Sem categoria

JÚLIA SARAIVA CAMINHA – Jornal O Estado

Houve um tempo, no fim do século 19 e até o século passado, em que famílias viviam entrelaçadas por vínculos de profundo afeto. Falo, especificamente, das famílias que se uniram pelo casamento de João Caminha Monteiro e Luiza Saraiva Leão, meus avós maternos. O Farmacêutico João Caminha Monteiro havia sido educado por sua tia, Eulina (Yayá) Bezerra Monteiro, solteira até à veneranda morte, olhos claros, pele muito branca, quase transparente, religiosa de missa diária, cabelos arrematados em coque e simplicidade profunda.
João, meu avô materno, morreu de câncer no estômago, aos 42 anos, depois de longa enfermidade, deixando muitos filhos e uma desolada viúva, apoiada por seu tio, o Padre João Saraiva Leão. Yayá, que a tudo acompanhara, pediu à Luiza, minha avó, para ajudar. E a achega consistiu em levar para a sua casa a sobrinha-neta Júlia Saraiva Caminha, estudante do Colégio das Dorotéias. Assim, Júlia passou a ser a filha que Yayá nunca teve.
A jovem Júlia, já formada, submeteu-se a um rigoroso concurso público para o então cobiçado cargo de Inspetor Federal de Ensino, do Ministério da Educação. Eram muitos os candidatos. Poucos passaram. Entres eles, Júlia e seus futuros colegas Edílson Brasil Soárez e Hugo Porto. O tempo passava e Júlia, ao mesmo tempo em que trabalhava, ainda ministrava aulas particulares para parentes e amigos.
Sua amiga e colega das Dorotéias, Marister Machado Jucá, pediu que a ajudasse na educação de seus filhos. Assim o fez. Eu, o sobrinho mais velho, aos 10 anos, ainda de calças curtas, quis fazer o Exame de Admissão ao Ginásio do Farias Brito, pulando o então 5º. Ano. Tive muitas aulas com a Tia Julinha e passei sem problemas. Anos depois, Margarida, minha mãe, engravidava pela nona vez. Gravidez normal, até que levou um choque na geladeira de casa. Dias depois, nascia Luiza Helena. Yayá ainda era viva. Ela e a Tia Julinha, que moravam no nosso quarteirão da Visconde do Rio Branco, foram ver a sobrinha e se encantaram com ela. Pediram, de princípio, que ela ficasse lá durante o dia, para desafogar a casa, plena de crianças. E aí Luiza foi ficando por lá.
Júlia, também solteira, culta, declamadora de longos poemas, católica fervorosa e simples, caiu de amores por Luiza. Repetia-se a tradição. Ela cresceu, formou-se em Sociologia e casou com o médico Winifried Hechelmann. Tia Julinha não entendia porque Luiza, sua sobrinha-filha, iria morar na Alemanha. Coisas do destino. Luiza teve duas belas filhas lá na terra de Goethe, ambas nas presenças de Margarida e Júlia. A primeira foi batizada com o nome Júlia, em homenagem à tia-avó. A segunda, recebeu o nome de Isabella, por ter nascido no dia sete de setembro. Ontem, 25 de maio de 2011, Júlia Saraiva Caminha,90 anos, serena, partiu para o insondável. As almas, imagino, podem voar e ela, certamente, deve ter dado um sobrevoo pela Germânia para olhar as suas duas sobrinhas-netas estudando medicina e sua sobrinha-filha Luiza, parceira fiel da clínica de seu marido, Wini.
Esta é uma história familiar, de vida e amor. Simples, como devem ser as das pessoas de bem que fazem de suas histórias uma eterna doação. Ela, certa vez, me mandou, entre bilhetes trocados, o seu salmo preferido: Sl 9.10: “Porque aqueles que buscam o Senhor têm o seu coração voltado para o irmão sofredor”. Tia Julinha, descanse em paz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/05/2011.

