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O PAPA E A FOICE – Diário do Nordeste

Pouca gente se dá conta do Vaticano ser um Estado. Por ser Estado, possui estrutura bem maior que a Igreja Católica necessitaria. Bergoglio, ao assumir o papado sob o nome de Francisco, viu-se cercado da burocracia imensa, histórias e estórias cabeludas que passaram, quase incólumes, nos dois papados que o antecederam.
Sua ascendência italiana, embora argentino, facilitou o convívio com o “establisment” que manuseia todos os cordões, inclusive a distribuição de cargos nas áreas de gestão administrativa e financeira; no tribunal a julgar desde desvio de dízimos, de fé, aos nebulosos envolvimentos em pedofilia; nas promoções de padres a monsenhores e a bispos, de bispos a arcebispos, de arcebispos a cardeais; e aos cobiçados cargos diplomáticos de núncios apostólicos, embaixadores nos países com os quais o Vaticano mantém relações.
A recente visita ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai é parte desse esforço de manter a fé cristã em países que estão, no todo ou parte, com a síndrome bolivariana deflagrada por Hugo Chávez, sob a inspiração stalinista da Cuba dos irmãos Castro. Chávez, nos tempos áureos dos preços do petróleo, foi benfeitor generoso da então asfixiada economia castrista.
Agora, retomadas as relações com o fim do embargo americano, Cuba não terá tanta seiva para exportar a ideologia da “pátria ou morte”. Assim, Francisco aproxima-se desse grande reduto católico que é a América Latina, sob pena de perder mais espaço para os pentecostais, os sincretismos e o bolivarismo. É a política da cruz contra a foice e os “diabinhos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2015.

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O BRASIL DO REAL OU O BRASIL REAL – Jornal O Estado

“O Brasil não é para principiantes”, frase atribuída a Tom Jobim.
No Brasil, há coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanalítica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: “Brasil, ame-o ou deixe-o». Depois, veio a luta pelas diretas e o País se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e há verdadeiro carnaval. Aí, Tancredo adoece, morre, e o País se desmancha em lágrimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro.
Surge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: “É proibido gastar”. E começa a gastar. Gasta tanto que só há uma solução: o Plano Cruzado. “Cada brasileiro ou brasileira deverá ser um fiscal do Presidente”, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta delação quanto logo após a decretação do Plano Cruzado. A Sunab e a Polícia Federal ficaram encarregadas das reclamações e de trotes, dos fuxicos e das perseguições de pessoas que não gostavam de outras e, aproveitando a ocasião, haja denúncias.
Sarney enxuga as lágrimas do povo brasileiro e passa a ser o nosso novo herói. Todo bom herói que se preza tem o seu fiel escudeiro, o Dilson Funaro. Menos de um ano se passou e Sarney perdeu o seu trono na paixão coletiva. Depois, o lbope disse ao Sarney que o caso de amor estava acabando juntamente com a nossa paciência. Ele resolveu arregaçar as mangas de seu jaquetão clássico, pentear os bigodes e a cabeleira e costurar o “pacto social”, que não aconteceu.
Após Sarney veio o Collor, com a aceitação total da mídia e da maioria dos eleitores que não souberam ver a intranquilidade no seu olhar e no gestual. Deu no que deu. E aí veio o Itamar com o seu temperamento ciclotímico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e daí para a eleição foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas.
Em meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mantém há 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprovação da reeleição, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenciária. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, até frango comia.
Saiu FHC, entrou Lula, o metalúrgico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empresários torceram os narizes. Em seguida, houve a aproximação que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI.
Elege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevisível. Passam-se quatro anos, o mundo perde o gás econômico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O país entra em 2015 nitidamente dividido, começa o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobrás e integrantes de diversos partidos, são chamados à ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o filósofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no “O Labirinto” de Jorge Luis Borges. Mas, e o Minotauro?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2015

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FAMÍLIA GUINLE: DO ARMARINHO À DINASTIA – Jornal O Estado

