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A DITADURA DO CORPO

O surgimento, neste século, de profissões novas como, por exemplo, educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e a atenção que a medicina, a biotecnologia e a engenharia genética deram ao ser humano, fizeram aumentar os cuidados com o corpo, sem falar nas plásticas, pois isto é outra história.
Honoré de Balzac falava, no século XIX, das “mulheres de 30” como se estivessem no ponto final de uma vida ativa. Hoje, as mulheres – e os homens, por extensão – de 30, 40 e 50 anos estão se vendo e se sentindo bem mais novas que suas mães, na mesma idade. Os recursos da coméstica, as aulas de ginástica, musculação, natação, corrida, alongamento, yoga, dança e as lutas estão deixando um rastro de saúde, especialmente quando associadas a uma alimentação saudável, e a ingestão de vitaminas e antioxidantes. Hoje muita gente fala com desenvoltura sobre ácidos graxos, fibras, sal, gordura, proteína, carboidrato e colesterol.
Por outro lado, o aumento da longevidade, as aposentadorias precoces e o medo de envelhecer têm encorajado pessoas de mais idade a saírem de suas casas em demanda de parques, praças, avenidas, praias, piscinas e academias. Assim, jovens, adultos, maduros e velhos misturam-se em uma sinfonia em que todos entoam uma mesma trilha melódica: mexer com o corpo para viver mais e melhor. Acordar cedo e malhar deixou de ser um modismo e transformou-se em prática saudável para os que precisam, acreditam e desejam continuar em forma, obedecidas as razões do corpo.
Ao mesmo tempo em que psiquiatras, psicólogos e terapeutas cuidam das mentes das pessoas, há um quase exagero na publicidade, na medicina, na nutrição e nas carreiras esportivas com a obtenção de um melhor físico. É a ditadura do corpo esbelto, mesmo que a mente não esteja totalmente sã. Vamos a um exemplo: recentemente, no estado americano do Novo México, os pais perderam a guarda de uma filha de três anos pelo simples fato dela estar pesando 55 quilos. Em outras palavras, é o Estado dizendo que compete à família a responsabilidade de cuidar dos corpos de seus integrantes.
A Olimpíada em curso na Austrália está sendo pródiga em quebras de recordes, pois os atletas vivem cuidando,por anos seguidos, de seus corpos de modo a transformá-los em feixes de músculos capazes de obedecer a impulsos instantâneos. Uma fração de segundo pode ser fatal na obtenção de uma medalha. Poder-se-ia dizer que esta olimpíada associa, de forma absolutamente integrada, a medicina e a nutrição às técnicas esportivas, não dando oportunidade a improvisações, mesmo que o talento e o arrojo ainda sejam as maiores características dos vencedores.
Esta ditadura do corpo parece ter uma razão de ser. Os geriatras e gerontologistas têm afirmado que as pessoas que conseguirem chegar saudáveis ao ano 2010 terão, ainda, muitos e muitos anos de vida. É chegar para ver.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2000.

