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AGOSTO E A MORDIDA – Diário do Nordeste

Não contem os dias que faltam para o mês de agosto terminar. Até agora, pelo que sei, nada de extraordinário aconteceu. Vida ordinária, comum, com os mesmos atropelos dos demais meses. A diferença são as luas de agosto mais intensas, tais como os leoninos. Os ventos ficam acelerados e fazem ruídos. Apenas ruídos. Nenhum furacão, nada de tempestade.
E por falar em ruídos, as empresas de telefonia, dizem muitos, cobram além do tudo, como querem e bloqueiam linhas. Você não pode dizer um oi. Tudo deveria ser explicado, tintim por tintim. Números, segundos e minutos usados em ligações. Milhões de usuários padecem. Não entendem o modo de controle do tempo de suas falas, do uso da internet, do roaming e de outros serviços.
Nada é ao vivo, tudo passa por centrais de atendimentos com músicas, respostas automáticas a consumir o tempo, o dinheiro e a paciência. Telefonistas desses centros Brasil afora, interior adentro, respondem perguntas de forma estandardizada, decoradas, impessoais e abusam do gerúndio. Estamos providenciando. Quando? Não sabem. Quero uma solução? O tempo passando e a paciência se esgota.
Ouvi contar que um senhor, aposentado, com tanta raiva pela espera sem fim e a gravação repetida, mordeu o seu celular. Engasgou-se. A mulher, aflita, veio em socorro e quase desmaia. Abriu a boca do marido e retirou os pedaços do celular com vidro quebrado. Sangue. Ele ainda mordeu o dedo indicador da consorte. Brigaram.
Levado pelo genro, foi parar no dentista. Dois dentes quebrados, corte na língua e o orçamento, claro. Reclamar a quem? Do mês de agosto?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/08/2015.

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PODE-SE MEDIR A LIBERDADE HUMANA – Jornal O Estado

“Sem leituras sérias abdicamos do patrimônio cultural da humanidade, arduamente construído ao longo de milênios.” Jaime Pinsky, historiador
Até o dia em que escrevo, neste final de agosto de 2015, não vi significativa menção em periódicos/jornais brasileiros ao trabalho científico “Índice de Liberdade Humana – ILH” (Human Freedom Index),108 páginas, produzido por Ian Vásquez (Diretor do Centro para a Liberdade Global e Prosperidade) do Cato Institute, EEUU, e Tanja Porcnik, do Visio Institut, da Eslovênia. Há participação de organizações da Alemanha – Fundação Friedrich Naumann Stiftung – e do Canadá, através do Fraser Institute.
Na introdução ao trabalho (www.cato.org e object.cato.org), que contou com número expressivo de colaboradores, de diversos países, é explicada a razão de ser do estudo: “Porque nós precisamos de liberdade e porque é necessário medi-la”. Conclui-se, por óbvio, que os valores liberais são fundamentais para os autores, mas isso não invalida a repercussão posterior de suas conclusões.
O documento reflete, tendo como base o ano de 2012, 76 indicadores sociais, econômicos e de liberdade de expressão, de movimentos e de associação. Na prática, o resultado é um composto da observação em 152 países dos principais itens considerados, levando em conta: o cumprimento da lei, o Estado de Direito, a segurança e a liberdade religiosa. Afere, ainda, os índices macroeconômicos da renda per capita, da regulação de crédito, estabilidade da regulação do trabalho e dos negócios.
Na substância, tenta-se medir a média global da liberdade civil e da democracia de cada país enfocado. O trabalho verifica ainda índices de criminalidade, comportamentos frente às relações homoafetivas, número de jornalistas assassinados, respeito ao direito de propriedade, entre outros. Para o estudo, liberdade é “o conceito social que reconhece a dignidade dos indivíduos e a ausência de instrumentos coercitivos”.
O Índice de Liberdade Humana (ILH) é mensurado com a atribuição de notas de zero a dez para os 76 indicadores pesquisados. O que me chamou a atenção foi que, entre os 10 primeiros países colocados, abriu-se exceção para incluir Hong Kong que é uma peculiar Região Administrativa Autônoma Especial da China.
Os 10 primeiros têm renda per capita média anual acima de 30.000 dólares (R$ 105.000,00). São eles: Hong Kong, Suíça, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Canadá, Austrália, Irlanda (para mim, uma surpresa), Reino Unido e Suécia.
Os dois países tidos e havidos como os mais ricos do planeta, Estados Unidos e China, ficaram, respectivamente, em 20º e 132º lugar. A rica Alemanha ficou em 12º. Esta é a diferença dessa pesquisa de cunho qualitativo, notadamente.
Os doze países em pior situação possuem renda per capita anual média abaixo de 2.615 dólares (R$ 9.153,00) estão, em sua maioria, na África Subsaariana, Oriente Médio, sul da Ásia e um da América do Sul. Pela ordem decrescente: República do Congo, Arábia Saudita, Chade, Venezuela, Etiópia, Argélia, República Centro Africana, Iémen, Zimbabwé, Myanmar, República Democrática do Congo e Irã (último classificado).
Na América Latina a melhor posição é a do Chile, em 18º. O Brasil ficou em 82o. lugar com média de 6,82, abaixo da média geral de 6,96 dos 152 países analisados. Tenho certeza de que poderemos subir dezenas de posições, pois há, mesmo com os desencontros e incertezas atuais, a fé de que após este mergulho em águas turvas, sairemos mais fortes e conscientes em busca de direitos, liberdade e cidadania.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2015.

