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JAZZ & BLUES – Diário do Nordeste

Menino, tentei estudar piano. A professora Maria Helena Cabral ajudou. Sou canhoto. Em seguida, parti para o violão, mas havia que inverter cordas e fazer sinapses, pois estaria tocando ao contrário. Resumo: não trago habilidades manuais relevantes. Desisti. Ficou apenas o enlevo pela boa música.
Jovem, passei final de semana, em Lenox, Massachussets, quando vi o festival anual de música clássica e contemporânea Tanglewood. Fui de ônibus. Descobri, alegre, que o maestro cearense Eleazar de Carvalho seria um dos regentes das muitas orquestras.
Agora, maduro, quando raro passo por Nova Iorque, procuro tempo para ir à “Juilliard School”. Em audições públicas, grandes mestres lapidam expoentes de diversos países. É lugar certo para cantores e músicos que desejam aprimorar teoria e habilidades com os instrumentos que usam.
O dito serve para, quiçá, chancelar o grau de profissionalismo da apresentação em Fortaleza, sexta-feira passada (20), do Festival de Jazz&blues.
Ricardo Bacelar, pianista e regente, unificou equipe madura e soube, com leveza, manter a plateia acesa em todo o desenrolar do show, sem fazer concessões no admirável repertório de Standards.
Sala cheia. 1.500 ouvidos atilados pelo comando firme e sutil de Bacelar que, como “bandleader”, explanou o programa e ensejou a cada músico mostrar a sua expertise. Nightgale.
A cereja do bolo, após intervalo, foi a apresentação excelente da cantora portuguesa Jacinta, perita cantante de jazz, blues e de sua filha natural, a bossa nova. Um primor de voz. Bravo.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2015

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O CINTO, O CONTRATEMPO E SINTO MUITO – Jornal O Estado

O telefone tocou. Era uma filha. Iria deixá-la no aeroporto. Mãe recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para bebê no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a babá. Saímos ouvindo música, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto caída. Rapaz ao chão, mas com pequenos ferimentos.
Contornei o problema e lá vamos nós. É noite, céu escuro, bom tráfego e chegamos ao aeroporto. Estávamos no horário. O marido iria esperá-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para bebê resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de segurança do banco traseiro. A filha, acostumada a montá-lo e a retirá-lo, encontrou dificuldade. Uma alça cismou de não sair do engate.
Depois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta – estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengonçado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da alça sair.
Foi então que tive a brilhante ideia. Vá, filha, faça o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, além disso, deveria ser envelopado com plástico, pois a companhia aérea não permite que vá na cabine. Vai para o porão, em meio a malas, encomendas e animais de estimação grunhindo.
Não se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. Lá se foi ela fazer o despacho. Nada da alça soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de serviço prontificou-se a ajudar. Pimpão, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. Aí, desisti. Iria cortar o cinto, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, na própria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro.
Ele atordoou-se, e, como só soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para bebê. Agora, era embalá-lo, pois não desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. Só tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho.
A filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da babá, uma senhora que já cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crianças. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, não tão cedo mais.
Tomei banho e fui ler a revista “Veja”. Só notícias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio “Amigos Escritos”, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato – um dos meus autores favoritos – e o escritor Godofredo Rangel.
Lobato era escritor, editor e empresário. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar poço para descobrir petróleo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua audácia. Era tempo de ditadura. Os do Palácio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a pressão da imprensa para começar a exploração de petróleo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941.
O telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do bebê, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai à procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simpático, conversador, cearense, morara em São Paulo, com sucesso no seu negócio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando.
Entrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. Fiz bilhete e mandei o teimoso do cinto pela ECT/Sedex. No comprovante, observação: a encomenda poderia demorar em face da greve dos caminhoneiros. Brasil,zil, zil. Ligo para a filha: o cinto estava a caminho. Se consegui trazer você até aqui e contar este caso banal de pai e avô meio sem jeito, sinto muito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2015.

