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MENINOS E CRIANÇAS – Jornal O Estado

“Quando menino, eu tinha de me calar, à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem”. Mário Quintana
Agora que o Dia da Criança passou, posso dizer o que penso. No século passado, éramos meninos e meninas. Agora, são crianças. Coisa de gênero? Ou a palavra menino(a) ficou velha? Sou o mais velho de nove irmãos. Escadinha. Primeiro, vieram três meninos. Depois, quatro meninas. Fim de rama, mais dois meninos. Mesa grande na sala de jantar, camas “patente” nos quartos. Dinheiro contado. Uma antiga empregada fixa. Tias solteiras ajudavam a Margarida, a mãe, hoje, aos 94, ainda dando carão em todos. Aos cinco anos, o meu pai, uma tia, eu e outro irmão, tivemos paratifo. As águas, eram de poço instantâneo e só havia, quando havia, fossa-sumidouro. A penicilina nos salvou. Fortaleza quase não tinha rede de abastecimento de água e esgoto.
Brincávamos com bilas, arraias, bola, velocípede, baladeiras, carrinhos com rolamentos usados, varas de pescar, triângulo, bonecas de pano e raras de plástico. Aulas de reforço com a tia Julinha. Um caquético piano Pleyel na sala e nenhum virou Jacques Klein.
Ao acordar: banho, abacatada ou bananada, café-com-leite, pão com manteiga. Levávamos merenda para os colégios e nada de mesada. Ao mais velho cumpria dar exemplo. Íamos às missas, ao futebol no PV, aos circos, às feiras, rinhas de canário e a cinemas no centro; uma casa de pescador, comprada na não ainda avenida beira mar, servia para as férias. Ou subíamos à Serra de Maranguape para as mordidas dos borrachudos.
E aí veio a TV com o seu desmundo. Escapamos. Nenhum se destrambelhou. Defeitos, temos vários. Somos pais-avós, mundo afora. Agora, Dia da Criança já passado, alvitrei: que tal cada um dos leitores, a seu tempo e modo, observar como e porque florescem falsos – ou reais- enigmas e vontades em parte das crianças de hoje em eternas comparações com as outras, independente das suas classes sociais?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/10/2013

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PARSIFAL BARROSO – Diário do Nordeste

Doença na família impediu-me de ir, quarta, dia 09, à Assembleia Legislativa do Ceará para a homenagem ao centenário do Dr. José Parsifal Barroso. Todos os que conhecem a política cearense sabem da sua fulgurante trajetória ascensional de Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador do Ceará e Ministro da República.
O que talvez alguns não saibam é que, além da carreira política, Parsifal Barroso era estudioso nato e inquieto. Nessa condição chegou ao magistério superior na Faculdade de Filosofia e na Escola de Administração do Ceará. Foi ali que tive a oportunidade de ser aluno dele. O fato é que o professor Parsifal era, ao mesmo tempo, um cultor das artes e das letras, herança genética, profundo conhecedor de Filosofia e da História da Política, não a comezinha, mas a das correntes de pensamento, a partir das civilizações greco-romana.
Um detalhe relevante é que ele era, ao mesmo tempo, o Governador do Estado, com extenuantes tarefas. A sala de aula não tinha ar-condicionado e o teto de telha vã irradiava o calor de Fortaleza. Chegava, manhã cedo, no carro oficial G-1, um Ford negro e, óculos pretos de grau,terno e gravata, ministrava a aula tal fizesse exposição ou palestra; eloquente, com maestria e elegância. Após a aula, retornava ao Palácio da Luz. Algumas vezes acontecia do único carro do governador – eram outros tempos -ter tarefas a cumprir e, nessas oportunidades, tive o prazer e a alegria de deixá-lo, na minha “fobica” Anglia, em Palácio. A partir daí, ficamos amigos. Parsifal Barroso, honra e glória do Ceará.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2013.

