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O SENHOR PRESIDENTE – Jornal O Estado

“Toda a história é história contemporânea”. Benedetto Croce, filósofo italiano.
Cinco de agosto de 1963. Em Washington, Distrito de Columbia, capital dos Estados Unidos, era manhã clara. Um grupo de jovens líderes brasileiros achegava-se a um dos portões laterais da grande casa de número 1.200, da Avenida Pensilvânia. Éramos universitários – os moços de paletó e gravata, as meninas bem prontas – menos de 60. Todos na faixa dos vinte anos, de diversas partes do Brasil, especialmente do Sul e do Sudeste.
Havíamos sido escolhidos em concurso nacional, presencial, por vários examinadores, com múltiplos enfoques, incluindo conhecimentos gerais e quociente de geopolítica. Entre eles, um psicólogo de origem alemã que a tudo assistia com caderno e lápis a mão.
A viagem internacional foi feita em avião da Pan American Airways. Aterrissamos em Nova Iorque, no grande aeroporto que, à época, era o Idlewild e viria a ser JFK. As portas automáticas se abriram e eu via – ou imaginava ver – mais carros que Fortaleza possuía.
De ônibus e fomos levados para a Columbia University, na direção oeste, à altura da rua 115, na Morningside Heights, perto da Igreja de São João, o Divino. A Columbia é privada, data do século 18, e é uma das maiores universidades dos Estados Unidos. Faz parte da Ivy League, fechadíssimo grupo de oito universidades de alto nível dos EEUU. As outras, são: Harvard, Princeton, Yale, Pensilvânia, Cornell, Dartmouth e Brown.
A partir da Columbia começou a minha alfabetização – ainda não concluída – sobre a cidade de Nova Iorque, usando o seu metrô ou os ônibus especiais que nos levavam para ver museus, bibliotecas, teatros e parques.
De Nova Iorque para Massachussets, especialmente a Harvard University, que muitos pensam ficar em Boston, mas, na realidade, se localiza em Cambridge. A Harvard é igualmente privada, famosa, celeiro de presidentes americanos e remonta ao século 17. Os edifícios que a compõem não são monumentais, têm poucos pavimentos, revestidos de tijolos. O paisagismo que a envolve, com frondosas árvores e amplos gramados, é intercalado com jardins com flores multicores.
Pois foi lá em um dos seus alojamentos, onde depositei a minha escassa bagagem e, em seguida, participei, em tempo integral, do “Life and Institutions in the United States”, com diferentes docentes e conferencistas, sob a coordenação do Professor Henry Kissinger.
Mas, o que tratei no início deste artigo foi a chegada em Washington e a visita marcada com o presidente John Fitzgerald Kennedy. Ele estava no meio do seu segundo ano de mandato. Ninguém intuía que o seu filho Patrick, prestes a nascer, morreria logo em 09 de agosto, com apenas dois dias, e que JFK seria assassinado em 22 de novembro, em Dallas, no Texas. Os fatos todos imaginam saber, mas há ainda nacos de desconfiança para renitentes historiadores.
Você já deve ter visto onde os presidentes americanos recebem seus colegas de outros países. Pois foi lá naqueles jardins, em meio a colunas que fomos acolhidos e esperamos a chegada do filho mais importante de Joseph Kennedy, descendente de irlandeses, grande empresário, ex-embaixador americano no Reino Unido e financiador do Partido Democrata.
Na expectativa de sua chegada, surgiu a premência de urinar. Esgueirei-me e entrei na primeira porta disponível. Deveria, em algum lugar, haver um sanitário, logo encontrado. Aliviado, voltava aos jardins, quando vi, a pouca distância, John Kennedy que cumprimentava, de longe, um dos grupos em excursões diárias por áreas limitadas da Casa Branca.
Disse para alguns colegas já ter divisado o Presidente. Descrevi a sua roupa: terno azul-marinho, camisa branca e estreita gravata vermelha. Em minutos assoma John Kennedy, tal como o descrevera. Havia feito 46 anos em 29 de maio. Sorridente, entre outros papos, perguntou: “quantos futuros candidatos a presidente do Brasil há entre vocês”? Nenhum, respondo agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2016.

