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A IDEIA, A EXECUÇÃO, OS ÓBICES E A DURA VIDA – Jornal O Estado

“Chorei e acreditei”. F.R. Chateaubriand, escritor francês.
Não somos iguais a ninguém. Temos as nossas próprias idiossincrasias. Nosso pai dizia: “não seja melhor, nem pior. Seja você”. Em 1999, depois de muito pensar e estudar, concluímos um projeto que durou cinco anos para ser executado: um centro comercial. Vale dizer que fomos desaconselhados, por consultores contratados, a fazê-lo no local escolhido.
A maioria das pessoas de referência sondada dizia ser uma loucura investir em bairro sem grande densidade habitacional. Argumentavam: na área de humanidades da UFC há política, comício e greve. Disseram também que estaríamos próximos das sedes de partidos de esquerda. Para desanimar, falaram: o metrô não seria concluído tão cedo e a sua construção nos importunaria, pois ruas seriam fechadas por anos.
E daí? Desobedecemos a todos os consultores. Ficamos surdos. Sofremos o pão que o diabo amassou. Cinco anos, sol a sol, algumas noites em claro, fazendo fé, aplicando o produto de toda uma vida árdua.
No dia da inauguração, manhã de sábado, 30 de outubro de 1999, aniversário de D. Margarida – a mulher que nos trouxe ao mundo- não havia tapumes. As lojas ainda não ocupadas foram rematadas com grandes pinturas de artistas plásticos cearenses. Era o nosso primeiro concurso público de artes.
Oferecemos, na exposição, duas premiações com passagem ida-e-volta aos Estados Unidos e à Europa. Emília Porto e Audifax Rios, os vencedores, preferiram o valor equivalente. Assim foi feito. Nascia o embrião da galeria de arte que se consolida até hoje.
A Camerata da Universidade Federal do Ceará tocava músicas clássicas e a fita simbólica foi descerrada pelas filhas, a pequena neta Luana, o Reitor Martins Filho, D. Margarida e convidados. Padre Hermano, padre-mestre dos Remédios, fez a benção. Na parede principal estava quadro com os nomes das pessoas que trabalharam na obra inaugurada. Uma a uma. Do servente ao engenheiro chefe. Nenhum esquecido.
Depois, começou a vida real, as dificuldades aumentavam a cada dia. O metrô fechou as duas principais vias de acesso e lojistas consagrados não compravam a nossa ideia. Primeiro, teríamos que nos fazer acreditados.
Assim, batalha a batalha, fomos sedimentando a história com a chegada dos Mercadinhos São Luiz, da Casa dos Relojoeiros e de corajosos novos lojistas. Aos poucos, com boa equipe, íamos abrindo lojas e resistindo às adversidades.
Conseguimos que uma grande empresa nacional de varejo aceitasse que fizéssemos, com nosso capital, todo o espaço, turn-key, de 1.600m2, de sua loja. A inauguração nos daria credibilidade. A loja foi inaugurada, mas, em seguida, fechada por decisão judicial que invocava uma “cláusula de raio”.
Explico: inócua reserva de mercado a impedir uma mesma empresa de montar outra loja em raio de 5 km. Depois de doloroso abre-fecha, a loja voltou a funcionar e lá permanece altaneira.
Um centro comercial pede alguns cinemas. Procuramos exibidoras nacionais e todas nos deram a mesma resposta: construa que, depois, entramos. Noites em claro. Resolvemos do nosso jeito. Ora, se iríamos construir para os outros, por que não fazê-lo para nós mesmos?
Sabíamos da dificuldade de captar filmes, sendo pequenos e independentes. Viajamos, trocamos ideias e assumimos que seríamos nós os exibidores. Teríamos que obter o aval das distribuidoras de filmes, ligadas aos exibidores. Outra batalha. Afinal, fizemos as salas.
Precisávamos mostrar que éramos organizados e planejados. Obtivemos, após inspeção, a certificação ISO-2001, através de empresa inglesa. Fomos o primeiro do Brasil na área de atuação. Paralelo a isso, lutávamos para que o Metrofor nos liberasse a frente Carapinima, ainda fechada. Marchas e contramarchas, conseguimos. Depois de anos.
Faltava a localização exata da Estação Benfica do Metrofor. Cedemos ao Estado área de nosso imóvel para que parte da citada estação ali fosse fincada. Hoje, março de 2015, o metrô já funciona, mas duas vias de escoamento jazem bloqueadas.
São 15 anos. Fizemos da ideia um projeto de resolução que atentava contra tendências do mercado. Optamos, por vocação e consciência, por ser um centro de referência para os clientes. Criamos 10 projetos sociais e culturais em pleno funcionamento. Por nossa conta e sem benefício fiscal.
Tornamos-nos amigos dos lojistas e clientes, sem ufania. Eles são o nosso trunfo. Assim o fizemos. Assim o somos. Há, inclusive, um deles, professor universitário, que possui os números dos nossos telefones e liga para o que bem quiser. Outros nos ajudam, de forma consistente. Conversamos com todos a qualquer hora.
Recebemos, por sete vezes, o selo de responsabilidade cultural conferido pela Secretaria da Cultura do Ceará. Somos a única empresa do Estado que possui este laurel. Temos espaço de leitura com biblioteca, uma fábrica artesanal para maiores de 55 anos, ginástica de baixo impacto, um clube de viver bem e mostras permanentes de artes. Promovemos o Gente de Bem, fazemos congraçamento anual com crianças portadoras de doenças, síndromes e em situações de desamparo com instituições acreditadas.
Trazemos a música, os cantores e os compositores locais para os nossos eventos. Oferecemos espaços para alunos de artes, pintores consagrados, grafiteiros, blogueiros e outros. Incentivamos o carnaval, os maracatus e as festas juninas. Formamos mais de 1.800 bombeiros voluntários em parceira com o Corpo de Bombeiros Militares do Ceará. Estamos abrindo a 50ª. turma. Nada da boca para fora. Tudo com nosso envolvimento e gratuito.
Novos centros comerciais foram surgindo nos últimos tempos e outros estão por vir. Sejam todos bem-vindos. O sol nasceu para todos.
Este texto é claro, sem presunção. É história vivida e sofrida que continua a cada dia novo para as quase duas mil pessoas que mourejam, acreditam no que fazem, recebem bem e com alegria milhares de clientes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2015.