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CONVERSE NA RUA, CASA É SACRÁRIO – Jornal O Estado

“Os tempos são três: presente do passado, presente do presente e presente do futuro. Esses três tempos estão na minha alma e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória; o presente do presente, a percepção imediata; o presente do futuro, a espera”. Santo Agostinho
Os tempos são outros. Sou do século passado. Isso é bom ou mal? Depende. Posso falar dos erros cometidos sem medo. Crédulo, confiei em gente pela aparência. Confiei no fio do bigode e descobri que havia sido raspado. Confiei em pessoas de palavras fáceis, papos firmes e amigos recentes de infância. Não deu certo.
Considerei que casais de mãos dadas em público possam demonstrar que o varão é boa gente. Quase nunca o é. Aparências são quase sempre enganosas. Irmãos diferem. Gente que, por qual razão, faz festas em suas casas está, no mínimo, correndo risco. Casa é lugar sagrado, não é “show room”. Só deve entrar quem for achegado. Isso deve começar com os amigos dos filhos. É bom saber quem são eles. Nada de moralismo, apenas precaução, neste mundo em que quase todos são estrelas no Face book.
Não viva de aparências. Seja você, tal como se sente confortável, não finja para agradar. Pode até dar festas, se o dinheiro comportar. Entretanto, só convide os que iriam – ou irão – visitá-lo se estivesse com problema ou doente. Não misture amizade com interesses. Quase nunca acaba bem. Informe-se o mais que puder, antes de tomar uma decisão de compadrio.
Os que pedem ajuda, passada a dificuldade, esquecem o fato ou desaparecem. Um amigo disse-me algo assim: abriguei duas pessoas mais velhas a precisar de pouso. Expus-me, de graça. Uma das duas agradeceu-me, de leve. A outra fazia de conta que não me via. Pois é.
Assim, não se encante fácil, aprenda a ver sinais e diferenças. Seja cuidadoso e não se exponha de graça. Fique na sua. Não queira ser o centro de atenções, fique no cerne da sua razão. Imagine que a razão é uma espécie de parafuso que falta à emoção. Os intuitivos ou os apressados, mais que os racionais, levam bordoadas. Durma com a intuição, acorde com a razão.
Lembrete: amanhã será o Dia da Criança. Faça-se criança por um dia. Entranhe-se, converse com os pequenos de forma simples e agradável. Você já foi um deles. Brinque com eles, não há perigo. Pense, faça e sorria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/10/2013

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PLANEJAR FORTALEZA – Diário do Nordeste

Ao se falar em Plano Diretor, a ideia é: cabe a urbanistas. Sim e não. Os urbanistas são capitais, mas não há como pensar o futuro sem pessoas acalmadas pela experiência. Falo de geógrafos, engenheiros, advogados, políticos, sociólogos etc. As cidades não são dos prefeitos. Elas pertencem ao povo. Os que as habitam. Elas não podem ser alvitre de ideologias ou interesses. Devem se regular por variáveis complexas que configuram o uso e a ocupação do solo, posturas legais e, claro, ousar para o futuro.
Fortaleza foi planejada sem audácia, de forma ortogonal e o último plano diretor era apenas matriz adaptada de outras cidades. Há erros basilares. Agora, fala-se em um “Plano Mestre”, sem a clarificação de propósitos. O que se fizer deve ser pensado, não através de paixões, mas da ciência de que é preciso sair do quadrado e dar aos contribuintes a dignidade que merecem, seja pelo IPTU, ISS ou do ICMS, pois parte vai para o município.
Limpar uma cidade não significa retirar placas de empresas estabelecidas. Limpar uma cidade é escoimá-la de vícios estruturais e de empresas sedimentadas que se agregam, quase sempre, às novas administrações. Os vereadores são eleitos para legislar. Cada um conhece parte da cidade e, no conjunto, sabe o serpentário que ela é.
Ao Executivo cumpre ficar acima de picuinhas e ter clareza de ideias. Ousar. A av. Rio Branco, no Rio, a Av. Paulista, SP, e os Campos Elíseos, em Paris, são exemplos que, na época, desagradaram aos moradores, mas serviram de pulmões para “planos mestres” voltados para o futuro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/10/2013

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DEZ NOTAS SOBRE CULTURA, BISBILHOTICE, PAPA FRANCISCO E OUTROS – Jornal O Estado

