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ZÓCALO, POR SUPOSTO – Jornal O Estado

Enquanto tenho pernas andantes, bato-as por aí. Estava no Zócalo depois de 14 horas enfurnado em aeroplano. Desses que levam pessoas e coisas de algum lugar para outro. Andei até a esteira rolante que nos devolve a mala. Saí da aduana, uma placa mostrava o meu nome. Era gente que a segurava. Estávamos na terra de Octavio Paz, embora ele tenha nascido alhures. Ela oferecia passeios de todas as naturezas. O corpo pedia limpeza e as paisagens sucessivas na janela da Van me diziam do prazer de estar revendo as cores, os odores e a vida intensa da megalópole. Banho tomado fui ter à cumeeira da minha estalagem onde uma banda tocava músicas latinas.
Chego ao balcão e revivo o esplendor dessa praça cívica, democrática, anárquica, povoada por policiais, camelôs, táxis e bici-táxis, ônibus vermelhos Double-deck para city-tours, índios com rituais e banhos de ervas, nativos e turistas do centro histórico que miram, estonteados, a beleza das construções centenárias ressaltadas por claridades de luminotécnica. Elas abrigam a fé, o mando, o sincretismo e a curiosidade de tantos que ali passaram, passam e passarão. É quase frio, o corpo pede que desabe em uma cama, mas os olhos teimam em girar nos 360 graus que a circundam e ficam a lembrar tempos outros em que, livro a mão, ofertava-o aqui em uma tenda branca localizada no meio da praça para os que poderiam comprá-lo em feira literária.
Amanheceu. Uma pequena neblina dá a sua cara e tento varar o trânsito da Cidade do México. Vou mostrar a Igreja da Virgem de Guadalupe. Dia de semana, igreja quase cheia, inclusive de peregrinos, tais quais os de Compostela. Há comércio ao seu redor, no estacionamento subterrâneo, na velha igreja e no sino que toca diferente. A velha e a nova igreja nada têm em comum, apenas a fé dos que ali permanecem orando, acendendo velas, ofertando óbolos e ouvindo missas.
De lá, parto em direção ao novo, o Museu Soumaya, homenagem do engenheiro Carlos Slim à sua mulher Soumaya, falecida em 1999. Ao meu olhar, a forma arquitetônica lembra uma usina nuclear. Mera ilusão. Parece um pouco com um cogumelo ou uma cobra enroscada. Não há escadas em seu interior. Rampas suaves com pisos e paredes brancas nos levam a todos os andares, talvez sete. Há 60.000 obras, entre permanentes e as temporariamente expostas. o Não sou guia, apenas referencio. Veja o site. Ficará deslumbrado. Cada exposição embevece pela curadoria profissional que destaca em forma e conteúdo o que é mostrado. Só a visita ao Soumaya paga as 14 horas de voo. Passo mais dias nos arrabaldes e no Centro Histórico, onde vejo um casamento lindo, ao fim da tarde que nada parece com os exageros dos nossos.
Outro dia alvorece. Vago por horas no parque Chapultapec e, além de tudo no seu interior rico, vejo nas suas grades externas verdes belas gravuras – em branco e preto – canadenses, com cercaduras pretas. Desço pelo Passeio de La Reforma e, em cada quadra, nos jardins centrais, há árvores, flores e esculturas. Coisas que não temos no Brasil.O Presidente Felipe Calderón faz discurso sobre o estado da nação. Fala que a economia está crescente e enfrentou o crime organizado. Enrique Peña Nieto assume a presidência em 1º. de dezembro. Buena dicha. Daqui parto para a bela península de Yucatán, no extremo sudeste. Mais duas horas no ar, sem os tempos de aeroportos e retornos mis. Hasta La vista.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2012.