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IDEIAS: REFUNDAR O BRASIL – Diário do Nordeste

Mexeram demais com o Brasil. A maioria perdeu a fé no que está aí e no que pode vir. A ainda jovem democracia brasileira mereceria uma refundação. Como seria? Um pacto social com regras definidas por representantes de todas as áreas do conhecimento, dos políticos com mandatos, do empresariado, dos trabalhadores e da sociedade, incluindo as minorias.
Utopia? É preciso ousar e sairmos do charco. Todas as pesquisas, as acreditadas e as nem tanto, mostram o impasse a que chegamos, a sociedade. Como diz o vulgo:
precisamos de um freio de arrumação. Remendos não resolverão. A administração do Brasil, nesta crise, não pode prescindir de pacto orgânico, liderado, quem sabe, pela cúpula dos três poderes.
Ora, direis, há neles frutas podres. Serão expurgadas, naturalmente, pela conjunção e a vontade do povo.
A indústria nacional, que deveria ser o carro chefe do nosso desenvolvimento, teve uma variação negativa da produção, até o 3º trimestre de 2015 ­ em relação ao mesmo período do ano de 2014. É alarmante: ­11%, a fonte é da Unido, órgão da ONU, compilada pelo Iedi ­ Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. É bom lembrar que a indústria é a área mais beneficiada pelo BNDES. O Brasil está na última classificação nessa área.
Somado ao caos político, isso demonstra o imperativo de uma concertação nacional, que não pode tardar. Este mero artigo pode não ser o condão a deflagrar o processo, mas a democracia não é apenas arte e manha. “Ela não corre, mas chega segura ao destino”, Goethe. Feliz 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2016

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O CEARÁ E A FÉ NO ANO DO BEM DE 2016 – Jornal O Estado

O Ceará começa o ano de 2016 com dois trunfos na área sagrada ou religiosa. O primeiro é Cícero Romão Batista, padre e político, nascido no Crato, agora reabilitado pela Igreja de Roma. A vida do Padre Cícero possui várias versões e foi objeto de ensaios, livros, teses acadêmicas, cordéis e publicações apócrifas.
A decisão aconteceu no final de 2015, após muita espera e perorações de religiosos, de leigos e de políticos, com múltiplas pressões e viagens ao Vaticano. Francisco, latino, na qualidade de Papa, sancionou, afinal, a pública reabilitação do Padre Cícero, o demiurgo dos cariris nordestinos.
O segundo trunfo veio de ato anterior: em 7 de abril de 2015, depois de ouvidas as entrâncias competentes, a Santa Sé considerou D. Hélder Pessoa Câmara, cearense de Fortaleza, como “Servo de Deus”. Esse é passo decisivo para o processo de canonização de postulante. Pernambuco adonou-se do processo e, através de seu arcebispado, apresta-se para, em pouco tempo, fazer provas de milagres – dois, pelo menos – necessários à santificação.
Engajado em movimentos sociais, D. Hélder Câmara, em vida, havia sido indicado por quatro vezes para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Em paralelo, o governo do regime militar teria trabalhado em contrário, usando vias diplomáticas para vetar o nome dele.
Em Fortaleza, cidade natal de D. Hélder, talvez no próprio Seminário da Prainha, onde perto morava, e ali foi ordenado em 1931, aos 22 anos, poder-se-ia criar um museu – aberto ao público – mostrando o trajeto da sua vida. Evoluiu de adepto do positivismo e de Plínio Salgado para postura consagradora quando, na condição de bispo, aos 43 anos, e arcebispo do Rio de Janeiro, comandou cruzada cívico-religiosa em favor de moradia para os pobres e, especialmente, como mentor da criação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hoje respeitada CNBB.
Em janeiro de 1964 foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife. Dizia-se, à época, que Pernambuco tinha a sorte de possuir dois grandes cearenses a seu serviço: o governador Miguel Arraes e D. Hélder Câmara. Veio o movimento de abril de 64, e Hélder teve postura defensora dos direitos humanos e denunciadora, no caso da morte de um padre, seu auxiliar.
Acresça-se a esses trunfos as tradicionais romarias a Canindé, em homenagem a São Francisco, no final de setembro e no começo de outubro. Visão religiosa à parte, bem que o Ceará poderia consolidar-se como centro místico de visitação permanente, posto que há a tendência natural dos que demandam a Juazeiro do Norte e a Canindé. Quixadá conta, igualmente, com as romarias para Maria, Rainha do Sertão, incentivadas por D. Adélio, hoje bispo resignatário.
Estes breves relatos, alinhavados e de todos conhecidos, servem como lembrete ao Estado do Ceará e ao governador Camilo Santana, originário do Cariri, para a importância a ser dada à disseminação da fé não só pelos romeiros e peregrinos, mas, igualmente, para a real difusão de roteiros, caminhos e eventos que aproximem os turistas, inclusive os não religiosos, desses fatos da História do Ceará.
Assim, poderá o Ceará apropriar-se da sua história religiosa, do trabalho de todos e da fé dos sertanejos – essa força do povo a enfrentar a tragédia das secas e alguns desmandos políticos e empresariais – oferecendo o contraponto ao que é exibido por sistema nacional de televisão, a ansiar provar que “nada melhorou” 85 anos depois do relatado em “O Quinze”, romance de Rachel de Queiroz, de 1930.
A todos, acreditem no ano do bem de 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2016.

