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O DESENHO DA LUANA

Luana tem quatro anos. É uma menina muito inteligente, um pouco tímida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns noticiários de televisão. Foi para o quarto, apanhou um papel, lápis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espaço ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avião bojudo. Lá no pé da página vagões coloridos formavam um trem. Sua mãe pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem êxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que não legitimava o que vira e registrara, agregada à sua imaginação, no papel. É provável que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.
Este fato me veio à mente, após ter conversado com alguns amigos que estão apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que é uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?
Os brasileiros vivos, na sua maioria, não sabem o que é uma guerra. A última participação brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, salvo o episódio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas estão virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.
Como explicar, então, o que não entendemos. As guerras que conhecemos são as dos filmes americanos e as últimas, a partir da Guerra do Golfo, já televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: não participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televisão e fitamos a comida nas salas de refeições sem mudança de apetite.
Estamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por não termos a coragem de assumir que todos somos culpados. Não adianta apenas culpar uma etnia, país ou grupos de fanáticos. Eles são produtos da nossa indiferença. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambição desmedida, em busca de status que não leva a nada, da morte da comiseração e do amor ao próximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e não vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilhões de pessoas. Metade vive em miséria quase absoluta. A outra metade pouco se dá conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doença, desemprego e desengano não são problemas dos outros. São mísseis que atingem ou atingirão os indiferentes.
Cada um pode e talvez deva travar uma guerra íntima, sem testemunhas, a não ser a sua própria consciência, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consciências, perdidas que estão pela ausência de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2001.

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LIÇÕES NÃO APRENDIDAS

No dia 14 de agosto deste ano, menos de 30 dias antes dos atentados aos Estados Unidos, o diplomata Sérgio Danese, autor do livro “Diplomacia Presidencial”, publicou, no Jornal “O Estado de São Paulo”, o artigo “As lições dos 13 dias de outubro”, baseado no filme americano “Treze Dias”, dirigido e estrelado por Kevin Costner.
O filme conta a crise dos mísseis entre os Estados Unidos e Cuba em 1962. Danese faz referência especial às lições que poderiam ter sido tiradas dessa crise, ocorrida no Governo John Kennedy, entre os dias 16 a 28 de outubro de 1962. Embora seja a ótica americana da crise, há um aspecto didático para reflexão dos governos que sucederam a Kennedy. Ninguém refletiu.
Que lições seriam essas?: 1) Confie, mas verifique; 2) quem decide deve ouvir opiniões conflitantes; 3) nunca negocie por medo, mas nunca tenha medo de negociar; 4) em muitas ocasiões em que tudo parece exigir pressa, vale a frase de Taleyrand: “é urgente esperar”; 5) quando estiver negociando, estabeleça quais os seus objetivos reais e não procure ganhos adicionais; 6) calce sempre os sapatos do seu adversário para saber como ele observa você; 7) nunca acue um adversário e sempre dê oportunidade dele salvar sua pele; 8) as decisões têm que ser legítimas e não amparadas pela força ou artifício político; 9) as recomendações para usar a força têm que pesar as suas consequências e implicações futuras; 10) a ameaça de uso da força nunca pode ser um blefe ou retórica; 11) “nenhuma ação se toma contra um adversário poderoso no vácuo”, já dizia Bob Kennedy; 12)não tente comprometer publicamente o seu adversário, nem negociar com ele pela mídia, sem antes convencê-lo privadamente; 13) “há vitórias que não se comemoram (Rio Branco).”
Essas lições, por nós adaptadas e ora repassadas, servem para todos nós, governados e governantes. Provavelmente, os atuais governantes não têm tempo para ver filmes. Não seria perda de tempo se vissem filmes, ouvissem músicas, lessem livros, conversassem com gente comum e não se restringissem às cerimônias previamente organizadas e ao que ouvem de seus áulicos e assessores. A distância do mundo real torna-os insensíveis. Este século – ou década? – parece que veio para nos mostrar isso.
Embora fora do contexto, é bom lembrar a alienação de Maria Antonieta ao ser informada em Versailles – na eclosão da Revolução Francesa – de que faltava pão para o povo. Na sua ignorância, que lhe valeu a cabeça na guilhotina, disse: por quê não servem brioches?
Quantas marias antonietas teremos hoje?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2001.

