Neste Natal vá ao encontro dos que você ama, sem medo e com o passo firme dos que ainda acreditam na força do amor.
IMPACTO
A gente vê na televisão, lê na revista e no jornal e não sente quase nada. 214 pessoas morreram na queda no mar de um boeing 767 da Egypt Air, no nordeste dos Estados Unidos. E daí?
A banalização da desgraça alheia passa pelas mortes das Febens da vida, na indiferença na doença grave de uma pessoa conhecida, nas micro-guerras de todos os dias, nas guerrilhas, no desemprego definitivo, nos assassinos paranóicos de escolas, empresas e cinemas, nas lutas dos sem terra, na Aids e a fome dizimando a África com os olhos cegos da Organização Mundial de Saúde, preocupada com a obesidade no Primeiro Mundo e na morte de uma prefeita que queria apenas trabalhar honestamente.
E nós comendo, rindo, trabalhando, dormindo, como se vivêssemos em um outro planeta e estivéssemos anestesiados. Afinal, a anestesia serve para alguma coisa, mitiga ou suprime dores/ sentimentos que, após a sedação, voltam fortes ou desaparecem, se a razão da dor ou do sentimento foi extirpada ou os nervos definitivamente lesados.
Mas falávamos de desgraça e de como essas desgraças não nos causam mais impactos. Talvez, se pudéssemos, gostaríamos de um pouco mais de tranqüilidade, mas como? Queremos o controle remoto para o portão, o celular que nos azucrina, o cartão de crédito, o computador, a tevê com os seus shows da vida e da morte, os jornais com suas fofocas e a dia a dia com a sua dureza.
Somos bombardeados com informações. O que ganhamos com tanta informação? De que vale uma linha quente (hot line) que nos mostra, a todo instante, as desgraças do mundo, os cartéis de droga, governos sendo depostos, fofocas, crianças abusadas sexualmente, pornografia na Internet, o FMI ditando normas, um presidente de CPI querendo aparecer, os cartões de crédito cobrando os juros da cara com a maior cara de pau?
Creio que isso parece um pouco do apocalipse. A burrice de não saber usar o que o progresso nos concede, de não entender o mundo e saber conviver com as pessoas. Cada um vai se fechando nos seus muros existenciais, deixando de sentir os impactos, quer das sensações positivas, quer das que nos deveriam machucar profundamente e apenas causam – quando causam – mossas em nossos sentimentos e consciências.
Mal comparando, é como alguém que faz plástica e fica perguntando aos outros se ficou bom. Quem tem que saber é a própria pessoa, os outros não estão nem ai. Ninguém está nem ai para as dores dos outros, imagine plástica. E tudo parece plástica.
E no meio de tudo que escrevi de forma desencontrada, propositadamente, pode existir alguma resposta e cada um deve procurá-la do seu jeito, na urgência do tempo que passa e dos impactos que não ferem mais, desde que não sejamos nós as vítimas. Nesse caso, a coisa muda. E como muda.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/11/1999.
TESTEMUNHA, SEM QUERER
Acabara de chegar da Grécia. Era uma Quinta-feira fria em Mannheim, cidade vizinha a FrankFurt. A noite de 09 de novembro de 1989 corria normalmente. Gravávamos uma fita com jazz ( entre elas, Bye Bye Black Bird) e uma fantasia composta por um alemão sobre o Hino Nacional brasileiro e o vinho ajudava a espantar o frio. A TV estava ligada baixinho, como contraponto. De repente, o noticiário da TV começava a sair do seu natural e os repórteres davam informações desencontradas. Vali-me de meu cunhado alemão para entender. Ele me respondeu: não estou compreendendo nada, parece que o Muro de Berlim está caindo.
O povo começava a sair às ruas e não havia nenhuma autoridade falando, pois Helmut Kohl, estava ausente do país em visita oficial à Polônia( Seria de propósito?). O que se soube logo foi que as autorizações de saída de Berlim Oriental estavam sendo concedidas sem limitações e em prazos mínimos.
