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PEDIDO DE AMIGO – Jornal O Estado

Um amigo, hoje aposentado, sem espaço para dizer o que sente e sofre, pede-me o favor de publicar o que escreveu. Por sabê-lo sério, reproduzo-o, sem censura, tal como o recebi: “O Banco Central do Brasil-BC deveria trocar as palavras “do Brasil” por “dos Banqueiros”. Eles mandam e desmandam, tudo muito civilizado, sem alardes. Quase todo ex-presidente do BC funda, depois da quarentena, um banco ou cria uma grande consultoria do outro lado do balcão. Ou seria do mesmo lado? Vou só dar um exemplo: o crédito consignado é uma empulhação. Trata-se de empréstimos feitos por bancos “amigos” a servidores públicos e/ou beneficiários do Instituto Nacional de Seguridade Social. Os bancos têm todas as garantias pois o empréstimo será, sempre, descontado da aposentadoria ou dos proventos de quem pediu o dinheiro. Quando falo em bancos “amigos” é porque, até bem pouco tempo, era – não sei se ainda é – necessária a autorização especial do BC. O que se viu, nesse Brasil afora, foi a proliferação de mini-agências, correspondentes, agentes, panfleteiros, homens-sanduíches apregoando a facilidade da obtenção desse malsinado “empréstimo consignado”. Sabe-se que hoje há 145 bilhões de saldo de crédito consignado. A consignação é a antiga anticrese ou, sendo mais claro, é o desconto obrigatório feito, mensalmente, na folha de pagamento dos devedores. O risco dos bancos, nessa operação, é igual a zero. Tudo é garantido na referida folha de pagamento. O juro que cobram é exorbitante e, na maioria das vezes, o aposentado é iludido com esclarecimentos dúbios. Nesses últimos anos, muitos tamboretes ou bancos prestes a dar golpe no mercado, se salvaram por conta dessa dádiva do governo. Espero que algum parlamentar venha a se insurgir contra essa imoralidade. Há milhares de famílias que foram enganadas e hoje não têm como sobreviver com o líquido (descontado o empréstimo) que recebem. Além disso, os incautos ainda eram – e são – seduzidos para receber cartões de créditos. Aí foi que o desastre aumentou. Em dezembro, o Banco Central resolveu impor restrições aos créditos acima de três anos. Agora, os cartões de crédito consignados dos servidores também têm limites acima de três anos. Você sabe quanto custa o juro de um cartão de crédito desses? É melhor não saber. O governo estabeleceu os juros do Consignado em 28% ao ano, mas quanto os bancos embutem de taxas de abertura de crédito, boletos, retenções e que tais? Pior do que isso só a selecinha do (her)Mano que conseguiu a façanha de quebrar o recorde mundial ao perder quatro penais consecutivos. Mas, tudo estará resolvido até junho de 2014, a preços baixos, prazos cumpridos ou compridos, o hino nacional tronituando. Logo depois, aguardem, virá a eleição para a presidência, a festa do réveillon, a posse e, como ninguém é de ferro, o carnaval”. Pedido atendido.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/07/2011.

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NETA LEITORA – Diário do Nordeste

Minha neta mais velha apagou 14 velas. Véspera do aniversário, perguntei: O que você quer de presente? “Vô, eu quero livros.” Disse-me autor e títulos. Fiquei muito alegre, pois é leitora consciente, há tempos. Faz anos ganhou concurso entre crianças que se aventuravam a criar estórias e ter seu trabalho publicado em jornal. Fiquei feliz em vê-la recebendo a medalha. Essa sardenta neta querida é bonita, não porque netos sejam sempre guapos, mas porque o seu porte e educação a fazem diferenciada. Seu jeito de falar é pausado, seus olhos acompanham as palavras e sabe onde colocar as mãos. Colocar as mãos num corpo em mutação não é tarefa fácil para adolescente. Ela sabe, sim, usá-las com graça e leveza. Lembro quando iniciava a aprender vôlei. Fui lá ver. Era pequena para a rede alta, mas demonstrou jeito e hoje faz parte da seleção do seu colégio, na faixa etária. Os avós, quando não têm uma avó por perto – o que é o meu caso – ficam meio fora do contexto e não participam, como gostariam, de todos os momentos do crescimento dos netos.
Mesmo assim, já a flagrei isolada de todos, livro à mão, cenho de quem está realmente interessada no que lê. Lembro do dia do seu nascimento. Tive que adiar viagem importante, já marcada. Valeu a pena. À época, neste mesmo jornal, escrevi: “Os poucos, porém queridos, leitores que acompanham este escrevinhador dominical vão me perdoar. Saio do geral para o particular. Deixo de lado preocupações com o mundo e me rendo, com alegria e emoção, ao sentimento paternal e descubro malgrado todas as falhas cometidas ao longo da vida, o prazer de ver uma filha sendo mãe. Pois é, até eu, bastião da pseudo fortaleza masculina, rendi-me ao doce encanto de ser avô”. E por aí ia o meu extravasamento. Hoje, 14 anos depois, ao sabê-la cumpridora dos deveres, esportista, como os seus pais o são, e ter o “insight” de devorar, em silêncio, páginas de livros, lembro da menina “ferrugem” que assim o fazia. Essa outra menina, querida Lu, é sua mãe que ainda hoje tem, à cabeceira, livros para degustar, entre o trabalho e os afazeres de formar filhas conhecedoras da realidade, sem perder o enlevo da benquerença familiar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2011.