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A MORTE

Leio – e me aproprio de citações – um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno “Equilíbrio”, da Folha de São Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera gozação ou erro de perspectiva. Não tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contrário. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. Não sou de fingir sentimentos, dar aqueles abraços, mas compareço e me comporto com atenção e respeito.
Ao longo da vida, quer queiramos ou não, sentimos a morte rondar por perto. Ora é um parente próximo, um amigo querido ou uma pessoa notória que a mídia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando alguém morre.
Não estamos falando em tempo de catástrofes e guerras, quando a banalização da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de veículos, pegas de jovens e crimes. Se ninguém próximo é atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a notícia na televisão. É assim que o mundo gira, a indiferença está arraigada em nossa civilização hedonista e egoísta.
E isso é, talvez, o que nos mantém vivos e relativamente saudáveis. Já Albert Camus, escritor francês, dizia que “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. Falava assim para lembrar a nossa condição de mortal, pois queremos esconder a morte, escamoteá-la do nosso viver. Segundo o antropólogo Acácio Almeida Santos, a propagação de funerárias, onde os velórios são realizados, são recursos “de afastamento, ao colocar a morte para fora de casa…. para fingir que ela não existe.” Se um parente de alguém morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo é velado fora de casa, a família fica aliviada mais rápida, pois finge ou disfarça a realidade.
A psicóloga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( relações cortadas, desemprego, não passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de preparação, pois “trabalhar com essa experiência negativa, que causa dor, traz crescimento e é uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que é e como enfrentar a morte”.
Gláucia Rezende Tavares, fundadora do grupo “Apoio a Perdas Irreparáveis”, mostra, sem paranóia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. Para ela: “O melhor preparo para a morte é viver bem a vida. É como calibrar o farol do carro. Curto para não cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa projeção (a morte) para o futuro”. Por outro lado, Ariano Suassuna, do alto dos seus 74 anos, diz – e eu ouvi – que não vai morrer e tem mais é que se preocupar em viver. E você?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2001

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OS SERMÕES DO TELLES

Acabo de ler “Sermões de Pradaria”, poemas de José Telles, doído homem maduro, acostumado, por ofício, a abolir a dor alheia. Telles, médico e poeta, é, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente literário. Não sou de louvações. Dizem, até, que minha essência natural também se faz presente na parcimônia de elogios. Quem sabe.
Não gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e trêfega de emoções em tardes volúveis e incertas de sábados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilusão.
Telles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais taças amnióticas. É preciso sempre ter cuidado com os cordões umbilicais que transcendem as placentas. Cortar é, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida à vida.
O poeta escancara louvor a algumas mulheres – maravilhosas, segundo ele – com a admiração do pôr do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupitá, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se põe e essas mulheres são, talvez, mulheres de não-bitupitá ou a negação inconsciente do regaço primal. Sei lá. Quem sabe, as mulheres de Bitupitá não são, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim.
Creio que a poesia de Teles o autoriza também como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista tão importante no trato com a alma do paciente. Mário Quintana, já maduro, disse algo muito profundo: “cada verso é uma pergunta do poeta”. Telles é, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cutâneas.
“No meio dos meus amigos, ninguém percebe que meu sorriso é alheio”. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das lágrimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: “quando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece”. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida.
“Ah! Esse pedaço de tarde sem mistério é dono da minha angústia e sócio dessas lágrimas e o meu raciocínio é a face trágica da espera”. Lindo, mas o poeta imagina ser o único condômino da dor. Alguns, pensam até ser o síndico da angústia e das lágrimas. O poeta vê a dor sem o recurso anestésico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propagação desmesurada da aflição instantânea e deveras passageira.
“Em compensação, meu corpo dorme e cansa quando começa a dança louca dos meus sonhos”. É isso aí. Na idade do pôr do sol, o cansaço já não é mais um adicto, é companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real.
“E num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. Viajo nas caravelas do medo ou nas fúrias das marés, dentro dos quartos de luas e dos segredos do mundo”. Poderia ter sido escrito por um poeta consagrado. E cá fico eu, espião amador da arte alheia, deixando apenas o pulsar da emoção compartilhada, cúmplice sentido.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2001.