“Se você deseja, não lhe fará mal”. Máxima dos Guinle
Clayton Lima, da Livraria Smile, deu-me um exemplar do livro “Os Guinle – A História de uma Dinastia”, obra do historiador e professor Clóvis Bulcão. “Os Guinle” foi elaborado com cuidado, lançado em junho pela “Intrínseca”. Começa com frase de Nelson Rodrigues: “Quando desaparece um Guinle, morre um pouco do nosso passado”.
Em seguida há a genealogia da família, descendente de imigrantes franceses, iniciada com Eduardo Palassim Guinle e Guilhermina Coutinho Guinle e vai até a sua quinta geração. Há uma cronologia, a partir de 1840, mas, na verdade, o ponto de partida é o nascimento de Eduardo Guinle, em 1846.
No mundo dos negócios a vida começa em 1871, com a abertura de um armarinho, no antigo centro do Rio de Janeiro, quando os sócios Eduardo Guinle e Cândido Gaffrée fundaram o “Aux Tuileries” que vendia um pouco de muitas coisas.
Eduardo e Guilhermina, casados em 1878, tiveram os filhos Eduardo, Guilherme, Carlos, Arnaldo, Octávio, Celina e Heloísa. Uma das características da família foi morar bem, cultivar relacionamentos com governantes, e dar aos filhos boa instrução, inclusive, com governanta estrangeira, oportunidade de aprenderem línguas e obter graus de ensino superior.
O ponto de inflexão da ascensão de Eduardo, o patriarca, e de seu sócio Cândido Gaffrée, foi a disputa da licitação para operar e ampliar o Porto de Santos. O fato aconteceu em 1888, depois de duro embate. Já em 1892 era inaugurado o novo porto com 260 metros de caís construído pela sociedade.
Daí para frente há a entrada na área elétrica, concorrendo com a Light, poderosa empresa canadense. Esse novo ramo de atividade também foi decisivo para o crescimento da engrenagem empresarial e social dos Guinle.
Por outro lado, em 1902, surge o Fluminense Football Clube, do qual os Guinle viraram sócios. O Fluminense, ainda hoje, leva o nome de “pó de arroz”, por ter sido fundado por pessoas de bom nível social. Os Guinle tiveram influência na construção do estádio do clube onde foi disputado a decisão do campeonato Sul-americano de 1918, quando o Brasil venceu o Uruguai.
Eduardo, o patriarca, morre em 1912. Em 1914, seu filho Octávio – que procurava entrar no “jet-set” americano- é preso em Nova Iorque por suposto ataque físico à americana Monica Borden, com quem, depois de um acordo em que desembolsa 50 mil dólares da época, resolve casar. Esse casamento, como era de se esperar, durou apenas dois anos.
Com a urbanização do Rio de Janeiro e a inauguração da nova Avenida Central (hoje, Rio Branco) seguindo os passos da modernização da Paris de Haussmann, a família funda uma hotelaria. Em 1918, e surge o Hotel Palace, no Centro.
Copacabana era o futuro do Rio e a família comprou as terras que pode e, em uma delas, resolve construir o hotel Copacabana Palace, inaugurado em 1923. “O Copa” sempre foi a obra mais visível da família, embora o grosso da fortuna da dinastia esteja ligada aos 92 anos de controle ininterrupto do Porto de Santos.
Saindo da cronologia, para não atrapalhar a quem desejar ler o livro, um fato peculiar chamou-me a atenção. O regente cearense Eleazar de Carvalho foi beneficiado com uma bolsa de estudos. Arnaldo, filho de Eduardo, que assumira, em 1941, a presidência do Conselho da Orquestra Sinfônica Brasileira-OSM. Eleazar foi para a Berkshire Music Centre, em Massachussets, e recebia- da OSM- duzentos dólares- que valiam muito – a cada mês.
Dou por terminado este relato, mas sem esquecer que o perigeu dos Guinle acontece, em 2004, com a morte do “playboy” Jorginho Guinle, que foi o “must” na propaganda do Copacabana Palace. O Copa foi vendido a grupo estrangeiro em 1989. A aura continua.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/07/2015

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LIVROS E LEITORES – Diário do Nordeste

