Sem categoria

TODOS SOMOS CRIANÇAS – Jornal O Estado

“Para Bruno, a mais
criança das minhas”.
Hoje é o dia de todos nós. Os que fomos crianças e os que ainda estão crianças. Criança é um rito de passagem, é a travessia de uma ponte. De um lado estão os pais: não atravesse. Do outro, o mundo nos chama, nos desafia. Abaixo, águas revoltas de uma corredeira, animais ferozes e pedras gigantescas.
Se satisfizermos aos pais, não descobriremos o que tem do outro lado da ponte, onde estão intimidações e chances. As intimidações, desde sempre, os atuais bullying (físicos e psicológicos), muitas vezes, são maiores que as chances. Enfrente-os.
Estudar não é fácil, mas é necessário. Gazear aulas é divertido, mas, se vira costume, é inferno. Acordar cedo é chato, mas a vida nos pede isso. Vestir farda, corresponder a professores chatos e voltar a pé para casa ou de ônibus não é mole, mas é um dos custos que o futuro nos cobra. Fazer vestibular é uma dureza (só havia faculdade pública), mas o gosto da conquista vai nos mostrando que esse pode ser o caminho.
Hoje, as crianças, exceto as filhas de humildes, são cheias de vontade, de razão, e parecem que entendem o mundo porque apenas sabem mexer em jogos no tablet ou no celular do pai. Cobram, comparam-se aos colegas e poucos sofrem com a realidade da existência que o pai não lhes passa, para não fazê-las sofrer. Assim, o pai atura os pedidos dos filhos e da mulher e tenta – sabe Deus como – comprar em prestações ou ceder à maldição do cartão de crédito.
Hoje, Dia da Criança, tente rever o seu pretérito passado e saiba que os seus pais – ou só o pai, ou só a mãe – fizeram o que puderam para torná-lo gente. O problema é que não há escola para formação de pais, não há receita para a felicidade da família. Tudo é um intrincado, um dilema, um labirinto e os caminhos das saídas vão sendo feitos no escuro, tateando, escorregando, trombando. De repente, não somos mais crianças e tampouco adultos, ficamos no limbo da quase descoberta, essa coisa indefinível que nos afaga com os seus encantos e nos lapida com os percalços. Platão, que não teve esposa e filhos, já dizia:
“Os filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, são os mais difíceis de serem tratados”.
Escrevo para adultos, certamente, mas tente agradecer aos mais velhos, os que o ajudaram a caminhar sozinho, a enfrentar as pugnas, as barreiras, e talvez você se respeite e bata no peito a dizer: cresci, mas como era bom ser criança. E como dei trabalho.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2012.