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LUIZ CRUZ DE VASCONCELOS – Jornal O Estado

A longevidade, 92 anos do professor Luiz Cruz de Vasconcelos foi fruto de sua dura, intensa e profícua vida. Até bem pouco era salutar cumprimentá-lo ao andar nas manhãs ensolaradas da Avenida Beira-Mar. Fui seu aluno na cadeira de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da UFC. Cioso do seu mister, suas aulas não eram improvisações. Penalista consagrado com larga experiência em júris, o Prof. Luiz Cruz nos dava a sensação de que era possível entender não só a jurisprudência, a doutrina, mas até a prática – por ele exercida em todo o Estado, especialmente Fortaleza. Nascido em Granja, no norte do Estado, rincão que defendia com ardor cívico, notabilizou-se por ser, além de advogado e professor, um teórico da política filiado que foi ao não então pragmático Movimento Democrático Brasileiro. Na minha sala de memórias há uma foto especial. Foi batida no dia da minha colação de grau em Direito. Dela constam o então Reitor da UFC Antônio Martins Filho, sorrindo e cumprimentado a meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que também sorria e o prof. Luiz Cruz, que, à época, ocupava a direção da Faculdade de Direito, olhando fixo para mim e trocando um abraço. Pouco tempo depois de formado, fui ter ao prof. Luiz Cruz. Contextualizo: eu coordenava um pioneiro projeto habitacional que inaugurava no mercado a construção financiada de edifícios ou, como se dizia, unidades multifamiliares. Não tínhamos o dinheiro para comprar o terreno escolhido, na Av. Luciano Carneiro. Descobri que era da família dele. Fui à sua casa, faceando a Igreja de Fátima, e ele me recebeu com alegria. Expliquei todo o processo do projeto para ele, dando-lhe, acima de tudo, a minha jovem palavra de que tudo seria pago em breve tempo. Ele levantou, olhou para mim e disse: eu confio em você, pode fazer. Prometido, cumprido. Construímos e entregamos, em prazo recorde, o Conjunto Luciano Carneiro. Depois, por muitas vezes, nos encontramos. Tive a honra de ser conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, da qual ele era o Presidente Honorário Vitalício, após ter sido seu Presidente. Esse homem, mesmo depois de ter atingido a compulsória, não parou a sua lida e continuou a participar de foros jurídicos e literários. A sociedade, a advocacia, a retórica e o magistério jurídico perderam Luiz Cruz de Vasconcelos, um homem de caráter, pois, no dizer de Schopenhauer: “as causas não determinam o caráter da pessoa, mas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações”.

João Soares Neto,
Escrito
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2011.

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OURO E OTTO – Diário do Nordeste