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A NETA E A FACULDADE – Diário do Nordeste

Minha neta mais velha passou no Enem e escolheu Arquitetura. O que um avô analógico poderá dizer?
Primeiro, parabéns. Depois, curta os trotes “cara pintada”. Vi a foto.
Em seguida, descubra o mundo universitário. Ele nos dá saber, mas cobra atitude com colegas de todas as tribos.
Deixa a porta aberta para a formação da nossa identidade.
Use o prenome. A ambiência é típica da sua geração, a chamada “Z”, entre os 13 e 20 anos.
Alguns parecem “nerds”, focados em celulares, PCs e tabletes; outros se enturmam, fumam e tal, tocam instrumentos e gostam de baladas.
Há os movidos por patriotismo recente a pensar o Brasil com olhos críticos. E há os que querem apenas estudar, formar-se e trabalhar. Escolha.
Como você gosta de ler, lembro: a Arquitetura brasileira passou pelo barroco, rococó e neoclássico e assim chegou ao século 20. Pelo que sei, Lúcio Costa é o maior arquiteto desse século. Aliado ao francês Le Corbusier, deu nova face ao Centro do Rio ao conceber o prédio do Ministério da Educação com altos pilares para visão e deslumbre dos cariocas dos anos 40.
Depois, de novo, Lúcio Costa, na década de 50, agora urbanista, projeta o plano piloto de Brasília, cujos prédios são de Oscar Niemeyer Soares, outro grande arquiteto.
Fico nestes dois. Há muitos. Sua mãe ao ler este texto poderá dizer que me meto. Gostaria de me meter mais, estar mais perto e acompanhar o futuro dos netos, como coadjuvante. Apenas ver o (en) caminhar de vocês no Brasil do amanhã. Hoje é o seu dia e o de todas as mulheres. Beijos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2015.

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TRÁFICO DE INFLUÊNCIA – Jornal O Estado

Como se retrocedesse na cápsula do tempo neste 2015 tão complicado – e ainda estamos em março – desembarco no ano de 1868, cem anos antes do revolucionário 1968, “O Ano que não terminou”, seguindo livro homônimo de Zuenir Ventura (foto) e outros escritos por franceses.
Chego e encontro José Martiniano de Alencar Júnior, no Rio. Famoso, nosso escritor maior, político importante, faz, afirmo, tráfico de influência. Olhei e vi a carta de 18 de fevereiro de 1868, do autor de “Iracema” para Machado de Assis.
A carta vai resumida, em etapas. Começa assim: “Ilmo.Sr. Machado de Assis. Recebi, ontem, a visita de um poeta. O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração, não do resto”.
Como se vê, José de Alencar, que era político, tal como o pai, lembro, enxergava a dicotomia. Havia dois brasis. Um: o que se sente; do coração. Outro, o do resto. Assim, a coisa vem de longe.
Voltemos à carta, a do Brasil do sentir. Alencar continua: “O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a São Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos: a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê. A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?”
Agora, Alencar fala das referências do logo futuro poeta condoreiro: “O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices das tribunas brasileiras. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpora o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio”.
Alencar elogia Joaquim Maria Machado de Assis, a quem a carta é dirigida, lembre. Diz o tísico, míope e brilhante filho de padre: “Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano… Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único dos modernos escritores que se dedicou à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica… Do senhor, pois, do primeiro crítico literário brasileiro, confio a brilhante vocação que se revelou com tanto vigor”.
E conclui: “Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente, à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento”.
Machado de Assis respondeu no dia 28, do mesmo mês de fevereiro: “Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V.Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter melhor intróito na vida literária. Abre os seus primeiros cantos, obtêm o aplauso de um mestre”.
Devo dizer, tal como José de Alencar, a carta de Machado é longa. Cada um rasga-seda maior. Poupo-o de páginas e vou direto ao final da missiva quando, após considerações críticas, Machado aduz que o jovem poeta Antônio Frederico de Castro Alves ainda não está pronto: “ A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar seus arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra?…
Lembro ao leitor que o recomendado Castro Alves escreveu a sua obra capital “Navio Negreiro” no ano seguinte, 1869, e morreu, tuberculoso, em 1871, aos 24 anos. Alencar desde cedo enfrentou a tuberculose e se quedou em 1877, aos 46. Machado de Assis, com todas as mazelas advindas da epilepsia, varou o século e se foi aos 69, em 1908.
Volto ao 2015. Chove. Ouço barulhos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2015.