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MACHO MAN

Os homens brasileiros, com mais de 50 anos, vivem dilemas existenciais sérios. Sabem que o nosso modelo de “macho man” está ultrapassado, não tem volta. Por outro lado, não possuem a maturidade para encarar, como naturais, as mudanças chegadas com o tempo. São tantas, de toda ordem, a causar espantos e perplexidades. Ora é a parceira a desafiar com o seu saber e independência; os filhos a fustigarem com indagações, cujas respostas não sabem; os reptos da vida profissional, mostrando sem dó, nem piedade, a necessidade de reexaminar os caminhos já percorridos e sinalizando novas estradas a serem trilhadas, mesmo sinuosas e insondáveis.
Paralelo a tudo isso, além da mente, o corpo passa a emitir sinais, pedir cuidados com o diabetes, o colesterol, a visão, as coronárias, a obesidade, a flacidez dos músculos, as artroses, o fantasma da impotência e as doenças cativas do homem, dentre as quais avulta as da próstata.
Um anúncio institucional de um plano de saúde tem alertado para esse problema, a Faculdade de Medicina da USP realizou, no último mês, a Semana do Alerta sobre a próstata e pessoas próximas a mim que foram afetadas. Daí, passei, casuisticamente, a estudá-lo com atenção. O que escrevo a seguir é a visão curiosa de um leigo, nada mais que isso. O objetivo é um só: alertar.
O urologista, com o seu dedo em riste, é temido por muitos homens, sob a desculpa de “depois eu faço”. Hoje, um homem com mais de 50 anos, ao fazer o seu check up anual deve incluir o exame do PSA. Na realidade, o PSA, um exame recente, feito a partir do sangue, é um marcador eficaz da saúde da próstata. Seu nome vem do inglês e significa Antígeno Prostático Específico. O antígeno, no caso, é uma substância que, penetrando no organismo, vai detectar especificamente através de uma escala, que começa com zero e cresce, o grau de sanidade – ou não – da próstata. Determinaram, após pesquisas, que os níveis ideais variam de zero a quatro. Assim, o homem, ao fazer anualmente o seu exame de PSA, deve ler e discutir os resultados com o seu urologista.
Além do PSA, o toque retal é outro indicador importante. Dura menos de um minuto, e nenhum homem deve se sentir menos “macho” por ter a consciência de fazê-lo a partir dos 50 anos, ou após os 40 anos, se houver história de câncer, especialmente de próstata, na família.
Quando o PSA apresenta índices superiores a quatro, não há razão para alarmes. O paciente poderá ter apenas uma inflamação na próstata ou, ainda, uma hiperplasia benigna, isto é, uma doença perfeitamente curável, através de tratamento ou cirurgia. Auxiliado por exames de ultra-som trans-retal e biópsia , o urologista poderá indicar o procedimento mais adequado a cada caso.
Na pior hipótese, os que forem acometidos de câncer de próstata poderão ficar curados, desde que a doença tenha sido detectada no início e atingida somente a cápsula prostática. O médico retirará toda a próstata, verificará se não há metástases – auxiliado pela patologia – nas áreas próximas e, com muita probabilidade, o doente poderá ficar curado. As técnicas, usadas universalmente, tentam preservar a capacidade de ereção do paciente e minimizar a possibilidade de incontinência urinária.
Ser homem, depois dos 50, é ter uma mente lúcida para agir previdentemente, com capacidade para enfrentar as adversidades – se elas acontecerem – e forças para superá-las, tocando a vida com energia e sem medo. Este é o novo macho man.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2000.

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INDEPENDÊNCIA E DEBOCHE

Parte dos brasileiros ainda debocha do episódio da independência brasileira. Pouca gente estudou o assunto, pesquisou a história e se compraz em achar graça e ridicularizar o ato. Bobagem ou falta de autoestima nacional. Seria o inconsciente coletivo do povo?
A independência das colônias latino-americanas já vinha acontecendo há tempos, seguindo o exemplo da América que se libertou da Inglaterra, em luta que durou de 1775 a 1782, mesmo após a independência em 04 de julho de 1776.
Os latino-americanos aproveitaram o exemplo da América e a invasão francesa em Portugal e Espanha por Napoleão Bonaparte, destronando os seus soberanos, propiciando a onda de rebeldia nas colônias. Foi a essa época que surgiram, entre muitos, Simon Bolívar. Miranda, Hidalgo, San Martin e Iturbide, com os processos de libertação da Venezuela, México, Chile, Colômbia, Equador, Argentina e outros.
O enfraquecimento dos países colonizadores, Espanha e Portugal, oferecia clima propício, e isso ajudou a eclodir um sentimento de revolta e a procura da independência. No caso específico do Brasil, surgiu em 1820 o regime constitucional proclamado pelos portugueses, mas a pressão dos separatistas criava condições para a independência.
D. João VI, como todos sabem, foi chamado de volta à Portugal em abril de 1821, deixando seu jovem filho D.Pedro I, como regente. A esse tempo, a maçonaria brasileira, talvez procurando cooptar D.Pedro I, outorgou-lhe o título de “defensor perpétuo do Brasil”, aconselhando-o a não obedecer às ordens de Portugal. A partir desse e de outros fatos, surge o episódio do Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, e começa a história que todos conhecem.
O não derramamento de sangue no episódio da independência brasileira parece ter frustrado alguns historiadores e patriotas, apelando para o deboche, perdurando até hoje. O que essas pessoas não atentam é que o Brasil estava cercado de lutas libertárias em todo o continente e isso foi o elemento indutor do processo que se fez, graças a Deus, pacificamente, pois não houve resistência de Portugal, sem forças, pois às voltas com seus próprios problemas.
Criava-se, naquele episódio, uma característica própria da nação brasileira. O diálogo sempre tem superado as questões ideológicas. País gigante, não viveu grandes episódios localizados ou generalizados de insurreições, guerrilhas significativas, revoluções ou movimentos separatistas. Com o seu imenso território, tem oferecido a nós brasileiros, apesar de tudo, esse clima de liberdade, euforia e a capacidade de superar os nossos problemas, ainda tão grandes.
Em meio a denúncias de corrupção, às procelas da globalização, acrescidas do canibalismo interno das grandes empresas nacionais, o Brasil vive um momento muito especial, pois tem que se firmar como nação independente, neste mundo comandado por corporações transnacionais que desrespeitam fronteiras, descaracterizam culturas e corrompem instituições e governos. Para isso, mais uma vez, temos que nos unir e, sem deboche, procurar consolidar a nossa independência, comum a todos os que nasceram e vivem neste país tão maravilhoso.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2000.

