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NARCISISMO

Para começo de conversa, é bom que se fale sobre a razão de se chamar alguém de narcisista. “Fulano é um narcisista” ou “este é um comportamento narcisista”. Por quê se diz isso?
Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem por quem a ninfa Eco se apaixonou. Eco fora privada da fala por Hera, a esposa de Zeus, e só podia repetir as últimas sílabas das palavras que ouvia. Incapaz de dizer a Narciso de seu amor, foi por ele rejeitada e morreu de tristeza. Os deuses puniram então Narciso por seu desamor, fazendo-o apaixonar-se pela própria imagem. Um dia, quando olhava sua face em uma fonte, ficou enamorado por ela e recusou-se a abandonar o local. Morreu de debilidade e transformou-se numa flor (o narciso) que cresce à beira das fontes e mananciais. A psicanálise, a psiquiatria e a psicologia apropriaram-se desse mito e, a partir dele, começaram a desenvolver seus estudos e teses.
Essas observações são mero produto da leitura do livro “Narcisismo, negação do verdadeiro Self”, de Alexander Lowen, Editora Cultrix, e decorreram da verificação óbvia e real de que o narcisismo está em franca ascensão em todas as camadas sociais e faixas etárias. Como não tinha conhecimento sobre assunto tão sério, resolvi dar um passeio sobre o livro em referência. Do que li, ouço e vejo, ficou claro que o narcisismo sinaliza uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self (ego, o eu, a individualidade).
Avulta também que os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem, daí negarem quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar.
Via de regra, são egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self – notadamente, auto expressão, serenidade, dignidade e integridade. Parece faltar aos narcisistas um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do ego, vivem a vida como algo vazio e destituído de significação. Muitos dos narcisistas são bem-sucedidos em suas atividades profissionais ou negócios, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que acontece em seus íntimos.
Por outro lado, apresentam combinações de ambição intensa, fantasias de grandeza, a par de sentimentos de inferioridade e excessiva dependência da admiração e aprovação externas. Olhem as colunas sociais, joalharias, salões de beleza, boutiques, academias de ginástica, igrejas, universidades, reuniões sociais, entidades de classe, clubes, empresas, imprensa, profissionais liberais, os poderes constituídos e vocês identificarão muitos narcisistas. Alguns temporários, outros incuráveis.
Os narcisistas têm a clara necessidade de ser perfeitos e de fazer com que os outros os vejam como tais. É bom estabelecer uma distinção entre a preocupação saudável com a busca da perfeição profissional e da própria aparência, baseados no senso do self, e o deslocamento da identidade do ego para a imagem, o que é característico do estado narcisista.
Ora, dirão vocês, se o narcisismo é um comportamento patológico que fica patente, apesar dos disfarces, adiantaria falar sobre ele em um simples suelto? Entendo na minha visão laica que, pelo menos, algumas pessoas poderão fazer uma autoanálise ou identificar melhor as suas companhias e tirar, quem sabe, algum benefício, pois como disse Shakespeare há 400 anos em “Muito Barulho Por Nada”, Ato III, Cena I, sobre o narcisista: “tem-se em tão alta conta o seu espírito que tudo o mais para ele é sem valia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2000.