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O CENTRO DO MUNDO – Diário do Nordeste

Pode parecer cabotino, mas é tempo de dizer bobas palavras. Quando fiz a primeira comunhão, com calças curtas e paletó de casimira azul, camisa branca, laço no braço um flash registrou o fato, fiquei feliz. Aquele enlevo. Depois, quando conclui o curso de humanidades: todos de terno branco, a foto coletiva. Subi os degraus do Theatro José de Alencar para colar grau em administração, acompanhado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira. Clarão.
Ano seguinte, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, recebi o grau em direito, lado a lado com meu pai, acolhido por Antônio Martins Filho, Reitor e Luiz Cruz de Vasconcelos, Diretor da Faculdade de Direito. Todos eles estão rindo, na foto. Eu, nem tanto. Parecia intuir que o mundo não tem centro e eu teria de fazer o meu caminho.
Fotos foram registrando eventos. A abertura do primeiro escritório. A formação da primeira empresa, o casamento, o nascimento das filhas, os seus crescimentos, as viagens, os lançamento de livros, as academias, os encontros familiares e o que veio depois. Semana passada, cumpri anos, como dizem os hispânicos. A cada dia descubro estar longe do centro do mundo. Nunca descobri onde fica.
Ocupo apenas o meu espaço, fazendo o que posso, procurando aprender o que ainda não sei. E é muito. Neste momento brasileiro, quando desencontros de opiniões, de ideias e de valores são a constante, desejo a volta daquele enlevo do menino da primeira comunhão e o discernir do jovem recém-formado. Vivo cada dia com a obstinação de montanhista, mas sinto o quanto é duro pisar firme em meio íngreme.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2015.

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OLIVER SACKS, O LOBO DO BEM – Jornal O Estado