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AMOR E BARRIGA – Diário do Nordeste

Agora, em Grasse, França, descobriu-se uma acidental troca de crianças em maternidade. Casal viveu em crise, pois o marido dizia que a filha Manon não possuía seus traços. Depois de 10 anos, brigas e separação, fizeram exames de DNA. Manon não tinha nada do pai, tampouco da mãe.
A mãe resolveu processar o hospital. O fato: duas crianças, com icterícia neonatal, trocadas no berçário. Após embates na justiça, a mãe descobriu a filha verdadeira, cuidada com afeição por outros pais.
Houve o reencontro, mas a mãe, mesmo reconhecendo na sua filha biológica os seus traços, era apaixonada pela “filha” Manon que criara com desvelo. Final da história: optou por ficar com Manon, pois os vínculos eram profundos.
Há algum tempo li o livro “Um amor sem barriga”. A história: uma jovem teve duas gravidezes normais com oito meses de gestação, sempre acompanhada por médicos. Daí em diante aparecia uma anomalia que, infelizmente, acabou na morte dos dois ansiados bebês.
Sofrido, o casal tentou descobrir a origem da doença das crianças perdidas. Laboratórios nacionais e estrangeiros contratados. Nada conclusivo resultou. Enxugaram lágrimas e dores, não poucas. De repente, manifestaram o desejo de adoção. Veio o primeiro bebê, sem barriga, ainda suprido com leite materno, tão amado como se concebido. Fizeram adoção de verdade.
Depois, nova adoção abençoada. Hoje, pais e filhos até se parecem. São unha e cutícula. A mãe sem barriga é amantíssima e a admiro. O pai coruja não destoa. São uma família de verdade.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2015.