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AO NOVO PREFEITO

Todos nós estamos felizes com o fim desta campanha eleitoral para Prefeito. Fortaleza e mais 30 cidades brasileiras tiveram 29 dias de prorrogação. Candidatos e eleitores estão saturados. Apurados os votos, definido o eleito, gostaria de fazer algumas sugestões.
Sei que as promessas foram muitas. Algumas exequíveis, outras decorrentes do clima da campanha e da imposição de marqueteiros políticos, a doce reencarnação eletrônica e midiática de Maquiavel nestes estertores de fim de milênio.
Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes, o simples é tão óbvio, mas não se vê. Alguém da equipe do prefeito eleito deve ter cuidado de registrar o que foi prometido. Essa mesma pessoa poderia, se desejar, agregar as idéias abaixo. Por outro lado, seria bom que a nova equipe fosse definida logo para a sociedade tomar conhecimento de seus nomes, de seus planos de trabalho e das fontes dos recursos. Fortaleza vai cobrar as promessas feitas, mesmo as mirabolantes. Daqui há quatro anos os eleitores serão ainda mais esclarecidos.
Mas eu falava de sugestões e aí vão elas. Vou enumerá-las para tornar mais fácil. 01. É preciso que a Prefeitura e o Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação. Não fica bem essa disputa boba e sem sentido entre Estado e Prefeitura, quando poderiam, entre outras coisas, somar esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado. Um exemplo dessa briga boba é uma placa colocada no local do antigo Fórum Clóvis Beviláqua, dizendo ser a área de propriedade do Estado. Na verdade, a área é do povo e a ele deve ser restituída, futricas e vaidades à parte. 02. Todo final de ano a Praça Portugal é lindamente decorada. Por que não deixar a iluminação permanente, tirando apenas os adereços natalinos?03. Por que não se aproveita o largo em declive defronte ao Labomar e ao Edifício Granville na Beira Mar e se faz uma praça bonita, com um relógio de sol e canteiros de flores?. Não há flores nas praças de Fortaleza. 04. O Mercado Central dá as costas para a Monsenhor Tabosa e o Centro Dragão do Mar. Bastaria uma alça metálica, com uma desapropriação mínima, para ligá-lo ao maior corredor de compras da cidade. 05. Considerando que as casas que margeiam o lado sul da Avenida Leste Oeste (do viaduto do Marina até à Escola de Aprendizes Marinheiros) não devem ser retiradas, por que não torná-las atraentes, pintando-as de cores diferentes, como se fosse um grande casario e gramando os acessos paralelos à antiga via férrea? 06. Falou-se tanto em “parada fácil” para ônibus, por que não fazer três: nas saídas da Unifor, da Uece no Itaperi e da UFC no Pici? 07. Os taxis locais são de todas as marcas e cores, mas poderiam ser padronizados com um simples adesivo axadrezado com as palavras:Taxi, Fortaleza com amor. Custa fazer? 08. Por qual razão não se utiliza a Rua José Avelino para escoamento de parte do tráfego da Monsenhor Tabosa?. Bastaria alargá-la (enquanto não há edifícios), asfaltá-la e fazer um binário à altura do Sebrae. 09. Criar uma linha de jardineira (ônibus abertos) para turistas entre a Beira Mar e o Mercado Central, passando pelo Centro Histórico, Monsenhor Tabosa, Mercado dos Pinhões, Praia de Iracema e Beira Mar. Qual o impecilho? 10. Criar postos anticorrosivos de salva-vidas ao longo da orla marítima, da Barra do Ceará ao Caça e Pesca. Pessoas se afogam por falta de assistência imediata. 11. Já que não se pode extinguir, por falta de empregos, por que não institucionalizar a atividade de “vigilante de veículos”? Cadastrados, com crachás, fardados e treinados poderiam ser distinguidos de marginais. 12. Em todas as avenidas abertas há grandes paredes remanescentes de desapropriações sem tratamento paisagístico. Por que não utilizar pintores populares e embelezá-las?13. Criar um painel informativo computadorizado na frente do IJF, mostrando o atendimento diário, a internação instantânea, os acumulados no mês e no ano.
Vou parar por falta de espaço. Não de ideias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2000.