No livro “O Falecido Mattia Pascal”, de Luigi Pirandello, Nobel de Literatura em 1934, há fato ainda comum hoje em dia. Alguém morre, conta Pirandello. Foi o Monsenhor Boccamazza. Deixa o legado de livros para o município em que vivia. O município não deu à mínima “e deixou os livros empilhados, durante muitos e muitos anos, num amplo e úmido depósito, de onde, os tirou – podem imaginar em que estado – para guardá-los na igrejinha, fora de mão, de Santa Maria Liberal, dessagrada não sei por qual motivo”.
Essa constatação é fácil de constatar em sebos, quando livros, sequer lidos, alguns com dedicatórias amáveis, são encontrados aos montes. Os que escrevem devem ter a consciência de que esse pode ser o destino de alguns dos seus livros, mesmo que hajam gastado tempo para a sua elaboração, revisão, edição e, se for o caso, lançamentos com pouco ou muito público.
Há pessoas que declaram aos autores haver gostado muito dos seus livros, mas, na realidade, os folhearam vagamente. Reza a lenda que certo autor, desiludido, no seu último livro, a altura da centésima página, resolveu escrever um desaforo ao leitor com palavras de baixo calão.
Depois, sempre que encontrava algum dos prováveis leitores desse dito livro, perguntava: leu o livro? foi até ao fim? gostou? Os elogios eram sempre fartos, a comprovar mentiras, pois nenhum se referiu à trapaça que ele armara na página 100. Portanto, escuse-se de fazer questionamentos. Deixe que o leitor expresse a sua versão. Não fique triste, pior foi o caso do Monsenhor Boccamazza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2015

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A INVASÃO DO “ENXAME” DOS EX-COLONIZADOS – Jornal O Estado

Enquanto nós, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, é preciso abrir os olhos para o que está ocorrendo por aí. A Europa, constituída por países que têm nas suas histórias a adjetivação pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migração constante de africanos e árabes.
Há oito dias, exato em 30 de julho, o Premiê da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: “Há um enxame de pessoas vindo pelo Mediterrâneo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia está crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras”. E arrematou: “Devemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas britânicos poderão ir para as suas férias”. É verão na Europa. Seu pronunciamento não foi bem recebido por alguns. O Eurotúnel agora é foco de ataques.
Um pouquinho de história. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do século XIX, os europeus, que detiveram o comércio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face à revolução industrial, levariam
Houve, em setembro de 1884, o “startup” – palavra da moda atual – de uma grande reunião na Alemanha que viria a ser conhecida como “Conferência de Berlim”. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, além do país sede, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Áustria/Hungria, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o único não europeu.
Esses países dividiram a África segundo os seus interesses próprios, desrespeitando etnias, crenças e geografias. Atinaram que, além de mão-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais possíveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do território da África foi dominado até grande parte do século passado. Encerrada a dominação colonial – e mesmo na sua constância – começa o êxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos países que os dominaram de forma não muito gentil.
Não muito diferente do que aconteceu na África, quase a mesma constelação de países, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do português Vasco da Gama à Ásia, invadiu o sudeste asiático e o Oriente Médio. Sem precisar de Conferência, houve o que se convencionou chamar de “Partilha da Ásia”.
Foi o “enxame” da voracidade europeia de expansão comercial e a introdução, por exemplo, de “plantations” para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Grã Bretanha; e da cana-de-açúcar pelos holandeses.
O continente asiático, depois do fim da dominação europeia, tendo a China, o Japão e a Índia como referências, está em notável ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, não acontece com o Oriente Médio, onde cristãos e muçulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado após as invasões do Afeganistão, da Síria e do Iraque, e do recente acordo com o Irã para a não fabricação de armas nucleares. Há muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milhões de refugiados no Oriente Médio.
Por tudo isso, muitos jovens árabes saíram e continuarão a tentar sair de seus países, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a pé ou por veículo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos já prometem construir um alto muro que impeça ou dificulte a invasão de seu território, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterrâneo é o cemitério e o estuário dos africanos que fogem de problemas similares e têm morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e até batelões improvisados.
Há campos para atendimentos a refugiados, em especial na Itália e na França, trens e veículos sofrem ataques. Tudo leva a desdobramentos que ainda não sabemos onde irão parar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2015

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CÔNSULES EM AÇÃO – Diário do Nordeste