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O AMOR MATA

Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca análise crítica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou atônita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a vítima.
Imaginem, só para raciocinar, se o assassino tivesse outra profissão. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da história, fica apenas uma lição elementar: jornalista é gente igual a todos.
Dito isto, fiquei me indagando, por quê a falta coletiva de lucidez? Por quê não se considerou a fragilidade do ser humano, tão clara para Isaiah Berlin, ao dizer: “A noção do todo perfeito, a solução final, em que tudo o que é bom coexiste, não me parece apenas inatingível- isso é um truísmo”.
Como os jornais e as revistas não me deram respostas convincentes, procurei me valer, lá no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela é, para mim, uma pessoa capaz de emitir opinião, pois, na sua condição de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas
Vejam o que Thaís Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: “A ligação que mantinha com ela, graças à sua idade, lhe dava uma espécie de garantia contra a idéia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narcísica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como “fúria narcísica”. Essa reação pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patológica – e aqui não importa o seu grau de cultura e experiência – é tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o responsável pela sua dor, pela perda de seu equilíbrio.”
Thais, finalmente, vai ao crime: “ao rejeitar Pimenta, privou-o da impressão de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao invés de entrar em depressão ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como ‘responsável’ pela ‘fúria narcísica’ que lhe foi imposta, invertendo a situação e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer… Sandra, sem saber, pôs um ponto final à situação de efeito “mágico” que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude”.
Para mim, a análise da psicanalista Thais Oliveira é um um bom subsídio aos que não entendem que o amor pode matar. E não se contenta em matar só a pessoa, o “criminoso-abandonado” transcende a dor da sua perda ao procurar sepultar/aniquilar, post-mortem, igualmente, o caráter, a família, a dignidade, enfim, os valores da abandonadora-morta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2000.

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DISTRAÇÃO OU BURRICE?

Eu posso até disfarçar para os outros a minha burrice, mas não consigo me enganar. Muitas vezes, as pessoas me chamam de inteligente e retruco que estão enganadas. Pensam ser falsa modéstia ou provocação de elogios. Nada disso, é a consciência, a cada dia aumentada, do agravamento da minha burrice.
Ora, dirão vocês, como uma pessoa revela de público ser burra. E muitos dirão, até que enfim, ele confessou. Acontece estar eu meio ressabiado com os erros cometidos. E o pior não é só cometer. É repetir.
Muitas vezes eu utilizo a desculpa de ser canhoto e, em decorrência disso, justifico cair de escadas, bater com a cabeça na parede, tropeçar em batentes, entrar em rua na contramão etc. Poderia dizer, por ser verdade, em minha defesa, que sou distraído. Vá lá que seja, mas repetir os mesmos erros, sempre, só pode ser algo mais que distração.
Uma vez, em Londres, deixei de morrer por um triz, olhei para um lado da rua e não vinha veículos, atravessei fagueiro e quase ia esmagado por um daqueles ônibus de dois andares. É elementar: se eu fosse inteligente, deveria ter colocado na minha cachola que a mão de direção na Inglaterra é a inversa da do Brasil.
Tem um cara que com quem não falo desde menino. À época, ficamos “mal de sangue-a-fogo”. O problema é que tento me lembrar a razão e não consigo. A próxima vez que encontrá-lo, vou perguntar: Você pode dizer por que deixamos de falar?. O ruim será se ele ainda lembrar e tiver raiva.
Este ano já fechei, em três ocasiões diferentes, a porta da minha casa com a chave por dentro. A primeira, foi exatamente na manhã do dia primeiro de janeiro. A última, anteontem. Nesse dia, além de trancar a casa, eu usei o micro-ondas de forma errada, ocasionando a quebra de um prato, queimando toda a comida e deixando a cozinha cheia de fumaça.
Não espalhem para ninguém: vez por outra, eu mesmo ligo para o meu celular, tentando encontrá-lo. Pode parecer engraçado, mas é verdade.
Já fiz teste para saber se estou bom do juízo e o médico riu para mim, como a dizer: que juízo?
Recomendaram-me tomar um remédio natural excelente para a memória capaz de evitar esses erros frequentes. O problema é ter esquecido o nome do remédio e não lembrar do nome da pessoa que me recomendou.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/08/2000.

