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ABSTRAÇÕES DUPLAS – Diário do Nordeste

Abstração é substantivo feminino, sabe-se. Na arte, a abstração é algo mais complexo, parte, quiçá, da interpretação filosófica de espaçar mentalmente coisas, fatos e representações. O abstracionismo como arte, entretanto, não carece de explicação laica como a que tartamudeei acima. Foi no começo do século 20 quando Kandinsky e Piet Mondrian romperam com os cânones então vigentes e começaram a fazer “garranchos”, traços, curvas, pontos e retas sem que aparecessem figuras, mas clarificassem a densidade das cores ou a inovação do indizível pelos já contaminados com a pintura clássica.
O nariz de cera acima objetiva dizer que há na Unifor uma ampla exposição abstracionista em curso com entrada pela Washington Soares. Muito se falou dela. É bom que mais se diga. Use o seu tempo livre e tente abstrair-se do mundo real que o sufoca. Vá lá, não se paga nada e, se a modéstia permitir, peça ajuda a alguma pessoa treinada para caminhar com você em todo o percurso que medeia a junção de parte dos acervos da Fundação Edson Queiroz e da Coleção Roberto Marinho.
Darei a mão à palmatória se você seguir a recomendação e sair de lá insatisfeito. Duvido. Quando nada, poderá dizer que há mais imaginação difusa do que via antes. Poderá duvidar do seu conceito de arte pictórica, mas, decerto, sairá leve e encorpado para responder as demandas do mundo real que deixou lá fora. A arte, ao meu pensar, consiste na fusão do seu olhar com o objeto admirado. Ela, sem o seu olhar, não existe. Por tal razão, encareço, vá lá e veja.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2014

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11 DE SETEMBRO, 13 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Ontem, 11 de setembro. Há 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. À época, escrevi o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, há novas ameaças de toda natureza no cadinho da área que abriga países como Iraque, Irã, Afeganistão, Síria e outros. Isto sem falar na questão Russa e Ucrânia. Tudo conspira contra a paz. A União Europeia e os EEUU se reúnem. Daí, resolvi mostrar, de forma aleatória, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:
A FESTA DO SACRIFÍCIO -Tárik nasceu em Jalalabad no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país. Cicatrizado, viu-se em meio a multidões que andavam em grupos pelas ruas destroçadas. Tomara consciência de que eram vencedores da guerra contra os soviéticos, mas só via miséria. Era o mês do Ramadã, a época sagrada em que se comemorava a primeira revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira iluminação. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?
Orou com esperança e teve a sensação de que uma fé mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multidão que se formara defronte à mesquita e para lá se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de feições graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o único Deus, pedia a todos os muçulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injustiça de Satã. Terminada a oração o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminhão. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranqüilas. O caminhão deixou Cabul e dirigiu-se às montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e árvores ressequidas. Todos desceram e foi aí que notaram sua presença. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio àqueles homens obstinados. Foi detido e levado à presença do homem alto. Este ouviu a sua história, deu-lhe um Alcorão surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. Tárik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.
O homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. Tárik foi descobrindo, fascinado, a glória da informação e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: é preciso que você leve a força de Allah para lugares profanos. Vá, misture-se a eles, mas nunca perca a sua fé. Irmãos o acolherão. Aprenda a língua dos ímpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, nós manteremos contato. Agora, Tárik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, calça, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcorão e quatro agulhas de tricô enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuseá-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na máquina de raio-x e a recebeu com indiferença no outro lado da esteira. Não olhava para os lados, mas não estava só. Tinham todos os mesmos pares de tênis, novos, pretos com cadarços vermelhos. Esta era a senha. O avião taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da “Eid al adha”, a festa do sacrifício, e receberia o perdão divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.
O GRANDE DIA – Nascera negro, pobre e paralítico. É bem verdade que não era mais paralítico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua mãe, por mera ignorância, não o imunizara com a vacina salvadora. Também, desculpava-se ele, sua mãe dedicou o resto da vida a protegê-lo, a prepará-lo para o mundo que ela não entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Geórgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas não a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital público, deu-lhe sustento, uma pequena casa na região sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.
George foi cedo para a escola. Teve a assistência de um pastor luterano que providenciou a prótese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, responsável e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedicação da mãe. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e não conteve o choro quando sua mãe, já alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu prêmio de melhor da turma. Amava seu país, acreditava na ascensão social e já não doía tanto a lembrança dos avós escravos que não conhecera. Ainda não encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia músicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de sério e na sua ética luterana se culpava das poucas vezes em que, solitário, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua mãe.
Acreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque há uma semana para uma entrevista de trabalho. Um caçador de talentos o convocara por seu currículo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. Óculos de aros finos, cabelos cortados rente que disfarçavam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.
Subiu receoso ao elevadíssimo andar daquele prédio tão famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na América. Seu entrevistador era só um pouco mais velho que ele e o recebeu com atenção, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solitário no dedo mínimo da mão esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acadêmica e não disfarçou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Começaria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do aniversário de sua mãe, que sorte.
Hoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metrô que liam jornais ou ouviam músicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a mãe mais tarde. Às 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crachá eletrônico e alegrou-se de estar naquele elevador tão grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas à mão. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barcaça que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, atônito, num lampejo, viu o avião.
OS NÚMEROS – Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.
Esquálido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminhão carregado de mantimentos. Viu-se, após algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abraçar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das forças possuídas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.
Agora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mestiça que puxara à graça de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar inglês. Não fizera fortuna, mas seu emprego de mecânico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.
Hoje, cansado, não deixava de olhar por trás de suas grossas lentes, os números tatuados em seu braço: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.
De repente, um pressentimento estranho veio à sua mente. Aqueles números pareciam estar formando uma data próxima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? Não poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de viúvo solitário, pensou à exaustão. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo só: marcou uma reunião de família para a manhã do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a força que tinha. Houve resmungos, pois seria uma terça-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da família. O que seria?
Chegaram todos. Até o neto prodígio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no prédio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos braços a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manhã e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de Ação de Graças, mas não era.
O velho chefe da família olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas. Estava alegre por tê-los a seu lado, mas triste, por não saber explicar a razão daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fatídica em seu braço.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2014