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INCERTEZAS – Diário do Nordeste

Escrevo antes de 13 de março de 2015. Estamos em tempo das delações premiadas, dos acordos de leniência, da abertura oficial das investigações da Operação Lava-Jato, dos pronunciamentos desequilibrados de alguns e à espera de manifestações dirigidas ou espontâneas. Há incertezas no País.
Não se deve ficar alegre. O Brasil tem mais o que fazer. Estamos nauseados. Há denúncias e revelações que alimentam os noticiários de todas as mídias. É um mal-estar nacional, não digerido. Não importa de que lado você esteja e tampouco do lado que imagine que os outros estão. Incertezas rebentam.
Que poderemos nós, os que já votamos tantas vezes, reclamar dos jovens desnorteados? Que país estão recebendo? Eles arriscam entender a diferença entre o que é ensinado nas escolas, o que é ouvido nas ruas, o que é falado nas famílias e o que se propaga em novas linguagens midiáticas formando núcleos distintos de pensamentos.
Que exemplos amanhamos e quais frutos podem surgir de nossa história recente, tantas vezes maculada? O mundo de hoje é complexo. Não há gênio isolado que o entenda. Precisaríamos de uma concertação nacional, mas como chegar a ela, se só há embate? A rebeldia incontida dos jovens possui como fermento a emoção, o inconformismo, o raciocínio lógico (por que tem que ser assim?) dos ainda à margem da vida real.
Vida cheia de estultices, manipuladores, dissimuladores e de pérvios caminhos trilhados por uns. Tudo isso, junto e misturado, só produz avisos ruins. Nada fica elucidado. As ruas murmuram.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2015.

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HOMENS COMUNS E EXTRAORDINÁRIOS – Jornal O Estado