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BUSH E GORE

Na próxima terça feira, dia 7, George W. Bush e Al Gore estarão se defrontando para a escolha -por um colégio eleitoral de 270 votos – do sucessor de Bill Clinton nos Estados Unidos. E daí? E daí é que o Brasil precisa ficar atento e saber o que pensam os dois candidatos, especialmente sobre a América Latina e o crescimento de guerrilhas e narcotráficos na América do Sul. Nos limites das fronteiras brasileiras há plantações de coca, traficantes e guerrilheiros. Nós não podemos fazer a pose da avestruz. Os Estados Unidos são os maiores consumidores de cocaína do mundo, o que parece conceder direito àquele país de apoiar países produtores a erradicar plantações e caçar narcotraficantes.
Por outro lado, eles são um grande mercado para os produtos brasileiros e a onda protecionista americana tem afetado as nossas exportações. Essas, entre outras, as razões para que saibamos a quantas andam os pensamentos de Bush e Gore.
A campanha, na última semana que antecede a eleição, tornou-se mais acirrada. As pesquisas mostram uma ligeira vantagem de 3% de Bush sobre Gore, o que não significa muita coisa, pois uma declaração em falso ou qualquer episódio pode reverter esse quadro. Sem falar na margem de erro de 2%.
George W.Bush, do partido republicano, é filho do ex-presidente George Bush que foi derrotado em 1992, em pleno mandato, por Bill Clinton .É governador do Texas, irmão do governador da Flórida, conservador, defende corte de impostos e aumento para militares. A propósito, vejam o que ele falou: “O moral está baixo entre os militares.Não conseguimos atender as nossas necessidades de recrutamento. Estamos vendo capitães abandonando o serviço militar porque o soldo é baixo”. Ele diz que a América Latina faz parte dos “interesses estratégicos americanos”. Segundo ele, “Do Canadá ao extremo sul”. Misturar Canadá com a América Latina é coisa de quem nunca estudou geografia, matéria em que os americanos não são muito fortes. Essas gafes têm dado oportunidade ao candidato a vice de Gore, Joseph Lieberman, de afirmar que põe em dúvida a capacidade intelectual e a experiência de Busb para ocupar a Casa Branca.
Al Gore, democrata, tão rico, cinquentão e simpático quanto Bush, é o vice-presidente- e amigão- de Bill Clinton nos dois mandatos e é considerado inteligente, moderado e experiente, mas Joe Klein, da revista The New Yorker, disse, recentemente: “Ele parece ter perdido tudo isso na campanha eleitoral. Há uma desesperança triste e uma falta de graça no contato de Gore com o eleitorado”. Acresça- se que Bill Clinton, andou falando demais na revista Esquire (pensando que a entrevista só seria publicada após as eleições, mas jornalista…) quando afirmou que a maioria republicana no Congresso “deveria pedir desculpas ao povo americano” por havê-lo processado no caso Mônica Lewinsky. Era o que os republicanos queriam. Ressuscitar o caso. A propósito, indagado sobre referido caso, Gore disse: “Só fiquei sabendo quando ele admitiu publicamente. Eu tinha minhas suspeitas, mas não sabia o que era. E quando um amigo nega um fato, você concede o benefício da dúvida. Ou isso ou rompe a amizade”.
Para encerrar: lá como cá, há uso de baixaria e casos pessoais. É aguardar para ver, pois como diz o escritor Gore Vidal: “o país não é governado por presidentes, e sim pelas grandes corporações”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2000.

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ELEIÇÃO EMBANANADA

Há muitos anos corre nos Estados Unidos a expressão “banana republic”, referindo-se, de modo pejorativo, a países da América Latina que, durante algum tempo, foram meros exportadores de banana. Agora, o grande país do norte, está embananado e teve as vísceras de um arcaico sistema eleitoral exposto à exaustão para todo o mundo via televisão, internet, jornais, rádios e revistas. No domingo passado, havia escrito que a eleição seria muito difícil e que ambos os candidatos tinham chances Na madrugada do último dia sete para o dia oito, passei quase toda a noite defronte o meu aparelho de televisão acompanhando o processo eleitoral americano, vendo e ouvindo as duas CNNs, a BBC, a Globonews, a RAI e a, cada notícia, eu ficava mais confuso. Houve um instante em que Al Gore telefonou para George Bush cumprimentando-o pela eleição. Pouco tempo após, ligou novamente pedindo para desconsiderar o telefonema anterior. Cedo da manhã fui andar e referi a amigos que a eleição americana parecia a de uma cidade do interior do nordeste, antes do advento da urna eletrônica. Com um detalhe, não terminava.
Pesquisei as razões de tanta confusão e descobri: 01. O Estado de New York utiliza máquinas de votar com 38 anos de idade; 02. Incluindo New York, 25% dos eleitores votam nessas engenhocas. 03. Dois por cento do eleitorado americano votou em cédulas de papel como se fazia antigamente no Brasil. 04. Somente oito por cento das cidades utilizaram urnas eletrônicas. O5. As cédulas eleitorais não são padronizadas. Cada Estado pode fazer um tipo, inclusive delegar para municípios, como ocorreu em Palm Beach. 06. Por causa disso, a cédula eleitoral utilizada em Palm Beach, na Florida, era confusa – embora tenha sido aprovada pelos dois partidos, pois ao lado do nome de Al Gore tinha quase três círculos (um deles deveria ser perfurado com uma ponta de caneta). 06. O candidato do nanico Partido da Reforma, Pat Buchanann recebeu cinco vezes mais votos em face do círculo com o seu nome ter ficado (e confundido) ao lado do de Gore. 07. Dezenove mil votos foram invalidados por terem sido perfurados (acidental ou propositadamente?) duas vezes. Em quase todos, o circulo de Al Gore estava perfurado junto ao de outro candidato. 08. Três ações populares já deram entrada na Justiça da Florida pedindo a anulação das eleições. 09. Parece haver um choque de competência entre a Justiça da Florida (governada por Jeb Bush, irmão de George)e a Justiça Federal para decidir a validade ou não do processo eleitoral naquele Estado. 10. Pode até haver decisão no tapetão, como diria um locutor esportivo.
Para concluir, a jornalista Maureen Dowd, do “The New Times”, disse: “agora a campanha de Gore declarou guerra às excentricidades eleitorais digna de uma república de bananas”. Viram em que dá falar mal dos outros: o feitiço virou contra o feiticeiro. E agora Tio Sam?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/11/2000.

