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JANO, 2013 – Diário do Nordeste

Quase meia-noite. Resolvo ir à rua cumprimentar o janeiro a nascer. Sinto a brisa quente e relembro que na mitologia romana havia uma divindade, Jano, com duas caras. Uma mirava o passado, outra via o futuro. Vi o povo. Caras únicas? Tal como se vestiram para a não gala da noite. Iam e vinham. Cervejas, bebidas quentes, refrigerantes, churrasquinhos, sanduíches e pipocas. Tudo nas biroscas com mesas e cadeiras recicladas de outros usos. Policiais atentos.
Vias perpendiculares apinhadas davam acesso ao grande palco. O resto: calçadão e areia. Essa mesma que nos tragará, um a um, se o final não for o crematório. Igualava tênis, chinelos, pés descalços, sandálias e sapatos femininos de todos os anseios. Os que as acresciam e os que as colocavam ao rés do chão. O branco, a cor mais vista, lembrou-me, sei lá, do disco de Newton, o sol alvo.
Afinal, o locutor. Voz cadenciada. Foi retroativando os segundos vistos em telões desfocados. Luz. Sons. Começou o artifício. Artifício pode ser arapuca, astúcia, cilada e mais. No entanto, os fogos ali, para o povo, eram pirotecnia, engenho e arte com formas mis em cores vivas, encadeadas nas elevações e quedas. Miríades do imaginário dos que usam a pólvora e aditivos para pontuar o céu de estros sutis por minutos. As últimas fagulhas quedaram-se com Netuno.
Artistas no palco. As pessoas saíram do transe embevecida. Aprestaram-se a tomar os caminhos vários de suas casas, perto ou longe da folgança. Surgia o janeiro, o das duas faces. A parca a levar pessoas ativas e queridas para o ignoto. Mas há choros novos em maternidades. Te Deum laudamus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2013.

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A MODELAGEM CARIOCA – Jornal O Estado

Vista por João Soares Neto, que não entende bem do assunto, mas procurou aprender. Se conseguiu, é outra história.
O Professor José Osvaldo Carioca me propõe uma tarefa difícil, discorrer, analisar ou ensaiar o seu escrito- futuro livro – “O Cérebro, a sua Mente e a Consciência”. O que eu sei disso? Li todas as páginas, cocei a cabeça e me deparei comoutra afirmação que me meteu medo: “Modelagem inusitada sobre a fisiologia do cérebro e da sua mente. Uma base científica para a consciência”. Ora, se é inusitada para quem mexe com ciências exatas, imagina para quem pouco sabe das humanas.
Ele cita autores, pensadores, escritores, filósofos, cientistas, uns grandes, outros menores, que o caro leitor irá descobrir, página a página. Nacionais e estrangeiros. Contemporâneos, modernos e dos passados recente ou remoto. Leva-nos pelo olhar, frase a frase, para o passado, o presente e nos aponta dúvidas- ou seriam certezas? – sobre o futuro a descobrir. Cariocaemerge na sua química, escrita com “uma plataforma energética evidenciando as trocas de energia entre seres vivos e meio ambiente”.
Ele controverte, palmilha e faz crença no palpável e no imponderável. Fé, ciência e futuro são, ao meu olhar leigo, o tripé formado para pincelar, em quadro imaginário, o seu juízo de valor. E o faz sem medo de ser avançado. Aqui, valho-me, graças a Deus, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) a me salvar em sua poética: “…as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão.”
O que mais teria eu a acrescentar? Digo que gostei do que li. Fui ate às conclusões, à bibliografia e entendo o sossego/inconformismo de um homem maduro que parece tentar sair do quadrado que a ciência lhe impôs e insurgir-se com teorias novas a partir do muito lido.
Todos os teóricos estão em patamar ainda não pisado. Um filósofo, muito citado e pouco lido, o espanhol Ortega y Gasset (1883-195), dizia que “a ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, algo problemático. “É isso, creio, o que fundamenta a pesquisa, por anos, do Professor Carioca, o cientista profético.
Por outro lado, a fé que o anima na árdua tarefa de tecer semelhanças entre autores desencontrados faz-nos lembrar de Dostoievski (1821-1881), expoente do romance russo, ainda no tempo dos Czares. Ele acreditava que “a fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis”. Ora, isso ele escreveu em seu soturno quarto nos “Diários”, mas o escritor russo, mesmo de leve, quebra o gelo entre a abstração da fé e a rigidez da matemática. Ajuízo eu: O que é inconciliável acontece por emergir de um rompimento.
Albert Einstein (1879-1955), um dos aludidos nos escritos que não precisa de apresentação, afirma em contraponto e a favor do Professor Carioca, em “Out of My Late Years”, que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Bingo.
Por último, tentando não perder o fio da meada, há o futuro, o amanhã, o que ainda está por vir, o vir a ser. Se é vir a ser é esperança ainda não orquestrada pela antemanhã. Estamos todos na noite que antecede o futuro, pois vivemos com um pé na memória do passado e o outro – não plantado no chão – no espaço do sonho, do que será o futuro. Isso, talvez, seja o nosso leitmotif.
Dizia Giacomo Leopardi (1798-1837), poeta italiano, em um suposto diálogo entre passageiro e vendedor de almanaque em uma viagem de trem: “Aquela vida que é bela não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Ao que o vendedor responde: “Esperamos”.
Tudo parece coincidir, portanto, com o que, acredito, espera o Professor Carioca quando diz ao concluir o seu trabalho de análise: “por processos realizados na quietude da mente e na proximidade dos estados de equilíbrio, aqui denominados de quase-estático, ou meditativos”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2013.