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CARTA PARA VOCÊ, JOVEM, NESTE COMEÇO DE 2016 – Jornal O Estado

“Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos idosos, um passado muito breve.” Schopenhauer (1788-1860)
Sei existir lenda de que o jovem de hoje não lê jornais. Meia verdade. Talvez o leia pouco em papel, mas os jornais têm as suas mídias sociais, e tudo fica lá, de forma permanente nos sítios, blogs, face e nas nuvens. Não há mais jornal de ontem. Há escrito não lido, ainda. Este artigo é reproduzido em blogs com qualidade. Essa certeza me faz ciente de que é preciso contar sempre com o jovem para tudo o que é novo.
O ano de 2016 está tinindo de novo. É hora de acabar com essa onda sadomasoquista de não acreditar no Brasil e falar: o jovem não tem futuro. O jovem tem futuro, sim. Desde que se prepare, estude e cumpra as etapas da vida. Ela cobra a cada dia. O maternal – ou a creche ou a casa de parentes- é o primeiro passo para a criança de hoje, com pais lutando para lhe dar melhores condições de vida. Depois, vem a escola, seja pública ou privada. Encare-a como necessária, como uma ginástica para a sua mente. As mentes precisam de informações. Elas, pouco a pouco, se transformam em conhecimento.
E aí chega o Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, nivelando a todos e os desafiando a sair do quadrado existencial onde os hormônios da juventude impõem arritmias, de formas distintas. Nós, os que fizemos vestibulares, tínhamos as mesmas apreensões, mas os que não brincam com as letras, com a memória e com os números, passam.
Não precisa ser gênio; basta não ser dispersivo, anotar o importante e ouvir, sempre. Repare, nós não tínhamos essa ferramenta fabulosa, o computador. Você a tem. E não só isso, sabe usá-la de forma rápida e eficaz.
Nessa fase da vida, é natural fazer parte de uma turma, de um grupo. Mas, não tenha medo de ser careta. Procure saber dos costumes de cada um, dos vícios surgindo do nada e dos convites mais inusitados. A opção é sua, não importa zoarem contra você. Os maiores amigos são seus pais. Não influi, por acaso, se estão separados. Eles amam a você, independente de o casamento deles não haver dado certo. A vida não é estrada reta, possui curvas sinuosas, outras mais suaves, há atoleiros. Use a sua cabeça, uma espécie de tração 4X4 ou off-road.
Esta carta não é autoajuda. É apenas uma maneira de dizer que já passei por essas etapas. Ouvi irrisões, bati de frente com boquirrotos, recusei bebidas – além do meu limite – e fiz tudo do meu jeito. Estou aqui para dizer que não tenha medo do ano de 2016. Nós é que fazemos o ano, a partir do que somos e do que desejamos atingir. Não se poupe, dê duro.
A vida não é vitrine de loja atraente. A vida é o caminho que se traça sem alardes, com estudo, com coragem e fé em nós mesmos. Você não precisa ser validado por ninguém. Crie o seu estilo.
Os pais ficam velhos, mas nem sempre são caretas, acredite. Eles são psicólogos diplomados pela dureza do existir. Eles sempre serão os seus melhores amigos, mesmo quando dizem um não. Pare, pense, e a resposta vem lá de dentro. Pode ser o contrário do desejado, mas use bem o recado da sua razão.
Vou ficando por aqui e desejo a você, jovem desconhecido: trace rumos próprios e os persiga como se estivesse participando de uma maratona. A vida é uma longa maratona. Ajuste os cadarços. Feliz 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2016

