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CADERNOS CULTURAIS – Diário do Nordeste

De repente, recebo e-mail pedindo agregar meu nome a abaixo-assinado para o não fechamento do caderno cultural “Sabático”, suplemento do “Estadão”. Depois, vi que o abaixo assinado fora encerrado. Não explicaram a razão. O fato me fez lembrar o falecido Daniel Piza que o “O Estadão” ‘roubou’ da extinta Gazeta Mercantil. A Gazeta produzia, ao meu olhar, o melhor suplemento literário do país, o “Fim de Semana”.
Hoje, neste tempo em que o Enem modifica critérios consagrados do vestibular e paga menos de três reais a um professor para corrigir a redação de aluno, nada mais espanta. Os editores dos grandes cadernos não têm compromisso com a formação de público. São enfatuados e sabem da segmentação de temas a não depender da cultura/literatura para aumentar assinantes ou vender jornais em bancas. Escolhem articulistas iluminados ou amigos com textos não atraentes a jovens e às pessoas ditas comuns.
Um exemplo? O caderno “Ilustríssima” da “Folha de SP”, a partir do próprio nome, é pira das vaidades. Há pedantismo. D.igo isso por ser assinante da Folha há anos. A efemeridade do jornal e o relativo escasso número de leitores, mesmo em SP, hão produzido estragos no jornalismo cultural. Não confirmo o fechamento do “Sabático.” Afirmo, entretanto, ser preciso manter uma orientação nova e crítica nos cadernos de cultura e fazer indicações corretas de livros aos leitores.. Não basta publicar a relação dos mais vendidos pelas grandes livrarias. Elas são hoje uma espécie de loja mix e comerciam mais autoajuda e bestsellers. Literatura?. Muito pouco.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/04/2013

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MÃO “ERRADA” – Jornal O Estado

Acabei, faz pouco tempo, de guardar o pesado e amarfanhado casaco que usei no frio da Velha Albion, a terra do contra. Lá, para se andar e atravessar a rua, deve-se olhar ao contrário do que se faz por aqui. E eu, certamente, não tenho esse reflexo. Sinto-me desconfortável e atarantado. Eu devia entender que metade dos carros do mundo está com a direção do lado “errado”, isto é, do lado direito. O problema é que achamos certos os nossos costumes. Não há certo ou errado nessa questão de direção e tampouco nos costumes de cada terra.
No começo da história do automóvel a direção ficava ao meio do painel para o motorista ter uma visão ampla à sua frente. Depois, a direção veio para o lado esquerdo, a fim de bem ultrapassar os veículos que estão à frente e trafegam pelo lado direito da via. Um fato interessante, os retrovisores laterais são invenção bem posterior ao tempo de Henry Ford e seus discípulos.
A turma da Velha Albion, entretanto, costuma ser diferente em quase tudo – os bares fecham parte da tarde, p.ex – tendo adotado o lado direito como o “certo” para a direção do veículo. A ultrapassagem é pela esquerda. Da mesma forma fizeram com a moeda deles. Se algum visitante – e são 30 milhões a cada ano – quiser vá a uma casa de câmbio e troque o real, o dólar ou o euro por “pound”.
Alugar um carro passou a ser uma temeridade para mim, canhoto empedernido, já a enfrentar dificuldades com a habilidade manual, incluindo chaves, portas e maçanetas, imagine com a contramão de direção. Chego e a Baronesa Margaret Thatcher se vai. Creio que ela não pode sequer ver o filme sobre a sua vida. Se o viu, não entendeu nada, pois havia sido atingida pela doença do alemão.
Como diz um velho provérbio, creio que árabe, “Deus não completa nada para ninguém”. Não viu Meryl Streep, igualzinha a ela, na caracterização e no gestual. Representou-a tão bem que ganhou um Oscar de melhor atriz. O filme, de 2011, será reprisado, certamente, pelo menos nos canais fechados. Ele mostra Streep falando e agindo como Thatcher e desvendando, de soslaio, a tênue figura do seu marido, também já no mundo do além.
O enredo não diz, por exemplo, que Margaret ganhou um concurso de poesia aos 10 anos e ao ouvir do professor: parabéns, você teve sorte. Respondeu: Sorte não, eu mereci. Despontava ali, a sua franqueza. A história da película centra na sua ascensão política e social, filha do merceeiro Alfred Roberts, da cidade de Grantham, arredores de Londres. Ela foi estudante de Oxford por mérito pessoal, com bolsa de estudo. Ao casar, assumiu o Thatcher do marido, o empresário Denis, e abandonou o Roberts, do pai Alfred. Chegou, em três eleições consecutivas, a ser premiê da ilha por longos 11 anos, de 1979 a 1990. A única mulher com esse feito.
A Dama de Ferro, The Iron Lady, nome esculpido por um jornalista soviético, era durona, “conservadora”, mas tomou decisões avançadas para a árdua época em que conviveu com quebradeira e greves brabas, tendo conseguido segurar a inflação, ganhar a guerra das Malvinas/Falklands, na verdade, uma aventura suicida da ditadura argentina. Ela viveu, como premiê, os últimos anos da Guerra Fria, quando bilhões foram gastos por vários países com ataques e defesas imaginários e retóricos, e viu o fim da União Soviética(1989). Apenas historio, não julgo.
Enquanto isso, Elizabeth, a longeva, mãe do viúvo desengonçado a gostar de saiote “kilt” escocês e casado com a velha amante, continua dirigindo, quando deixam, o seu Landrover, pela “mão errada”, nas estradas vicinais dos castelos friorentos e plenos de fantasmas. Uma amiga alemã, pedindo reserva, citou a frase do poeta Friedrich Von Hardenberg, dito Novalis, também germânico: “Jeder Engländer ist eine Insel”. Abri o dicionário e aprendi: “Todo inglês é uma ilha”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/04/2013.