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TEATRO E WALMOR – Diário do Nordeste

Nas primeiras viagens ao Rio, eu precisava ver teatro. Essa percepção foi passada a universitários que tiveram a oportunidade de conhecer Pascoal de Carlos Magno, ator, teatrólogo, diplomata e agitador cultural, quando da vinda da “Caravana da Cultura” a Fortaleza. Pascoal queria descobrir novos talentos e ajudar na formação de público que o ouvia no velho teatro do Benfica, que hoje leva o seu nome.
Trouxera, entre outros, Cacilda Becker, a grande atriz. Aqui, além de se apresentar, ela debateu conosco, jovens abertos para o que não sabiam. Cacilda era, então, mulher de Walmor Chagas. Pascoal e Cacilda nos afirmaram ser preciso ver teatro para entender a vida. Foi o que tentei ao assistir My Fair Lady e Hair. Depois, vi Paulo Autran, Procópio e Bibi, Sérgio Brito, Chico Anysio, Fernanda Montenegro, Eva Tudor, Tonia Carrerro e outros. Na Broadway, vi musicais ricos, bem montados, mas alguns são pernósticos.
Ao final de 2012, Fernanda Montenegro, que viveu 60 anos com o ator Fernando Torres, falou da dor de ver a sua geração morrer e declarou: “O mais difícil é saber que você está na fase conclusiva da vida. É melhor encarar”. Relembro agora, faz anos. Estava a conversar com Arialdo Pinho, o pai, ao fim de uma peça, no Centro de Convenções. O papo demorou. Ia abrindo o carro quando Walmor – ele era o ator da peça – me aborda: pode me dar uma carona? Daí, fomos jantar e ele me falou, entre doses de bebida, da grande perda de Cacilda e, já então, da solidão do ator, fora dos refletores. Agora, leio que ele, ao fechar a cena extrema, provou que o isolamento e a velhice não distinguem pessoas.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2013

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BENFOLIA, DESCARTES GADELHA E GURGEL DO AMARAL – Jornal O Estado