Sem categoria

O CEARÁ E OS ESTRANGEIROS – Diário do Nordeste

A Sociedade Consular do Ceará reúne cônsules honorários e vice-cônsules representantes de países das Américas e Europa. Quase sempre, a diretoria e seus integrantes, recebem visitas de embaixadores, cônsules gerais, intelectuais, empresários e naturais dos países representados. Recentemente, por exemplo, o Ceará recebeu, por duas vezes seguidas, diplomatas, inclusive embaixador, do país que represento, o México. O mesmo se dá com os outros países. Todos eles, sem exceção, louvam as nossas belezas naturais e o tratamento recebido das autoridades estaduais, mas intrigam-se com alguns aspectos que encontram. Destaco, apenas alguns. Há estranheza com a abordagem quase agressiva, em todos os semáforos, de flanelinhas, crianças andrajosas, mendigos, vendedores e panfletários. Mesmo com vidros cerrados, há as patéticas mãos estendidas, toques e a exposição de cartazes: “estou com fome”.
Entendem que esse é um problema de ordem pública, nada a ver com pobreza ou quiçá, execrável eugenia. Outro fato muito comentado é a péssima qualidade das estradas por onde trafegam. Sejam urbanas e as que demandam ao interior para onde procuramos levá-los a mostrar pontos turísticos ou oportunidades de negócio. Abordo este assunto, face à cruzada que o Governo do Estado e entidades representativas do Ceará têm, com justiça, solicitado a recuperação das nossas estradas federais, as chamadas Brs. Não se trata de favor político, mas de clamor público e obrigação ministerial. O Ceará tem, entre outras vocações, a do turismo. E nem todos os turistas, nos visitam por via aérea. Há os que preferem visitar-nos em seus veículos ou usando ônibus de turismo ou de autoviárias.
Para finalizar: esta semana recebi o diplomata Viktor Dolista. Ele me disse que, ano passado, aconteceram 22 assassinatos na sua Republica Theca (11 milhões de habitantes), todos desvendados e criminosos presos. E que todas as estradas de lá são boas, como é da obrigação estatal. Será sonho pensar nisso para o Ceará e o Brasil?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/05/2011.

Sem categoria

O GUERREIRO DE AMONTADA: DEUSMAR QUEIRÓS – Jornal O Estado

São Bento de Amontada era distrito de Itapipoca, Ceará, em 1947, quando ali nascia, em 27 de maio, um menino, batizado de Francisco, certamente em homenagem a São Francisco, o “pobrezinho de Assis”. Amontada, à época da colonização, era habitada pelos índios Tremembés, guerreiros que, pouco a pouco, foram sendo aculturados pelos jesuítas. Virou, depois de criações e extinções, município, de forma definitiva, somente em 1985.
Hoje, neste maio de 2011, a cidade ainda possui um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano. Imaginem, então, como era em 1954, data em que a família Queirós, resolveu deixá-la para morar em Fortaleza. Pararam na zona oeste da cidade, na entrada dos que demandam do Norte cearense, no bairro de Antônio Bezerra que, à época era mais conhecido como Barro Vermelho, por conta da pigmentação de seu chão ainda quase sem pavimentação. A família montou um pequeno negócio. Ali foi crescendo Deusmar que, a par dos estudos, ajudava seu pai na sua lida.
Conheci Deusmar Queirós no início dos anos setenta. Raimundo Padilha, seu professor na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Ceará, o trouxe, como discípulo diferenciado, para a “Galeria Credimus”, espécie de supermercado financeiro que trabalhava com a Caderneta de Poupança, Letras Imobiliárias, Ações e outros. Paralelo a isso, Bernardo Bichucher, sócio colateral da Crédimus, tinha uma Corretora de Valores Imobiliários, praticamente inativa. Deusmar a gerenciou e dinamizou. Passou a ser, rapidamente, um dos maiores negociadores no Brasil das ações de empresas beneficiadas pelos artigos 34/18, base de apoio da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, Sudene às empresas regionais. Em seguida, Deusmar assumiu o controle da Corretora Pax. Era o jovem guerreiro demonstrando que a sua luta pessoal começara, mas era uma cruzada de paz. Em toda a sua vida, teve o apoio incondicional de Auricélia, sua mulher.
Em 1981, já detentor de bens e, principalmente, ações, até hoje um de seus maiores ativos, resolve, compartilhar a ideia de seu cunhado Ubiranilson Alves e, com ele, funda as Farmácias Pague Menos. Agora, 30 anos passados, a Pague Menos está operando em todos os estados brasileiros e é o maior grupo de farmácias nacional. Tem mais de 400 lojas, inovou, desde o princípio, no “mix” de bens e serviços prestados. Dá empregos a centenas de farmacêuticos e a milhares de colaboradores. Paralelo a isso, Deusmar tem ainda um “pool” de outras empresas dinâmicas e eficazes.
Exato no dia de hoje, sexta-feira, 20 de maio de 2011, recepciona, com a sua família, amigos, colaboradores e fornecedores de todo o Brasil em festa merecida, por conta de seu espírito empreendedor, capacidade de liderança, simplicidade e destemor.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/05/2011.

