Quero dar os parabéns a você. Quero dizer do meu bem querer. Do embaraço em escrever algo que você possa ler. Falar da minha alegria ao vê-la nascer, faz quinze anos. Cercada dos pais e avós, primos e os amigos da família. Era a primeira filha da minha primogênita. Não era, entretanto, a primeira. Era a primeira filha para uma nova família em formação, cheia de esperanças e dando graças a Deus por vê-la no berçário, sendo lavada, surgindo bela, perfeita e ainda com os olhos embaçados.
Participei de todos os seus aniversários, as festinhas que reúnem os dispersos pelas circunstâncias da vida. Vi o seu processo de crescimento, não como pai, mas avô, esse ser meio desconexo em família quase plena de meninas.
Devo estar em algumas das suas muitas fotos. É fácil apontar. Basta olhar o careca e um bolo que, ano a ano, ia aumentando as velas. Agora, você quer uma festa de menina-moça e o fará para a família, os muitos primos, os amigos e, quem sabe, algum paquera que a esteja próximo.
Neste meio tempo aconteceu muita coisa importante das quais você vai se apropriando. Ainda bem que não sentiu as dores do mundo ocidental no dia 11 de setembro de 2001. Não preciso contar detalhes, é sabido por todos. O fato marcou um tempo estranho: o do medo, do não saber quem é o outro, e o que ele pode fazer contra nós.
Quando você começava a andar e ainda não havia ido ao maternal, o Brasil ganhava o seu último título no futebol e elegia Lula para presidente. Era um operário, sindicalista e pretendia dar uma nova face ao Brasil. O ano de 2012 terminava com esperanças.
Daí em diante, não preciso narrar o que está acontecendo. Você é exímia usuária do celular, usando-os com vários dedos das duas mãos. Você sabe, desculpe repetir, mas foi Steve Jobs, um menino abandonado pelos pais, adotado por um casal simples, quem deu forma e propagou o I-phone. Mudou as relações humanas e estabeleceu conexões, sinapses, antes nunca imaginadas. Mas, isso é mais do seu mundo, que do meu.
Sei que gosta de esportes, é aluna atenta e tem personalidade forte. Isso é bom, mas pode dar tilte, se exagerar na dose. Sua mãe é uma amigona, ri e chora com você. Ama-a de forma desmesurada e lamenta quando batem de frente. Queixa-se a seu pai. É natural, faz parte do processo interminável das relações entre pais e filhos.
Poderia escrever mais. Paro por aqui. É época de textos curtos e me alonguei. Saiba que a liberdade é um preço caro a pagar no mundo real. Vá em frente, estude e dê luz própria ao seu caminho. Estarei por perto, espero. Eu a amo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2016.