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BIOTECNOLOGIA ISB2014 – Diário do Nordeste

Em 2008 fui convidado pelo Professor José Osvaldo Carioca a acompanhá-lo à China, para um Congresso de Biotecnologia que coincidia com o fim das Olímpiadas. Relutei. Já havia ido à Ásia. A curiosidade venceu. Voamos 32 horas até Dalian, cidade de seis milhões no interior sino. Seria lá o Simpósio Internacional de Biotecnologia em belo centro de convenções. Ao meio do conclave, o professor Carioca, no seu jeito particular, disse: Vou levar este simpósio para o Brasil – e tornou clara a sua intenção para o “Board”.
Agora, de hoje ao dia 19, Fortaleza recebe o 16º Simpósio Internacional de Biotecnologia, promovido pela IUPAC- International Union of Pure and Applied Technology. Esse evento teve o seu início em Kioto, Japão, 1972. Depois, a cada quatro anos em continentes distintos. A partir de 2008 passou a ser bienal pela importância da temática e interesses da Academia e da Indústria, que se beneficiam pela troca de conhecimentos.
Ao simpósio em Dalian na China, já referido, compareceram dois laureados com o Prêmio Nobel. A escolha de Fortaleza se deu em face do reconhecimento aos saberes do Professor Osvaldo Carioca, único brasileiro a compor a Federação Europeia de Biotecnologia. O objetivo do encontro será promover a inovação e negócios com biodiversidade, proporcionando maior competitividade em relação à posição atual do Brasil, centrada na exportação de commodities. O fulcro será “Biotecnologia para o desenvolvimento da economia verde”. O Professor Carioca será o “Chairman” do 16th IBS, a completar seu périplo ao redor do mundo.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2014

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PROUST: A BUSCA DO TEMPO E A ERA DO INSTANTE – Jornal O Estado

“Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!” – Bertold Brecht (1898-1956), escritor alemão.
O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, à sua época, diletante e presunçoso. Antes da chegada do século XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha “Marcel Proust: A Life”, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa história consta que o jornal francês “Le Temps”, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra ‘’No Caminho de Swan”. Em resposta, Proust teria dito: “Minha obra está dominada pela distinção entre a memória voluntária e a memória involuntária”. Segundo ele, a voluntária “é uma memória da inteligência e dos olhos”. Por outro lado, a involuntária pretende ser o objetivo da preocupação, pois foge à razão e possui “a marca da autenticidade”.
Carter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia elétrica, telefone ou automóvel, mas “até 1910 ele testemunhou a invenção da energia elétrica, do telefone, do automóvel, do cinema, do avião e do metrô de Paris”. Um choque. A esse conjunto de invenções, Proust chamou de “era da velocidade”.
Agora, 2014, estamos vivendo uma era em que as múltiplas faces da Internet, por suas ditas mídias sociais, falam a verdade e/ou propagam mentiras, ilações, opiniões desencontradas, dados, filmetes e imagens que são repetidos “ad nauseam”. É difícil para muitos fazer a distinção entre a realidade, o mito e as inserções com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse páreo, os que forem mais enfáticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, criação ou mera especulação. O que escrevi acima se lastreia – em parte – em observações do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o “Eu&Cultura”.
Para ele: “Pensadores contemporâneos começaram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade construída em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta ameaça à espontaneidade das relações humanas”. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como “personas”, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas próprias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam.
Nestes tempos que nos aproximam das eleições de 05 de outubro, é bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de memórias que usamos para formar um juízo de valor: a voluntária (a da Inteligência) e a involuntária, a que foge da razão.
Não vivemos mais na “era da velocidade”, mas, ao meu pensar, na “era do instante”, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas mídias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plausível e aceito pelos que não fazem da inteligência e da razão os seus guias. Refletir dá trabalho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2014

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SISTEMA “S” E O HOJE – Diário do Nordeste

A estrutura sindical é resultado dos períodos ditatorial e democrático de Vargas, ampliada na Constituição de 1988. Hoje, outros tempos, permanece onerosa no país perdido entre o passadismo erradio e um futuro incerto. Não se fala apenas em sindicatos. Escrevem mal sobre parte de federações e confederações de trabalhadores e patrões. Os “S” seriam focos de: dominação, desperdício, compadrio com o poder, premiações anuais interesseiras, pesquisas direcionadas e abrigos de “ex-tudo”. Há exceções, é claro.
Existem denúncias públicas. Exemplo: o uso explícito da máquina de poderosa federação sudestina para alavancar candidatura a governador de Estado. O país “S” gera lobistas/atravessadores, assessores, vereadores, deputados e senadores; é luta pelo poder, sem coerência institucional ou ideológica. Os bilhões de reais anuais das contribuições sindicais de empregados e patrões são, apenas em parte, investidos em treinamentos e formação de força de trabalho. Cita-se que há, quase sempre, pagamento adicional para a obtenção de vagas nos cursos nos “S”. Cofres cheios. Há estrutura mastodôntica, empregos “vitalícios”, prédios suntuosos, viagens gratuitas pelo Brasil e exterior. Eleições com cargos disputados, (des) acordos entre facções. Se o que lê parecer grave, veja só um exemplo: os jornais Valor e Folha de SP, 27.02.2014, publicam nota paga pelo SENAC-RJ contra o presidente da Confederação do Comércio, há quase 40 anos no poder.
Autofagia exposta. É hora de as mídias, o TCU, o MPF e o Congresso Nacional reverem essas capitanias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2014.