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SEXTA-FEIRA SANTA COM BREVE VIAGEM PELO MUNDO DAS CRENÇAS E DAS FILOSOFIAS – Jornal O Estado

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Einstein
Há dois bilhões de cristãos no mundo. Católicos, anglicanos, protestantes, luteranos, evangélicos e afins. Acontece que a Terra tem mais de sete bilhões de pessoas. Assim, de cada sete pessoas, menos de duas acreditam em Deus e no seu filho unigênito, Jesus, o que surgiu há 2015 anos em meio à dominação romana, em área miserável, hoje ocupada por israelenses e palestinos.
As crenças, ao longo do tempo, fizeram e fazem milhões de mortos. Tudo em nome da fé que entoavam. É contrassenso. Segundo o evangelho de Lucas, o anjo Gabriel teria dito: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus o trono do seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”.
Acontece que parte dos cristãos, os não católicos romanos, não creem que Maria seja a intercessora. Admitem que ela tenha sido a escolhida, por tal razão seria santa, mãe de Jesus, mas “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). E dizem mais: Jesus teve irmãos. Os católicos falam que eram primos de Jesus e não irmãos. Os não católicos invocam, como prova, o evangelho de João 2:12, referindo-se a ida de Jesus a Cafarnaum: “Depois disto desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”.
Quem quiser tirar as suas conclusões, pode dar uma olhada em Mateus 12.46, 13.55 e 56. Marcos 7.3 e I Timóteo 2.5.
Para nós – neste tempo de exacerbação do autodenominado Estado Islâmico, de questões fundamentalistas, econômicas e bélicas que assolam o Oriente Médio –, não importa e nem cabe discutir se Maria era ou não virgem e se Jesus teve irmãos ou eram apenas primos. Ao visitar Egito, Israel e Palestina, faz alguns anos, escrevi em jornal dizendo que nunca haverá uma solução definitiva de paz. Complementei dizendo que os casamentos entre judeus e árabes, que aumentam, podem minorar o radicalismo. Além disso, há, em ambos os lados, estudiosos pacifistas.
Para os seguidores de Maomé, há outra história sagrada e para isso recorrem ao Alcorão, o equivalente à Bíblia dos cristãos. Acreditam os muçulmanos, na Surata 5:72-73, que “são blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, que é meu senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e a sua mora no Paraíso e a sua morada será o fogo infernal”. No mesmo Alcorão, todavia, está dito que pode haver perdão para judeus e cristãos: “Mas quem praticar o bem e for ademais fiel, saberá que seus esforços não serão baldados, porque os anotamos todos”.
Quando chegamos ao Oriente, onde já estivemos por duas vezes, sequer entendemos os mundos hinduísta, budista, xintoísta e a sabedoria de Confúcio.
O hinduísmo não é, em sentido estrito, uma religião, mas uma filosofia de cunho de crença e reivindica ser a mais antiga de todas as fés, sem data determinada. Ele está dividido em três períodos, o védico, com o culto a deuses, como Dyans, que seria o deus supremo. Surge, tempos após, a fase Bramânica com a trindade: Brahma, a da alma imortal; Vishnu, a da preservação; e Shiva, a alma destruidora.
Segundo o hinduísmo, que hoje vive uma fase híbrida, com influências de outras crenças, a trajetória que a alma terá será de acordo com as ações praticadas em vida (a lei do carma), a libertação final da moksha (espírito) impõe o fim do ciclo da morte e do renascimento. Todo o ritual hinduísta tem por fundamento a meditação e as oferendas.
Na crença budista, Maya – a mãe de Sidarta Gotama, que se tornaria Buda apenas aos 29 anos –, tal como Maria, a mãe de Jesus, também era virgem e permaneceu virgem.
Buda nasceu seis séculos antes de Cristo, na Índia, e os seus adeptos não o consideram Deus, mas alguém iluminado, aquele que está liberto da ignorância e pleno de sabedoria. As regras do budismo parecem simples: não fazer mal a nenhuma criatura viva, não tomar aquilo que não lhe foi dado, não se comportar de modo irresponsável na sua sexualidade, não falar falsidades, e não se entorpecer com álcool e drogas. Xinto significa “caminho dos deuses”.
Reza a lenda sobre o xintoísmo que depois de sete gerações de divindades nascidas no Cosmo, apareceu consolidada, no século VI da era cristã, o último casal, Izanagi e Izanami, que teve oito filhos transformados nas oito ilhas que constituem o Japão. O xintoísmo e o budismo são praticados no Japão, sendo que o xintoísmo consagra mais o nascimento das pessoas e o budismo cuida do final, da morte. O ideário do xintoísmo é amar a natureza, respeitar os antepassados e ser politeísta.
Na China, no século dois da era cristã, surgiu Confúcio que desejava descobrir o caminho superior e chegar ao “Tao” e ali encontraria a harmonia para a existência e para os mistérios do mundo. Nascia o confucionismo, que teve força espontânea até 1949, quando surgiu o comunismo e a prática foi postergada em nome da revolução cultural de Mao-Tse-Tung, que veio a seguir.
Sabe-se que as dimensões do confucionismo centradas no eu, na comunidade, na natureza e no firmamento permanecem arraigadas no espírito das famílias de lá, que, quando podem, tentam seguir as suas virtudes essenciais: amar o próximo; ser justo; ter comportamento acertado; cultivar a sabedoria e a sinceridade. A família é a base da sociedade e os governantes devem amar o povo. O confucionismo é filosofia de vida, não é religião tal como concebemos no ocidente.
Fizemos, numa visão aligeirada, simplista e superficial, com a ajuda de leitura de livros e buscas na Internet, uma volta ao mundo da fé e da filosofia de vida. O que mais brota em todas essas manifestações citadas é a referência temporal ao nascimento de Jesus.
Nota-se que todas as crenças e filosofias possuem suas próprias contagens temporais diferentes do que, por exemplo, agora comemoramos: a morte de Cristo, o Jesus de Nazaré. Entretanto, o calendário cristão é a menção basilar para a contagem do tempo entre a vida e a morte, com ou sem esperança da eternidade. A todos os que nos acompanharam esta pequena viagem, através das crenças e das filosofias básicas da humanidade, os nossos votos: vivam em paz, sigam aquilo em que acreditam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2015