Ontem à noite, a Sociedade Consular do Ceará-SCC, recomeçou novo biênio de gestão sob a presidência segura de Ednilton Gomes de Soárez com a posse dos demais diretores: Raimundo Viana, C.Maurício Duran, J.M. Zannochi e Fernanda Jensen. A seguir a introdução oficial do novo cônsul honorário do Chile, o ínclito Ednilo Soarez que já participou de reunião em Salvador com os cônsules daquele país andino no Brasil.
A solenidade foi coroada com a apresentação do espetáculo “Sagrada”, uma fantasia sobre a sustentabilidade do planeta Terra. Os bailarinos, os figurinos, a coreografia e a musicalidade são da Edisca, essa benquista entidade criada e dirigida por Dora Andrade que acolhe jovens carentes e os transforma em artistas e cidadãos.
Compõem a atual SCC os seguintes cônsules: Annette de Castro, Holanda; Beat Suhner, Suíça; C.Maurício Dominguez, Colômbia; Dieter Gerding, Alemanha; Ednilo Soárez, Chile; Ednilton Soárez, Finlândia; Reinhilde Lima, Áustria; Fernanda Jensen, França; Francisco Brandão, Portugal; Janos Fuzesi, Hungria; João Soares, México; Airton Teixeira, Belize; J.M.Zanocchi, Uruguai; Luciano Maia, Romênia; Marcos de Castro, Noruega e Suécia; Raimundo Viana, Rep. Tcheca; Roberto Misici, Itália; Sergio Bayas, Equador; e Zsofia Sales, Hungria.
Nunca é demais repetir que os cônsules são acreditados pelos países que representam – de quem recebem diretrizes – e pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil que os credencia. Todos exercem suas atividades de forma permanente e voluntária nas jurisdições que lhes são confiadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2015

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O COMPUTADOR, AS NOTÍCIAS, OS FATOS E OS BOATOS – Jornal O Estado

Gostaria de não usar computador, mas sou obrigado, por dever de ofício e por escrever todas as semanas em dois jornais. Gostaria de, como usuário, não receber spams, essa chatice que todos os dias somos obrigados a tentar exterminar. Mera ilusão. Se você bloqueia um remetente, o mesmo spam surge de outras fontes. São os captadores profissionais a se transformar em vendedores de e-mails, fustigando o que escrevemos, o que consultamos no Google para pesquisas de trabalho e para mero deleite.
Tudo fica definitivo nas nuvens, não as das bonanças, pois turvadas por desesperança coletiva a se apoderar do país que mudou de humor de forma rápida. Ao mesmo tempo, a crise que não chegaria por aqui faz morada na mente e no bolso de todos. Independente de quem somos, fazemos ou temos.
Ver noticiários de televisão –não estou falando dos programas policiais de muitos canais com profundos apelos mórbidos e linguagem nada sutil – tornou-se um misto de sadomasoquismo e de aversão espontânea. A procura do fato -ou boato- a dar índices de audiência não tem limites e tampouco segue a cartilha dos bons propósitos.
Os jornais impressos, estes combatentes contra a falácia do mundo virtual, ficam jungidos às circunstâncias e dependem de anunciantes, de projetos especiais, de assinantes e cumprem, da forma possível, um papel relevante para informar e comunicar. Sofrem ainda a concorrência de blogs e sites de notícias, feitos por qualquer um, escrevendo o que lhe der na cabeça, com ou sem pudor, movidos a interesses confessáveis ou não. “La nave vá”.
Não vou repetir o que o escritor Umberto Eco tem dito, mas ele está coberto de razão e a sua indignação faz sentido. Em um mesmo noticiário, seja da Europa ou das Américas, da Ásia ou do Oriente Médio, há uma mistura de assuntos que vão do incômodo da família real inglesa com os netos de Diana, da morte de jovens negros por policiais americanos e passa pelos avanços do Estado Islâmico na Síria e adjacências.
A partir da Grécia, há crise se espraiando pela Europa fustigada por imigrantes evadidos de suas próprias pátrias. Eclode uma insanidade geral a não se importar com os muitos mortos afogados ou nos porões dos atuais navios negreiros. Sequer há saída transitável para os refugiados sobreviventes em campos vigiados.
As filhas do presidente Obama são objeto de fotos de “paparazzi” em quaisquer movimentos que façam, sejam mera saída da “Casa Branca” ou em viagem nas férias neste verão do hemisfério norte.
Que culpa tem Nelson Mandela em sua paz eterna ou no mero fim do seu corpo se um neto seu está envolvido em estripulias com uma jovem de 15 anos?
Giselle Bündchen é supostamente vista usando uma burca em clínica de cirurgia plástica em Paris e, ao mesmo tempo, é obrigada a dizer se o seu casamento com o atleta Tom Brady está bem ou vai mal.
Vão falar que tudo é o preço da fama, da linhagem real, do destaque político, profissional ou social. Alguém sai do espaço cinza anódino e entra na ciranda do disse-me-disse. E olha que não estou falando das costumeiras discussões sobre o direito de cada pessoa escolher o que lhe convém para o bem e para o mal.
O Papa Francisco vai em setembro aos Estados Unidos e só abordam pedofilia e a venda de imóveis pela Igreja Católica em 40 dioceses ianques. Bispos afirmam que os seus rebanhos diminuíram e templos se quedam vazios. Vender é alternativa lícita, mas alguns advertem dos problemas não tão recentes com o Banco do Vaticano.
Estamos em águas turvas. Os algoritmos a expandir as mentes dos jovens cientistas bilionários do Vale do Silício, na Califórnia, são os mesmos usados por contrabandistas, por vendedores de armamentos, por financiadores de carteis de drogas e por “hackers”. Capazes de tudo.
Mesmo assim, não é o dilúvio, tampouco o “Armagedon”. Há gaivotas anunciando novas terras, crianças nascendo e as noites trevosas podem antecipar manhãs radiantes. Como dizia Adolph Gottlieb, pintor abstrato estadunidense do século passado: “meus símbolos favoritos são aqueles que não entendi”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2015

