O futebol não é uma caixa de surpresas.
Nada tenho de Nelson Rodrigues, óbvio. A paixão pelo futebol, um dos muitos temas de seus escritos, é uma constante desse intelectual polimorfo. Nelson, pernambucano feito carioca, soube dizer tudo, de forma clarificada. Falou de traves, chuteiras, jogadores, técnico, gramado, cartolas e torcedores.
Hoje, ao meu olhar, dois nomes despontam no Brasil na boa escrita/crônica esportiva – sem falar nos da terra de Alencar, por pudor e amizade. Refiro-me a Tostão e Xico Sá. Tostão, o grande atleta mineiro da seleção brasileira, ao tempo em que os craques ainda não eram “commodities” (mercadorias) de exportação. Médico, após ser jogador, tornou-se articulista profundo da arte e das mazelas do futebol. Xico Sá, jornalista cearense que torce pelos times pernambucanos e quase nada fala dos nossos sofríveis do futebol local. Desculpo, ele foi jovem para a mauriceia. São bons, cada um do seu jeito.
O fato é que, mesmo maduro, ainda corre em mim o sangue do menino que viu o Fortaleza sair dos desvãos da área marginal à esquerda da Santa Casa de Misericórdia, onde residia o técnico “Gavião, para a sede adquirida na Rua Júlio César, no Benfica, perto do Estádio Presidente Vargas, por meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então presidente do “tricolor”.
O Fortaleza completou 95 anos de fundado e parece cativo na Terceira Divisão do futebol brasileiro. Vacila quando parece que vai subir. Desclassificou-se, neste 2013, por desamor dos atletas e de técnicos mambembes. Onde já se viu time de raça, na frente do placar, levar um gol nos minutos da prorrogação? Lembro Moésio, Mozart, Sapenha e tantos outros e sei o que eles fariam: discutiriam o tempo – ganhando-o – com o árbitro, cairiam em campo, iriam para frente, chutariam para as arquibancadas, mas não sairiam sem a vitória.
Hoje, os clubes locais importam comissões técnicas de segunda que indicam jogadores de suas preferências e esquecem os que vieram da base, das peneiras dos subúrbios, e amam as cores que vestem. Ederson, nascido em Pentecoste, foi da base do Ceará, saiu, e hoje, aos 24 anos, é o artilheiro do campeonato do Brasileiro A, pelo Atlético do Paraná.
O Fortaleza, o Ceará e o Icasa parecem estar na contramão do que se deve fazer quando os recursos são escassos para administrar a formação de bons times. Os beneméritos se foram. Os dirigentes atuais precisam conhecer a história do nosso futebol para chegar ao hoje. Devem descobrir e até inventar talentos, mexer com a autoestima dos peladeiros que querem ser um Neymar. Conversem e contratem, sem menosprezo, técnicos da terra (eles fazem milagres, sem falas vencidas, com equipes singelas por aí afora. O Sampaio Correia que o diga), não misturem jovens promissores com jogadores “rodados”, sem vinculação afetiva com o clube e respeito à torcida. Que altivez podem ter jogadores com “empresários” a mudar de camisa todos os anos?
Os 55 mil torcedores do Fortaleza que formaram, até hoje, o maior público do novo Castelão, superior até aos dos jogos da seleção brasileira na Copa das Confederações, mereciam um time com mais brio. Quando o jogo findou, o meu coração pulsava descompassado. A pressão arterial chegou aos 18. Era, de novo, menino. E foi ele quem me salvou do infarto.
Em tempo: deixei este escrito no aguardo. Esperei que o Ceará e o Icasa chegassem à série A, mas, tais como o Fortaleza, perderam na hora em que não podiam. Escrevo antes da última rodada da “Segundona”. Prefiro estar errado e que um dos dois consiga o milagre de subir.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/11/2013.