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RESSURREIÇÃO – Diário do Nordeste

Este domingo é o dia da ressurreição para os que ainda têm a esperança da fé. Um judeu, dissidente, fez-se estranho aos seus comuns e passou a pregar uma vida nova, uma passagem – a da páscoa – que o levaria à morte e, em seguida, ressuscitaria. Segundo consta, foi vendido. O dinheiro, sempre ele.
Agora, neste país imenso e complexo, vivemos o prenúncio de, quiçá, uma ressurreição. A partir da coragem de alguns contra os muitos que, na volúpia, acreditavam-se acima da lei. Deixaram-se enredar na teia da ganância, nos deslimites da dignidade. O dinheiro, sempre ele.
O primeiro romance de Machado de Assis, “Ressurreição”, 1872, criticado por uns e objeto de estudos por muitos, mostra a dicotomia entre o falso e o verdadeiro. O enredo é a história de Félix, um médico, e da sua incapacidade de acreditar em Lívia, uma viúva por quem se apaixona, após amores sazonais interrompidos pela dúvida.
Lívia é personagem que cresce na trama e faz realçar a dúvida de Félix após receber uma carta anônima.
Hoje, tal como o personagem central de “Ressurreição”, estamos em dúvida entre o que se crê verdadeiro e o falso. O Brasil é uma história de amor para uns, não para outros, os que o atolaram na ignomínia.
Esperamos para o desfecho no País final melhor que o de Félix, descrente e largado.
Nesse mundo onde não há mais segredo por conta do ciberespaço a banalizar e vandalizar relações e comunicações, todos se creem protagonistas com ou sem respostas para a ressurreição que não ousamos ou não sabemos fazer.

Feliz Páscoa.
João Soares Neto
Empresário
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2015.

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CENTENÁRIO DO POETA GERARDO MELLO MOURÃO – Jornal O Estado