“Deve-se viver a vida olhando para a frente, mas só se pode entendê-la olhando para trás”. Kierkegaard
Oliver Wolf Sacks me permitiu intimidade ao ler o seu livro biográfico “Sempre em Movimento- Uma Vida” (On the Move: A Life, 2015). Nele, Sacks roteiriza a sua vida, desde a infância. Nasceu na Inglaterra em 1933 e viveu a sua infância entre o colégio interno rigoroso no interior, sofrendo murros de colegas, fugindo dos ataques aéreos alemães sobre Londres, em plena Segunda Guerra.
Filho de pais judeus, médicos e irmão de médicos, seguiu o destino da família. Mas resolveu abrir-se com o pai e disse não se interessar por meninas, mas nunca tivera experiência sexual. Ao pai, pediu segredo. Pai tem mulher e com ela conversa tudo. A mãe do jovem Oliver o blasfemou e quase o renegou.
Mesmo assim, Sacks cumpriu todas as tarefas a ele cometidas como bom estudante. Primeiro, de química. Depois, enredou-se na medicina, abraçada com ciência e amor devotado aos pacientes. Seus colegas sempre o acharam “diferente”. Enquanto isso pilotava motos, levava quedas e experimentava drogas. Possuía o sentimento de liberdade. Queria viver “em movimento” com novas experiências. Passou um período em um “kibutz”, em Israel, e tempo livre na ilha de Man, situada no meio do mar da Irlanda.
Formado em Oxford, foi levado pelo irmão David e pela cunhada Lili, para conhecer uma mulher em Paris. Escolheram uma profissional. Talvez fosse timidez. Apenas conversou e tomou chá com a prostituta legal. Ao sair, o irmão perguntou como tinha sido. “Ótimo”, disse ele, e seguiu a vida como quis e com quem quis. Resolveu, por fim, sair da Inglaterra, ainda vitoriana e preconceituosa. A primeira escala foi o Canadá, país descoberto de ponta a ponta. Tentou ingressar na Força Aérea Canadense, mas seu talento falava mais alto. Gostava de escrever diário e desse tempo surge “Canadá: Pausa, 1960”. Aconselhado por um professor foi parar em universidades dos Estados Unidos (“Se for bom, você sobe. Se for impostor, logo descobrem”).
Fez sucesso nos Estados Unidos, onde foi professor e visitante em várias universidades, especializando-se em conhecer o mecanismo do funcionamento normal e anormal do cérebro humano. Primeiro, esteve na Califórnia. A partir de 1965, há exatos 50 anos, passou a viver em Nova Iorque, com clínica no Hospital Beth Abraham e a ensinar na Faculdade de Medicina Albert Einstein sem perder o acento britânico ao falar. Deu aulas, mundo afora. Ao mesmo tempo, praticava halterofilismo. Onde passou deixou o rastro de brilhante médico que tornou-se cientista e, ao mesmo tempo, escritor consagrado pela clareza no dizer.
Tornou-se um grande neurocientista e escreveu livros significantes, tais como “Um antropólogo em Marte”, “Enxaqueca”, “Tempo de Despertar“, “Com uma Perna Só”, “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu”, e, por fim, “Sempre em Movimento”.
Em artigo para o jornal “The New York Times”, em abril deste ano, tornou pública sua doença terminal: “Acima de tudo, fui um ser com sentidos, um animal pensante, neste maravilhoso planeta, e isso, em si, foi um enorme privilégio e uma aventura”.
Sacks sofria de “prosopagnosia”. Traduzido da linguagem neurológica, seria algo como o problema de reconhecer rostos com perfeição. “Para mim é fundamental a relação que se estabelece entre doença e identidade, e a forma como a pessoa reconstrói seu mundo e sua vida a partir dessa doença”. Assim, Sacks escrevia não só como médico, mas como paciente dessa doença.
Acometido de câncer, logo perdeu um olho. Lutou por 11 anos, sempre altaneiro, mas a doença o abateu domingo passado, penúltimo dia de agosto, aos 82 anos. O lobo (wolf) vai continuar uivando através de seus livros.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/09/2015

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PÁDUA, SAFIRA E A FLOR EXPOSTA – Jornal O Estado