“Os que não conseguem relembrar o passado estão condenados a repeti-los”. George Santayana (1863-1952), filósofo americano.
Caro Leitor: tenha paciência com o texto. Vá até ao final. Leia devagar. Começo: Fiódor Dostoiévski (1821-1881), grande escritor russo, autor de “Crime e Castigo”, publicado em 1866, romance geralmente apresentado em dois volumes, fala de sentimentos de personagens atormentados, daí ter sido o seu autor considerado “o homem do subsolo”, objeto de estudo de Freud.
No primeiro volume, tradução de Rosário Fusco, pag. 345, Raskólnikov, personagem central, é abordado sobre artigo por ele publicado na “Palavra Periódica”. Nele fala sobre a natureza do crime. É dito que os homens são divididos em “ordinários e extraordinários”.
“Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários”.
Como surgem dúvidas, Raskólnikov, o autor, resolve explicar: “Não foi propriamente assim que me exprimi – começou num tom simples e modesto. – Aliás, confesso-lhe que o senhor reproduziu o meu pensamento bem de perto. Pensando bem, reproduziu-o exatamente. A única diferença é que eu não insinuo como o senhor dá a entender que aos homens extraordinários seja permitido cometer todas as espécies de crimes. Parece-me que um artigo nesse sentido não poderia ser jamais publicado. Eu somente insinuei que o homem extraordinário tem o direito, não o direito legal, mas o direito moral de permitir à sua consciência saltar certos obstáculos e, isso, somente no caso em que exige a realização de sua ideia benfeitora, para toda a humanidade”.
Volto e pergunto: por acaso há alguma semelhança no passado e presente do Brasil entre pessoas que se consideraram extraordinárias e acreditaram que, em nome de uma causa, poderiam fazer o que quisessem?
Ele continua: “Na maioria dos casos, esses homens reclamam, sob as mais diversas fórmulas, a destruição da ordem estabelecida em proveito de um mundo melhor. Mas, se for preciso, para fazerem triunfar as suas ideias, eles passam sobre cadáveres, atravessam mares de sangue. Dentro deles, a sua consciência permite-lhes fazê-lo em função naturalmente da importância da sua ideia”.
Pausa para mim: há similar na história da pátria amada?
Sigo com ele, páginas adiante: “Uma coisa é certa: é que a repartição dos indivíduos nas categorias e subdivisões da espécie humana deve ser estritamente determinada por alguma lei da natureza. Essa lei é-nos, bem entendido, desconhecida ainda até a hora presente, mas acredito que ela exista e nos possa ser revelada um dia. A enorme massa dos indivíduos do rebanho, como dissemos, não vive na face da terra senão para fazer aparecer, finalmente, no mundo, depois de uma série de longos esforços, de misteriosos cruzamentos de povos e de raças, um homem que entre mil possua a sua independência, e um sobre dez mil, sobre cem mil, à medida que o grau de independência se eleva”.
Eu, de novo: teríamos nós, ao longo da nossa história, encontrados esses homens extraordinários? Teriam eles, se realmente encontrados, o direito – em nome de uma ideia – de cometer toda a sorte de crimes, com ou sem sangue? Talvez seja preciso que voltemos a reestudar a História do Brasil, desde o comércio internacional de escravos ao tempo da colonização portuguesa, depois transformada em vice-reino – fugindo de Napoleão Bonaparte e seu exército – com a “proteção” da Inglaterra; Rediscutir como aconteceu a independência do Brasil. Vale dizer que o nosso D. Pedro I, com o seu grito do Ipiranga, pouco depois, foi aclamado rei de Portugal, nominado D. Pedro IV. Há uma estátua dele no Rossio, em Lisboa.
Depois, deveremos olhar a Proclamação da República, com todas as suas nuances e as influências verdadeiras, escoimadas nos livros em que as nossas crianças e nossos jovens devem acreditar. Pense nisso.
Será que a Guerra do Paraguai (a tal Tríplice Aliança) não foi uma mera artimanha da protetora Inglaterra? Quem puder, pesquise e veja se estou exagerando.
Desde a Proclamação da República, houve tanta confusão no Brasil que não sei como chegamos ao século 21. Repare um pouco, lembre-se de todos os ex-presidentes, os eleitos, os impostos e os gerados (Floriano Peixoto,1892, e José Sarney,1985). Aprazerem-se em procurar saber um pouco mais de cada episódio.
Dostoiévski foi citado por mim, como condão ou reflexão, para que todos saibam fazer a distinção entre os homens comuns e os extraordinários que nos trouxeram até aqui. Cada um tire as suas próprias conclusões. Afinal, não há crime sem castigo da história. E no romance. Pelo menos. Obrigado.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2015.

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EQUINÓCIO – Diário do Nordeste

