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O TELEFONE TOCA – Diário do Nordeste

O telefone toca. Não atendo. Toca, novamente. Alô. Reclamações de uma mãe. Ouço tudo. É um desabafo forte, sofrido e abusado. A filha dela mudou o compasso. Não entra em contato com parentes. O que lhe causava pejo parece ter, aparentemente, modificado. Encastela-se no seu mutismo e não ouve ninguém. Acredita-se capaz de tocar a sua vida, sem palpites e destemor. A vida não é idílio. Vidas têm borrões inapagáveis e não dá direito a pausas, replays ou o uso de corretivos. Vida é trânsito, direto. Vida é construção em caderno de folhas a serem escrevinhadas – riscadas, sublinhadas, emendadas – apenas a cada dia. Quando a página vira, virou.
Os dias precisam ser conjugados com temperança ou destemor, amor e trabalho. É claro que o instinto vale, mas há que se lançar para viver, mesmo que se trombe, caia, o humor mude, vacile ou desacerte o passo. A pitada de alegria que dá o condimento do viver tem que ser aditada à água grande que é a realidade fática. Dizia Sêneca, mais de 2.000 anos passados, que vida sem meta é vagabundagem. Veja o original latino: “Vita sine propósito vaga est”.
Não posso fazer ou querer dizer o propósito alheio, cada qual tem que pisar o seu inferno ou paraíso. Ouvir harpas celestiais ou o ranger de dentes. Falei que a vida é construção. Como se pode construir se o terreno é alheio. Cada um que capine a sua terra, revolva, tire os escolhos, regue, adube e faça crescer o que bem plantar. Não importa se é um mero lote, alqueire, hectare ou sesmaria. Você é o seu arado, acione-se, caleje as mãos, de sol a sol. Como colher frutos se não escolher boas sementes, semeaduras corretas, regar e cuidar? Cada um escolhe o que colocar em seu terreiro, na sua cama, mesa ou sua sala.
Estarei filosofando ou dizendo impropriedades? Não importa. O que tento é analisar o fato que me foi passado, com tristeza. As perdas e ganhos são pessoais, não os transferimos por palavras escritas, tampouco por falas não escutadas. Alguns não vêem o que lhes é mostrado, explicado e ponderado. Paciência, cada um que cuide de seus calos, torcicolos, bolsos e mentes. Será chegada o tempo de se saber o não revelado. E aí poderá vir o momento de ser relevado. Ou não.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/10/2011

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CURUMINS PINTANDO, ARISTON E JOBS – Jornal O Estado

