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GUERRAS: 100 ANOS – Diário do Nordeste

Alinhavos: foi em 1º de agosto de 1914 a eclosão a 1ª Grande Guerra. Luta dos impérios alemão, francês, inglês, russo, austro-húngaro com a participação da Itália. A luta foi corpo a corpo, milhões de cadáveres insepultos e o fim da “Liga das Nações”. Mal refeitos, eclode a 2ª Guerra, em 1939. Aliados Inglaterra, EEUU, URSS e mais parceiros levaram seis anos, milhões de mortos, para dizimar a argúcia de Hitler só confirmada no lançamento das bombas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Churchill, em 27.02.1944, escreve para Josef Stalin: “Eu considero a 2ª Guerra como a guerra dos 30 anos contra os alemães”. E se Hitler tivesse ganhado? Vale pensar?
Emerge a ONU-Organização das Nações Unidas. Vitoriosos formulam nova geopolítica na Europa. Eclode a Guerra Fria até 1991, com o fim da URSS e da disputa espacial.
Nesse intervalo, houve as guerras da Coreia, do Vietnã, a invasão do Afeganistão pela Rússia, Irã e Iraque, para citar as maiores. Falta dizer das Américas com a quase invasão de Cuba pelos EEUU (1962), barrada pelos soviéticos. Proliferaram guerrilhas e eclode a ascensão militar no Brasil, na Argentina e no Chile, até meados de 1980.
Agora, agosto de 2014, pulula a eterna disputa entre palestinos e judeus; há indefinição ocidental sobre a invasão da Ucrânia e os dois jatos civis da Malásia. Damo-nos conta de que a Terra é tela exposta, podendo ser atingida por mísseis, frutos da tecnologia da informação. Enquanto isso, o Brasil prepara as Olimpíadas de 2016 e faz eleições. Quem vencerá: a mídia ou o voto?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2014

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JUCA FONTENELLE, VIÇOSALIANAS – Jornal O Estado

“A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento”.
Thomas Mann, escrito
alemão, 1875-1955.
Tenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores comentários. Entre esses figurava a pendência, não da leitura já feita, mas de um simples escólio, sobre a atividade literária de Juca Fontenelle, cidadão, chefe de família e professor na cidade de Viçosa, terra de Clóvis Beviláqua, na benfazeja Serra Grande. Sobre “Viçosalianas” muito já foi dito, mas destaco o que o advogado José Feliciano de Carvalho, admirador e primo do criador, escreveu na Apresentação do livro: “ …considerando o profundo apreço que sempre tive à moral e ao intelecto do encomiado autor, que foi inesquecível professor e, por isso, responsável pela minha formação cultural, nos primeiros tempos de minha vida. Neste comenos, atentei para a acuidade do autor, tanto histórica como estilística, nas crônicas e nos discursos que compunham a obra, ressaltando a pureza da linguagem e o domínio do idioma”.
Feliciano de Carvalho, por sua personalidade e bagagem cultural, tem estofo para fazer juízo de valor sobre a obra de Juca Fontenelle. Mas, nas orelhas da publicação editada pela Expressão Gráfica, 2010, há manifestações outras que endossam as palavras do apresentador. Na crônica “Quatro de Março”, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da história do Ceará e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no longínquo 1935: “Foi algo tão inusitado na história de Viçosa, que passou a ser denominado simplesmente de ‘quatro de março”. E, quando se referia a isso, havia duas hipóteses, realizando-se fatalmente uma das duas, senão ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfarçado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarcástico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Viçosa de então, corria tranquilo o Ano da Graça de 1935. Nem tão tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. Era então o que se costuma chamar de paz dos pântanos, isto é, pacífica é apenas a superfície, porque abaixo dela qualquer coisa, há um oceano de agitação”.
Bastaria o trecho acima para se notar a narrativa escorreita da escrita de Juca Fontenelle, mas faço questão de quase completar o fato: “Salvo engano, governava o Estado do Ceará, o Interventor Federal Felipe Moreira Lima, Oficial do Exército nomeado pelo ditador Getúlio Vargas em sucessão ao dr. Fernandes Távora, que renunciara, ante a avalanche de paixões demonstrada por correligionários que na Oposição não haviam manifestado tamanha voracidade por cargos e posições (algo como o que ocorre hoje, não é coincidência alguma…)”.
Poderia ir mais longe para destrinchar a história, que fica inconclusa, mas já deu para o leitor perceber o atilado descortino do escritor e o seu conhecimento da realidade factual de um tempo pouco lembrado pelos historiadores locais. Outro ponto que me alegrou foi a tentativa de dar ao leitor comum a oportunidade de conhecer a etimologia de algumas palavras não tão usuais na linguagem coloquial do povo. Além disso, deliciei-me com o “Dialeto Viçosaliano” em que destrincha o palavreado coloquial da terra com deformações de forma, própria dos poucos iniciados no vernáculo como alguns que Juca Fontenelle encontrou em sua longa e profícua vida. Escrever é uma arte e isso fica demonstrado nos escritos que compõem essa obra póstuma. Tomo de Pedro Nava a frase: “A memória dos que envelhecem é o elemento básico na construção da tradição familiar”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2014.