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DOIS FILMES QUE RECOMENDO – Jornal O Estado

“Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção”. Marlene Dietrich, atriz.
Sou “cinemeiro” inveterado. Na telona dos cinemas e na tevê do meu quarto. Nunca fiz curso de cinema, mas pertenci ao “Clube de Cinema”, na sede da Associação Cearense de Imprensa, ali na Floriano Peixoto com Perboyre e Silva. Darci Costa, meu professor de inglês no Ibeu, era o dirigente. Havia conversas e debates. Eu, muito jovem, ouvia. Curioso, comecei a fazer sofríveis resenhas de filmes aos 15 anos. Estão em diários que, qualquer dia, reencontrarei.
Depois, já adulto e consolidando a vida, resolvi montar, com dificuldade, os Cinemas Benfica. São quatro salas, bem equipadas e que seguem a “grade” das distribuidoras que mandam. Não há lucro para os cinemas. Os percentuais brutos para as distribuidoras são de 40%, 50% e 60%, dependendo dos critérios que elas mesmas impõem. Além disso, paga-se o ISS, os empregados, os altos custos de energia elétrica e o Ecad, entre outros. Há excessos de meias-entradas e gratuidades. Quando um projetor para, temos de chamar técnicos do Rio ou São Paulo, por avião, remuneração e diárias. É duro.
Por outro lado, já ajudei na produção de alguns curtas, mas nada de tão significativo. Deixo um recado aqui: pretendo fazer, em breve, uma exibição de curtas cearenses. Quem quiser participar, pode entrar em contato. Faça-o pelo e-mail que está no cabeçalho da coluna.
Na verdade, este artigo, além do nariz de cera explicativo, é para dizer de dois filmes que vi recentemente. O primeiro, em reprise. Não me arrependi.
Trata-se de “Gênio Indomável”, de 1997, direção de Gus Van Saint. O então jovem ator Matt Damon, no papel de Will Hunting, membro de turma encrenqueira e sem futuro, descobre-se gênio ao resolver problema de alta matemática, exposto em lousa em corredor do Massachusetts Institute of Technology- MIT. Will era simples prestador de serviços na área de limpeza. O filme vai em crescendo do qual fazem parte Robin Williams, como um psiquiatra viúvo e desencantado, e Stellan Skarsgärd, como notável professor de matemática, detentor do prêmio “Fields”, uma espécie de “Oscar” da área.
Não vou dar detalhes, mas me chamou atenção o desencanto de Robin Williams que, na vida real, se concretizou. No geral, o filme mostra que alguém superdotado pode, sem fazer esforço, se destacar e achar isso natural. Há outro fato, esse no campo afetivo. O encontro do rapaz pobre, encrenqueiro e superdotado com uma herdeira rica e preparada estudante da Harvard University. O filme vale a pena.
O outro filme é de 2011. “Intocáveis” é francês. Nada a ver com o seu homônimo americano, com Robert de Niro. É filme sério-alegre, realizado por Olivier Nakache, que também produz o argumento. Embora seja comédia dramática, consegue, de forma alegre, mostrar a relação crescente entre um irreverente e improvisado “cuidador senegalês”, (Osmar Sy), e um rico e sofisticado tetraplégico francês, interpretado por François Cluzet. Mesmo sendo feito em 2011, deixa claro os guetos em que os imigrantes pobres vivem. Esse fato, além do
Estado Islâmico, estão na raiz dos ataques ao semanário Charlie Hebdo e, posteriormente, nos atentados em Paris. Chama a atenção que o filme é baseado em fatos reais, contado em livro por Philippe Pozzo di Borgo. Foi o filme francês mais rentável em bilheteria e recebeu muitas premiações.
Com estas duas indicações, renovo a esperança de que o polo de cinema do Ceará ultrapasse, não por rivalidade, mas por conteúdo, o já consolidado em Pernambuco.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2016.