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CURTINDO O NATAL?

Ainda não arrastei asa para as festas de Natal. Ando meio cabreiro, arredio a muitas dessas comemorações que enchem os estômagos, mas deixam a mente vazia. Vejo as confraternizações como uma coisa boa, mas a palavra “frater” que dizer irmão, vá onde estão os seus irmãos, seja os de sangue ou os de coração, mas não exagere em demonstrações de sentimentos que não nutre.
Há tanta gente se abraçando, mas se tivéssemos um medidor de afeto, um “afetômetro”, talvez as pessoas fossem mais cuidadosas com as demonstrações não avalizadas por sentimentos. Fingir faz criar rugas, provoca halitose, altera a pressão, causa enxaqueca e aumenta os radicais livres, dizem os naturebas.
É claro que não se deve ser ranzinza, muito menos agora. Mas sem essa de falar o que não sente para pessoas que não tem nada a ver com você. Seja cordial, como sabe ser o brasileiro. Mas não fique meloso, derramado, se o seu coração pede recato. Bons modos e educação são uma coisa, babação é outra. Guarde-se para quem realmente gosta, os que conhecem você, sabem de seus defeitos, carências, limitações, mas o aceitam sem reservas o ano todo.
Para esses vale tudo: cartões feitos à mão, aquele CD, um livro legal que saiu ou uma lembrancinha que mostre a sua atenção. Escolha o que realmente imagina possa interessá-lo. Se ele faz coleção de tampa de cervejas, por exemplo, vá atrás das raras. Se ela só aceita roupa íntima de uma marca especial, procure. Mas, se ela quiser apenas o seu amor ou a sua amizade, melhor ainda, sobrará para comemorarem juntos em um self-service, na festa da família, na igreja, na churrascaria, dividindo um frango, ou no requintado restaurante que você passa o ano todo planejando levá-la e não teve coragem. A hora é essa.
Pelo amor de Deus, não beba em demasia para não virar aquela pessoa chata que muito fala, nada diz, nos enche de perdigotos e amassa a nossa roupa. Pode até beber, ficar alegre, mas sem essa de perder a classe, de “dizer aquelas verdades” que ninguém está disposto a ouvir, muito menos agora. Não conte mais piadas do Bush ou do Bin Laden. Não fale em economia, política, CPI, FHC, dinheiro, não xingue no trânsito. Isso já encheu o ano todo. Tenha imaginação, seja “light” como diz a turma jovem e fique “maneiro”, sem querer resolver os problemas do mundo. Acredite que esta época é mágica para as crianças e renove as suas próprias esperanças. Quando as festas terminarem, aí sim é hora de você cuidar de manter o emprego, não deixar que a empresa vá para o brejo, fazer regime, pagar as contas, mas, por enquanto, é jogar conversa fora ao lado dos que você realmente gosta e, tenho certeza, há pessoas que o adoram, seja você quem for ou onde estiver. Pense em um Natal feliz. Pensou? Então curta, a vida é breve.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2001.