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AGOSTO A GOSTO – Jornal O Estado

“O azar não existe. Deus não joga dados”.
Albert Einstein
Será que há meses aziagos? Agosto, derivado de Augusto, o de Roma. Ao ser promovido a cônsul por suas vitórias nas guerras românicas, resolveu ter também um mês seu, de 31 dias, igual a julho, em homenagem a Júlio César. Saindo dessa história, a qual não testemunhei, juro, pergunto se agosto será o culpado por tudo o que acontece de mau conosco! No Brasil há o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, o acidente fatal com Juscelino Kubitschek, a morte de Miguel Arraes e, agora, a de seu neto,Eduardo Campos.
Primeiro vamos lembrar que Antonio Houaiss, dicionarista e, quando vivo, presidente honorário do Partido Socialista Brasileiro-PSB, exato o de Eduardo Campos, falaria algo assim sobre o acidente: acontecimento fortuito, geralmente lamentável. Depois, refiro que o atual presidente do PSB, o cearense Roberto Amaral, era amigo dileto de Houaiss. Se for inesperado, alguma coisa de errada aconteceu, mas nada a ver com o azar que se apropria, como desculpa, do acidente.
Agora, caso a caso: Vargas estava pressionado por Carlos Lacerda e se sentia isolado pelos militares em que confiava. O Palácio do Catete era e é próximo do povo e ele ouvia os comentários, murmúrios e aceitava a defesa a contragosto de seu chefe de segurança, Gregório Fortunato. Gregório era acusado de tramar o ataque da Rua Toneleros, Rio, em que matou o major Vaz,da Aeronáutica, e Lacerda saiu ferido no pé.
Lacerda fez disso um troféu no Congresso Nacional, então na Cinelândia, para dinamitar o já cansado Vargas. Lembre-se que Vargas vinha desde 1930, quando não acatou a vitória, nas urnas, de Júlio Prestes, sob a acusação de fraude e, decidido, dá um golpe de Estado e, com ajuda de militares, destrona o presidente Washington Luiz, em 14 de outubro de 1930, estabelece o fim da República Velha. Em seguida, gere o País a seu modo até 1945. Voltou, eleito, em 1951, mas trazia o peso de sua história pessoal, sofria forte oposição da União Democrática Nacional-UDN, liderada por Lacerda, e os militares não mais o protegiam. Acuado, talvez depressivo, suicidou-se na manhã de 24 de agosto de1954.
Jânio Quadros havia sido eleito presidente em campanha exótica, usando uma vassoura como símbolo para varrer a sujeira da política.Não obteve maioria do Congresso, havia condecorado Ernesto “Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e isto piorou a sua imagem, face a cara feia dos militares e os ouvidos não moucos dos Estados Unidos. Além disso, creem alguns historiadores que Quadros estava bebendo mais que o normal. Tentou, com a carta de renúncia de 25 de agosto de 1961, testar a sua popularidade e se deu mal. João Goulart, o vice-presidente, que visitava a China de Mao Tsé Tung, teve que aceitar o parlamentarismo e Tancredo Neves como primeiro-ministro, para assumir a presidência da República. O resto se sabe.
Juscelino Kubitschek não era tão fagueiro como queria demonstrar ser. Tinha amuo e amor ínvio. Não deglutira bem a sua cassação e fora constrangido a fazer, em 1966, a “aliança” com Carlos Lacerda, João Goulart e Luiz Carlos Prestes. Juntos, lançam o Manifesto da “Frente Ampla” que, logo em seguida, foi impedida pelos militares de se articular. Só Adolph Bloch, na imprensa brasileira, dava guarida a JK. Estava quase isolado. Vinha, no seu carro, de São Paulo para o Rio. Há controvérsias sobre o acidente, mas chovia e a carreta de cargas na outra pista não teve culpa se o Opala de JK atravessou o canteiro central e, na contramão, foi colhido de frente. Ele e o seu motorista Geraldo Ribeiro morreram no acidente. Aventou-se, à época que o Opala teria sido atingido, na traseira, por um ônibus da Viação Cometa, então de propriedade de João Havelange, mas nada restou provado. Era 22 de agosto de 1976.
O cearense Miguel Arraes era fumante inveterado e morreu como deputado federal, aos 88 anos, em 13 de agosto de 2005, após 59 dias de UTI, depois de governar, por três vezes, o Estado de Pernambuco. Vida longa, exílio de verdade, morte sentida, mas previsível para esse político pragmático e, quiçá, socialista utópico, talvez da Escola de Saint Simon e Fourier.
Agora, acontece a morte de Eduardo Campos, no mesmo dia 13, em acidente de avião, nove anos depois. Coincidência?!. Nada está ainda esclarecido, pois o inquérito apenas foi aberto pela Aeronáutica, acolitada pela Polícia Federal que não descarta nenhuma hipótese. A Cessna Aircraft está enviando peritos, pois foi o primeiro acidente com mortes em aviões do modelo 560 XL-Citation. O que terá acontecido? Cansaço erro da tripulação? Mau tempo? Defeito no avião por ausência de manutenção? Múltipla utilização (19 voos em 12 dias), cruzando o Brasil em todas as direções, com vários pousos e decolagem no mesmo dia? Pilotos privados são iguais a todos nós, têm insônia, sofrem o estresse da profissão e ainda a responsabilidade de conduzir um atarefado candidato a presidência da República. O tempo responderá.
Agora,você ainda vai continuar a culpar o mês de agosto, também porque um avião da Malasya Airlines, com 294 pessoas, foi derrubado por um míssil terra-ar fabricado na Rússia, em plena Crimeia, ex-Ucrânia, em meio a uma guerra não de todo aclarada?
Calma, não acredite em maldições, bruxas e azar, mas procure ver cada acontecimento em sua conjuntura específica. Creio na absolvição do mês de agosto, o mês em que vim ao mundo, exato no dia de hoje.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2014