Ontem, em Brasília 23 de março de 2017, com palestra do escritor e diplomata Márcio Catunda, a Associação Nacional dos Escritores – ANE, homenageou o centenário do imenso poeta, político e jornalista cearense Gerardo Majella Melo Mourão(1917-2007). Na realidade, Mourão completaria 100 anos em 08 de janeiro passado.
Sabe-se que o percurso de vida de Gerardo Mello Mourão é rico em atribulações e feitos. Seminarista maior pela Ordem dos Redentoristas holandeses, abandonou a batina pouco antes de ser padre. Em seguida, estudou Direito. Mais uma vez não concluiu o curso, tal a sua incansável busca por algo maior que ocupasse a sua brilhante cabeça.
Foi integralista. Cooptado quando Plínio Salgado levantou essa bandeira similar ao nacional socialismo. O Ditador Vargas o considerou traidor nacional e o condenou à morte. Depois, 30 anos de prisão. Cumpriu cinco anos e dez meses. Eram os tempos incertos da 2ª. Guerra Mundial.
Com a redemocratização, passou a seguir o ideário comunista de Luiz Carlos Prestes, sem largar o batente de jornalista e poeta. Fez-se deputado federal por Alagoas por duas vezes. Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sua folha corrida de prisões registra 18 atos de encarceramento. Apesar disso, por seu cabedal, foi Secretário de Cultura do Rio de Janeiro.
Destaca-se em sua história jornalística o tempo em que passou, como correspondente da Folha de São Paulo na China de Deng Chiao Ping, entre 1980 e 1982.
O Ceará o homenageou por duas oportunidades. Primeira, em 1993, com o Título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará-UFC. Em 1996 foi agraciado com o Prêmio Sereia de Ouro, comenda maior do Sistema Verdes Mares de Comunicação.
Cedo espaço ao poeta Carlos Augusto Viana, então editor do Caderno de Cultura, quando, em 2008, refere: “A obra poética de Gerardo Mello Mourão encontra-se, em sua expressão maior reunida em dois tomos. Peãs (este implicando três livros: O País dos Mourões, Peripécias de Gerardo, Rastro de Apolo) e a Invenção do Mar. A leitura de seus versos nos põe diante de um poeta que, como poucos, de modo intrigantemente natural, o lírico e o épico, de tal sorte que tais gêneros se fundem num todo indissolúvel… Assomam, desse modo, inúmeras alusões, ecos, tecidos de textos outros num jogo intertextual utilizado pelo Autor, pois este soube, vencendo a ferrugem do templo, aliar-se à pós-modernidade.”
Lembro bem de uma das suas visitas a amigos, em Fortaleza. Era tempo da “Turma dos Sábados”. O acolhemos em nossa tertúlia com carinho, admiração e respeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/03/2017.

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BENFICA 18 ANOS, ATREVIDO BENFICA – Jornal O Estado