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DOIS PRÁ LÁ, DOIS PRÁ CÁ

Não, não é a música de João Bosco e Aldir Blanc maravilhosamente cantada por Elis Regina. São os números 2002. Não entendo – e nem quero aprender – nada de numerologia, mas acho esses números equilibrados, bonitos de olhar e escrever. O 2 da esquerda pode ser eu e você. Os dois zeros parecem dizer nada. O 2 da direita pode ser o balanceamento da equação do bem viver entre nós (o 2 da esquerda) com o outro 2, eles.
Pode ser que este novo ano que está chegando depois de amanhã venha com mais equilíbrio. A soma dos números é quatro, quantidade ideal para uma mesa de conversação, troca de ideias, resolver diferenças, assumir culpas, perdoar e ajudar. Quatro também é um bom número para viajar de carro por este mundo afora. A energia gerada e trocada serve de fermento a entendimentos multipessoais, dois a dois, como se estivéssemos despreocupadamente jogando biriba com os pés descalços, a roupa folgada e o coração aberto às brincadeiras, sem deixar de prestar atenção ao jogo, o sentido figurado da própria vida.
2002 assemelha-se a um par de cisnes, patos silvestres ou garças alçando voo em formação. Vai ser fácil de escrever em cartas, cartões, bilhetes e cheques. Pode ser bobagem o que estou escrevendo, mas levar a vida e os seus números muito a sério não deixa também de ser uma bobagem. Afinal, estamos aqui de graça e por tal razão devemos agradecer a Deus chegarmos a este novo ano, que não tem nenhum 1, número que imperou quantitativa e soberanamente durante o século passado, ainda tão perto, mas já tão longe, parafraseando Richard Bach. Quem sabe se o século passado não tenha sido o do individualismo, justo por causa de tanto um, repetidos ano a ano.
Alguém poderá me dizer: mas este ano de 2001 já é do novo século e a humanidade sofreu tanto com ele. Não terei dúvida em responder: talvez tenha sido porque o 1 ainda era o rescaldo do individualismo do século passado. Agora só teremos um 1 em 2010 e ele, certamente ficará imprensado entre os dois zeros, sem poder dar vez ao egoísmo individualista.
Fim de ano é para isso. Conversar miolo de pote, comer muito, inventar história como esta e desejar a todos vocês, os que conheço e os não, votos de um 2002 em que eu, você e eles – os outros – vivamos em paz, com saúde, alegria e amor. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2001.

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HORA DE AGRADECER

Agora que os anos começados com o numeral um (1900 a 1999) acabaram, não tripudie sobre eles. Eles foram extremamente importantes para toda a humanidade.
Escrevemos em computador com internet ligada e fax, usamos ar condicionado, telefone disponível, circuito de segurança ligado, fechaduras eletrônicas, geladeira, freezer, fogão à gás com acendedor elétrico, micro-ondas, televisão, vídeo cassete, aparelhos de som com CD e carro na garagem. Todas essas coisas fazem parte da vida de muita gente. Nada disso existia no ano 1900.Agradeça.
Varamos céus em aviões de carreira por todos os continentes e isso não poderia acontecer em 1900. Usamos sais minerais e vitaminas de A a Z, e eles foram criados neste século. Não temos medo de varíola, febre amarela, poliomielite, sífilis, tuberculose e outras doenças. A Azt deu um freio na praga da Aids. No século passado as pessoas morriam com 40 anos, em média. Hoje, aos 40 anos, as pessoas estão absolutamente jovens. As cirurgias são feitas com a ajuda de computador e laser, a anestesia não deixa ninguém sentir dor e quase ninguém mais morre. No século passado, apenas 5% dos operados escapavam. A radioterapia e a quimioterapia são sucesso na cura de vários tipos de moléstias.
Há muitos transplantes sendo feitos com êxito e não é raro alguém enxergar com a córnea do outro, um rim novo doado, coração de um morto e muita coisa mais. A angioplastia evitou milhares de mortes de doentes cardíacos que não precisaram ser operados. Um simples cateter desobstruindo. Os corações descompassados usam marcapassos. Agradeça.
Os hospitais psiquiátricos estão acabando graças a novas drogas, o valium ajudou a muita gente, a aspirina aplacou dores, o prozac deu alegria a pessoas tristes e o viagra recuperou a autoestima de muitos homens. Agradeça.
As mulheres estão firmes no mercado de trabalho, só tem filhos quando desejam, não precisam usar o sobrenome do marido, a maioria sabe o que é orgasmo, participam de parlamentos, ministérios, organismos internacionais e vão ganhar ainda mais espaço, pois são capazes e têm sensibilidade. Muitos casais que não podiam conceber filhos usam a fertilização artificial. Agradeça.
É claro que ainda existe guerra, desrespeito ao meio ambiente, miséria, fome, corrupção, desemprego e fanatismo religioso, mas éramos menos dec2 bilhões em 1900 e hoje somos seis bilhões. É muita gente para morar, alimentar, vestir, educar e trabalhar. Isso é tarefa que cabe a quem recebeu tudo o que falei acima. Todos nós somos devedores. É preciso que cada um faça a sua parte. Não espere por governo e nem por milagre. Você é o santo, use as suas forças, qualquer que seja seu tamanho ou intensidade. É tempo de agradecer a Thomas Edison, Henry Ford, Marie Curie, Albert Einstein, Santos Dumont, Paul Ehrlich, Alexander Fleming, Sigmund Freud, Jacques Costeau, JoãoXXIII, Churchill, Charles Chaplin, Yuri Gagarin, Igor Stravinski, John Kennedy, Shere Hite, Gorbachev, Nelson Mandela e, principalmente, a seus descendentes que lutaram para você estar aqui participando desta glória que é estar vivo. Agradeça, por fim, a Deus.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/01/2000.