Alguns puristas cobram-me relevância nestas 270 palavras que escrevo a cada domingo. Como diz o português Lobo Antunes, há duas literaturas: a relevante e a de entretenimento. Estas curtas linhas tentam ficar a meio caminho.
Por outro lado, leitores graduados perguntam o significado de uma ou outra palavra jogada no meio do texto para não deixá-lo tão minguado de adorno.
Agora, “prestenção”, o dia e a noite estão, cada um, com 12 horas de duração. É o fenômeno da passagem do equinócio (noites iguais) no hemisfério sul, onde o Brasil está fincado. Das alvoradas ou dos dilúculos ao crepúsculo ou ocaso, os relógios marcam 720 minutos.
Como estamos perto da linha do Equador, é fácil cronometrar o estirão do dia e o tempão da noite. Li ainda, em algum lugar, que o tal do equinócio acontece quando os raios solares incidem perpendicularmente sobre as nossas cabeças. Sei não, como sou careca, imagino que o equinócio seja quase o ano inteiro. Como nenhum astrônomo vai se dar ao trabalho de ler este suelto, fica assim mesmo.
Mal as chuvas começaram e a festa de São José, celebrada na quinta, 19, leva a crer que se choveu no dia, haverá inverno.
Nada sei de astrofísica, tampouco de adivinhações, mas queria dizer a quem confia que entramos no outono só pode ser pirado.
Acho graça quando as moças meteorologistas das tevês anunciam o tempo do dia seguinte.
Nesta terra de Alencar, os termômetros engancharam desde que Martins Soares Moreno baixou por aqui. Prefiro Rachel, em O Quinze: “Tenho fé em São José que ainda chove!”

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/03/2015

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A IDEIA, A EXECUÇÃO, OS ÓBICES E A DURA VIDA – Jornal O Estado