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O SUBMARINO

Já utilizei velocípede, bicicleta, motocicleta, carro, caminhão, ônibus, ultraleve, uma espécie de paraquedas monitorado, aviões de todos os tipos, helicóptero, mas nunca tive a coragem de viajar num submarino. Na verdade, uma vez, num desses parques de diversões americanos, fiz “uma viagem ao fundo do mar”, em um simulacro de submarino, parece que chamado de “Yellow submarine”, em alusão à música dos Beatles. Eles tentam reproduzir todas as sensações, mas é só uma viagem brevíssima e à flor da água.
Como cinéfilo, já vi muitos filmes centrados em viagens submarinas, mas sempre parece que vou me afogar na quantidade de água que circunda um submarino no silêncio e na pressão existentes no fundo do mar. É claro que há as belezas da flora e da fauna marinhas, mas meu elemento é a terra. Nem de nadar no mar eu gosto. Sempre o considerei um ente indomável que se sente conspurcado com tudo o que lhe é estranho e mexe com as suas entranhas.
Os submarinos são elementos estranhos aos oceanos, especialmente os nucleares que tem a sua razão de ser na possibilidade de lançamentos, entre outros, de mísseis de guerra na direção mar-solo com alcance de 4.000 km. Conclui-se, facilmente, que um submarino nuclear não é uma nave comum de pesquisa, mas integrante de um sistema de armamento estratégico de um determinado país.
Essa conversa preliminar é para mostrar como estavam, estão, estiveram ou estarão (sub)metidos os 118 tripulantes do submarino nuclear russo Kursk que, por um defeito técnico ou sabotagem, ficou à deriva no fundo do mar de Barents, a noroeste da Rússia, em águas internacionais. Junto com os 118 tripulantes estão 24 mísseis.
Foram os americanos que inventaram o submarino nuclear, em plena guerra fria dos anos 50. Os russos não se fizeram de rogados e logo dominaram a tecnologia. O resultado está ai, 118 pessoas ameaçadas de uma morte anunciada em toda plenitude. Não vale falar nos acidentes passados, pois, no caso em espécie, o passado só deveria ser referido como uma forma inteligente de aprendizagem para o presente.
Tento imaginar a convivência, nestes dias, dessas 118 pessoas, constituída de técnicos em balística, a oficialidade e meros marinheiros. Todos, seres humanos, com vínculos fortes – ou tênues – aqui na terra, onde suas famílias indefesas torcem pelo sucesso da operação resgate, pois o oxigênio só dá para mais cinco dias.
É claro que este não é o único problema que a televisão globalizada e catastrófica nos mostra, mas pincei esse fato para mostrar a minha angústia kafkaniana em saber que sempre algo pode acontecer pela insensatez dos homens. A Rússia, herdeira presuntiva dos antigos poderes da U.R.S.S., é o exemplo de um país que ainda não se definiu entre levar avante os mirabolantes sonhos de superpotência ou acabar com a miséria das classes menos favorecidas, elas que, no começo do século, exterminaram a família do Czar Nicolau, que pode vir a ser, paradoxalmente, canonizada – em bloco- pela Igreja Ortodoxa Russa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2000.