As pessoas passaram a tirar pedras do muro e o resto todo mundo já sabe. Começara a ruir o mais forte ícone da divisão forçada da Alemanha, feita pelos aliados e a União Soviética, um país que nunca gostou de ser tutelado.
Hoje, passados 10 anos, pode-se dizer que Mikhail Gorbatchov, então premiê da URSS, foi um dos grandes alavancadores desse processo de abertura, iniciando o fim de uma guerra fria beneficiadora de fabricantes de armamentos e políticos reacionários iludindo seus eleitores, de ambos os lados.
Eu estive em Berlim Oriental, antes da queda, passei pelo “Check Point Charlie” e senti como era rígido o controle de entrada. Viajava de trem. Primeiro, o trem parou. Depois vieram policiais com cães amestrados farejando tudo. Em seguida, lanças com espelhos na ponta, como os que os dentistas usam para olhar os nossos dentes de trás, foram passados por baixo dos vagões do trem. Após tudo isso, descemos, entregamos os passaportes, faziam algumas perguntas, nos fotografavam, mandavam comprar certa quantia em marcos orientais – que não podiam ser recomprados na volta – e aí, sim, éramos liberados para uma visita restrita. Isto é, não se podia ir aonde queríamos, mas aos pontos recomendados.
Isso foi no fim da década de 70 e eu não podia entender edificações divididas ao meio, um muro altíssimo, rolos de arame, casamatas, postes com iluminação feérica, postos de observação e um aparato de guerra que não combinava com a efervescência a 200 metros dali, onde em Berlim Ocidental a vida corria normalmente, com o seu ar cosmopolita.
Pulemos para 1989. A noite se fez tarde, os vinhos seus efeitos e fomos dormir. Ao amanhecer, a história tinha dado mais um passo e os jornais e as televisões mostravam os estragos no muro, famílias se reencontrando e o povo nas ruas. Houve excessos, de lado a lado, nas comemorações, e só depois de algum tempo é que a calma voltou a reinar.
Hoje, dez anos depois, tendo voltado algumas vezes à Alemanha, sinto que os 400 bilhões de dólares gastos na reconstrução da parte oriental surtiram efeito, mas há muitos descontentes, especialmente os que tiveram de pagar a conta. Mas isto é outra história.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/1999.
ONTEM E HOJE
Estava eu cá pensando como os meninos de hoje são diferentes dos de antigamente. Tenho um amigo, filho de um amigo, de sete anos. Ele me chama de João e não tem a menor cerimônia em falar comigo. Até a última vez em que o vi ele tinha quatro pontos na testa, já havia visto o “Titanic”34 vezes, montara uma réplica do dito cujo sem grandes dificuldades e mexia com informática, especialmente jogos.
Por conta disso, lembrei da minha infância, quando qualquer pessoa mais idosa era senhor ou senhora e resolvi recolher fatos, alguns bobos, perdidos no tempo que aconteceram comigo. Muitos deles não fazem hoje o menor sentido, mas acreditem, aconteceram.
– Aos cinco anos me perdi. Fiquei olhando desconfiado para todos os lados. Um senhor perguntou meu nome, o nome dos meus pais e onde eu morava. Voltei para casa. Todos se conheciam.
– Tinha só nove anos e gostava de voar de teco-teco (avião monomotor) com meu pai. Ele colocava um caixão coberto de alumínio cheio de gelo dentro do avião. Descíamos nas praias desertas e comprávamos peixes. Voltava feliz e cheirando a peixe.
– Nessa mesma época aproveitei o carro do meu pai dando sopa e liguei a chave. Sem saber como, engatei a ré e foi fogo para parar. Não sabia como. Aprendi a dirigir ao contrário.
