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GARAPA DO CEARÁ – Diário do Nordeste

A morte do documentarista Eduardo Coutinho é tragédia que poderia ter sido por ele filmada. O assassino é o próprio filho que, tresloucado, esfaqueou pai e mãe.
Os documentaristas, quase sempre, procuram o surreal e a filma com fingido ou natural distanciamento. Li as palavras de Fernando Meirelles, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos sobre o grande documentarista que se foi de forma brutal. O fato de ter acontecido no Rio, bairro da Lagoa, no próprio apartamento, mostra que o infortúnio não é privilégio do Ceará. Senti a ausência da fala de José Padilha, o diretor festejado do novo “Robocop”.
Padilha começou documentarista, fez ” Ônibus 174″ e outros. Explico-me: com ajuda federal, através da Caixa, Petrobras, Ancine e do próprio Governo do Ceará, Padilha escreveu o roteiro, junto com Felipe Lacerda, e dirigiu, em 2009, o documentário “Garapa” com foco em três histórias de famílias miseráveis da capital e do interior cearense.
O “sociologismo” usado, a descrição da “verdade”, a filmografia em preto e branco e a fala- ensaiada – de pessoas inocentes para dizer de suas fomes, não engrandecem Padilha.O ufanismo com a sua internacionalização não o redime de usar recursos públicos para filmar a miséria e querer alertar que o “Bolsa Família” não resolve a fome.
É importante, neste 2014, ficar claro o uso continuado dos humildes para a fama de alguns jornais, cineastas, fotógrafos e políticos. Iludem e dissimulam. São cruéis ao mostrar desgraças alheias. São piores que as ralas garapas. Reles beneficiários das “revelações”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2014

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OS ALBUQUERQUES E TANTOS OUTROS, PELO BISTURI HISTÓRICO DE CANDIDO PINHEIRO – Soares Neto – Jornal O Estado

“Este mundo da história certamente foi feito pelos homens; ele traz dentro de si o mistério da mente humana, e é feito à sua imagem e semelhança. Se alguém refletir a respeito de tal fato, certamente provará espanto, considerando que todos os filósofos esforçaram-se para obter a ciência deste mundo natural…” Gianbattista Vico, filósofo italiano, do tempo de Borges da Fonseca.
No dia 28 de julho de 2013 recebi um presente valioso. Um exemplar, em capa dura, com 656 páginas, impresso em papel pólen, usando a tipia American Garamond 12/15, tamanho 23cm x 31cm, com esmerado acabamento gráfico. Tratava-se do primeiro volume – de um total proposto de dez-da genealogia, biografia e história da família “Albuquerque. A herança de Jerônimo, o Torto”. Jerônimo, patriarca de 36 filhos documentados. Essa familiação foi o start up, o ponto fora da curva que caiu no microscópio histórico de alguém com muito que fazer, Cândido Pinheiro Koren de Lima. Ele é médico oncologista e empresário, que foi do zero ao Zenith.
A façanha de Cândido Pinheiro causou-me impacto e deixou provado que o conhecimento é de quem, com fundamentos, dele se apropria, através de estudo percuciente, a partir de informações encadeadas que germinam. Não é o conhecimento dos que apenas se imaginam letrados. É preciso pô-lo à prova e isso ele o fez com a mistura de povos diferentes: muçulmanos, índios, judeus e os portugueses, tido como brancos. Trouxe tudo à tona, de forma judiciosa, destacando esquemas.
A oncologia cirúrgica, especialidade primeira de Cândido Pinheiro, pode ter sido a matriz de seu método investigativo. Ele foi e é um investigante. Seja ao elaborar protocolos cirúrgicos; ao identificar mercado de trabalho médico para, repito, sair do zero ao Zenith. Na maturidade existencial descobriu-se genealogista, com paciência, lucidez e método; insumos básicos para mirar o seu monóculo na nau “Nobiliarquia Pernambucana”, obra capitaneada por Borges da Fonseca no século 18, e ser um remador fundista para extrair em anais, pesquisas, viagens, visitas e estudos a raiz ontológica de seu livro.
Este espaço não me dá suporte para adiantar mais sobre o livro ora enfocado. Deixo claro, de plano, que não sou crítico literário. Mas estas balizas alinhavadas pediam para ser escritas com mais proficiência. Fi-lo como pude, tal um Jânio Quadros atarantado diante da profundidade que Cândido Pinheiro alcançou com uma sonda de diamante imagética. Quem quiser conhecer a obra procure uma boa livraria e faça bom proveito. Como bem o disse Miguel de Unamuno, escritor espanhol do século passado: “ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/02/2014.