Lutei com as forças que me faltavam do meio ao final da década de 1990. Tudo estava complicado para mim. No particular e no geral. O projeto e a execução do Shopping Benfica não contaram com apoio de ninguém. Só me diziam: aqui não dará certo. Parecia um mantra. Lembrei-me de uma frase do escritor Zuenir Ventura: “inveja não é querer que o outro tenha.” Eu era o outro. Foram anos.
Um dia, cheio de problemas, resolvi marcar a data, 30 de outubro de 1999. Aniversário de D. Margarida, minha mãe. Deu certo. Assim aconteceu. Com foto e nome de todos os que trabalharam para que o Shopping Benfica saísse do papel. Do servente ao engenheiro. Havia um buraco no meio do caminho. O do Metrofor, à nossa frente.
Família, colaboradores, amigos, autoridades e o reitor Martins Filho, refundador do bairro do Benfica- depois esvaziado com a criação dos campi do Pici e do Porangabussu- estavam lá. O sol era forte. Ao redor, necas de edifícios. Tudo bem, seria assim mesmo, ao som da Camerata da Universidade Federal do Ceará. Os tapumes das vazias lojas não tinham disfarces, mas dezenas de pinturas grandes de artistas locais, em concurso que marcava a criação da Galeria BenficArte. Ganhadores (Emília Porto e Audifax Rios) com passagens para os Estados Unidos e Europa. Prometido e cumprido.
Manhã seguinte, véspera do Dia de Todos os Santos, bateu a realidade. Convocamos Associações e órgãos de classe, nada. Cada um na sua. Foi aí que os meus espíritos do trabalho, da cultura, da irreverência, das artes e, sobretudo, o da responsabilidade social, se juntaram e deram-me força. Desculpem a primeira pessoa, mas não tinha a segunda.
O Metrofor, de esperança, transformou-se em transtorno. Tive que dar parte do nosso terreno para a abertura da Estação Benfica, só inaugurada nesta segunda década do século 21.
Chega de choro. No dia 30 de outubro de 2017, o Shopping Benfica completou 18 anos. Fosse uma pessoa, teria passado, com folga no Enem, mas escolheria um curso deste Benfica, raiz e fundamento de várias Universidades, como a Federal do Ceará, a UECE, a IFCE e de cursos superiores, de vários matizes, particulares.
Os nossos vizinhos tornaram-se amigos, desde a construção. Batiam papo, coçavam a cabeça, perguntavam o meu nome, como seria a obra e a conversa corria solta. Hoje, são clientes, porque já eram amigos. São tratadas como pessoas solidárias, que nos deram o azimute para os nossos sonhos não virassem pesadelo.
Estamos agora a arrumar este jovem Shopping Benfica. Novas roupas, novas luzes, cara limpa, espelho d’água, jardins frondosos dão a animação indispensável ao ethos que o distingue dos demais. O Benfica foi o primeiro Shopping do Brasil a obter a certificação ISO-2001, de acreditação da Grã-Bretanha. Por diversas vezes fomos homenageados no Fórum de Líderes, em São Paulo. A pergunta que nos vinha à mente, ao subir ao palco: o que faço no meio desses “Tycoons”. Uns, quebraram. Outros…
Na área da cultura ganhamos, anos seguidos, todas as premiações do “Selo Cultural”, em administrações diferentes da Secretaria da Cultura do Ceará. Ao final, fomos aquinhoados com o selo “Diamante”, o único concedido, entre empresas públicas e privadas. Depois, o selo foi extinto.
Não estamos bazofiando. Externamos apenas para que a História o registre. No Ceará, tem disso. Os bem-vindos e os aquinhoados são os abençoados pelo BNDES, isenções, refis, incentivos fiscais, renúncias fiscais, fundos de pensões, dentre outros. Nós nunca tivemos nada disso. Pagamos e temos certidões fiscais do Município, do Estado e da União.
Depois de tantos percalços vencidos, estamos aqui ao lado de milhares de clientes, lojistas locais e, imaginem, até multinacionais, já se instalaram no Benfica. Quem diria! Deus sabe como foi duro, mas tudo defendido pela nossa equipe cabeça-chata, pelos lojistas e por nossa clientela, gente de bem, que conversa conosco, do mesmo jeito que o fazia durante a construção.
Vida que segue. Deus nos abençoe. Obrigado a todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/11/2017.

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MORTES EM DEMASIA. QUAL A SOLUÇÃO – Jornal O Estado