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CIDADES, O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE – Jornal O Estado

“As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX.
Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população.
As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema.
O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação.
Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”.
Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT – Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014

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MENINAS E VACINAS – Diário do Nordeste

Sabemos que a área de saúde atua por campanhas para prevenir despesas públicas com o tratamento de futuras doenças. Desde alguns anos, achou-se necessário distribuir preservativos para jovens o ano inteiro.
Sei que o mundo é livre para quem não sabe ainda o alcance dos seus voos. Os limites são fundamentos passados pela família, pela escola, pela fé ou pela turma da rua, da esquina, do futebol, da roda de samba, do trabalho. E a vida vai. Depois do carnaval neste março de confusão entre a Rússia e a Ucrânia, dos atritos entre alas do PMDB e o Palácio do Planalto, emergiu, na última segunda-feira, a boa campanha de saúde pública para vacinar meninas entre 11 a 13 anos contra o HPV (Papiloma Vírus Humano). O HPV pode causar câncer de colo de útero e outras doenças genitais. É preciso que as famílias entendam que as jovens devem ser vacinadas contra o HPV antes do início das suas vidas sexuais. Isso não significa dizer que a vacina libera a jovem para a vida sexual. Não, nada disso. Serão três doses: uma agora; outra, daqui a seis meses, em agosto; e a última, daqui a cinco anos. Este registro foge ao escopo do que escrevo, mas o faço por saber que, baseado em dados estatísticos, 5.000 mulheres morrerão no Brasil, neste 2014, de câncer de colo de útero e outras 15.000 serão infectadas pelo HPV.
Ao receber as doses da vacina, a jovem cria anticorpos, mas isso não a liberará das prevenções indispensáveis ao longo da vida adulta.
Que pais e filhas se unam e conversem abertamente, antes que as mídias sociais o façam com os equívocos de sempre.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2014.

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CAFÉ AOS DOMINGOS – Diário do Nordeste

A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita.
Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O “Tico”, pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela.
A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias.
Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer.
Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias.
À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do “Tico”, a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava.
Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a “bênção” que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014

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O TATU-BOLA E O DICIONÁRIO – Jornal O Estado