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D. MARGARIDA: CIDADÃ, MULHER, MÃE E MESTRA – Jornal O Estado

Imagine Fortaleza no começo dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e só terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali começava, sem que soubessem, uma história que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, recém-fugido – a pé- do Seminário de Canindé, dos Capuchinhos Alemães de São Francisco, seu onomástico. Ela trabalhava no laboratório do Dionísio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enlaçaram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, dispõem-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profissão definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua bênção. O pai, João Soares de Oliveira, atônito, teve que aceitar a decisão do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E aí nasce João Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido.
Hoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, mãe, avó e bisavó. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Daí para cá, ela reinava soberana nos jardins e na casa da família, curtindo – pelo resto da vida – o casamento que durou 51 anos. E dessa união nasceram João, José, Francisco, Maria Célia, Maria Simone, Liduína, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcançaram formação universitária, viraram independentes, têm famílias constituídas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasiões devidas. Não era “melosa”, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e não queria depender de ninguém. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por décadas.
Agora, ela é saudade, a lembrança entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em aniversário dela, já viúva, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com várias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retilínea, sobranceira e digna no seu modo cristão e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por não precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega.
Nesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas mãos no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens à sua dignidade, inteireza, liderança aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As lições que recebemos deram asas para que nos tornássemos cidadãos do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros países.
Mais não digo, pois o que escrevo talvez só interesse a mim e à nossa família, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alemão, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: “Apenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma família”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/02/2014.

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O OSCAR-14, A ESCRAVIDÃO DE TODOS. A LIBERTAÇÃO NA REBELDIA – Jornal O Estado

“O cinema não tem fronteiras,
nem limites. É um fluxo constante
de sonhos”. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985).
Escrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro é aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido aguçado, mas não possui a cultura focada do crítico de cinema. É descompromissado, mas é olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo “psiu” quando há barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e após ficar intrigado com a súbita e breve aparição do Brad Pitt (nas cenas da construção de um pavilhão agregado à Casa Grande) nos “12”, procurei entender. Ele é o produtor de “12 Anos de Escravidão”, baseado em livro autobiográfico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, britânico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme é lindo em conteúdo e eloquente na ausência do recurso moderno das cores. Preto e branco, legítimo.
Fez-se a abertura e um inglês, negro, Steve McQueen (nome homônimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de “12”, ganhou o Oscar de melhor diretor. Além disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong’o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o prêmio de sua categoria. Por outro lado, a relação de amor-ódio da Califórnia e dos EEUU com o México decidiu premiar “Gravidade” – com sete indicações – como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuarón. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia.
O Brasil, entretanto, teve um prêmio de consolação. A mulher de Matthew McConaughey, prêmio de Melhor Ator, por “Clube de Compras Dallas”, é a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um repórter, pós-premiação, perguntou à Camila como era Matthew em casa. Ela, súbito, respondeu: “Quem é esse cara (referindo-se à interpretação dele) romântico, podemos trazê-lo para casa só um pouquinho?”. Eles têm três filhos e são casados, de verdade.
Sabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda não absorveu o mundo sem fronteira de cor e religião. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(ão) e protestant(e)) já deixam de ser a maioria da “terra dos bravos” e resistem em aceitar Obama. Além de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blasé, na Casa Branca, não foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no “12”. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, não aceitava ser a “negra preferida” para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com méritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembaraço, forjado na mistura de sua origem africana, a opção pela cidadania mexicana e a formação acadêmica nos EEUU.
Hoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais –contra e a favor – e os frutos dos movimentos libertários eclodem em todo o mundo. Não apenas no orbe ocidental – que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes há insatisfeitos, seja por questões de fé, raça, ideologia, gênero e cultura.
O mundo dos “sabidos” precisa absorver o que o século 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: há outras faces e fases emergindo e não se pode mais pedir que “eles”, os outros, fiquem no seu lugar. “Eles” fazem parte do nós e hão que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migração/imigração, cobiça, tênues e já vagas noções de ideologias que vieram do iluminismo, do século 19 e percorreram grande parte do último.
Voltando à “sétima arte”: é bom que neste 2014 os membros do “establishment” tenham acenado para povos, histórias e países diferentes. Esse ponta-pé começou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas metáforas no cinema mundo, apareceu em “Making a Living”, traduzido no Brasil como “Carlitos Repórter”. Sobre Chaplin falarei depois.
Resumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, é forma lúcida de conviver com as diferenças, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de nós é tão importante que não possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. Só há uma fórmula para isso não acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2014.