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MISTURA DE SONHOS, GENTE E CONCRETO

Ao receber a comunicação do jornalista Luiz Fernando Levy, diretor-presidente da Gazeta Mercantil, de que havia sido escolhido para integrar o seleto grupo representado pelo Fórum de Líderes Empresariais Brasileiros da Gazeta Mercantil, fiquei a um só tempo alegre e preocupado. Alegre, por ter sido um dos três escolhidos, em meio a tantos nomes no segmento de shopping centers espalhados por este país, e, preocupado, por saber da responsabilidade social que essa honraria envolve e me compromete a tentar seguir as diretrizes do empresário Luiz Fernando Furlan, presidente do Fórum e do Conselho de Administração da Sadia S/A.
Desculpem, mas preciso falar um pouco a meu respeito para, quem sabe, justificar a escolha feita pela Gazeta Mercantil. Não é vanglória, é um retrato em sépia de um menino comum que quis ser gente. Toda a minha vida tem sido de bênçãos. Nasci filho de um casal simples, que soube, em meio às dificuldades, criar nove filhos. Sendo o mais velho, misturei, desde cedo, estudo, trabalho e atividades públicas ou de classe. Fiz política estudantil, sem medo, participando de passeatas, congressos, seminários, e cheguei a ser vice-presidente da entidade nacional que congregava estudantes de administração.
Na vida profissional, que já se faz longa, participei, como dirigente e conselheiro, da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, presidi um Rotary Club, fui Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE); Administrador Notável, escolhido pelo CRA-CE e, hoje, sou diretor e conselheiro de várias entidades de classe e Cônsul Honorário do México no Ceará. Viajei pelo mundo afora com olhar ávido. Inventei-me empresário. Planejei e presto serviços na área ambiental.
Misturei sonhos, gente e concreto e fiz brotar edifícios. Coordenei dezenas de projetos e planos técnicos no Nordeste. Adoro Fortaleza, cidade que me concedeu a sua maior comenda. Leio muito, como curioso que sou, e escrevo desde jovem. Publiquei um livro de crônicas e um de contos. Há anos, escrevo, no Diário do Nordeste, de Fortaleza. Sou especialista em generalidades. Meu foco é a vida.
Isso, de alguma forma, foi dando a mim um sentido do mundo. Tudo sendo feito aos poucos, sem procurar atalhos, pois precisava ter confiança em mim mesmo; senso de humor para rir dos meus erros; um pouco de inteligência para apreender as mudanças; buscar e dar apoio à minha família; sensibilidade para captar nuanças; modelar a auto-estima; traçar objetivos, deixar fluir a imaginação, sem perder o desejo por novos desafios; criar coragem para superar meus medos e dúvidas; ser solidário, respeitando a privacidade do outro, viver Mateus 6: 1-6; motivar-me para ter determinação e não fraquejar e, finalmente, não perder meu senso de integridade.
Esses traços não me fizeram um grande empresário, mas me tornaram ousado para, por exemplo, na área específica de shopping centers, planejar, construir e administrar um centro de compras numa região da cidade de Fortaleza que precisava de uma revitalização urbana e de uma agitação social e cultural que mexesse com os brios de seus integrantes.
Usei, na prática, o que faço na minha vida: negócios, socialização discreta e a busca permanente do conhecimento. Com pouco mais de um ano, o Shopping Benfica polariza atividades de 140 lojistas e é um marco de cultura, além de ter recebido o prêmio padrão qualidade Master Imobiliário, ano 2000, como Shopping revelação, outorgado pelo Sindicato das Empresas de Compra e Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi).
À sua equipe de gestão, aos lojistas e aos clientes cabem a honraria que me foi distinguida. A mim, certamente, o compromisso de tentar aumentar, na convivência com os grandes nomes que integram o Fórum, a consciência social, materializando-a em ações.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2001.