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SEDEX PARA DILMA – Diário do Nordeste

Antes de sua primeira eleição, participei de encontro em que você expunha a postulação. Sua fala não foi boa. Acreditava ser o seu sistema nervoso. Muitos tiraram fotos com você.
Fiquei longe: será ela preparada? Sabia, por leitura, da sua participação ativa em movimentos e aparelhos. Sabia até que ficara amiga, quando presa, da cearense Rita Sipahy, irmã do Aytan, meu colega de escola.
A Rita, advogada, e o Aytan, médico em São Paulo, nunca foram do mal. Assim, concluí, por inferência: você era alguém que, jovem, acreditava em mudar o Brasil. Depois, todos sabem, foi eleita e reeleita. O País parou. O seu partido, o PT, surgiu como algo novo. Carta de princípios, austeridade, intelligentsia, fim do patrimonialismo etc. Quimeras. Agora, começo de 2016, dou sugestões. Não tenha medo de impeachment. Aja para acabar com todos os “malfeitos”. Afinal, quanto custa aos empresários o sistema “S” e as centrais sindicais para os empregados? Para quê?
Por que a Caixa, a Petrobras, o Banco do Brasil, o BNB e outros órgãos queimam bilhões em patrocínios “culturais e esportivos” questionáveis? Por que o BNDES empresta a quem não precisa e a outros países? Acabe com o aparato em suas viagens. Você era simples, volte a ser. Mordomia vicia.
Quem é pobre, poupa. O Brasil é pobre. Sem esgotos: zika. Diminua o número de ministérios para 17, o total de prédios do Niemeyer.
Pare os jatinhos. Feche o cofre. Seja clara. Demita. Divulgue. O povo e o Congresso a apoiarão. Fique certa. Fale menos, trabalhe mais. Mire-­se na Angela Merkel.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2016

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ADAM SMITH, O AUTOINTERESSE, A SIMPATIA, DAVOS E A DESIGUALDADE – Jornal O Estado