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AGOSTO E A MORDIDA – Diário do Nordeste

Não contem os dias que faltam para o mês de agosto terminar. Até agora, pelo que sei, nada de extraordinário aconteceu. Vida ordinária, comum, com os mesmos atropelos dos demais meses. A diferença são as luas de agosto mais intensas, tais como os leoninos. Os ventos ficam acelerados e fazem ruídos. Apenas ruídos. Nenhum furacão, nada de tempestade.
E por falar em ruídos, as empresas de telefonia, dizem muitos, cobram além do tudo, como querem e bloqueiam linhas. Você não pode dizer um oi. Tudo deveria ser explicado, tintim por tintim. Números, segundos e minutos usados em ligações. Milhões de usuários padecem. Não entendem o modo de controle do tempo de suas falas, do uso da internet, do roaming e de outros serviços.
Nada é ao vivo, tudo passa por centrais de atendimentos com músicas, respostas automáticas a consumir o tempo, o dinheiro e a paciência. Telefonistas desses centros Brasil afora, interior adentro, respondem perguntas de forma estandardizada, decoradas, impessoais e abusam do gerúndio. Estamos providenciando. Quando? Não sabem. Quero uma solução? O tempo passando e a paciência se esgota.
Ouvi contar que um senhor, aposentado, com tanta raiva pela espera sem fim e a gravação repetida, mordeu o seu celular. Engasgou-se. A mulher, aflita, veio em socorro e quase desmaia. Abriu a boca do marido e retirou os pedaços do celular com vidro quebrado. Sangue. Ele ainda mordeu o dedo indicador da consorte. Brigaram.
Levado pelo genro, foi parar no dentista. Dois dentes quebrados, corte na língua e o orçamento, claro. Reclamar a quem? Do mês de agosto?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/08/2015.

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PODE-SE MEDIR A LIBERDADE HUMANA – Jornal O Estado

