão banqueiros manipuladores ou o mexicano Javier Sicília que perdeu um filho para os traficantes de drogas? Não. A personalidade do ano é o somatório de todos os que se revoltam contra os desgovernos, a corrupção, o tráfico de droga, as guerras fabricadas, a cobiça pelo petróleo, a discriminação de gêneros, credos, raças e os que não conseguem empregos na orbe dos nababos a derrubar mercados e a fomentar crises em cadeia. A Ásia detona, a Rússia geme, a Europa esperneia, os EEUU emudecem e o mundo, aturdido, vê na pessoa comum, talvez sem ideologia, crença ou partido, sinais vivos de que pensa, conclui e protesta: basta de desmantelo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2011.

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KARL MARX, O HOMEM – Jornal O Estado

Já disse neste espaço ter procurado conhecer a casa onde nasceu Karl Marx, em 1818, em Trier, Alemanha, rincão da minha colega Elfriede Reinhilde. Não tive informação correta e acabei me contentando com a foto. Era domingo, havia festa na cidade molhada pela chuva e atulhada de carros.
Marx era de família judia convertida, obrigatoriamente, ao cristianismo quando ele tinha seis anos. Saiu cedo de Trier e foi para Bonn e Berlim, onde estudou direito. Aos 19, em 1837, mandou ao seu pai, Heinrich, um punhado de poemas seus e partes da novela humorística “Escorpião e Félix”. Seu pai morreria seis meses depois e Marx não foi ao enterro. Tinha mais o que fazer, segundo relato de Bernardo Carvalho, autor de longo e belo ensaio, embasado por vários críticos, para o caderno “Ilustríssima”, de 23 de janeiro de 2011, que contém a tradução integral de o “Escorpião e Félix”.
Nesse tempo, 1837, já havia conhecido sua futura mulher, Jenny von Westphalen, filha um de barão prussiano, com quem casou e teve cinco filhos. Carvalho faz crer que o imberbe candidato a ficcionista não teria obtido sucesso, se persistisse no ofício. Então, depois de viver, estudar, mudar o rumo para a filosofia e professar na França e Bélgica, o já filósofo consagrado lança o Manifesto Comunista, em 1848, em parceria com Friedrich Engels. E, perseguido, passa a viver em Londres, onde morreria 34 anos depois.
Esta introdução é para dizer que um amigo enviou-me vídeo seu em que espinafra o inspirador do comunismo. Explico: Ele foi até ao cemitério de Highgate, em Londres, ver o túmulo de granito de Marx, erigido apenas em 1954, pelo Partido Comunista Inglês, encimado por seu busto e a célebre frase: “Comunistas de todo o mundo, uni-vos”. No vídeo, ele externa sua revolta com o filósofo alemão. Na verdade, Marx morreu de tristeza, consternação, solidão, carente e apátrida, em 1883, após a morte da mulher Jenny, em 1881.
No meu olhar o homem Marx era amargurado com o seu fracasso financeiro. Vivia aborrecido por não dar uma boa condição de vida à Jenny, cuja família tinha posses e largara tudo por ele. Jenny sofreu sucessivas crises de depressão e ele tratava as duas filhas – três filhos morreram na infância – sobreviventes de forma rígida, obrigando-as a estudar canto e piano e lhes exigia que só casassem com pessoas de posses. Essa contradição pequeno burguesa se agravou mais ainda com o constrangimento geral ao ter um filho espúrio com a doméstica de sua própria casa, Helen Demuth. Para sanar ou minimizar o problema, Engels assumiu a paternidade e deu o até o nome próprio Friedrich ao filho não perfilhado pelo companheiro. Ademais, por necessidade, Marx escreveu, após o Manifesto, para jornais de língua inglesa, inclusive o New Yorky Daily Tribune, durante bastante tempo. Marx mesmo revelava que “o homem faz a sua própria história, mas não o faz como quer…”. Por fim, o insuspeito filósofo marxista brasileiro Leandro Konder pondera: “Antes de poder contestar a sociedade capitalista Marx pertencia a ela, estava espiritualmente mais enraizado no solo de sua cultura do que admitia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/12/2011.