“Assim também é demais! -queixou-se o anãozinho Tanto Fez ao astronominho Tanto Faz”. Horácio Dídimo, O Afinador de Palavras
Hoje é quinta. A coluna sai amanhã, sexta. Semana foi corrida. Jornal tem que ser fechado
e sei estar atrasado. Vou, então, atacar no varejo. 1. A TV Cultura, de São Paulo, acaba com o programa “É tudo verdade”, do jornalista e documentarista Amir Labaki. Alega falta de verbas. De fato, há muita verba para noticiar mentira. A veracidade nunca incomodou tanto quanto neste 21, o século da bisbilhotice eletrônica . 2. O Papa Francisco, acolitado por Ratzinger, o papa que renunciou para denunciar o caos da gestão do Estado do Vaticano, resolve dizer o que já se sabia, mas a Igreja negava. A cúpula do Vaticano é constituída de vaidosos, acobertadores de delitos dos clérigos e desviadores do dinheiro recebidos de todas as paróquias e dioceses do mundo, coletados nos “ofertórios” e dos dizimistas. E enviam religiosa e obedientemente, para Roma. Esta semana, o jornal italiano La Repubblica, cita Franscisco sobre a cúria romana: “ é a lepra do papado”. “É introspectiva e Vaticanocêntrica”. No que vai dar isso?
3. As cidades brasileiras estão com os bancos em greve. Cartões de créditos, dos bancos, são usados e pagam juros aos ditos. A maioria da população está revoltada contra os transportes públicos, a insegurança das ruas, a precariedade de postos de saúde, de hospitais e o alto preço dos ingressos dos estádios “padrões-Fifa”, frequentado por torcedores de bermudas e torcidas organizadas que matam e morrem. 4.O BNDES, o banco nacional do desenvolvimento econômico e social, está comprometido com quase todos os projetos do Grupo X. Este é o x do problema. Esse mesmo grupo conseguiu eleger, sabe Deus como, o seu líder como o “homem mais rico do mundo”. Agora, há choro e ranger de dentes. Os que pegavam carona nos aviões e helicópteros das empresas X, fingem-se de mortos; 5. A moda agora é escrever em “modernês”. Vejam o que Rafael Souto, auto intitulado de sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mundo (modesto, o rapaz), diz: “Na minha trajetória em aconselhamento observo que 70% das pessoas pensam em sua trajetória(repetindo, grifo meu) profissional em múltiplos empregos. Elas estão pouco abertas para entender a “carreira em nuvem”(sic) e a trabalhidade”. Que tal? Vocês entenderam?
6. Marina Silva, que teve 20 milhões de votos na última eleição presidencial, não consegue viabilizar 600 mil assinaturas para fundar o seu ex-futuro-ex Rede-Sustentabilidade. Enquanto isso, outros dois partidos são liberados. Eles têm a força. 7. Acidentes de trânsito com mortos e feridos aumentam todos os dias em cruzamentos tido como fatais. Cidades continuam impedidas de fazer viadutos. E por falar em trânsito, as vendas de veículos aumentaram, neste ano, em torno de 80%. Já superaram as do ano passado e apenas estamos comemorando o Dia de São Francisco, no começo de outubro. 8. A propósito, onze carretas trouxeram de Codó, no Maranhão, 2.500 romeiros para a festa de “São Francisco do Canindé”. Engraçado, como foi que essas 11 carretas passaram por polícias rodoviárias federais e estaduais e federais em três estados? Ao que se sabe, pessoas não devem – e não podem – ser transportadas em carrocerias. É a tal “vida de gado”. 9. A mentira está em alta no mundo da política mundial. Nunca se mentiu tanto para negar ou reafirmar procedimentos e ameaças. A última Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, foi um festival de discursos em que a essência da verdade esteve longe. Nada foi resolvido. 10. Que São Francisco, o protetor dos pobres, o santo do dia, nos ajude a viver neste mundo em que a vaidade e a leviandade parecem ser o “abre-alas” e a “comissão de frente”. Nós, o povo, somos meros passistas figurantes.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/10/2013.