– Foi aos 10 anos. Não tinha idade para fazer o “admissão ao ginásio”. Um exame então obrigatório ao ingresso no curso secundário. Aumentaram minha idade. Até hoje sou, oficialmente, um ano mais velho. Quando fui casar deu problema, a certidão de nascimento era diferente do batistério.
– Por volta dos 11 anos, no carnaval, meu pai me deu um vidro de lança perfume. Saí em um caminhão cheio de gente e despejei todo o conteúdo do vidro em uma menina. Ela me olhava e eu esvaziava o vidro, sem trocarmos uma palavra. O vidro secou e eu mudo fiquei.
– Aos 12 anos comprei uma bola e fiz um time de futebol. Fiquei na reserva. Acabei com o time.
– Com treze anos já era encrenqueiro. Um professor era um pé no saco e a maioria da turma não gostava dele. Na hora do recreio, juntamos areia e fizemos um simulacro de seu corpo em cima da grande mesa da sala de aula. Quando ele chegou, esbravejou e todos rimos. Ele deixou a turma.
– Aos 13 anos apaixonei-me por uma moça mais velha. Ela foi a uma festa à noite e eu esperei que o dia amanhecesse para brigar.
– Tinha um parente bispo que, vez por outra, me convidava para viajar com ele. Um dia chegamos a um convento, onde serviram uma merenda reforçada. Ele me chamou ao canto e disse: Encha os bolsos com o que você puder. Bispo não pode, mas perdoa.
– Nessa época, 13 anos, tive um surto de fé fora do comum. Queria entrar no seminário para ser padre. Meu parente, bispo, pediu que um padre amigo conversasse comigo. Batemos um longo papo e ele sugeriu que eu passasse uns meses rezando para confirmar minha fé. Deu no que deu.
– Aos 14 anos, véspera do Dia das Mães, fiz um discurso infame no colégio. Ganhei o apelido de “João Mamãe”.
– Aos 16 anos fazia política estudantil e gostava dos congressos para escrever dedicatórias nas pastas de papelão das colegas. Recebia delas, em contrapartida, muitas frases feitas, a exemplo de: “o essencial é invisível aos olhos” ou “tu és eternamente responsável por aquele que cativas”. Antoine Saint-Exupery e “O Pequeno Príncipe” estavam na moda. Antes das misses.
Tudo isto foi já na segunda metade deste século que está por terminar e parece tão distante, como se o hoje caçoasse do passado.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/1999.
LUSTOSEX
Lá estávamos nós na fila, vendo o primogênito do “Seu Costa” e de “Dona Dolores” espalhar a sensibilidade, a mordacidade e a gentileza que se amalgam em sua personalidade.
Terno azul, camisa branca, gravata importada, cabelos aparados, óculos graves e aquele bigode latino que criou para espantar a timidez e lhe dar o ar da sisudez que não tem, embora cultive.
Não era uma noite de autógrafos, era uma festa de benquerença, de reencontros e de reminiscências entre o autor e muitos de seus personagens políticos, de amigos e do dia- a -dia de sua vida que se transformou em um triângulo afetivo: Sobral, Fortaleza e Brasília. Peguem um mapa do Brasil e vejam se não dá um triângulo, não um equilátero, mas um isósceles, pois um dos vértices desse triângulo parece ser o seu centro gravitacional.
Esse menino tímido que, desde cedo, bisbilhotava o viver dos outros com a argúcia do futuro contador de estórias, estava ali declarando, de público, ter atingido a sexagidade, se é que esta palavra existe ( caso contrário, fica a sugestão para o próximo Aurélio). E a declarava com a verve e o gostoso “non sense” com que mistura suas múltiplas vidas nas cidades que escolheu para viver e amar e a sua permanência triunfal em Paris, quando os filhos lhe passavam “quinau” em seu francês pouco Sartreano.