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PAI AO QUADRADO

Um dia desses, ouvi um avô compenetrado dizendo ir ensinar o aprendido na vida a seus netos. Suas experiências seriam passadas para servirem de referência aos netos. Ora, a experiência dos avôs quase nunca é válida para a nova realidade vivida pelos netos. A velocidade atual do mundo envelhece o dia de ontem. Daí eu pensar diferente.
Neto é para desfrute. Neto é uma espécie de filho de estimação. Avô não é para ensinar neto a escovar os dentes, estudar nas horas certas, tomar remédio para isso ou aquilo, nem a se portar direitinho na frente das visitas. Neto é para bagunça, desfrute, prazer puro.
Fui um pai presente. Tentei fazer a minha parte. Acompanhei as primeiras aulas do maternal, conferia boletins escolares, servia de despertador pela manhã, ia aos pediatras, ajudava nos estudos, comparecia a reuniões de pais e mestres etc. Fui não, sou um pai presente, continuo cobrando. Imaginando estar fazendo tudo na melhor das intenções. E o pior é que posso estar redondamente enganado. Paciência.
Agora, com netos, a história é diferente. É só bagunça. Sou, para quem não sabe, um avô novato. Tenho pouco mais de três anos na profissão que é exercida com uma certa dificuldade, pois se o pai é um ser periférico, imaginem um avô.
Mãe e avó acham que eu só quero perturbar. E, o pior, é que elas podem estar certas, pois não acredito que possam existir regras no relacionamento entre pessoas sem juízo. Umas porque ainda não têm e, a outra, por estar pouquíssimo preocupada em usar o pouco que tem – se é que ainda resta algum…
Na fase em que estou vivendo, isto é, na infância do meu avozado, tenho mais é que mandar tudo para o alto. Pena eu não exercer o papel de avô bagunçador em toda plenitude. Ainda tenho milhas e milhas a percorrer antes de dormir, como diria o poeta americano Robert Frost.
De qualquer modo, vou soprando os pés, fazendo cócegas, dando biscoito, fazendo barulho na barriga, beliscando, de leve, e batendo testa com testa.
Pensando bem, talvez tudo isso deva ser feito com os filhos. E se faz. Mas, tem a história de estabelecer limites, colocar para estudar, ensinar bons modos, levar ao médico, dentista etc. E, aí, a história complica um pouco.
Com neto, a coisa muda de figura. Não precisa bancar o durão e fazer de conta que está com raiva. É, exatamente, o oposto. O avô deve se especializar em “desensinar”, em confundir, em contar estórias sem pé, nem cabeça e não se importar que o filho ou a filha diga que ele está deseducando. Está mesmo. É para isso que avô serve; uma espécie de Piaget aloprado, pelo menos, enquanto os netos não crescem.
Mesmo sendo você um avô neófito, como eu – uma espécie de aprendiz de avô –, não vá muito nesta minha conversa maluca. Você tem o seu jeito. Estou falando do meu, que não serve de exemplo para ninguém. Na realidade, não posso – e nem quero – dar exemplos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2000.

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VIAJAR SEMPRE

Um dia desses fui tomar café em um flat da orla. Alta estação, muita gente com a parafernália típica de turista ao lado das mesas.
De repente, um senhor colega em idade do FHC, mas já assumido como velho, pede a uma garçonete para tirar uma foto dele ao lado do “buffet” e ainda fez um gesto como se tivesse bebendo alguma coisa. Logo após, no “lobby” vi que ele fazia parte de um grupo de terceira idade que estava em desses pacotes turísticos que prometem o céu e a terra, sem dizer que falar com Deus é opcional.
Vi muitos deles em passos arrastados, uma das características do declínio corporal. Apesar disso, pareciam vivazes, acompanhados de suas gordas mulheres, subindo, com a ajuda de um guia, os degraus de um ônibus de turismo que atrapalhava o trânsito e impedia, inclusive, que meu carro saísse.
Fiquei quieto, esperando o último subir e, nesse entretempo, me perguntei porque muita gente só começa a viajar quando o corpo já não é tão ágil e os programas parecem longos e cansativos, a ponto de, no horário da tarde, ser comum que muitos turistas cochilem, enquanto os guias se esgoelam falando das belezas do lugar.
Viajar é, para mim, uma das melhores formas de se aumentar conhecimento, de crescer como pessoa, de entender as diferenças entre os povos, ter uma exata dimensão do local em que vivemos e captar o ridículo dos que viajam sem norte, sendo guiados como cordeirinhos em visitas tão superficiais quanto os seus interesses.
No século XXI que já desponta, em poucos meses, de parto natural, seria importante que os colégios, as faculdades, as associações de classe, os clubes de serviço, as congregações religiosas e, especialmente, as famílias, estimulassem viagens a seus membros. Sei que alguns já fazem isso, mas são as exceções.
Viagens para poucos e escolhidos lugares, onde a pessoa tivesse mais tempo de conhecer o que lhe interessasse, de passear sem destino, de tomar um ônibus e se misturar com o povo, em meio a feiras, comícios, passeatas, concertos, ofícios religiosos e nos parques onde muita gente lagarteia olhando o céu.
Não valem as viagens a Disney, as compras em New York, nem as excursões de três semanas à Europa com visitas a cinco ou seis países, onde o que mais se faz é mala e tomar trem, avião ou ônibus. O que deve valer é sair do quadrado do imposto por agentes de viagens, muitos deles sem cultura, loquazes em propagar maravilhas de lugares de onde recebem comissões.
Para isso, é preciso aprender a viajar cedo, sem medo de errar, sem compromissos, por exemplo, com grupos onde sempre um se perde ou atrasa, prejudicando os demais. É preciso mudar, pois como já dizia Camões há quinhentos anos: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a esperança”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2000.