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AULA DA UNIFOR – Diário do Nordeste

As alamedas e as praças plenas de árvores da exuberante Universidade de Fortaleza-Unifor ficaram apinhadas de gente e carros na manhã da última segunda-feira. Mil pessoas estavam para ver e ouvir, em um grande salão central com teto diáfano e temperatura amena, enquanto outros tantos se espalhavam, em seis espaços, a partir do “Celina Queiroz”, munidos de telões e áudios-fone para tradução simultânea, se os desejassem.
Por trás do palco, surge a figura longilínea e empertigada de um homem grisalho e em boa forma para os seus 66 anos. Usava calça e paletó azuis escuros, camisa branca, gravata com listras azuis claras e brancas transversais. No pulso esquerdo um relógio de plástico preto e no segundo dedo a sua aliança de casamento. Ele, por vontade de seu povo, morou por oito anos na Avenida Pensilvânia e pôde sentir, após sua mudança daquela casa gradeada e assombrada, que o mundo é muito mais que o poder e a glória de ter sido aclamado e reconhecido, ao final, por altos índices de pesquisas.
Usava óculos na ponta do nariz aquilino para acessar os papéis que lhe serviam de guia. Não era um “speaker”, no sentido inglês da palavra. Era um idealista, quase um utopista, não o descrito por Thomas Morus, mas alguém que se sentiu tocado pelos males da humanidade. Tornou-se um cavaleiro de uma nova mensagem: a sustentabilidade, palavra ainda confundida por marketing social, sem que coajam nas instituições que imaginam abraçá-la o comprometimento e a ação de seus dirigentes efetivos.
A Unifor quis mostrar a sua cidadania corporativa e ouvir ideias novas e sutis de Bill Clinton para atuar em um mundo em transformação que, afinal, precisa crescer sem dizimar a natureza, diminuir as desigualdades, usar energia limpa, ter responsabilidade na cooperação entre pessoas e povos e fazer isso de forma clara e definitiva. Sem alardes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/09/2012.

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FORA DO AR – Jornal O Estado

Estou desligando a minha televisão. Cansei da patriotada boba nas Olimpíadas de Londres. Fizemos pouco para o muito que foi gasto pelo Governo, pela Caixa, Banco do Brasil e quejandos. Vou passar uns dias por aí sem ler notícias da Terra Brasilis. Mouco estarei para a retórica estulta dos que falam aos microfones e câmeras das estações de televisão instaladas no Olimpo do Plano Piloto.
Levo livros, inclusive um para reler. “De fato e de Ficção”, do recentemente (31.07.2012) falecido Gore Vidal, segundo ele próprio, o mais importante membro da família Gore. Ele mexe, nesse livro, com figuras carimbadas da literatura americana e com políticos, democratas e republicanos. Era um erudito completo. Escrevia romances, sabia tudo de política e ganhava dinheiro fazendo roteiros de cinema, sua paixão maior. Em seu livro biográfico “Ponto a Ponto da Navegação”, diz: “Como agora me aproximo, graciosamente espero, da porta da saída, me ocorre que a única coisa de que gostei mesmo de fazer foi ir ao cinema”.
Fico com saudade do Carlos Heitor Cony na Folha de SP, que recebo todas as tardes. No dia 10, sexta passada, ele escreveu a crônica “O imenso Jorge”. Leve, solta e, ao mesmo tempo, erudita e profunda sobre os 100 anos de Jorge Amado, comemorado naquela data. Leia um pouco: “Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha. Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna”.
Não vou sentir falta do horário eleitoral. Todos estarão maquiados na face e nas palavras ensaiadas que deixam transparecer o despreparo de alguns. Tampouco vou ler sobre pesquisas qualitativas e quantitativas contratadas por entidades do sistema S que usam o dinheiro dos empregados e empregadores no compadrio com quaisquer governos.
Saio do trânsito maluco nos cruzamentos, com assalariados portando bandeiras de políticos em quem não votam, embaraçando a nossa visão. Tchau para carros, coletivos, caminhões e motocicletas que fazem, todos os dias, a reapresentação do Globo da Morte dos circos da minha infância. Apago os flanelinhas de todas as quadras, loteadores dos espaços urbanos e senhores dos nossos trocados.
Vou sem muita roupa. Dispo-me da fantasia de pensar estar sendo observado por olhos maledicentes que nos querem ao contrário do que somos ou o contrário do que eles pensam ser, sem mais o que fazer. Volto logo, espero. E encontrarei tudo como dantes. Que jeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2012

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(BLYTHE) CLINTON – Diário do Nordeste

