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SISTEMA “S” E O HOJE – Diário do Nordeste

A estrutura sindical é resultado dos períodos ditatorial e democrático de Vargas, ampliada na Constituição de 1988. Hoje, outros tempos, permanece onerosa no país perdido entre o passadismo erradio e um futuro incerto. Não se fala apenas em sindicatos. Escrevem mal sobre parte de federações e confederações de trabalhadores e patrões. Os “S” seriam focos de: dominação, desperdício, compadrio com o poder, premiações anuais interesseiras, pesquisas direcionadas e abrigos de “ex-tudo”. Há exceções, é claro.
Existem denúncias públicas. Exemplo: o uso explícito da máquina de poderosa federação sudestina para alavancar candidatura a governador de Estado. O país “S” gera lobistas/atravessadores, assessores, vereadores, deputados e senadores; é luta pelo poder, sem coerência institucional ou ideológica. Os bilhões de reais anuais das contribuições sindicais de empregados e patrões são, apenas em parte, investidos em treinamentos e formação de força de trabalho. Cita-se que há, quase sempre, pagamento adicional para a obtenção de vagas nos cursos nos “S”. Cofres cheios. Há estrutura mastodôntica, empregos “vitalícios”, prédios suntuosos, viagens gratuitas pelo Brasil e exterior. Eleições com cargos disputados, (des) acordos entre facções. Se o que lê parecer grave, veja só um exemplo: os jornais Valor e Folha de SP, 27.02.2014, publicam nota paga pelo SENAC-RJ contra o presidente da Confederação do Comércio, há quase 40 anos no poder.
Autofagia exposta. É hora de as mídias, o TCU, o MPF e o Congresso Nacional reverem essas capitanias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2014.

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CIDADES, O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE – Jornal O Estado

“As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX.
Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população.
As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema.
O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação.
Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”.
Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT – Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014

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MENINAS E VACINAS – Diário do Nordeste

Sabemos que a área de saúde atua por campanhas para prevenir despesas públicas com o tratamento de futuras doenças. Desde alguns anos, achou-se necessário distribuir preservativos para jovens o ano inteiro.
Sei que o mundo é livre para quem não sabe ainda o alcance dos seus voos. Os limites são fundamentos passados pela família, pela escola, pela fé ou pela turma da rua, da esquina, do futebol, da roda de samba, do trabalho. E a vida vai. Depois do carnaval neste março de confusão entre a Rússia e a Ucrânia, dos atritos entre alas do PMDB e o Palácio do Planalto, emergiu, na última segunda-feira, a boa campanha de saúde pública para vacinar meninas entre 11 a 13 anos contra o HPV (Papiloma Vírus Humano). O HPV pode causar câncer de colo de útero e outras doenças genitais. É preciso que as famílias entendam que as jovens devem ser vacinadas contra o HPV antes do início das suas vidas sexuais. Isso não significa dizer que a vacina libera a jovem para a vida sexual. Não, nada disso. Serão três doses: uma agora; outra, daqui a seis meses, em agosto; e a última, daqui a cinco anos. Este registro foge ao escopo do que escrevo, mas o faço por saber que, baseado em dados estatísticos, 5.000 mulheres morrerão no Brasil, neste 2014, de câncer de colo de útero e outras 15.000 serão infectadas pelo HPV.
Ao receber as doses da vacina, a jovem cria anticorpos, mas isso não a liberará das prevenções indispensáveis ao longo da vida adulta.
Que pais e filhas se unam e conversem abertamente, antes que as mídias sociais o façam com os equívocos de sempre.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2014.

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CAFÉ AOS DOMINGOS – Diário do Nordeste

A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita.
Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O “Tico”, pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela.
A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias.
Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer.
Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias.
À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do “Tico”, a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava.
Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a “bênção” que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014

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O TATU-BOLA E O DICIONÁRIO – Jornal O Estado