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SONHO E REALIDADE – Diário do Nordeste

Dia desses, percorri, com vagar, as alamedas arborizadas da Universidade de Fortaleza e pude constatar o óbvio: tudo ali é feito com paixão, eficácia e simplicidade, sem descuidar da função primeira a que se destina cada edificação. Nada é ostentatório.
Nesse percurso solitário, lembrei-me da petulância de um jovem. Integrava ele um pequeno grupo voluntário de pessoas a pensar o modelo arquitetônico, a localização e a concepção educacional da futura universidade. Faziam parte desse grupo, comandado por Edson Queiroz, além do jovem, pessoas como Evandro Ayres de Moura, José Walter Cavalcante, Raimundo Padilha e o Reitor da Universidade de Mogi-Guaçu, Prof. Bezerra de Melo. Houve uma série de reuniões no Edifício Butano, na Rua Major Facundo, sempre com a dupla visão: a forma do campus e o seu papel audacioso na expansão da educação superior do Ceará.
Um dia, Edson apresentou a maquete da futura universidade. Era um projeto vertical, na Av. Francisco Sá, proximidades da Esmaltec, idealizado por Arialdo Pinho. Depois da reunião, o jovem conversou a sós com Edson Queiroz. Disse-lhe da limitação do local e do seu entorno. Falou sobre a tendência de crescimento da cidade. O sonho dele, Edson, deveria ser maior que aquele projeto. Ele, de bate – pronto: vamos ver. Saíram, em carro dirigido pelo jovem, em direção a uma zona nova, ponte precária, povoada apenas pelo conjunto habitacional do Ipase. Rodaram até a Av. Perimetral. Eram caminhos estreitos de pedra tosca. Voltaram. Pararam. Edson desceu e se entusiasmou. Viajou para Accra, capital de Gana, viu uma universidade horizontalizada e mudou de ideia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2013

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RUA DA MADONNA – Jornal O Estado