Se você ainda não foi ver as exposições em curso no Espaço Cultural da Unifor, está perdendo tempo. São distintas, mas interligadas pela latinidade, embora distantes séculos. Elas são abertas a todos, de terça a domingo. Vá e leve sua família. Até o estacionamento é gratuito. Vá com tempo e limpe bem os olhos. Há estudantes-guias bem treinados que poderão ajudá-lo nessa caminhada por salões climatizados, com iluminação adequada que dá uma sensação de bem-estar. Comece pela “Tesouros e Simbolismos da Colômbia Pré-Hispânica”. Na realidade, ela é o produto da conjunção dos diferentes povos indígenas que habitavam a região que veio a denominar-se “Colômbia”, em homenagem a Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, exceto o Brasil. Fala a História que alguns desses povos, os Muisca, Quimbaya, Sinú,Tayrona e Calima, além da agricultura de subsistência, dedicavam-se à ourivesaria fina e eram, também, oleiros. Vá ver máscaras, brincos, piercings, figuras geométricas etc. O ouro era misturado à liga cobre e dava origem ao que eles chamavam de “tumbaga”. Não perca.
A outra exposição, “Do Brasil à Catalunha” é obra do longilíneo e assemelhado D. Quixote, o paraibano Otto Cavalcanti, que de Itabaiana foi ter ao Rio, flertou com o estilo de Modigliani, andou pelo Brasil, inclusive Fortaleza, e pousou sua maturidade artística em Barcelona, o fulcro da ciosa Catalunha. Otto é pessoa agradável de conversar, exibe vitalidade aos 80 anos e sabe, por formação, o que é pintura e desenho, misturando pincéis e nanquim. Suas cores são fortes, extra e vagantes, sintetizando o imaginário do menino do interior, o jovem atrevido na cidade maravilhosa ao maduro e irrequieto vegetariano que anda pelas “Ramblas” e sabe usar o vermelho, quiçá compensando as carnes não ingeridas. Dele, sou orgulhoso possuidor, desde 1983, do bico de pena, “Vilassara de Mar”, superposto por águas azuis, verdes, rosa, tons de amarelo e ocre, em que um “homem-músculo”, sob um frondoso guarda-sol às vistas de um ajudante, contempla, ao longe, jogadores de golfe. Voltando ao fio da conversa inicial, não adie sua visita. Veja o Ouro e o Otto. Aproveite o domingo. A arte une pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2011

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O BRASIL PATINA – Jornal O Estado

Quando imaginava poder aprender microeconomia, o que não aconteceu, uma expressão ficou gravada na memória: o ponto do nivelamento ou o “break-even-point”. Entendo ser essa a fase em que a macroeconomia, paradoxalmente, coloca o Brasil. Queiramos ou não, o país é, em sentido amplo, uma grande empresa, da qual todos fazem parte. Temos que ir para frente. Mas há entraves que nos tornam desencantados. Se você quiser ir de trem ou de navio do nordeste para São Paulo, o que fazer? Não há ferrovias nacionais, tampouco boa navegação de cabotagem. Só há dois meios: estrada ou céu. As estradas brasileiras são feudos de partido político que não se importa com buracos, mas parece fazer rombos em licitações duvidosas. Caminhões e ônibus são parados por assaltantes. No céu, além de, em terra, aeroportos sem tecnologia logística de ponta, cada transportadora transformou seus aviões em amontoado de cadeiras com muito menos conforto que ônibus rodoviário, não fossem os buracos destas. Não conheço nenhum país desenvolvido que não possua boas estradas, ferrovias nacionais e portos com grande movimento de navios de passageiros e cargas. Sejam portos fluviais ou marítimos. Não conheço nenhum país desenvolvido que não respeite o trânsito e a acessibilidade. Dia desses, em um lugar de bom nível, vi um cadeirante a reclamar do acesso e de que a porta do banheiro não permitia a sua entrada. O trânsito brasileiro é uma fábrica de cadáveres. Ninguém respeita a velocidade, porque não há nenhuma pessoa a instruir. Usam-se máquinas de fotos sensores e pardais, apenas para multar. Não há mais guardas orientando pedestres e guiadores. Há, sim, agentes de blocos em punho para flagrar delitos, mas não se estimula a construção de edifícios garagens e ciclovias, tampouco se força o uso de faixas de pedestres com gradis protetores. As motos, de diferentes cavalos, transformam o trânsito em “farwest”. Há nuvens de capacetes coloridos e afoitos em meio a carros soltando CO2 parecendo, do alto, uma tela surreal. Claro que a indústria está crescendo, mas não podemos conceber que um turista caia de bonde, agonize na rua, seja assaltado e não socorrido. Deve existir segurança pública. Há anos, estava com amigos visitando a Europa. Folgazões. De repente, sentimos falta de uma delas. Voltamos à praça. Um taxista informou que ela havia desmaiado e um colega seu a levara a hospital público. Havia tido uma hipoglicemia. Fomos ao hospital: limpo, sem macas nos corredores e ela tendo pronto atendimento. Custo zero, serviço público. Aqui se morre nos corredores de hospitais por falta de atendimento. É por tudo isso que torço por Dilma. Para que desmonte a estrutura política eivada de erros e comprometida com o atraso. Só assim, sairemos do ponto de nivelamento – em que patinamos – para o almejado estado de bem-estar social onde não existem tantos miseráveis, o esgoto seja uma obrigação e não uma conquista. A lama desapareça das favelas que precisam ser urbanizadas e acolhidas numa sociedade discriminatória e excludente que deve mudar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2011.