“A alegria torna o homem sociável, a dor individualiza-o.” Friedrich Hebbel, poeta e dramaturgo alemão(1813-1863). Diários, 1847..
Uma cadeira cedida e eis-me amigo de Ingrid Schwamborn, professora PhD, alemã e apaixonada pelo Brasil. Faz mais de um lustro. Nesse tempo de e-mails trocados e raras conversas não virtuais, já confundimos ideias, discutimos, divergimos e, afinal, parece consolidar-se esse liame intelectual que se alimenta de dissonâncias e uma negociada harmonia.
Neste 2014 ela investe, juntamente com Rodrigo Castro e Hans-Jürgen Fiege na criação um dicionário alemão-brasileiro sobre palavras usadas no cotidiano do futebol.Insere o Tatu-bola como representação simbólica da fauna nacional pela sua similitude com o esférico que já teve o nome de pelota.
O curioso animal, cujo nome tem origem tupi-guarani, foi, em 2012, proposto por Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, do Ceará, à Fifa, em Zürich, como mascote para a Copa de 2014. O intuito era chamar atenção a essa espécie em perigo de extinção e protegê-la no seu habitat, a caatinga. Foi aceito.
A bola, hoje feita por multinacionais de equipamentos para o esporte, recebe tantos requintes que, em tempo não muito distante, dirá, através de chips, ao árbitro – que já foi juiz, referree, schiedsrichter e que tais – de suas queixas e dos maus-tratos sofridos quando as garras, das hoje sofisticadas e coloridas chuteiras, a maltratarem.
Fui menino acompanhando meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, duas vezes presidente do Fortaleza Esporte Clube – desde a sede da Rua Júlio César – assim nomeado em homenagem a Fortaleza, uma das doze cidades-sede de jogos da Copa do Mundo. Com meu pai fui a treinos, concentrações e jogos.Tive tristezas, desapontamentos e alegrias. Registro, ainda hoje, o prazer de ter visto o Estádio do Maracanã, com o seu maior público(183.000) de todos os tempos, quando o Brasil venceu o Paraguai por 1X0, nas eliminatórias da Copa de 1970. Hoje, sou conselheiro do mesmo Fortaleza, clube que me faz voltar a ser menino e mexe, acreditem, com as minhas sístoles e diástoles.
Nesse dicionário bilíngue, une-se o português do Brasil – que difere do falado e escrito em Portugal – ao alemão. Cada povo vê e usa de maneira diferente o seu vernáculo. O futebol, palavra e jogo, tem raiz britânica, mas Ingrid, com a lupa de historiadora que é, repercutiu a paixão familiar dos velhos tempos. Era a época em que os passes magistrais de jogadores – players, spieler – do meio campo (half, mittelstümer), para as cabeçadas certeiras de um forward,stümer, hoje atacante, contra goalkeepers, torhüter, que tornaram-se goleiros e arqueiros.
Sabe-se que futebol é uma guerra festiva. O gol é o objetivo, mas, para isso, é preciso fazer várias “blitzen” e desmontar a defesa “inimiga”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2014. A Fifa, senhora guardiã dos direitos do “football association” ao redor do mundo, impõe regras.
Os 90 minutos de cada jogo disputado pelas 32 seleções foram precedidos de projetos, análises, vistorias, acidentes de trabalho, lutas para comprar ingressos, diversos protocolos e, claro, mídia intensa. O Brasil espera alegria, festa e congraçamento. Que não ocorra o contrário.
Volto ao Dicionário. Desejo que seus futuros usuários façam bom uso das palavras e as empreguem de forma fraterna. Mais cedo do que imaginamos a Copa acabará e, nós, voltaremos às vidas cotidianas. Teremos, entretanto, pronto para consultas, um singular glossário bilíngue que fez de um animal silvestre o seu símbolo. O tatu-bola, quando quer, vira bola. Mas, de repente, se abespinha e deixa de sê-lo. Então, livre, desliza sobre a ravina e procura o seu canto preferido.
Com o dicionário vai emergir o alemão para expressões futebolísticas brasileiras, em ordem alfabética e didática. E, os brasileiros vão entender os xingamentos deles. Até o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, defensor ferrenho da nossa nacionalidade – insistia que a palavra futebol, de origem inglesa, fosse mudada para “ludopédio” – vai escrever sobre o Dicionário Fussball mit Tatu-Bola, ou o “Futebol com Tatu-Bola” que deverá estar pronto antes de junho.
Todos terão acesso, de forma descontraída, às múltiplas faces do mundo do futebol e do conhecimento, esse que nos concede a verdadeira liberdade de criar o que queremos. Aguardem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2014.