Sem categoria

AMÉRICA, ELEIÇOES, VOTOS HISPANICOS E REALIDADE – Jornal O Estado

Leitores, não estou me repetindo. Concluo o raciocínio da semana passada. Nesta terça, passei parte da noite vendo estações de televisão e jornais, mundo afora. Decidia-se a eleição americana de 2012 e quem chegasse a 270 votos no Colégio Eleitoral seria o novo presidente. O Colégio Eleitoral americano é o somatório dos votos ponderados para o vencedor de cada estado. Os votos de quem perde em um estado são zerados no Colégio Eleitoral. Assim, quanto maiores forem os estados que o candidato ganhar, mais votos terá na decisão final.
O fato é que deu Barack Hussein Obama, o negro ex-professor de Harvard, casado com mulher da mesma tez, de elevada formação acadêmica, ganhou do bilionário Mitt Romney. O povo de lá, como o de cá, quer direitos assegurados para a saúde, proteção social aos mais pobres e sentir-se parte de um projeto de inclusão que já se faz tarde.
Cheguei, ainda estudante, a Nova Iorque e o ônibus que nos levava à Columbia University mostrava o Harlem, área em que os negros viviam segregados. Passaram-se décadas para que um negro, mesmo qualificado, ousasse disputar a presidência da América. Esse negro tinha inclusive, o nefando sobrenome Hussein, entre o Barack e o Obama. Principalmente, após o 11 de Setembro de 2001, sem falar que Obama soa com Osama.
Audácia, competência, sorte, destino, muita luta, ou seja lá o for, levaram-no a sentar na cadeira que foi de Abraham Lincoln, o primeiro presidente a lutar contra a segregação. Esta semana, repetiu a dose e venceu.
A palavra negro, que usei várias vezes neste texto, mostra um laivo de preconceito. Como a dizer, você é diferente de mim. O mesmo acontece por lá com “hispânicos”, todos os que nasceram abaixo do Rio Grande, este divisor que mostra a enorme fronteira com o México. Explico: essas terras são fruto de guerra de conquista americana em que tomaram à bala as áreas que hoje configuram os estados da California, Nevada, Texas e Utah. E parte do Arizona, Colorado e Wyoming.
Ao cabo, em 1848, foi assinado o Tratado Guadalupe Hidalgo,
através do qual os EUA “compraram”, por quinze milhões de dólares, uma área equivalente à metade do antigo território do México. Tudo foi fruto do governo de Thomas Jefferson que acreditava ser a América possuidora de um “Destino Manifesto”, através do qual poderia expandir-se e ficar de cara larga para o Oceano Pacífico.
Hoje, a América deve repensar as consequências dos seus desejos, ainda manifestos, de ser sempre a maior. O que ela precisa é ser mais justa com todos, primeiro com os seus cidadãos, independente da cor da pele e da situação financeira. Obama soube usar o mote “Yes, we can” (Sim, nós podemos) para dar esperança aos pobres. Agora, nesta segunda vez, usou “Forward América”, algo como Adiante América. Ir adiante, sim, mas, primeiro, acertar as contas com o passado. Um lembrete a Obama e a todos: a China, não por acaso, mudou o comando do governo nesta semana.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2012.