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O INSONDÁVEL – Diário do Nordeste

O que a morte, esta ceifadora, nos mostra a cada vez que nos deparamos com os seus desígnios? Que somos apenas partículas de um cosmo imenso no qual não temos poder ou ingerência significativa. Não colhemos o que plantamos. Plantamos o possível para nós, mas a colheita depende de inúmeros outros fatores imponderáveis. Cada vida é uma proposta de esperança. Baruch Spinoza, filósofo holandês, já no século 17 nos dizia: “Não há esperança sem medo, nem medo sem esperança”. Plauto, comediógrafo latino, séculos antes de Cristo nascer, repetia: “O que não se espera acontece com mais frequência do que o que se espera”. É o insondável a que me refiro no título.
A pessoa humana, entretanto, por mais preparo e empenho que tenha de acertar o viver, vai para o dia seguinte às cegas. E esse dia seguinte é o hoje, o agora, aquilo que está acontecendo ou será o vir-a-ser do amanhã? Cada dia tem a sua luz, o seu vento e o tal do insondável sempre à espreita. Eles incidem de modo e forma distinta sobre os viventes. A fé nos ensina regras básicas de comportamento, mas estamos dispostos a cumpri-las? Assim, vai-se indo no barco do existir com dois remos, a esperança e a incerteza, até que a morte, alcunhada de tantos nomes, nos alcance do jeito que quer e na hora dela.
Nada de fatalismo, acredite, mas mesmo remando com aprumo, sabendo o azimute, usando o GPS possível, tomando precauções e seguindo um plano predeterminado, o casco do barco da vida pode bater em uma pedra invisível. E, parodiando o poeta, há sempre pedras no caminho.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2014.