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O BRAZUCA E O ANO NOVO

Há muita informação no mundo e as notícias – ou fofocas – correm céleres. Quando não saem nas televisões e jornais locais ou nacionais, os de fora mostram sem dó, nem piedade. Acho que foi por tal razão que, de repente, um brazuca me liga e pergunta se não soube da história do FHC no Forte de Copacabana, no Posto Seis no Rio de Janeiro.
Segundo ele, auto banido do Brasil, a festa a que o nosso presidente compareceu parecia um” baile da Ilha Fiscal” com tendas, champanha francesa, uísque escocês, vinhos de várias origens, acepipes e iguarias de todas as espécies.
Havia castas: 100 muitos amigos, 200 menos amigos e 200 militares, em espaços separados. Pois não foi que o vento moleque de Copacabana resolveu acabar com a festa, derrubar tendas, apagar a luz e colocar em alerta os seguranças que fizeram o que sabem: dar pancada em fotógrafos e jornalistas.
A grande imprensa não deu detalhes, mas não teve como esconder tudo. A coisa esteve feia e o nosso presidente viu o ano nascer no escuro, cercado por seguranças, sem telefone funcionando (o que é paradoxal) e ouvindo a truculência a poucos metros. E o que é pior é que tudo era pago pela Embratel, uma empresa nossa que virou transnacional. Nos Estados Unidos seria caso de cadeia, bradava ele. E desligou a ligação.
Sei que o nosso brazuca, ou brasileiro desterrado, pode ter complexos, arengas pessoais ou exagerado, mas já é tempo dos que são empregados por nós para dirigir a coisa pública, por tempo determinado, começarem a pensar e agir de outra forma. Afinal, empregado tem que prestar contas do que faz, sob pena de perder o emprego.
Neste ano dos três zeros é tempo de reflexão para que, nas próximas eleições, os zeros passem a ser nota. Os brasileiros já estão recuperando a sua memória e, por certo, saberão exercitá-la no próximo pleito municipal e, em 2002, escolherão deputados, senadores, governadores e um presidente que tenham compromissos com os novos tempos que estão surgindo e uma postura pública mais coerente com a nossa realidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2000.

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PARI

A gestação foi longa. Anos. Décadas. Lembro: o “primeiro livro” escrito por mim aos 14 anos. Era um “romance” bobo feito à mão em um caderno “Avante” em que um adolescente se apaixona, nas férias, por uma menina faceira e arisca. E por ai ia. O fato é que, um belo (ou nefasto) dia, o caderno caiu numa piscina, o romancista e o romance se afogaram. Depois, como todo mundo, fiz versos que estão mofados nas gavetas.
Já universitário, passei a escrever em jornal com coluna diária assinada. A primeira fase foi sobre “informes acadêmicos” em que narrava o acontecido na vida universitária. Posteriormente, escrevi durante anos sobre “administração e negócios” e fui correspondente de uma revista semanal de economia. Tive até a audácia de, por breves tempos, coproduzir com o Hélio Mota um programa semanal de TV, “Fortaleza, preto e branco”, em que a cidade era passada a limpo, sem apelações.
Na universidade fiz trabalhos, monografias e teses, mas a vida me jogou em outros rumos e, já como planejador, dirigi a elaboração de muitos planos e projetos. Tinha de escrever, é claro, mas não era a escrita solta, descomprometida do escrevinhador que ama o papel em branco para colocar o que sente, sem peias.
Um dia, faz muito tempo, me permiti voltar a escrever em jornal e o fazia de forma esporádica. Ora um jornal, ora outro. De repente, me fixei nesta página dois do DN e cá estou eu espremido pelo editor Bilas há mais de trezentos domingos.
Toda essa lenga-lenga é para dizer aos meus parcos leitores que reuni no ano passado, em livro, algumas das crônicas aqui publicadas. Procurei as que fossem mais leves. Pedi a Saulo Neiva, Professor Doutor de Literatura Brasileira, hoje docente da Université Blaise-Pascal, na França, que lesse o “boneco do livro” e, se gostasse, fizesse o prefácio. Ele fez o prefácio. E o livro foi parido com o prosaico título de “Sobre a vida e o amor”. O livro é como o título, simples, raso e tenta apenas mostrar uma face minha pouco visível. Como disse Guimarães Rosa, em Tutaméia: “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.
Não fiz noite de autógrafos, por achar que há uma saturação indevida desse evento. Preferi presentear a alguns amigos e livrarias o estão vendendo. Finalmente, foi Machado de Assis, no livro Dom Casmurro (XCII), quem falou: “O resto deste capítulo é só para dizer que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2000.