Sem categoria

BRASSAÏ E BRASILIANA – Diário do Nordeste

O Espaço Cultural Unifor apresentou, de março a abril passados, duas gratas e distintas exposições. No Anexo, “Paris la Nuit”, de Julius Halasz, artisticamente Brassaï; no 2º. piso, a “Coleção Brasiliana Itaú”. Paris à Noite reúne coletânea de fotos, em preto e branco, da vida noturna da cidade, nos primeiros trinta anos do século passado. São quase detalhes, usando foco gris, envolvendo gente do povo, ambientes e situações do dia-a-dia não tão charmoso da urbe que atraia, à época, artistas e escritores de muitos países. Brassaï é húngaro. Há um casal a se repetir em duas das 98 fotografias. Ficam em duplo, por conta de velho espelho a captar suas imagens, deixando à mostra copos, cigarros, esmaltes das unhas da mulher etc. Em uma, o homem está com boina, na outra resplandece sua cabeleira negra. Enquanto isso, uma prosaica carroça – como as dos catadores de lixo no atual Brasil – realça quinquilharias amontoadas. O lado sensível do artista apreende efeitos singulares ao apertar o obturador. Vi e revi partes da cidade que conheço desde 1965. É claro que a Paris de hoje, afora os monumentos públicos, pouco tem a haver com a arte do húngaro Brassaï, eternizadas em exposições, agitando a sensibilidade dos milhares de pessoas que, nestes três meses, passaram pelo acolhedor, mas neutro – como deve ser – ambiente que as recebeu.
Rica, multifária e perpassando o Brasil desde a chegada de Cabral, a Brasiliana Itaú reúne objetos, pinturas diversas, entre outras, de Von Martius, Debret e Rugendas. Mescla cartas náuticas, livros raros, floresta, fauna, nativos, cidades, governantes, escritores como Alencar e Rachel e até o inventor Santos Dumont, com o seu 14-Bis. Todos disputam espaço. Essa coleção múltipla parece ser o tardio, válido e verdadeiro encontro do banqueiro Olavo Setúbal com a arte, na juventude de sua maturidade. E o fez com pressa e destemor. Histórica e complexa. Por essas razões talvez não possa ser absorvida na totalidade pelo olhar jovem que, aflito, admirava “tanta coisa bonita”. As visitas gratuitas – guiadas, de estudantes do interior às mostras periódicas da Unifor- são uma lição à cultura e às artes do Estado. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2011

Sem categoria

O FIM DO CAOS? – Jornal O Estado

Em 2002, publiquei o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Nele, na parte primeira, a gênese, procuro, analiticamente, tentar explicar, se é que é possível, o que levou o Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, a afrontar os Estados Unidos, no dia 11 de setembro de 2001, ocasionando quase 3.000 mortos. Na parte segunda, do caos, criei onze contos diversos, mas todos com foco na tragédia americana. Contos, vocês sabem, são estórias curtas, criadas, geralmente com poucos personagens, com começo, meio e um fim diferente do que se espera. Em um deles, inventei o personagem Tárik, nascido em Jalabad, Afeganistão, cujo pai fora assassinado à época da ocupação soviética. Aos 14 anos, por conta de forte crise de vesícula, vai para Cabul, a capital do país. Depois de curado, fica à toa e vê multidões percorrendo ruas destroçadas. Era o mês do Ramadã, a época sagrada islâmica da revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Tárik sobe em um caminhão repleto de gente. Eram jovens recrutados pelo Al-Qaeda e ele foi de roldão. É detido por ser quase criança. É perdoado, fica no grupo, envolve-se em longo treinamento de guerrilha incluindo falar inglês de forma fluente, sotaque americano e missão terrorista. O final não vou contar. Existe a realidade fática, a ocupação, há anos, do Iraque e a morte, nesta semana, de Osama Bin Laden, no Paquistão. Rico fundamentalista islâmico, com vários ex-amigos americanos influentes, metamorfoseado em chefe de um grupo muçulmano a confrontar o ocidente, especialmente os Estados Unidos. Antes e depois do 11 de setembro de 2001, outros atentados aconteceram, ao redor do mundo, quase todos atribuídos ao Al-Qaeda. Agora, neste começo de maio, Barak Obama, fala, com orgulho, da façanha de seus soldados “Seals”, matadores de Bin Laden. Perplexos, perguntamos, a partir dessa morte, é se ele, nesses anos todos, formou sucessores para continuar essa senda vertiginosa de terror? Virará mito? Por outro lado, indagamos a razão dessas culturas, a ocidental e a islâmica, não procurarem um viés de paz ou respeito às diferenças em um mundo combalido por catástrofes da natureza e problemas econômicos contínuos. Somos diferentes, temos costumes, valores e crenças dessemelhantes, mas é preciso se encontrar um condão de esperança a dar cabo ao sectarismo islâmico e à crescente intolerância ocidental. Ditaduras árabes estão sendo, pouco a pouco, despedaçadas pelo próprio povo a lutar e a morrer pelo livre-arbítrio, mesmo sem avaliar o futuro a vir. A liberdade, essa que temos, na maior das vezes não a sabemos usar em nossa própria defesa e na do próximo, mesmo não sendo ele o imaginado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/05/2011.