Há um Salão de Arte Infantil do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno em curso, é o de número 27. A parceria com a Galeria Benficarte, do Benfica, neste outubro, reproduz o desejo de que as crianças que frequentam os benfazejos salões do conservatório, dirigido e cuidado pela maestrina Miriam Carlos, cresçam em meio a todas as artes. Sem manhas. A música é a principal, a pintura é a acessória. Ambas, juntas, compõem, em parte, a pauta do viver. A partitura necessária ao crescimento, sabendo que o sol é um astro, mas é, igualmente, uma nota musical.
Estas nuances, vitais para sair do quadrado da vida dão a cada infante a oportunidade de criar, pintar e retratar o que, provavelmente, não saberiam traduzir em palavras. Abrahão Victor, Alice Barroso, Alice Sayão, Gabriela Bezerra, Helen Raíssa, João Gabriel, Lemaire Ellen, Lídia Helena, Lívia Barroso, Lucas Santiago, Luiza Sayão, Maria Clara, Marina Carlos e Rodrigo Barros são os expositores deste ano de 2011, o ano em que uma mulher assumiu a presidência da República, o ano em que eles despontam para fugir da razão e mostrar que a emoção e o sonho são, também, sinais positivos de vida. Cito dois exemplos para vocês.
Neste mesmo ano e mês de outubro de 2011 morreu João Ariston Pessoa, curumim de Cascavel, a mesma terra adusta de outro curumim de ouro, Edson Queiroz, no interior cearense. Ariston tornou-se visionário e subia aos céus, adentrando nimbos e stratus, de todos os matizes, para ter terra no chão que tentaram lhe tirar, sem êxito. Foi-se, deixando uma diferente e insuspeita TAF, Tarefa Ariston Feita. Descanse em paz. Um exemplo para curumins.
Outro a morrer, Steve Jobs, filho de pai iraniano e mãe americana que o entregaram para adoção. Sorte que um casal pobre – os pais adotivos – o tratou com carinho e ele fez-se gente, design revolucionário e mexeu com o modo de comunicação entre as pessoas em todo o mundo. Ele pode ter sido vaidoso, egoísta e megalomaníaco, mas fez a diferença neste início de século de terrorismo, guerras, corrupção e crises econômicas. Outro exemplo para curumins.
A vocês, curumins do Conservatório que mexem com solfejos, instrumentos musicais, escalas, diapasão, pincéis e tintas, as nossas boas vindas ao clube dos artistas. As pessoas têm, mesmo que não queiram, personas. O artista é a pessoa transmudada em persona.
Sejam todos bem-vindos, a arte os abençoa nesta exposição em que a liberdade de expressar sentimentos se faz presente. Que cresçam e usem as suas artes para o bem da humanidade ainda precisada de alimentar sonhos, além da comida na panela, saúde e trabalho.
Ser pequeno, em idade, não significa ser limitado em criatividade. Quem quiser ver os artistas, aproveite. Quem sabe se do meio deles não surgem alguns Aldemir, Bandeira, Sérvulo, Chico da Silva, Estrigas, Audifax, Nearco, Zenon, Descartes Gadelha, Sinhá, Nice, Sergei de Castro, J. Mendes, Jane Lane, Fernando França, Emília Porto, Ascal e Luciana Falcão, entre outros.
Parabéns a todos e, especialmente, a seus pais que os encaminharam, em meio ao bulício da areia movediça do mundo atual, para o sagrado e inesgotável caminho e pastoreio das artes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/10/2011

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SEREIA, QUADRAGÉSIMA – Diário do Nordeste

Em 1971, o industrial Edson Queiroz dava os primeiros passos institucionais para a fundação da Universidade de Fortaleza, Unifor, que se tornaria concreta em 1973. Ao mesmo tempo, criava, no seu Sistema Verdes Mares de Comunicação – fundado no ano anterior- uma premiação anual para os cearenses destacados em suas áreas de atuação profissional e/ou a pessoas, aqui não nascidas, mas vinculadas ao desenvolvimento do Estado. A esse prêmio deu o nome de “Sereia de Ouro”, inspirado nos nossos verdes mares bravios. As sereias, na mitologia, eram metade mulher, metade peixe, e atraiam, através dos seus cantos maviosos, os navegantes fazendo com que os seus navios colidissem com as rochas. Em 1917, Franz Kafka, no seu conto “O Silêncio das Sereias”, dizia: “As sereias, porém, possuem uma arma ainda maior do que seu canto: o silêncio”.
O que Edson Queiroz talvez desejasse expressar, ao escolher a sereia como símbolo desse galardão anual, seria que a opção dependia não dos “navegantes” interessados em obtê-lo, mas da instituição que o criava, segundo critérios por ela estabelecidos. A primeira solenidade aconteceu em 1971, na sede do Sistema na Av. Desembargador Moreira, no seu átrio, sob a torre da Televisão Verdes Mares. De lá para cá, são decorridos 40 anos de solenidades anuais ininterruptas, mesmo que algumas tenham acontecido em situações adversas. Agora, nesta quadragésima festa, ocorrida no Theatro José de Alencar, na última semana, com a presença de gradas autoridades, entre outros, dois ex-presidentes da República, o Sistema Verdes Mares entregou, na saída, aos convidados, um cuidadoso livro em que pereniza a cerimônia, através de fotos e dos discursos de agradecimento proferidos pelos representantes dos homenageados dos últimos 36 anos, posto que nos quatro primeiros anos as falas foram de improviso.
Na apresentação do livro, D. Yolanda Vidal Queiroz refere que: “Temos certeza de que esta publicação será um marco na bibliografia da oratória no Ceará, cuja leitura dará prazer e conhecimento àqueles que cultivam a sublime arte da eloquência”. Mais que isso, esse livro-documento é um passeio histórico sobre o Ceará e sua gente, nos últimos quarenta anos. A História se faz da lembrança e registro do passado.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/10/2011