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SISTEMA “S” E O HOJE – Diário do Nordeste

A estrutura sindical é resultado dos períodos ditatorial e democrático de Vargas, ampliada na Constituição de 1988. Hoje, outros tempos, permanece onerosa no país perdido entre o passadismo erradio e um futuro incerto. Não se fala apenas em sindicatos. Escrevem mal sobre parte de federações e confederações de trabalhadores e patrões. Os “S” seriam focos de: dominação, desperdício, compadrio com o poder, premiações anuais interesseiras, pesquisas direcionadas e abrigos de “ex-tudo”. Há exceções, é claro.
Existem denúncias públicas. Exemplo: o uso explícito da máquina de poderosa federação sudestina para alavancar candidatura a governador de Estado. O país “S” gera lobistas/atravessadores, assessores, vereadores, deputados e senadores; é luta pelo poder, sem coerência institucional ou ideológica. Os bilhões de reais anuais das contribuições sindicais de empregados e patrões são, apenas em parte, investidos em treinamentos e formação de força de trabalho. Cita-se que há, quase sempre, pagamento adicional para a obtenção de vagas nos cursos nos “S”. Cofres cheios. Há estrutura mastodôntica, empregos “vitalícios”, prédios suntuosos, viagens gratuitas pelo Brasil e exterior. Eleições com cargos disputados, (des) acordos entre facções. Se o que lê parecer grave, veja só um exemplo: os jornais Valor e Folha de SP, 27.02.2014, publicam nota paga pelo SENAC-RJ contra o presidente da Confederação do Comércio, há quase 40 anos no poder.
Autofagia exposta. É hora de as mídias, o TCU, o MPF e o Congresso Nacional reverem essas capitanias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2014.

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CIDADES, O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE – Jornal O Estado

“As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX.
Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população.
As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema.
O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação.
Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”.
Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT – Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014

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MENINAS E VACINAS – Diário do Nordeste

Sabemos que a área de saúde atua por campanhas para prevenir despesas públicas com o tratamento de futuras doenças. Desde alguns anos, achou-se necessário distribuir preservativos para jovens o ano inteiro.
Sei que o mundo é livre para quem não sabe ainda o alcance dos seus voos. Os limites são fundamentos passados pela família, pela escola, pela fé ou pela turma da rua, da esquina, do futebol, da roda de samba, do trabalho. E a vida vai. Depois do carnaval neste março de confusão entre a Rússia e a Ucrânia, dos atritos entre alas do PMDB e o Palácio do Planalto, emergiu, na última segunda-feira, a boa campanha de saúde pública para vacinar meninas entre 11 a 13 anos contra o HPV (Papiloma Vírus Humano). O HPV pode causar câncer de colo de útero e outras doenças genitais. É preciso que as famílias entendam que as jovens devem ser vacinadas contra o HPV antes do início das suas vidas sexuais. Isso não significa dizer que a vacina libera a jovem para a vida sexual. Não, nada disso. Serão três doses: uma agora; outra, daqui a seis meses, em agosto; e a última, daqui a cinco anos. Este registro foge ao escopo do que escrevo, mas o faço por saber que, baseado em dados estatísticos, 5.000 mulheres morrerão no Brasil, neste 2014, de câncer de colo de útero e outras 15.000 serão infectadas pelo HPV.
Ao receber as doses da vacina, a jovem cria anticorpos, mas isso não a liberará das prevenções indispensáveis ao longo da vida adulta.
Que pais e filhas se unam e conversem abertamente, antes que as mídias sociais o façam com os equívocos de sempre.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2014.

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CAFÉ AOS DOMINGOS – Diário do Nordeste

A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita.
Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O “Tico”, pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela.
A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias.
Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer.
Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias.
À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do “Tico”, a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava.
Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a “bênção” que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014

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O TATU-BOLA E O DICIONÁRIO – Jornal O Estado