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O ESCREVER EFÊMERO

Li, com interesse, um artigo do filósofo e escritor (nem todo filósofo é escritor e recíproca é verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre “A importância do efêmero”. Nele, Savater fala de sua preocupação com as novas gerações virem a esquecer de ler jornais, em troca da navegação pela Internet e dos “chats” de conversação.
Eu penso que sempre existirão jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer tátil de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gerações precisam ser incentivadas, especialmente pelas famílias e os próprios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunicação mais leve para conquistar novos e jovens leitores.
Voltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais – mesmo os de tipia tão diminuta como este, que força a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo é o fundamental: “Nenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito além do dia em que sai impresso. Pelo menos não é saudável para quem o escreva pense que está cunhando um ditame para os séculos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir àqueles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer”.
No meu caso, é o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcionária pública e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga).
“A arte do articulista com certa inspiração a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se não fossem passar. É um autêntico desafio, alegre e difícil ao mesmo tempo”, afirma Savater. Vamos por partes.
Quem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, não tem também o direito de perder-se em fraseado bonito, ôco e inconsequente. Tem que ser simples e rápido, pois o articulista é um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma espécie de “síndrome de Estocolmo” em que refém e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a preguiça, o sol, o mar, o rio, a televisão, o cinema, o futebol, o ofício religioso e o velho e bom livro ali do lado.
Savater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor inglês, falecido em 1936) e diz: “nada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brevíssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filosófico escrito por alguns de meus colegas acadêmicos… Para essa escória, nada mais respeitável que o pedantismo que ocupa calhamaços e vem com notas de rodapé”.
O segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, mínima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude sábia, para incutir-lhes o hábito prazeroso da leitura.Pois ler nunca é tempo perdido, mesmo que o escrito não seja bom. Nesse caso, exercitou-se, no mínimo, o juízo crítico. No máximo, pode-se virar a página.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2000.

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O RIO, A AMIGA E O HOTEL

Parece nítida a imagem. A Av. Atlântica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, vários casarões e sobrados. Em um deles, a proprietária, uma ex- nobre viúva de muitos e muitos anos, hospedava moças de “fino trato, bem recomendadas e de boa família”. Entre elas, uma amiga que viera passar as férias de julho no Rio. Eu me deslocava para visitá-la lá da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia.
Em horários marcados para sair e voltar, passeávamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir até à esquina da Rua Sá Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. Lá, um empresário destas plagas, hospedava-se com toda a sua família por semanas seguidas. Éramos recebidos no “lobby” e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos mármores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.
Aquilo ficou gravado na minha memória. Anos após, já formado e começando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensação gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo “lobby” e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.
Semana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, não passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda térrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.
Hospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, décadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sofás, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou à tona. Mas não havia mais perguntas e as respostas pareciam não fazer mais sentido.
A Av. Atlântica, alargada, já não comporta mais o fluxo de veículos, e é ainda essa mistura de encanto, sedução – e agora – permanente medo. Os sobrados e casarões foram, há muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de então quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, já não tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seqüenciado – e monocórdio – do mar parece mostrar, sem nenhuma dúvida, que os sonhos são engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembranças do passado estejam por perto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2000.