Sem categoria

LUSTOSA DA COSTA – RETALHOS – Jornal O Estado

Nos finais dos anos sessenta, o Lúcio Brasileiro, o Lustosa da Costa, o Frota Neto, o Fernando Távora, o Dário Macedo e alguns poucos mais formavam uma turma que se dividia, no começo das noites, entre os restaurantes do Ideal Clube e do Náutico. Tive a honra de participar desse grupo que, etilicamente ou não, discutia política e os costumes da provinciana Fortaleza. A esse tempo, Lúcio (Sociedade), Lustosa (Política) e eu (Administração&Negócios) escrevíamos, diariamente – e por anos – no Correio do Ceará, dos Diários Associados. Não contei às vezes em que fui deixá-lo na casa do Sr. Costa, seu pai, na Piedade.
Depois, já nos princípios dos setenta, Lustosa, Anastácio de Sousa e Eduardo Augusto Campos fundaram uma agência de publicidade. A primeira reunião foi na minha casa. A meta era ter como cliente maior o grupo Credimus, do qual eu fazia parte. Destarte, assim foi feito.
Em seguida, Dorian Sampaio, abruptamente novel cassado, achega-se a mim com a ideia de reeditarmos o Anuário do Ceará que havia parado de sair com a morte de Waldery Uchoa. Do jeito doriano de ser, ele me disse: quero que você entre. Pedi para ele fazer um projeto. Ele retrucou: você me paga o trabalho? Claro, respondi. Dias depois, o Dorian volta com o projeto. Li, estudei, paguei o combinado e falei: Dorian, arranje um sócio da área. Assim, surgiu a sociedade Dorian-Lustosa para o “revival” do Anuário do Ceará.
Em um dos sábados, na cobertura do Lúcio Brasileiro, no Iracema Plaza Hotel, Lúcio, Lustosa e eu fizemos um “pacto para o futuro”, que já se faz quase passado. Prometemos que nos ajudaríamos mutuamente em caso de necessidade. Isso não foi preciso. Cada um fez o seu caminho, com luz própria.
No dia em que Lustosa resolveu mudar-se para o Rio de Janeiro, perpetramos um bota-fora no San Pedro Hotel. Quem encabeçou a homenagem foi Danilo Marques. Ficamos lá até a hora do seu embarque dorido para o apartamento de fundos, na Av. Nossa Senhora de Copacabana,” Ali Lustosa fez pouso, com o apoio do Orlandino Rocha, irmão do Ayrton, antes de se definir por Brasília. Pouco tempo depois, Danilo e eu fomos visitá-lo no Rio e tive a quase impossível incumbência de ensiná-lo a dançar, pois ele estava no mercado afetivo carioca.
Jornalista diário, escritor compulsivo, integrante da Academia Brasiliense de Letras, com quase 30 livros publicados, orgulhava-se dos “atestados” que lhe deram os leitores/críticos Jorge Amado, José Saramago e Mia Couto, para ficar nos mais notáveis. Por outro lado, mantinha lá, como aqui, grupos de amigos que o festejavam sempre. Lá, Wilson Ibiapina e Fernando César Mesquita expressam, em nome dos demais amigos cearenses-brasilienses, esse círculo afetivo que se fazia permanente nas suas idas diárias ao Congresso Nacional, sempre de paletó e gravata, e à sucursal do “Diário do Nordeste”. Era cioso de sua amizade com o senador José Sarney e d. Marly, comensais recíprocos em suas residências.
Vinha ao Ceará todos os meses. Aqui, entranhou-se no anárquico-literário Clube do Bode onde, com sua voz anasalada, sob o olhar cúmplice do Sérgio Braga, provocava Juarez Leitão, o irmão confidente eleito na maturidade, para soltar o Juca Bacurim nas manhãs calorentas de sábado, que, anos após, foram sendo amainadas em uma mesa redonda no climatizado bar do Ideal.ky.
Daqui partia de ônibus para Sobral para ouvir as conversas no Beco do Cotovelo, esmiuçar jornais, conversar com colegas de seminários e, há alguns anos parar, perplexo, junto com o fido escudeiro Juarez, e admirar a Biblioteca Lustosa da Costa, seu amor em forma de paredes e livros.
Em janeiro de 2007, convidei-o para integrar o meu livro “Gente que Conta”, em que entrevisto dezesseis personalidades cearenses. Ele respondeu a todas as perguntas que fiz em vinte páginas, com o coração aberto, claro e sincero.
Há alguns dias, Juarez, Teles, Sérgio, Edmo e outros demonstraram afetividade genuína para os mais de trezentos amigos que estiveram no Ideal no lançamento da reedição de “Sobral do Meu Tempo”, 30 anos após 1982. Era, ao meu olhar, apenas um pretexto para que gravássemos mensagens ao vivo, não tão brilhantes como os discursos do Juarez e da Isabel Lustosa, sua irmã, mas tão enternecedoras como o texto da filha Sara, lido por sua tia Lúcia Lustosa Benevides, na presença de d. Dolores e seus irmãos. Gente madura em preito de reconhecimento e benquerença.
Estes retalhos não são para demonstrar intimidade, mas apenas dizer da longevidade de uma amizade que Brasília surrupiou. Casado com Verônica, formou ali uma família que sempre fulgurava em suas crônicas, pelo saber, a poliglotice dos filhos e as suas vidas independentes, brilhantes que são. Isso eleva e enleva o esforço que ele fez para viver um ano e meio sabático em Paris com toda a família, certamente atiçado por seu amigo e colega de Faculdade de Direito, Paulo Elpídio.
Faço-me longo. Uso Leon Tolstoi para fechar esses meus alinhavos com uma mensagem ao próprio Lustosa, à d. Dolores, seus irmãos, Verônica e filhos: “Para se viver com honra é preciso consumir-se, perturbar-se, lutar, errar, recomeçar do início e jogar tudo fora, e novamente recomeçar… A calma é uma covardia da alma”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/10/2012