Caro Pádua Lopes, desculpe-me por me imiscuir com a sua Safira. Não a pedra preciosa azul usada nos anéis dos engenheiros e dos administradores. Escrevo sobre a mulher erigida em seu romance, de capa do mesmo matiz, “Safira Não é Flor”.
Uma crendice assevera, para as pessoas nominadas Safira, personalidade com sabedoria, fidelidade e razão. Imagina!
Não haveria muito a acrescentar à crítica segura de Dellano Rios (DN, 05.11.2016). Refiro, mesmo sendo óbvio, nada há em mim de crítico literário. Vou escrever o lido, o sublinhado, sem ordenação e raso como um pé de alface.
Deixo para leitores cultos beber a história lavrada em 278 páginas, palavra a palavra. Admito ser modéstia do Pádua se restringir à marotice de presentear “Safira” a amigos. Obrigado, Pádua. Por favor, deixe o seu belo livro aparecer em estantes condignas nas escassas livrarias locais, aviltadas e semidestruídas pela incursão de empresas de capital aberto ou daquelas financiadas a juros mínimos. Elas se estabeleceram aqui para vender de tudo. Até livros.
Safira parece ter algo a ver com o citado no livro cinco dos Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento. Essa Safira bíblica foi, junto com o marido Ananias, condenada à morte por faltarem à verdade ao Espírito Santo.
A Safira do Pádua não era santa, não foi condenada por sua escapadela à Europa com alguém apenas conhecido via Internet. Ela o fez sem sentimento de culpa, mesmo ao saber de outro estranho na empreitada. Larga o marido e os três filhos. Iria, para consumo familiar, viajar com amigas.
Lá se foi Safira para a Itália, não para rezar, mas para escarafunchar museus, igrejas, lojas, restaurantes com acepipes e vinhos, hospedando-se em requintados ou simples hotéis, sem deixar de vivenciar espelunca.
Passam por cidades como Veneza, Milão, Firenze e Roma. É exato aí quando o autor se desfaz em ciente de artes, contando as histórias de cada obra e do seu artífice. Ele diz: “Gostar de arte, no sentido de apreciá-la com inteligência e sensibilidade, é uma etapa atingida por quem se emociona com a mensagem estética”. Dou fé.
Transpostas as soleiras de igrejas, de praças, de museus, Safira se espanta com a profusão de arte. A Itália é um grande museu, com várias exposições marcando os signos e os significados de escolas e séculos diferentes. Esse grande Museu há resistido a guerras e terremotos. Como o mais recente. Os sismos podem sacudir a terra do indefectível Berlusconi, o vário, mas não a destrói.
Depois de tudo visto, a trinca foi parar na Grécia. O fim do século XX não era ainda pleno de barcaças com imigrantes árabes e africanos morrendo ou singrando o Mediterrâneo, em busca da Europa a apontar não a entrada, mas a saída ou, como dizem os ingleses, the Exit.
Devo arranjar um jeito de incluir a palavra tessitura. Ela aparenta erudição. Não a possuo. Pois bem, há na tessitura de Lopes – fica chique assim – um Aracati novo na brisa literária cearense.
Ele embaralha arte sacra e profana, história geral, geografia e o enlevo picante de (des)amantes de primeira viagem. De sentença em sentença, Pádua marca um ponto no bingo com o leitor.
Ele dá pista, falsa ou vera, de personagens ao falar do figurante Melchior – não o Rei Mago – e de seus seguidores. Mostra pudor ao escrever “calcinha íntima” e finaliza com cartas capitais.
Recomendo a leitura de Safira a quem gosta e sabe ler. Aos embevecidos com a arte. Aos informados ou curiosos da História antiga e da Renascença, com um mínimo de concentração para captar a saudável trama urdida. Parabéns, Pádua!

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2016.

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ARI DE SÁ CAVALCANTE, PRELÚDIO DE ARTIGO – Jornal O Estado