O 5º. Benfolia – Festival Carnavalesco demonstra para a cultura e a música cearenses o esforço, o arrojo e a capacidade do Shopping Benfica, sem ajuda pública, para o resgate do imo do carnaval de Fortaleza. Não é saudosismo, pieguice ou vanglória. É a afirmação da identidade que se perdeu nos últimos tempos com a proliferação de ritmos alheios às nossas origens e costumes. Em cada edição convidamos pessoas íntegras (professores universitários de música, carnavalescos, jornalistas, músicos, produtores culturais, radialistas, professora de História, integrantes de blocos etc.) capazes e com bagagem músico/literária para avaliar por critérios claros e abertos os que se destacam e chegam a finalistas como compositores e intérpretes. São 25 jurados para não haver dúvida sobre a escolha dos três vencedores e dois destaques, o melhor compositor e o melhor interprete do Festival. Haverá premiações em dinheiro e entrega de troféus.
Agregamos, neste 2013, a participação de blocos de pré-carnaval que hoje são destaque nesta cidade de Iracema que tem no Benfica um dos seus pólos culturais. Chamamos para o nosso convívio as baterias dos blocos “Vassouras do Babau”, “Cachorra Magra” e “Coração Benfica”
Homenageamos, neste ano, duas figuras especiais que representam a alma e o coração dos que usam seus talentos múltiplos como carnavalescos. São eles:
-Descartes Gadelha, o pintor da cearensidade com figuras que são o que muitos negam, o músico que realça a afro-descendência nos compassos sincopados do maracatu, o combatente contra a sua vida ameaçada por moléstias que o limitam. Mesmo assim, é grande em sua inteireza e cidadania. Ele é um baobá da pintura, da marcação sincopada do triângulo, do bumbo e dos pandeiros da maior escola de samba, a Ispaia Brasa, que tanto brilhou em carnavais passados.
-Gurgel do Amaral usa a maquiagem não como disfarce, mas com a sua capacidade de produzir no ser humano a autoestima carente de adornos. Ele faz da estética efêmera a sua profissão permanente de fé. Envolvem-se em mantos profanos, as fantasias, que engalanaram os salões de bailes pelo Brasil afora. Neste 2003, Gurgel do Amaral, completa 50 anos como esteticista e 30 anos de desfilante Brasil afora. Ontem, quinta-feira, foi a finalíssima da categoria Música, com 15 concorrentes. Hoje, sexta, às 19 horas será o desfile do concurso na categoria Fantasia Luxo, com 08 participantes. Tudo gratuito para quem quiser ver e participar.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/02/2013.

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BALADA DE FOGO – Diário do Nordeste

Até bem pouco tempo não havia baladas. Havia perigo, mas a cidade nos entranhava. Não nos estranhava. Havia festa e bebidas, mas ninguém nos obrigava a beber. Maconha era a pior droga. Os que a fumavam eram “rabos de burro”, só cresciam para baixo. Hoje, as baladas aturdidas principiam nas horas em que os pais estão a dormir. Pode parece estranho, mas vivemos em outro orbe. Este cobra a muleta do aditivo, seja álcool, cheiro, injeção, fumo ou cachimbo. Ele pede a exposição colorida da tatuagem no corpo ou piercings na face. Quem não entra na roda é careta. Sofre o “bullying” pelo qual quase todos passamos, mas não sofríamos porque sequer havia sido avaliado.
Agora, há danos em tudo, há sequelas em filhos que os pais cometem por amor, falta de saber e não existir cursos para pais. Somos todos aprendizes da vida em comum a produzir amor, união, ódio, indiferença ou descaso. Os jovens querem e devem ser livres para crescer e aprender. São resolutos e alguns entram em baladas de fogo sem limites para nada. Esta introdução é apenas para dizer que estou, como todos, abalado com as 234 mortes. Até agora.
A propósito, li uma bela crônica, escrita por quem viveu em Santa Maria, RS. O jornalista Marcello Canellas, seu autor, a conclui assim: “Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto, Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2013.

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BANCOS, CLIENTES E GANÂNCIA – Jornal O Estado