“A alegria torna o homem sociável, a dor individualiza-o.” Friedrich Hebbel, poeta e dramaturgo alemão(1813-1863). Diários, 1847..
Uma cadeira cedida e eis-me amigo de Ingrid Schwamborn, professora PhD, alemã e apaixonada pelo Brasil. Faz mais de um lustro. Nesse tempo de e-mails trocados e raras conversas não virtuais, já confundimos ideias, discutimos, divergimos e, afinal, parece consolidar-se esse liame intelectual que se alimenta de dissonâncias e uma negociada harmonia.
Neste 2014 ela investe, juntamente com Rodrigo Castro e Hans-Jürgen Fiege na criação um dicionário alemão-brasileiro sobre palavras usadas no cotidiano do futebol.Insere o Tatu-bola como representação simbólica da fauna nacional pela sua similitude com o esférico que já teve o nome de pelota.
O curioso animal, cujo nome tem origem tupi-guarani, foi, em 2012, proposto por Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, do Ceará, à Fifa, em Zürich, como mascote para a Copa de 2014. O intuito era chamar atenção a essa espécie em perigo de extinção e protegê-la no seu habitat, a caatinga. Foi aceito.
A bola, hoje feita por multinacionais de equipamentos para o esporte, recebe tantos requintes que, em tempo não muito distante, dirá, através de chips, ao árbitro – que já foi juiz, referree, schiedsrichter e que tais – de suas queixas e dos maus-tratos sofridos quando as garras, das hoje sofisticadas e coloridas chuteiras, a maltratarem.
Fui menino acompanhando meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, duas vezes presidente do Fortaleza Esporte Clube – desde a sede da Rua Júlio César – assim nomeado em homenagem a Fortaleza, uma das doze cidades-sede de jogos da Copa do Mundo. Com meu pai fui a treinos, concentrações e jogos.Tive tristezas, desapontamentos e alegrias. Registro, ainda hoje, o prazer de ter visto o Estádio do Maracanã, com o seu maior público(183.000) de todos os tempos, quando o Brasil venceu o Paraguai por 1X0, nas eliminatórias da Copa de 1970. Hoje, sou conselheiro do mesmo Fortaleza, clube que me faz voltar a ser menino e mexe, acreditem, com as minhas sístoles e diástoles.
Nesse dicionário bilíngue, une-se o português do Brasil – que difere do falado e escrito em Portugal – ao alemão. Cada povo vê e usa de maneira diferente o seu vernáculo. O futebol, palavra e jogo, tem raiz britânica, mas Ingrid, com a lupa de historiadora que é, repercutiu a paixão familiar dos velhos tempos. Era a época em que os passes magistrais de jogadores – players, spieler – do meio campo (half, mittelstümer), para as cabeçadas certeiras de um forward,stümer, hoje atacante, contra goalkeepers, torhüter, que tornaram-se goleiros e arqueiros.
Sabe-se que futebol é uma guerra festiva. O gol é o objetivo, mas, para isso, é preciso fazer várias “blitzen” e desmontar a defesa “inimiga”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2014. A Fifa, senhora guardiã dos direitos do “football association” ao redor do mundo, impõe regras.
Os 90 minutos de cada jogo disputado pelas 32 seleções foram precedidos de projetos, análises, vistorias, acidentes de trabalho, lutas para comprar ingressos, diversos protocolos e, claro, mídia intensa. O Brasil espera alegria, festa e congraçamento. Que não ocorra o contrário.
Volto ao Dicionário. Desejo que seus futuros usuários façam bom uso das palavras e as empreguem de forma fraterna. Mais cedo do que imaginamos a Copa acabará e, nós, voltaremos às vidas cotidianas. Teremos, entretanto, pronto para consultas, um singular glossário bilíngue que fez de um animal silvestre o seu símbolo. O tatu-bola, quando quer, vira bola. Mas, de repente, se abespinha e deixa de sê-lo. Então, livre, desliza sobre a ravina e procura o seu canto preferido.
Com o dicionário vai emergir o alemão para expressões futebolísticas brasileiras, em ordem alfabética e didática. E, os brasileiros vão entender os xingamentos deles. Até o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, defensor ferrenho da nossa nacionalidade – insistia que a palavra futebol, de origem inglesa, fosse mudada para “ludopédio” – vai escrever sobre o Dicionário Fussball mit Tatu-Bola, ou o “Futebol com Tatu-Bola” que deverá estar pronto antes de junho.
Todos terão acesso, de forma descontraída, às múltiplas faces do mundo do futebol e do conhecimento, esse que nos concede a verdadeira liberdade de criar o que queremos. Aguardem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2014.

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JOVENS DO BRASIL – Diário do Nordeste

Há, no Brasil, 29 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos. Os dados são do IBGE, de 2012. Desse total só 40% havia concluído o ensino fundamental; 27% o curso básico, e 10% faziam o superior.
A primeira questão a ser levantada é sobre a qualidade do ensino, em todos os níveis, e a pressa do Ministério da Educação em mostrar números que façam o Brasil aparecer melhor no “ranking” de países com perspectivas para os jovens no mercado de trabalho.
Entrevisto jovens a procura de oportunidades de ocupação. É, quase sempre, uma lástima o conteúdo de pequeno texto, de punho próprio, falando das razões pelas quais mereceria tal chance.
Não há o menor cuidado em conteúdo e forma. Essa constatação dá pena, pois diz da baixa qualificação recebida nas escolas e faculdades que frequentaram. Desses 24 milhões de jovens, mais de 15 milhões moram no norte e no nordeste.
A matriz de tudo está na pobreza endógena não erradicada. Causa espanto em face da crescente necessidade de recursos humanos qualificados. Acresça-se a evasão escolar, pois: “além disso, 630 mil jovens não chegaram a completar um ano de estudo, ou seja, nem mesmo a primeira série”, conforme o professor Laércio Menezes Filho, titular da cátedra IFB e coordenador do Insper, no “Valor”.
Neste 2014 teremos eleições e o resultado já nos parece turvo. Por quê?Dia desses, recebi vídeo com perguntas simples, primárias até, a pessoas adultas e eleitoras. As respostas dão pena pela inconsequência, ingenuidade e a falta de qualquer juízo de valor. Como ter fé?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2014.