“A alegria torna o homem sociável, a dor individualiza-o.” Friedrich Hebbel, poeta e dramaturgo alemão(1813-1863). Diários, 1847..
Uma cadeira cedida e eis-me amigo de Ingrid Schwamborn, professora PhD, alemã e apaixonada pelo Brasil. Faz mais de um lustro. Nesse tempo de e-mails trocados e raras conversas não virtuais, já confundimos ideias, discutimos, divergimos e, afinal, parece consolidar-se esse liame intelectual que se alimenta de dissonâncias e uma negociada harmonia.
Neste 2014 ela investe, juntamente com Rodrigo Castro e Hans-Jürgen Fiege na criação um dicionário alemão-brasileiro sobre palavras usadas no cotidiano do futebol.Insere o Tatu-bola como representação simbólica da fauna nacional pela sua similitude com o esférico que já teve o nome de pelota.
O curioso animal, cujo nome tem origem tupi-guarani, foi, em 2012, proposto por Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, do Ceará, à Fifa, em Zürich, como mascote para a Copa de 2014. O intuito era chamar atenção a essa espécie em perigo de extinção e protegê-la no seu habitat, a caatinga. Foi aceito.
A bola, hoje feita por multinacionais de equipamentos para o esporte, recebe tantos requintes que, em tempo não muito distante, dirá, através de chips, ao árbitro – que já foi juiz, referree, schiedsrichter e que tais – de suas queixas e dos maus-tratos sofridos quando as garras, das hoje sofisticadas e coloridas chuteiras, a maltratarem.
Fui menino acompanhando meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, duas vezes presidente do Fortaleza Esporte Clube – desde a sede da Rua Júlio César – assim nomeado em homenagem a Fortaleza, uma das doze cidades-sede de jogos da Copa do Mundo. Com meu pai fui a treinos, concentrações e jogos.Tive tristezas, desapontamentos e alegrias. Registro, ainda hoje, o prazer de ter visto o Estádio do Maracanã, com o seu maior público(183.000) de todos os tempos, quando o Brasil venceu o Paraguai por 1X0, nas eliminatórias da Copa de 1970. Hoje, sou conselheiro do mesmo Fortaleza, clube que me faz voltar a ser menino e mexe, acreditem, com as minhas sístoles e diástoles.
Nesse dicionário bilíngue, une-se o português do Brasil – que difere do falado e escrito em Portugal – ao alemão. Cada povo vê e usa de maneira diferente o seu vernáculo. O futebol, palavra e jogo, tem raiz britânica, mas Ingrid, com a lupa de historiadora que é, repercutiu a paixão familiar dos velhos tempos. Era a época em que os passes magistrais de jogadores – players, spieler – do meio campo (half, mittelstümer), para as cabeçadas certeiras de um forward,stümer, hoje atacante, contra goalkeepers, torhüter, que tornaram-se goleiros e arqueiros.
Sabe-se que futebol é uma guerra festiva. O gol é o objetivo, mas, para isso, é preciso fazer várias “blitzen” e desmontar a defesa “inimiga”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2014. A Fifa, senhora guardiã dos direitos do “football association” ao redor do mundo, impõe regras.
Os 90 minutos de cada jogo disputado pelas 32 seleções foram precedidos de projetos, análises, vistorias, acidentes de trabalho, lutas para comprar ingressos, diversos protocolos e, claro, mídia intensa. O Brasil espera alegria, festa e congraçamento. Que não ocorra o contrário.
Volto ao Dicionário. Desejo que seus futuros usuários façam bom uso das palavras e as empreguem de forma fraterna. Mais cedo do que imaginamos a Copa acabará e, nós, voltaremos às vidas cotidianas. Teremos, entretanto, pronto para consultas, um singular glossário bilíngue que fez de um animal silvestre o seu símbolo. O tatu-bola, quando quer, vira bola. Mas, de repente, se abespinha e deixa de sê-lo. Então, livre, desliza sobre a ravina e procura o seu canto preferido.
Com o dicionário vai emergir o alemão para expressões futebolísticas brasileiras, em ordem alfabética e didática. E, os brasileiros vão entender os xingamentos deles. Até o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, defensor ferrenho da nossa nacionalidade – insistia que a palavra futebol, de origem inglesa, fosse mudada para “ludopédio” – vai escrever sobre o Dicionário Fussball mit Tatu-Bola, ou o “Futebol com Tatu-Bola” que deverá estar pronto antes de junho.
Todos terão acesso, de forma descontraída, às múltiplas faces do mundo do futebol e do conhecimento, esse que nos concede a verdadeira liberdade de criar o que queremos. Aguardem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2014.

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JOVENS DO BRASIL – Diário do Nordeste

Há, no Brasil, 29 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos. Os dados são do IBGE, de 2012. Desse total só 40% havia concluído o ensino fundamental; 27% o curso básico, e 10% faziam o superior.
A primeira questão a ser levantada é sobre a qualidade do ensino, em todos os níveis, e a pressa do Ministério da Educação em mostrar números que façam o Brasil aparecer melhor no “ranking” de países com perspectivas para os jovens no mercado de trabalho.
Entrevisto jovens a procura de oportunidades de ocupação. É, quase sempre, uma lástima o conteúdo de pequeno texto, de punho próprio, falando das razões pelas quais mereceria tal chance.
Não há o menor cuidado em conteúdo e forma. Essa constatação dá pena, pois diz da baixa qualificação recebida nas escolas e faculdades que frequentaram. Desses 24 milhões de jovens, mais de 15 milhões moram no norte e no nordeste.
A matriz de tudo está na pobreza endógena não erradicada. Causa espanto em face da crescente necessidade de recursos humanos qualificados. Acresça-se a evasão escolar, pois: “além disso, 630 mil jovens não chegaram a completar um ano de estudo, ou seja, nem mesmo a primeira série”, conforme o professor Laércio Menezes Filho, titular da cátedra IFB e coordenador do Insper, no “Valor”.
Neste 2014 teremos eleições e o resultado já nos parece turvo. Por quê?Dia desses, recebi vídeo com perguntas simples, primárias até, a pessoas adultas e eleitoras. As respostas dão pena pela inconsequência, ingenuidade e a falta de qualquer juízo de valor. Como ter fé?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2014.