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A FOME NO MUNDO – Diário do Nordeste

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, diz no seu art. 25, entre outras coisas, que todos têm direito à alimentação. Hoje, 63 anos depois, ainda existem mais de novecentos milhões de pessoas passando fome no mundo. Esse dado constrangedor – mais de quatro vezes a população brasileira – está espalhado, principalmente, na África subsaariana e em outros países do dito 3º. Mundo ou emergentes. Esse fato não é agradável para o leitor bem alimentado, mas é real, contundente e precisa ser resolvido por todos nós.
A Organização das Nações Unidas (ONU) controla o órgão chamado FAO (Food and Agriculture Organization), sediado em Roma, que cuida do problema. A FAO está sendo dirigida tem 18 anos por um dirigente africano, o senegalês Jacques Diouff. Nem por isso a fome diminuiu. Agora, no domingo passado, o brasileiro José Graziano da Silva foi eleito para diretor-geral dessa FAO, em segundo turno, com 92 votos, contra 88 dados ao espanhol Miguel Ángel Moratinos. Graziano é agrônomo, fez parte do governo Lula, e já era assistente da FAO. Sua posse será em 1º. de janeiro de 2012, com mandato até julho de 2015. A Graziano é atribuída a criação do programa Fome Zero que, na prática, não deu muito certo.
Agora, Dilma criou o “Brasil sem miséria”. A eleição apertada de Graziano mostra que os países estão divididos quanto às soluções para a fome mundial. Os 92 votos dados a ele vieram de países “não alinhados”, isto é, os que não fazem parte do mundo desenvolvido. O jornal espanhol “El país”, com raiva, diz que com Graziano haverá um “continuísmo ao invés da renovação radical”. A vice-secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Kathleen Merigan, afirmou que “seu governo vai lutar por um congelamento do orçamento da FAO, no período de 2012-2013”.

Como se vê, a Europa e os USA não estão felizes com a eleição de Graziano. Isso é um bom sinal. Ele poderá provar que sua administração não será continuísta e, politicamente, lutará por mais recursos junto a esses países que não queriam a sua eleição. Boa sorte. Além disso, que tal pensar em um percentual de 2% em cada conta de restaurante de todo o mundo para acabar com a fome? Sem desvio, é claro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2011.

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AIRTON MONTE, RAYMUNDO NETTO, PAULO ELPÍDIO E LUSTOSA – Jornal O Estado

Airton Monte confessa ter amado mais o pai que a mãe. E explica: “Claro é para mim, mesmo carregando uma eterna e edipiana culpa, sou daqueles raros filhos que confessam, com certo pejo, haver amado muito mais o autor dos meus dias que a minha santa e doce genitora. Talvez pelo fato das abalizadas opiniões familiares, desde a minha avó até minha irmã mais nova, ser dotado pela herança genética de uma personalidade demasiado semelhante à do maior filósofo já produzido pelo lírico território do Benfica”. Preocupe não, Airton, amor não se discute, se tem. Não foi de forma desinteressada que ele, seu pai, colocou em você o próprio nome. Ele sabia. Foi-se, mas o nome e a sua encarnação permanecem em você em seus queixumes, quase diários. Quando nos encontrarmos, amigo Airton, falaremos disso, sobre o Viana, o editor, o nosso comum Fortaleza e os estragos que o velho Freud fez na humanidade, tirando-a da ignorância do pecado original. Raymundo Netto, escritor que deve acreditar em grafologia, pois assim se justificam o “y” e os dois “t”, abre o coração alegre para falar de família. E diz: “Casados há quatro anos, aguardávamos melhor momento para ter filhos – hoje, elas têm onze, e vejo, pelos critérios da época, tal momento ainda não chegou-, mas um dia, ao ser tangido pela sensação involuntária de que casamento sem filhos é dividir morada, decidi planejar a ‘gravidez familiar’. O estranho nisso? Não comentei tal plano com a futura gestante, certo de ela ser a maior interessada – até hoje não acredita em patavina da história que escrevo”. Pois eu acredito, amigo Raymundo Netto, e vou provar isso no nosso primeiro encontro. Paulo Elpídio de Menezes Neto, cientista político, disse, anteontem em seu artigo/ensaio mensal que: “Mergulhamos, ao longo dos últimos meses, os primeiros de um novo governo gerado nas entranhas do poder e celebrado pelas multidões, uma sequência de dúvidas e hesitações que bem demonstram quão árduas são as responsabilidades de governar. Os percalços da decisão multiplicam-se para quem governa, maiores, na justa medida do tamanho e da força da coorte dos aliados e das adesões que um governo majoritário atrai, por reconhecido merecimento ou singular conveniência”. Como se vê, a análise de Paulo Elpídio não é rasa, brilha pelo rastilho que vai deixando na sabedoria que forma os seus períodos. A você, Paulo Elpídio, o meu pedido público de desculpas por não ter comparecido – estava em BH – ao lançamento de seus dois novos livros, em que fala com propriedade e sem medo, sobre as universidades brasileiras, particularizando a UFC. Sem esquecer que você, gentilmente, mandou deixá-los em minha cada. Obrigado. Por último, por ser o amigo mais antigo, o querido Lustosa da Costa – sobralense-fortalezense-brasiliense –denuncia: “Soube, vou me inteirar direitinho, que a Assembleia Distrital autorizou a seus integrantes continuarem com seus negócios com o governo do Distrito Federal. O deputado ganha o mandato e o direito de fazer bons negócios com a administração da Capital. E vai em frente no enriquecimento ilícito”. Lustosa, reluz como em “Política, quase sempre”. Como vocês acabaram de ler, este escrito foi realizado a cinco mãos, Airton Monte, Raymundo Netto, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Lustosa da Costa e eu, que só tive o trabalho de citá-los. Palmas para eles.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2011.