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ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – NOVA AOS 120 ANOS – Jornal O Estado

Na lua nova de ontem, 28 de agosto de 2014, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras realizou solenidade pela passagem dos seus 120 de existência. É fácil saber que as academias tiveram origem na Grécia antiga, sob a égide de Platão, quatro séculos antes de Cristo. Vinte e três séculos depois, seguindo os moldes da Academia Francesa, um grupo de literatos cearenses, em 15 de agosto de 1894, fundou a Academia Cearense, então a única no Brasil.
Este fato, por si só, é um acontecimento, pois tirou da então capital metrópole, Rio de Janeiro, a primazia da tessitura e da formatação de uma entidade pioneira voltada, unicamente, ao culto das letras, em todas as suas formas. Orgulhem-se, pois, todos os cearenses por termos fundado a primeira academia de letras do Brasil, apenas cinco anos depois de proclamada a República.
A Academia Cearense de Letras é composta de 40 membros, patroneados por nomes ilustres da nossa cultura, eleitos em processos abertos, a partir de edital publicado com as regras de saber exigidas para o ingresso. O eleito deverá ter mais de 21 votos no primeiro escrutínio. Não alcançado esse número, haverá uma nova eleição entre os dois mais votados. Em seguida, cumprido o prazo legal, é marcada a solenidade de posse.
O atual quadro acadêmico é composto dos seguintes membros: Ângela Gutiérrez, Artur Eduardo Benevides, Beatriz Alcântara, Carlos Augusto Viana, Carlos D’Alge, César Asfor Rocha, César Barros Leal, Cid Sabóia de Carvalho, Dimas Macedo, Ednilo Soárez, Eduardo Diatahy B. de Menezes, Ernando Uchôa Lima, F. S. Nascimento, Francisco Sadoc de Araújo, Genuíno Sales, Giselda Medeiros, Horácio Dídimo, João Soares Neto, José Augusto Bezerra, José Batista de Lima, José Murilo de C. Martins, José Telles da Silva, Juarez Leitão, Linhares Filho, Luciano Maia, Lúcio Alcântara, Manfredo Tomás Ramos, Lourdinha Leite Barbosa, Marly Vasconcelos, Mauro Benevides, Napoleão Maia, Noemi Elisa Aderaldo, Paulo Bonavides, Pedro Henrique Saraiva Leão, Pedro Paulo Montenegro, Regine Limaverde, Sânzio de Azevedo, Teoberto Landim, Ubiratan Aguiar e Virgílio Maia.
Ouvimos de alguns acadêmicos suas impressões sobre o transcurso dos 120 anos da ACL, cujo, Presidente de honra é o poeta Artur Eduardo Benevides. O bibliófilo José Augusto Bezerra, atual presidente, asseverou: “a Academia Cearense de Letras é a maior grife intelectual do Ceará para todo o Brasil”. Por sua vez, Pedro Henrique Saraiva Leão afirma ser a ACL “prova evidente do pioneirismo cearense no campo literário. Foi uma honra tê-la presidido”.
Para Giselda Medeiros “a comemoração dos 120 anos da ACL é o evento maior de 2014 dentro da cultura cearense”. Para Eduardo Diatahy “é um espanto estar existindo no meio da parafernália de uma cultura de espetáculo; aludo a uma instituição que visa a produção literária e preservar o seu acervo”. Já Horácio Dídimo refere que “a ACL foi o coroamento da minha formação literária, e deu a oportunidade de ver nos colegas acadêmicos a evolução da cultura cearense”.
Cid Carvalho, enfático, diz: “Além de ser a mais antiga Academia é, igualmente, a de mais longo brilho na história literária brasileira”. Ubiratan Aguiar pondera: “A vanguarda do Ceará não se fez mostrar somente pela libertação dos escravos. Mas, e principalmente, na cultura, com a criação de uma Academia local”.
Por fim, resta-me lembrar da memória de todos os acadêmicos que nos precederam nesse sonho de tornar perpétuo o conhecimento e o desenvolvimento da literatura, em todas as formas e todos os gêneros. Estamos atentos ao progresso dos costumes e das letras, mas guardamos nas nossas almas a curiosidade e o viço da descoberta que aflora em cada página em branco, escrita ou virtual, com a qual nos deparamos a cada dia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2014.