Estória velha: Um índio entra em um banco e pede mil reais emprestados. O gerente pergunta: o que você me dá em garantia? Minha canoa e o remo. Fecham o negócio. Quando o índio ia saindo com o dinheiro, o gerente fala: você deveria deixar o dinheiro aqui, é mais seguro. O índio, na sua sabedoria tabajara, indaga: e o que você me dá em troca? A nossa confiança, boa, boa, boa.
O poeta americano Robert Frost bem define um banco: “é um lugar onde emprestam um guarda-chuva quando há bom tempo e, pedem-no de volta quando começa a chover.” Os bancos, inclusive os brasileiros, deixaram, faz tempo, de ter a função básica de prestar bons serviços a seus clientes. Alguns quebraram, houve fusões com agigantamento de poucos, surgiram os transnacionais. Há já relativo tempo figuram nas páginas policiais. Por trás dos mensalões havia banco com doações e empréstimos de mentirinha. Nas eleições sempre há doações de bancos. Quais as razões?
Hoje, os bancos são apenas estruturas montadas organicamente sob as bênçãos do dinheiro do governo e do povo, para manipular o cliente com formas inimagináveis. Primeiro, todos clientes são suspeitos. Ninguém entra em banco sem passar por triagem. Como a segurança pública não funciona, todos são filmados, nivelados a marginais e alguns chegam a sofrer constrangimentos. Ao adentrar o paraíso, surgem filas, desinformações e o quase descaso no atendimento provocado pela automação e pelos baixos salários que pagam a bancários e estagiários que se restringem a fazer o mínimo necessário. Entretanto, como os bancos são dos que mais gastam com publicidade encantatória, há pouca crítica na mídia. Quando há.
O Banco Central diz que controla as elevadas e automáticas taxas de serviços que cobram por quaisquer misteres solicitados ou não. Acresça-se o alvitre de gerentes, peritos em vender seguros, planos de previdência privada, consignados, cartões de crédito e débitos, capitalização, planos de saúde, fundos com taxas elevadas e outros mais. Suas corretoras de valores ganham em qualquer transação, quer o cliente lucre ou perca.
Quase todos os bancários recebem metas de produtividade e, se não as cumprirem, rua. Quem quiser ler sobre reclamações e ação contra bancos acesse os jornais, sites e blogs dos sindicatos da categoria ou converse com ex-bancários. Vale a pena ainda consultar os décors, os prótons, o Ministério Público e a Justiça. São milhares de demandas e ações em curso. Asdrúbal, velho aposentado ranheta, diz sempre nas reuniões de família: Vocês conhecem algum banqueiro que tenha morrido de coração? E conclui, pimpão. Eles nunca usam o coração.
Para concluir, Erich Fromm, escritor americano do século passado que falava sobre amor e vida, dizia que “a ganância é uma cova sem fundo que esvazia a pessoa em esforço infinito, sem nunca alcançar a satisfação.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2013

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PARTIDOS E CARGOS – Diário do Nordeste

O Estado brasileiro quer regular tudo e acaba não cuidando de muita coisa. Os políticos são essencialmente práticos e não acreditam em teorias. Dane-se a reforma política tão falada e nunca implementada. Querem saber, objetivamente, onde estão verbas, obras, empregos, viagens e visibilidade para eles. Os dos executivos até tentam estabelecer planos, padrões, referências e limites a essa busca sem fim de benefícios e pressões de algumas empresas, sempre ao lado dos governos, quaisquer que sejam.
Imaginem, agora, o quanto estão sendo pressionados os novos prefeitos. Eles precisam de maioria nas câmaras municipais e isso só acontecerá se os vereadores ficarem ledos. Têm pleitos sempre maiores que a capacidade das urbes de absorvê-los. Uma legislação política esdrúxula permitiu a criação 30 partidos e seus dirigentes sabem o que pedir.
Pedem cargos no primeiro escalão, comissionados sem exigir formação e experiência, exceto alguns, e a profusão de vagas “terceirizadas”, sem seleção, mão-de-obra locada a empresas amistosas. Todos devem ter ficha limpa, lembrem-se.
Ninguém sabe, ao certo, quantos são os terceirizados nas 5.570 prefeituras brasileiras, sejam pequenas ou a da cidade de São Paulo. Os políticos têm tudo mapeado e inibem as tentativas sérias da imprensa e dos gestores para formar equipes eficazes. A sociedade, a que paga tudo, deve ter informações em nome da transparência com relatórios, infográficos e números. Cada Prefeito deve dizer como foi recebida a cidade e o que pretende, a partir da realidade, executar. Esclareça até março. Aguardamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2013

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LINCOLN – O filme e a Virtude JORNAL O ESTADO

A história ou estória sempre é contada pelos vencedores. Os derrotados estão mortos, desaparecidos ou não têm espaço para contá-la. Vi o festejado filme “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, a partir de poucos capítulos do livro “Team of Rivals – The Political Genius of Abraham Lincoln, algo como Jogo de Rivais – A Genial política de Abraham Lincoln”.
Spielberg está rico se dá ao luxo de bem escolher e dirigir. Ele desejava se acostar a D.W. Grifith(Abraham Lincoln) e a John Ford com (A Mocidade de Lincoln), grandes diretores e recriadores, cada um a seu jeito, de vários aspectos da vida do menino pobre até a sua chegada à presidência, mas assassinado no começo do segundo mandato.
O Lincoln de Spielberg não conta a história de sua vida de 56 anos (1809-65). É apenas um breve recorte da sua atuação como estadista. Este “Lincoln” mostra, repito, um viés pouco notado na sua biografia. Abraham, como o profeta onomástico, guerreia para unir os americanos. A história é um intricado jogo de interesses entre os partidos Republicano ( o de Lincoln) e os Democratas, visando a aprovação da 13a. emenda à Constituição americana. Lincoln queria – e conseguiu – a abolição da escravatura e precisava jogar pesado para obter votos adversários na Câmara de Representantes. Assim, na verdade, houve distribuição de dinheiro e de cargos para os resistentes aos argumentos de Lincoln. Ao final, cederam. Tudo isso é mostrado, mas encoberto pela virtude/moral/ética calvinista: A pátria acima de tudo.
Esse filme receberá prêmios e poderia ser visto por todos. Especialmente, jornalistas, políticos, advogados, cientistas políticos, magistrados, inclusive os membros do Supremo Tribunal Federal e, certamente, pelos apenados do 1º. mensalão.
Houve uma manobra abjeta, mas ela tinha um objetivo nobre. A pergunta filosófica é: Os fins justificam os meios?. J.B. Butler, filósofo inglês do século 18 deve ter sido lido por Lincoln. Ele assevera: “A virtude, enquanto tal, considera consideráveis vantagens aos virtuosos”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2013.