A Escócia, parte do Reino Unido, é país bonito, frio e com um inglês bem peculiar, falado pela gente culta, tomando uísque ou cerveja, e até pelos comuns mortais. No século 18, não existia energia elétrica, as estradas – ou caminhos – enlameavam quando das chuvas e petrificavam de gelo nos invernos.
A parca calefação era preocupação individual, e sequer havia sido inventada a máquina de escrever. As folhas de papéis, as canetas, os tinteiros e os mata-borrões, afora os livros próprios e os de bibliotecas públicas, eram os únicos recursos de que se serviam os escritores de então.
O escritor múltiplo Adam Smith, filósofo e cientista político, nasceu por lá nesse tempo e, mesmo assim, neste século 21, ainda é referência para ser negado ou elogiado. Não há como negar que ele foi estudioso e queria deixar obras que mostrassem a sua preocupação com a humanidade.
Sua obra capital, publicada em 1776, “Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações” ou, simplesmente, “A Riqueza das Nações”, é considerada a referência basilar do regime capitalista. Essa obra, uma maçaroca de cinco partes, deveria ser conhecida melhor pelos economistas ortodoxos, heterodoxos, econometristas e outros que tais. “Conhecida” é distinto de “folheada”.
No meu pensar, Smith possui obra que considero mais importante para os humanos, espécie da qual os econonistas fazem parte. “A Teoria dos Sentimentos Morais” foi escrito em 1859 e trata da moralidade humana que, segundo ele, depende da relação de simpatia entre um indivíduo e o restante da sociedade. Ele faz distinção entre simpatia e “autointeresse”, que tomo a liberdade de traduzir como ganância.
Essa digressão histórica como Adam Smith poderia ser estendida a Karl Marx e a Friedrich Engels, mas é apenas caminho para se chegar nesse janeiro de 2016.
Esta semana, na cidade de Davos, Suíça, reuniram-se a burocracia financeira, governos biliardários e supostas cabeças pensantes do mundo, no Fórum Econômico Mundial. Reúnem-se e se desentendem cada vez mais, pois falta a “simpatia” de que falava Smith. Sairão de lá e nenhum país relevante mudará uma vírgula da sua estratégia. Os outros, que vão lá fazer número, voltam fazendo declarações à imprensa que, cá para nós, acha interessante visitar essa pequena e rica cidade suíça em pleno inverno.
Toda a mídia noticiou, na semana passada, que uma organização não governamental, com sede no Reino Unido, a Oxfam, afirmou que, neste ano de 2016: “62 pessoas possuem tanto (capital) quanto a metade mais pobre de população mundial”.
A Oxfam acredita ainda que o patrimônio acumulado por 1% das pessoas mais ricas do mundo superará, em 2016, o dos 99% restantes. Entrei no site da Oxfam e descobri que ela tem ramificações em 94 países e possui como objetivo a luta pela extinção da pobreza e tornar consciente que cada pessoa deve lutar por seus direitos. Algo assim.
Não sei como foram feitas as contas, se os dados são confiáveis, mas não há como não enxergar a existência de uma grande parcela mundial pobre, para não dizer miserável. Essas 62 pessoas, até o final deste ano, poderão ser donas de 50% de todos os recursos do mundo. Como já foi dito na reunião do ano passado, na mesma Davos, há uma explosão de desigualdade que entrava o duelo contra a pobreza mundial. “A escala da desigualdade é chocante”, afirmou a diretora executiva geral da Oxfam Winnie Byanyima. Descobriram a pólvora. As armas estão no Oriente Médio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2016

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REVISITA À PESSOA – Diário do Nordeste

Os que fizeram a universidade nos anos 1960/1970 elegeram Fernando Pessoa (1888­1935)como o poeta a ser lido e estudado. Ele e os seus heterônimos. Preciso dizer que optei por Bernardo Soares: “sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças”. A colega Maria Luiza Rodrigues e eu passávamos horas lendo a edição, em papel bíblia, do esquivo poeta lusitano.
Pessoa, após a morte do pai, acompanhou a mãe que emigrou ­ e casou, novamente ­para a África do Sul, na cidade de Durban. Em África, Pessoa fez o curso secundário e aprendeu o inglês que usou como tradutor e publicitário, já em Lisboa. Em julho de 2015, os filhos do pesquisador inglês Hubert Jennings, morto em 1992, resolveram o que fazer com o espólio cultural do pai, especialista em Pessoa, com pesquisas “in loco” dos arquivos do vate, antes de terem ido parar na Biblioteca Nacional Portuguesa.
O acervo de Jennings foi doado à Brown University, nos Estados Unidos. A Brown concentra estudos sobre literatura portuguesa e publica a Revista “Pessoa Plural”. Entre os arquivos, foi encontrado o livro inédito de Pessoa “The Poet of Many Faces”, em inglês.
Soube por Maurício Meireles, FSP, C3, agora em 16 de janeiro. São destacados como “pessoanos” o argentino Patrício Ferrari, o brasileiro Carlos Pittela­Leite, o mexicano Octavio Paz e o italiano Antonio Tabucchi.
Para mim, “A Tabacaria” e o “Livro do Desassossego” são o cume de Pessoa que, exangue, disse, em inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que amanhã trará).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/2016.