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FORTALEZA – 2040 – Diário do Nordeste

As cidades, desde o século passado, perderam o bucolismo e passaram a ser apenas os lugares onde moramos, cada um a seu modo. Por mais que planejadores urbanos tenham procurado ordenar as ocupações, elas fugiram aos controles e, hoje, estão eivadas de problemas.
Fortaleza, na metade do século passado, possuía 250 mil habitantes. Quase não havia saneamento básico, a pavimentação se restringia às vias principais: pedra tosca, paralelepípedo e, poucas com asfalto. Hoje, predomina o asfalto por onde trafegam quase um milhão de veículos, entre coletivos, caminhões, táxis, autos públicos e particulares, carroças de catadores e as motos a fazerem balés suicidas em meio a tudo isso.
Neste 2014, surge o “Fortaleza 2040”. Eudoro Santana, pres. Do Iplanfor, enumera: 1. “Como está Fortaleza”? – o diagnóstico da situação atual, tendências, ameaças e oportunidades que venham a surgir2. Qual a Fortaleza desejada? O futuro almejado (o sonho) 3. Quais os principais desafios para conquistarmos a Fortaleza desejada? 4. O que fazer e como fazer para chegar lá? 5. O que fazer e como garantir para que o plano “Fortaleza 2040” seja executado? Assim, todos nós, estamos sendo desafiados a contribuir com o nosso quinhão de civilidade e, dentro das possibilidades de cada um, lutar com ideias e atos concretos para que as desigualdades diminuam.
Sem retórica, é preciso uma concertação de esforços para trocar o assistencialismo por viva participação dos que têm mais e devem ajudar na construção desse Plano que se imagina coletivo e acessível. Compartilhe o “Fortaleza-2040”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2014.

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O QUE É A PÁTRIA BRASIL? – Jornal O Estado

Depois de amanhã, 7 de Setembro, comemoraremos o Dia da Pátria. O que é a Pátria Brasil? Com certeza, a Pátria não é a realização de uma Copa do Mundo de Futebol que custou bilhões de reais e deu no que deu. Tampouco é a forma caricata e nomes estrambóticos como alguns candidatos a deputados federais e estaduais se apresentam nos atuais programas gratuitos de televisão. Sequer é a partidarização que alguns órgãos de comunicação adotam de forma velada para destruir as imagens de candidatos a governadores e à presidência da República. Tampouco.
A Pátria passa longe disso. Sabe-se, por óbvio, que é a nação em que cada um nasceu. Além disso, é também o albergue dos que, sendo estrangeiros, resolveram optar por sua cidadania, ali residindo, constituindo família, produzindo saberes ou riquezas. O patriotismo é simples, bastar amar e respeitar. O amor e o respeito se manifestam no comportamento cidadão, nas atitudes profissionais, no acatamento às leis, na reverência aos símbolos nacionais (bandeira, brasão e hino), na preservação e no cuidado do uso de suas riquezas naturais no subsolo, na posse racional e útil do domínio territorial, do modo correto de aproveitar açudes, lagoas, rios, transposições, hidrelétricas e da apropriação devida do mar territorial. Além disso, a crença num país melhor, menos desigual e sem preconceitos.
“Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor a terra desce” é uma parte mínima do escrito por Joaquim Osório Duque Estrada na tessitura do texto do Hino Nacional, musicado, depois, por Francisco Manuel da Silva. Você já sonhou com um Brasil sem complexo de vira-lata? Você tem amor à terra que o abriga, alimenta e dá o seu sustento? Atente para esta outra parte do Hino: “Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso e o teu futuro espelha zssa grandeza”.
O que você está fazendo pelo futuro do País? Ou você já entrou no time dos que acreditam que ele será sempre – como dizia nos anos 1940, Stefan Zeig-o país do futuro? O futuro se faz com o presente de cada um de nós. Depende de nossas atitudes, da educação continuada, da não indiferença pelo que é sério e carece da nossa participação certeira. Eu poderia estar usando esse espaço para platitudes, mas isso não me conforta. Todos poderemos agregar valor ao país que recebemos dos nossos pais ou,se imigrantes, elegemos para morar.
É bom atentar, neste mês pré-eleitoral, para o que já dizia no século passado o jornalista Sérgio Porto, através de seu personagem Stanislaw Ponte Preta: “a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”. Não deixemos que isso seja a constante. O Brasil tem jeito, sim. Cada voto é uma flecha. É bom que seja certeiro, sensato, correto, judicioso, para não reclamarmos depois.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/09/2014.