Sem categoria

SEU DIA, MEU DIA – Diário do Nordeste

Hoje é o Dia do Trabalhador. É o meu dia. Aos 14 anos comecei a ajudar meu pai. Daí, não parei mais. Fiz uma faculdade pela manhã e outra, à noite. As tardes eram de trabalho. Escrevia, remunerado, para o Correio do Ceará e era correspondente da Carta Econômica do Nordeste, de Recife. Formado, emendei em um curso de doutoramento na UFC que me tomou dois anos sem resultado. O MEC desativou o curso. Tentei ser advogado. Deram-me um trote: receber uma dívida difícil no Cariri. Fui lá e voltei com o dinheiro. O cliente não acreditava. Depois, conclui que andar pelo Fórum não era para mim. Abri, com coragem e disposição, uma empresa de administração. A empresa era eu. Quando precisava de suporte valia-me do colega de turma Ananias Josino Lobo, meu mais antigo e querido amigo.
Fernando Távora era presidente da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações-Cocesp, depois Companhia Cearense de Saneamento- Cocesa e me pediu ajuda. Fui ser gerente administrativo. Fechei as torneiras. Com cara de menino, falava grosso. Logo depois, Danilo Marques me apresenta a Elano Paula que tinha pendência de um ano no BNH, no Rio. Em quinze dias, resolvi tudo. Voltei de rumo mudado. Havia um sonho de grupo econômico, mas, depois de três anos, pedi para sair. O jogo era denso e eu queria ser livre, fazer o que me importava. Elano não se surpreendeu e disse: já adivinhava, boa sorte. Não foi bem assim, passei ainda alguns anos como sócio do engenheiro Nisabro Fujita.
Uma segunda-feira, sem razão especial, disse para ele: quero trabalhar só. Repartimos o que tínhamos, sem nenhum problema. Agora, era eu e o desafio. Fiz-me de forte, estudei, pesquisei, inovei, viajei muito e descobri-me trabalhador. Hoje, dezenas de anos depois, reconheço-me como lutador nato, embora tenha assinado mais de 25.000 carteiras de trabalho. O faço com alegria. Acerto e erro. Estudo, compartilho, distribuo, diariamente, recortes de revistas e jornais, escrevo e-mails com ideias sobre o que acho certo ou errado. Por isso, hoje é o meu dia, o seu dia e de todos aqueles que trabalham, de verdade. Acredite e lute pelos seus sonhos. Não desanime nunca.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2011.