“Chorei e acreditei”. F.R. Chateaubriand, escritor francês.
Não somos iguais a ninguém. Temos as nossas próprias idiossincrasias. Nosso pai dizia: “não seja melhor, nem pior. Seja você”. Em 1999, depois de muito pensar e estudar, concluímos um projeto que durou cinco anos para ser executado: um centro comercial. Vale dizer que fomos desaconselhados, por consultores contratados, a fazê-lo no local escolhido.
A maioria das pessoas de referência sondada dizia ser uma loucura investir em bairro sem grande densidade habitacional. Argumentavam: na área de humanidades da UFC há política, comício e greve. Disseram também que estaríamos próximos das sedes de partidos de esquerda. Para desanimar, falaram: o metrô não seria concluído tão cedo e a sua construção nos importunaria, pois ruas seriam fechadas por anos.
E daí? Desobedecemos a todos os consultores. Ficamos surdos. Sofremos o pão que o diabo amassou. Cinco anos, sol a sol, algumas noites em claro, fazendo fé, aplicando o produto de toda uma vida árdua.
No dia da inauguração, manhã de sábado, 30 de outubro de 1999, aniversário de D. Margarida – a mulher que nos trouxe ao mundo- não havia tapumes. As lojas ainda não ocupadas foram rematadas com grandes pinturas de artistas plásticos cearenses. Era o nosso primeiro concurso público de artes.
Oferecemos, na exposição, duas premiações com passagem ida-e-volta aos Estados Unidos e à Europa. Emília Porto e Audifax Rios, os vencedores, preferiram o valor equivalente. Assim foi feito. Nascia o embrião da galeria de arte que se consolida até hoje.
A Camerata da Universidade Federal do Ceará tocava músicas clássicas e a fita simbólica foi descerrada pelas filhas, a pequena neta Luana, o Reitor Martins Filho, D. Margarida e convidados. Padre Hermano, padre-mestre dos Remédios, fez a benção. Na parede principal estava quadro com os nomes das pessoas que trabalharam na obra inaugurada. Uma a uma. Do servente ao engenheiro chefe. Nenhum esquecido.
Depois, começou a vida real, as dificuldades aumentavam a cada dia. O metrô fechou as duas principais vias de acesso e lojistas consagrados não compravam a nossa ideia. Primeiro, teríamos que nos fazer acreditados.
Assim, batalha a batalha, fomos sedimentando a história com a chegada dos Mercadinhos São Luiz, da Casa dos Relojoeiros e de corajosos novos lojistas. Aos poucos, com boa equipe, íamos abrindo lojas e resistindo às adversidades.
Conseguimos que uma grande empresa nacional de varejo aceitasse que fizéssemos, com nosso capital, todo o espaço, turn-key, de 1.600m2, de sua loja. A inauguração nos daria credibilidade. A loja foi inaugurada, mas, em seguida, fechada por decisão judicial que invocava uma “cláusula de raio”.
Explico: inócua reserva de mercado a impedir uma mesma empresa de montar outra loja em raio de 5 km. Depois de doloroso abre-fecha, a loja voltou a funcionar e lá permanece altaneira.
Um centro comercial pede alguns cinemas. Procuramos exibidoras nacionais e todas nos deram a mesma resposta: construa que, depois, entramos. Noites em claro. Resolvemos do nosso jeito. Ora, se iríamos construir para os outros, por que não fazê-lo para nós mesmos?
Sabíamos da dificuldade de captar filmes, sendo pequenos e independentes. Viajamos, trocamos ideias e assumimos que seríamos nós os exibidores. Teríamos que obter o aval das distribuidoras de filmes, ligadas aos exibidores. Outra batalha. Afinal, fizemos as salas.
Precisávamos mostrar que éramos organizados e planejados. Obtivemos, após inspeção, a certificação ISO-2001, através de empresa inglesa. Fomos o primeiro do Brasil na área de atuação. Paralelo a isso, lutávamos para que o Metrofor nos liberasse a frente Carapinima, ainda fechada. Marchas e contramarchas, conseguimos. Depois de anos.
Faltava a localização exata da Estação Benfica do Metrofor. Cedemos ao Estado área de nosso imóvel para que parte da citada estação ali fosse fincada. Hoje, março de 2015, o metrô já funciona, mas duas vias de escoamento jazem bloqueadas.
São 15 anos. Fizemos da ideia um projeto de resolução que atentava contra tendências do mercado. Optamos, por vocação e consciência, por ser um centro de referência para os clientes. Criamos 10 projetos sociais e culturais em pleno funcionamento. Por nossa conta e sem benefício fiscal.
Tornamos-nos amigos dos lojistas e clientes, sem ufania. Eles são o nosso trunfo. Assim o fizemos. Assim o somos. Há, inclusive, um deles, professor universitário, que possui os números dos nossos telefones e liga para o que bem quiser. Outros nos ajudam, de forma consistente. Conversamos com todos a qualquer hora.
Recebemos, por sete vezes, o selo de responsabilidade cultural conferido pela Secretaria da Cultura do Ceará. Somos a única empresa do Estado que possui este laurel. Temos espaço de leitura com biblioteca, uma fábrica artesanal para maiores de 55 anos, ginástica de baixo impacto, um clube de viver bem e mostras permanentes de artes. Promovemos o Gente de Bem, fazemos congraçamento anual com crianças portadoras de doenças, síndromes e em situações de desamparo com instituições acreditadas.
Trazemos a música, os cantores e os compositores locais para os nossos eventos. Oferecemos espaços para alunos de artes, pintores consagrados, grafiteiros, blogueiros e outros. Incentivamos o carnaval, os maracatus e as festas juninas. Formamos mais de 1.800 bombeiros voluntários em parceira com o Corpo de Bombeiros Militares do Ceará. Estamos abrindo a 50ª. turma. Nada da boca para fora. Tudo com nosso envolvimento e gratuito.
Novos centros comerciais foram surgindo nos últimos tempos e outros estão por vir. Sejam todos bem-vindos. O sol nasceu para todos.
Este texto é claro, sem presunção. É história vivida e sofrida que continua a cada dia novo para as quase duas mil pessoas que mourejam, acreditam no que fazem, recebem bem e com alegria milhares de clientes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2015.