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ABSTRAÇÕES DUPLAS – Diário do Nordeste

Abstração é substantivo feminino, sabe-se. Na arte, a abstração é algo mais complexo, parte, quiçá, da interpretação filosófica de espaçar mentalmente coisas, fatos e representações. O abstracionismo como arte, entretanto, não carece de explicação laica como a que tartamudeei acima. Foi no começo do século 20 quando Kandinsky e Piet Mondrian romperam com os cânones então vigentes e começaram a fazer “garranchos”, traços, curvas, pontos e retas sem que aparecessem figuras, mas clarificassem a densidade das cores ou a inovação do indizível pelos já contaminados com a pintura clássica.
O nariz de cera acima objetiva dizer que há na Unifor uma ampla exposição abstracionista em curso com entrada pela Washington Soares. Muito se falou dela. É bom que mais se diga. Use o seu tempo livre e tente abstrair-se do mundo real que o sufoca. Vá lá, não se paga nada e, se a modéstia permitir, peça ajuda a alguma pessoa treinada para caminhar com você em todo o percurso que medeia a junção de parte dos acervos da Fundação Edson Queiroz e da Coleção Roberto Marinho.
Darei a mão à palmatória se você seguir a recomendação e sair de lá insatisfeito. Duvido. Quando nada, poderá dizer que há mais imaginação difusa do que via antes. Poderá duvidar do seu conceito de arte pictórica, mas, decerto, sairá leve e encorpado para responder as demandas do mundo real que deixou lá fora. A arte, ao meu pensar, consiste na fusão do seu olhar com o objeto admirado. Ela, sem o seu olhar, não existe. Por tal razão, encareço, vá lá e veja.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2014