“Algumas pessoas matam. Outras, se satisfazem lendo a notícia de assassinatos”. Millôr Fernandes
Não há família, grupo de amigos, empresa, igreja e assemelhados sem possuir integrante atacado ou morto em assaltos por jovens em bicicletas, por adultos com capacete em motos, por balas perdidas, por viciados de toda a espécie e por marginais institucionalizados. São presos e, logo soltos, em face de excesso de gente nas carceragens, nos presídios e nas audiências de custódia.
Reportagem da socióloga e jornalista Fernanda Mena, em dupla página, sob o título “Um inquérito sobre a polícia”, no caderno Ilustríssima, FSP, em 08.02.2015, apresenta números assustadores: 54.269 pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2013; desse total, 2.212 pessoas foram mortas por policiais civis ou militares, em serviço ou fora dele. Por outro lado, 490 policiais -civis e militares- foram abatidos em confrontos com bandidos ou suspeitos. Imaginem os números, se atualizados.
Vendo-se o acontecido em países civilizados, nenhuma pessoa – nesse mesmo ano de 2013 – foi morta pelas polícias do Reino Unido e do Japão. Quanto aos crimes, observa-se: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos Estados Unidos é de 4,7. No Brasil ela é quase seis vezes maior: 26,9.
Em pesquisas feitas com policiais sobre o baixo desempenho, 95% informaram ser ele originado pela ausência de integração entre as diferentes polícias. Somente 30% da população confia nas polícias civil e militar. Afirmam: elas invadem residências sem mandado judicial e prendem pessoas, sem culpa formada, apenas por as considerarem “suspeitas”, pela cor, renda ou local de morada.
Há no Brasil, comunicadores de emissoras de rádio e de televisão eleitos pelo estardalhaço em seus programas, deixando nua e crua a delinquência e clamando, em altos brados, por soluções para o caos social. Os barulhentos se elegem e se reelegem, prometendo ‘acabar com a frouxidão da polícia’ e resolver tudo em um mero passe de mágica. Todos, juntos, compõem as “bancadas da bala”. Pirotecnia ou busca de audiência?
Jovens policiais procuram fazer novos concursos públicos em outras áreas, e, quando neles passam, deixam suas famílias aliviadas, em razão do estresse e das suspeições em casos de confrontos resultando mortos ou feridos.
Saindo da reportagem de Fernanda Mena, procurei a Revista Brasileira de Segurança Pública, ano cinco, edição nove, agosto/setembro de 2011, e tive o prazer de ver a análise de Francisco Thiago Rocha Vasconcelos, mestre em sociologia, em 2009, pela Universidade Federal do Ceará, então doutorando da USP. Ele assevera: “O enfoque sociológico sobre a violência deslocado da relação entre o medo do crime e a instauração de distâncias sociais e mudanças nas relações urbanas, passou a se concentrar, então, no modo como as instituições do sistema de justiça criminal intervêm no crescimento da criminalidade urbana violenta, seja por uma participação ativa, na forma de violência ilegal ou pelo viés autoritário e estigmatizante de sua atuação, seja por sua omissão em punir as violações de direitos humanos praticadas por seus agentes ou ainda por sua incapacidade em dar conta dos novos fenômenos criminais”.
Esse assunto, complexo, toma hoje nova dimensão em face da atuação firme e isenta da Polícia Federal em casos de corrupção na Petrobras, na Lava-Jato e outros. Começam a surgir, nos Estados, movimentos civis – organizados ou não –clamando pela extensão dessas operações em órgãos públicos.
Ao concluir, uma pergunta: Já foi regulamentado o parágrafo 7 do art. 144 da Constituição de 1988? Ele diz: “A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos de segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades”. Ou foi e eu não soube?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2017.

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REVISITA À PESSOA – Diário do Nordeste

Os que fizeram a universidade nos anos 1960/1970 elegeram Fernando Pessoa (1888­1935)como o poeta a ser lido e estudado. Ele e os seus heterônimos. Preciso dizer que optei por Bernardo Soares: “sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças”. A colega Maria Luiza Rodrigues e eu passávamos horas lendo a edição, em papel bíblia, do esquivo poeta lusitano.
Pessoa, após a morte do pai, acompanhou a mãe que emigrou ­ e casou, novamente ­para a África do Sul, na cidade de Durban. Em África, Pessoa fez o curso secundário e aprendeu o inglês que usou como tradutor e publicitário, já em Lisboa. Em julho de 2015, os filhos do pesquisador inglês Hubert Jennings, morto em 1992, resolveram o que fazer com o espólio cultural do pai, especialista em Pessoa, com pesquisas “in loco” dos arquivos do vate, antes de terem ido parar na Biblioteca Nacional Portuguesa.
O acervo de Jennings foi doado à Brown University, nos Estados Unidos. A Brown concentra estudos sobre literatura portuguesa e publica a Revista “Pessoa Plural”. Entre os arquivos, foi encontrado o livro inédito de Pessoa “The Poet of Many Faces”, em inglês.
Soube por Maurício Meireles, FSP, C3, agora em 16 de janeiro. São destacados como “pessoanos” o argentino Patrício Ferrari, o brasileiro Carlos Pittela­Leite, o mexicano Octavio Paz e o italiano Antonio Tabucchi.
Para mim, “A Tabacaria” e o “Livro do Desassossego” são o cume de Pessoa que, exangue, disse, em inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que amanhã trará).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/2016.