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BRASIL, 2010 – Diário do Nordeste

A estatística é uma ciência/arte enganosa. Piada antiga: se você estiver com os pés em uma fornalha e a cabeça em um freezer a média será boa. Números são usados ao prazer das circunstâncias, desde sempre. Ninguém, entretanto, é louco para desconhecer o nosso crescimento. As estatísticas do Censo 2010 do IBGE são confiáveis. O grande problema do Brasil, além da educação precária, da desigualdade absurda e da saúde ruim é a crença de que já “chegamos lá”. Infelizmente, ainda não.
A Itália, em crise declarada, tem renda média de 30 mil dólares por pessoa/ano e uma bem menor desigualdade. O brasileiro tem a renda/média de US$10 mil ano e exulta. O integrante da classe C mora em áreas com saneamento precário, segurança sofrível e espreme-se nos coletivos em viagens demoradas, pilota motos em zig-zag ou usa carros básicos sem condição de segurança. As motos e os autos, ao acabar a garantia, produzem defeitos já pela depreciação programada, péssimas condições das estradas e passam a ser o deleite das oficinas pequenas com preços mais baixos, embora algumas não apresentem qualidade. A par disso, muitos dos componentes vendidos pelas lojas de autopeças são genéricos ou refugos das montadoras. E isso é um detalhe.
Os dados pontuais mostram como estamos distantes do que se propaga. Você sabe que 25% da população brasileira ou 47 milhões de pessoas vivem com apenas 188 reais por mês? O fato, por si só, desmente o mito da riqueza. Em euforia, pessoas de todas as classes abusam do cartão de crédito e financiamentos com parcelamento a perder de vista. 60% da população está endividada e isso gera problemas e mais renda para bancos, lojas, cartórios, Serasa e SPC. Deus dá um jeito, acreditam muitos.
A palavra parcimônia deveria ser mais bem explicada e divulgada neste Brasil de consumo desenfreado. Você não pode e nem deve ser julgado pelo carro, casa, roupa e até pela bebida que ingere, mas pelo compromisso efetivo com a sua vida e o futuro. Dívida é problema sério. A incapacidade do autocontrole destrói vidas promissoras. O seu amanhã agradecerá.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2011

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FUNK, BEBIDA, LINCHAMENTO E IMPUNIDADE – Jornal O Estado