“Sem leituras sérias abdicamos do patrimônio cultural da humanidade, arduamente construído ao longo de milênios.” Jaime Pinsky, historiador
Até o dia em que escrevo, neste final de agosto de 2015, não vi significativa menção em periódicos/jornais brasileiros ao trabalho científico “Índice de Liberdade Humana – ILH” (Human Freedom Index),108 páginas, produzido por Ian Vásquez (Diretor do Centro para a Liberdade Global e Prosperidade) do Cato Institute, EEUU, e Tanja Porcnik, do Visio Institut, da Eslovênia. Há participação de organizações da Alemanha – Fundação Friedrich Naumann Stiftung – e do Canadá, através do Fraser Institute.
Na introdução ao trabalho (www.cato.org e object.cato.org), que contou com número expressivo de colaboradores, de diversos países, é explicada a razão de ser do estudo: “Porque nós precisamos de liberdade e porque é necessário medi-la”. Conclui-se, por óbvio, que os valores liberais são fundamentais para os autores, mas isso não invalida a repercussão posterior de suas conclusões.
O documento reflete, tendo como base o ano de 2012, 76 indicadores sociais, econômicos e de liberdade de expressão, de movimentos e de associação. Na prática, o resultado é um composto da observação em 152 países dos principais itens considerados, levando em conta: o cumprimento da lei, o Estado de Direito, a segurança e a liberdade religiosa. Afere, ainda, os índices macroeconômicos da renda per capita, da regulação de crédito, estabilidade da regulação do trabalho e dos negócios.
Na substância, tenta-se medir a média global da liberdade civil e da democracia de cada país enfocado. O trabalho verifica ainda índices de criminalidade, comportamentos frente às relações homoafetivas, número de jornalistas assassinados, respeito ao direito de propriedade, entre outros. Para o estudo, liberdade é “o conceito social que reconhece a dignidade dos indivíduos e a ausência de instrumentos coercitivos”.
O Índice de Liberdade Humana (ILH) é mensurado com a atribuição de notas de zero a dez para os 76 indicadores pesquisados. O que me chamou a atenção foi que, entre os 10 primeiros países colocados, abriu-se exceção para incluir Hong Kong que é uma peculiar Região Administrativa Autônoma Especial da China.
Os 10 primeiros têm renda per capita média anual acima de 30.000 dólares (R$ 105.000,00). São eles: Hong Kong, Suíça, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Canadá, Austrália, Irlanda (para mim, uma surpresa), Reino Unido e Suécia.
Os dois países tidos e havidos como os mais ricos do planeta, Estados Unidos e China, ficaram, respectivamente, em 20º e 132º lugar. A rica Alemanha ficou em 12º. Esta é a diferença dessa pesquisa de cunho qualitativo, notadamente.
Os doze países em pior situação possuem renda per capita anual média abaixo de 2.615 dólares (R$ 9.153,00) estão, em sua maioria, na África Subsaariana, Oriente Médio, sul da Ásia e um da América do Sul. Pela ordem decrescente: República do Congo, Arábia Saudita, Chade, Venezuela, Etiópia, Argélia, República Centro Africana, Iémen, Zimbabwé, Myanmar, República Democrática do Congo e Irã (último classificado).
Na América Latina a melhor posição é a do Chile, em 18º. O Brasil ficou em 82o. lugar com média de 6,82, abaixo da média geral de 6,96 dos 152 países analisados. Tenho certeza de que poderemos subir dezenas de posições, pois há, mesmo com os desencontros e incertezas atuais, a fé de que após este mergulho em águas turvas, sairemos mais fortes e conscientes em busca de direitos, liberdade e cidadania.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2015.

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O CENTRO DO MUNDO – Diário do Nordeste

Pode parecer cabotino, mas é tempo de dizer bobas palavras. Quando fiz a primeira comunhão, com calças curtas e paletó de casimira azul, camisa branca, laço no braço um flash registrou o fato, fiquei feliz. Aquele enlevo. Depois, quando conclui o curso de humanidades: todos de terno branco, a foto coletiva. Subi os degraus do Theatro José de Alencar para colar grau em administração, acompanhado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira. Clarão.
Ano seguinte, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, recebi o grau em direito, lado a lado com meu pai, acolhido por Antônio Martins Filho, Reitor e Luiz Cruz de Vasconcelos, Diretor da Faculdade de Direito. Todos eles estão rindo, na foto. Eu, nem tanto. Parecia intuir que o mundo não tem centro e eu teria de fazer o meu caminho.
Fotos foram registrando eventos. A abertura do primeiro escritório. A formação da primeira empresa, o casamento, o nascimento das filhas, os seus crescimentos, as viagens, os lançamento de livros, as academias, os encontros familiares e o que veio depois. Semana passada, cumpri anos, como dizem os hispânicos. A cada dia descubro estar longe do centro do mundo. Nunca descobri onde fica.
Ocupo apenas o meu espaço, fazendo o que posso, procurando aprender o que ainda não sei. E é muito. Neste momento brasileiro, quando desencontros de opiniões, de ideias e de valores são a constante, desejo a volta daquele enlevo do menino da primeira comunhão e o discernir do jovem recém-formado. Vivo cada dia com a obstinação de montanhista, mas sinto o quanto é duro pisar firme em meio íngreme.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2015.