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DANIEL E AS TINTURAS – Jornal O Estado

Não espere que fale hoje do profeta Daniel na Cova dos Leões, da sua guerra cósmica do Bem contra o Mal, nem de sua obediência a Deus. Tampouco contarei a vida do escritor inglês Daniel Defoe que, no início do século 18, escreveu o romance “Robinson Crusoé” em que narra a história de um náufrago lutando pela sobrevivência. Refiro-me a Daniel de Jesus. Nem profeta, tampouco inglês. Foi preciso ler reportagem de Raquel Salgado, na revista Negócios, em abril passado, para poder contar esta prosa a vocês. Daniel nasceu pobre, instrução secundária, conseguiu emprego de office-boy e só chegara a vendedor. Morava na Califórnia, subúrbio de Nova Iguaçu, interior do Rio. Um dia, aos 22 anos, resolveu correr atrás de um sonho meio louco, viver por sua própria conta. Passou a fazer produtos de limpeza e a vendê-los, porta a porta. Cinco anos depois, começa a lidar com cosméticos ou, preferencialmente, tintura para cabelos. Cria, a seguir, uma marca: Niely, apodo de família de sua filha Danielle. Ele tem dois outros filhos, João Daniel e Daniel Pedro. Mas, Daniel, o de Jesus, começou só. Tem hoje 2.200 empregados e, imaginem, quanto a empresa dele fatura por ano? Quinhentos milhões de reais. Não depende do governo e sua empresa cuida de fazer tinturas, xampus, condicionadores e tudo o mais que a vaidade feminina pedir. Qual é o segredo? Ele diz: “Delego poderes, mas todo mundo tem sua liberdade vigiada. Estou sempre junto, vendo o que cada um faz”. Danielle, a Niely, 25, é a sua gerente de marketing e fala: “desde que comecei a trabalhar aqui, há seis anos, as pessoas têm receio de contrariá-lo. Elas me falam o que pensam, e depois eu converso com ele”. Daniel, ao final:” Quem tem mais experiência aqui sou eu. Vai ser como estou falando”. Ditadura -ou centralização- à parte, Daniel é exemplo, entre muitos, de brasileiros que conseguem vencer por sua conta e risco, sem medo, sem padrinhos e tampouco participar de política. Dizia Sêneca, filósofo latino, que “ninguém é obrigado a correr pela via do sucesso”, mas sempre é bom lembrar de Virgílio, outro latino. Ele fazia crer que o sucesso só acontece porque alguém tem a coragem de poder porque pensa que pode.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2011.