O meu olhar criança via o professor Ari de Sá Cavalcante – Ari de Sá – vestido, quase sempre, com ternos claros e gravata. Pouco sorriso nos lábios encimados por bigode negro e o escasso falar dos incomuns. Nesse tempo eu usava farda com calças curtas, no Farias Brito-FB, na Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Major Facundo. Ali estudei desde o primeiro ano do primário até a conclusão do curso de Humanidades.
Ari de Sá integrava o Partido Social Democrático, PSD, o mesmo do seu irmão, Walter de Sá Cavalcante, deputado federal. Certamente atiçado por Walter, foi candidato, duas vezes, a prefeito de Fortaleza.
Meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, era seu amigo e colega no Diretório do PSD. Creio ser essa a razão maior pela qual me matriculou no FB, pois sabia a quem estava entregando o seu primogênito. Outra razão, nós morávamos ali perto, na própria Major Facundo.
Andava pouco, bastava mudar de calçada e atravessar a Clarindo de Queiroz. Na última casa, antes do FB, morava o livreiro Luiz Maia, dono da “Livraria Renascença”, na mesma Major Facundo, dois quarteirões adiante, lado da sombra, logo ao atravessar a Rua Pedro Pereira. Defronte, lado do sol, Edson Queiroz montara loja da Ceará Gás Butano.
Mesmo com diferentes encargos, Ari de Sá foi aprovado em concurso público para professor do Colégio Militar de Fortaleza. A sua formação bacharelesca, não o impediu a se concorrer ao ensino de Matemática. Exitoso, talvez por acreditar fosse ela a mais simples das ciências, como propalava Auguste Comte, o pai da Sociologia.
Assim, saía e voltava – da sua casa na Av. D. Manuel, 482, a base do seu triângulo não equilátero, para a Av. Santos Dumont, onde ainda hoje funciona a unidade escolar do Exército em Fortaleza, e abria o ângulo em hipotética linha reta até a sede do FB, na Praça do Carmo. A diretoria do FB era composta por dois bacharéis em direito, Ari de Sá e João César.
Raul Barbosa, Governador do Ceará (1951-1954), escolheu Ari de Sá para ser seu secretário da Fazenda, não pela grei partidária, mas pelo escrutínio de sua visão socioeconômica. O professor Ari, nascido em 1917, em Jucás, crescia e aparecia na sua simplicidade.
Quando emergiu a hoje Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará, Ari tornou-se seu professor. Em seguida, diretor, por seis vezes, consecutivas. Criou o “CAEN – Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste”.
O CAEN aproveitava a “expertise” de parte de seus professores, oriundos do Banco do Nordeste, pródigo em aperfeiçoá-los nos EEUU e em outros países, de onde voltavam mestres e se tornavam TDEs., Técnicos em Desenvolvimento Econômico, dando contribuição ao que Celso Furtado sonhava para a região, saber para crescer.
Aos 49 anos, em São Paulo, aonde muitos vão atrás de cura, Ari de Sá se finou. Anos depois, quis a vida que o seu Farias Brito passasse por dicotomia.
Nascia o Colégio Ari de Sá. Muitas vezes não entendemos por que famílias – em segunda geração- se partilham. Talvez, com a sua matemática célica, o professor Ari de Sá soubesse e, quiçá, emulasse a disputa como um sofisma matemático: dividir para multiplicar. Cada uma das organizações, agora já faculdades, em múltiplas sedes, evoca para si ser a maior do Estado. As duas, juntas, valha-me Deus.
Escolhi, de propósito, o jornal O Estado para publicar este artigo. Ao tempo em que Walter Sá Cavalcante foi diretor deste matutino, Ari de Sá aqui escreveu, sob pseudônimo, crônicas, depois enfeixadas no livro “Para Ler no Bonde”.
Espero, com vagar, entregar à família de Ari de Sá Cavalcante algo que supere este prelúdio, quando da comemoração do centenário do seu mentor maior, no próximo ano.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2016.

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DONA GERCILA., ” AVIS RARA” DO BEM – Jornal O Estado

Algumas pessoas recebem, mesmo sem saber, sinais de que seus dias serão pintados com tintas diversas. A vida não é folgança. É exercício de viver o inesperado, especialmente, quando os anos, os lustros e as décadas, vão sendo acumulados às tarefas autoimpostas ou, sabe-se lá a razão, mudam. O temporário vira definitivo, toma outra dimensão.
Uma mulher simples nasce em 07 de outubro de 1922, na Fortaleza de tanto sol, nas cercanias da Prainha. Foi acumulando perdas: a mãe morreria em 1929. Começa um “crash” pessoal, não o dos alicerces atingidos na Wall Street. Em 1935, morre o pai e é acolhida por tios. Católica deixava suas lágrimas furtivas pelos corredores do Colégio das Irmãs Doroteias, na hoje vazia capela da esquina com a Av. Domingos Olímpio. Depois, seguindo, sem saber, os passos de Rachel de Queiroz, conclui o curso Normal no Colégio da Imaculada Conceição. Estava carimbada para o mundo. Era professora.
Assim o fez no Colégio Santa Isabel, ali perto da Faculdade de Agronomia, e no Colégio São José, nas cercanias do Parque da Criança. Deu-se o estalo, não lhe apetecia ser uma mestra contratada. Pensou e materializou o sonho no Ano da Graça de 1950, quando fundou, em imóvel seu, o Instituto Cristo Rei, no bairro de São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, 1643. Precisava de mais luzes. Resolveu estudar Teologia.
Para aperfeiçoar a sua didática deu-se ao trabalho, já madura, de se graduar em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Todos os seus dons e a sua confiança foram sendo canalizados para o ensino de crianças pobres, algumas doentes, muitas sem o amor dos pais. Elas foram fazendo do Instituto Cristo Rei um lugar de acolhimento seguro, ano após ano, para centenas de miúdos, independentes de idade, sexo, raça ou do seu nível mental.
Tive a graça de conhecer Gercila Rodrigues Vieira neste século, quase oitentona. Foi benquerença espontânea. Muitas vezes, sem avisar, percorri os corredores não tão retos, tampouco bem iluminados do seu Instituto. Aos fundos, uma área de recreação onde crianças jogam bola alegremente. A casa cresceu como uma Babel do bem, formando um “L” de lar e de luta no imóvel por ela comprado com frente para a Rua Gen. Piragibe. Algumas ocasiões, dei carona a D. Gercila e aos seus pimpolhos, sempre alegres, mesmo quando apinhados. Nesses 66 anos cuidou de cerca de 4.000 crianças e jovens. Muitos se profissionalizaram. Algumas preferiram ficar por lá e ajudar na faina sem fim, como a Marinete e a D. Edite. A luta deve continuar.
D. Gercila recebeu, em 2005, o título de “Gente de Bem”, no seu vestido simples, florido, óculos com armação marcante, cercada por seus meninos. Ela já fazia parte do nosso convívio. Na noite desta terça-feira, 22.11.2016, na Paróquia de São Gerardo, plena de crianças, jovens e adultos, foi celebrada a missa de 7º. dia do seu falecimento, aos 94 anos. Flores brancas enchiam jarros no ofertório, ouviam-se cânticos e respeitosos adeuses, a partir da amiga Eudismar Mendes e de muitos outros. Resquiescat in Pace.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/11/2016.