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PEGADINHAS – Jornal O Estado

Hoje se fala muito em pegadinhas. Está na moda, no rádio, televisão, internet e no telefone. Existe maior pegadinha que a própria vida? Um dia, você se dá conta de que tem um pai e uma mãe, embora não tenha sido consultado sobre isso. É a primeira pegadinha da vida. Como você viveria sem as pegadinhas da infância, do estudo, da convivência familiar, da maturidade obrigatória, do trabalho para viver, das surpresas matrimoniais, das doenças, das expectativas com os filhos e da idade maior?
Vai dizer para mim que tudo foi – ou está sendo – como você planejou? Que tudo deu certo na sua vida? Deixa de papo. A vida é um cipoal. E o tal parceiro que você descobriu ser marginal? E o sócio larápio? Vou parar por aqui e apresentar algumas pegadinhas conhecidas para você se acalmar, pensar e decifrar. Não se apresse em responder, pense primeiro. Toda vez que me apressei, entrei pelo cano. Vamos às pegadinhas. São cinco. 1. Se você dividir 30 por ½ e somar com o número 10, quanto dará? 2. Um pastor tinha 17 ovelhas. Todas morreram menos 9. Com quantas ele fica? 3. Quantos pares de meia tem em uma dúzia? 4. Existe 7 de setembro nos Estados Unidos?5. Alguns meses tem 31 dias, quantos meses têm 28 dias no ano? Pense um pouco. Pode parar para resolver.
Pegue um papel, faça contas ou raciocine. Enquanto isso voltemos às nossas vidas. Vá lá aos seus guardados e procure uma foto sua, das antigas. Segure a foto com a mão esquerda, acenda a luz e fique defronte a um espelho. Você se reconhece no espelho ou na foto? Fala sério, não me engane. Você é os dois, em tempos diferentes. Esta é uma pegadinha dupla. O tempo, esse ser que ninguém aprisiona, mexe com você a cada segundo que passa, mas só o notamos após anos. Pensamos que nunca teremos rugas, tampouco o cabelo ficará para sempre viçoso e poderemos manter a forma de um Adônis ou a plástica de uma Afrodite? Tenha cuidado na vida, criatura. Tudo é comandado pelo tempo, você vai na onda, mesmo sem querer. Mais uma pegadinha, quem está atrás do último? Claro que não há ninguém. O último é o último. Já descobriu as respostas das perguntas que fiz lá acima? Quer tenha respondido ou não, confira comigo: 1: 70 (trinta dividido por ½ é sessenta. Some dez e dá 70) ; 2: 9 ovelhas;03: 12, óbvio;4: claro, 7 de setembro existe em toda parte.5: todos os meses tem 28 dias, alguns tem mais. Viu que tudo é pegadinha. Se acertou as cinco, ótimo, você é uma pessoa ligada. Se não acertou nada é porque você não se concentrou nas perguntas.

O fato, amigo, amiga é que o inesperado sempre faz uma surpresa, como diz a música. Resumo da conversa: não se leve a sério, faça como essa conversa que tivemos. Ela não é nada séria. É uma pegadinha, quem sabe. Concorda comigo?. Cuidado com pegadinhas ou com os trombadinhas. Bom fim de semana.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2011.