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JOVENS DO BRASIL – Diário do Nordeste

Há, no Brasil, 29 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos. Os dados são do IBGE, de 2012. Desse total só 40% havia concluído o ensino fundamental; 27% o curso básico, e 10% faziam o superior.
A primeira questão a ser levantada é sobre a qualidade do ensino, em todos os níveis, e a pressa do Ministério da Educação em mostrar números que façam o Brasil aparecer melhor no “ranking” de países com perspectivas para os jovens no mercado de trabalho.
Entrevisto jovens a procura de oportunidades de ocupação. É, quase sempre, uma lástima o conteúdo de pequeno texto, de punho próprio, falando das razões pelas quais mereceria tal chance.
Não há o menor cuidado em conteúdo e forma. Essa constatação dá pena, pois diz da baixa qualificação recebida nas escolas e faculdades que frequentaram. Desses 24 milhões de jovens, mais de 15 milhões moram no norte e no nordeste.
A matriz de tudo está na pobreza endógena não erradicada. Causa espanto em face da crescente necessidade de recursos humanos qualificados. Acresça-se a evasão escolar, pois: “além disso, 630 mil jovens não chegaram a completar um ano de estudo, ou seja, nem mesmo a primeira série”, conforme o professor Laércio Menezes Filho, titular da cátedra IFB e coordenador do Insper, no “Valor”.
Neste 2014 teremos eleições e o resultado já nos parece turvo. Por quê?Dia desses, recebi vídeo com perguntas simples, primárias até, a pessoas adultas e eleitoras. As respostas dão pena pela inconsequência, ingenuidade e a falta de qualquer juízo de valor. Como ter fé?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2014.

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UM RIO DE RECORDAÇÕES – Jornal O Estado

“O tempo não existe. Só existe o passar do tempo”. Millôr Fernandes nasceu e morreu no Rio.
Estou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afeiçoei. Cheguei ao “Santos Dumont” e não havia ninguém esperando. O telegrama atrasara e a tia não estava lá. Táxi, mala na mão, fui ter ao Hotel Mem de Sá, Lapa, por indicação do motorista. Defronte, o Instituto Médico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as referências da localização do hotel e me aventurei pelas vizinhanças. Não sabia que estava em área perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, moças da noite, circulei e recolhi-me. Porta calçada por um móvel.
Depois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os ônibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atlântica não havia sido alargada e o bondinho do Pão de Açúcar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram binóculos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de pé, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os prédios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opulência do Iate Clube do Rio de Janeiro.
Era a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, já profissional, até a cogitar morar por lá nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a família me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza – Rio uma constante ponte aérea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Março e México e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim não é mais.
Hoje, décadas depois, ainda resta sentimento de pertença, essa liga invisível e indizível, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a estátua de Carlos Drummond de Andrade (“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura “Ratos di Versos” e aí me quedei a ouvir poesias, divagações filosóficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gamão, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos pés da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema.
E me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer – que não usava o Soares do seu pai, embora assim registrado – descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal – sem atentar que era grande não em estatura, mas por sua obra universal – e chegar ao seu escritório na cobertura de um velho prédio com varandas em semi-círculo, a metros dali.
Faço-me passadista, e isso não fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, não sei por que, vem a lembrança da morte do José Wilker, na madrugada do sábado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre Cícero presenteou ao Brasil. A mim, não vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais não tão comerciais, fazia críticas de filmes com aquela voz performática que dele se apoderou. Pois é, sexta passada, fazia planos para o aniversário da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigmática.
Agora, estou aqui neste Rio de todos os meses, entrando em botecos, misturando-me ao povo, essa gente que faz essa cidade de tantas caras e almas sofridas ainda conseguir ser alegre e acolhedora, mesmo que a violência não conceda a liberdade para sermos mais abertos, simples e comunicativos. A violência e a nefanda estão soltas, não só nesta terra em que o governador atende pelo nome estranho de “Pezão”, mas em todas as partes deste Brasil ainda varonil, mas nem tanto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2014

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JORNAL “O ESTADO”, TAL COMO É. – Jornal O Estado