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REVISÃO MÉDICA NUCLEAR – Jornal O Estado

Quando se passa da idade média – não a era, mas a do primeiro cinquentenário – manda a razão começar a prevenir a saúde do futuro. Ouvi de amigos, os que fizeram Pet-Scan ou Pet-CT por aí afora: devemos fazê-lo para prevenir ou descobrir doenças.
PET-CT, em palavras não minhas, significa uma tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, com substância radioativa (18-Fluor desoxiglicose ou outra). Havia tempo eu passara dos 50 agostos de vida. Um amigo ousou dizer: “Vá. O PetScan é o máximo”.
Crio coragem. Ouço um médico. Ele não diz sim, tampouco não: “se quiser, faça, pois tira as suas dúvidas”. Traduzindo, PetScan, mal comparando, é uma espécie de diagnóstico como os donos zelosos de carros fazem em oficinas autorizadas. Em resumo, é um exame feito por uma máquina sofisticada, com tecnologia de ponta, com alto custo de importação e pressupõe dar diagnósticos precisos.
Ele permite medir a atividade metabólica de possíveis lesões e nos leva a ter uma maior certeza de possíveis doenças neoplásicas em atividade. Para quem não sabe, onde se lê neoplásica leia-se câncer. É um trabalho a envolver medicina nuclear e radiologia.
Os amigos dizem: “Pegue um avião e procure a clínica ou hospital tal. Eu já fiz lá. É simples”. Quando lhe disserem isso, não acredite. Nada é simples. Você marca tudo pelo telefone, pega um avião e só pode fazer exame um dia depois, bem cedo.
Jejuar por seis horas e vai para uma clínica ou hospital. É bem atendido, imaginam ser você um retardado e começam a explicar e fazer perguntas. No meu caso, como não levei requisição médica. Liguei para cá, médico daqui e de lá conversam. A requisição por e-mail. Demorou. Cumprida essa etapa, pedem-me para assinar um documento liberando a responsabilidade deles e outros mais, inclusive passar logo o cartão de crédito.
Depois dessa tardança, visto roupa descartável e entra-se na rotina do exame: injetam a substância radioativa – e passa-se uma hora de molho, esperando a agudeza no organismo. Uma hora e qualquer coisa após, relembram-se da minha existência. Levam-me para um ambiente parecido com centro cirúrgico. Ligam tudo. Ficamos eu e a máquina sofisticada. Ela começa o seu trabalho. Faz barulho. Tuco, tuco e tuco!
Não tive medo. Só achava chato. A máquina indo e voltando. Dizem ser só 35 minutos. Não é. É mais. Enfim, param. Examinam o andamento em outra sala. E volta a máquina de novo ciscando sobre o corpo deitado e indefeso.
Tudo concluído, saí da máquina e pedem-me para tomar litros de água a fim de retirar a radiação. Dilúvios de xixi. Muito mais que você pensa. Fico, à força, descansando por duas horas. Peço um livro. Conseguem. Passo a ler.
Ao final, o médico vestido no seu jaleco, diz polidamente: “tudo correu bem e o resultado será mandado por Sedex em uma semana”. Ia esquecendo: oferecem um lanche “gratuito”. Dispensei. Queria sair de lá.
Uma semana e pouco depois – tam, tam, tam, tam! – chega um imenso envelope. Após aberto, vejo-me por dentro e de corpo inteiro. Tudo colorido. São várias páginas, um CD com laudos circunstanciados para dizer isso e aquilo. Poupo-os dos detalhes. Afinal, escapei. Ufa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2016.