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ANAC E DESASTRES AÉREOS – Diário do Nordeste

Reconhecemos ser o avião meio de transporte seguro. Igualmente, admitimos que, para serem seguros, os aviões devem apresentar boa manutenção, pilotos capazes e com razoável estabilidade emocional. O acidente do voo da Vasp – que se chocou, em 1982, com a serra da Aratanha – no procedimento de aterragem para Fortaleza, pode ter sido provocado por desconfortos emocionais do comandante que, em grave crise existencial, cometeu falha primária matando 137 pessoas. Recentemente, levantou-se dúvida sobre a competência do copiloto do voo Rio-Paris da Air France para lutar contra a emergência eclodida e causado, em 2009, a precipitação da aeronave no oceano Atlântico vitimando 228 pessoas. Como se sabe, o comandante estava em repouso e, quando foi acordado, não houve tempo de reverter a situação.
Há alguns anos, em longo voo para a Ásia, conversei com o comandante – que acabara de “repousar” – e, em seguida, voltaria para a etapa final. Ele me disse que esse repouso é relativo, pois, para dormir por poucas horas, seria preciso desligar de tudo. Um comandante, além das preocupações profissionais, tem família e, consequentemente, problemas com mulher, filhos, financeiros, saúde etc. Essa conversa franca me faz agora escrever sobre o assunto. Recentemente, um avião russo Tupolev-134, caiu no procedimento de descolagem(take-off) do solo com a morte de uma famosa equipe de hóquei sobre patins. Agora, o Comitê Russo de Aviação informa que a queda ocorreu por erro da tripulação e, o mais grave, o piloto “estaria embriagado”.
A partir desses fatos indago por que não haver mais rigor pela Anac no controle, em terra, do estado físico dos tripulantes? Simples bafômetros e uma picada para verificação de uso de drogas estupefacientes em rápidos exames de sangue poderiam evitar, antes dos voos, quem sabe, grandes ou pequenos acidentes. Pilotos, como todas as pessoas, têm problemas e podem usar a ingestão de álcool e/ou drogas como linimento a seus males reais ou imaginários. Não seria desrespeito ao piloto, mas a confirmação da sua completa sanidade para a importante tarefa de transportar centenas de pessoas. Não falo em exames periódicos. Sugiro exames diários, antes dos voos. Milhões de passageiros diários agradecerão.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/09/2011

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A GÊNESE E O CAOS – Diário do Nordeste

Faz 10 anos hoje. Natércia Campos liga: abra a TV, veja o que está acontecendo nos Estados Unidos. Liguei e me vi engolfado nos ataques. O resto, todos sabem. Ou imaginam saber. O choque me levou a reler parte do que havia publicado antes de 11.09.2001. Chamei isso de Gênese. Logo depois, escolhi o gênero conto para descrever os efeitos que pessoas e fatos me passaram. Escrevi onze e os intitulei de Caos. São histórias breves, concebidas, a partir de leituras e do meu olhar: A Bolsa e o Channel; A Festa do Sacrifício; A Separação; Atrás da Porta; Maria e Paul; O Espírito; O grande Dia; O vôo; Os Escombros; Os números; e Uma Questão de Física. Juntei as duas partes no livro “Sobre a Gênese e o Caos”. O jornalista Carlos Augusto Viana resolveu fazer, na edição de hoje do Caderno Cultura deste DN, um passeio por esses contos. Dê uma olhada.
Conheci Nova Iorque bem antes da construção das torres gêmeas, na baixa Manhattam, perto de Wall Sreet. Pronta, a visitei e nela tenho fotos. Depois dos acontecimentos, voltei ao Marco Zero. Área arrasada, tapumes, centenas de trabalhadores e gruas em novo projeto. Visitei, com vagar, museus e memoriais surgidos nas vizinhanças. Vi uma pequena igreja bem próxima daqueles ataques. Havia sido poupada. Milagre?
O fato é que os Estados Unidos, a partir de G.W. Bush, a pretexto de acabar com o terrorismo e desvendar as supostas armas atômicas do Iraque, já gastaram, até hoje, três trilhões de dólares, incluindo tropas no Afeganistão e bases de apoio na Europa. Obama e seus “marines” conseguiram matar Bin Laden e esconderam – ou destruíram – o corpo para evitar peregrinações muçulmanas ao local de seu sepultamento. Neste domingo, quatro dias depois das manifestações civis, convocadas pela Internet, contra a corrupção em todo o Brasil, é bom que os políticos e o povo lembrem das lições que a História nos dá, a partir de 2001, agravando-se em 2008 e sem data para findar. A América, emitindo dólar, e o mundo em crise. Nada a ver? Tudo a ver. Mudam o enredo, o palco, mas os atores se assemelham. A guerra agora é econômico/financeira. A corrupção é o epicentro. Terrorismo diferenciado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/09/2011.