Amanhã, às nove da manhã, a Unifor, gerida pelo chanceler Airton Queiroz, mostrará a seus componentes – mestres e alunos – e à sociedade cearense, a aguardada palestra do ex-presidente americano Bill Clinton. Alguns não devem saber que a escalada do então advogado e político Clinton aos umbrais da Casa Branca é produto de cultura sedimentada de excelente nível em direito na Universidade de Yale, onde conheceu Hillary, sua mulher e atual secretária de Estado americano. Após dois mandatos e excelente avaliação popular, Clinton não conseguiu eleger seu sucessor em 2000, o candidato democrata, o seu vice-presidente Al Gore. Bill, ainda não Clinton, perdeu o pai William Blythe Jr. – em acidente de carro – aos três anos. Depois, sua mãe Virginia, muito pobre, veio a se casar com Roger Clinton, fanfarrão e alcoólatra, que exigiu que o enteado usasse o sobrenome Clinton. Assim se fez. O lar tumultuado na cidade de Hope (Esperança), no Arkansas, viu o menino se tornar governador do Estado e, em seguida, duas vezes presidente dos EUA. Ao terminar o seu governo, Bill criou a “Clinton Global Iniciative” e se tornou, via Unesco, órgão da ONU, embaixador de Boa Vontade e se espargiu pelo mundo com pensamento que não poderia deixar de lutar pela sustentabilidade e o fim de doenças, como a Aids. Esse homem que completou 66 anos no último dia 19, leonino que é, vai falar do seu jeito cativante, especialmente, para jovens que nasceram no fim do século passado e ainda estão procurando entender a realidade do mundo atual que cobra de todos, sem dó e compaixão, competência e comprometimento.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2012.

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IVENS, UM TRABALHADOR SINGULAR – Jornal O Estado

Três homens simples, nascidos no interior do Ceará, nas décadas de 10(José Macedo), 20(Edson Queiroz) e 30(Ivens Dias Branco) do século passado, são, ao meu olhar, os responsáveis por grande parte do recente e atual desenvolvimento econômico cearense. Foram tão vanguardistas, como empreendedores, que essa palavra sequer existia. Já falei a respeito dos dois primeiros, José Macedo e Edson Queiroz. Agora, chega o tempo de falar de Francisco Ivens de Sá Dias Branco, que, na sua lúcida maturidade, é reconhecido como exemplo e referência, sem barreiras nacionais.
Conheci Ivens Dias Branco de forma indireta. Eu era meninote, morava na casa dos meus pais na Rua Mons. Otávio de Castro, no Bairro de Fátima, e ia às mesmas missas que o Sr. João Antônio Saraiva Leão, nosso amigo e quase vizinho, frequentava. O Sr. João Leão, assim conhecido, era católico, chefe, com d. Maria Amélia de família religiosa, missal a mão, composta de Consuelo, Tetezinha, Ruth, Veleda e Lúcia. Maria Consuelo, tempos depois, viria a casar-se com Ivens. Na nossa casa havia telefone – coisa rara na época – e, algumas vezes, Ivens e Consuelo conversavam através do número 5127.
O tempo decorre, e em 1976, após viagem pela Europa, Ivens nos convida à sua casa na Av. Antonio Sales. Foi nessa época que o conheci de perto. Sério, mas leve nas conversas sociais, mostrou-se pleno de leitura e informação sobre o mundo e os negócios. Tinha entusiasmo em contar sobre suas atividades e planos de futuro, não como vanglória, mas com a energia de quem estava no limiar da sua meta de jovem quarentão.
A BR-116 foi o caminho que já trilhara e a Fábrica Fortaleza ali se completou sendo ajustada, passo a passo, ao que hoje é. Arborizada, estruturada arquitetonicamente, e, com dimensões de layout industrial imponente, transformou-se em ícone consagrado de um conglomerado de sucesso. A M. Dias Branco S.A. granjeava respeito e reconhecimento por sua pujança e solidez. Dali se espraiou com, paradoxalmente, cautela audaciosa, para todo o Brasil e se fez líder verticalizada de sua área de negócios em trigo, massas e óleos vegetais. Permitindo-se ainda incursionar por círculos imobiliários com aprumo e eficácia.
Recentemente, Ivens foi homenageado pela Sociedade Beneficente Dois de Fevereiro na presença de alta autoridade governamental portuguesa. E lá fui não para lisonjeá-lo, que disso não sou. Fui por apreciar seus méritos e compartilhar, como conterrâneo, da alegria de toda a sua família ao vê-lo receber a honraria que a pátria de seu mentor e pai, Manuel Dias Branco, lhe outorgava.
Este pequeno e despretensioso apontamento é apenas um ato de consideração a alguém que dedicou sua vida ao trabalho, sem perder a singularidade, sempre acreditando que há algo novo a ser criado de forma bem feita. E assim o fez. E faz.