Frio forte, desejo de jantar, tomar vinho tinto, e as pedras centenárias da Via della Madonna dei Monti não refletiam a luz dos postes. Do lado direito, 94, confundi um estúdio com um bistrô. Entrei. Era, na verdade, um “happening” com acepipes do pintor Emiliano. Cercado de amigos e sem clientes. Quadros grandes, alegres, cores fortes resguardadas por vidros e uma técnica exposta sem reserva. Pinta em pexiglass, aquele tipo de plástico transparente que cobre comidas, não o laminado. Depois, fixa o pexiglass no vidro. Fica bonito e quem quiser olhar pode ver no info@emilianoesposto.com. Nada é mais segredo neste mundo de ruas tortas que desvelam ao seu final, além da Igreja da Madonna com mendigo à porta, o ajuntamento de jovens e adultos no largo onde se vê música, restaurantes e a presença discreta dos carabineiros, cada qual na sua na noite invernosa. As pessoas parecem alegres e obedecem à precedência na frente do toldo do restaurante que avança na praça. Ali assento.
Na volta, porta quase cerrada da igreja, ainda dou uma olhada furtiva e vejo santos nos altares central e laterais. Cem passadas depois, o que me deixou os parcos cabelos arrepiados foi o Ice Club, todo branco, na noite fria e carregada. Era, de fato, um bar geladão. Um iceberg. Paredes, tetos , bancos e copos de gelo. Quarenta toneladas de gelo, imagine. Na portaria há grossos capotes para a entrada no frigorífico humano, a menos cinco graus Celsius, com música e bebidas, vodca, especialmente. Coisa de esquimó. Logo chego ao princípio da rua, a desnudar o Coliseu iluminado, logo à frente. Do lado direito, ao fundo, o Arco de Constantino (século IV) e o Monumento – pela unificação da Itália – a Vittorio Emanuelle II, do século passado, também conhecido por “bolo de noiva”, por ser todo branco, construído em mármore. Isso é o que vislumbro, olhando para a esquerda e a direita, da entrada da Via della Madonna, do teto de um velho/antigo hotel onde fico. Não tenho jeito para guia turístico.
No Coliseu, todos sabem, após a morte de Jesus, cristãos passaram a ser sacrificados. Francisco vai mergulhando na história romana e resolve conhecê-lo de perto. Sabe do local do holocausto. Viu-o, agora, com vagar, e ficou chocado. As multidões, italianos e turistas, o protegem e o aplaudem. A Itália, vide Roma, recebeu de Dante Alighieri, em sua obra “Purgatório, escrita há setecentos anos, o seguinte comentário: “Ah, Itália, escrava, abrigo de dor,/ nau sem timoneiro em grande tempestade,/ não senhora de províncias, mas de bordel!”.
Hoje, na contínua e profunda crise de governança, a Itália alegra-se com os curiosos turistas católicos a aplaudir Francisco, um Papa solitário e atônito, depois da conversa com Ratzinger e das notórias divisões internas da burocracia do Vaticano. Ela, a tudo governa. Saber a língua da terra não o torna nativo. Ter sido eleito – com sua idade – em meio a tantos arranjos, o faz achegar-se ao povo. Socorre-se dos peregrinos, mais a cercá-lo por curiosidade, que ouvi-lo nas prédicas nas manifestações públicas. Teme os Césares de sotainas vermelhas. A Madonna do Monte fica de olho.

João Soares Neto
CRONISTA
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/04/2013.

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SÁBADO E RAMOS – Diário do Nordeste

Foi em 1965 a primeira visita. Jovem, consegui entrar nos meandros do Concílio Vaticano II. Sai triste. Agora, sábado, 23, voltei. Entrei na Basílica, passando pelo grande átrio repleto de cadeiras de plástico preto desbotado, áreas divididas e protegidas por grades para conter multidões. O altar externo sendo montado.
Um helicóptero sai do Vaticano para o Castelo Gandolfo. Bergoglio e Ratzinger conversaram a sós. Usavam branco. São prisioneiros da burocracia dos cardeais sedimentados em postos chaves. Sabem disso. Francisco I,não por acaso, tem um só pulmão, 76, depende do labirinto.
Reví, com vagar, o esplendor das artes nas paredes e tetos, os mármores, os altares laterais e ao subsolo onde fica o mausoléu dos papas. Não vi modéstia alguma. Essa a razão da tristeza de 1965. Ela voltara. Confessionários multilíngues, vazios. Ao sair por porta lateral, à esquerda, vi o ridículo da guarda suíça, fardas multicores e calções em balão. Passo pelo Castelo de Santo Ângelo, cruzo a ponte e chego à apinhada Via Del Corso. Berlusconi fizera comício na Praça do Povo. Paro e entro num “pub” irlandês. Medito.
Amanhece, saio rápido para a cerimônia do Domingo de Ramos. Trânsito caótico. Entro na cidadela repleta, 250 mil. Poucas bandeiras brasileiras. Francisco I, na sua homilia, fala de “não nos roubarem a esperança” e, depois, na festa da Juventude “na Rio”. Grito só: Rio. Depois, sobe no carro aberto. Acena, abençoa, e beija crianças, deficientes e idosos. Volta ao claustro. Minha esperança: a Igreja deve sair de Roma para resistir. Que tal a África?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/03/2013