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AMOR E BARRIGA – Diário do Nordeste

Agora, em Grasse, França, descobriu-se uma acidental troca de crianças em maternidade. Casal viveu em crise, pois o marido dizia que a filha Manon não possuía seus traços. Depois de 10 anos, brigas e separação, fizeram exames de DNA. Manon não tinha nada do pai, tampouco da mãe.
A mãe resolveu processar o hospital. O fato: duas crianças, com icterícia neonatal, trocadas no berçário. Após embates na justiça, a mãe descobriu a filha verdadeira, cuidada com afeição por outros pais.
Houve o reencontro, mas a mãe, mesmo reconhecendo na sua filha biológica os seus traços, era apaixonada pela “filha” Manon que criara com desvelo. Final da história: optou por ficar com Manon, pois os vínculos eram profundos.
Há algum tempo li o livro “Um amor sem barriga”. A história: uma jovem teve duas gravidezes normais com oito meses de gestação, sempre acompanhada por médicos. Daí em diante aparecia uma anomalia que, infelizmente, acabou na morte dos dois ansiados bebês.
Sofrido, o casal tentou descobrir a origem da doença das crianças perdidas. Laboratórios nacionais e estrangeiros contratados. Nada conclusivo resultou. Enxugaram lágrimas e dores, não poucas. De repente, manifestaram o desejo de adoção. Veio o primeiro bebê, sem barriga, ainda suprido com leite materno, tão amado como se concebido. Fizeram adoção de verdade.
Depois, nova adoção abençoada. Hoje, pais e filhos até se parecem. São unha e cutícula. A mãe sem barriga é amantíssima e a admiro. O pai coruja não destoa. São uma família de verdade.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2015.

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SEXTA-FEIRA SANTA COM BREVE VIAGEM PELO MUNDO DAS CRENÇAS E DAS FILOSOFIAS – Jornal O Estado