Soares Feitosa, esse cearense que mostrou a possibilidade de ser técnico, empresário e intelectual em uma só pessoa, nos dá um puxão com “as orelhas” que escreveu no “Como me tornei Sexagenário”. Claro, profundo e com a simplicidade que só os que sabem ler podem ter. Digo isto e provo. Cito o Feitosa em questão: “Poucos têm o dom. Lustosa da Costa tem. Sob prosa leve, um senso de humor à inglesa, a capacidade de rir em primeiro de si mesmo, e – as cartas, o epistolar… onde parece escrever para a eternidade. Pinçar, eis a essência do escrito lustoseano nesse mar de banalidades”.
Para não dizer que também não pincei nesse mar de palavras alguma coisa, mostrarei o lado “tímido sex” do autor, revelando, com a sua forma peculiar, cinco dos seus muitos encontros-desencontros amorosos. Vamos a eles? 01.“Também conheci uma moça gordinha, do interior, de pele macia como a carteira de plástico com que me presenteou. Foi um namoro que não se consumou apesar do mimo”. 02. “Anos depois, barba feita, coração por fazer, amei. E amando, gastei a sola dos sapatos, muitas vezes por dia, pela rua Joaquim Ribeiro, na esperança de avistá-la à janela”. 03. “Fui acometido de esperanças violentas e desesperos mortais. Até que veio o não”. 04. “A essa época, namorei Maria Helena, que era jovem e virgem como acontecia àquele tempo”. 05. “O sexo não era risonho nem franco. A moçada de hoje, criada com a tranqüilidade da pílula e o conforto dos motéis, precisa saber que, naquele tempo, não havia nem uma coisa nem outra”.
Muito mais teria. Vou ficando por aqui, pois o espaço é curto – e o Bilas teima em editá-lo com esse tipo de letra que faz a alegria dos oculistas – citando o próprio Lustosa: “escrever, para mim, é compulsão. Escrever me libertou da timidez. Escrever me pôs em contato com o mundo o que nem sempre é fácil, oralmente”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/1999.
ENFARTE E FAMÍLIA
Um amigo de velhas datas liga pedindo uma hora para conversar comigo. Como esse amigo sabe que não revelarei seu nome, nem sob tortura, posso me permitir escrever, em linhas gerais, sobre o teor da nossa conversa. Aliás, eu submeti este artigo à sua análise.
Um dia, dirigindo o seu carro após o trabalho, veio aquela dor violenta entre as costas e o peito e ele teve força de chegar a um hospital. Saiu de lá dez dias após com três pontes de safena, recomendações sobre mudança de estilo de vida e uma porção de remédios a tomar todos os dias, pelo resto da vida. Chamou a mulher e disse desejar repensar sua vida. Ela chorou abraçada a ele e ficou calada. Ficou mais 20 dias em casa. Os dias não passavam, a televisão cansava e a cabeça não parava de martelar questões sem respostas.
Esse meu amigo desejava trocar ideias sobre ele, sua empresa e seus filhos. Descobrira-se mortal. Reuniu a mulher e os filhos para uma conversa. Disse que ia tirar o time de campo e queria saber a opinião de cada um. Foi um Deus nos acuda. Segundo ele, os filhos ficaram apavorados, pois ainda não estavam preparados para comandar a empresa, feita com muito trabalho, dedicação e renúncia.
Por essas dúvidas ele me procurou e conversamos mais do tempo combinado. Relembramos fatos, demos algumas risadas e até algumas lágrimas rolaram, talvez pela certeza da finitude e da nossa incapacidade de administrar situações complexas.
Lembrei – me, rindo comigo mesmo, da condição de “conselheiro” e me descobri sem quase nenhuma capacidade de ajudá-lo. Preferi que, nós dois, entendêssemos os dramas na sua cabeça e analisássemos o que, igualmente, poderiam pensar – naquela situação – os seus filhos. Uma coisa estava definida para ele: queria escolher alguém capaz para dirigir os negócios no lugar dele. Ele ficaria apenas dando as diretrizes. A quem escolher? Falou, com carinho, sobre os filhos, quase todos formados, mas nenhum quisera fazer mestrado ou ganhar experiência trabalhando em outras empresas. “Não tinham estrada” e não conheciam, no duro, o chão de fábrica. Viviam do que a empresa lhes pagava e não esperavam, para tão rápido, a possibilidade de um deles ter de assumir, para valer, a direção do negócio. Talvez, por culpa do meu amigo, não eram ainda trabalhadores profissionais, de sol a sol, não conheciam o seu atual nível de “stress”, nem amargaram anos de lutas e as noites em claro antes de tomar decisões.