Sem categoria

NOVA FESTA, 30 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Hoje será o dia da festa da insanidade coletiva. Estações de Televisão de todo o mundo disputarão lugares estratégicos em um trajeto de pouco mais de dois quilômetros. Dignitários, nobres, bobos da corte, com fraques- muitos deles, alugados – e cartolas; ladies, catadoras de convites e celebridades ocasionais em vestidos curtos ou longos, joias ou semi-joias, estarão à procura de câmeras para os seus sorrisos e, portarão, em seus bolsos, máquinas fotográficas para, furtivamente, registrar o acontecimento. Depois, mostrarão orgulhosos, às suas famílias e amigos. Vocês sabem que cada convidado recebeu um Manual de Procedimento para dizer horários, lugares a ocupar quais as vestimentas adequadas, as condutas certas e como devem ser os cumprimentos e até meneios de cabeça para os integrantes das muitas famílias reais presentes? Vocês ainda acreditam em contos de fada? Preferem Cinderela? Carruagens mostrarão o anacronismo da tradição que teima em ficar à tona. Uma família, dizem, com graves problemas comportamentais finge se unir e se apega às verbas anuais de um tesouro combalido. E.Burke, político inglês do século 19, já dizia: “Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso”. O que faz uma família real neste século 21 assolado por grave e contínua crise econômica em toda a Europa? Cerca de 1.900 convidados estarão presentes à abadia, 650 irão à recepção e apenas 300 comparecerão ao jantar, dito íntimo. Como se vê, haverá, entre os convidados, seleção de castas. O mundo, depois do fim da guerra fria, do ataque de 11 de setembro de 2001, do vertiginoso crescimento da China e dos combates fabricados no mundo muçulmano não pode se dar ao luxo de uma ostentação inócua, inconsequente e dispendiosa de uma boda que pode – ou não – dar certo. No dealbar desta segunda década, a Europa está em processo anunciado de fadiga econômica. Tenta manter-se altiva e engendra soluções emergenciais para países que posaram de ricos e passam por cortes em orçamentos, pedem empréstimos de organismos internacionais e acreditam que o bloqueio à entrada de imigrantes de países que, em boa parcela, foram colonizados pela velha Albion, pode ser uma das soluções. Domingo, televisões, jornais, tabloides e revistas sérias de todo o mundo, trarão edições especiais da pantomima. É o começo da primavera por lá, mas, se chover, será um sinal lacrimoso do desperdício e da falta do que fazer. Repete-se o que aconteceu há 30 anos e, todos sabem no que deu. Traições e morte. Parafraseando La Rochefoucald:os nobres são como certos quadros: para admirá-los não se deve olhá-los muito de perto. God save the insanes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/04/2011

Sem categoria

BRASIL NA CHINA – Diário do Nordeste

O Brasil estava se preocupando demais com o possível acesso ao Conselho de Segurança da ONU (a China negou apoio) e as crises do mundo muçulmano, especialmente, o Irã. O governo esquecia a China, nosso segundo parceiro comercial, graças a negócios privados. Não que as crises do mundo muçulmano não devam preocupar.
A China é país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Procurei ver o que nos mostram e o que sempre estavam atrás de muros. Lembram os muros de entrada/saídas onde toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois micro-casas/favelas ficam atrás desses muros. Alguns deles têm paisagismo moderno, mas da “passagem do toureiro” para a parte interna há brutal diferença. Existe pobreza. A diferença é que o jovem chinês tem mais ambição que qualquer rapaz do ocidente. Ele sabe que só há duas saídas para o sucesso: conhecimento e trabalho. Assim, estuda para valer. Moureja, sem descanso. Por outro lado, há os chineses já no patamar dos ricos, embora morem, ainda, em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram hábitos, vestem roupas ocidentais e até degustam vinho. Em 2010, a China foi a maior consumidora do mundo de vinho Bordeaux.
Os ricos de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos em hotéis, ruas e shopping centers. Você pode comprar artigos Louis Vuitton originais ou optar por imitações em mercados populares. Dizia, no princípio, que devemos nos preocupar com a China.
Ela tem tentáculos na África. Nada de ideologia ou guerra. Exércitos de empresas chinesas investem em todas as áreas industriais e vão, pouco a pouco, sendo donos da economia dos países africanos. E não só na África.
A viagem da Presidente Dilma é promessa cautelosa. Ela e seus assessores devem ter lido a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Anelectos”, de Confúcio. Esses livros dão ideia de como a filosofia “Tao” serve até hoje ao pragmatismo e a demora chinesa para decidir. Terry Gou, da Foxconn, dos US$ 12 bi de investimento no Brasil, não é chinês. É de Taiwan.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2011