João Soares Neto é empresário e escritor. Autor de 7 livros.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/08/2012.

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LER QUADRINHOS – Diário do Nordeste

Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do Diário é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia “Gibi” e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado. Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista “Tico-Tico”, depois veio o J. Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando “tiras”. Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Neste Diário, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô. Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais. Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, ajudarão você a fazer, pelo menos, uma tira para que possa mostrar aos amigos, filhos e netos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2012

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LER QUADRINHOS – Jornal O Estado

Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do DN é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia “Gibi” e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado.
Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista “Tico-Tico”, depois veio o J.Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando “tiras”. Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Nordeste-DN, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô.
Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais.
Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, Ajudarão você a fazer, pelo menos, um tira para que possa mostrar aos amigos, à paquera, aos filhos e aos netos. Procure no site www.shoppingbenfica.com.br e tire suas próprias conclusões. Vá ver. O quadrinho é uma iniciação cultural de bom nível e o desligará, por instantes, das verdades e promessas que este tempo pré-eleitoral nos mostra de todas as formas e cores. Menos em quadrinhos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2012

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PAIS DE AGOSTO – Diário do Nordeste

Filhos são sempre benevolentes com as mães. Quase sempre são duros com os pais. Agora, neste agosto, filhos estarão acompanhando seus pais pela televisão e saberão se falarão verdades ou mentiras. Eles, em casa, conhecem os pais de chinelos e bermudas.
Ouvem seus resmungos nos telefonemas e sabem, pela convivência, que não há clima para conversa.
É um entra e sai constante de figuras que se trancam na sala para diálogos duros com os seus pais e até insultos mútuos eles trocam.
Os pais não os recebem, os de paletó, de chinelos e bermudas. Fazem a barba, vestem roupas engomadas e tentam não parecer preocupados.
Os filhos sabem que seus pais estão ansiosos, dormem pouco, fumam muito.
Alguns bebem, e não desgrudam os olhos nos canais de televisão, revistas e jornais que, muitas vezes, pisoteiam.
Falam mal de jornalistas e não aceitam os pedidos de rezas que as suas mães, avós de seus filhos, dizem estar fazendo.
Começou no dia 02, há quase uma semana, e não se sabe ao certo quando e como vai terminar. Tudo ainda é uma incógnita.
Juízes, assessores, advogados, réus, procuradores, testemunhas e jornalistas bisbilhoteiros deambulam pelos corredores da Corte que se acredita suprema e, todos, tentam dar a impressão de que estão tranquilos.
Ninguém está.
São reféns da história que ainda se escreve e ficará para sempre. Os filhos têm boa memória e sabem, mais que todos, quem são os seus pais.
Aguardam. Aguardam.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2012

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CASAMENTO DE ALUGUEL – Jornal O Estado