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APONTAMENTOS DE VOLTA – Jornal O Estado

1. A MENINA, O POMBO E A VIDRAÇA – Uma menina loura com pitó, tipo Pedrita, espanta um pombo a catar sobra de comidas. Ele entrou por alguma porta, pois não há janelas nesse barulhento aeroporto. Estou defronte a uma vidraça a exibir, em primeiro plano, as pistas em uso de pouso e decolagem com seus movimentos e ruídos. Em segundo plano, uma sequência de árvores ao pé de uma rodovia por onde veículos queimam combustíveis e transportam cargas, angústias, sonhos, esperanças, doentes e outros tantos desprovidos de desejos ou conformados com o desengano. Eu cá, eles lá, enquanto um branco avião corta o ar e logo se esfuma. Ia em direção à esquerda, mas não estou bem certo, pois não sei como fico em relação aos pontos cardeais. Pessoas ao meu redor leem livros, usam os telefones e nano transmissores para dar notícias a quem sequer pediu ou deseja recebê-las. Chove.
2. PAÍS DO CONTRA – Estive no país do contra. Lá a moeda é a deles, as dos outros só servem nos cambistas a explorar incautos com “fee” inexistente. No chão, o escrito pede para se olhar ao contrário do costume.Os veículos vêm sempre do jeito não esperado. A língua dos nativos-ou dos treinados para parecer como tais – é soprada,aspirada,afetada e parece aformosear quem fala. Há muita gente na rua, de todas as raças, e o encanto da grande loja de esquina decorada externamente com luzes de um Natal faltante, atrai o passante. Uma vitrina é decorada apenas com frascos de perfume seguros por fios. Os frascos começam finos, aureolados, e terminam bojudos, daí a inflexão para cima ou para baixo, depende do olhar de quem os vê. É a alternativa encontrada para os vazios de espírito? Ou mero fetiche? Todos deveriam descer ao subsolo quase vazio e olhar a canhestra homenagem com as fotos, circundadas por flores de plástico, da ex-princesa com o rapaz arábico, filho do ex-dono. Foram quase–namorados, quase-amantes, quase-casados e se finaram em túnel do outro lado do canal da Mancha. Em alta ligeireza. As fotos banais são quase encobertas por uma exposição de peças egípcias, mais antigas do que as três pirâmides matizadas pela areia e o vento do deserto. E a escada sobe. Saio da loja e entro na Abadia Maior para o serviço das cinco da tarde, quarta, 20 de março e revejo o latim nas partituras e nos cânticos entoados com decência e aprumo ao som de órgão não profano. O novo arcebispo da Cantuária assumira naquele dia. Há duas falas, ele e ela, e nenhuma delas mostra empáfia, apenas recitam salmos e os contextualizam ao dia frio e nebuloso de lá fora. Keep calm and carry on.
3. A VOLTA – Voltei apressado. Demorei metade do planejado.
A vida estava a chamar-me por benquerença. Voejei. Fui direto ao hospital. O pingar repetido de um soro aditivado com anti-coagulante realçava a respiração contida, a energia e a força da genetriz e amiga, a recuperar-se, oxigenada, de uma embolia. “Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo”, dizia Octavio Paz. Será?

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/03/2013.

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HISTÓRIA, CULTURA E PODER – Diário do Nordeste