Sem categoria

AMIGOS VEROS – Diário do Nordeste

Li na revista “Época” desta semana uma reportagem sobre as amizades. Embora seja longa e feita por três autores, ela me pareceu superficial. Cita muita gente contemporânea, principalmente dos EEUU, escafandra Aristóteles, passa pelos franceses Montaigne e La Boétie e chega ao Brasil.
Se entendi bem, há duas conclusões. 1. Ninguém tem mais que cinco amigos, incluindo os familiares. 2. Apesar disso, 54 milhões de brasileiros estão escarafunchando o Face Book para encontrar com quem preencher os seus vazios. Na verdade, ninguém nos preenche. Nós, eu, você e todos, somos seres incompletos na ilusão de um paraíso que não acontece aqui.
Quiçá depois. A liberdade de estar só, lendo o que queremos, não tem preço. A felicidade do anonimato é algo prazeroso, daí é preciso, vez por outra, arrumar bornais e dar a cara pelo mundo. Não sei se tenho cinco ou mais amigos, pois antes é preciso deixar claro o que entendemos por amizade. Para mim, se há interesse não há amizade. O interesse deve ser apenas o de estar junto, trocar sentimentos, sem que aquilo seja trombeteado.
Mas tenho certeza que não preciso fazer caras e bocas para falar com todos. Amizade é desígnio. Se não sou espontâneo é melhor me afastar do que não me dar a liberdade de ser eu. Quando o tempo resgata lembranças, talvez nos pregue peças. Aconteceu como lembramos?
Hoje, como antes, há solidão, esse sentimento que nos diz humanos e imperfeitos. Mas isso não dá alvará a ninguém para usar o Face Book, Orkut ou o que valha para escrever bobagens ou traçar um perfil seu. Estou fora dessa. Afinal, você sabe quem você é?

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/09/2012

Sem categoria

FAZER UM JORNAL POR 76 ANOS – Jornal O Estado

Na adolescência dirigi um clube de amigos. Esse clube tinha um jornal: “O Girafa”, que significava Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Saiu poucas vezes. Eu era o faz tudo: redator, noticiarista e distribuidor. Fiz o que pude.
A historiadora Valdelice Girão, do Instituto Histórico, foi uma das inspiradoras e talvez se lembre desse fato. Depois, já na UFC, fui presidente da Cooperativa Cultural dos Estudantes Universitários, sucedendo ao brilhante Manuel Aguiar de Arruda. Funcionava na Rua Senador Pompeu, perto da Faculdade de Direito, no antigo prédio do Diretório Central dos Estudantes. Lutei muito para conseguir livros, criar interesses dos colegas, editar um jornal, mas a colaboração era mínima. O Manuel Arruda é testemunha viva.
Tudo isso me vem à mente ao saber que o jornal O Estado completou 76 anos. Imaginemos como era Fortaleza em 1946, quando o Brasil acabara de sair da ditadura, o presidente era o Marechal Eurico Gaspar Dutra e tentava deixar de ser um país agrícola para começar a era da industrialização. Ainda sem favelas, que começaram a surgir nos anos 50, a capital cearense sombreada por fícus-benjamim tinha em torno de 200 mil habitantes, os americanos – que vieram com a 2a Guerra – haviam ido embora para tristeza de algumas “coca-colas”. A pavimentação, quando existia, era em pedra tosca e paralelepípedo, pouco esgoto e água encanada, os bondes elétricos trafegavam de forma precária em face da energia bruxuleante fornecida pela Light, tendo sido desativados no ano seguinte.
Mas Fortaleza não era pacata, politicamente falando. Em 1946, a ebulição democrática mostrava isso. Foram três prefeitos nesse ano: Oscar Barbosa, Romeu Martins e Clóvis Matos. Intrigas.
A Ceará Rádio Clube imperava na radiofonia, mas no campo jornalístico havia muitos jornais. Correio do Ceará, Unitário, O POVO, O Democrata e O Nordeste dividiam o reduzido número de leitores citadinos. Pois foi nesse cadinho que surgiu o jornal O Estado, independente, tal como ainda hoje o é, fundado por José Martins Rodrigues – dirigente do Partido Social Democrático- PSD, opositor direto da União Democrática Nacional-UDN – advogado, professor universitário e um dos políticos mais respeitados da história política brasileira do século passado, ocupando relevantes cargos públicos, inclusive o Ministério da Justiça.
A história do jornal O Estado já foi contada por jornalistas, escritores e memorialistas. O que apenas tento dizer é que O Estado foi um dos dois jornais que superaram, desde então, todas as intempéries políticas, crises econômicas e sociais, que vivemos nestes três quartos de século.
No começo desse escrito, frisei como é difícil fazer funcionar um mero jornal de jovens e dirigir uma cooperativa cultural. Imagine um jornal de verdade. Aglutinar, por 76 anos, jornalistas, colaboradores, redatores, clientes, oficinas, distribuição e estar nas bancas todas as manhãs do dia seguinte.
O Estado teve várias fases, mas sua consolidação final se deve a uma luta renhida do advogado caririense Venelouis Xavier Pereira, que se arvorou em empresário jornalístico em um meio absolutamente hostil. Sofreu e resistiu. Hoje, seus filhos, capitaneados por Ricardo Palhano, com a presença materna de D. Wanda, o dirigem com equilíbrio, integridade, consequência e livre, como sonhava Venelouis. Parabéns a todos.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2012.