A partir de suas informações, fizemos o perfil de cada um e, além de todos os problemas, como sombras, as figuras de nora e genro apareceram. A coisa complicava e eu sem saber mais o que dizer. Por fim, lhe sugeri optar por alguém de fora da família, com características e habilidades semelhantes às que ele acreditava ter ou queria para a empresa, neste mundo competitivo, não morrer. Ele coçou a cabeça e pediu um tempo para pensar.
Há três dias recebi um telefonema dele. Contratara um profissional de excelente nível, na faixa dos 30 anos, ganhando quase o mesmo que seus filhos que ficaram resmungando e ele bateu firme na mesa. Estava decidido. Nenhum assumiria, continuariam fazendo o que sabiam e ainda era pouco. Hoje, ele viaja, pela primeira vez, à Europa. Boa viagem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/1999.
A PARANÓIA DO 2000
Está todo mundo contando. Faltam 24 dias para o ano 2000. E daí? O que é que este tal ano dois mil vai mudar na sua vida se você mesmo não resolver mudar? Não é o tempo, se considerarmos que um ano é um período de tempo, que muda você. O que muda você é o uso que faz do tempo. Então, cara prepare-se para mudar daqui a 25 dias ou tudo vai continuar na mesma, sem que o calendário possa ser usado a seu favor.
Um doidinho, Albert Einstein, na primeira metade deste século, andou desmanchando o que Isaac Newton dizia há tempos: o tempo é absoluto. Não é. O tempo é relativo, segundo o Albert. E para entender tudo isso é preciso ficar sabendo que não existem só três dimensões: altura, comprimento e largura, formando o espaço. Além dessas três existe o tempo, que é uma quarta dimensão. Pois voltando ao que interessa, nós vivemos em função do espaço e do tempo e é por tal razão que digo: se não soubermos aproveitar o tempo, de nada valerá o espaço, isto é, o mundinho que escolhemos para nós.
Pode parecer confuso o que disse acima, mas não é. Se tiver dúvida, releia.
Você precisa administrar o seu tempo, fazer as coisas acontecerem, ao invés de ficar na janela olhando o mundo rodar. Mova-se, traduza-se em movimento, ação e descubra em si e nos outros o sentido de sua vida. Vá tentando e consegue. Não desanime se o seu atual espaço não lhe for favorável, respire fundo e lembre-se que o mundo todo é o seu espaço, só o tempo é finito, em sua dimensão.
O que estou querendo lhe passar é que é preciso limpar a sujeira que o tempo deixou em seu corpo e na sua mente. Remova as estruturas superadas que só servem de obstáculo às mudanças que você ensaia fazer e não faz. Sai dessa, se você acha que o 2000 é milagroso, vai rodar. Quem tem que obrar o milagre é você, sacudindo os seus poréns e entretantos. Deixe de procurar resposta no tempo e no espaço, a resposta está, usando o que disse Taiguara, no “universo do teu corpo”. Mexa-se e descubra se pode mandar para a cucuia o que lhe está enchendo o saco há tempos. Aproveite a desculpa do ano 2000 para romper alguns preconceitos que você mesmo criou. Dane-se o que os outros pensam ou você vai ficar ai esperando por milagre?