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Einstein
Há dois bilhões de cristãos no mundo. Católicos, anglicanos, protestantes, luteranos, evangélicos e afins. Acontece que a Terra tem mais de sete bilhões de pessoas. Assim, de cada sete pessoas, menos de duas acreditam em Deus e no seu filho unigênito, Jesus, o que surgiu há 2015 anos em meio à dominação romana, em área miserável, hoje ocupada por israelenses e palestinos.
As crenças, ao longo do tempo, fizeram e fazem milhões de mortos. Tudo em nome da fé que entoavam. É contrassenso. Segundo o evangelho de Lucas, o anjo Gabriel teria dito: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus o trono do seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”.
Acontece que parte dos cristãos, os não católicos romanos, não creem que Maria seja a intercessora. Admitem que ela tenha sido a escolhida, por tal razão seria santa, mãe de Jesus, mas “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). E dizem mais: Jesus teve irmãos. Os católicos falam que eram primos de Jesus e não irmãos. Os não católicos invocam, como prova, o evangelho de João 2:12, referindo-se a ida de Jesus a Cafarnaum: “Depois disto desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”.
Quem quiser tirar as suas conclusões, pode dar uma olhada em Mateus 12.46, 13.55 e 56. Marcos 7.3 e I Timóteo 2.5.
Para nós – neste tempo de exacerbação do autodenominado Estado Islâmico, de questões fundamentalistas, econômicas e bélicas que assolam o Oriente Médio –, não importa e nem cabe discutir se Maria era ou não virgem e se Jesus teve irmãos ou eram apenas primos. Ao visitar Egito, Israel e Palestina, faz alguns anos, escrevi em jornal dizendo que nunca haverá uma solução definitiva de paz. Complementei dizendo que os casamentos entre judeus e árabes, que aumentam, podem minorar o radicalismo. Além disso, há, em ambos os lados, estudiosos pacifistas.
Para os seguidores de Maomé, há outra história sagrada e para isso recorrem ao Alcorão, o equivalente à Bíblia dos cristãos. Acreditam os muçulmanos, na Surata 5:72-73, que “são blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, que é meu senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e a sua mora no Paraíso e a sua morada será o fogo infernal”. No mesmo Alcorão, todavia, está dito que pode haver perdão para judeus e cristãos: “Mas quem praticar o bem e for ademais fiel, saberá que seus esforços não serão baldados, porque os anotamos todos”.
Quando chegamos ao Oriente, onde já estivemos por duas vezes, sequer entendemos os mundos hinduísta, budista, xintoísta e a sabedoria de Confúcio.
O hinduísmo não é, em sentido estrito, uma religião, mas uma filosofia de cunho de crença e reivindica ser a mais antiga de todas as fés, sem data determinada. Ele está dividido em três períodos, o védico, com o culto a deuses, como Dyans, que seria o deus supremo. Surge, tempos após, a fase Bramânica com a trindade: Brahma, a da alma imortal; Vishnu, a da preservação; e Shiva, a alma destruidora.
Segundo o hinduísmo, que hoje vive uma fase híbrida, com influências de outras crenças, a trajetória que a alma terá será de acordo com as ações praticadas em vida (a lei do carma), a libertação final da moksha (espírito) impõe o fim do ciclo da morte e do renascimento. Todo o ritual hinduísta tem por fundamento a meditação e as oferendas.
Na crença budista, Maya – a mãe de Sidarta Gotama, que se tornaria Buda apenas aos 29 anos –, tal como Maria, a mãe de Jesus, também era virgem e permaneceu virgem.
Buda nasceu seis séculos antes de Cristo, na Índia, e os seus adeptos não o consideram Deus, mas alguém iluminado, aquele que está liberto da ignorância e pleno de sabedoria. As regras do budismo parecem simples: não fazer mal a nenhuma criatura viva, não tomar aquilo que não lhe foi dado, não se comportar de modo irresponsável na sua sexualidade, não falar falsidades, e não se entorpecer com álcool e drogas. Xinto significa “caminho dos deuses”.
Reza a lenda sobre o xintoísmo que depois de sete gerações de divindades nascidas no Cosmo, apareceu consolidada, no século VI da era cristã, o último casal, Izanagi e Izanami, que teve oito filhos transformados nas oito ilhas que constituem o Japão. O xintoísmo e o budismo são praticados no Japão, sendo que o xintoísmo consagra mais o nascimento das pessoas e o budismo cuida do final, da morte. O ideário do xintoísmo é amar a natureza, respeitar os antepassados e ser politeísta.
Na China, no século dois da era cristã, surgiu Confúcio que desejava descobrir o caminho superior e chegar ao “Tao” e ali encontraria a harmonia para a existência e para os mistérios do mundo. Nascia o confucionismo, que teve força espontânea até 1949, quando surgiu o comunismo e a prática foi postergada em nome da revolução cultural de Mao-Tse-Tung, que veio a seguir.
Sabe-se que as dimensões do confucionismo centradas no eu, na comunidade, na natureza e no firmamento permanecem arraigadas no espírito das famílias de lá, que, quando podem, tentam seguir as suas virtudes essenciais: amar o próximo; ser justo; ter comportamento acertado; cultivar a sabedoria e a sinceridade. A família é a base da sociedade e os governantes devem amar o povo. O confucionismo é filosofia de vida, não é religião tal como concebemos no ocidente.
Fizemos, numa visão aligeirada, simplista e superficial, com a ajuda de leitura de livros e buscas na Internet, uma volta ao mundo da fé e da filosofia de vida. O que mais brota em todas essas manifestações citadas é a referência temporal ao nascimento de Jesus.
Nota-se que todas as crenças e filosofias possuem suas próprias contagens temporais diferentes do que, por exemplo, agora comemoramos: a morte de Cristo, o Jesus de Nazaré. Entretanto, o calendário cristão é a menção basilar para a contagem do tempo entre a vida e a morte, com ou sem esperança da eternidade. A todos os que nos acompanharam esta pequena viagem, através das crenças e das filosofias básicas da humanidade, os nossos votos: vivam em paz, sigam aquilo em que acreditam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2015