Sem categoria

PREFEITO E VEREADOR – Diário do Nordeste

Dia desses fui surpreendido por perguntas assim: O prefeito manda na cidade? Ele precisa morar nela? Para que servem os vereadores? O Prefeito é alguém que, filiado a um partido político e, às vezes, integrando uma coligação, apresenta aos eleitores um projeto de gestão para os quatro anos do seu mandato. Esse projeto tem que obedecer à Lei Orgânica do Município, ao Plano Diretor e ao orçamento que recebe do seu antecessor. Apenas no segundo ano é que, ciente da realidade ou inconsistência do orçamento recebido, aperfeiçoa-o, segundo as prioridades definidas.
O prefeito é um executivo da cidade. A cidade é como uma empresa que tem problemas de toda a ordem e que precisa de alguém com legitimidade, conhecimento, capacidade, habilidade, sensibilidade, honestidade e saúde física e mental para priorizar ações. Ele deve escolher secretários ou auxiliares que entendam de ensino, sistema de saúde, limpeza, iluminação, pavimentação, bem-estar, trânsito, transportes urbanos e muita coisa mais. Assim, é preciso que você descubra a pessoa que, por sua história de vida, tenha essas qualificações. A eleição é oportunidade para mostrar sua cidadania. O título de eleitor é uma prova de que alguém vive na cidade em que vota ou é votado. Viver uma cidade é entranhar-se nela e não apenas passar ou estar nela.
Vereadores não precisam ser humoristas, jogadores de futebol, dançarinos, sindicalistas, cantores, militares e sábios. Precisam sim, entender que serão legisladores e delegados do povo, aqueles que fazem as leis, não as de denominação de rua, mas as que influem na normatização da cidade. Tampouco são despachantes de interesses. Devem, no mínimo, acompanhar a aplicação do orçamento e exigir respostas do Prefeito. Estas apoucadas informações alinhavadas têm o objetivo de pedir a você que não vote por brincadeira. Vote pensando nos problemas e no futuro da cidade. Vote em quem acredita ser capaz de resolvê-los.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2012.