Daqui a alguns dias você será uma pessoa do século passado – se você acredita que o século termina em 1999, mas isto é outra estória – e se não ficar atento, independente da sua idade, poderá parecer antigo, ultrapassado. Mostre que não é antigo, ligue-se no espaço e no tempo e desligue-se das pessoas chatas que perturbaram no “século passado”. Assuma um compromisso e tente o usar o tempo como aliado e o seu espaço parecerá mais livre e despido de obstáculos para encontrar a felicidade que está aí no “universo do seu corpo” e da sua alma.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/1999.
PSIQUÉ
Neste mês de dezembro todos recebem cartões, brindes, presentes e convites. Boa parte deles peca pela falta de imaginação e alguns atentam contra a sensibilidade. Um dos convites que recebi me chamou a atenção. Foi um de formatura em psicologia.
Por que me chamou a atenção? Pela linda gravura de William Adolphe Bouguereau, designada como “Invading Cupid’s realm” ou invadindo o reino de Cupido. Uma linda mulher semi-nua cercada de anjos parece quebrar barreiras.
Foi isso o que o convite me passou: quebrar barreiras. Além dessa abertura inusitada, procurou não puxar saco de ninguém escolhendo os pais como “patronos” e os mestres como “paraninfos”. E não fica só nisso. Conta o Mito de Eros e Psiqué. Vejam um dos trechos: “Psiqué penetrou o palácio e, a partir de então, foi servida por uma multidão de Vozes, que lhe atendiam mesmo os desejos não formulados. Naquela mesma noite da chegada da princesa, Eros, sem se deixar ver, fez de Psiqué sua mulher, mas, antes do nascer do sol, desapareceu rápida e misteriosamente”.
Ainda fugindo das citações convencionais, o convite contém citações que transcrevo para conhecimento de vocês.
De Ruy Barbosa, aos pais (Se um dia já homem feito e realizado, sentires que a terra cede a teus pés e que não há ninguém para te estender a mão, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta à tua infância e balbucia entre lágrimas e esperança as últimas palavras que te restarão na alma: meu pai, minha mãe).
De Fernando Pessoa, aos professores (Mestre, meu mestre! Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser, Eu escrevo de lado como um pó de todos os ventos, Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!).
Mário Quintana, aos clientes (… até que um dia, por astúcia ou por acaso, depois de quase todos os enganos, ele descobriu a porta do labirinto. Nada de ir tateando os muros como um cego. Nada de muros. Seus passos tinham – enfim! – a liberdade de traçar seus próprios labirintos).
Como mensagem final, Manuel Bandeira (Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas. Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos. A paixão dos suicidas que se matam sem explicação).
Não é um charme?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/1999.
MEUS HOMENS
Faltando 06 dias para o ano de 1999 terminar e com essa estória da mídia publicar listas disso e daquilo, pois não é que me lembrei de fazer a lista dos cinco homens com os quais mantive contato pessoal, mesmo que eventual, e que ficaram no meu “Top of the mind”, ou no topo das minhas lembranças.
Da vida universitária dois nomes surgiram cristalinos: Heribaldo Costa e Parsifal Barroso. Heribaldo era professor de Introdução à Ciência do Direito e a ele devo parte do pouco que aprendi de filosofia e lógica. Austero, obrigava os alunos a usar paletó em suas aulas e teve a coragem de dar mais de cem zeros em uma prova semestral. Houve uma campanha forte contra ele e a aposentadoria o acolheu.
Parsifal era Governador do Estado e dava aulas de Ciência Política com a simplicidade de um padre e a fluência e o saber que Deus lhe deu. Falava pausado, era enfático e apaixonado pelo conhecimento. Vez por outra, me pedia carona para ir deixá-lo em palácio.
Vão me chamar de presumido (faz mal não), pois vou citar três nomes consagrados mundialmente. Em 1962 passei num concurso e fui fazer um curso de verão na Universidade de Harvard. O coordenador do curso era Henry Kissinger, que viria a ser, em seguida, Secretário de Estado e o segundo homem mais importante dos Estados Unidos, apesar de ser judeu alemão. Nariz adunco, óculos grossos, voz com sotaque, grave e rouco, ficava fulo da vida quando se falava em imperialismo americano e, uma vez, nos perguntou sobre “o imperialismo paulista”.