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PERDAS SENTIDAS – YOLANDA QUEIROZ, IVENS DIAS BRANCO – Jornal O Estado

A morte, independente da crença, do agnosticismo ou do ateísmo das pessoas é ainda, para não fugir ao lugar comum, mistério. Pensadores, não os mais recentes, debruçaram-se sobre o fim da vida. Cito dois para mostrar o impacto quando alguém está próximo do fim ou quando se disserta sobre a morte.
Sêneca, sempre citado, foi coevo de Cristo. Ele, em “Cartas a Lucílio”, afirma: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”.
Em contraponto, o escritor francês L-F. Céline, morto em 1961, destoa: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento”. Mas faz ressalvas, logo em seguida: “Outras começam a morrer e a se ocupar da morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.
Recentemente, no curto espaço de uma semana, perdemos duas pessoas que viveram até o último momento. Yolanda Vidal Queiroz e Francisco Ivens Sá Dias Branco foram combatentes ao longo de suas vidas.
D. Yolanda, em 1982, perdeu o marido, o empresário Edson Queiroz, de forma abrupta. Abatida, mas não desistente, apegou-se à fé que possuía e, em pouco tempo, com a parceria da família e o seu primogênito Airton José Vidal Queiroz, a lhe dar força e o ombro, tomou jeito e gosto para a sua nova, longa, árdua e vitoriosa caminhada.
D. Yolanda comandava o Grupo Edson Queiroz-GEQ que tem como joia da coroa a Universidade de Fortaleza. Afora a Unifor, a partir do escritório do seu pranteado marido, transformado em relicário, D. Yolanda dirigia um complexo empresarial que se dá ao luxo de ser fechado. Sem espaço para IPO ou abertura de capital. Ela sabia o que acontecia, em âmbito nacional, nas suas áreas tentaculares de comunicação, distribuição de gás, fábrica de eletrodomésticos e forte presença agropecuária.
O GEQ representa hoje a doçura e a tenacidade de D. Yolanda aliada à meticulosa alma profissional e sensibilidade do filho Airton compor o mundo pelas versões multiformes do paisagismo e da arte espraiada na Unifor. A par disso, emergem a energia e as possibilidades da terceira gestão.
Na missa de 7º. Dia de D. Yolanda, a neta Joana falou: “Minha avó sempre foi o centro de nossa família e ainda vamos ter que aprender a viver sem sua referência fisicamente conosco”.
Ivens, desde cedo, foi companheiro de seu pai, o panificador português Manuel Dias Branco, vitorioso no interior do Ceará e de lá para Fortaleza. Já industrial de sucesso, Manuel, com saudade da terra mãe, transfere ao jovem Ivens, em 1953, o comando de uma emergente indústria.
A partir daí, a desenvoltura foi a práxis da M. Dias Branco e da Idibra que, ano após ano, cresciam e mereciam o reconhecimento da sociedade do Ceará e do Brasil. A citação de Ivens entre os bilionários brasileiros na lista anual da revista “Forbes” não é uma contraprestação de favor, mas reconhecimento que se consolidara em pouco mais de 60 anos de sua gestão, sempre espartana.
Para os que não sabem, Ivens era viajor e leitor qualificado, curioso, com olhar de “insider” empresarial ao identificar, implantar e equilibrar em sua balança empresarial atividades distintas, como empreendimentos imobiliários, fábrica de cimento e moinho de trigo, ao seu “core business” de líder nacional na área de massas e biscoitos.
Sempre ligado à família, já na terceira geração, lutou como fazem os fortes surpreendidos por doenças graves. A discrição, o arrojo e a organização eram as suas características basilares, aliadas ao bem fazer aos seus colaboradores acometidos por males do bolso, do corpo ou da alma. Suas empresas, consolidadas, continuam fortes e antenadas sob o olhar capaz do predefinido sucessor, Ivens Jr., coadjuvado pela família.
Ambos, Yolanda e Ivens, profissionalizaram as diversas empresas que compõem os seus distintos grupos. Tiveram o discernimento de, no tempo devido, auscultar familiares, diretores e consultores externos para dar formatação e continuidade aos complexos meandros de suas organizações que compõem a dura vida empresarial brasileira. Filhos e netos cresceram vendo exemplos, a forma mais próxima da verdade de educar e de dar sentido ao que se faz por destino, amor e coragem.
Às famílias Queiroz e Dias Branco, o meu pesar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2016.

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JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS – Jornal O Estado

“O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6.
Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso.
“The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera.
Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”.
A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial.
A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame.
Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.
Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”.
Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016.