Sem categoria

BAHIA DE TODOS OS JORGES – Jornal O Estado

Cheguei ao Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, antigo 02 de julho, muitos séculos depois que D. Thomé de Souza, tido como fidalgo português, aportou por lá em 1549. Tomei um carro e logo fui envolvido por um túnel de bambus quase um ramalhete verde que dá boas vindas aos que se aproximam da Primeira Capital. Estive na Bahia de Jorge Amado. Vi uma grande exposição de pinturas em que ele é a figura principal em “slacks” com folhas vermelhas. Ele só. Ele com Zélia e ele com o povo. Jorge, agora centenário e, agora talvez em papos transcendentais no além com Caribé, é nome de quase tudo na Bahia. Estava reeditado em livrarias, em capas mole e dura. Um amigo me diz que Jorge é tal qual o Antônio Carlos Magalhães, o deus e o diabo na seara dos votos, que ainda disputa mandato através do neto nominado. Comparação estranha. Calo-me.
Depois, andei – varando uma multidão que ouvia um pastor evangélico televisivo, pela Praça Castro Alves, mar ao fundo, pertinho da Prefeitura, do elevador Lacerda, da monumental Secretaria da Cultura e do Pelourinho apinhado de vendedores e uma ambulância de portas abertas e luzes piscando. Não havia acidente, tampouco crimes. A cidade nos abrasileiriza em sabores, cores e no jeito dolente de falar: “Diga, meu lindo”. Entrei na casa de Yemanjá com a fachada plena de recortes de azulejos multicores.
Fui a um cinema de exibidora mexicana que é um luxo só, a partir de poltronas que se mexem ao sabor da trama e do vento que surge na quarta dimensão.
Exaurido, desci ao nível do mar, em noite agradável em receptivo restaurante cujo maitre deixara o sushi e voltara ao acarajé e outros acepipes com pimentas de cheiros e paladares díspares. Enrubesci a minha taça e ela se fez vazia enquanto a luz mostrava, ao longe, a ilha de Itaparica, a que se vai de ferryboat, que deu vexame no outro dia. A taça seguinte me fazia pleno de sentidos ao ouvir a música ao longe. Não a de lounge. Como disse Jorge: “Assim é a Bahia. Ligada ao passado, fitando o futuro”.
Uma coisa me alegrou por lá. Não há motoboys ou mototáxis. Se os há, são piratas sem olho de vidro e sem cara de mau. O tráfego é lento enquanto ouço sirenes e vejo um cortejo de motos seguir o ônibus tricolor do Bahia. Todos param e lá vai o Bahia para um jogo de futebol em que não ganhou, tampouco perdeu do Atlético Mineiro. Esgueiro-me pela imensa orla marítima até o meu pouso que fica em uma encosta, frente à arrebentação do mar aberto. Cai uma chuva fina e adormeço ao som da TV Justiça.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2012.

Sem categoria

PENSAMENTOS – Diário do Nordeste

Tempos há em que nos quedamos, a querer saber razões. Passamos em revista a família nuclear, os pais, os irmãos, os amigos, os colegas e os companheiros de trabalho. E a quais conclusões chegamos? Por que essa luta absurda que travamos se sempre aflora a quase incomunicabilidade entre os que se querem e lutam pelos mesmos princípios? Sei não. Logo, a Catrina ou o Ceifador atinge a amigos.
Em menos de um mês perdi dois amigos. O primeiro, Ananias Josino Lobo. Fora colega de faculdade, então sonhos comuns e assim permanecemos em contato, em seguidos e distintos trabalhos que fazíamos com responsabilidade e esperança. Conversávamos ao vivo e nos comunicávamos pelo computador, este bene/malefício que juntafasta pessoas. Era quase o meu oposto: tranquilo, organizado, metódico, lado a lado com Creuza, sua escudeira por 49 anos, com quem viajava mundo afora de forma silente. Mesmo assim, nos entrelaçamos como fraternos e nos acolhemos juntos por meio século. Ainda dói.
O segundo, Airton Monte, era um introvertido disfarçado que se aproveitou do parentesco para casar com a prima Sônia. Juntos trouxeram ao mundo os guapos Bárbara e Pablo. Conhecia meio mundo, ria cofiando os bigodes, mas seu olhar desconfiado e míope só parava em alguns escolhidos. Curioso, inteligente, lido e capaz, fez-se médico e preparou-se, com paciência de frade, para ouvir os desafortunados mentais, os que confundem ou sugerem embaraçar o imaginado e o real. Trabalhava em hospitais/sanatórios públicos enquanto pitava o cigarro, revirava os olhos e pensava na cerveja nos bares do entorno do seu morar. Agora, neste instante, estou triste por eles na incerteza da fé, pelos questionamentos sem resposta e pela boba incomunicabilidade que se disfarça nas relações sociais
Não concordo com T. S. Elliot, a vida é mais que nascimento, cópula e morte. Vida é estrada a fazer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/09/2012