O Instituto do Ceará e a Academia Cearense de Letras, entidades centúrias da história e da cultura cearenses estão programando contatos oficiais com as esferas de governo. Os seus integrantes acreditam ser importante a aproximação efetiva com o Banco do Brasil, a Caixa, o BNB,a UFC, o Governo do Estado, a Assembleia Legislativa, a Prefeitura de Fortaleza, a Câmara de Vereadores, Senadores e deputados federais e o Poder Judiciário alencarinos.
O Instituto do Ceará, com sede à Rua Barão do Rio Branco, na Praça do Carmo, e a Academia Cearense de Letras, na Rua do Rosário, ao lado da Praça General Tibúrcio, possuem sedes, aparentemente majestosas, mas com instalações mais que centenárias a precisar de reparos urgentes e cuidados, sempre respeitando o patrimônio histórico a quem recorrerão para rever projetos culturais, de manter a forma original, correta e objetiva para que possam recuperar o ofendido pelo tempo.
A par disso, existem acervos históricos e culturais a enfeixar a vida cearense, desde o Império, a implantação da República e todo o século XX. Esse conjunto de fatos enseja as justas pretensões do Instituto do Ceará e da Academia Cearense de Letras em manter diálogos, receber a atenção e os recursos das esferas de poder do Estado.
As ajudas são indispensáveis à sua continuação eficaz em tempos novos, ainda não consagrando a história e a cultura como relevantes ao desenvolvimento orgânico do povo. A ansiar não lampejos, e sim ações reais e permanentes com alvíssaras para a historiografia, a educação e as letras da terra de Alencar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2013

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DOU UMA VOLTA – Jornal O Estado

O meu corpo dá avisos. Ele vai me dizendo quando estou abusando dele. Agora, por exemplo, ele teve uma conversa comigo e pediu para tirá-lo do trânsito da cidade. Varo-a quase todos os dias e o faço em horários desencontrados, dirigindo o meu carro, ouvindo notícia ou música, mas ando cansado de tantos semáforos, de motocicletas cortando pelos dois lados e das calçadas cheias de cone. Cada pessoa estabelece a propriedade de sua calçada e a adorna com cones, latas cheias de concreto ou correntes com a placa: não estacione, sujeito a reboque.
Ora, toda calçada ou passeio é público e se não há medalhão oficial de estacionamento proibido, aquele redondo com um “E” cruzado por uma barra transversal vermelha, afixado em postes, você pode parar.
Além dos proprietários das calçadas e dos passeios há os donos das ruas, os flanelinhas. Esses são em profusão e agem de forma acintosa com um pedaço de pano sujo em uma mão e uma garrafa de água na outra. Alguns, para ser justo, não usam proteção na cabeça e têm o sol como infernizador de seus juízos parcos e abusam na intromissão ao bater nos vidros, fazer gestos e até dizer palavrões. Estou cansado de não poder abrir a janela para sentir a brisa da noite. É inseguro.
Estou cansado dos “spams” recebidos em meus computadores, o de casa e do trabalho. Reclamo do provedor e da empresa de manutenção mensal dos ditos. Não consigo me ver livre de empresas telefônicas, de receitas para emagrecer, de como ser viril, de maravilhas de toda a ordem, lugares paradisíacos a preços de nada, de promoções disso e daquilo, sem falar nas orações e nos que falam bem ou mal de governantes.
Vou dar uma volta por aí. Vou e volto logo. Sou um trabalhador inveterado e preciso escrever para dar sentido a uma vida com tanta baboseira e pessoas cheias de melindres, mostrando camisas, relógios, carros, casas e falando de si mesmas. Tal como estou fazendo agora. Outras, decisivas à cultura nacional, cientes de sua capacidade intelectual e literária, ainda não mostrada em livros não escritos, pois aguardam o tempo da obra prima surgir.
Políticos loteando o governo, asfixiando a presidente Dilma com 39 ministérios. De muitos ministros, sequer sabe o nome. Eles se empavonam em viagens a seus estados a deitar falações em aeroportos, em jornais, em blogs, em rádios suas em nomes de amigos e em programas amestrados em televisões camaradas.
Peço desculpas a você por estar escrevendo assim tão bobamente. Acontece. Estou indo atrás do tempo de nada, seguindo Drummond: “tempo disso, tempo daquilo, falta o tempo de nada”. Será possível encontrá-lo? Ninguém me diz o endereço, sequer o caminho, nem o sabichão “Google”. Assim mesmo, vou dar uma volta sem muito aprontamento e desprevenido. Volto logo, talvez esteja viciado no dia-a-dia deste mundo sem dono.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/03/2013.