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CASADO E SEPARADO

Fiquem tranquilos. Vocês não conhecem. É gente distante. Pessoas amigas gastam seus e-mails para me falar da incoerência de estarem casadas e viverem separadas. Paradoxal? Não. Absolutamente verdadeiro.
Eu sempre tento responder o que me perguntam, mas não tenho certeza de colaborar. Às vezes, posso até atrapalhar. Correndo esse risco, sempre é bom discutir as razões, mesmo me faltando à ferramenta terapêutica para apontar soluções. Afinal, como dizem os profissionais que vivem de cuidar das almas e das mentes dos outros, as soluções estão dentro de nós. O difícil é manter um casal pensando como “nós”.
Acredito que os casais não podem procurar respostas isoladas para seus problemas. É preciso admitir, para começo de conversa, que os dois devem voltar a conversar, sem medo de estar invadindo o espaço do outro. Pelo contrário, o respeito ao espaço do outro pode dar origem ao distanciamento, um dos alavancadores da solidão entre casais. É claro que cada um deve, nestes tempos bicudos, procurar viver a sua vida. Isso não invalida que se comuniquem, falem de suas alegrais, fraquezas, desejos e sonhos. Briguem, até.
Os olhos podem até demonstrar começar com raiva e terminar com ternura, brilhar ao ver o outro. Sem brilho no olho não há amor e é preciso usar um colírio para manter e lubrificar o olho atento: o toque físico, o erotismo, o companheirismo e a ternura. Ainda não somos virtuais, somos gente de carne e osso, com odores precisando ser sentidos, corpos necessitando de afagos e ouvidos desejando não a censura, mas o papo descontraído, as pernas cruzadas, a cumplicidade e aquela arenga puxando o lençol podendo acabar em um simples abraço ou algo mais quente.
As estatísticas, sempre elas, demonstram o óbvio. Casais jovens se tocam mais, chegam a perto de 40 toques mútuos por dia. Os casais mais velhos se preocupam em tocar a vida, o controle remoto, órgãos eletrônicos e, passando a discípulos de Onã, descobrirem o seu próprio corpo. Está errado. A saída pode estar em andarem mais juntos, descobrirem que não são tão chatos quanto imaginam e não usarem somente as suas reservas de boa convivência na presença de estranhos. Sejam menos exigentes com o outro. Afinal, todos temos os nossos defeitos e, defeito repetido, vira mania e mania incomoda o outro.
O homem vai, pouco a pouco, perdendo a sua capacidade de conquistar ou manter a conquista da própria mulher. É a acomodação que deve ser rompida pela mulher com os seus enlevos, coragem e iniciativa. Não estou falando só dos casais que possam eventualmente ter uma aventura extra, mas do que perderam o apetite pelo outro pela falta de diálogo, pela ignorância de admitir que só o outro é que envelhece e se afasta para um mundo seu, quase autista. É preciso diálogo e deixar a conversa superficial de filhos, trabalho e dinheiro, para o que sinto, o que me falta, onde você poderia me ajudar etc. É indispensável deixar brotar os sentimentos, adivinhar pensamentos e assassinar a rotina. Saiam só, sem amigos e conversem sem medo, sem acusações, recriminações e fantasiem o erotismo que, por certo ainda existe e tornem-no prático, sempre.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/01/2000.