Enquanto tenho pernas andantes, bato-as por aí. Estava no Zócalo depois de 14 horas enfurnado em aeroplano. Desses que levam pessoas e coisas de algum lugar para outro. Andei até a esteira rolante que nos devolve a mala. Saí da aduana, uma placa mostrava o meu nome. Era gente que a segurava. Estávamos na terra de Octavio Paz, embora ele tenha nascido alhures. Ela oferecia passeios de todas as naturezas. O corpo pedia limpeza e as paisagens sucessivas na janela da Van me diziam do prazer de estar revendo as cores, os odores e a vida intensa da megalópole. Banho tomado fui ter à cumeeira da minha estalagem onde uma banda tocava músicas latinas.
Chego ao balcão e revivo o esplendor dessa praça cívica, democrática, anárquica, povoada por policiais, camelôs, táxis e bici-táxis, ônibus vermelhos Double-deck para city-tours, índios com rituais e banhos de ervas, nativos e turistas do centro histórico que miram, estonteados, a beleza das construções centenárias ressaltadas por claridades de luminotécnica. Elas abrigam a fé, o mando, o sincretismo e a curiosidade de tantos que ali passaram, passam e passarão. É quase frio, o corpo pede que desabe em uma cama, mas os olhos teimam em girar nos 360 graus que a circundam e ficam a lembrar tempos outros em que, livro a mão, ofertava-o aqui em uma tenda branca localizada no meio da praça para os que poderiam comprá-lo em feira literária.
Amanheceu. Uma pequena neblina dá a sua cara e tento varar o trânsito da Cidade do México. Vou mostrar a Igreja da Virgem de Guadalupe. Dia de semana, igreja quase cheia, inclusive de peregrinos, tais quais os de Compostela. Há comércio ao seu redor, no estacionamento subterrâneo, na velha igreja e no sino que toca diferente. A velha e a nova igreja nada têm em comum, apenas a fé dos que ali permanecem orando, acendendo velas, ofertando óbolos e ouvindo missas.
De lá, parto em direção ao novo, o Museu Soumaya, homenagem do engenheiro Carlos Slim à sua mulher Soumaya, falecida em 1999. Ao meu olhar, a forma arquitetônica lembra uma usina nuclear. Mera ilusão. Parece um pouco com um cogumelo ou uma cobra enroscada. Não há escadas em seu interior. Rampas suaves com pisos e paredes brancas nos levam a todos os andares, talvez sete. Há 60.000 obras, entre permanentes e as temporariamente expostas. o Não sou guia, apenas referencio. Veja o site. Ficará deslumbrado. Cada exposição embevece pela curadoria profissional que destaca em forma e conteúdo o que é mostrado. Só a visita ao Soumaya paga as 14 horas de voo. Passo mais dias nos arrabaldes e no Centro Histórico, onde vejo um casamento lindo, ao fim da tarde que nada parece com os exageros dos nossos.
Outro dia alvorece. Vago por horas no parque Chapultapec e, além de tudo no seu interior rico, vejo nas suas grades externas verdes belas gravuras – em branco e preto – canadenses, com cercaduras pretas. Desço pelo Passeio de La Reforma e, em cada quadra, nos jardins centrais, há árvores, flores e esculturas. Coisas que não temos no Brasil.O Presidente Felipe Calderón faz discurso sobre o estado da nação. Fala que a economia está crescente e enfrentou o crime organizado. Enrique Peña Nieto assume a presidência em 1º. de dezembro. Buena dicha. Daqui parto para a bela península de Yucatán, no extremo sudeste. Mais duas horas no ar, sem os tempos de aeroportos e retornos mis. Hasta La vista.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2012.