Sem categoria

APONTAMENTOS COM AIRTON MONTE – Jornal O Estado

“Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos”, dizia ele.
1.Airton Monte viveu sempre na era de Aquário. Menino de colégio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se de ler e estudar. Depois, já médico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, já na decadência,
e amava a vida. Parecia o Leminski, a dizer: “Haja hoje para o tanto ontem”.
2. Tímido como um monge trapista limpava as grossas lentes ao ver os balanços das cadeiras. Não as de sentar.
3.Deu-se um tempo nas traquinagens e casou-se com a prima, Sônia, sabedora de seus poréns, amante e companheira que lhe deu os filhos Bárbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irmão maior que os adorava na sua esquisitice. Agora, eles são o Airton para a Sônia. Lutem pelo futuro para discernir o resultado do presente.
4.Sabia-se leitor e daí, sem deslize, passou a escrever. Como disse a poeta Cora Coralina: “Estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo”. O primeiro tempo, poemas. Vieram contos. A crônica já estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, a casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, depois, como psiquiatra cooperado da Unimed.
5.Desajeitado com o computador – presente do Carlos Augusto Viana- sofria com a “coisa”. Ele me ligava e eu já enviava a colaboradora Josilene Lima a sua casa para mexer no “bicho” que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil máquina de escrever. Como dizia Borges: “O tempo é a substância de que sou feito”. Ele tinha pressa.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de pânico e o fez hígido em pouco tempo. Poucas pílulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era “assim, assim” com o citado Carlos Augusto que o transmudava do seu “solar suburbano” para os altos de um prédio mirando o mar entre rochas da Volta da Jurema.
6. Quando seu pai, também Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: já foi lá? Não tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanhá-lo. E lá fomos nós ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma criança ao velar o pai inconsciente. Na volta, mãos enfiadas nos bolsos da bata fez do silêncio a dor do seu semblante.
7. Há alguns anos queixou-se do corpo e o Dr. José Teles ataviou-se de irmão mais velho, cuidou de tudo e estava lá na cirurgia que se esperava salvadora.
8. Foi amado por José Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Cuidou dele no último lustro e até o traficou do calor do ciumento Clube do Bode para o refrigério do restaurante do Ideal Clube Passou a beber cerveja sem álcool. O achaque retornou.
Por fim, prostou-se e, resignado, voltou à sua casa de fachada verde , como a ouvir Fernando Pessoa: “Ouço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gosta que cai se ouve cair”.
9. Estive lá há alguns dias. A filha Bárbara me recebeu. Pilha de jornais não lidos. Depois, entrei em seu quarto. Televisão ligada, ele sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu água e, depois, um refrigerante. Conversamos, rimos até. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora.
10.Terça, 21 de setembro de 2012, 17h30, seu ataúde foi fechado. Batemos palmas. Era a última cena.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2012.

Sem categoria

MÉDICO E CIDADÃO – Diário do Nordeste

Edmilson Barros de Oliveira nasceu em Redenção, ante-sala do Maciço de Baturité, em uma quarta-feira, 10 de setembro de 1912. Parte em 1924, olhos argutos para 12 anos de idade, em trem Maria Fumaça da Rede Viação Cearense e, depois de treze léguas, chega a Fortaleza. Desce na Praça da Estação. Toma um bonde em direção ao centro da cidade. Vinha para estudar e ser gente no Colégio Cearense, dirigido à época pelo Irmão Paul Marcellin, ali na Duque de Caxias, que era estreita e de pedra tosca. Bebeu conhecimento e água mineral no bebedouro do “Cearense” e lembrou-se de seus pais, João Cassiano de Oliveira e Nídia Barros de Oliveira. Vou honrá-los, prometeu.
Fortaleza, nesse tempo, possuía uma pequena malha de bondes elétricos, poucas ruas pavimentadas, 90 mil habitantes e seu perímetro central terminava na Duque de Caxias, onde os maristas do Padre Champagnat, fincaram-se em um terreno de 7.600m2. Pois foi no “Cearense” que Edmilson se preparou até o ano de 1928 para os duros embates que viriam a seguir.
Em princípio de 1929, toma um navio na Praia de Iracema e se dirige a Salvador, onde ingressa, com mérito, na Faculdade de Medicina da Bahia. Volta médico e inicia sua prática em Baturité. Daí à posteridade, a vida do Dr. Edmilson foi prova de que a lhaneza e a educação – transmitida aos filhos, todos formados- são diferencial. Com D. Alda formava casal com vida associativa e isso os tornou figuras destacadas da sociedade. Dele fui paciente. Dos filhos, sou amigo. Amanhã, 10, filhos, netos, bisnetos, familiares e amigos estarão orando, louvando Edmilson e Alda, dando provas de que a saudade não desaparece com o tempo. Se amor há.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2012.