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APRENDIZ DE PAI

Fazemos exames para passar a cada ano no colégio, servir ao Exército, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, nós nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos.
E ninguém faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes funções ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa “carreira” de pai.
De repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos braços enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando está com fome ou dor e não fala nada. O pai, esse ser periférico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A mãe leva nove meses de vantagem, e são, ela e a criatura, naturalmente, íntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as avós, as tias, as velhas e fiéis agregadas das famílias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si.
Depois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. É um pulo para começar a andar. Com um jeito de bêbado em fim de festa, lá vem a criaturinha rindo até que bate a cabeça na mesa mais próxima. E correndo se vai ao médico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sinônimo de ignorante.
Afinal, chega o dia da primeira aula no maternal e lá se está a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. Há choro na despedida e se fica com o coração batendo acelerado.
Vem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, não esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra.
A criatura cresceu, começa a ficar adulta, já tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e não quer mais papo com o coroa do pai. Só fala por monossílabos e diz que o pai não entende nada. E é verdade. Então, chega – para quem ainda pode – o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de intercâmbio no exterior e o besteirol começa com as informações dos pais que já mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo à fama e um álbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser “o pai americano” de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um inglês para demonstração aos amigos e novos cds com música de cantores pops.
Vem o vestibular e a família se transforma. É um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, até que o jornal publica a relação e se a criatura foi aprovada, sobe à condição de herói familiar, digna de todas as atenções e recompensas. A mãe ajuda na cobrança.
A criatura é gente e, como tal, namora, fica, rola, ama, odeia, paquera e ai não se sabe como agir. Hoje, já não se conhece mais o pai ou a mãe da nova companhia da nossa criatura, pois o mundo mudou. O José é José, a Maria é Maria, sem sobrenomes. E, olhar atento, tentando sondar, conversa-se com a outra criatura filha do outro pai, pisando em ovos para não causar melindres.
Uma bela noite, depois de tantos preparativos e crises, a nossa criatura vai casar. É o ciclo natural. Antes de colocar a gravata, olhamos no espelho uma lágrima que cai furtiva misturando sentimentos, trazendo recordações e invocando graças. Tão nova, já casando, é assim que o mundo gira. E o pai, em meio a convidados, é um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a graça de Deus, de novas criaturas.
E algumas mães ao lerem este artigo poderão dizer, com razão: estes pais são uns filhos da mãe. Pois é, ainda não aprendemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2001.

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ENFIM, SEX

O título é “Enfim, sex” mesmo. Explico no final.
Foi há muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha mãe resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro aniversário pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra às potências do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como música de fundo o noticiário de um rádio a válvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que não deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler não deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido “voluntário”. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava.
Prepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunhão. Pois não é que a Seleção Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracanã, enquanto aprendia a dizer o ato de contrição e usava um terno de casimira azul com as calças curtas.
Tive meus 15 minutos de glória ao conversar com muita gente importante por aí, mas sempre é bom lembrar a síndrome do cavalo de Napoleão. Quem ficou na história foi o francês e não o cavalo que o conduzia.
Formei-me em pleno alvorecer da Revolução e casei à época do Ato Institucional nº 05. Daí para cá muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas não o suficiente para me levar muito a sério, do trabalho árduo e sem trégua. Se a vida nos é dada de graça, não há razão para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. Vá lá que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o título de uma velha seção da revista “Seleções”, rio, pois rir é o melhor remédio, Chorei também, lágrimas divididas ou solitárias. . Tive e tenho problemas. Enfim, lágrimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxigênio brota, irrigo sonhos e faço sempre pactos com a esperança.
Bati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito críticas, paciência. Procuro ter consciência dos meus erros, purgo minhas culpas e, às vezes, a dor é grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Faço força para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que não é fácil. Quando não dá para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. Não gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho laços e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, às vezes, tropeço, literalmente. Levanto a cabeça e sigo em frente, sempre consciente das minhas limitações, desimportância e finitude. Tenho bem lembrado um provérbio mexicano: “Pegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso”. Paguei e devo ainda, com a consciência do muito a agradecer.
Mas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer plástica, ficar bonita e só encontrei sex. Eu disse que bom, você encontrou um homem sexy. Não, você não entendeu nada, ela respondeu, só encontro homem sex, sexagenário. Pois é, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da onça, passo a fazer parte dessa categoria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2001.