Aos que perderam familiares para a violência.
O que leva um grupo de pessoas em plena cidade de São Paulo numa noite de domingo a linchar um motorista de ônibus que, em desmaiando, ocasionou batida em três carros, três motos e feriu um jovem? O fato aconteceu no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo, nesta semana. Ali perto, acontecia uma festa Funk com cerca de 300 pessoas, carros e motos na via pública. Prá, prá, prá.
Ao ouvirem o barulho, certamente alto para ser escutado em meio à música, 40 deles saíram à rua e foram sem saber ou indagar as razões do acidente, entrando no ônibus e atacando o motorista, Edmilson dos Reis Alves, casado, 60 anos, pai de quatro filhos e considerado por seus colegas de trabalho, um profissional exemplar. Além de socos e pontapés foi atingido na cabeça, sem pena e repetidas vezes, por alguém que manuseava o extintor do próprio ônibus.
A primeira ideia é culpar o funk, ritmo decorrente da mistura do jazz, soul music e do swing e que tem pouco mais de 20 anos no Brasil. Em 2009, a lei estadual de No. 5543, do Rio de Janeiro, diz, no seu artigo primeiro, o seguinte: “Fica definido que o funk é um movimento cultural e musical de caráter popular”. O estranho dessa mesma lei é que o parágrafo único do citado artigo primeiro dispõe que: “Não se enquadram na regra prevista neste artigo conteúdos que façam apologia ao crime”. Uma pergunta: Qual a razão da ressalva? Já havia apologia ao crime, então? Para que legislar então sobre essa cultura popular? Muitas vezes, os funkeiros saem da teoria para a prática. Você poderá até dizer: mas a lei é do Rio? Não importa. O que fica claro é a negligência, a falta do que fazer e o descompromisso de quem legisla absurdo como esse.
E como ficam os que praticaram esse crime coletivo? Nenhum dos agressores foi preso. E o IML de SP ainda vai concluir se a morte decorreu do mal súbito ou da múltipla agressão. No dia seguinte, motoristas colegas do morto fizeram uma paralisação que logo foi reprimida.A segunda ideia seria criminalizar a bebida consumida nesses bailes que poderia exacerbar a natureza dos dançantes. Ora, faltavam 30 minutos para a meia-noite. Logo seria segunda feira. Por que a lei não proíbe a venda noturna de bebidas alcoólicas em festas nas noites domingueiras? Outra lei?
Por que não pensar em uma terceira ideia? A falta de escolaridade, civilidade e, quem sabe, trabalho dessas 300 pessoas em um embalo noturno dominical. O fato é que mais uma pessoa morreu por conta da clara violência urbana brasileira, tão braba quanto às lutas libertárias que acontecem neste momento nos países árabes. Hoje, o medo e a violência andam pela mesma via das cidades, enquanto as lâmpadas se quedam acesas e os postes, eretos, floresce a escuridão na mente de alguns jovens brasileiros, especialmente esses que talvez nada tivessem a fazer na manhã seguinte, segunda, dia de trabalho ou de estudo.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/12/2011.

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NOVOS LÍDERES – Diário do Nordeste

O Fórum de Líderes encerra amanhã, em São Paulo, com a festa da eleição dos novos líderes brasileiros, a sua programação do ano que, entre outros eventos, ousou trazer o Dalai Lama e mostrar que há razão para se entender as mudanças que o tempo exige nas características de um novo líder empresarial.
O dirigente espiritual do Tibet é exemplo de conduta, perseverança e faz do seu viver o espelho para os que merecem o galardão de guia. Líder não é aquele que, por esforço próprio, herança ou casamento, assume o controle de uma empresa, seja pequena, média ou grande. Líder é aquela pessoa que transforma os outros a partir de seu exemplo, da luta centrada no bem estar coletivo e no propósito explícito de seus princípios.
Para os novos líderes, direi que não é líder aquele que utiliza suas relações para obter proveito, assumir posições em entidades de classe e, em seguida, ver pavimentado o caminho para obtenção de informações privilegiadas, empréstimos subsidiados e favores de toda a natureza.
O Brasil tem avançado neste século, mas perduram erros e omissões de todos que nos colocam no incômodo 84º. lugar no Índice de Desenvolvimento Humano-IDH. Não vale, simplesmente, estar chegando a ser a 6ª. economia mundial. O que nos tornaria singulares seria uma melhor distribuição de renda, o bom uso do dinheiro público para bem construir moradias populares e ampliar o saneamento básico que só atende a 60% dos brasileiros.
O que nos daria alento seria uma reforma tributária que se retarda em nome da ausência de austeridade na gestão do dinheiro público. O que nos consagraria seria o fim do analfabetismo e um ensino público de qualidade. Orgulho teríamos se a saúde do povo brasileiro não estivesse comprometida com o ainda elevado índice de mortalidade.
Liderança não deve ser sinônimo de esperteza, gentilezas, tampouco de “network” ou de relacionamentos espúrios. O que desejamos para todos é a face limpa e consequente de uma nova liderança nacional que não transige com o malfeito e sabe dos seus direitos cidadãos.

João Soares Neto,
Líder do Fórum, desde 2001
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2011