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BOAS NOTÍCIAS DO MÉXICO – Diário do Nordeste

O Zócalo esteve fechado. O Zócalo é o coração da cidade do México. Monumental logradouro, como não existe no Brasil. É circular e cercado de tradição, relíquias arqueológicas, a catedral e edifícios públicos. Ali acontecem as grandes manifestações e cerimônias nacionais. Por isso, esteve fechado até quinta. Na sexta, 16, reabriu esplendoroso para a comemoração do 201º. aniversário da Independência Mexicana ou do “Grito de Dolores”, proclamado em 16 de setembro de 1810. Dou boas notícias do México, país maltratado pela mídia brasileira. O México não é um caminho circunstancial do narcotráfico. No Brasil não se sabe que a primeira universidade mexicana, a Real Pontifícia Universidade, foi fundada em 1551. Tampouco se diz que no país está a maior e mais qualificada universidade da América Latina atual, a UNAM, Universidade Nacional Autônoma do México. Pouco se comenta que o escritor mexicano Octavio Paz ganhou o Premio Nobel de Literatura, em 1990, e que Mario Molina foi o vencedor do Nobel de Química, em 1995. O Brasil luta, em meio a problemas, para sediar a sua segunda Copa do Mundo de Futebol, em 2014. O México já teve duas copas, em 1980 e 1996. Sem comoção nacional. Muitos pensam que o país asteca está na América Central, mas ele faz parte da América do Norte, constituída pelos Estados Unidos, Canadá e México. Esses três países formaram a ALCA, aliança que catapultou as relações de comércio e deu ao México o portão de entrada e a liderança em desenvolvimento econômico entre todos os países latinos das Américas. O país é presidencialista, com mandato de seis anos, sem reeleição e sem segundo turno. Felipe Calderón é o seu atual e 65º presidente e fez do mandato uma luta renhida contra o narcotráfico. Ele sai em 2012. A próxima eleição presidencial será a 1º. de julho do próximo ano e três nomes despontam para sucedê-lo: López Obrador, Marcelo Ebrard e Peña Nieto. Saiba ainda que o diretor do filme “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban” foi o mexicano Alfonso Cuáron. Para terminar, cito Octavio Paz: “Não sei se a modernidade é uma bênção, uma maldição ou as duas coisas. Sei que é um destino…”.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2011

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VERDADE INVENTADA – Jornal O Estado