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RATZINGER E ROMA – Diário do Nordeste

Era uma vez um menino batizado, crismado, primeira comunhão, missas e, no bolso esquerdo, um terço de madeira. Comungava às primeiras sextas-feiras do mês. Entrou na universidade, convidou um doutor em Teologia para pregar a Páscoa. Empós, encontrou-se com o padre. Viu-o de roupas civis: o que houve? Pedi licença e questiono a minha fé. Deus existe?
Cheguei a Roma no fim do Concílio Vaticano II. Com a ajuda de parente bispo, penetrei no conclave. Sentei-me e escutei. Eles adequavam a Igreja às mudanças. Aboliram o latim e a batina. Os padres, frente aos fiéis, celebrariam a missa no vernáculo de país e mais. Voltei outras vezes a Roma e sempre me espantou a pompa das cerimônias, a riqueza dos museus e a ridícula guarda suíça. João XXIII morre e surge Ratzinger.
Estava a zapear a TV e parei numa estação americana. Ratzinger debatia sobre filosofia e fé. Impressionou-me sua cultura e não me surpreendi com a escolha. Fora lastreada na sua longa história Vaticana, na “Intelligentzia”, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a julgar questões intricadas, desde a Inquisição.
Ratzinger eleito mostrou-se cauteloso, em meio às intrigas. O Vaticano é uma Monarquia absoluta. Os fiéis não esqueceram João XXIII e em dos primeiros atos dele foi abrir a canonização, logo acontecida. Pedofilia, escândalos financeiros, divisões e intrigas entre a hierarquia. Elas debilitaram sua saúde e culminaram, após a prisão de seu mordomo, com o calculado gesto de renúncia. Sugestão: Vamos unir a Igreja de Roma à Anglicana e abolir o celibato?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2013.

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THOMAZ POMPEU E A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – Jornal O Estado

Desde 2000, a UNESCO – entidade da ONU a cuidar da Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação – consagra o dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna.
Na noite de ontem, exato 21 de fevereiro deste 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, pairava no planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio, a Academia Cearense de Letras, reunida para falar sobre Thomaz Pompeu. Cultuou-se a língua e a linguagem.
Aconteceu no Palácio da Luz, centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Igreja essa ressaltada e descrita em tintas nas pinturas e nas músicas em ritmo afro de Descartes Gadelha.
A palavra de Thomaz Pompeu foi lembrada a seus seguidores para exercer “a serenidade de investigadores da verdade”. A propósito, a acadêmica Ângela Gutiérrez já havia louvado em 2009, em discurso ali proferido quando da comemoração dos 105 anos da ACL, as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e empreendedor.
Sobre essa face singular ela refere: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”.
Outros empreendedores já integraram a referida ACL. Os principais: Antonio Martins Filho, o reitor fundador/empreendedor da Universidade Federal do Ceará; o jornalista Eduardo Campos, escritor, condômino dos Diários Associados e industrial; e o seu hoje presidente, o empresário imobiliário e bibliófilo José Augusto Bezerra.
A propósito, o maior bibliófilo – amante e colecionador de livros – brasileiro foi também um empreendedor, José Mindlin, criador da Metal Leve.
Os empreendedores citados confiavam e seus seguidores acreditam, além do arrojo em suas ações, no estudo, na informação, no conhecimento e na cultura, indispensáveis ao Brasil atual, a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis para o futuro. Thomaz Pompeu já sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2013