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AS FOTOS – Diário do Nordeste

Tenho, entre outras, mania de recortar jornais e revistas. Não importa esteja trabalhando, preguiçando, comendo, viajando, a espera de cinema, teatro, o que for. Corto com tesoura, cartão de crédito, régua, caneta e até com as mãos. Sou canhoto e eles – eu, pelo menos – não são bons de linha reta. Guardo o recorte no bolso mais próximo, criado mudo, pasta ou nas mesas onde trabalho. Um dia qualquer, sem querer, descubro dado recorte. Agora, por exemplo, estou às mãos com um recorte, sem legendas ou data, de Angela Merkel, a premiê alemã. Não é uma foto comum. Ela está de muletas por ter levado um tombo qualquer. Foi este ano. Não sei a data. A foto é da agência Reuters. Merkel, tal como Dilma, andou engessando a perna e não parou de trabalhar. No último dia de maio, 31, Merkel resolveu ir à Índia no seu Air-Bus 340.Quando o avião sobrevoava o espaço aéreo iraniano, recebeu ultimato para voltar à Turquia. Falaram, então, ser o avião da premiê alemã. Os iranianos não cederam. Depois de duas horas de diálogo, sobrevoando a Turquia, o Irã autorizou a passagem do Air-Bus. Em seguida, divulgaram notícias, por todos os meios de comunicação, de que os alemães viajavam para vender armas à Índia.
Esta breve nota é para mostrar como é o dia-a-dia de uma mulher que resolve, por seu cargo e autoridade, gerir um posto, até pouco tempo, dito masculino. A presidente Dilma, nestes quase seis meses de governo, além da perna enfaixada, teve sobressaltos fortes que, em determinado momento, romperam sua defesa imunológica e causaram-lhe uma pneumonia. Agora, cercada por duas novas escudeiras, Dilma tenta governar em meio aos reclamos do PMDB e dos muitos resmungos do PT paulista. O maior problema do governo atual não é a oposição, mas a situação, que tudo almeja e pouco está ligando para o sexo e a saúde da presidente. Volto à foto. Olho o que está exato no seu verso. Outra foto, difícil de entender sem legendas. Uma jovem bonita, farta cabeleira, riso perfeito, afaga um senhor de bigodes e cabelos brancos, em cujas narinas estão dois condutores de oxigênio. Os olhos dele, castanhos, perplexos, parecem olhar o (in) finito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2011.

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A FORMAÇÃO DE PÚBLICO E A ARTE DE LUCIANA FALCÃO – Jornal O Estado

Há quase 12 anos a Galeria BenficArte tem, entre outras, uma missão a cumprir: a formação e consolidação de público amante das artes plásticas. Já apresentamos mais de 300 artistas plásticos, consagrados ou não, vivos ou no além, de todos os matizes, idades e escolas, em exposições individuais ou coletivas. Ao mesmo tempo, periodicamente, realizamos oficinas gratuitas para crianças e pré-adolescentes, em que os participantes, além de não pagar nada, tampouco levam tintas, telas, papéis e pincéis. Tudo é fornecido de graça. O objetivo básico é despertar a sensibilidade, a criatividade dos infantes para a arte e o compartilhamento de ideias figurativas ou abstratas com pessoas que acabaram de conhecer. A partir de ontem, por exemplo, estamos realizando uma exposição de vanguarda, bem cuidada, mostrando, quiçá, uma visão atual do que se convencionou chamar, no meado do século passado, de Expressionismo Abstrato. A autora, Luciana Falcão, não é uma pintora convencional. Poderia sê-lo, se o desejasse. Tem formação acadêmica completa em artes, mas transgride o convencional e cria o que deseja de forma ainda pouco usual para estas paragens. Vale-se do computador como se fora uma tela em branco sobre um cavalete imaginário e usa do mouse como pincel eletrônico para tecer tramas, aparentemente difusas, que causam impressão desconcertante ao olho acostumado ao consagrado, ao já visto. Neste ano onze do século vinte e um, Luciana Falcão emerge de uma hibernação auto imposta e se mostra, plasticamente, de cara e corpo novos, fulgurante em cores que mapeiam todo um arco-celeste com gramaturas imperceptíveis É com prazer que a Galeria Benficarte, neste mês de junho, cede seu espaço físico para a imaginação e a arte de Luciana Falcão. Ela mesmo considera sua obra como: desconcentrada, descombinada, desconstruída. O olhar de cada um fará a descoberta própria e singular para essa exposição cheia de Ds, que podem ser também de dúvida, desejo, dádiva e destino. O acesso é livre. Todos poderão ver, gratuitamente, a arte de Luciana Falcão, no Mezanino que abriga a Galeria BenficArte, na Av. Carapinima, 2200, Benfica, no horário das 10 da manhã às 22 horas. Vale a pena.

João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/06/2011.