Com uma semana de antecedência ela comemora a sua data. Tem pressa para viver no presente. O passado está emoldurado. E o faz cercada da família, das filhas meninas, de um batalhão de colegas e amigos que a acompanham desde o “Canarinho”, o “Santa Cecília”, o “Batista”, “Boca Ciega” e a Uece. Como defini-la? alegre, irreverente, avant-garde, comunicativa, derramada, afetiva, curiosa, corajosa, calorosa, inteligente, braba, meiga, chorona e beijoqueira. Nasceu em uma sexta-feira, o dia em que todos se preparam para a festa que é o fim de semana. Ela foi a festa. Primogênita em série que a sucedeu com o mesmo calor, amor e carinho. No seu convite, cita, de forma resoluta, Clarice Lispector: “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada”. Parece que acertou em cheio. Sua vida é verdade inventada por ela mesma, sem palpite de pai ou mãe. Fui, além da mãe e da equipe médica, o primeiro a vê-la e beijá-la. Que nome dar a ela? Havia comprado um livro com centenas de nomes, mas nada ficara decidido. A mãe, pressurosa, sugeriu o nome de uma czarina russa. Assim ficou. Como pai-coruja já estava escrevendo deslumbrado no seu livro do bebê. Depois, abreviei o nome, de forma mais conexa.
Primeiro dia de aula. Lá fomos, a mãe e eu, levá-la ao maternal. Haja choro. Nós acabamos chorando, também. Depois, veio a adaptação e a formação de laços de afeto com os coleginhas. Acontece que a vida não produz só flor. Dizia o doce Vinícius que “filho é uma raiz de dente exposta”. Passamos sete dias em Belo Horizonte. Legal. Findo o maternal, era hora de procurar colégio novo, maior e adequado para o seu perfil. Vai para o Santa Cecília onde esteve por anos. Fazia parte do processo. E a menina recebeu, com alegria, a chegada das irmãs, uma, duas e três. A última, por mãos da natureza, nasceu no mesmo dia que ela, por conta de uma casa de bonecas. Começam as aulas de balé, aprender a nadar e o inglês.Festivais, carnavais e que tais. A casa de praia nas férias em que ficávamos brincando e recebendo amigos. Quebra um braço e lá se vai o fim de semana para o ar. Chega a puberdade, florescem dúvidas, abrolha a angústia. Nós, atentos e confusos, sem saber como lidar com as mudanças advindas para todos. Surge a ideia do intercâmbio nos USA. Viajo como destacamento precursor, para ver escola, conversar com a direção e acertar, com os tios, a estada. Levei e voltei com duas, carro atulhado, pois a segunda a acompanhava. Fez amizades com colegas e uma delas deve estar agora na festa de que falei no primeiro parágrafo. Choro em rodoviária. Termina o colégio e entra direto na Universidade Estadual do Ceará. Lá do outro lado da cidade, todos os dias. Mesmo com resmungos, ups e downs, termina o curso sem problema. Resolve estudar teatro e participa de curso completo na Unifor. É bom lembrar ter sido sempre a coreógrafa de sua turma. Reunia irmãs e filhos de amigos comuns, montava peças, desfiles e jogos, tudo sob os nossos olhares. Viajou mundo afora. E a moça quis casar. E assim o fez, como quis, concebendo duas belas filhotas. Agora, no limiar da segunda metade do existir, decide, cria, arregimenta família e amigos para um “happening” vespertino com o seu feeling e modo de ser. Parabéns, Deus a abençoe, agora e sempre. Cheiro. Estou por perto. Take care.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/09/2011

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A ESTÉTICA DOS FEIXES DE LUZ – Jornal O Estado

Os jornais trabalham com pautas. Pautas são instruções da Editoria para, por exemplo, se cobrir um acidente, evento ou intempérie. Os jornais, quase sempre, mandam uma dupla: repórter/jornalista e fotógrafo/repórter. Eles vão à luta sabendo que o fato jornalístico é tal como o jornal, efêmero. Têm que ir e voltar correndo. Além disso, se a notícia interessa a todos os jornais, ganha não o que chega primeiro. Ganha o que fizer a melhor cobertura. A melhor é a manchete, chamada ou Notícia de Primeira Página. Além das grandes letras, são as fotos que induzem o leitor à matéria retratada. A palavra retratada, clicada, foi o alvo. Ela é instantânea, flagrante que o repórter fotográfico conseguiu captar em meio a policiais, curiosos, corpos ou acidentes naturais.
A exposição da Galeria Benficarte em homenagem ao Dia do Repórter Fotográfico de 02 até o dia 15 próximo, no horário das 16 às 22 horas, é evento artístico/cultural e um ato de reconhecimento ao valor desses profissionais destemidos, preparados, sutis em suas acuidades capazes de ver/captar o indizível. Não têm eles o tempo e os recursos disponíveis de um Sebastião Salgado para criar arte em meio a desastres naturais e tragédias. Têm, entretanto, os fundamentos deixados por Cartier-Bresson para a foto-jornalismo na estética momentânea, apressada até, mesmo que ela agrida – como denúncia – os sentidos de quem a vê nos jornais.
Reuniu-se o que há de mais expressivo em fotógrafos dos jornais O Povo, O Estado e Diário do Nordeste, citados na ordem de seus tempos de existência. Os artistas são em ordem alfabética. Do O Povo: Alcides Freire, Deivyson Teixeira, Edimar Soares, Fco. Fontenele, Gabriel Gonçalves, Iana Soares, Igor de Melo, Marcus Campos, Mauri Melo, Rafael Cavalcante e Sara Maia; do O Estado: Anderson Santiago, Iratuã Freitas, Nayana Melo e Tiago Stille e; do Diário do Nordeste: Alex Costa, Cid Barbosa, Eduardo Queiroz, José Leomar, Kid Júnior, Kiko Silva, LC Moreira, Marília Camelo, Miguel Portela, Natinho Rodrigues, Rafa Eleutero, Rodrigo Carvalho, Tuno Vieira, Viviane Pinheiro e Waleska Santiago. Alguns, são veteranos. Outros, maduros. Há, ainda, jovens de ambos os sexos, que escolheram essa instigante profissão. A todos, um pensamento de Ezra Pound, poeta americano: “Toda arte começa na insatisfação física (ou na tortura) da solidão e da parcialidade”.
As fotos – em preto e branco e em cores – dizem por que estão expostas. São distintas, belas e expressivas. Algumas, contundem. Outras, enlevam. Cada uma configura um flagrante, uma representação ou infunde no leitor pasmo, êxtase, incômodo, dissabor, revolta ou adesão. Cada autor vai tecendo a sua arte pela experiência, intuição, conjuntura, liberdade ou visão. Com as repetições das formas obtidas, embora dessemelhantes, tem-se o estilo, a identidade do autor.
Parabéns a todos. Creiam que esta exposição orgulha os que trabalham com a arte e a cultura na Galeria BenficArte. Eles não apenas expõem, vivenciam o que mostram. Vale a pena dar uma passada, são 150 fotos do melhor nível.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2011.