Nessa mesma viagem fomos a Washington para uma visita a várias autoridades. Eu, como fazia direito, integrei um pequeno grupo que teve a sorte de conversar com Bob Kennedy, então Ministro da Justiça. Seu gabinete era amplo, poltronas de couro e um grande quadro abstrato na parede principal. Ele era jovem, absolutamente descontraído e cordial. Em cima do seu birô repousava um capacete amassado de soldado e a seus pés dormitava um enorme cão. Na hora da informalidade, perguntou se sabíamos a razão daquele capacete estar ali. É claro que não sabíamos. Disse ser o símbolo da luta pelos direitos civis dos negros. Brincalhão, indagou quem entendia de pintura para explicar o seu quadro abstrato. Muitos palpites, nenhum acerto. Ele riu e falou que era uma chuva de papel picado quando das comemorações da eleição de seu irmão John.
De paletó e gravata, todos ficamos nos jardins internos da Casa Branca, ali onde os presidentes dão entrevistas. De repente, lá vem John Kennedy. Louro, queimado de sol e paletó azul marinho. Falou de sua “aliança para o progresso”, perguntou quantos futuros presidentes do Brasil sairiam dali e trocou palavras amenas com alguns de nós. A mim, por exemplo, perguntou de que região eu era. Nervoso, troquei nordeste por noroeste. Quatro meses após ele seria assassinado em Dallas.
Feliz Ano Novo para todos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/12/1999.
A VIDA EM CÓDIGO: SAULO RAMOS
Faz anos. Ganhei o livro “Código da Vida”, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra razão. O livro é derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um câncer, e sabedor de uma doença coronária grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus cânones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente literária – tipo contador de histórias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeirão Preto e a Santista. O livro já teve mais de 20 reimpressões e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril último, vítima do coração já esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, quiçá, romanesca vida.
Nasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeirão Preto. Lá, já havia nascido outro brasileiro ilustre, Cândido Portinari. Portinariestá lá na página zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: “Para Saulo, que honrará nossa Brodowski, lembrança afetuosa do Portinari, 1953”. Não deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos últimos tempos.
Nasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Discípulo de Vicente Ráo, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na política brasileira. Só não foi mais porque não o quis. Começou trabalhando com Mário Covas, depois foi ajudar Jânio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justiça de José Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presidência. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto já é história.
O livro não é um exercício de modéstia. Não poderia sê-lo. Saulo, aos 78, tinha a língua solta dos que acreditam estar próximo o encontro com o desenlace. É, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela própria mulher, a partir de gravação feita com os filhos. E esse eixo básico não é seguido. Há muitas vertentes e ocasiões em que o autor, vaidoso, nomeia várias celebridades. São tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concessão por Jânio Quadros da “Ordem do Cruzeiro do Sul” ao então ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bolívia.
Paro por aqui, não vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. É um passeio pela história brasileira contemporânea. No livro, Saulo não poupa Lula. Diz cobras e lagartos do então presidente da República e se derrama em amores e elogiosa José Sarney. Não só Lula é criticado, até alguns integrantes do STF são descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A história, que é o fim condutor da narrativa, não concluída no texto, merece um epílogo em que ele deslinda tudo.
Não gostei da batida citação – o livro tem 140 – atribuída a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, é piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele próprio. Quem sabe, esta: “Espero que tais fatos esclareçam algumas interrogações daqueles que os viram acontecer e sejam úteis para as novas gerações, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fiéis, segundo tenho visto em isoladas manifestações de jornais. Mas advirto: os fatos são aqui narrados numa espantosa desordem cronológica, porém fielmente. Detesto a manipulação do passado e o mascaramento das versões”. Saulo Ramos.
João Soares Neto
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 3/5/2013