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MEXICO 203 – Diário do Nordeste

Estive em território mexicano esta semana. Na bela Embaixada do México, em festa comandada pela embaixadora Beatriz Paredes. Ela foi destacada política, tendo sido deputada federal e senadora. Determinada, chegou a presidir tanto a Câmara dos Deputados, quanto o Congresso Nacional. Foi, igualmente, governadora do Estado de Tlaxcala, embaixadora em Cuba e representou o seu país na ONU e na FAO. Tem livros publicados.
A embaixada, iluminada, projeto dos arqs. mexicanos Teodoro González, Francisco Serrano e Abraham Zablinduwsdy foi construída, em planos, com três edifícios. Um para o atendimento e o Espaço Cultural Alfonso Reyes; no centro, a residência oficial; e o terceiro, num pátio colonial, as residências dos funcionários.
Contemporânea, concluída em 1976, concreto aparente e piso em argila vermelha – tal o solo de Brasília-, grande pórtico e cabeça Olmeca, às margens do lago Paranoá. Na festa dos 203 anos da Independência, houve hinos, músicas, repicar de sino, queima de fogos e o “Grito de Dolores”: “Viva México”. Era o cimo na presença de representantes das nações acreditadas. O discurso de Beatriz Paredes empolgou, conteúdo e forma, ao proclamar a sua identificação com a cultura e o povo brasileiros. Explicitou metas e o anseio de aproximação com as esferas de governo, universidades, instituições culturais para que as relações sejam crescentes e duradouras entre os dois mais importantes povos das Américas.
No alto, o plenilúnio dourava.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/09/2013

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MARIA LÚCIA ROCHA DUMMAR – Jornal O Estado

A Lagoa de Messejana, onde, conta a lenda, Iracema, a virgem indígena, amor dorido e mulher de Martins Soares Moreno, o guerreiro branco, era o lugar de descanso das suas míticas viagens desde a Serra Grande. Seu criador, José de Alencar, nascera no Sítio Alagadiço Novo, casa de seu pai José Martiniano de Alencar, não muito longe da lagoa ovalada. Pois foi nessa licença poética que é a lagoa, que D. Maria Lúcia Rocha Dummar criou o seu refúgio, em casa simples, mas senhorial, cercada de árvores que lhe davam sombra e frutos.
No fim da década de cinquenta e começo dos sessenta a lagoa, circundando casarões e sítios era, não nas noites de plenilúnio, um breu. As famílias circundantes usavam geradores próprios de energia para alumiá-las.
A amizade de meu, pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então Secretário de Serviços Urbanos, com a família Dummar era antiga e consolidada. Por justiça, fez-se luz em toda a região e, especialmente, na Granja Castelo, mansão de muitas varandas de grandes mesas de madeiras maciças com toalhas de renda da terra.
A frente leste justafluvial, protegida por árvores centenárias, flores silvestres e aves canoras, resplandeceu em cores amareladas com o então fulgor das lâmpadas flúor e incandescentes. Dona Lúcia, a única agradecida, recebeu meu pai e Margarida, minha mãe, e aí foram a Canindé em pagamento de promessas católicas.
Desde então, sinto-me amigo dessa mulher que esta semana se foi ao Éden, ao Céu de sua extrema fé, depois de cumprir vida profícua de mãe exemplar, mulher afeita a rezas com oratório, memorial e gruta próprias, amizades firmes, anfitriã com largueza, hospitalidade e benquerença.
Seus filhos, Demócrito e João, as filhas Lúcia Maria, Lúcia Helena, Carmen Lúcia e Albaniza, herdaram de D. Lúcia uma canoridade singular. Quando, em missa na noite de quarta, 18 de setembro deste 2013, no velório de D. Lúcia, coube a João Dummar Filho, no seu ofício de filho, cantor e poeta, cantar, à capela, em oração e poetar, para uma nave em silêncio, relembrando fatos e alegrando-se pela longevidade e benemerência de sua mãe, D. Maria Lúcia, filha e mãe de Demócritos, ambos jornalistas e Rocha, mas aos filhos acrescentou-se o Dummar, por João, o pai de todos, precursor da radiofonia cearense e cidadão que deixou história por suas vitórias e morte prematura.
O poeta latino Horácio dizia algo como: “E assim, raramente, se encontra alguém que diga ter vivido/ como pessoa feliz e, tendo completado o tempo que lhe foi concedido, deixa a vida satisfeito, como um conviva saciado”. D. Lúcia teve dores – e muitas – mas soube, depois de bem educar os seus filhos, acolher netos e bisnetos, receber amigos, viver e completar os noventa e seis anos que lhe foram dados pelo Criador, de forma humanitária, cordata, comunicativa, participando, como conselheira, das empresas da família, sempre acolhedora e vivaz.
Queria ter todos os descendentes sob o luar que argentava a sua lagoa, os amigos reunidos em suas tardes de oração e a mesa sempre farta, desde as manhãs de cada dia. Agora, os que ficaram, terão uma intercessora verdadeira.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/09/2013.