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JOBS PADECE – Diário do Nordeste

Você já ter lido em jornais e revistas sobre Steve Paul Jobs. Certamente já ouviu falar dos i-Pod, i-Phone e i-Pad, para ficar apenas nos favoritos da Apple, a empresa que Jobs criou. Ele nasceu em 1955, filho de sírio e americana que o deram para adoção. Um eletricista americano, Paul Jobs, e sua mulher Clara, descendente de armênios (Hagopian), adotaram e amaram a criança como filho. Jobs, menino curioso, teve a felicidade de contar com vizinho engenheiro, Larry Lang, que o iniciou no mundo sem limite da criação. Entrou num curso de engenharia em Oregon, mas logo desistiu. Queria criar e assim o fez. Com o dinheiro ganho no primeiro trabalho resolve passar um tempo na Índia e, de lá, volta budista e vegetariano. Conhece Steve Wozniak e acreditam poder trabalhar juntos. Venderam a calculadora eletrônica HP de Wozniak e a surrada van Volks de Jobs. Apuraram 1.300 dólares. Dessa quantia e do talento de ambos surge a Apple, nada mais que a junção do engenho de Wozniak e o genial design de Jobs. Em 1976, em produção independente, teve uma filha, Lisa. A palavra Jobs é o plural de job (trabalho). Assim, Jobs desejava trabalhos, muitos. Em 1980, a Apple abre o seu capital e, em 1985, ele é destituído da presidência (CEO) pelo Conselho, por questões internas. Magoado, mas criativo, funda, – em parceria – os estúdios de cinema Pixar, que já produziu filmes como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Carro” e outros. A Pixar vira ouro. Forma a NeXT, de tecnologia. Em 1991 casa com Laurene Powell, com quem tem três filhos. Em 1996, a Apple compra a NeXT e ele volta a comandar a sua cria. A Apple toma tento e passa a produzir os famosos i, derivados de internet. O primeiro foi o i-Pod – de música- em 2001. Já bilionário, Jobs, em 2004, é acometido de raro tipo de câncer pancreático. É operado. Em 2007, cria o i-Phone. De lá para cá, o espartano Jobs – tênis, calça jeans e camisa rolê preta- transplanta o fígado, perde peso, e neste final de agosto sai da presidência da Apple, após o sucesso do i-Pad 2. Consciente e alquebrado. Um provérbio árabe diz: “Deus não completa nada para ninguém”. O lado árabe de Jobs vai lutar. O americano, desconfia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2011.