“A curiosidade do jornalista tem de ser a mesma do historiador, e a paciência do historiador, a mesma do jornalista”. Alberto Dines, jornalista brasileiro.
Ao comprar na banca ou receber em casa o jornal O Estado você tem, por certo, a opção de ler todas as suas páginas, acompanhadas de fotos e chamadas que saem na primeira página, sempre com indicações de arte, política, esportes, mundo e Ceará, para as páginas específicas.
Poderá ler na página 2, o editorial que enfatiza o pensamento do jornal sobre fatos ou atos relevantes, artigos de opinião, assinados por colaboradores que, a cada dia, mudam, e a fala do leitor. No expediente figuram os nomes da presidente Wanda Palhano; do superintendente Ricardo Augusto Palhano Xavier; da diretora Institucional, Solange Palhano; da diretora financeira, Soraya de Palhano; da diretora de Marketing, Rebeca Férrer Xavier Guimarães de Andrade; e do editor-geral,Carlos Alberto Alencar.
Além disso, há colunas diárias no primeiro caderno que tratam de “Política” com Macário Batista, com sua vida de globe-trotter, “insider” e versatilidade satírica; e o “Diário Político” de Fernando Maia, maduro, informado e centrado.
O caderno Economia, com as notícias de Rubens Frota, sempre cauteloso, oferece estatísticas e é conciso. No plano nacional há dois nomes de peso: Carlos Chagas, com “Direto de Brasília” e, na página seguinte, Cláudio Humberto, fala sobre “Poder”. Nesse caderno poderá ainda ver editais de cartórios, anunciando futuros matrimônios. Há gente com vontade de casar.
Em página dedicada a Esportes há, além do noticiário sobre o tema, a coluna “De Primeira”, do experiente Lauriberto Braga com ênfase ao futebol local, sem esquecer de tecer comentários nacionais.
Sob a forma de tabloide, “Arte e Agenda” abre, na capa, com fotos de espetáculos em cartaz, livros em lançamento, exibe o resumo de novelas, os quadrinhos assinados por Gomes e o horóscopo do dia, para os que acreditam em astrologia. Mas, nem tudo são flores, e aparecem os cartórios mostrando os quase devedores com os títulos para protesto, como determina a lei. Na contra capa, Flávio Torres, do seu jeito peculiar e leve de escrever, constrói “dropes” em que relata fatos da Sociedade, especialmente das pessoas fotografadas por Iratuã Freitas.
Os que escrevem no “O Estado” têm opiniões e informações. E, para ter opiniões, precisam ler, confirmar informações e procurar escrever dentro de linguagem entendida por todos os leitores. Todo escrito é antecedido por um título. Esse título pressupõe ser um resumo do conteúdo a ser lido e deve aguçar o interesse a cada parágrafo.
O “Estado” possui plataformas na Internet, tais como site e estúdio de televisão para entrevistas. Como jornal impresso, além do que já foi dito, edita vários suplementos e cadernos sobre meio ambiente, negócios, políticas classistas e, às sextas-feiras, dá a oportunidade ao leitor de mergulhar no “Linha Azul”, uma espécie de resumo social, cultural e artístico da semana.
O jornal “O Estado” foi fundado em 1936, por José Martins Rodrigues, aliado ao antigo Partido Social Democrático, passou por outras tendências e mãos, até acontecer o controle do jornalista Venelouis Xavier Pereira, em 1963. Com a morte de Venelouis, em 1996, o jornal ficou sob a égide da família Palhano com o comando continente de Ricardo Palhano e de equipe enxuta de profissionais.
Esse esboço histórico é apenas para antecipar a comemoração dos 79 anos de “O Estado”, na próxima quinta-feira, 24 deste setembro de 2015. Por essa razão, embora os fatos narrados sejam por muitos conhecidos, é que resolvi contar para os seus leitores como e por quem é feito a cada dia útil da semana.
Hoje, por exemplo, este jornal completa 22.601 edições, de forma independente, compacta e criteriosa, com notícias claras, objetivas e corretas, conectado a outras plataformas e mídias sociais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/09/2015.

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A PERPLEXIDADE E AS ESCOLHAS QUE FIZEMOS E FAZEMOS – Jornal O Estado