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ACI-50/88 ANOS – Diário do Nordeste

Fiquei contente ao ser distinguido, terça, 10.09.2013, o “Chevron” de 50 anos como sócio efetivo da ACI-Associação Cearense de Imprensa. Aconteceu na solenidade de posse da grande Adísia Sá, como nova presidente. Nilton Almeida completara o mandato da memorável Ivonete Maia. Adísia tem fôlego para dar eficácia aos 88 anos da entidade. Augúrios.
Lembro: em 1963 eu escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Correio do Ceará. Vejam tópicos daquele setembro Dia 05: 1. “Glória Feita de Sangue” é o próximo lançamento do Cinema de Arte, sábado, 10h, no Diogo. Vale a pena ver o pulso de Stanley Kubrick; 2. “Glória a Jesus, Aleluia”, peça do prata de casa Domingos Gusmão, sobre o problema da posse da terra, no Theatro José de Alencar.
Dia 9: 1. Ainda existem vagas no Curso de Arte e Literatura a ser promovido pela Academia Cearense de Letras; 2. “Oito e Meio” e “Mondo Kane” são os maiores sucessos em matéria de cinemas nos Estados Unidos. Ambos são italianos; 3. Raquel de Queiroz poderá ficar permanentemente no Ceará. Da sua fazenda enviará o material da “Última página” de “O Cruzeiro”. 4. Nova tentativa de criação da Universidade do Estado do Ceará será feita por estudantes das escolas isoladas. No Dia 14: Médicos cearenses veem a necessidade de criação de um Sindicato. A ideai está desenvolvida pelos conceituados drs. Luiz Vale, Paulo Machado e Abner Brasil.
Como se vê, cultura sempre foi o “leit motif” dessa minha história na imprensa. Cervantes dizia: “a escrita é a língua da alma”.

João Soares Neto,
jornalista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2013

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A LATA E A MANIFESTAÇÃO – Jornal O Estado

O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: –Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. –Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto.
O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”.
Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada?
Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou-Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher,sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir?
Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: –Garçom, traga mais uma gelada.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/09/2013.

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CONFERÊNCIAS – Diário do Nordeste

A Academia Cearense de Letras promove agora um ciclo de conferências aberto ao público. Começou, dia 3, com Fernanda Quinderé falando sobre “Vinícius, Cheio de Graças”. Fernanda conviveu com Vinícius no Rio. Não há pré-requisito para participar do ciclo “Literatura e outras Artes”. Basta querer e passar na Rua do Rosário, 01, entrar e fazer a sua inscrição. Se desejar informações ligue 3253-4275 ou acletras@accvia.com.br. A intenção é ir dando a doutos e estudantes de escolas públicas e particulares a ideia de que é possível aprender, rever ou aprimorar conhecimentos de literatura e arte.
As palestras serão as terças, às 17 horas, na ACL, lado da Igreja do Rosário. A da próxima terça, 10, “Teatro e Magia: uma abertura para o estudo das máscaras brincantes no nordeste” traz o teatrólogo Oswald Barroso. Achegue-se, mesmo não inscrito. Você sairá mais informado. No dia 17, o escritor com expertise em publicidade, Gilmar de Carvalho, dirá da “A arte de seduzir: literatura e publicidade”.
No dia 24, Ednilo Soarez, presidente do Instituto do Ceará, falará sobre “A herança grega nas artes plásticas”.
No 8, já de outubro, Fernanda Coutinho dissertará sobre “Henri Matisse e as suas narrativas em cor”.
No dia 15,”O bestiário e o relicário de Ariano Suassuna” ficará com Maria Inês Cardoso. “Clã: revista de literatura e outras artes”, no 22, contará com o saber de Vera Lúcia Albuquerque. O ciclo se encerra, em 29.10, com a sua ´anima e cuore´, Angela Gutiérrez, com “O Poeta Antonio Bandeira”. Vale a pena. Aproveite.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2013