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INDÍCIOS

Neste país em que muitos estão desanimados pela crise estrutural, corrupção, falta de perspectivas profissionais ou existenciais, criou-se um clima de denuncismo, fofocas, suposições, indícios, aliados, ainda bem, a uma ação firme e decidida do Ministério Público. Paralelo a isso surgiu o jornalismo investigativo a mostrar fatos, mas que não deve pré-julgamentos. Cada leitor ou ouvinte fará sua própria leitura. Há transformações e ganhos sociais, pois os poderosos estão sentindo, afinal, que são pessoas semelhantes às outras, sujeitas a responder por seus delitos. Pode ser o começo do fim da impunidade.
É preciso entender, entretanto, que não bastam notícias em um canal de televisão ou em página política, social ou policial para condenar uma pessoa. Faz parte de uma leitura correta dos direitos humanos a ampla defesa a todos.
O direito moderno contempla o acusado, posteriormente absolvido, até com a possibilidade de, em alguns casos, arguir reparação por danos morais causados à sua pessoa, contra quem, levianamente, o tenha incriminado. Todos precisam saber do óbvio, quem julga é a justiça. É elementar saber disso. A sociedade pode pressionar, mas a ela não cabe julgar.
Nós todos somos, algumas vezes, levianos na análise de casos ou de pessoas a quem não conhecemos de perto. Somos alimentados não por fatos, mas por conversas, suposições, interesses, emoções, invejas, fofocas ou indícios. Mas, a propósito, o que é mesmo indício?
Nem tudo que parece, é. Poderia citar muitas frases parecidas com esta. Basta uma para dar o mote necessário ao exame do que seja indício. Quem passou por uma Faculdade de Direito tem a obrigação de saber o que significa a palavra indício.
Ela vem do latim “indicium” e é um sinal, uma referência, um vestígio, uma indicação aparente e provável de que uma coisa ou um fato ou ato deve ser apurado. No Direito Penal, por exemplo, os indícios podem levar à elucidação de um crime.
Não se deve esquecer que uma coisa aparente pode não ter essência ou sustentação que comprovem um fato, servindo apenas como detonador de uma investigação que careça de fundamentação. Às vezes, a emoção natural, pois humana, de quem possa vir a conduzir um inquérito na fase policial e precisa, por dever de ofício, dar satisfação à sociedade e ao ordenamento jurídico, prejudica ou compromete o futuro destino do processo aberto.
O que deve ser provável, isto é, ter provas, é responsabilidade de quem acusa. É elementar, em direito, que “o ônus da prova é do acusador”. Há uma outra tese: ninguém pode ser considerado culpado até que a justiça assim o determine. O que distingue o trabalho do advogado dos outros profissionais é que ele precisa convencer um juiz singular ou um tribunal de que o seu cliente não é culpado ou inocente. Os outros profissionais, quase sempre, se consideram donos da verdade e não sofrem contestação. Por isso o direito é tão bonito, quanto complexo e mal compreendido.
Qualquer estudante de direito aprende, desde cedo, que a riqueza do contraditório, ou seja, duas proposições necessariamente opostas, em que uma nega a outra, é que fornece ao juiz, além dos indícios e provas, os elementos para a sua sentença. Ao Estado, através da Justiça, como guardião da sociedade, cabe a indução e condução de todo o processo até o deslinde final.
Um processo pode ser gerado só por indícios, mas nem todo processo leva à condenação. E, mesmo quando gera uma condenação, há casos, na história, de erros judiciais famosos que tiveram base apenas em indícios fortes e o tempo demonstrou isso. A pena de morte, por exemplo, foi abolida no Brasil por um desses casos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2001.