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11 DE SETEMBRO, 13 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Ontem, 11 de setembro. Há 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. À época, escrevi o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, há novas ameaças de toda natureza no cadinho da área que abriga países como Iraque, Irã, Afeganistão, Síria e outros. Isto sem falar na questão Russa e Ucrânia. Tudo conspira contra a paz. A União Europeia e os EEUU se reúnem. Daí, resolvi mostrar, de forma aleatória, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:
A FESTA DO SACRIFÍCIO -Tárik nasceu em Jalalabad no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país. Cicatrizado, viu-se em meio a multidões que andavam em grupos pelas ruas destroçadas. Tomara consciência de que eram vencedores da guerra contra os soviéticos, mas só via miséria. Era o mês do Ramadã, a época sagrada em que se comemorava a primeira revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira iluminação. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?
Orou com esperança e teve a sensação de que uma fé mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multidão que se formara defronte à mesquita e para lá se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de feições graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o único Deus, pedia a todos os muçulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injustiça de Satã. Terminada a oração o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminhão. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranqüilas. O caminhão deixou Cabul e dirigiu-se às montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e árvores ressequidas. Todos desceram e foi aí que notaram sua presença. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio àqueles homens obstinados. Foi detido e levado à presença do homem alto. Este ouviu a sua história, deu-lhe um Alcorão surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. Tárik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.
O homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. Tárik foi descobrindo, fascinado, a glória da informação e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: é preciso que você leve a força de Allah para lugares profanos. Vá, misture-se a eles, mas nunca perca a sua fé. Irmãos o acolherão. Aprenda a língua dos ímpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, nós manteremos contato. Agora, Tárik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, calça, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcorão e quatro agulhas de tricô enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuseá-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na máquina de raio-x e a recebeu com indiferença no outro lado da esteira. Não olhava para os lados, mas não estava só. Tinham todos os mesmos pares de tênis, novos, pretos com cadarços vermelhos. Esta era a senha. O avião taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da “Eid al adha”, a festa do sacrifício, e receberia o perdão divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.
O GRANDE DIA – Nascera negro, pobre e paralítico. É bem verdade que não era mais paralítico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua mãe, por mera ignorância, não o imunizara com a vacina salvadora. Também, desculpava-se ele, sua mãe dedicou o resto da vida a protegê-lo, a prepará-lo para o mundo que ela não entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Geórgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas não a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital público, deu-lhe sustento, uma pequena casa na região sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.
George foi cedo para a escola. Teve a assistência de um pastor luterano que providenciou a prótese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, responsável e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedicação da mãe. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e não conteve o choro quando sua mãe, já alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu prêmio de melhor da turma. Amava seu país, acreditava na ascensão social e já não doía tanto a lembrança dos avós escravos que não conhecera. Ainda não encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia músicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de sério e na sua ética luterana se culpava das poucas vezes em que, solitário, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua mãe.
Acreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque há uma semana para uma entrevista de trabalho. Um caçador de talentos o convocara por seu currículo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. Óculos de aros finos, cabelos cortados rente que disfarçavam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.
Subiu receoso ao elevadíssimo andar daquele prédio tão famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na América. Seu entrevistador era só um pouco mais velho que ele e o recebeu com atenção, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solitário no dedo mínimo da mão esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acadêmica e não disfarçou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Começaria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do aniversário de sua mãe, que sorte.
Hoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metrô que liam jornais ou ouviam músicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a mãe mais tarde. Às 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crachá eletrônico e alegrou-se de estar naquele elevador tão grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas à mão. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barcaça que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, atônito, num lampejo, viu o avião.
OS NÚMEROS – Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.
Esquálido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminhão carregado de mantimentos. Viu-se, após algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abraçar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das forças possuídas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.
Agora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mestiça que puxara à graça de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar inglês. Não fizera fortuna, mas seu emprego de mecânico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.
Hoje, cansado, não deixava de olhar por trás de suas grossas lentes, os números tatuados em seu braço: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.
De repente, um pressentimento estranho veio à sua mente. Aqueles números pareciam estar formando uma data próxima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? Não poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de viúvo solitário, pensou à exaustão. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo só: marcou uma reunião de família para a manhã do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a força que tinha. Houve resmungos, pois seria uma terça-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da família. O que seria?
Chegaram todos. Até o neto prodígio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no prédio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos braços a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manhã e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de Ação de Graças, mas não era.
O velho chefe da família olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas. Estava alegre por tê-los a seu lado, mas triste, por não saber explicar a razão daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fatídica em seu braço.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2014

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BIOTECNOLOGIA ISB2014 – Diário do Nordeste

Em 2008 fui convidado pelo Professor José Osvaldo Carioca a acompanhá-lo à China, para um Congresso de Biotecnologia que coincidia com o fim das Olímpiadas. Relutei. Já havia ido à Ásia. A curiosidade venceu. Voamos 32 horas até Dalian, cidade de seis milhões no interior sino. Seria lá o Simpósio Internacional de Biotecnologia em belo centro de convenções. Ao meio do conclave, o professor Carioca, no seu jeito particular, disse: Vou levar este simpósio para o Brasil – e tornou clara a sua intenção para o “Board”.
Agora, de hoje ao dia 19, Fortaleza recebe o 16º Simpósio Internacional de Biotecnologia, promovido pela IUPAC- International Union of Pure and Applied Technology. Esse evento teve o seu início em Kioto, Japão, 1972. Depois, a cada quatro anos em continentes distintos. A partir de 2008 passou a ser bienal pela importância da temática e interesses da Academia e da Indústria, que se beneficiam pela troca de conhecimentos.
Ao simpósio em Dalian na China, já referido, compareceram dois laureados com o Prêmio Nobel. A escolha de Fortaleza se deu em face do reconhecimento aos saberes do Professor Osvaldo Carioca, único brasileiro a compor a Federação Europeia de Biotecnologia. O objetivo do encontro será promover a inovação e negócios com biodiversidade, proporcionando maior competitividade em relação à posição atual do Brasil, centrada na exportação de commodities. O fulcro será “Biotecnologia para o desenvolvimento da economia verde”. O Professor Carioca será o “Chairman” do 16th IBS, a completar seu périplo ao redor do mundo.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2014