Sem categoria

INSTITUTO DO LIVRO E LEITURA – Jornal O Estado

Há um grupo de pessoas que luta, de verdade, para a difusão do livro e da leitura nesta terra de poucos leitores. Esse grupo criou, há algum tempo, o Fórum do Livro e da Leitura do Estado do Ceará. Reuniões foram realizadas, ideias trocadas, esboços de projetos feitos, assembleias, e, depois de mais ou menos dois anos, vicejará um Instituto. O Instituto do Livro e da Leitura do Estado do Ceará reunirá as principais entidades culturais e os integrantes dos sindicatos da indústria gráfica e do comércio do livro e pedem as bênçãos de José de Alencar, Farias Brito, Raquel de Queiroz, Martins Filho, Gerardo Melo Mourão, Alcides Pinto, Augusto Pontes e de tantos outros escritores que nos precederam na ida ao Parnaso. Falo especificamente de Pedro Henrique Saraiva Leão, José Augusto Bezerra, Gizela Nunes da Costa, Auto Filho, Mileide Flores, José Augusto Bezerra, Karine David, Luiza Amorim, Francílio Dourado, Sérgio Braga, João Soares Neto, Raymundo Netto, Assis Almeida e outros. O Instituto chega para somar força com a Secretaria da Cultura do Ceará, Secretária de Cultura de Fortaleza e as entidades representativas da literatura, do livro, da indústria editorial e entidades culturais, notadamente: Academia Cearense de Letras, Academia Fortalezense de Letras, Instituto do Ceará, Associação dos Bibliotecários do Ceará, Anuário Literário do Ceará, Associação Brasileira de Bibliófilos, Anuário da Literatura do Estado do Ceará, Câmara Cearense do Livro, Benficarte, Sindicato do Comercio Varejista do Livro do Estado do Ceará e Sindicato da Indústria Editorial do Estado do Ceará. Agora, neste abril de 2011, essas entidades acertaram com a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, por seu presidente, Dep. Roberto Cláudio, realizar, no dia 03 de maio próximo, uma terça-feira, às 15:30h, uma audiência pública na Comissão de Cultura e Esportes daquela Casa, dirigida pelo dep. Ferreira Aragão. Como o próprio nome o diz, será uma audiência em que todas as pessoas e entidades interessadas no livro e na leitura poderão comparecer. Estão, desde já, convidados os dirigentes, professores e alunos das principais universidades: Federal do Ceará, Estadual do Ceará, Unifor e Uva. As faculdades privadas também estão convocadas, assim como todos os colégios públicos e privados, as entidades e grupos literários, órgãos da imprensa, editores das revistas e, logicamente, todos os escritores, independente de fazerem parte ou não de academias. E você, caro leitor, já fica convidado e poderá levar os seus amigos. Repito, tudo será público. Todos serão bem-vindos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/04/2011

Sem categoria

O BRASIL E O CAOS – Diário do Nordeste

Bem que gostaria de escrever algo leve, crônicas charmosas, mas há caos no Brasil. Cidades grandes não permitem estabelecer horários certos de reuniões entre pessoas com trabalho em bairros diferentes. Vale a moda: “tipo assim, 4 da tarde”. Há intervenções urbanas necessárias e outras dispensáveis, realizadas durante o dia. Engarrafamentos. Existe velha mania de se dizer que a solução urbana passa pela cabeça de arquitetos. Nem tanto. É preciso que os profissionais tenham qualificação real em urbanismo, mas isso é outra conversa.
É imperativo um conjunto de profissionais diferentes para pensar uma cidade. Jaime Lerner, urbanista, fez – com equipe multidisciplinar – de Curitiba uma cidade planejada, modelo brasileiro. As demais cidades vivem em função de demandas emergenciais, enchentes e o desencontro da implantação ou ampliação de metrô, saneamento básico com a malha viária existente ou a ampliar.
De um tempo para cá, o Brasil vive a paranoia da Copa do Mundo/2014. Estádios inteiros são implodidos (a palavra está certa), quando poderiam ser ajustados às novas exigências tecnológicas, com custos bem inferiores. Além disso, há sentimento de urgência. Tudo tem de estar pronto. Logo. Criam-se comissões disso e daquilo e, para variar, poucos se entendem. Países existem para os seus habitantes e turistas, mas não para circunstanciais eventos que, quase nunca, duram um mês e deixam um pós-vazio.
A África do Sul está com estádios sem uso, dívidas a pagar e racionamento de energia. A Vila Olímpica do Rio está com aptos. abandonados e o estádio, cedido. Agora, será diferente. Somos a pátria do futebol e as prioridades se invertem. Aeroportos brasileiros são, quase todos, ultrapassados em segurança, acessibilidade e atendimento. Na Europa e Estados Unidos, os despachos (check-in) são feitos na ponte de embarque dos aviões e se pode chegar e entrar rapidamente. No Brasil tudo é corre-corre, sobe e desce escada, o avião muda de posição nos “fingers”, há atrasos, a maior parte dos atendentes dos aeroportos e das companhias não tem treinamento. É terceirizada. E complica o simples. Algumas empresas aéreas são mancas. Uma, até no nome.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2011.