Uma amiga americana, professora doutora, casou-se, segundo sua versão, com um músico brasileiro dezenas de anos mais jovem, simplesmente para abrir a ele as portas do paraíso americano. O tempo passa e a reencontro. Como vai o casamento? “Ele entrou nas forças armadas americanas e agora é cabo músico da banda dos fuzileiros navais no Iraque”, disse-me ela ano passado. Essa história, ou estória, foi comum nas últimas décadas do século passado, e até recentemente.
O fim do Milagre Brasileiro dos anos 70 enxotou muita gente para “fazer a América”. O município mineiro de Governador Valadares, por exemplo, era o campeão e mandava milhares de seus guapos filhos para ganhar a vida em dólar. Uns entravam com a ajuda de “coiotes”(os que comandam a entrada ilegal), pagando centenas/milhares de dólares pela travessia no Rio Grande. Outros, tinhosos, casavam-se. Tais como o músico. Tudo por um punhado de dólares. A rede Globo exportava novelas. Jornais, quase sempre tablóides, em língua portuguesa, proliferavam na Flórida, Nova Iorque, New Jersey, Califórnia, Massachussets, Connecticut e em vários outros quadrantes dos EUA. Eles continham anúncios de empregos, venda de veículos facilitada para estrangeiros, propaganda de profissionais brasileiros, sobretudo advogados “especializados” em regularização de “indocumentados”, Green Cards e casamentos. Esses jornais, na sua maioria, desapareceram.
Depois da débâcle econômica de 2008, a história e a balança do mundo mudaram. Muitos brasileiros estão de volta falando um inglês sofrível, sobraçando álbuns de fotografia, tatuagens, celulares e algum dinheiro para recomeçar a vida por aqui. Foi assim também há algumas décadas com o Japão, que preferia descendentes de seus naturais e os utilizava como mão-de-obra semi-escrava. O Banco do Brasil prosperou exponencialmente por lá com as remessas mensais dos nossos trabalhadores para suas mães, suas mulheres e seus filhos. Os decasséguis não contavam para as suas famílias brasileiras as vidas ultrajantes que viviam. O encanto acabou e a volta chegava a ser financiada pelos parentes daqui.
Por outro lado, europeus, especialmente portugueses, espanhóis e italianos, aqui vieram, apaixonaram-se rapidamente e resolveram “casar” com brasileiras e ganhar o visto de trabalho ou de residentes. É claro que há uniões verdadeiras, por sentimento, mas o casamento fabricado era e é, muitas vezes, uma mera “união estável” a troco de compensação financeira preestabelecida. Há casos até de homossexuais que arranjam cônjuges para regularizar sua permanência na terra brasilis. E não deixam a sua vida airada.
Esse fluxo, começou em 2003, quando a economia europeia já apresentava uma crescente taxa de desemprego. Sabe-se que a Polícia Federal, por amostragem, visita os novos casais e até pode processar os nubentes por falsidade ideológica e expulsar os estrangeiros que se aventuram nessas tramóias. De qualquer forma, o Brasil já pode orgulhar-se de ser novamente, tal como nos fins do século 19 e começo do 20, uma terra prometida. É a glória. Nós temos a força.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2012

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MEU VOTO – Diário do Nordeste

Estou procurando candidato a prefeito para votar. Meu voto é caro. Só votarei em quem me prometa, por escrito. Tenho pedidos a fazer. São simples. Vou listá-los, um a um: 1. Desejo que plante, nos primeiros meses de 2013, um milhão de árvores em toda a cidade, à época das chuvas, em grande mutirão consciente; 2. Transforme a Beira Mar em via de 40m de largura. O Rio fez isso no começo dos 60 e não se arrepende. A areia seria retirada do mar para aumentar o calado do porto e receber transatlânticos. Turismo é riqueza. A Avenida Fortaleza sairia do Caça e Pesca e terminaria na Barra do Ceará.
3. Converta a região da Sabiaguaba, já preservada em lei, em grande parque que se somaria aos do Cocó e o Adahil Barreto. A cidade verticalizada exige áreas verdes, cuidadas e fácil acesso para desfrutá-las. 4. Crie um Instituto de Planejamento Urbano com a participação efetiva no seu conselho diretor das universidades Federal, Estadual e Unifor; 5. Leia, rediscuta, acate/ modifique o Plano Diretor Participativo ou implante plano real e consequente para o futuro de Fortaleza até 2030. 6. Priorize a educação fundamental com reforma, ampliação e criação de escolas em cada km2 da cidade.
Como Fortaleza tem 350 km2, complete 350 escolas, em dois turnos. 7. Erija 100 novas creches nas áreas periféricas. 8. Construa avenida panorâmica margeando o Rio Cocó, protegendo mananciais e escoando o tráfego no sentido praia-sertão-praia. 9. Desaproprie a área contígua ao Frotão-IJF entre a Barão do Rio Branco, Senador Pompeu e Meton de Alencar e crie ali nova unidade apenas para traumas, com estacionamento no subsolo. 10. Crie plano de demissão voluntária, acabe com serviços terceirizados e faça concursos para funcionários com cargos e carreiras. Quem se habilita?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2012.