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O Sistema ´S´ – Diário do Nordeste

Poucos brasileiros se dão conta de que sustentamos um pesado grupo de instituições a dominar o Sistema “S”, criado nos anos 40, quando Vargas era o ditador do Brasil. Esse sistema se mantém firme e forte, elegendo representantes classistas para as diversas esferas do legislativo brasileiro, promovendo escândalos (houve agora um na do Comércio), logo encobertos, trafegam em Brasília para pouco fazer, com status, passagens e diárias pagas com o dinheiro das empresas que, muito pouco, se beneficiam dessa formação, quase sempre paga, e das áreas de lazer, pouco usadas. Esse condomínio quase não fica visível para o grande público. O art.149, da Constituição, manteve esse status quo. Segundo o tributarista Roque Mazza, ele “deve perseguir a finalidade do interesse público”. O professor Hugo de Brito Machado refere que é uma intervenção no domínio econômico, há o interesse das categorias profissionais/econômicas e a seguridade social.
Com a criação dos Cefets, antigas escolas industriais, hoje profissionalizantes de ensino técnico e superior, parece desnecessário esse Sistema S. Essas confederações e afins (agricultura e pecuária, comércio, cooperativismo, indústria, transporte, Sebrae, fundo aeroviário, diretoria de portos e costas e Incra) recebem contribuições das empresas, descontadas regularmente, sem que a mão-de-obra nacional tenha evoluído quase nada nestes mais de 70 anos dessa grande dádiva. Os seus dirigentes são eleitos por sindicatos controlados por grupos não muito representativos das empresas que, diga-se, são quase omissas e os mais antenados dominam bilhões. Até quando?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/03/2013

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ONTEM, DIA DA POESIA – HOMENAGEM A FRANCISCO CARVALHO – Jornal O Estado

Socorro-me com José Anderson Sandes, um jornalista tornado professor, e com José Lemos Monteiro, escritor e professor da Universidade de Fortaleza, para falar um pouco de linguagem ética, em homenagem ao 14 de março, Dia da Poesia, ontem acontecido.Poesias relembrando ainda Castro Alves, o grande condoreiro, e parabenizando a Regine Limaverde, uma poeta moderna, também nascida nessa data.
Sandes era o entrevistador, ao seu tempo de editor no Diário do Nordeste, em 02 de março de 2009, quando dialogou com Lemos sobre a linguagem poética. Lemos recorre ao formalismo russo, quando afirma: “os formalistas estiveram preocupados em descobrir aquilo que realmente caracteriza um texto como expressão poética. E, assim propuseram o princípio de que não é o autor, mas o modo peculiar de cada obra que deve ser objeto de cada análise. Em função disso, passaram a valorizar e pesquisar os elementos que se encontram imanentes no texto poético em si mesmo, como o estrato sonoro, o ritmo, a métrica, a rima etc”.
Tudo isso é para dizer a você ter sido escolhido o poeta grande, Francisco Carvalho, recentemente falecido, como o centro das atenções em exposição aberta pela Galeria BenficArte e a Academia Cearense de Letras. Foram escolhidos 14 poemas de Carvalho e mostrou-se a sua fortuna crítica. A Exposição está em curso e é gratuita.
Se você, caro leitor, chegou até a este ponto, certamente tem a sensibilidade de saber da importância da poesia na nossa vida. Dizia a Madame de Stael, escritora francesa do século 18:
“A poesia é a linguagem natural de todos os cultos”.É verdade. Entretanto, há pessoas a formular poesias, bastante diferente de ser poeta. Se ela não brotar como as águas surgidas por trás de uma pedra em pleno deserto, será um arranjo poético, se tanto, nunca uma poesia.
Louvo-me, outra vez, de Lemos para ir a Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Ao Deus Kom Unik Assão”, na verdade, “Ao Deus Comunicação”. Pois bem, em parte desse poema, CDA, com todo o seu direito poético, escreve: “Eis-me prostrado a vossos peses/ que sendo tantos todo plural é pouco”. A ironia dele ao usar “peses”, como plural de pé, é parte de sua estilística.
Estariam os poetas a fugir do encontro com o sentimento e com a sua individualidade? Ortega y Gasset, filósofo espanhol falecido no primeiro quinto da segunda metade do século passado, asseverava: “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”.
Francisco Carvalho era um criador de verdades. Veja estes versos: “Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração/ e o quanto sobra do naufrágio/das nossas utopias”. Ou quando fala, parecendo a fechar a última página do tempo maduro: “As minhas mãos/ já foram robustas/já plantaram/sementes de milho/nas terras dos filisteus/hoje só semeiam/ as lavouras do adeus”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/03/2013