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A GÊNESE DO CAOS

Se eu pudesse puxar o leitor através do tempo, bem que o puxaria de volta ao princípio dos anos 60 e mostraria a exuberância dos Estados Unidos e de seu jovem Presidente John Kennedy. Veríamos, em seguida, sua morte inexplicada até hoje, a do seu irmão Robert, a do suposto matador Lee Oswald e a do matador do suposto matador, Jack Rubin.
O tempo voou, passamos o ano de 1984, emblemático pelo conteúdo catastrófico do livro homônimo de George Orwell. Os computadores saíram de sua pré-história para as loucuras visionárias de Artur Eduardo Benevides, um poeta que, sem saber, estava se transformando no cavaleiro do Apocalipse cibernético ao escrever o conto futurista “A revolta do computador”.
Hoje, alguém bem-dotado de inteligência, pode furar o bloqueio de sistemas de defesas de instituições financeiras, países, organismos internacionais, empresas e fazer misérias com a humanidade. Para que isso não acontecesse precisaria que, do outro lado, existissem pessoas igualmente inteligentes, com elevado senso de justiça e humanitarismo, tivessem o poder de estabelecer limites barrando as pretensões de países e grupos econômicos que já não sabem mais fazer distinção entre 100 ou 200 bilhões de dólares. São meros números que retratam o poder, nada mais que isso, pois desprovidos de significado maior por não gerarem empregos, mitigarem a fome, eliminarem doenças e tampouco diminuírem as desigualdades tão vis do mundo.
Parece que os quocientes de inteligência dos líderes da humanidade são, na verdade, menores que dos “hackers” e dos terroristas, desafiadores da ordem estabelecida, sem compromissos de ordem ética ou pretensões de justiça. Agem por desatino ou mera vingança. O que aconteceu ontem nos Estados Unidos ainda não pode ser entendido em toda sua profundidade. Forçoso é, entretanto, associar essa loucura inominável ao desespero de minorias que não acreditam mais em saídas para a humanidade. A conferência de Durban, na África do Sul, que pretendia ser um libelo contra o racismo e a discriminação passada e atual, foi esvaziada pelo poder dos mais fortes que tudo querem e nada dão em troca.
A hegemonia dos Estados Unidos pode ter gerado em países ou etnias de índole terrorista o estopim desses atos tão brutais quanto insanos. É muito cedo para saber os desdobramentos de tão graves acontecimentos, mas ainda não é tarde para revermos os valores da sociedade, especialmente de suas elites dirigentes, encasteladas em um mundo em que as pessoas são meros eleitores, consumidores ou excluídos, esquecendo-se que os ressentimentos e as humilhações sofridas podem ter fomentado essa malta de terroristas que hoje, graças à evolução da informática, quebra sistema de defesas e provoca o caos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2001.

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O DESENHO DA LUANA

Luana tem quatro anos. É uma menina muito inteligente, um pouco tímida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns noticiários de televisão. Foi para o quarto, apanhou um papel, lápis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espaço ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avião bojudo. Lá no pé da página vagões coloridos formavam um trem. Sua mãe pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem êxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que não legitimava o que vira e registrara, agregada à sua imaginação, no papel. É provável que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.
Este fato me veio à mente, após ter conversado com alguns amigos que estão apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que é uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?
Os brasileiros vivos, na sua maioria, não sabem o que é uma guerra. A última participação brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, salvo o episódio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas estão virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.
Como explicar, então, o que não entendemos. As guerras que conhecemos são as dos filmes americanos e as últimas, a partir da Guerra do Golfo, já televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: não participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televisão e fitamos a comida nas salas de refeições sem mudança de apetite.
Estamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por não termos a coragem de assumir que todos somos culpados. Não adianta apenas culpar uma etnia, país ou grupos de fanáticos. Eles são produtos da nossa indiferença. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambição desmedida, em busca de status que não leva a nada, da morte da comiseração e do amor ao próximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e não vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilhões de pessoas. Metade vive em miséria quase absoluta. A outra metade pouco se dá conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doença, desemprego e desengano não são problemas dos outros. São mísseis que atingem ou atingirão os indiferentes.
Cada um pode e talvez deva travar uma guerra íntima, sem testemunhas, a não ser a sua própria consciência, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consciências, perdidas que estão pela ausência de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2001.