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O CONDOMÍNIO GERAL E O RATEIO DAS DESPESAS – Jornal O Estado

Nós, sócios vitalícios desse Condomínio, não elegemos bons síndicos nas assembleias gerais acontecidas desde 2002. Fomos desatentos e não olhávamos bem o desenrolar dos fatos. Tudo parecia, de princípio, dar certo.
Acostumamo-nos a ouvir pronunciamentos, sempre com duplo sentido, como se estivéssemos disputando ou ouvindo uma partida ou campeonato de futebol. O dinheiro era farto, o mundo crescia, as commodities subiam de preço e a alegria era geral.
Havia sussurros de o Condomínio estar aparelhado, isto é, milhares de pessoas passaram a ganhar cargos. Além desse fato, comum às gestões anteriores, surgiram boatos da rápida malversação do dinheiro de todos nós. O primeiro a levantar a voz foi o Jefferson, não o presidente ianque.
Aí surgiu aquele vídeo de alguém recebendo propina. Merreca. A trama ia sendo desvendada, pouco a pouco, o Grande Banco e a Petrobras perdeu o acento e aumentou as obras, faziam parcerias com as big empresas, as fazedoras de tudo, sempre amigas dos síndicos. De todos. Havia um limite no ousar. Esse limite foi sendo ultrapassado, dia a dia, mês a mês, ano a ano.
Os grandes empresários do Condomínio passaram a ser amigos, hospedeiros, conselheiros, ministros e convidados permanentes para as viagens internacionais do síndico. Ele propalava: aqui não haveria crise. A crise imobiliária gringa era deles. O nosso condomínio era seguro e o síndico foi até chamado de “O cara”. Acreditou e não admitiu ser mero afago, uma “joke”.
No rastro do 2008 o Condomínio começou a sentir incômodos, logo qualificados de marolinhas. Não eram. Viraram ondas, depois mudaram para pequenas tempestades. Nesse meio tempo, depois de duas assembleias quadrienais, obrigatoriamente, deveria eleger nova administração.
Optou-se por uma mulher-gerente. Tudo melhoraria, de novo. Destemida, temível, diligente e sozinha, afora o seu padrinho e os seus camaradas. As torneiras secavam, os jardins murchavam, a energia subiu, depois baixou. Uma solução: todos os mega poderiam obter financiamentos subsidiados no Grande Banco. Os pobres passaram a comprar casas, geladeiras, fogões, camas, mesas, motocicletas e carros em prestações. Mais dia, menos dia, tudo seria cobrado. Pagar é outra conversa.
O fato é: a diligente não era tão apropriada, possuía como hábito dar gritos a torto e a direito, e pedalar. Os condôminos assoalharam haver muita conversa e pouca realidade, na história contada. Contas foram mexidas a bel prazer. Técnicos e utopistas foram atrás do rombo. Caixa e Razão.
O ex-síndico passou, exultante o comando. Agora, se autonomeara embaixador plenipotenciário para um Continente, devidamente acolitado pelo Grande Banco e os mega empresários, sempre pressurosos em ceder aviões, mordomias, reparar os danos causados pela escravidão aos irmãos do outro lado do oceano. Do lado de cá, fez um porto, enquanto fumava cigarrilhas.
O resto, todos não sabem ou não imaginam saber. Esta história ainda está plena de erros, hiatos, omissões e o longo curso continua. Há outro síndico no leme do Condomínio. Deus nos ajude.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/10/2016.