“Faço parte do mundo e no entanto ele me torna perplexo”. Charles Chaplin.
Viver é um ato de resistência. A cada instante somos forçados a tomar decisões. Há uma colisão, a rua fica interditada. Como pedestres, ciclistas, motociclistas, passageiros ou motoristas devemos chegar aos nossos destinos. Assim, por razões alheias ao previsto, decidimos: a) ficar parados; b) encontrar uma rua secundária para continuar o nosso caminho.
Se ficarmos parados, nada muda. Só ouviremos as buzinas, a espera interminável pela perícia e pelos guinchos. Viver é conviver com o imprevisto. Ao concluir o ensino médio, somos orientados por pais e professores a fazer escolhas. Eles nos sugerem o que acreditam ser o melhor para o nosso futuro. Mas, e a vida é cheia de mas, nós devemos – e precisamos – com a inexperiência de adolescente, refletir se o indicado é aquilo que realmente queremos.
E, cá para nós, é muito difícil fazer escolhas fundamentais em qualquer tempo de nossas breves, médias ou longas vidas. Não temos binóculos para ver o futuro, tampouco sabemos aonde a decisão nos vai levar. Entretanto, se tivermos lido bastante, poderemos seguir, talvez com menos riscos, o caminho novo que se nos abre, a partir das informações e das simulações mentais feitas instintivamente.
Depois da escolha, admitindo que fomos persistentes, estudiosos ou nem tanto, nos deparamos com o primeiro fim de linha. Agora, deixei de ser estudante, tenho uma profissão que escolhi e preciso fazer dela o meu meio de vida. E aí você fica só. A solidão é a companhia dos que procuram tomar decisões para continuar e não ficar engarrafados pelas colisões que o destino nos impõe a cada dia.
Assim, emergimos como profissional ou colaborador de empresa ou órgão governamental. Meio sem bússola vamos procurando o que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer. Não há no mundo real um GPS a indicar aonde chegar. Tudo é tentativa e erro. Nada que a tecnologia da segunda metade do século passado ou o seu emergente aprimoramento nestes primeiros 15 anos dessa nova centúria que é o 21, possa nos dar certeza.
A vida não oferta certezas. Ela sugere opções múltiplas. Temos, com o nosso cabedal de conhecimentos, um samburá para depositar nossas quase vitórias, as muitas desditas e os poucos acertos. O tempo não é aliado de ninguém. Ele simplesmente vai indo. Segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia.
Entre cada novo dia há uma noite em que, bem ou mal, paramos para refletir e dormir. Das reflexões e dos sonos emergem os sonhos. Os sonhos até hoje não foram bem explicados por neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Nem eles entendem os deles. Tanto é verdade que, de tempos em tempos, “a interpretação dos sonhos”, escrita por Sigmund Freud, sábio, mas conflitado, vai sendo alterada por tantas quantas são as correntes do pensamento científico ou humanístico.
Neste momento brasileiro, em que cada dia surge nova e alarmante revelação, não há como não entrar em engarrafamentos mentais, pois fomos nós os que colocamos os falazes que estão aí. Ou somos os que não fomos suficientes coesos para impedir as suas escolhas. Agora, não importa. O passado sempre chega com os seus fantasmas, as suas cobranças e as muitas mídias querem decisões e soluções que custam a chegar. Quando chegam.
Enquanto isso, porque não podemos parar nos descobrimos com as manhãs que nos impõem agir com um mínimo de certezas e um balaio de dúvidas. Infelizmente, não possuímos a ventura de, como fez o poeta Fernando Pessoa, criar heterônimos diferentes para dividir e traduzir os nossos múltiplos humores, conflitos e sentimentos. Somos um só e já basta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2015.

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NÓS E O CAOS – Diário do Nordeste

A herança portuguesa nos fez prolixos. Os de outros sangues, aqui aportados no fim do século 19 e nas primeiras décadas do 20, incorporaram, em parte, a nossa falação. Quase todos gostam de falar muito, especialmente os que não sabem articular e os que não nada têm a dizer.
Hoje, neste começo da dita primavera em país quase todo equatorial, estamos sendo bombardeados nas mídias, nas ruas e em nossas casas com a “grande crise brasileira”. Ela nada mais é que a crença de que alguém ou alguns poderiam ou podem resolver os nossos problemas. Na verdade, ninguém se importa com eles, havemos de curá-los com nossas próprias forças. Ninguém de Brasília nos ajudará.
A cada dois anos somos chamados a votar. Tudo o que está posto é o produto das nossas escolhas. Se erramos, não podemos transferir a culpa para administrantes havidos como parlapatões, despreparados, embusteiros ou atrapalhados.
Nós, os eleitores, os escolhemos e criamos o mito sobre salvadores da pátria. Não os há. A pátria é a soma das nossas invidualidades, dos nossos egoísmos, das nossas omissões, da sempre busca por algo cobiçado e que não nos pertence. É o ter mais a qualquer preço, mesmo sem carecer.
Agora, a crise está instalada. Nada há a ser consertado, exceto nós mesmos. Não esperemos uma concertação política, pois a “práxis” nos mostra o contrário. Não há jato suficiente para lavar todas as sujidades expostas e as ainda não afloradas, Brasil afora. Hoje, nos cabe não potencializar o caos auto imposto. Chega de conluios e tramas. Basta de cassandras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2015