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PERDAS SENTIDAS – YOLANDA QUEIROZ, IVENS DIAS BRANCO – Jornal O Estado

A morte, independente da crença, do agnosticismo ou do ateísmo das pessoas é ainda, para não fugir ao lugar comum, mistério. Pensadores, não os mais recentes, debruçaram-se sobre o fim da vida. Cito dois para mostrar o impacto quando alguém está próximo do fim ou quando se disserta sobre a morte.
Sêneca, sempre citado, foi coevo de Cristo. Ele, em “Cartas a Lucílio”, afirma: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”.
Em contraponto, o escritor francês L-F. Céline, morto em 1961, destoa: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento”. Mas faz ressalvas, logo em seguida: “Outras começam a morrer e a se ocupar da morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.
Recentemente, no curto espaço de uma semana, perdemos duas pessoas que viveram até o último momento. Yolanda Vidal Queiroz e Francisco Ivens Sá Dias Branco foram combatentes ao longo de suas vidas.
D. Yolanda, em 1982, perdeu o marido, o empresário Edson Queiroz, de forma abrupta. Abatida, mas não desistente, apegou-se à fé que possuía e, em pouco tempo, com a parceria da família e o seu primogênito Airton José Vidal Queiroz, a lhe dar força e o ombro, tomou jeito e gosto para a sua nova, longa, árdua e vitoriosa caminhada.
D. Yolanda comandava o Grupo Edson Queiroz-GEQ que tem como joia da coroa a Universidade de Fortaleza. Afora a Unifor, a partir do escritório do seu pranteado marido, transformado em relicário, D. Yolanda dirigia um complexo empresarial que se dá ao luxo de ser fechado. Sem espaço para IPO ou abertura de capital. Ela sabia o que acontecia, em âmbito nacional, nas suas áreas tentaculares de comunicação, distribuição de gás, fábrica de eletrodomésticos e forte presença agropecuária.
O GEQ representa hoje a doçura e a tenacidade de D. Yolanda aliada à meticulosa alma profissional e sensibilidade do filho Airton compor o mundo pelas versões multiformes do paisagismo e da arte espraiada na Unifor. A par disso, emergem a energia e as possibilidades da terceira gestão.
Na missa de 7º. Dia de D. Yolanda, a neta Joana falou: “Minha avó sempre foi o centro de nossa família e ainda vamos ter que aprender a viver sem sua referência fisicamente conosco”.
Ivens, desde cedo, foi companheiro de seu pai, o panificador português Manuel Dias Branco, vitorioso no interior do Ceará e de lá para Fortaleza. Já industrial de sucesso, Manuel, com saudade da terra mãe, transfere ao jovem Ivens, em 1953, o comando de uma emergente indústria.
A partir daí, a desenvoltura foi a práxis da M. Dias Branco e da Idibra que, ano após ano, cresciam e mereciam o reconhecimento da sociedade do Ceará e do Brasil. A citação de Ivens entre os bilionários brasileiros na lista anual da revista “Forbes” não é uma contraprestação de favor, mas reconhecimento que se consolidara em pouco mais de 60 anos de sua gestão, sempre espartana.
Para os que não sabem, Ivens era viajor e leitor qualificado, curioso, com olhar de “insider” empresarial ao identificar, implantar e equilibrar em sua balança empresarial atividades distintas, como empreendimentos imobiliários, fábrica de cimento e moinho de trigo, ao seu “core business” de líder nacional na área de massas e biscoitos.
Sempre ligado à família, já na terceira geração, lutou como fazem os fortes surpreendidos por doenças graves. A discrição, o arrojo e a organização eram as suas características basilares, aliadas ao bem fazer aos seus colaboradores acometidos por males do bolso, do corpo ou da alma. Suas empresas, consolidadas, continuam fortes e antenadas sob o olhar capaz do predefinido sucessor, Ivens Jr., coadjuvado pela família.
Ambos, Yolanda e Ivens, profissionalizaram as diversas empresas que compõem os seus distintos grupos. Tiveram o discernimento de, no tempo devido, auscultar familiares, diretores e consultores externos para dar formatação e continuidade aos complexos meandros de suas organizações que compõem a dura vida empresarial brasileira. Filhos e netos cresceram vendo exemplos, a forma mais próxima da verdade de educar e de dar sentido ao que se faz por destino, amor e coragem.
Às famílias Queiroz e Dias Branco, o meu pesar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2016.

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JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS – Jornal O Estado

“O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6.
Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso.
“The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera.
Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”.
A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial.
A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame.
Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.
Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”.
Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016.