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MINHA HISTÓRIA JORNALÍSTICA (A PEDIDOS) – Jornal O Estado

Recebi, em 1962, do escritor, jornalista e empresário Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, então maior grupo de comunicação do Brasil, a incumbência de substituir Pedro Henrique Saraiva Leão, titular da coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Jornal “Correio do Ceará”. Pedro cumpriria bolsa acadêmica no exterior.
Nesse tempo, o grupo dos Diários Associados no Ceará era composto da pioneira Ceará Rádio Clube (hoje, Rádio Clube-AM), da TV Ceará, canal 2, e os jornais “Unitário”, matutino, e “Correio do Ceará”, vespertino. A coluna “Informes Acadêmicos” durou um ano. Em 1963, comecei a escrever uma nova coluna: “Administração & Negócios” que durou até o ano de 1966. A partir daí, passei a escrever artigos especiais.
Uma pequena digressão: o “Correio do Ceará” fora fundado por Álvaro da Cunha Mendes, em 2 de março de 1915. Nesse ano, ocorreu uma das maiores secas do Ceará, transformando Fortaleza em cidade sitiada, com medo de contaminação trazidas por flagelados do Interior. Criaram-se abrigos (“campos de concentração”, no dizer de Rachel de Queiroz, no romance “O Quinze”, 1930), meros depósitos de gente, nas entradas da Cidade, sendo o principal no então bairro do Alagadiço ou São Gerardo.
Álvaro Mendes pretendia ser independente e, em consequência, face seu destemor, chegou a ser preso no 23º. Batalhão de Caçadores – então localizado no atual Quartel General da 10ª. Região Militar – ao denunciar falcatruas na IFCOS, Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, criada em 1919, depois transformada em DNOCS.
Álvaro era empresário gráfico e manteve o jornal até 1937, quando o transferiu para o emergente grupo dos Diários Associados, comandado pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, inovador da imprensa brasileira, a partir de Pernambuco, depois Rio, São Paulo e, por fim, todo o País. Surgia um grande condomínio de comunicação a incluir jornais, emissoras de rádio, estações de televisão e revistas, entre as quais brilhava “O Cruzeiro”.
Esse condomínio fechado compartia o poder em estados brasileiros, entre outros, com o já citado Eduardo Campos e Paulo Cabral, dirigente e locutor da PRE-9, Ceará Rádio Clube. Esse, em campanha para angariar mantimentos a flagelados da seca de 1950, ficou tão popular que conseguiu ser eleito prefeito de Fortaleza, entre janeiro de 1951 e março de 1955.
Foi, em seguida, eleito deputado estadual, mas o olhar clínico de Chateaubriand o transferiu para Belo Horizonte e, em seguida, ali sedimentou parte da presença dos Diários Associados. Deslocando-se, em seguida, para Brasília, já centro do poder.
Em 1970, em choque com o Governo Militar, a Rede Tupi (o símbolo era um pequeno índio) nome dado por Chateaubriand ao arquipélago de televisões, perdeu a força. Consolidava-se, a partir daí, a hegemonia da Rede Globo, da família Marinho, que fundara o Jornal O Globo, em 1925.
Os jornais “Correio do Ceará” e “O Unitário” funcionavam na Rua Senador Pompeu, no centro da cidade, perto da Tipografia Progresso, em imóvel que ia até a Rua General Sampaio. No nível da entrada, trabalhava a administração dos jornais; em seguida, ficava o espaço da redação, não nos moldes de hoje, mas com ortodoxas máquinas de escrever, não as elétricas, que só vieram depois.
Do meio para o fim do espaço do casarão – que ia da Rua Senador Pompeu à Rua General Sampaio – funcionavam as oficinas. Era o tempo da composição a chumbo nas linotipos (A line of type), máquina criada no final do século 19. Nas oficinas, o calor era escaldante. Pois foi lá que mourejei até o dia 22 de agosto de 1969, quando escrevi o artigo “O 5º. Aniversário do BNH no Ceará”.
Nesse artigo relato: “Na evolução do programa habitacional foi proposta e aceita pelo Governo do Estado a transformação da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações em Companhia Cearense de Saneamento”, atual Cagece. No fecho, destaco: “Este balanço que fazemos à guisa de esclarecimento demonstra que cerca de 80 bilhões de cruzeiros velhos foram carreados pelo Ceará em apenas três anos, provocando um surto animador na economia cearense, isto sem falar no número de moradias entregues para pagamento em longo prazo”. Era o tempo do BNH.
Começava eu, nova fase profissional, deixando o batente diário de jornal e tornando-me colaborador semanal deste Jornal O Estado e do Diário do Nordeste.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/10/2016.